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GUERRA, Abilio. Sobre espaço público, final de semana e crianças (editorial). Arquitextos, São Paulo, ano 01, n. 007.00, Vitruvius, dez. 2000 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/01.007/940>.

Estudo para ocupação do Belvedere com uma exposição-brinquedo para as crianças
Desenho da arquiteta Lina Bo Bardi [Lina Bo Bardi, Instituto Lina Bo e Pietro Maria Bardi]


Peço licença ao leitor, diante da proximidade das festas natalinas, para falar um pouco das crianças. Acredito tratar-se de uma questão "menor", mas não na acepção de irrelevante ou sem importância. Ao contrário, apontamos para o qualificativo dado por Gilles Deleuze e Félix Guattari para a obra de Franz Kafka – uma literatura menor. Eles assim a consideravam por conter em si três características essenciais: ser a expressão de uma minoria lingüística através de uma língua maior; nela tudo adquirir um valor político; e, por fim, nela o aspecto coletivo sempre predominar sobre o individual. Para nosso consumo imediato – e abusando da paciência do leitor para lembrá-lo que se trata de uma apropriação metafórica indevida mas "divertida" – tomo a liberdade de considerar a questão da criança na cidade como uma questão menor, com profundo significado político e coletivo.

Para colocar a questão, proponho uma lembrança de um acontecimento – poderia nem ter acontecido, poderia ter sido inventada, que nada mudaria – mas insisto que de fato ocorreu. Estava num domingo ensolarado qualquer andando pelas ruas arborizadas do meu bairro quando um grupo de uns 10 garotos – de variada idades mas todos galgando uma bicicleta – me abordaram para perguntar onde era avenida Paulista. Rapidamente apontei para a direção correta – nem ao menos cheguei a murmurar qualquer palavra – e tudo era tão corriqueiro que já estava me virando para continuar minha caminhada não fosse ter notado nas faces suadas e avermelhadas dos meninos uma alegria incontida. Percebi de instantâneo outros sinais que me passaram até então desapercebidos: as roupas muito simples e um tanto gastas estavam impecavelmente limpas e bem passadas; todos estavam de tênis lustrosos, coloridos, grandes como devem ser os tênis de nossos garotos; as bicicletas era velhas mas brilhavam do banho recente e benvindo. Diante da cena inesperada, minha curiosidade foi alavancada e perguntei aos garotos o que eles iriam fazer na Avenida Paulista. Um deles, o mais educado ou talvez o menos esperto – afinal os outros já davam vigorosas pedaladas para vencer a ladeira em direção ao espigão – me fez a concessão de uma resposta – "ora, tio, viemos do Ipiranga até aqui para conhecer a avenida e minha mãe..." e já não era possível mais entender o que dizia pois sua voz já distante – pois se apressava em se emparelhar aos colegas – fundia-se ao ruído dos poucos automóveis que passavam naquele momento. Até hoje fico pensando o que mãe do garoto poderia ter dito a ele: que era para tomar cuidado com o trânsito? para voltar antes do almoço? que a avenida Paulista era a mais bonita das avenidas da cidade?

Todos nós sabemos da enorme atração que exerce essa avenida sobre os moradores da cidade. Um fascínio que a levou ser escolhida como o monumento urbano mais querido da população em eleição de alguns poucos anos atrás. Mas nem sempre foi assim. Sua origem foi das mais aristocráticas. Projetada com largas ruas e canteiro central pelo engenheiro uruguaio Joaquim Eugênio de Lima, foi de pronto ocupada pelos mansões dos barões do café e pelos novos industriais, casarões imensos ostentando a concentração da riqueza e do poder. Nas décadas seguintes, a avenida vivenciou a paulatina substituição das residências por edifícios do novo poder que se constituía – o poder econômico dos grandes bancos. Com o tempo, porém, a avenida se popularizou com as mesclas de atividades, com o metrô, com as manifestações políticas, esportivas e festivas... Houve uma apropriação física e mental da avenida por parte da população de todos os extratos da sociedade (ao ponto do poder econômico menos comprometido com o destino da cidade resolver fabricar um novo espaço hierático só seu nas bordas do rio Pinheiros). Os poucos espaços públicos existentes além das largas calçadas – o belvedere abaixo do Masp e o Parque do Trianon – tornaram-se cada vez mais freqüentados, tanto nos footing de final de jornada de trabalho como nos finais de semana. Aos poucos os espaços culturais começaram a surgir e se multiplicar, oferecendo exposições, shows, peças de teatro, salas de cinema, bares e restaurantes.

A culminância desse processo, em minha opinião, foi quando as crianças começaram a freqüentar a avenida Paulista nos finais de semana, andando de bicicleta, patins e skates pelos calçadões acompanhadas de seus pais ou de seus avós. Um dos espaços prediletos era a enorme "Praça Paulista" que envolve as duas torres gêmeas da Caixa Econômica Federal e de diversas empresas. Protegidas do trânsito e resguardadas do vai-e-vem mais apressado, a criançada ficava horas deslizando e correndo pela imensa planície desimpedida, com apenas alguns bancos ocupados pelos adultos, um lindo chafariz que surpreendentemente funcionava, alguma pouca vegetação de bom gosto em alguns nichos, um espelho d’água onde poucos namorados se abraçavam... Por não ter um calçamento adequado e por ali acontecer uma absurda feira de antigüidades falsas, a praça-belvedere do Masp nunca foi a preferida da meninada, mas sempre tinha algumas crianças por ali, correndo e se deslumbrando com o vão livre e com a vista maravilhosa. O Parque do Trianon, ao menos nas manhãs do domingo quando provavelmente os freqüentadores mais hard estavam se deliciando com merecido sono, as crianças também podiam se divertir nas alamedas e nos "parquinhos", olhar os animais e admirar a mata vigorosa e fechada.

Não é mais assim. Hoje os calçadões da avenida Paulista – comparáveis em importância urbana aos calçadões de Copacabana – estão deteriorados, com enormes crateras que são riscos constantes à integridade dos pedestres. O belvedere do Masp há anos está depredado pela própria direção do museu que equilibra um discurso de popularização com uma prática de renegar a inevitável dimensão urbana e popular que o projeto de Lina Bo Bardi lhe conferiu. E o espaço predileto da criançada – e dos pais e avós também – a Praça Paulista, foi reformada e fechada!!! As crianças foram proibidas de se divertirem e o requintado projeto de implantação das torres, que previu um generoso espaço de uso coletivo para a cidade, foi totalmente aviltado e hoje não passa de uma caricatura. Restaram as calçadas cada vez mais esburacadas, coalhadas de obstáculos – telefones, postes, lixeiras, floreiras e as abomináveis bancas de jornais, hoje verdadeiras lojas de conveniências estabelecidas sobre solo que deveria servir para as pessoas andarem (e já que estamos falando disso, quem serão os donos dessas minas de dinheiro fácil?...) Será que estamos diante daquela antevisão romântica de que tudo tem um ciclo, tudo passa pelo processo de nascimento, crescimento, apogeu e morte?

Penso que um pouco de empenho coletivo e alguma vontade política pode reverter a situação. Afinal consertar os buracos é barato e cabe ao poder público obrigar às ricas empresas a zelarem pela calçada frontal às propriedades, sob risco de pesadas multas e outras penalidades cabíveis. Adequar a praça-belvedere do Masp ao uso da população e em especial da criança é uma questão que a Prefeitura e a direção do Masp não podem fugir indefinidamente, afinal o compromisso popular e urbano de Lina Bo Bardi um dia terá que se efetivar. Abrir novamente a Praça Paulista à população, colocando abaixo aquelas monstruosas (e fascistas) guaritas poderia ser um belo presente das empresas às crianças da cidade quem sabe para o próximo natal (que até poderiam usar isso como marketing institucional e nós até ficaríamos quietos pois sabemos que ninguém é de ferro...), afinal este último ano da década, do século e do milênio já se foi. Quem sabe se os responsáveis fizerem sua parte, poderemos novamente ver as crianças ocuparem os espaços públicos e coletivos mostrando a nós, adultos, que numa questão menor pode residir uma dimensão política e coletiva vital.

sobre o autor

Abílio Guerra é professor da FAU PUC-Campinas, editor de Arquitextos e ex-editor da Óculum.

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