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architexts ISSN 1809-6298


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ROCHA, Ricardo. De museus e ruínas. Os liames entre o novo e o antigo. Arquitextos, São Paulo, ano 01, n. 008.02, Vitruvius, jan. 2001 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/01.008/927>>.

Em Notre Dame de Paris, Victor Hugo aponta os modismos arquitetônicos, junto ao tempo e as revoluções, como o mais nefasto dos agentes causadores de danos aos remanescentes da arquitetura Gótica. De fato, escreve ele, os modismos foram piores que as revoluções. Eles a insultaram, eles atacaram a arte em sua medula óssea; descaracterizaram, desfiguraram, mutilaram, assassinaram o edifício, tanto como forma quanto como símbolo, em sua lógica não menos que em sua beleza. E eles procuraram renovar – algo de que o tempo e as revoluções não podem ser acusados. E o eminente escritor francês não nos poupa elogios, mutilações, amputações, desmembramentos, restaurações – o bárbaro [sic] "greco-romano" trabalho de acadêmicos seguindo Vitrúvio e Vignola.

Desde há muito, portanto, o tema da renovação, do restauro e das intervenções em prédios ou sítios históricos causa furor e polêmica. Os liames entre o novo e o antigo, em nada fáceis de serem estabelecidos, tem como pólos a intervenção sem caráter – mimetismo e/ ou pastiche – e a ação descaracterizadora – como a enfadonha moda do cubo de vidro atrás de fachada "restaurada". A figura de Lucio Costa, com sua participação ativa tanto na manutenção dos laços com a tradição quanto na afirmação da arquitetura moderna, continua, neste sentido, como referência fundamental.

A primeira frase que aparece nas páginas dedicadas ao Museu das Missões em Registro de um vivência, faz notar que seu projeto é da mesma época do Ministério da Educação (1). A lembrança não parece fortuita. O ano de 1937 assinalaria não só um projeto de futuro, com o início da construção do MES – Ministério da Educação e Saúde, mas também a preservação do passado, com a criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – SPHAN. Ao mesmo tempo em que se edificava a mais contundente manifestação do domínio nativo sobre a técnica e a linguagem da moderna arquitetura internacional, o passado nacional era "reconstruído", a partir de seus próprios elementos, de uma forma e sob um olhar absolutamente novos. E é exatamente esta forma de olhar o passado através do novo no Museu das Missões que se pretende evidenciar aqui.

Concluído em 1940, data do início da construção do Grande Hotel de Ouro Preto – em cuja solução final a contribuição de Lucio, atuando pelo SPHAN, não pode ser desconsiderada - o Museu das Missões, ao contrário de seu polêmico sucessor, é reconhecido como solução pioneira e exemplar de inserção de construção moderna em sítio histórico importante, integrando o novo ao antigo pela implantação estudada, pela reinterpretação inteligente de soluções consagradas e pela sábia escolha e utilização dos materiais. Contudo, a maneira hábil, sutil e inequívoca com a qual a proposta original (2) de Lucio procura relacionar visitante, peças em exposição e ruína ainda não foi abordada.

Como se sabe, em seu relatório sobre os Sete Povos, Lucio, além do museu, havia sugerido também uma edificação para servir de moradia ao zelador. Mas como, nos diz o arquiteto, a casa do zelador precisava ficar no recinto mesmo das ruínas, era natural que ela e museu-pavilhão fossem tratados conjuntamente. A polarização do programa, não obstante, é brilhantemente resolvida: na residência do zelador, a vida pequena e cotidiana é resguardada dos olhos curiosos através de cômodos sob meia água voltando-se para pátio interno, fechado por muros de pedra sem aberturas – excetuando-se as entradas principal e de serviço; ao passo que no museu-pavilhão, alpendre envolvendo quatro paredes paralelas de alvenaria de pedra caiadas conformando, por sua vez, três espaços "transparentes" quando olhados no sentido norte-sul e duas elevações "opacas" a leste e a oeste, sob cobertura de telhas de barro em quatro águas, as peças são expostas ao olhar do visitante como no living room envidraçado da moderna casa burguesa. Ambos, casa do zelador e pavilhão, sendo definidos em planta por retângulos cujos prolongamentos dos eixos longitudinais encontram-se em "L", com o retângulo menor (casa do zelador) deslizando à frente, de tal modo que parte da elevação de seu perímetro encaixa-se sob a linha inferior da cobertura do museu.

Área "íntima" fechada, zona "social" aberta. Pátio interno com reminiscências mediterrâneas e alpendre lembrando sede de fazenda. Mies e Missões. As referências proliferam. A exemplo da casa que Lucio encontrara em São João, o material das ruínas é utilizado na reconstituição das travées do passeio alpendrado que se desenvolvia ao longo das casas do povoado. Pavilhão moderno que se (re)veste de vestígios e se (re)vela pela transparência. Tudo isto é conhecido. Mas e quanto a idéia de ruína viva pela qual se vê através?

Como se pode deduzir pelo croquis feito pelo arquiteto, a implantação do museu em um dos extremos da antiga praça para servir de ponto de referência, e dar uma idéia melhor de suas dimensões, definia o acesso ao sítio – praticamente – pelo eixo da via principal do povoado. Na concepção original a intenção era, portanto, que o visitante percebesse o edifício não como objeto isolado, mas, de maneira semelhante a etimologia do termo pavilhão, como parte relacionada a um todo (edificação) maior. Seria possível então, de uma certa distância, ver o alpendre do museu enquadrando a igreja como ocorria ao se chegar no povoado missioneiro por sua antiga via principal. E, ponto fundamental da proposta, através da transparência do edifício na direção norte-sul – mesma do eixo de acesso – o olhar do visitante projetaria as peças expostas no museu-pavilhão sobre o pano de fundo da ruína, fazendo com que seus vestígios a tornassem tão animada como quando aquela porção de índios se juntava de manhãzinha na igreja. Não mais o clássico vazio entre dois sólidos, e sim a multiplicação do vazio, com o olhar que se projeta no horizonte, buscando algo além. Para Lucio, com efeito, o museu deveria ser um simples abrigo para as peças que, todas de regular tamanho, muito lucrarão vistas assim em contato direto com os demais vestígios.

Logo se vê que esta sutil disposição era algo inalienável da concepção do arquiteto. A foto do prédio reproduzida em sua autobiografia não deixa dúvidas sobre isto. Apesar desta constatação, nunca é demais lembrar que o acesso atual ao local está em completo desacordo com a concepção original (ver texto sobre o Pavilhão Lucio Costa).

O museu, um simples abrigo para as peças, é, assim, uma construção (no duplo sentido material/ intelectual) que organiza o olhar de forma que seja possível ver o passado através do novo, animando a ruína com o deambular do visitante por entre seus vestígios. Em certo sentido, a espacialidade do pavilhão-museu reproduz a "espacialidade" da ruína: nesta, a ausência de cobertura e esquadrias, e a conseqüente diluição dos limites entre interior e exterior, com a exposição de ambos simultaneamente ao olhar, é semelhante ao efeito de transparência naquele.

Nos redimindo perante Victor Hugo, Lucio, ao tomar como ponto de partida para a forma do pavilhão-museu um bloco missioneiro de casas indígenas, retira a parede central de meação que definia a fita dupla de células residenciais rebatidas, numa atitude que lembra a própria ação do tempo ao retirar cobertura e esquadrias da igreja. É como se a espacialidade moderna, o continuum espacial, a abolição dos limites entre exterior e interior, já estivesse presente na "espacialidade" da ruína, e o arquiteto apenas a revelasse. Algo parecido acontece com a intervenção de Paulo Mendes da Rocha na Pinacoteca do Estado de São Paulo, que tira partido do prédio inconcluso, acrescendo clarabóias para iluminação zenital que, ao produzirem uma luz difusa, acentuam o efeito de estratificação e transparência de planos obtido com a retirada das esquadrias internas (3).

No caso do Museu das Missões, entretanto, a intenção era que a igreja de São Miguel, articulada de novo aos restos daquilo que foi simplesmente um prolongamento de seu corpo, recuperasse parte de sua antiga significação.

Como dizia o mestre:

vendo aquelas casas, aquelas igrejas, de surpresa em surpresa, a gente como que se encontra, fica contente, feliz e se lembra das coisas esquecidas, de coisas que a gente nunca soube, mas que estavam lá dentro de nós...

Os argumentos acima desenvolvidos embasam nossa proposta de intervenção no sítio histórico das Missões e que poderá ser lida em outra sessão de Vitruvius, no artigo intitulado "O pavilhão de Lucio Costa. Uma proposta" (4).

notas

1
COSTA, Lucio. "Museu das Missões", in: Lucio Costa: registro de uma vivência. São Paulo: Empresa das Artes, 1995.

2
Além de duas propostas apresentadas por Lucio ao então diretor do SPHAN, Rodrigo Mello Franco de Andrade, das quais uma foi escolhida, foram feitas mais duas variações desta, uma por Lucas Mayerhofer e outra – que foi a construída – por Paulo Thedim Barreto. Entre a proposta original de Lucio aprovada por Rodrigo M. F. de Andrade e o prédio que lá está, a diferença mais significativa diz respeito à localização da casa do zelador: naquela ela estava "à frente" do museu (noroeste); e neste ela se encontra "atrás" (sudoeste). Cf. LUZ, Maturino. "Lucio Costa no Sul: o Museu das Missões", in: Cadernos de Arquitetura Ritter do Reis, vol. 2. Porto Alegre, out. 2000.

3
Ambos locais contam com iluminação zenital e estratificação/ transparência de planos através das aberturas sem esquadrias. Sobre a reforma da Pinacoteca do Estado por Paulo Mendes da Rocha, ver em Vitruvius: GIMENEZ, Luis Espallargas. "Autenticidade e Rudimento. Paulo Mendes da Rocha e as intervenções em edifícios existentes". Arquitextos. Texto Especial n. 001, São Paulo, Portal Vitruvius, jun. 2000 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp001.asp> e MÜLLER, Fábio. "Velha-nova Pinacoteca: de espaço a lugar", Arquitextos, Texto Especial n. 038, São Paulo, Portal Vitruvius, dez. 2000 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp038.asp>.

4
ROCHA, Ricardo. "O pavilhão Lucio Costa. Uma proposta". Minha Cidade, n. 10, São Paulo, Portal Vitruvius, dez. 2000 <www.vitruvius.com.br/minhacidade/mc010/mc010.asp>.

sobre o autor

Ricardo Rocha é arquiteto e urbanista pela UFES (Vitória - ES), mestrando em Arquitetura PROPAR UFRGS e professor do Departamento de Arquitetura da UFSM, Santa Maria RS.

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