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architexts ISSN 1809-6298

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GUERRA, Abilio. Aos mestres, com carinho. Arquitextos, São Paulo, ano 02, n. 019.00, Vitruvius, dez. 2001 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/02.019/818>.

Melencolia I, Albrecht Dürer, 1514


Antecipando-me aos meios de comunicações, que em breve as estarão divulgando com as mais variadas finalidades e intenções, resolvi também fazer uma lista de final de ano. Não uma lista de compras, de promessas, de presentes ou resoluções, mas uma lista de motivos para abandonar a profissão. Como o ano está prestes a se encerrar e não consigo deixar de me colocar com constrangedora persistência a questão se vale a pena ser professor de arquitetura, resolvi usar a pena – ou melhor, as teclas – para alinhar as razões e motivos para mudar de vida e encarar novos horizontes.

1. Nascidos para a incompetência. Como o curso de arquitetura é de nível superior – obviamente estamos falando de sua classificação burocrática nas instâncias governamentais responsáveis por sua regulamentação, não de sua real relevância social –, temos como decorrência inamovível o fato de que um professor de arquitetura é um professor universitário. Como sabem todos os cidadãos desse enorme país, do mais simples àquele que ocupa o cargo maior, a docência universitária é talhada apenas para aqueles que não conseguem fazer algo criativo ou destacado. Mesmo sendo uma pessoa afeita à rotina e ao morno cotidiano, não é nada agradável sair por aí carregando nos ombros a pecha de incompetente e ficar ouvindo pelas costas acerca da escuridão profunda de nossas pedestres elucubrações.

2. A profunda ignorância atávica. Bem, se há um adágio que todos conhecem e quase todos compartilham é aquele que sabiamente nos lembra de que “Quem sabe faz, quem não sabe ensina”. Quem de fato conhece arquitetura são os “arquitetos de prancheta” (também os de “teclado”, suponho eu) e somente eles, detentores dos vitruvianos conhecimentos, deveriam ser os preceptores das novas gerações. Como os melhores arquitetos estão sempre com o escritório cheio de projetos que, uma vez realizados, vão qualificar e enobrecer os espaços habitacionais, de trabalho e de lazer, acaba sobrando para os piores arquitetos, justamente aqueles cujos escritórios ficam às traças (e, pior ainda, para aqueles que nem mesmo escritórios têm), a temerária função de ensinar os que não sabem. Como os que não sabem ensinam e os que sabem não foram ensinados, ficamos diante de um curioso paradoxo ao qual vou me furtar, pois certamente não teria a inteligência necessária para esclarecê-lo nem a mim, nem a ninguém.

3. A relativa ignorância histórica. Vamos supor que por conta das vicissitudes da vida – falta de iluminação interior, falta de encomendas, falta de vergonha ou de caráter, etc. – um sujeito torna-se professor de arquitetura e, abarrotado de boas intenções, resolve gastar todo seu suor – apenas o suor, pois os neurônios não os têm – para montar um curso com começo, meio e fim, um curso que ele toma como um meio eficaz de ensinar arquitetura para seus alunos (lembre-se, caro leitor, que em sua simplicidade intelectiva o pobre coitado é incapaz de atinar a inutilidade de seu gesto). Peço um pouquinho mais de sua imaginação: suponha também que ele ficou anos a fio desenvolvendo o trabalho, lapidando-o, burilando-o, levando-o à perfeição, ao menos à perfeição possível a sua condição. Como você, caro leitor, provavelmente é um professor de arquitetura e já exigi demais de sua imaginação, descrevo o desenlace para que possa calmamente visualizá-lo, poupando-a assim para momentos mais sublimes: num belo dia, chega na sala de aula do mencionado professor uma Comissão de Especialistas em Ensino de Arquitetura enviada pelo Digníssimo Ministro da Educação do Governo Central ou então pelo não tão importante mas mesmo assim Digníssimo Quase-Reitor para Assuntos Acadêmicos, cujos membros vão lembrá-lo (se um dia ele soube e esqueceu) ou avisá-lo de sua absoluta incapacidade de ensinar arquitetura pois lhe falta “pedagogia”.

4. Os saudáveis riscos da docência. O mesmo caso acima narrado – e lembro que ele nunca aconteceu pois se trata apenas de uma fabulação – pode ter um outro desenlace: o mesmo professor bem intencionado que levou anos montando o curso é surpreendido num belo dia por uma carta de dispensa de seus serviços e, como não poderia deixar de ser, por algum motivo nobre (renovação dos quadros, modernização da estrutura pedagógica, mudança do público alvo, reestruturação do quadro funcional ou qualquer outra frase empolada para dizer que ele ficou muito caro para a Universidade). Aviso, caro leitor, que também esse desenlace é igualmente imaginário, afinal a vida é incapaz de traçar um enredo tão bem urdido.

5. A dimensão tectônica da profissão. Já disse o poeta que “no meio do caminho tinha uma pedra”, só que por ser poeta e não arquiteto, não tinha ele a menor idéia de como tal pedra pode ser uma excelente metáfora para um arquiteto, ainda mais quando estamos tratando daquele com pouca ou nenhuma encomenda, invariavelmente decorrente de sua incompetência. Tal personagem – uma espécie de pedreiro diplomado – fica exatamente no meio do caminho, atrapalhando a vida dos bem intencionados comerciante que vende e consumidor que compra. Com seu blá-blá-blá inconseqüente e despropositado sobre as formas, funções, finalidades e desempenhos dos objetos arquitetônicos e dispositivos urbanísticos, o arquiteto professor atrapalha a consubstanciação dos lucros e atrasa a entrada no mercado de novas legiões de profissionais renovadores e iluminados.

Como pode ver, caro leitor – se é que tenho algum após essa fala tão enfadonha –, não faltam motivos para desistir da profissão. Certamente estaria me despedindo dela sem qualquer nostalgia ou remorso não tivesse acontecido um fato absolutamente fortuito. Num dia destes um senhor me contou que sua filha, recém-ingressante na escola de arquitetura, estava muito duvidosa do acerto de sua escolha até o belo dia em que assistiu sua primeira aula de história da arquitetura. Antes que o leitor pense que se trata de mais uma de minhas invenções, alerto que de fato aconteceu, mesmo não tendo eu como comprovar sua veracidade. Bem, volto à narrativa. O professor da história, não por acaso, era eu. Enquanto me deliciava com a descrição do pai – e fiz questão de tomá-la como um elogio – me lembrei perfeitamente da aula. Tinha sido uma aula iluminada, daquelas que infelizmente são tão raras em nossa vida. Mas constituem uma experiência tão profunda e transcendente que relegamos a um último plano todos os motivos do mundo que conspiram para que desistamos. Haveria motivo melhor para ser um professor de arquitetura do que gostar de arquitetura?

sobre o autor

Abílio Guerra é professor de arquitetura da FAU PUC-Campinas e da Belas Artes e editor de Vitruvius.

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