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architexts ISSN 1809-6298


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VELOSO, Maisa; ELALI, Gleice Azambuja. Há lugar para o projeto de arquitetura nos estudos de pós-graduação?. Arquitextos, São Paulo, ano 02, n. 020.07, Vitruvius, jan. 2002 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/02.020/817>.

“Aprender arquitetura é diferente de aprender a fazer arquitetura...” (2)

“Batuque é um privilégio, ninguém aprende samba no colégio” (3)

Hoje, as rápidas transformações tecnológicas, sócio-ambientais e econômicas, assim como o questionamento dos paradigmas tradicionais da arquitetura e o urbanismo (os modernos notadamente), colocam novos dilemas na formação profissional do arquiteto e, em especial, do pesquisador de pós-graduação. Novas questões temáticas se impõem como a ambiental, a tecnológica, o desafio da conservação e revitalização do patrimônio cultural em consonância com o desenvolvimento do turismo. Ao mesmo tempo em que avança a globalização, assiste-se a uma redução brutal do poder e da escala de intervenção dos profissionais do espaço urbano e arquitetônico, com a revalorização da micro-escala – a rua, o lugar, o “pedaço”, a arquitetura bioclimática, de interiores confortáveis e poupadores de energia. Neste contexto, quais são os desafios para o ensino e a pesquisa na área? Como as escolas, em particular as de Pós-Graduação, estão enfrentando essas mudanças e as novas demandas? Como se coloca a questão específica do projeto de arquitetura ? Qual o lugar da Arquitetura na pesquisa científica ? Há lugar para o projeto nos estudos de Pós-Graduação ? Os programas de Arquitetura, nos moldes atualmente existentes, oferecem condições para incorporação dos novos perfis de arquitetos e pesquisadores, em especial aqueles voltados para a prática projetual, ou seja, interessados em refletir e trabalhar arquitetura a nível de projeto, seja como modo de aperfeiçoar suas atividades cotidianas, seja como forma de capacitação para o ensino e a pesquisa na área de projeto, já que os concursos para professores têm exigido a titulação mínima de Mestre ? Como formar Mestres em Projeto ? O ensino de Pós em Arquitetura no Brasil tem dado conta desta tarefa ? Estas questões são complexas e envolvem aspectos de natureza diversa. Este trabalho não pretende aqui esgotá-las, mas dar uma contribuição a mais para o debate, colocando o exemplo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), que bem ilustra a situação também verificável em outros centros do Brasil, e sugerir alguns elementos de discussão. Abordamos questões como a formação docente, as mudanças no perfil dos pós-graduandos e a descontinuidade entre graduação e pós-graduação.

O problema

A nosso ver, os cursos de Mestrado e Doutorado em Arquitetura no Brasil têm tido dificuldades de se adequar ao novo quadro descrito, particularmente no que se refere às mudanças paradigmáticas, pautando-se ainda em referenciais teóricos e metodológicos do passado, e já não mais capazes de responder às questões contemporâneas da produção do edifício e da cidade. Além disso, a reflexão crítica sobre o projeto, enquanto processo relacionado ao “saber-fazer” arquitetura, encontra muito pouco espaço no meio científico, sendo mais freqüentes pesquisas voltadas para a avaliação de espaços construídos, visando a retro-alimentação de projetos, como definido por Cordiviola (2001). Isto dificulta a incorporação dos novos perfis de profissionais do ensino, da pesquisa e da prática projetual, que, na ausência de melhor opção, acabam enveredando por linhas de pesquisa e temáticas que não atendem às suas habilidades e expectativas mas que conferem um suporte mais “científico” à sua formação. Um dado importante: apesar de ser na área de projeto de Arquitetura que se desenvolve a maioria absoluta dos Trabalhos Finais de Graduação (TFG), são pouquíssimas as pesquisas a nível de Pós nesta área. A descontinuidade é patente. Basta observar os números para o caso da UFRN, que não configuram, aliás, uma situação rara ou uma exceção nas escolas do país.

Entre 1995 e o primeiro semestre de 2001, 80 % dos TFG foram projetos de arquitetura. Já no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFRN, que absorve sobretudo ex-alunos da graduação local, raros são os trabalhos que contemplam a arquitetura, mesmo em termos da análise da produção existente na cidade de Natal. (4) Isso se deve sobretudo à oferta de disciplinas por área de concentração (“Conforto no Ambiente Construído” e “Forma Urbana e Habitação”), mas também ao perfil dos professores orientadores (na maioria Doutores em Urbanismo, História, Geografia, Sociologia). Nenhuma oferta de disciplina é feita nem pesquisa voltada para o processo projetual ou para o ensino do projeto. A elaboração de projetos de intervenção neste nível da formação acadêmica é ainda tabu. Para muitos, capacitar o aluno para o projeto arquitetônico é função da graduação, e não da Pós, cuja principal atividade é a reflexão crítica sobre a produção existente e a produção de novos conhecimentos. Se os alunos de Pós desejam continuar a aprofundar noções e técnicas de projeto e desenvolver trabalhos cujo produto seja uma proposta de intervenção, é porque a graduação não tem cumprido bem seu papel.

Desta forma, alunos brilhantes em projeto, e desejosos de seguir carreira acadêmica (fato pouco provável há poucos anos atrás), são obrigados a se converterem em “cientistas” . Em seus projetos de pesquisa vêem-se obrigados a deslocar o eixo de trabalho para áreas afins (urbanismo, história, geografia), utilizando suportes teórico-metodológicos de outras disciplinas (psicologia ambiental, sociologia, conforto, sintaxe espacial), de forma a conferir “cientificidade” à análise do objeto arquitetônico. O que muitos acabam fazendo, na verdade, é avaliação de espaços construídos para fornecer subsídios para projetos futuros. Mesmo assim, análises “puramente arquitetônicas”, como as técnico-funcionais, estético-visuais (morfológicas, tipológicas), ainda que pautadas em metodologias relativamente claras como a APO (Avaliação Pós-Ocupação) de ambientes construídos, são ainda consideradas pouco ou nada científicas e, por isso mesmo, discriminadas nas seleções de cursos, concursos e, em especial, na alocação de recursos para a pesquisa. Basta observar os dados disponibilizados on-line pelas duas maiores entidades de fomento à pesquisa e à capacitação de nível superior no país (CNPq e CAPES). Se a Arquitetura já recebe parcos recursos diante de outras áreas de conhecimento, mais escassos ainda são os recursos destinados a pesquisas voltadas para a sub-área “planejamento e projeto da edificação”. Ademais, são também raras pesquisas que contemplem especificamente metodologias de ensino e de pesquisa nesta área, sub-setor nem mesmo presente nas classificações existentes.

Possíveis causas do problema

Uma das dificuldades é a de delimitação de um campo disciplinar de pesquisa que seja próprio à área de projeto de arquitetura, sem que, para definir e avaliar o objeto arquitetônico, tenha-se que recorrer a instrumentos de outras linhas de conhecimento. Há toda uma discussão a respeito, e que quase sempre se rebate no nebuloso abismo da interdisciplinaridade. No entanto, o fato da arquitetura constantemente tomar emprestado de outros campos a maior parte destes recursos, por si só já denota o não reconhecimento de uma ciência arquitetônica. Aliás, existiria uma “Arquitetura científica” ? Em artigo recente, nesta mesma revista eletrônica, Alberto Cordiviola (2001) afirmava que “na arquitetura e no urbanismo”, ao contrário do que se passa nas engenharias, “não parece haver outra teoria do que a reflexão crítica sobre a prática”, o que quer dizer que a “teoria” só pode ser construída a posteriori, com o objeto/fato arquitetônico consumado. Só assim é possível a confirmação da hipótese para a elaboração de possíveis regras. E o projeto é essencialmente hipótese. A esta questão da impossibilidade de uma ciência arquitetônica, causa maior dos problemas enfrentados pela Arquitetura nos estudos de Pós, está vinculado o antigo (e sempre recorrente) estereótipo do arquiteto como ser dotado de criatividade intuitiva, baseada sobretudo na inspiração (SILVA, 1986; DEL RIO, 1999), em contraposição ao “cientista”, e o preconceito daí decorrente de que “arquiteto que se apóia muito em ciência simplesmente não tem criatividade”, ou seja, não é suficientemente “artista”. Inversamente, o dom da ciência não seria atributo da profissão. Daí a prevenção contra o projeto enquanto objeto de pesquisa científica, já que ele é considerado como uma atividade ´artística`, subjetiva. Por essa ótica, é construída a separação entre o “saber arquitetura”, o “saber fazer arquitetura” e o “saber discursar sobre arquitetura” (Graeff, 1995). O primeiro seria apanágio dos intelectuais embasados em pesquisas científicas; o segundo constitui-se domínio operativo, pragmático, dos artífices da prancheta (ou do AUTOCAD em tempos atuais), que aliam inspiração e domínio técnico; o terceiro passaria ao domínio dos críticos e interessados, profissionais da área, de outras áreas do conhecimento, ou leigos. Por essa lógica, aprender/apreender arquitetura é, então, cientificamente possível (depois de verificada a hipótese/projeto), mas a aprender a fazê-la não, o que tornaria qualquer Pós-Graduação em Projeto de Arquitetura strictu sensu uma construção surrealista.

Outra dificuldade para a área nos cursos de pós-graduação é a formação “viciada” do corpo docente, em sua maioria arquitetos, que continuam reproduzindo modelos, preceitos e métodos da arquitetura e do urbanismo (planejamento urbano) modernos, embora as antigas referências já não sirvam para apreender muitos dos fenômenos atuais e fundamentar temáticas emergentes, o que já é outra grande discussão. O problema parece-nos, então, estar mais relacionado às formas de percepção, à mentalidade dominante acerca do papel do arquiteto, bem como à superação da dicotomia entre o elaborador/criador de projetos e o avaliador/crítico dos mesmos.

Alguns meios para enfrentamento do problema

Constatada a descontinuidade entre os estudos de graduação e de Pós, bem como a incapacidade de muitas escolas de fazer face às novas necessidades e demandas profissionais, sugerimos alguns elementos para possível superação do problema. É indubitável a necessidade de investimento na formação e capacitação docente, mas é preciso que se abra mais espaço e (recursos) para pesquisa na área de projeto de arquitetura, em especial no que diz respeito às metodologias projetuais, campo ainda bastante incipiente em nossa realidade. No entanto, necessitaríamos melhor definir que aspectos realmente podem realmente ser considerados objetos e objetivos de pesquisa na área de projeto. Os trabalhos desenvolvidos em áreas afins, consideradas mais “científicas”, muitas vezes parecem apenas consolidar alguns traços de interesse projetual específicos (vide conforto ambiental, materiais e processos construtivos, APO, etc.), os quais, no entanto, acabam se diluindo em abordagens mais amplas.

Um grande avanço poderia ser obtido com a superação da dicotomia entre “ciência” e “criatividade”, muito comum na nossa área acadêmica, o que implica necessariamente em revisão de paradigmas tradicionais, derrubada de preconceitos e abertura de espaços para a inovação (inclusive temática, mas sobretudo metodológica). Isto significa, sobretudo, a aceitação (nas escolas e nas agências de fomento) da possibilidade de formarmos arquitetos enquanto “cientistas criativos”, duas características de um mesmo indivíduo (ou grupo) que não são necessariamente excludentes, como já historicamente demonstrado por Taylor (1976) e De Masi (1999).

Significa, enfim, construirmos uma academia aberta que permita, ao mesmo tempo, a coexistência da “regra” (ordem, equilíbrio) com a “emoção” (criatividade, necessariamente livre) e o desenvolvimento de talentos, vistos não como privilégio, mas como atributos passíveis de desenvolvimento dentro do próprio campo científico.

notas

1
As reflexões deste texto têm por base trabalho apresentado na XIX CLEFA (Conferência Latinoamericana de Faculdades e Escolas de Arquitetura), realizada em São Paulo, em outubro passado – grupo temático sobre o “Ensino de Pós-Graduação”. O artigo original foi por nós revisto e nele incorporados novos comentários em função dos debates suscitados na ocasião da apresentação, bem como da publicação recente do artigo do Prof. “Chango”, ainda que voltado para o ensino e aprendizado do projeto na graduação (Cordiviola, 2001).

2
Elvan Silva, apud Del Rio, 1998: 207.

3
Noel Rosa, renomado compositor de samba. Argumento trabalhado por Sônia Marques (1983), em sua dissertação de Mestrado sobre a formação do arquiteto no Brasil.

4
As seguintes as pesquisas, desenvolvidas no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFRN, ilustram bem a afirmação:

– "Influência das áreas verdes no microclima de Natal..." (1999/2001), Autora: Eunádia Silva Cavalcante; Orientadora: Maísa Veloso
– "O parque das Dunas no processo de amenização climática de Natal..." (1999/2001), Autora: Márcia Monteiro de Carvalho; Orientadoras: Virgínia Araújo e Françoise Valéry.
– "Entre a casa grande de fazenda e a casa urbana: a arquitetura de Acari no século XIX" (1999/2001), Autor: Paulo Heider Feijó; Orientadora: Edja Trigueiro.
– "A atuação do escritório de Saturnino de Brito em Natal (1940/1969)..." (2001/....), Autora: Ana Caroline Lopes Dantas; Orientadora: Ângela Ferreira
– "O reflexo das tendências arquitetônicas nos hábitos de morar em Natal" (2000/....), Autora: Alexandra Seabra de Melo; Orientadora: Sonia Marques.

referências bibliográficas

COMAS, Carlos Eduardo. Ideologia modernista e ensino do projeto arquitetônico: duas proposições em conflito. In COMAS, Carlos Eduardo (org). Projeto Arquitetônico – disciplina em crise, disciplina em renovação, Brasília: Projeto Editores/CNPq, 1986.

CORDIVIOLA, Alberto Rafael. "Notas sobre o saber projetar". Arquitextos, Texto Especial nº 103. São Paulo, Portal Vitruvius, outubro, 2001 <http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp103.asp>.

DEL RIO, Vicente. Projeto de Arquitetura: entre criatividade e método. In DEL RIO, V. (org.) Arquitetura: pesquisa & projeto. São Paulo, Projeto Editores / Rio de Janeiro, FAU UFRJ, 1998.

DE MASI, D. (org) A emoção e a regra. Rio de Janeiro, José Olympio, 1999.

GRAEFF, Edgar. Arte e técnica na formação do arquiteto, São Paulo, Nobel/Fundação Vilanova Artigas, 1995.

MARQUES, S. Maestro sem orquestra – um estudo sobre a ideologia do arquiteto, Dissertação de Mestrado, Recife, UFPE, 1983.

SILVA, Elvan. Sobre a renovação do conceito de projeto arquitetônico e sua didática. In COMAS, Carlos Eduardo (org). Projeto Arquitetônico – disciplina em crise, disciplina em renovação, Brasília, Projeto Editores/CNPq, 1986.

TAYLOR, C. W. Criatividade: progresso e potencial, São Paulo, IBRASA, 1976.

VELOSO, Maísa. Teorias e práticas “modernistas” nas disciplinas de projeto. Trabalho apresentado no III Seminário DOCOMOMO – Brasil, São Paulo, 1999.

sobre os autores

Maísa Veloso e Gleice Elali são arquitetas e professoras do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte

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