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architexts ISSN 1809-6298


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BARBOSA, Ane Mae. O Brasil em Valência. Arquitextos, São Paulo, ano 01, n. 012.04, Vitruvius, maio 2001 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/01.012/890>.

Terminou em janeiro de 2001 a muito bem sucedida exposição Brasil 1920-1950: da Antropofagia a Brasília, no IVAM Centro Julio González, em Valência.

Foram três meses de sucesso de público e de imprensa, com reportagem de página inteira no jornal El Pais. Tudo isto sem verbas milionárias de comissões comemorativas dos 500 anos da "descoberta" do Brasil, sem qualquer associação com aquelas celebrações politicamente desconcertantes, sem verbas de governos brasileiros e principalmente sem ter sido necessário passar pela chancela da Bienal que detém o poder ditatorial de escolher todos os artistas e curadores de exposições do Brasil no exterior quando há verbas nacionais envolvidas. A exposição foi integralmente paga pelo Instituto Valenciano de Arte Moderna (IVAM) e foi uma das maiores e mais complexas por eles financiada. Foi a mega exposição do ano 2000 da instituição.

O convite para projetar a exposição foi feito por Juan Manuel Bonet, então diretor do IVAM e hoje diretor do Reina Sofia, a Jorge Schwartz, ensaísta e professor da Universidade de São Paulo, especialista em literatura Hispano Americana, que concebeu uma exposição interdisciplinar, integrando várias Artes seguindo isomorficamente o próprio modelo da Semana de Arte Moderna que com Concretismo, os primórdios do Tropicalismo e do Cinema Novo são momentos de destaque na mostra.

A característica multidisciplinar da Semana de Arte Moderna já havia sido peculiar ao Brasil no contexto cultural do Novo Mundo. Em geral, a introdução do Modernismo no Novo Mundo foi estridente e buliçosa, mas setorizada, como o caso dos Estados Unidos, com o Armory Show, que se concentrou nas Artes Plásticas, embora irradiasse depois para as outras Artes o calor transformador que gerou.

Sob a responsabilidade do curador geral, Jorge Schwartz, ficaram a Literatura e a Fotografia. Embora na Semana de Arte Moderna de 22 não tenha havido participação da Fotografia nem do Cinema, o plano de incluí-las agora é absolutamente justificado pelo sentido de cultura em movimento que se imprimiu à exposição.

Um catálogo excelente, bilíngüe (Espanhol-Inglês), inclui além dos artigos do curador geral e dos co-curadores, enfocando suas áreas específicas, também artigos de Eduardo Subirats e Juan Manuel Bonet. O artigo sobre Fotografia é de autoria de Rubens Fernandes Júnior que dá enorme importância ao trabalho de Valério Vieira (1900) como exemplar modernista avant la lettre e de Geraldo de Barros como valor até agora contemporâneo.

O catálogo é uma obra de referência, quer iconológica quer bibliográfica, obrigatória para as bibliotecas das Universidades, tal o volume de informações. Cada setor apresenta documentos e textos que fundaram as bases teóricas da área e o setor de artes plásticas reúne textos de artistas que fundaram a modernidade no Brasil. Alguns textos são inéditos no Brasil, como um de Darius Milhaud, publicado em Barcelona, em 1920, e o de Paul Claudel, publicado em 1927, sobre Nijinski e o Rio de Janeiro. Aliás, este texto, a foto e o desenho de Josephine Baker, feito por Le Corbusier no Rio de Janeiro, são as únicas referências à dança no catálogo porque foi só a partir de 1954 que a dança moderna começou a se desenvolver no Brasil, estabelecendo-se, junto com o cinema, como as Artes mais jovens no contexto brasileiro (1). O cinema aliás tem uma peculiaridade no Brasil: seu caminho em direção à modernidade começa na década de 60 mas muitas obras da filmografia fundadora são relacionadas com os escritores que construíram a vanguarda histórica como Macunaima (1969) Bárbaro e nosso (1968) Dez Jingles para Oswald de Andrade (1974).

Todos os co-curadores convidados por Jorge são professores da Universidade de São Paulo. Para curadoria de Artes Plásticas, convidou Annateresa Fabris, historiadora e crítica de arte; para Cinema Jean-Claude Bernardet, crítico e roteirista, ambos professores da Escola de Comunicações e Artes; para Arquitetura, Carlos Ferreira Martins, arquiteto e professor do curso de arquitetura da Escola de Engenharia de São Carlos; para Musica, José Miguel Wisnik, músico e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas e, finalmente, Carlos Augusto Machado Calil (professor da ECA e atual diretor do Centro Cultural São Paulo da Prefeitura) que fez a curadoria do setor Tradutores do Brasil o qual agrupou intelectuais e artistas de diversas áreas e nacionalidades que visitaram o Brasil e aqui realizaram alguma produção significativa para nossa cultura e para nossos intelectuais, como Blaise Cendrars, Le Corbusier, Levi-Strauss, Paul Claudel, Orson Welles, Elizabeth Bishop, Ungaretti, Vieira da Silva, Arpad Szenes, etc.

Do ponto de vista metodológico, a tarefa parcial mais difícil foi de Calil por ter criado um setor meta interdisciplinar: interdisciplinar no seu interior e interdisciplinar no diálogo com os outros setores. O diálogo entre os vários setores, as várias Artes, teve como fio condutor a música e a literatura ou melhor, o livro, como a urdidura da trama. O livro em toda a sua integridade: texto, forma, projeto gráfico, capa, ilustração, verbalidade / visualidade foi suporte da tessitura cultural conduzida pela música.

Por exercer a liderança, o setor de Literatura foi o mais abrangente, mais completo, organizado entretanto por um olhar que valoriza a imagem no livro, da capa e ilustração ao design gráfico. Apresentou muita coisa rara e inédita, como o desenho de Gilberto Freyre, Casa Grande e Senzala e uma aquarela de Cícero Dias da Casa Grande do Engenho Noruega.

O setor de Fotografia de início parece existir para contextualizar visualmente a Literatura. Entretanto, embora dominado pelo viés literário, com as inúmeras fotos de Mário de Andrade do Nordeste e da Amazônia, vai se desprendendo da Literatura e do documental para chegar ao pictórico e experimental com Marcel Gautherot, Hildegard Rosenthal, Pierre Verger, Geraldo de Barros.

O núcleo bibliográfico dedicado a João Cabral de Melo Neto e a Murilo Mendes foi uma homenagem às ligações dos dois poetas com a Espanha e também apresentou uma obra de pesquisa publicada por João Cabral e pouco divulgada. Trata-se do trabalho acadêmico, O Arquivo das Índias e o Brasil:Documentos para a história do Brasil existentes nos Arquivos das Índias em Sevilha (1966), uma bibliografia de mais de oitocentos títulos.

Do ponto de vista da integração entre o erudito e o popular, o setor mais bem realizado foi o da Música. Foram 150 horas de trabalho de laboratório para se chegar aos 40 minutos que constituem o roteiro musical que integra Villa-Lobos, Milhaud, Ernesto Nazareth, Zé Boiadêro, Carmem Miranda, Lamartine Babo, Caetano Veloso, Tomás Teran e muitos mais. Trata-se de uma integração que segue o princípio pós-moderno de re-conhecimento do outro, conferindo voz ao popular no espaço do erudito enquanto o princípio modernista operou, a partir dos valores hegemônicos, a antropofagia do popular.

A exposição que se desenrola entre dois manifestos e dois planos pilotos, isto é, o manifesto da Semana de Arte Moderna e o Manifesto Antropófago, de um lado, e, do outro, o Plano Piloto para Poesia Concreta e o Plano Piloto de Brasília, foge entretanto à dominação do eixo Rio / São Paulo ao reconhecer o caráter antecipatório da obra O Antropófago (1921), do pernambucano Vicente do Rego Monteiro. Este desenho nunca foi exposto antes, nem no Brasil, nem no exterior. Uma das razões é que exposições antológicas de Artes Plástica, que apresentaram o Brasil no exterior, especialmente a modernidade do Brasil, tinham como meta reforçar a colonização interna e passar uma borracha na disputa entre o Congresso Regionalista do Nordeste e a Semana de Arte Moderna. Em Valência, O Antropófago, de Rego Monteiro, mais velho 7 anos que o Abapuru, de Tarsila do Amaral, conversava com ele muito cordialmente na mesma sala. Rego Monteiro, confirmando a trama interdisciplinar da exposição, também estava presente no módulo de Literatura com os seus Caligramas e com o livro, magnificamente ilustrado, Legendes, croyances et talismans des indiens de l'Amazone (adaptação de P. L. Duchartre), 1923. Rego Monteiro foi também um estimulador da interrelação Brasil-Europa, trazendo, em março de 1930, ao Brasil (Recife, Rio, São Paulo) uma exposição da Escola de Paris. Foi a primeira vez que o público brasileiro viu juntos Picasso, Braque, Dufy, Gris, Léger, Miró, Severini, Vlaminck.

Como Rego Monteiro, vários artistas transitavam por diferentes setores da exposição. Flávio de Carvalho, no setor de Artes Plásticas, estava presente com pinturas, entre elas o retrato de Ungaretti, pertencente a um museu na Itália, no setor de Literatura aparece como designer gráfico para a RASM e para o livro Cobra Norato, de Raul Bopp, aliás livro que teve as melhores capas (Miró, Jean Ponç, etc. ) ao longo das suas várias edições, todas presentes na exposição. Ele apareceu ainda em fotografias como performer e como arquiteto com seu projeto para o Palácio do Governo de 1928.

Algumas linhas de força foram estabelecidas. Lina Bo Bardi esteve presente no início da exposição com seu célebre e saudoso painel de vidro para exposições de obras de Arte, construído para o MASP, e, no final dos 1. 300 metros quadrados de cultura brasileira, no setor de Arquitetura, com sua Casa de Vidro (1951), cuja maquete levada do Brasil foi apresentada conjuntamente com as maquetes dos edifícios Copan (Oscar Niemeyer 51-56), Ministério de Educação (Lúcio Costa e equipe 37/45 ) e Pedregulho (Reidy, 1947), a Casa Modernista (Warchavchik, 1929) especialmente construídas em Veneza para a exposição. Foram ainda exibidos os anteprojetos apresentados no concurso para o Plano Piloto de Brasília e outros projetos de Rino Levi, Luís Nunes, M. M. Roberto, Burle Marx, Vilanova Artigas etc., tendo o livro de Henrique Mindlin sobre Arquitetura Moderna no Brasil (1956) funcionado quase como epígrafe do setor.

O caráter interdisciplinar da exposição muito favoreceu o setor de Artes Plásticas. As sempre excelentes escolhas de Annateresa Fabris ganharam contextualização e com isso robustez de entendimento.

A reclusão das Artes Plásticas em Museus tem facilitado a cristalização de uma visão de arte autônoma, à parte, se referindo apenas a si mesma, construindo uma história particular em separado, movida por sua própria dinâmica. Esses chegaram a ser os valores do Alto Modernismo mas hoje entende-se que o contexto significa.

A exposição que ocupou dez salas do IVAM teve uma recepção muito positiva e foi complementada por dois concertos e um mês de exibições de cinema brasileiro. O setor educacional, muito ativo, como em todos os museus na Espanha, preparou uma sala ambiente com as paredes pintadas com motivos baseados em obras de Tarsila e Lasar Segall e muito material impresso de apoio para aulas, jogos, etc.

A exposição demonstrou que começando com a Antropofagia e terminando com o concreto de Brasília e o Concretismo de Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio

Pignatari construímos nossa consciência pós colonial. O dilema entre o caráter nacional e a linguagem internacional na construção estética foi bem explicitado. As escolhas dos curadores nos ensinaram que podemos estar no centro sem perder o sentido de ser periferia. Como metáfora desta assertiva, lá estava, ocupando toda uma parede, a enorme (em todos os sentidos) obra de Cícero Dias Eu vi o mundo... ele começava no Recife (1926-1929)

Esta exposição é um exemplo de como podem ser ricas e complexas as interpretações das Culturas Brasileiras se produzidas por mentes plurais, independentes, livres das amarras de instituições reguladoras que defendem interesses particulares e singulares na Arte (2).

Está se pensando em reeditar a exposição em São Paulo, o que seria muito bom e acertado em termos de política cultural: mostrar aqui, o que de nós foi visto lá fora.

notas

1
Na Semana de Arte Moderna foi apresentado um bailado de YvonneDaumerie, pouco significativo no conjunto do festival.

2
CRIMP, Douglas. On the Museum’s Ruins, Cambridge, The MIT Press, 1993.

sobre o autor

Ana Mae Barbosa, formada em Direito e desviada para a Arte Educação por Paulo Freire e Noêmia Varela fez mestrado e doutorado nos Estados Unidos. Dirigiu o Museu de Arte Contemporânea de São Paulo, presidiu a INSEA, criada por Herbert Read e atualmente é professora Titular do Departamento de Artes Plásticas da ECA-USP atuando na Pós Graduação e no NACE-NUPAE (Núcleo de Promoção da Arte na Educação) e colabora com a Ohio State University. Últimos livros: "Tópicos utópicos". BH: Ed Com/Arte, 2000; "Arte/Educação: leitura no subsolo". SP: Ed Cortez, 1999.

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