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architexts ISSN 1809-6298


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português
Assunta Viola, formada na FAU-USP, nos conta sua passagem pelo escritório em Roma do ex-curador da Bienal de Veneza, arquiteto Massimiliano Fuksas

english
Assunta Viola, formed in the FAU-USP, in regard to their passage through the office in Rome's former curator of the Venice Biennale, architect Massimiliano Fuksas


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VIOLA, Assunta. Arquitetura e criatividade: uma experiência com Massimiliano Fuksas. Geração Migrante: depoimento 3. Arquitextos, São Paulo, ano 03, n. 030.03, Vitruvius, nov. 2002 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/03.030/730>.

A partir do artigo publicado na seção Minha Cidade (1) por www.vitruvius.com.br, sob coordenação editorial do arquiteto Abílio Guerra, surge a possibilidade de narrar minha experiência de arquiteta brasileira trabalhando na Europa. Fico muito satisfeita em poder relatar porque as experiências vão fermentando na cabeça e na vida. Urge poder me manifestar, e por isso agradeço o interesse, primeiro dos editores e depois dos leitores.

A trajetória até chegar ao escritório Massimiliano Fuksas já foi descrita nesse artigo, em Vitruvius. Quando entrei no escritório de Fuksas para a entrevista no Vicolo della Frusta, com a arquiteta, sua assistente, no Trastevere em Roma, pensei: "Como gostaria de trabalhar nesse escritório!" Comecei três meses depois.

O escritório era muito simples, nada sofisticado. Quase um galpão, com as mesas para computadores – ferramenta novíssima no seu escritório no ano de 1994, oficina de maquetes, um plotter, uma máquina de xerox, a sala de reuniões do arquiteto, um atelier onde ele fazia suas pinturas e arquivos de projetos, além de uma pequena biblioteca, e a secretaria.

O modo de fazer o trabalho seguia muito o caráter pessoal do arquiteto. Essa experiência, devo dizer, não traduz a prática européia de modo geral. Fuksas, como arquiteto e pessoa, é bastante particular, cheio de energia criativa e de um caráter bastante forte, se pudéssemos comparar, poderia dizer que, do que li sobre o caráter, se assemelha a Picasso! Um vulcão criativo, uma gula criativa quase incontrolável, visceral. Por isso ele precisava em sua equipe de pessoas mais detalhistas, mais observadoras, que fossem capazes de concretizar tantas idéias espaciais que ainda não tinham sido traduzidas em espaços arquitetônicos verdadeiros. Suas primeiras idéias projetuais vinham dos quadros que ele mesmo produzia – ele foi assistente do pintor surrealista De Chirico. Suas representações de espaço eram pictóricas, no início, e para que isso se transformasse em espaço arquitetônico era fundamental o trabalho da equipe. Mas a Fuksas agradava um trabalho frenético, como ele próprio o é.

Os trabalhos desenvolvidos por ele eram trabalhos vindos de concursos internacionais. O concurso de arquitetura na Europa é um instrumento muito comum de contratação. No caso dele, como já fazia parte de um time ilustre de arquitetos, geralmente eram concursos por convite, participando ao lado de P.Eisenmann, R. Koolhaas, D. Perrault. Esses concursos eram sempre pagos, e sempre recebemos nos trabalhos desenvolvidos para concursos. Fuksas acompanhava de perto todos os processos de produção, da execução da maquete, que se dava na oficina de maquetes, aos desenhos, montagem, textos. Uma vez ganho o concurso, o projeto ia imediatamente para a fase de desenvolvimento. O detalhamento preciso se dava no canteiro, daí que Fuksas abria escritórios temporários dentro de cada canteiro em cada país onde tinha uma obra em andamento. A colaboração entre executores e fornecedores nessa fase era muito grande e intensa, mas sempre com a supervisão direta do arquiteto Fuksas. Mesmo que ele pessoalmente participasse mais da fase inicial do projeto, sua presença era freqüente em todas as fases do projeto e nenhum desenho ou idéia saía do escritório sem que ele tivesse visto e intervindo diretamente sobre ela. A hierarquia dentro do escritório praticamente não existia. Os contatos, na época, com Fuksas, eram diários, e portanto o trabalho cotidiano bastante tenso, pois seu nível de exigência era bastante grande. Esse modo de fazer as coisas fazia com que Fuksas, mesmo sob uma fortíssima tensão, tirasse de sua equipe o máximo de criatividade.

Como é intrínseco aos projetos, difícil manter uma grande equipe quando os projetos e obras estão em fase de finalização. Portanto, a equipe variava muito em número de pessoas, sempre arquitetos formados, jamais estagiários. A contratação direta era difícil, geralmente os contratos eram feitos por um curto período (de três a seis meses) e depois, eventualmente renovados.

No meu caso em especial – talvez aqui resida a curiosidade da experiência para os leitores brasileiros, eu arquiteta brasileira trabalhando com o arquiteto Fuksas, as coisas se desenvolveram assim.

Tivemos especial empatia. Conheci-o depois de duas semanas da etapa do projeto posterior ao concurso para o Centro Comercial Europark, em Salzburg, Áustria. Nesse período ele estava em Paris. "Allora sei stata assunta?" (em italiano, termo usado para contratada). "Non lo so. Me lo deve dire Lei." (não sei, o senhor é que deve me dizer, respondi).

Logo depois desse trabalho de desenvolvimento, Fuksas começou os trabalhos para o Concurso de Genebra, na Suíça. Sua fúria criativa me encantava e me estimulava. Por minha vez, minha rapidez em entender do que ele falava e o que pensava em meio aos borrões que produzia nas telas, a produtividade de que eu era capaz, o empolgava. Por isso, apesar de ter sido chamada apenas para uma "charrette", fiquei três anos em seu escritório por vontade única e exclusivamente dele. Voltei por minha única e exclusiva vontade.

Fazia parte do repertório de Fuksas a experiência brasileira da arquitetura moderna. Na época, a exposição da arquiteta italiana radicada no Brasil, Lina Bo Bardi, tinha passado pelo Arsenale, Paris, e Fuksas a citava constantemente, a ela e a Oscar Niemeyer, com livros deles em sua biblioteca.

Havia dois momentos muito distintos da produção: além de extremamente criativo, Fuksas era um arquiteto muito bem informado e com uma formação muito ampla. Antes que o projeto entrasse em fase de elaboração, a equipe de arquitetos estudava e discutia minuciosamente o programa vasto e detalhado que era entregue nas etapas iniciais dos concursos. Uma vez estudado todo o programa, desde o ponto de vista das necessidades espaciais, legais, ambientais, urbanas, Fuksas tinha em mãos todas as informações e limitações que o podiam orientar na criação de seu objeto arquitetônico. Mas essas características não estavam resumidas apenas nele. Era fundamental a equipe que trabalhava junto a ele.

Arquitetos do mundo inteiro procuravam a oportunidade de trabalhar em seu escritório. As equipes eram sempre formadas de arquitetos de diversas partes do mundo, a comunicação verbal chegava a ser engraçada, mas talvez o caráter forte do arquiteto e a prática profissional dos componentes da equipe ajudavam a uma comunicação mínima, mas aconteciam curto-circuitos.

Além das telas feitos por Fuksas, vários outros meios eram usados para o estudo dos projetos: desenhos, maquetes, modelos, modelos eletrônicos....Roma era a sede de seu escritório, onde geralmente eram feitos os concursos, o ambiente era quase furioso tão grande era a exigência do trabalho, a tensão que lhe agradava criar, acreditando que isso aumentasse a criatividade da equipe. Não preciso dizer que se quase não enlouqueci, cheguei bem perto de uma estafa!

A experiência em Paris, no entanto, foi um pouco diferente da de Roma. Quando se chegava em Paris, geralmente tínhamos passado por Roma, por toda a tensão dos concursos e prazos exíguos. Em Paris, trabalhei no desenvolvimento do projeto Massimilian Perret, que estava em obras, em Alfortville. Diferente de Roma, onde cheguei a trabalhar 36 horas seguidas – junto a toda a equipe para finalização do concurso da Praça das Nações, em Genebra, Suíça, em Paris trabalhávamos apenas o horário "comercial". Acompanhei o arquiteto Fuksas a Genebra para a premiação do concurso da Praça das Nações e mais uma vez pude presenciar a sabatina que foi a segunda fase do concurso, também levado a bom termo pelo escritório.

Em Paris, tive a oportunidade de conhecer colegas do escritório do arquiteto italiano Renzo Piano. Fui visitar seu escritório quando morava lá em 96 e depois em 98 em visita por ocasião da inauguração da Potsdamer Platz, conheci o escritório montado em Berlim para o desenvolvimento desse grandíssimo projeto. Sendo escritório muito mais rico, a quantidade de trabalho que era feito lá era algo impressionante. Os estudos que eram feitos em termos de representação, nas mais diversas escalas e com o uso dos mais diversos recursos expressivos, estudos de materiais, estudos mecânicos, chegando a estudos químicos de composição de materiais era algo estupidamente sofisticado. Modelos dos detalhes em escala 1:1, junções estruturais, estudo das relações de mobiliário e espaço, algo que creio jamais verei outra vez!

No entanto, creio que as possibilidades existentes na Europa resultam também em outros tipos de situações talvez um pouco estranhas a nós. Apesar de ganho o concurso de Fuksas para a Praça das Nações, em Genebra, este não será construído, mesmo que tenha sido contratado pela cidade de Genebra, supervisionado pelos diversos cantões, etc, pois através de um referendum popular o projeto foi vetado. Diversas manifestações de repúdio ocorriam em Paris, no bairro da Bastilha, em relação a um projeto construído de Fuksas, pixações no edifício que projetara. Na Europa, a Arquitetura passa por críticas, ela é uma manifestação cultural e passível de críticas, não do ponto de vista mercadológico, mas do ponto de vista das diversas visões culturais. As questões urbanas fazem parte do cotidiano do cidadão assim como as medidas econômicas e governamentais.

Devo dizer ainda, neste meu depoimento, que o arquiteto Fuksas tinha para comigo muito respeito, assim como eu por ele. Quando solicitei ao escritório de Roma que me enviasse material para publicação em Vitruvius (Arquitextos especial número 107) (2), fui atendida em tudo, retomando meu contato com o arquiteto. Apenas não consegui fazer uma entrevista, pois ele estava ocupado com a Bienal de Veneza, mas me atendeu muito solicitamente. Só pude ver os resultados dessa interessante experiência voltando para o Brasil e começando meus próprios trabalhos.

Quanto às questões legais, validade de diplomas, etc. sei que na França o diploma da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP é válido. Não tentei validar meu diploma, gostaria de trabalhar no Brasil. Quanto à remuneração, fui remunerada como todos os meus colegas, aliás, vi muitos deles serem dispensados. Como o arquiteto Fuksas era já um arquiteto de prestígio, pouco interessava às pessoas que lá trabalhavam as questões trabalhistas, e claro, isso era relativamente cômodo ao arquiteto.

No meu caso, recebei alguns aumentos ao longo do período, inclusive férias, mesmo não sendo registrada. Sei apenas que o trabalho com arquitetura na Europa também não é fácil, a concorrência nos países europeus é muito grande porque arquitetos de todo o mundo procuram experiências por lá, além dos arquitetos autóctones, com suas mais diversas experiências e mais diversas formações.

Acredito que o trabalho por lá seja mais diluído do que aqui. Os escritórios pequenos também têm acesso a projetos de maior alcance, existem concursos levados a cabo, estudo preliminar, projeto executivo e obra concluída, uma crítica de arquitetura, matérias sobre arquitetura são publicadas em meios de grande divulgação como revistas semanais e jornais diários, o cidadão comum tem mais familiaridade com o valor de uma obra arquitetônica do que aqui. E a arquitetura por lá tenta – nem sempre consegue – ser uma disciplina dinâmica, engajada, participativa e não apenas restrita às universidades e museus. Essa foi minha experiência por lá. Talvez não seja sempre assim, foi o que tive a oportunidade de ver e viver.

Mas essa fascinante experiência não morreu aí. Voltando ao Brasil, tive a oportunidade de trabalhar com o arquiteto Joaquim Guedes, velho professor como ele mesmo se intitula, num trabalho menor, e por isso onde o detalhe, a precisão, o cuidado eram de uma importância única e vital, e por ser seu método muito mais reflexivo, detalhista, mental, e não por isso menos criativo, a experiência foi complementar àquela e igualmente fascinante: o fascínio de trabalhar com arquitetura no seu sentido mais cristalino, mais verdadeiro é algo que não poderei esquecer jamais. O que mais me encanta no trabalho é o próprio trabalho. E tive a oportunidade de presenciar a angústia da criação em muitas situações, e de formas diversas. A angústia da criação e a coragem dela!

Acredito que ao Brasil falta apenas a coragem de errar, de propor, de inventar, de se arriscar, arriscar-se a pensar, a fazer, a errar e assim prosseguir!

E assim evoluir, e assim fazer do cotidiano um lugar constante de criação, essa nos corre nas veias, a nós brasileiros, basta sentar e fazer!

notas

1
VIOLA, Assunta. "Atravessando as fronteiras. Minha experiência na Casa do Brasil em Paris". Minha Cidade nº 052,São Paulo, Portal Vitruvius, jul 2002 <www.vitruvius.com.br/minhacidade/mc052/mc052.asp>.

2
FUKSAS, Massimiliano. "Magma: fim da centralidade, fim da forma urbana". Arquitextos, Texto Especial 107, São Paulo, Portal Vitruvius, nov 2001 <http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp107.asp>.

série completa dos "Depoimentos da Geração Migrante"

GUERRA, Abilio. "Depoimentos de uma geração migrante", Arquitextos 030.00, São Paulo, Portal Vitruvius, nov 2002 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq030/arq030_00.asp>.

SPADONI, Francisco. "Geração Migrante – Depoimento 1. Kenzo Tange e uma peniche no rio Sena". Arquitextos 030.01. São Paulo, Portal Vitruvius, nov 2002 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq030/arq030_01.asp>.

LEONIDIO, Otavio. "Geração Migrante – Depoimento 2. Em Paris, chez Christian de Portzamparc". Arquitextos 030.02. São Paulo, Portal Vitruvius, nov 2002 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq030/arq030_02.asp>.

VIOLA, Assunta. "Geração Migrante – Depoimento 3. Arquitetura e criatividade: uma experiência com Massimiliano Fuksas". Arquitextos 030.03. São Paulo, Portal Viutrivus, nov 2002 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq030/arq030_03.asp>.

ORCIUOLI, Affonso. "Geração Migrante – Depoimento 4. De São Paulo a Barcelona". Arquitextos, Texto Especial 161. São Paulo, Portal Vitruvius, dez 2002 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp161.asp>.

OIWA, Oscar Satio. "Geração Migrante – Depoimento 5. Arte sem fronteira". Arquitextos, Texto Especial 162. São Paulo, Portal Vitruvius, dez 2002 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp162.asp>.

MOREIRA, Pedro. "Geração Migrante – Depoimento 6. Brasil, Inglaterra, Alemanha – 15 anos", Arquitextos, Texto Especial 163. São Paulo, Portal Vitruvius, jan 2003 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp163.asp>.

LIMA, Zeuler R. M. de A. "Geração Migrante – Depoimento 7. Migrar, verbo transitivo e intransitivo. Uma experiência nos Estados Unidos", Arquitextos, Texto Especial 164. São Paulo, Portal Vitruvius, jan 2003 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp164.asp>.

DIETZSCH, Anna Julia. "Geração Migrante – Depoimento 8. Uma dupla experiência nos Estados Unidos", Arquitextos, Texto Especial 172. São Paulo, Portal Vitruvius, mar 2003 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp172.asp>.

sobre o autor

Assunta Viola é arquiteta é formada pela FAU-USP e atua em São Paulo SP.

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