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architexts ISSN 1809-6298


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GONSALES, Célia Helena Castro. Residência e cidade. Arquiteto Rino Levi. Arquitextos, São Paulo, ano 01, n. 008.14, Vitruvius, jan. 2001 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/01.008/939>.

A concretização do projeto moderno em arquitetura levava em si uma idéia de cidade moderna. Totalmente planificada, esta cidade tinha na organização funcional e na implantação de blocos isolados sobre "infinitos" espaços públicos suas características mais emblemáticas. Na ausência deste sonhado espaço urbano, o arquiteto deveria tomar um posicionamento em relação ao contexto existente, que sendo mais ou menos tradicional, sempre trazia consigo as "marcas" da velha urbe: a rua, o quarteirão e o lote. Frente a essa situação, o afastamento das edificações das divisas do lote, configurando, sempre que possível, objetos isolados, constituiu-se na maneira mais utilizada para compor uma paisagem urbana que de alguma maneira trouxesse a presença daquela idéia de cidade.

A arquitetura de Rino Levi, essencialmente no que diz respeito às residências unifamiliares dos anos quarenta e cinqüenta, apresenta peculiaridades em relação a essa postura. A partir do projeto de sua casa em 1944 (Fig. 1 e 2), adota uma proposta de moradia urbana que, aplicada em praticamente todos os projetos residenciais seguintes, dará corpo a uma pesquisa sistemática sobre a relação da moradia com a cidade.

Localizadas, em sua maioria, nos Jardins, bairros residenciais arborizados e com grandes lotes destinados à classe média-alta paulistana, recebem um tratamento oposto, apesar da ampla liberdade de composição, ao das incentivadas casas compactas isoladas em meio a jardins zelosamente cuidados. A construção, térrea, estendida em direção aos limites externos permitidos pela legislação, ativa todo o terreno através de alas funcionais que se debruçam sobre pátios. Transformando os jardins frontais decorrentes dos recuos obrigatórios em espaço público, Levi adota uma composição onde o volume, ao não ser apreendido em sua totalidade, «vira superfície» e acentua as características espaciais da rua.

Essa arquitetura não se apresenta como reivindicação de uma moderna cidade, como protesto contra as categorias tradicionais. Promove sim, uma vinculação às circunstâncias específicas e essenciais desse "pedaço de cidade" - a presença de quarteirão, ruas e lotes - apesar do traçado muitas vezes diferenciado como o dos bairros-jardim.

No âmbito dessas estratégias compositivas que determinam uma postura ideológica em relação à cidade e considerando a particularidade da formação profissional do arquiteto – na Itália dos anos 20 -, a alusão à cultura arquitetônica mediterrânea enraizada no uso do pátio interior parece-nos inevitável.

O processo de delimitação de um perímetro exterior diretamente conectado à forma do lote, determinando um corpo que logo é "escavado" para conformar pátios que proverão de luz e ar os compartimentos, constitui uma aproximação evidente entre os projetos de Rino Levi e a composição típica da casa-pátio (Fig. 3 e 4). No entanto, o estudo desse tema requer uma verificação mais detalhada do "tipo" original.

O paradoxo inicial que envolve a indicação de uma tipologia tão tradicional na obra de um arquiteto evidentemente tão moderno será minimizada se considerarmos a utilização do tipo em um sentido amplo. Em um importante texto dos anos setenta (1), Rafael Moneo detalha as possibilidades da utilização deste recurso. O arquiteto, diz, "inicialmente é abordado pelo tipo" mas depois "pode agir sobre ele: pode destruí-lo, transformá-lo, respeitá-lo", resultando em uma metodologia "que implica a idéia de mudança e transformação" constituindo-se finalmente o tipo em uma "trama – ou estrutura formal – dentro da qual as transformações são operadas".

Nos projetos de Levi, as diferenças qualitativas dos lotes levam à adoção de dois partidos básicos: em lote amplo – onde a largura assemelha-se à profundidade –, o partido em T é o empregado (Fig. 5); em lote compacto – com a largura menor que a profundidade –, é utilizado o partido retangular (Fig. 6).

O partido em T é composto de três alas que na posição recorrentemente utilizada – a zona diurna localizada no corpo linear paralelo à rua e a zona noturna na ala perpendicular a esse corpo na parte posterior – conforma dois pátios internos, um acolhendo a parte social e o outro privativo dos dormitórios.

No partido retangular utilizado em lotes mais compactos situados em meio de quadra, o perímetro resulta da subtração das faixas de terreno decorrentes da obrigação de recuos em todas as orientações (2). A organização funcional e a qualificação dos espaços podem decorrer tanto da conformação de pátios centrais como do aproveitamento dos recuos para extensão dos compartimentos internos. As alas dos dormitórios e do estar estão, quase sempre, em faixas paralelas à via pública.

Nesses partidos poderia ser identificada uma mesma «estrutura formal» que sofre transformações através da dialética entre o processo de escavação de um corpo compacto e a fragmentação desse corpo em diversas alas (fig. 7). Essas alas diferenciadas para cada zona da residência são reorganizados para responder de maneira adequada tanto a solicitações referentes a contingências físicas quanto aos requerimentos modernos - como o zoneamento de funções, a procura de orientação solar adequada, a ventilação cruzada, etc.

Uma análise comparativa entre o conceito-tipo e os projetos de Rino Levi pode ser assim estabelecida:

Tipo ideal ou genérico

 


Rino Levi 

Adaptação do tipo ideal ou genérico a uma realidade concreta

princípios normativos
regularidade geométrica
 

 

ortogonalidadeuniformidade bidirecional

estrutura formal
elementos: massa/fechado e vazio/aberto
(ambos como entidades definidas)

o tipo genérico estabelece a relação entre massa construída e vazio: massa que contém o vaziovazio: condição de centralidade

ß

considerações na aplicação prática:a. contém seu próprio espaço, o espaço necessário para a satisfação de necessidades pragmáticab. possibilidade de expansão sobre ambos os eixos

ß

estabelece aspectos qualitativos essenciaisa. introspecção

b. possibilidade de adequação/acomodação ao lote urbano tradicionalc. definição do desenho urbano

princípios normativos
mantém os aspectos básicos:
 

 

regularidade geométricaortogonalidade

A relação entre os elementos da estrutura formal, por vezes, é parcialmente modificada:

o vazio não está totalmente contido pela massa; o vazio não mantém sua condição integral de centralidade.
Mas ambos, massa construída e vazio, se mantém como entidades definidas.

ß

contém seu próprio espaço, o espaço necessário para a satisfação de necessidades pragmáticas (e existenciais)

 

 

 

 

ß

mantém suas qualidades essenciais:
a. introspecção

b. possibilidade de adequação/acomodação ao lote urbano tradicionalc. definição parcial do desenho urbano

Assim, a manutenção da estrutura formal ou conceito permite aliar a satisfação das necessidades pragmáticas e ideológicas de privacidade, acomodação, ao cumprimento das «exigências» do espírito moderno de abertura e ruptura de limites entre interior e exterior, mas também de regularidade e disciplina.

Por outro lado, a referência ao "tipo histórico" – o modelo átrio-peristilo, por exemplo - acrescenta à base formal genérica, normativa e controladora dos aspectos circunstanciais de cada projeto, a multiaxialidade, as perspectivas amplas, o recorrido seqüencial e a maleabilidade em termos de organização e adaptação. A complexidade de eixos na composição dos acessos, as circulações que desenham recorridos ao redor do cortile-peristilo, a continuidade espacial entre o pátio e os principais compartimentos, a ambigüidade de certos espaços - como no átrio na casa mediterrânea - em relação à qualidade aberto/fechado, decorrentes do uso de pérgolas, a presença da luz zenital como qualificadora dos diferentes espaços deixando alguns deles em penumbra, seriam algumas das atitudes complementares presentes nos projetos de Rino Levi e que estão relacionadas à casa-pátio (Fig. 8).

Assim, a partir de um tipo essencialmente gerador de forma urbana, Rino Levi concretiza uma idéia de relação casa-cidade. Uma idéia desenvolvida com base em conceitos que de alguma maneira "justificariam" a utilização, por parte de um arquiteto moderno, de um precedente que, além de tradicional, é alheio à cultura brasileira. Uma idéia cuja gênese pode ser identificada em seus primeiros contatos com o conhecimento arquitetônico.

Na Scuola Superiore di Architettura di Roma – onde Rino estuda de 1924 até 1926, ano em recebe seu diploma de graduação – uma das principais novidades era a disciplina Edilizia Citadina, ministrada por Marcelo Piacentini e que estudava as especificidades do projeto urbanístico. Os conceitos desenvolvidos por esse arquiteto incorporavam o urbanismo de inspiração sittesca através do estudo da arquitetura vernacular e da composição pitoresca. Sua declaração de 1928 referente à apresentação na cidade de "duas arquiteturas, uma com roupa íntima e a outra com traje de gala" (3) tinha a sua base fundamental na idéia de recuperação do tecido urbano e na distinção entre tecido e monumento, cuja essência já havia sido detalhada vários anos antes. Em 1921 (4) Piacentini defendera a importância de um estudo – e concepção - global da cidade, considerando a importância fundamental da "arquitetura menor", constituída pelas construções alinhadas nas ruas que ressaltam, pelo contraste, a beleza dos monumentos.

Os princípios arquitetônicos e urbanos estudados por Piacentini eram um elo a mais da larga corrente de discussão sobre conceitos englobados no termo decorum, utilizado por Vitruvio no seu tratado De Architectura. O decorum, segundo Vitruvio, consistia na adequação do edifício, ou em última instância, das regras da arquitetura, às particularidades dos lugares, dos costumes ou dos seus ocupantes (5). O termo era o equivalente ao Prepon grego, que estava vinculado à categoria ética de fazer as coisas com propriedade.

Esse conceito, resgatado no Renascimento e considerado em toda a tradição clássica adquire, sob o termo convenance e no âmbito dos questionamentos da beleza como princípio absoluto defendidas por Perrault, destaque fundamental no século XVII.

No século XIX, Quatremère de Quincy, evocando largamente o termo "caráter", considera a "propriedade" e "conveniência" da diferenciação entre a simples moradia e os monumentos citadinos, entre o privado e o público (6) e Camilo Sitte, poucos anos antes do término do século, declara a necessidade de alguns elementos da cidade serem apresentados com "roupas de trabalho" e outros com "trajes domingueiros" (7).

Nesses conceitos que tratam de adequação ao lugar, e neste caso ao lugar urbano – nos seus dois sentidos, de acomodação e adequação ética ou atuação com propriedade e decoro - podemos encontrar as raízes da arquitetura de Rino Levi.

No espaço restrito do lote, resgatando em parte a idéia de Sitte de conformação de um espaço público "coeso e de efeito calculado" - não se valerá do procedimento que, como já havia chamado a atenção o próprio arquiteto, determina "uma caricatura de palácio comprimido num terreno exíguo" (8). Nos projetos residenciais o arquiteto somente utilizará a idéia do moderno objeto isento, em grandes áreas fora do perímetro urbano que se assemelhem ao espaço ilimitado do urbanismo moderno e onde a edificação pode, então, mostrar-se isolada, "pura" (Fig. 9). Na casa não-monumento de Levi, acomodada à forma do lote, a fachada, que não exerce qualquer função representativa e é tratada como pano de fundo neutro, cumprindo apenas a função pragmática de acesso, vedação, iluminação, ventilação, enfatiza o caráter doméstico próprio da arquitetura configuradora de tecido da cidade (fig 10).

O Movimento Moderno traz em sua gênese a representação da essência do "espírito da época". O lado ordenado e unitário dos novos tempos deveria ser o tema básico de toda arquitetura dita moderna. No entanto, a partir dos anos trinta, o conteúdo a ser representado já não é a nova época percebida com a unidade e redutivismo das décadas anteriores, mas uma modernidade dotada de crescente complexidade onde tanto aspectos contingentes quanto o resgate de modelos históricos são tomados como meios de ampliação de seus limites.

Por outro lado, o espaço doméstico, tema central das pesquisas da arquitetura moderna, sempre será o grande território de experimentações para os arquitetos. Rino Levi, em um contexto brasileiro de importantes concretizações, fará desse tema, essencialmente a partir dos anos quarenta, sua contribuição mais peculiar. Resgata da cidade tradicional a noção de decoro e viabiliza sua aplicação através da adoção dos conceitos básicos do tipo casa-pátio na residência unifamiliar. A versatilidade desse tipo permite conciliar a tradição da residência que gera forma urbana com as necessidades modernas de abertura, expansão, integração interior-exterior e essencialmente de ordem. Rino nos mostra os diversos matizes e "adaptações" que a arquitetura desse período podia assumir sem deixar de manter identificável, em sua base e estrutura, os preceitos modernos.

notas

1
MONEO, Rafael. On Tipology. Opositions, Cambridge, Mass., n.13, p. 22-45, 1978.

2
Fato declarado pelo próprio Rino Levi nos memoriais das residências Paulo Hess e Castor Delgado. Residência Paulo Hess: "A casa inscreve-se exatamente nos limites fixados pelos recuos exigidos por lei."; Residência Castor Delgado: "os recuos exigidos por lei, tanto na frente do terreno, como nos lados e nos fundos, determinaram, praticamente, o perímetro da casa", v. memoriais Arquivo Escritório Rino Levi, São Paulo.

3
Reeditado em PATETTA - L’Architettura in Italia, p. 161, citado em SCHUMACHER, Thomas L. - Surface and Simbol: Giuseppe Terragni and the architecture of italian rationalism. New York, Princeton Architectural Press, 1991, p. 30.

4
PIACENTINI, M. - Il momento architettonico all’estero. Architettura ed arti decorativi, ano I, fasc. 1, p. 32-76, maio/junho de 1921, citado em ANELLI, Renato Luiz Sobral - Arquitetura e cidade na obra de Rino Levi. Tese de Doutorado, Universidade de São Paulo, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, 1995, p. 46

5
VITRUVIO, M. L. - Los diez libros de arquitectura. In: De Architectura. Barcelona, Nunez, 1955, p. 14.

6
QUINCY, Antoine-Chrystome Quatremère de – De l’imitation, 1823. Bruxelles, AAM, 1980, p. 35.

7
V. SITTE, Camillo - A construção das cidades segundo seus princípios artísticos. São Paulo, Ática, 1992 , p. 101.

8
LEVI, Rino - "Mudam os tempos". In: Arquitetura 42, dez. 1965, p. 9, publicado originalmente em set/out 1948 na revista Artes Plásticas de São Paulo.

sobre o autor

Célia Helena Castro Gonsales é arquiteta, Doutora pela Escuela Técnica Superior de Arquitectura de Barcelona, com a tese "Racionalidade e contingência na arquitetura de Rino Levi". Atualmente professora da Universidade Católica de Pelotas e Professora convidada do Propar – Programa de pesquisa e pos-graduação da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

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