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architexts ISSN 1809-6298


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GHIO, Ricardo. O desafio da requalificação. Arquitextos, São Paulo, ano 01, n. 008.03, Vitruvius, jan. 2001 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/01.008/928>.

Roma promoveu nestes últimos anos um amplo programa de requalificação urbana, voltado à tutela das grandes áreas livres que ainda possui, recuperando as periferias, valorizando o seu patrimônio histórico-arqueológico, reestruturando e ampliando a rede de transporte público sobre trilhos.

Enquanto os novos programas urbanísticos – indispensáveis para operar em um quadro maior de certezas, após muitos anos de crescimento desordenado da cidade e tantas vezes ilegal – foram definidos e aprovados, a Administração Municipal empenhou-se em uma ação difusa de requalificação e manutenção urbana que foi iniciada pelos Departamentos Ambiental, Obras Públicas, Tráfico e Território e, através do novo programa "Centopiazze per Roma" promovido diretamente pelo Prefeito.

De fato, o projeto do espaço público e, em geral, a questão da requalificação dos espaços abertos da cidade já são, há um bom tempo, objetos de interesse e de atuação por parte de muitas administrações européias. Desviando-se de um modo dominante mas equivocado de projetar espaços públicos, aquele na qual temos somente a dotação de um novo mobiliário urbano – e que se demonstrou muitas vezes um componente posterior na degradação e não na requalificação urbana – a atenção da cultura arquitetônica se voltou para uma atividade projetual mais atenta dos lugares, procurando elementos de coerência com a paisagem circunstante e com a parte da cidade na qual se intervém.

Em um recente debate sobre o tema da requalificação dos espaços abertos, Guido Canella, recordando o novo Auditorium de Roma, questionava sobre o papel e a utilidade de uma arquitetura que, condicionada pelas exigências da mídia, se conotava fortemente para a espetaculosidade e a especificidade dos lugares, isso em relação a uma arquitetura mais difundida no território e na cidade, e menos engajada em termos comunicativos. "Se trata freqüentemente – sublinhava Canella – de grandes projetos úteis à organização do consenso e à imagem da cidade, mas não são suficientes para restituir à arquitetura aquele papel central em relação à sociedade, capaz de romper uma barreira que, ao contrário, isola essa mesma arquitetura".

Justamente para evitar esse risco, a Administração Municipal de Roma procurou atuar paralelamente em vários fronts: iniciou algumas grandes obras, inegavelmente necessárias e que já eram esperadas há muito tempo, e promoveu uma ação difundida de requalificação urbana, onde a arquitetura não deve enfrentar os "não lugares" mas, sim, lugares específicos, nas quais já se encontram certos estratos urbanos assentados, e sob um programa que pode ser amplamente discutido, junto aos cidadãos, até um possível consenso.

O programa "Centopiazze" nasceu também para esse objetivo, contribuindo justamente para recriar – mesmo se com um objetivo limitado – uma agregação de interesses, uma maior possibilidade de enraizamento nos próprios lugares implementados, reclamando um novo interesse pelo espaço coletivo que, hoje, parece completamente perdido.

Conceber um programa de requalificação urbana para uma cidade como Roma requer, antes de tudo, um conhecimento das diversidades dos lugares: as várias partes urbanas, às vezes densas, outras mais rarefeitas, aquelas centrais e outras periféricas, não permitem imaginar um programa unitário; é viável, e assim foi feito, procurar regras e critérios básicos mas, também, é necessário afrontar os lugares que requerem intervenções sabendo, particularmente, interpretá-los. Em alguns casos, por exemplo na cidade histórica, se trata de uma intervenção que respeita esses mesmos lugares, avaliando as sedimentações e as estratificações da história; em outros casos, nas várias e diversas periferias, se trata de redescobrir e valorizar os melhores componentes encontrados, componentes às vezes paisagísticos (a praça/parque de Fidene), outras vezes uma edificação antiga – por exemplo um aqueduto (largo Pettazzoni al Quadraro) – outras vezes ainda uma certa qualidade esquecida de uma arquitetura menor, sóbria mas coerente (Piazza Piaggio no Villaggio Breda).

A cidade consolidada oferece, por sua vez, oferece também cenários muito diversos: grandes praças de periferia circundadas por fachadas edilícias compactas e de baixa qualidade (Piazza Balsamo Crivelli no Tiburtino, ou o Viale Vicopisano na Magliana), mas também lugares de grande qualidade arquitetônica (Piazza Sauli na Garbatella ou a Piazza del Quarticciolo no bairro homônimo).

Em relação ao tema geral da requalificação do serviço público, "Centopiazze", por sua vez, teve que operar em aspectos e níveis diversos:

– iniciou em primeiro lugar uma atividade de caráter cognitivo, através de uma sondagem ampla do território e das atividades programadas pelos Departamentos e pelas Seções dos serviços públicos que atuam no território, e assim compor um primeiro quadro de intervenções com características de viabilização imediata;

– envolver as circunscrições regionais e os cidadãos, chamados para assinalar os lugares de maior degrado no seu relativo território e, assim, convocando-os à uma participação;

– iniciar, súbito, uma atividade projetual junto com as primeiras realizações que possam garantir uma demonstração da operatividade do programa, deixando para a sucessiva experiência, no campo concreto, as definições exatas em relação aos procedimentos técnicos e administrativos que constituem a complexidade da intervenção, da requalificação e, sobretudo, da gestão de tais lugares.

A escolha das formas de financiamento foi um outro momento central para o início do programa.

Se decidiu pela escolha de diversos e possíveis canais de financiamento: os resíduos passivos do Departamento de Obras Públicas, os recursos obtidos na realização de estacionamentos privados pertinentes, os patrocínios, os fundos recuperados no combate à corrupção.

Um programa sério de intervenções para a requalificação dos lugares coletivos não poderia deixar de contar com um raciocínio mais competente e com as experiências mais acreditadas no tema do espaço público urbano: era indispensável compor um quadro com critérios e soluções exemplares, preparar um álbum de exemplos, apurar as qualidades dos projetos.

Dentro desses objetivos foi construída a segunda fase do programa "Centopiazze", na qual se desenvolveu a estrutura geral do projeto. E foram quatro os eixos básicos: estabelecimento rigoroso dos projetos realizados pelo departamento municipal constituído para esse ocasião, Ufficio Centopiazze; adoção de uma metodologia de comunicação sistemática com as circunscrições regionais e com as comissões de bairro, assim como uma ampla divulgação dos projetos através da revista «Centopiazze», e de um programa dedicado ao Televídeo; abertura ao confronto e à colaboração com a Universidade, para a redação de um "Manuale dei Luoghi del Collettivo Urbano", com o Departamento de Arquitetura e Análise da Cidade, e para a redação do "Manuale dell’Arredo Urbano", com o Departamento de renovação Tecnológica e Ambiental; por fim, a promoção de um concurso público de projetos para dezenove diversas situações urbanas.

O concurso para as Praças dos Bairros, concluído com quatorze projetos premiados e muitas menções, se transformou em um terreno de experimentação sobre a potencialidade e a possibilidade do espaço público romano.

Os lugares examinados, representativos dos diversos tipos de serviços urbanos, de funções e de características diversas (praças do centro histórico, da cidade consolidada, da periferia, praça/parque, praça/mercado, praça com novos terminais) se tornaram um momento de avaliação para uma pesquisa de uma nova qualidade urbana do espaço coletivo e para o uso de novos materiais.

O concurso favoreceu o destaque de uma nova geração de arquitetos, operantes há algum tempo, com uma pluralidade de abordagens, e dentro de várias linguagens da arquitetura contemporânea: nos projetos apresentados se pode ler uma positiva relação entre linguagens de matriz européia e pesquisas expressivas mais típicas da "scuola romana".

Na ocasião do concurso, a administração municipal destinou ao programa "Centopiazze’ um amplo financiamento – aproximadamente 23 milhões de dólares – permitindo aos projetistas vencedores e aos primeiros doze entre os mencionados iniciar a realização dos projetos executivos.

A vontade precisa da administração em realizar o maior número possível dessas obras – algo que na Itália, infelizmente, é algo incomum – permitirá o indispensável confronto entre o projeto e a realização; já é possível fazer um primeiro balanço: até hoje já foram completados mais de vinte intervenções, outros quinze estão em fase de realização, e, logo, mais de vinte praças terão em breve os seus canteiros abertos, enquanto que um pouco menos de trinta projetos executivos estão em fase de aprovação.

A experiência da redação dos projetos merece uma série de considerações ulteriores; como é voltada para especialistas, os novos projetos públicos devem vincular-se precisamente às recentes leis das obras públicas, uma situação para o projetista mais complexa do que no passado.

Hoje é justamente necessário determinar precisamente o custo total de uma obra, e tanto o projetista quanto a administração pública são colocados sob uma maior responsabilidade do que no passado; mas à essas maiores responsabilidades temos em correspondência, pelo menos hoje, uma série de vazios legislativos que permitem incertezas técnicas, por parte dos responsáveis e, no final, podem incidir tanto nos pareceres que os departamentos devem entregar quanto no trabalho dos projetistas.

Muita energia do "Centopiazze" foram gastas para isso: esclarecer os procedimentos técnicos e administrativos, iniciar desapropriações de partes da cidade (que eram aparentemente públicas desde sempre, mas em realidade nunca adquiridas pelo Município) e definir com as agências dos serviços públicos certos programas de intervenção, comuns e coerentes. Grande parte do trabalho está justamente aqui: é aquele menos visível, mas mais longo e mais fadigoso.

Paralelamente, no concurso para as "praças de bairros" foram redigidos, dentro dos departamentos da administração, os primeiros projetos-piloto que hoje já estão prontos: Piazza Campanna Murata, Piazza Gasparri, Piazza San Lorenzo in Lucina, Piazza Capelvenere, largo Teofrasto, Piazza degli Eroi, a nova Piazza di Pietralata, largo Canella, Piazza del Quarticciolo, a praça em Via Tenuta di Torrenova, e outras intervenções ainda, que, além de concluídas, permitiram verificar a notável qualidade projetual expressa pelos técnicos que trabalham no interior da administração pública. É também importante o trabalho desenvolvido pela Universidade nos posteriores projetos guia, nos manuais as pesquisas especiais sobre as tipologias dos espaços/praças dos bairros de edilícia pública e dos núcleos abusivos.

Entre as novidades "romanas", destaca-se que as ações de requalificação dos espaços públicos foram promovidas paralelamente à redefinição das estratégias gerais: as praças que são realizadas, no centro histórico mas, sobretudo, na periferia, às vezes se limitam a requalificar um lugar degradado, e freqüentemente antecipam uma ação de requalificação mais ampla e mais complexa, exigindo tempos mais longos para a sua completa execução.

Nos últimos meses foi concluído o concurso, por convites, para a requalificação da praça da Farnesina. A história do lugar e do seu caráter "monumental", e que sempre foi tema de projetos para muitos arquitetos e escultores notórios, induziu a administração pelo concurso fechado, convidando a seis projetistas muito reconhecidos.

Esse concurso, vencido por Umberto Riva, propõe uma reflexão sobre um tema muito específico mas de grande interesse para Roma: uma intervenção em um lugar da arquitetura moderna, o Foro Itálico, e, em particular, na área do Ministério do Exterior – a ex "Casa Littoria" projetada por Arnaldo Foschini, Enrico Del Debbio e Vittorio Morpurgo – completada em 1958 mas sem o pórtico previsto pelo projeto original.

O texto do concurso pedia aos projetistas para repensar a relação entre o complexo esportivo desejado por Renato Ricci e o edifício da Farnesina mas, também, procurar a coerência – nos limites do possível – dentro do sistema colina/edifício/rio.

O projeto de Umberto Riva responde bem, seja ao tema do concurso específico, seja à filosofia geral que o programa "Centopiazze" propõe: a atual e grande avenida do Ministério do Exterior é reduzido através da construção de dois blocos verdes, duas fileiras de árvores densas que reivindicam, explicitamente, as intervenções "mediterrâneas" de Marcello Piacentini e Raffaele De Vico, um canteiro central realizado com travertino, fragmentado e completado com uma série de grandes postes de iluminação, um resultado a favor de um espaço "semi-pedestre" que se distancia da fachada da Farnesina. Dois pequenos quiosques, revestidos com pedra, completam o passeio público arborizado.

O espaço da praça é reproposto através de outros blocos arbóreos, segmentados e "atenuados", com uma simples mas elegante solução na qual a esfera de bronze de Arnaldo Pomodoro, perdendo o seu pedestal, parece que sairá rolando.

Roma, cidade eterna, lugar de excelência da arquitetura na antigüidade e "maestra" do espaço urbano no Renacimento, lugar de projetos urbanos coerentes nos Oitocentos e, até os anos Trinta, está procurando redescobrir a estrada justa para reencontrar a dignidade e o decoro urbano perdidos há tanto tempo.

nota

1
Este artigo foi publicado originalmente em Capitolum, I, nº 1, 1997. Leia também em Arquitextos a série de artigos sobre as Praças Italianas, com editoria de Marcos Tognon:

AYMONINO, Aldo. "Praça para o bairro Decina em Roma". Arquitextos 004, Texto 004.03. São Paulo, Portal Vitruvius, set. 2000 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq004/arq004_03.asp>.

ROTA, Italo; BALDASSARI, Alessandro; VIVIANI, Susanna; CINACCHI, Paolo. "Empoli. Mobiliário urbano para o centro histórico". Arquitextos 005, Texto 005.03. São Paulo, Portal Vitruvius, out. 2000 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq005/arq005_03.asp>.

ZAGARI, Franco. "Restauro da Piazza Montecitorio". Arquitextos 006, Texto 006.03. São Paulo, Portal Vitruvius, nov. 2000 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq006/arq006_03.asp>.

LETO, Maria Raffaella. "Piazza Aldo Moro". Arquitextos, Texto Especial n. 042. São Paulo, Portal Vitruvius, jan. 2001 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp042.asp>.

sobre o autor

Riccardo Ghio é coordenador dos projetos do Ufficio Centopiazze, Prefeitura de Roma.

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