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architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
Francisco Spadoni, formado na FAU PUC-Campinas e um dos fundadores da revista Óculum, conta sua experiência na Europa, em especial sua participação no escritório de Kenzo Tange

english
Francisco Spadoni, graduated from FAU PUC-Campinas and was a founder of the magazine Óculum, shares his experience in Europe, particularly its participation in the office of Kenzo Tange


how to quote

SPADONI, Francisco. Kenzo Tange e uma peniche no rio Sena. Geração Migrante – Depoimento 1. Arquitextos, São Paulo, ano 03, n. 030.01, Vitruvius, nov. 2002 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/03.030/728>.

Falar de uma experiência pessoal nem sempre é fácil, pois nunca sabemos exatamente o quanto podemos modificá-la em nossa consciência.

Mudei-me pra Paris após três anos de formado para cursar uma pós-graduação em Teorias de arquitetura. Os motivos que nos empurram para tal empreitada podem ser vários e por mais que o apelo profissional seja o determinante, não podemos descartar aqueles de ordem pessoal: a experiência de viver no estrangeiro, enriquecimento cultural, etc. Mas vou ater-me aos primeiros, mais afins aos objetivos da editoria.

Diplomei-me em 1984 na Faculdade de Arquitetura da PUC-Campinas e compus o grupo editor da revista Óculum desde sua formação. Estes anos foram de certa sublevação em nossa formação de arquitetos, pois o Brasil começava a sofrer o primeiro embate com as novas doutrinas que já povoavam o debate internacional em arquitetura desde a década anterior e com a ânsia natural de quem ainda uma vez buscava alguma espécie de atualização, passávamos a receber uma avalanche de novas informações, que naquele momento poderiam suprir nossa carência pela novidade.

Os anos 80 foram os primeiros da abertura política e, assim como o antigo regime político que desmoronava, a arquitetura no Brasil vivia o ocaso de uma geração de herdeiros do movimento moderno que nesta época, pouco nos interessava. O número especial da revista L’Architecture d’Aujourd’Hui de 1987 dedicado ao Brasil trazia um pouco este espírito de desencanto. Não farei uso deste espaço pra tratar de situação tão complexa, mas importa-me mostrar que nossas fontes de busca não estavam necessariamente aqui naquele instante e este pode ter sido de alguma forma um dos fatores que me impulsionou a me tornar um migrante.

A experiência com a revista Óculum – formando equipe editorial com Abílio Guerra, Renato Anelli, Paulo Dizzioli, Luis Fernando de Almeida, Álvaro Cunha e Tácito Carvalho e Silva – trazia para todos uma expectativa de atuar sobre um território ainda pouco explorado no Brasil – o das novas correntes de pensamento em arquitetura. O caminho natural a alguns de nós foi o de continuar os estudos fora do país.

Iniciei meus estudos na Ecole d’Architecture de Paris-Villemin no ano de 1988 na área de Teorias da Arquitetura para um curso de dois anos letivos: 88-89; 89-90. Para o ingresso no curso, prestei a seleção aqui do Brasil através de um dossiê de candidatura à vaga. O curso era ministrado em conjunto com a Architectural Association, de Londres, e Facoltá di Architettura, de Roma, através do sistema Erasmus da comunidade Européia, com as aulas ocorrendo nas três escolas. A opção pela França como destino e pela EAPV em particular, deveu-se à reputação da escola na minha área de interesse e à fama de alguns dos professores que faziam parte do programa – Jacques Boullet; Paul Virillio; Philipe Madec, entre outros –, associado a outros fatores como o domínio da língua, interesse cultural pelo país e gratuidade do ensino.

O intercâmbio entre as três escolas, as viagens constantes e o contato com professores e colegas, rapidamente compuseram um universo complexo, mas facilmente assimilável. No campo da arquitetura, ou mais propriamente da informação, a distância também não existia pois a mídia já estava cumprindo o seu papel. Ao final tudo se resumia a um novo endereço, uma nova cultura e uma nova condição social: a de imigrante.

Trabalho

Minha vida profissional esteve ligada a um grande escritório de linhagem moderna: Kenzo Tange & Associates em Paris, que respondia pelos projetos do escritório no continente Europeu. No período que trabalhei na agência foi desenvolvido o projeto para o Complexo de Place d’Italie em Paris e para o Musée Tremois na cidade de Nice. KTA era uma espécie de embaixada japonesa na França, recebendo muitos arquitetos e estudantes japoneses de passagem por Paris. A prática de contratação de arquitetos estrangeiros era comum no escritório, que teve apenas dois franceses entre quinze arquitetos que trabalharam no escritório no período, a metade japoneses.

Kenzo Tange Associates era um escritório pouco convencional para os padrões que eu estava acostumado no Brasil, pois não funcionava com equipes hierarquizadas. O corpo de profissionais era pequeno, apenas sete a oito arquitetos trabalhando simultaneamente e cada um era responsável integralmente pelo produto que desenvolvia, da concepção ao desenho final das pranchas.

A conciliação com os estudos se dava com o sufoco de sempre. Como tínhamos as aulas concentradas numa única semana por mês em período integral, mesmo quando aconteciam fora da França, tínhamos por contrato que trabalhar em período integral nas outras três semanas, mas não raro (acho que quase sempre), saía da aula direto para o escritório nas famosas charretes. A experiência profissional é inegável em especial neste período de formação, sobretudo o contato com profissionais de orientação às mais distintas.

A produção de Kenzo Tange mudara sensivelmente entre seu período heróico dos anos 50/60, onde se destacavam os cores do Yamanashi Press ou do Shizuoka Shinbum, para os trabalhos dos anos 80, quando começa a fazer concessões à idéia da composição. O vigor de sua obra daqueles anos que tanto me encantara como estudante, parece que perdia um pouco de seu brilho original, mas a convivência dentro da empresa nos mostrava uma nova realidade. Novos comandantes de gerações mais novas assumiam postos chaves no destino da produção do escritório e embora o professor, como era chamado por todos, ainda tivesse controle de tudo que se produzia, era impossível não ceder às novas atitudes, mesmo porque a escala de trabalhos era global.

Após deixar o escritório tive a oportunidade de trabalhar em um ateliê próprio, onde pude executar minha primeira obra: uma peniche – transformação de um ex-petroleiro de canais em uma casa – que ficou atracado na porção residencial do rio Sena.

Inserção social da arquitetura e do arquiteto

Das realidades que vivenciei, em especial a francesa e um pouco a inglesa, pareceu-me esta última mais representativa ao arquiteto, embora a arquitetura tenha participado decididamente do projeto cultural do governo socialista de François Mitterand. Os grandes projetos da era socialista, cujo centro talvez tenha sido o Museu do Louvre, significavam um constante relançar da cidade de Paris como uma espécie de capital cultural da Europa e desde o advento do edifício do Beaubourg em 1977, que em pouco tempo transformara-se no maior centro de visitação do país, superior até mesmo à Torre Eiffel, já se confirmara o cacife que a arquitetura teria para alavancar este projeto.

Mitterand, como sabemos, realizou sete grandes obras, com mais ou menos sucesso, e nesta esteira entre os anos 80 e 90 houve um mercado de trabalho bastante aquecido na França. Hoje não me parece que a situação seja a mesma.

Balanço

Certamente foi uma experiência fundamental em minha vida pessoal e profissional e não hesitaria, como não hesito junto aos estudantes que me consultam, em indicá-la a quem se interessar. A nossa adaptação foi muito rápida, mas creio que devido a circunstancias de relações pessoais que nos deram o apoio. Normalmente as dificuldades existem em especial em se morar e morar adequadamente e o custo de tudo é muito alto.

Talvez uma das maiores conquistas que se possa ter, será sempre a das relações pessoais, que vamos estabelecendo ao longo de nossas vidas. E nestas circunstâncias mais do que pessoas você se relaciona com seus mundos.

Lembrando um pouco o arquiteto Henrique Mindlin, citado por Lauro Cavalcanti no prefacio do clássico Arquitetura Moderna no Brasil, este dizia a uma sua colega num passeio de carro pouco antes de sua morte: você já imaginou que aborrecida seria nossa vida se não conhecermos nenhuma pessoa nova daqui em diante?

Ficha técnica do primeiro projeto

projeto
Peniche - Barco residencia

autor
Fancisco Spadoni

construção
Turnier & Fréres

local
Paris/França

projeto
1989

execução
1990

dimensões do casco
23,00 X 7,00

área total transformada
322,00 m2

histórico

O cliente era um profissional da área comércio marítimo e já possuía duas outras peniches, sendo uma o famoso restaurante Martin Pecheur em Paris. Para este projeto recebemos apenas a metade do casco de um ex-petroleiro de canais, pois após completar sua vida útil eles são obrigados a serem partidos ao meio. Daí esta forma de meio navio que estas embarcações assumem. Existem bairros onde se permite a ancoragem destas embarcações para fins domésticos. Neste trabalho, o programa previa além da função casa, um ateliê gráfico para a esposa e um escritório para o proprietário. Como curiosidade, Le Corbusier também projetou uma peniche que está em Paris e hoje abriga a Armée du Salut – o exército da Salvação Francês.

série completa dos "Depoimentos da Geração Migrante"

GUERRA, Abilio. "Depoimentos de uma geração migrante", Arquitextos 030.00, São Paulo, Portal Vitruvius, nov 2002 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq030/arq030_00.asp>.

SPADONI, Francisco. "Geração Migrante – Depoimento 1. Kenzo Tange e uma peniche no rio Sena". Arquitextos 030.01. São Paulo, Portal Vitruvius, nov 2002 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq030/arq030_01.asp>.

LEONIDIO, Otavio. "Geração Migrante – Depoimento 2. Em Paris, chez Christian de Portzamparc". Arquitextos 030.02. São Paulo, Portal Vitruvius, nov 2002 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq030/arq030_02.asp>.

VIOLA, Assunta. "Geração Migrante – Depoimento 3. Arquitetura e criatividade: uma experiência com Massimiliano Fuksas". Arquitextos 030.03. São Paulo, Portal Viutrivus, nov 2002 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq030/arq030_03.asp>.

ORCIUOLI, Affonso. "Geração Migrante – Depoimento 4. De São Paulo a Barcelona". Arquitextos, Texto Especial 161. São Paulo, Portal Vitruvius, dez 2002 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp161.asp>.

OIWA, Oscar Satio. "Geração Migrante – Depoimento 5. Arte sem fronteira". Arquitextos, Texto Especial 162. São Paulo, Portal Vitruvius, dez 2002 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp162.asp>.

MOREIRA, Pedro. "Geração Migrante – Depoimento 6. Brasil, Inglaterra, Alemanha – 15 anos", Arquitextos, Texto Especial 163. São Paulo, Portal Vitruvius, jan 2003 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp163.asp>.

LIMA, Zeuler R. M. de A. "Geração Migrante – Depoimento 7. Migrar, verbo transitivo e intransitivo. Uma experiência nos Estados Unidos", Arquitextos, Texto Especial 164. São Paulo, Portal Vitruvius, jan 2003 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp164.asp>.

DIETZSCH, Anna Julia. "Geração Migrante – Depoimento 8. Uma dupla experiência nos Estados Unidos", Arquitextos, Texto Especial 172. São Paulo, Portal Vitruvius, mar 2003 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp172.asp>.

sobre o autor

Francisco Spadoni é arquiteto e professor da FAU Mackenzie.

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Depoimentos de uma geração migrante (editorial)

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