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arquitextos ISSN 1809-6298


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O arquiteto mineiro elogia a obra exemplar de Oscar Niemeyer, mas pede sua aposentadoria devido sua onipresença nas novas encomendas das mais variadas instâncias governamentais


como citar

PODESTÁ, Sylvio Emrich de. Carta aberta ao arquiteto Oscar Niemeyer. Arquitextos, São Paulo, ano 04, n. 040.00, Vitruvius, set. 2003 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/04.040/649>.

Como bem sei, de ver e de ouvir falar, o senhor é o mais importante arquiteto do Brasil, um dos mais importantes do mundo. Mesmo assim, sempre disse, sabiamente, que não é arquitetura a coisa mais importante que existe, mas a luta para que nosso povo sofrido tenha chance de um dia usufruir desse mundo vasto mundo.

Sua arquitetura, voltada para a construção de uma sociedade justa e socialmente correta, é o resultado de um pensamento que privilegia a beleza, a conquista técnica. E os anos e anos de labuta no Brasil, no exílio e novamente no Brasil, mostram a importância da sua presença diária aí nesse predinho gostoso de Copacabana, cheio de curvas arquitetônicas e com vista para as curvas cariocas – que segundo suas palavras sempre foram fonte de inspiração, a vida toda.

O mesmo se pode dizer de sua onipresença: sem viajar de avião, o senhor está por todo o Brasil: nas inúmeras obras, nas eventuais e longas viagens de carro, e até na moderníssima via tecnológica da videoconferência – como foi o caso do título honoris causa recebido virtualmente pelo senhor da Universidade da Paraíba, uns dois anos atrás.

Os vários honoris, outros tantos au concours e notórios saberes, todos merecidos, creio eu, são uma honra, claro, mas têm trazido alguns males à classe que o senhor sempre defendeu com tanta galhardia.

Vejamos um talvez insignificante exemplo disso: em fins da década de 80, um jovem arquiteto fez um projetinho para auditório de 200 lugares, em Rio Verde, GO; um dia foi bruscamente interrompido em seu trabalho por uma placa fincada no terreno do futuro teatrinho que, em letras garrafais, anunciava seu forte nome como o autor da peça em andamento (a placa ficou lá uns 10 anos, enferrujou, e nem o seu projeto nem o projetinho do jovem arquiteto vingaram).

Outro: em Uberlândia, MG, projeto de sua autoria, feito às pressas (o Cassino também foi feito assim e ficou lindo!), substituiu o de um arquiteto da cidade (resultado de concurso, com verbas garantidas), só porque os políticos locais queriam colocar o Triângulo Mineiro no circuito nacional da arquitetura que leva sua grife (mas só ficou na intenção: no local, hoje, há apenas ruínas de uma obra eleitoreira).

Existem outros exemplos. E seja pelo que for – sua inapetência por deslocamentos e/ou o ágil deslocamento de seus representantes –, o fato é que seu traço tem atropelado as manifestações culturais de caráter local, como se não existisse arquitetura fora do eixo Rio/São Paulo.

Outro dia mesmo me hospedei no Grande Hotel de Ouro Preto, de sua autoria. Com perdão das exclamações, mas que beleza!, que vista!, que inserção fantástica!, e que contraponto riquíssimo com a Casa dos Contos! Lembrei-me na hora de JK, dos seus projetos em Diamantina e da incrível Pampulha: a Igrejinha de São Francisco, a Casa do Baile, o Iate, o Cassino –obras que mudam a forma de ver arquitetura no Brasil e no mundo. E o que dizer do Bemge, do Colégio Estadual, do edifício Tancredo Neves, da Biblioteca e a nossa (sua) maior utopia mineira, o Conjunto JK? Isso me fez também lembrar: nunca uma cidade foi tão importante para as suas obras. Nunca um político teve tanta visão como nosso incrível Juscelino, que pavimentou para o senhor um caminho ímpar, incontestável no que tange à arquitetura como invenção e cultura.

Mas incomoda o fenômeno que de uns tempos para cá vem se repetindo em todo o país: prefeitos, governadores, secretários de cultura e até amigos se utilizam de seu nome para aparecer na mídia nacional e, pior, para avalizar suas (deles) ações e seus (deles) governos – muitas vezes medíocres ou medrosos ou simplesmente indefensáveis.

São teatros e museus para tudo quanto é lado, monumentos – e até coretos. São tantas e tantas coisas que sua ausência – ou a presença de seus representantes – não consegue acompanhar. Mais ainda: é uma prática tão intensa que, me parece, é a responsável pelo sumiço dos concursos, all concursos, ficando nós, reles e mortais arquitetos, sem conseguir nem fazer um auditoriozinho em rioverdinhonenhum.

Aqui em BH, cidade que tanto ajudou o prestígio que o senhor hoje desfruta, desde aquele grande começo profissional, nossa prefeiturinha e nossa secretariazinha de cultura estão mais uma vez convocando sua presença, notoriamente sabendo: a primeira, para fazer um terminal de ônibus urbano na Pampulha (projeto que já foi motivo de concurso, ganho por arquiteto local, desenvolvido e pago); a segunda, para criar um anexo para o Museu da Pampulha (para o qual havíamos sugerido um concurso nacional ou internacional, com edital contendo sugestões do senhor para que o seu projeto se relacionasse bem com este vizinho); e, finalmente, o governinho quer mudar a Praça da Liberdade, e o que acontece? Convoca novamente o senhor para fazer o seu futuro centrinho administrativo.

O senhor está sem serviço? A gente compreende, o Brasil inteiro está meio assim, sem serviço. Mas o senhor não é comunista, daqueles que topam dividir? Então faz isso! Fica quieto aí no Rio com essa vista gostosa das cariocas gostosas e deixa a gente quieto por aqui. O que o senhor fez por aqui está bom, está ótimo. Mas chega.

Curta a vida, vá à praia, fume aquele charuto, ou cigarrilha fideliana com tranqüilidade, curta o Rio que continua lindo e deixe a gente começar finalmente nossa vidinha, mesmo que tão tarde e tantas vezes interrompida (E tem mais. Se o nosso governador quer realmente um projeto, o senhor nem precisa sair da cidade: ele vive por aí).

Grande abraço do colega que sempre o admirou, mas...

notas

1
Texto originalmente publicado no Cometa Itabirano, n. 280, setembro de 2003

sobre o autor

Sylvio Emrich de Podestá, engenheiro arquiteto pela escola de arquitetura da UFMG, foi editor das revistas Vão Livre e Pampulha. Atualmente é sócio-presidente da AP Cultural, editora especializada em publicações de arquitetura, design e interiores, e sócio-diretor do escritório Sylvio E. de Podestá Arquitetura Associados Ltda.

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