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TEIXEIRA, Carlos M.. Entre apocalípticos e integrados. Arquitextos, São Paulo, ano 02, n. 020.02, Vitruvius, jan. 2002 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/02.020/812>.

Visões hiper otimistas do mundo colidem com anúncios catastróficos do fim da natureza. De um lado os festejadores do agora, de outro os alarmistas do amanhã. Os festejadores – os que estão do lado “certo” - proclamam uma humanidade que vive hoje um período inigualável de prosperidade em um mundo cada vez melhor. Escrevem artigos na revista americana Wired, questionam o radicalismo dos ambientalistas e relativizam a pobreza do Terceiro Mundo. O estatístico Bjorn Lomborg, por exemplo, acaba de provocar furor com seu livro “O Ambientalista Cético”. Depois de passar anos trabalhando no Greenpeace, Lomborg despertou atenção internacional ao publicar artigos na imprensa inglesa e americana com títulos bombásticos como “Lutar Contra o Aquecimento é Jogar Dinheiro Fora” e “Reservas Naturais: o Fim Não Está Próximo”. Para ele, seria melhor investir no desenvolvimento do Terceiro Mundo – o lado da Terra que mais será afetado pelo aquecimento global – do que gastar trilhões em medidas preventivas para diminuir a emissão de CO2 no primeiro mundo. Os desmatamentos, a miséria, e o Protocolo de Kyoto tampouco são mais que ladainhas dos alarmistas, já que a Terra e toda a humanidade estão muito melhores do que estavam há cinqüenta anos.

O lado bom desse sensacionalismo é o que todas as polêmicas têm de bom: o contrapeso que fazem às verdades que se pretendem incontestáveis. O fato de se estar com a razão no atacado, como é o caso dos defensores do ambiente, não justifica a propagação de terrores nem os desobriga de reconhecer as mudanças para melhor na relação do homem com o meio natural. É por isso que, hoje, certas visões controversas sobre o meio ambiente às vezes são mais estimulantes que as opiniões unânimes. Outros pesquisadores, porém, são otimistas mais por ideologia que por análise dos fatos, e imaginam cinicamente que o boom tecnológico da Califórnia irá se estender pelo mundo afora como que por osmose, até atingir a mais subdesenvolvida nação do mundo. Mesmo o lado obscuro do mesmo Lomborg é evidente. Para fazer pouco daqueles que pretende desmoralizar, o dinamarquês descreve estatísticas consoladoras como “só 14% da Amazônia foi destruída” e omite que isso representa 700 mil km2 de floresta ou 16 Dinamarcas. O seletivismo de polemistas assim os faz retirar dos textos uma avaliação equilibrada entre os erros e os acertos do ambientalismo. Como ex-funcionário do Greenpeace, Lomborg aprova o interesse pelas questões ecológicas e defende a existência de organizações dedicadas à proteção da natureza, mas a julgar por seus ensaios parece que nada presta no que elas dizem e fazem.

No outro extremo da linha dos integrados estão os verdes politicamente progressistas. Estes se opõem a qualquer prognóstico otimista, sendo a deles uma visão da história que se distingue radicalmente da história como progresso tecnológico. De um ponto de vista simplista, é a história guiada principalmente pela segunda lei da termodinâmica: a história da entropia inexorável, a história da degradação crescente do meio ambiente, a história como a artificialização do planeta. Somente a auto-consciência crítica poderá diminuir ou reverter a degradação, somente uma cruzada contra a concepção tradicional de progresso poderá deter o avanço desta entropia ambiental.

Apesar de ser uma caricatura da realidade, tal discussão bipolarizada está bastante ligada a uma questão muito pertinente nas grandes cidades brasileiras. O caso das minerações em áreas urbanas ilustra eloqüentemente esse dualismo. Em Belo Horizonte, particularmente, diversas ONGs ambientalistas guardam o futuro das matas da Região Metropolitana, enquanto mineradoras exploram diversas áreas nos arredores da Grande BH. A extração mineral, como se sabe, é potencialmente degradadora do meio ambiente. Uma característica importante de qualquer mineração é que se explora um recurso natural não renovável, o que necessariamente provoca o impacto da criação de vazios. Por mais que se desenvolva a atividade dentro dos melhores padrões de controle ambiental, sempre haverá um impacto residual, que pode ser corrigido através da reabilitação das áreas degradadas. No jargão dos engenheiros de minas, recuperação é entendida como o retorno à condição original (por exemplo, a recuperação de uma área desmatada para retorno a uma formação de mata semelhante); enquanto a reabilitação propriamente dita corresponde ao estabelecimento das condições para que a área tenha uso diferente do original (por exemplo, transformar uma área minerada em área de uso urbano). Dentro deste tema, o que interessa do nosso ponto de vista é que essas zonas degradadas serão os futuros parques e áreas urbanas, ou seja, são as futuras reabilitações das minerações. A médio prazo, o que hoje são minas de ouro, minas de ferro, pedreiras de calcário e de granito se transformarão em novas zonas de adensamento ou zonas de proteção ambiental.

É oportuno fazer aqui um paralelo lembrando que mesmo os físicos contemporâneos não mais concordam que todo sistema tende a um aumento da desordem (a entropia) e apontam para novas teorias onde o avanço do tempo é uma fonte de ordem, e onde o desequilíbrio pode trazer as estruturas mais complexas e delicadas da natureza. É por isso – e obviamente por outras razões menos científicas e mais especulativas – que poderíamos buscar um certo potencial nessa destruição muitas vezes irresponsável das minerações. Olhando as cavas que mais parecem crateras lunares cunhadas sobre a superfície de planaltos e montanhas, é comum as pessoas imaginarem estar diante de um corpo natural putrefato e vê-lo como algo imediatamente deplorável. Mas as imagens das extrações de minério provocam sentimentos dúbios: também um fascínio, um prazer estético que nos revela outras referências do que seja pitoresco. Quando a violência de uma escarpa erodida é parcialmente recuperada pela passagem do tempo e pelo retorno da vegetação, a deformidade retorna ao natural via processos espontâneos. Escarpas artificiais são cobertas de gramíneas e flores e contrastam com o relevo natural mais suave, contenções de encosta inserem novos materiais na paisagem, enquanto outros acidentes topográficos artificiais para sempre ficarão marcados na memória do lugar.

Existe uma sutil diferença entre o sublime e o pavoroso que deve ser explorada pelos manejadores das paisagens alteradas. Não a volta daquela mesma paisagem natural já tão distante depois da chegada das mineradoras (a recuperação); não o abandono das minas ao Deus dará, como várias já o foram. Mas sim uma terceira paisagem fruto de uma estratégia que esquecesse os extremismos para então tirar partido do aspecto aparentemente negativo das transformações, como num final imaginário da parábola entre o médico e o monstro. Ao invés de ou/ou, e. No lugar de divergências, hibridismos que só farão enriquecer os espaços públicos em cidades que poderão acordar para oportunidades de invenções e investigações muito além do policiamento dos ambientalistas e da negligência do poder público.

Atitudes menos convencionais como essa defesa de uma terceira paisagem pressupõem uma consciência crítica equilibrada do ponto de vista ecológico, urbano e  cultural. Essa consciência está em ascensão no Brasil e no mundo. Uns poucos casos no país, como a Ópera de Arame e a Pedreira Paulo Leminsky, ambos em Curitiba, mostram como é possível trazer a cultura das minas para dentro da cidade com o fim de incrementar o turismo e suprir carências de parques e áreas verdes. É preciso saber ler o potencial desses vazios (minerados ou não, destruídos ou não) para inventarmos novas ocupações; saber apostar em “novas interpretações da segunda lei”, na beleza da desordem, numa entropia que traga para os ecologistas conceitos estéticos aliados a posturas éticas: parceiros da arquitetura e do urbanismo que podem revigorar essas disciplinas.

sobre o autor

Carlos M Teixeira é arquiteto em Belo Horizonte e autor do livro "Em obras: história do vazio em Belo Horizonte"

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