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architexts ISSN 1809-6298


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PODESTÁ, Sylvio Emrich de. Da série "A" de Cassino ao Museu de Arte da Pampulha. De Juscelino a Priscila/Nemmer. Arquitextos, São Paulo, ano 01, n. 009.01, Vitruvius, fev. 2001 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/01.009/915>.

Em 16 de maio de 1943 era inaugurado o complexo turístico às margens da Lagoa da Pampulha, formado pelo Casino, Igreja de São Francisco de Assis, Casa do Baile e Iate Clube, coma a presença do Presidente Getúlio Vargas, o governador de Minas Benedito Valadares, o então prefeito da capital Juscelino Kubistschek e, muito provavelmente e ali num cantinho o comunista – proibido em 1946 de dar aula em Yale pelo Departamento de Estado Norte-americano – Oscar Ribeiro de Almeida de Niemeyer Soares, nascido nas Laranjeiras, Rio em 15 de dezembro de 1907.

Depois de uma briga com Ernesto Souza Campos, com quem trabalhou num projeto para a Cidade Universitária, é apresentado a Gustavo Capanema – alguns dizem por Benedito Valadares – a JK.

Começa aí a epopéia da dupla que vai da Pampulha a Brasília, construindo juntos várias polêmicas e fantásticas obras.

Na Pampulha, experimentou curvas horizontais na Casa do Baile, sinuosas como as margens da lagoa; curvas parabólicas verticais e em sequência como na Igreja; curvas e asas de borboletas no Iate que como navio ou barco tentava adentrar pelo lago afora e, numa mistura de racionalismo e gesto, projeta o Cassino da Pampulha, obra máxima, a meu ver, pois não traz como quase todas as outras, os conceitos que a datam como de época.

Como cassino, era um requinte só. Mesas de jogos nos salões do térreo com vista para a lagoa, um mezanino, uma sala multimeio com cadeiras individuais que poderiam se agrupar conforma as atividades que ali aconteciam, uma pista de dança toda em vidro e iluminada, com uma acústica que até hoje surpreende.

Tudo isto, diz a história, foi feito numa noite. Depois a idéia cresceu, num programa mais complexo com a criação do lago artificial, do clube náutico, de uma maison de fètes ou Casa do Baile, um hotel que não passou das fundações e de uma igrejinha.

É mais uma vez diante de um sítio "devassado" e "com o cuidado de obedecer antes de tudo à urgência de uma caudalosa inspiração fantástica que lhe permite originais e heréticas soluções (sonho; poesia; liberdade plástica) na distribuição e na modelação dos espaços..." (A Arquitetura de Oscar Niemeyer, de Lionello Puppi, Editora Revan, Rio, 1986) conta pela primeira vez com a mágica poética de Joaquim Cardozo e, como sempre diz em seus discursos, com a colaboração imprescindível de artistas que tão bem se mesclaram às suas idéias e deram aos seus planos e entornos inserções fundamentais: jardins de Burle Marx com que tempos depois se desentende por posições relativas ao aterro do Flamengo – briga de artistas; o nu feminino de August Zamoiski – ai meu Deus como deve ter sofrido a sociedade mineira com aquela peladona bem em frente ao seu Cassino e mais, não em proporções clássicas, certinhas, mas leve e ao mesmo tempo pesadona, numa posição deliciosamente feminina e com um olhar voltado para seus grandes pés; além de Alfredo Creschiatti com uma escultura registrando um abraço lascivo e homossexual, belíssima e tesuda.

"Sua concepção foi influenciada pelos princípios fundamentalistas de Le Corbusier, especialmente a composição da fachada, mas seu interior interpreta de forma criativa os elementos essenciais do barroco mineiro, através de composição de espaços livres e cenográficos, do uso de perspectivas ilusórias nas paredes espelhadas e do jogo sensível de curvas e rampas" (folder do MAP/Prefeitura de Belo Horizonte, distribuído no local) e nada melhor para mostrar este ilusório do que o convite para a abertura do 24º Salão Nacional de Arte de 1993, na bela foto de Juninho Motta.

Uai! Salão de Arte no Cassino?

Pois é. Tudo foi feito em nove meses, "o tempo de gestação de uma vida humana" (Niemeyer, 1976/77) e logo depois, em 30 de abril de 1946, um certo Gaspar Dutra proíbe o jogo em todo território nacional e fecha todos os cassinos. Na sequência, fecham também cidades que viviam em torno da expectativa dos lucros dos jogos, cassinos que nunca funcionaram e, o da Pampulha, vira depósito.

Em 1957 o Cassino tranveste-se de Museu, Museu de Arte, referência cultural no Estado. Durante anos convoca os artistas nacionais e internacionais para o seu acervo e, mais tarde, junto com o sonho dourado da Pampulha, cai em franca decadência, sem verbas para manutenção do prédio e do acervo formado por trabalhos de artistas como Guignard, Ianelli, Di Cavalcanti, Manabu Mabe, Franz Weissman, Ivan Serpa, Maurino, GTO, Tomie Othake, Benjamim e, se não me engano, Roberto Vieira, Poteiro, Chanina, Lotus Lobo e muitos outros.

Mas para virar Museu mesmo precisava consertar estes desacertos, arrumar capital para reformas e manutenção e num convênio firmado entre Prefeitura de BH, Fundação Roberto Marinho (que não fez mais do que obrigação, pois o dinheiro é nosso) e o Banco Real (que não fez mais do que obrigação, pois o lucro vem do nosso bolso), permitiu uma primeira e concreta investida na "revitalização e adequação de seus espaços", como diz o folder citado, que diz ainda: "o projeto teve como objetivo o resgate e valorização do prédio e inclui reformas de infra-estrutura, rede elétrica e hidráulica, reorganização museológica, maior divulgação das atividades permanentes, estreitamento do intercâmbio com a comunidade e a criação de uma Associação de Amigos do Museu, que tem como uma das suas funções a captação de recursos e obtenção de doações de obras de arte para a Instituição". Perfeito, só faltou a ajuda destas grandes construtoras da cidade que andam ganhando um dinheirão danado com estes nossos solos urbanos e, que bem podiam, por exemplo, publicar um super livro sobre o Museu como obra arquitetônica e seu acervo. Isto desconta uma barbaridade nos impostos a pagar!

Mas foi Priscila Freire, que alguns diziam ser "a dona do Museu", não dizem mais, acredito, foi ela não de todo sozinha, que lutou para que "seu" Museu voltasse a ter a integridade que sempre mereceu. Conseguiu e a estrutura está montada para que tenha vida perene, eterna.

Voltando no tempo, "em 1960, numa grande festa pública no canteiro de obras de Brasília, JK confere a Oscar Niemeyer a ‘Medalha do Trabalho’. E o arquiteto comenta: ‘Trabalhamos muito. Não nos faltou entusiasmo e correção’. Brasília se inaugura e Oscar Niemeyer assiste de longe os festejos. Sua colaboração estava ali diante de todos e isso bastava". (Oscar Niemeyer, Editora Almed, São Paulo, 1985). Não falei que ele ficava ao longe!

E foi com um bando de meninos, de todas as idades, que um dia fomos visitar o MAP, novinho e reinaugurado com uma bela exposição de Guignard (em seguida Camile Claudet, Dali e Picasso, Iole). Depois, um chope no Redondo, bar situado do outro lado da Lagoa e de onde – sem os grandes ficus cortados na reforma para valorização do prédio, e que ninguém reclamou – se tem a melhor vista, sugeri a todos que desenhassem o Museu e o resultado, registrado nestes desenhos sobre guardanapos de papel me dá toda a certeza que este projeto começou num desenho de guardanapo, num porre.

sobre o autor

Sylvio Emrich de Podestá, engenheiro arquiteto pela escola de arquitetura da UFMG, foi editor das revistas Vão Livre e Pampulha. Atualmente é sócio-presidente da AP Cultural, editora especializada em publicações de arquitetura, design e interiores, e sócio-diretor do escritório Sylvio E. de Podestá Arquitetura Associados Ltda

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