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MAHFUZ, Edson. O sentido da arquitetura moderna brasileira. Arquitextos, São Paulo, ano 02, n. 020.01, Vitruvius, jan. 2002 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/02.020/811>.

A ocasião da comemoração dos quinhentos anos do descobrimento do Brasil estimulou a muitos, em todas as áreas do conhecimento, a olhar para trás e tentar entender um pouco melhor o que havia acontecido nesses cinco séculos. No campo da arquitetura não foi diferente, e essa olhada em direção ao passado tomou a forma, em alguns casos, de uma análise histórica a partir de blocos produtivos bem identificados como, por exemplo, a arquitetura colonial, a neo-clássica, etc. Nesse panorama abrangente se destaca o período que vai de 1930 a 1960, que culmina com a construção de Brasília, durante o qual a arquitetura brasileira atingiu seu ponto máximo.

Mesmo um estudo superficial daquela produção serve para evidenciar a perda de qualidade e direção da prática posterior à década de 1960, situação na qual ainda estamos imersos. A partir da inauguração de Brasília percebe-se a decadência gradual dos valores que possibilitaram uma arquitetura de tal qualidade que foi aclamada no exterior, ombreando-se com o que de melhor foi realizado em todo o mundo naquela época.

Se o que precede é verdadeiro, duas perguntas se impõem: em que residia a qualidade da arquitetura moderna brasileira, e porque seus valores foram abandonados de forma tão decidida e repentina? O que segue pretende ser o início de uma reflexão nesse sentido, pois me parece que uma resposta adequada à essas questões pode ser de alguma valia para uma retomada de um caminho mais promissor para a nossa arquitetura.

A história da arquitetura dá evidências de que até hoje só houve dois sistemas formais completos: o classicismo e o modernismo. A diferença básica entre o classicismo e o modernismo é a substituição da imitação pela construção formal como critério de formação de objetos arquitetônicos. A adoção de modelos dá lugar à interpretação do programa como principal elemento estimulador da forma e âmbito de possibilidades na ordenação do espaço habitável. A partir desta caracterização genérica da arquitetura moderna, a vertente brasileira pode ser vista como particularização de um modo de conceber a forma artística essencialmente diferente do classicismo, que havia dominado os quatro séculos precedentes e ainda era o paradigma dominante nas primeiras décadas do século XX.

A partir da terceira década do século XX, abre-se a possibilidade de que a legitimidade da obra de arquitetura passe a ser buscada no âmbito do objeto e de sua situação específica, e não mais unicamente em algum sistema prévio exterior a ele. Em conseqüência, pode-se aspirar à uma autenticidade que é conseqüência da ordenação do objeto por meio de leis que lhe são próprias. Fundamentalmente, isso significa entender o projeto moderno como uma atividade totalizadora que sintetiza na forma os requisitos do programa, as sugestões do lugar e a disciplina da construção.

A esses critérios de construção formal, a arquitetura moderna brasileira acrescentou valores da arquitetura tradicional abstraídos (1), o que lhe permitiu ser parte da produção cultural contemporânea, sem ter que abrir mão de suas raízes históricas. A presença de valores históricos na arquitetura moderna brasileira se baseava na utilização da substância dos precedentes históricos, ao invés da sua aparência, em um aproveitamento muito mais tipológico do que mimético da sua tradição.

O entendimento de que a possibilidade de resolver formalmente um programa de modo original não implica a obrigatoriedade de fazê-lo é demonstração da maturidade alcançada por nossa arquitetura em muito pouco tempo. É também uma das razões da necessidade de uma cuidadosa reavaliação daquela arquitetura.

O exposto acima sugere fortes razões para uma reavaliação da nossa melhor produção arquitetônica. Em primeiro lugar, iremos constatar que os projetos davam forma aos programas sem serem determinados por eles, de modo bastante diferente da relação de causa e efeito por tantas vezes atribuída a um certo funcionalismo moderno. Em segundo lugar, longe de qualquer insensibilidade em relação ao entorno, o sítio era entendido como formalidade latente, e o projeto estabelecia estruturas relacionais em que o edifício era sempre concebido como parte de um todo maior (2). A própria variedade das soluções encontradas para adaptar a arquitetura moderna ao clima tropical é evidência da importância atribuída ao lugar na prática arquitetônica pré-Brasília. Por último, verificaremos uma saudável relação entre forma e técnica, na qual a definição da estrutura formal e do caráter de cada edificação explorava a disciplina imposta pela construção.

Além disso, durante o seu período áureo atinge seu auge uma habilidade sempre presente na arquitetura brasileira, que consiste em apropriar-se de procedimentos importados –determinados por uma permanente condição de dependência, seja ela econômica, política ou cultural—transformando-os, adaptando-os e tornando autêntica a produção local.

Passando à segunda pergunta formulada no início, como se pode explicar que uma produção de tal qualidade possa ter sido interrompida de maneira tão abrupta? Eu arriscaria sugerir algumas razões para o fenômeno, algumas externas, outras internas à própria disciplina. Os fatores externos têm a ver com aspectos conjunturais, com o mundo no qual a prática da arquitetura está inserido. Os internos são de cunho disciplinar, e tem a ver com as práticas e o pensamento dos próprios arquitetos.

Um fator externo importante é a alteração do perfil do patronato no período pós-Brasília, o qual tem se caracterizado pela falta quase total de lideranças culturais esclarecidas, assim como pela crescente predominância da construção comercial, dominada pelas razões do mercado e pela obsessão generalizada com a criação de imagens.

Concomitantemente, houve uma redução considerável no número de encargos públicos e de instituições privadas. Coincidência ou não, o declínio do patronato estatal e a percepção de uma queda na qualidade da nossa arquitetura acontecem quase ao mesmo tempo. Isso não quer dizer que só se possa fazer boa arquitetura sob o amparo do Estado, nem que toda a arquitetura originada por programas governamentais seja de alta qualidade, mas é fato incontestável que a melhor produção coletiva já realizada no Brasil respondia a um grande número de encargos públicos e de parte de instituições para as quais a arquitetura ia muito além do seu valor comercial.

Outro fator externo tem a ver com o início do fenômeno que hoje recebe o nome de globalização, que ocorre nos anos 1950, a partir do poder adquirido pelos Estados Unidos após sua vitória na segunda grande guerra mundial. Isso significou não apenas uma subordinação econômica mas também a adoção dos EUA como modelo cultural, o que causou mais males do que benefícios. Em termos arquitetônicos, a influência americana representou a importação de uma arquitetura estilizada, erroneamente caracterizada como moderna. Essa arquitetura, adotada pelo grande capital internacional, era resultado da simplificação a que foi submetida a arquitetura moderna pela construção comercial, esvaziada de seu conteúdo social e, o que é pior, transformando em estilo o que era um modo de conceber a forma arquitetônica.

Mas eu arriscaria dizer que o principal fator que determinou o abandono da arquitetura moderna no Brasil, e que inclusive permitiu a penetração tão fácil de valores culturais prejudiciais, foi o desconhecimento do que significava essa arquitetura e quais eram seus verdadeiros valores, por parte das gerações que sucederam aquela, tão bem sucedida, que inicia a sua projeção a partir do edifício do Ministério da Educação e da Saúde.

Esse desconhecimento tem a ver com a dificuldade histórica que os arquitetos sempre tiveram em considerar a arquitetura como produção intelectual. A exceção de Lúcio Costa, nenhum dos componentes do grupo que produziu a melhor arquitetura do período 1930-60 se dedicou à teoria (3). Sendo assim, o conhecimento disciplinar só era transmitido, e mesmo assim de maneira não explícita, no contato direto do trabalho nos escritórios, sem que fosse formalizado e se tornasse passível de transmissão para as futuras gerações. Isso fez com que, paulatinamente, se fosse perdendo a clareza a respeito do fato de que a arquitetura moderna constituía um sistema formalizador completo, o que permitiu que gente com pouca capacidade para a concepção fosse capaz de gerar produtos de qualidade aceitável em todas as partes do mundo.

No entanto, essa reticência não foi uma característica exclusiva dos modernos brasileiros. Constata-se em praticamente todas as manifestações dos criadores da arquitetura moderna (Wright, Gropius, Mies, Le Corbusier e outros) a ausência de discussões sobre o aspecto formal da arquitetura. A forma passa a ser um tema tabu a partir da segunda década do século XX, e sua abordagem ganha contornos pecaminosos. Sendo assim, fica difícil para as gerações subseqüentes entender que alcançar a identidade formal era, definitivamente, o objetivo máximo da concepção moderna e que, subjacente àquilo que foi tão condenado a partir dos anos sessenta estava uma formalidade intensa e essencialmente crítica, independente de qualquer outra lógica que não fosse a da própria identidade da obra.

A perda da noção exata do sentido e do valor da arquitetura moderna abriu as portas para a aceitação de muitas interpretações equivocadas que terminaram por ser a fundamentação do seu abandono. As mais nocivas foram as que, por um lado, identificaram a arquitetura moderna com um determinismo sócio-técnico que conduzia à forma de modo mecânico e, por outro lado, a crença de que a arquitetura moderna tinha como valor fundamental a busca do original, do inédito, da novidade.

À essas definições equivocadas se somou uma barragem de críticas, algumas corretas, outras não. Entre as críticas bem fundamentadas estavam as que identificavam a origem de muitos dos problemas das cidades nas décadas de 1960 e 1970 na adoção do receituário urbanístico da Carta de Atenas, caracterizado, principalmente, pela separação das atividades urbanas; combinação de baixa densidade com verticalização; pela política de tabula rasa nas intervenções em centros históricos; a indefinição de muitos espaços abertos modernos; e pelos muitos problemas de conforto ambiental apresentados por edifícios que eram modernos apenas na aparência, não na sua concepção.

Concomitantes a essas críticas, houve outras com as quais não podemos estar de acordo. Uma delas se refere a uma suposta deficiência comunicativa da arquitetura moderna, surgida em um momento em que tudo passou a ser visto sob a ótica da semiologia. É óbvio que arquitetura tem significado, mas não é seu propósito estabelecer uma comunicação com o usuário nos moldes em que acontecia do gótico ao barroco. Há muito tempo que a arquitetura passou a se preocupar exclusivamente com a ordenação do espaço habitável, deixando a persuasão a cargo de outras disciplinas. Como aquela suposta falta de comunicabilidade era atribuída à abstração do repertório formal da arquitetura moderna, uma conseqüência dessa visão distorcida do papel da arquitetura e de suas possibilidades foi a busca de recursos formais com maior capacidade comunicativa. Tais recursos logo foram encontrados na história da arquitetura, e o resultado é o que se vê por qualquer cidade do mundo.

Analogamente, a falta de convicção a respeito da relevância da arquitetura moderna permitiu que acabasse reduzida pelos seus detratores a uma estilização de parte da produção moderna, baseada genericamente na obra americana de Mies van der Rohe, e aplicada de modo acrítico em todas partes. Só que, nessa altura, entre o final dos anos sessenta e o início dos setenta, já havia poucos que podiam estabelecer a diferença entre a arquitetura moderna autêntica e sua estilização com fins comerciais. Os problemas detectados nessa espécie de arquitetura acabaram se aplicando à arquitetura moderna como um todo, a qual ficou praticamente sem defensores eloqüentes. Aqueles que ainda a praticavam pouco puderam fazer para defende-la, ou por falta de capacidade argumentativa, ou por se darem conta de que se dedicavam a um modo de concepção formal quase em desuso, prestes a ser superado por algo tão difuso e indefinido quanto os ismos que a sucederam. Num cenário em que os acusadores predominavam de maneira esmagadora, a arquitetura moderna foi rapidamente saindo de cena sem que algum outro sistema consistente a substituísse.

Portanto, urge que voltemos a olhar intensamente para a produção da arquitetura brasileira realizada entre 1930 e 1960. Ali está algo que é muito mais do que um estilo a ser revivido. Trata-se, isso sim, de um modo de concepção formal atemporal, cuja retomada talvez pudesse nos ajudar a sair do beco em que nos metemos, e retomar um caminho que nos leve outra vez a possuir uma arquitetura autentica própria, forte o suficiente para absorver as influências externas sem se deixar dominar por elas.

notas

1
Abstração é aqui entendida como um procedimento cognitivo que tende a separar os aspectos acidentais ou contingentes dos essenciais ou necessários.

2
O edifício do Ministério da Educação e Saúde, no Rio de Janeiro, é ininteligível fora do seu contexto, pois sua qualidade monumental depende da relação de contraste que se estabelece com o denso tecido da cidade tradicional.

3
É preciso ter muito claro que entre teoria e prática não existe contraposição e, menos ainda, exclusão, mas plena complementaridade. Não pode haver teoria que não se alimente dos resultados da prática, nem existe prática que vá além da simples reprodução mecânica do existente que não se apóie em uma reflexão de caráter teórico. (ARÍS, Carlos Martí. El arte y la ciencia: dos modos de hablar con el mundo, texto não publicado apresentado em Roma, no congresso “Il Progetto Architettonico”, 1998, p. 2). Outro mal entendido clássico é a visão da teoria como algo que precede e orienta a prática de projeto. “A teoria não deve ser entendida como um manual de instruções para o projeto; não se trata de um método operativo camuflado por uma roupagem literária. As teorias são simplesmente tentativas de explicar os fatos que resistem à abordagem do mero sentido comum.” PIÑÓN, Helio. Curso Básico de Proyectos. Barcelona, Edicions UPC, 1999.

sobre o autor

Edson da Cunha Mahfuz, arquiteto, professor de projetos da Faculdade de Arquitetura da UFRGS

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