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architexts ISSN 1809-6298


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A obra do arquiteto renascentista Fillipo Brunelleschi visto de uma ótica que parte da dialética entre o conceito e a técnica, entre o pensar e o fazer, postura que se materializa em um método projetivo que irá influenciar toda uma geração.


how to quote

MIGUEL, Jorge Marão Carnielo. Brunelleschi: o caçador de tesouros. Arquitextos, São Paulo, ano 04, n. 040.02, Vitruvius, set. 2003 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/04.040/651>.

O ufanismo do descobrimento de novas terras, a descoberta da tipografia, a retomada da linguagem e pensamento clássicos (a inclusão, como conseqüência, da descoberta da própria história) e posturas científicas (como a de Galileu Galilei) são idéias e práticas que fizeram do Renascimento um período profícuo no surgimento de individualidades artísticas.

O pensar individual foi um contraponto ao sentido de coletividade do período anterior e para esta mudança foi necessário romper com as amarras impostas pela Igreja. Para se pensar há que se questionar a materialidade e a espiritualidade, há que se ter a liberdade individual em contrapartida aos dogmas impostos.

Conceito e técnica. Pensar e fazer. A partir desta referência inicial podemos percorrer os caminhos de um arquiteto renascentista e entender como estão associadas estas posturas a um método projetivo que irá influenciar toda uma geração.

Surge o ano de 1377. Nasce, em Florença, Fillipo Brunelleschi. Algumas décadas depois Gutemberg descobre a tipografia, o que irá permitir o acesso aos livros Vida dos mais excelsos pintores, escultores e arquitetos, de Giorgio Vasari, e Il libro del Cortegiano, de Baltasar Castiglione (1), nos quais expõem, entre outras biografias, a vida de Brunelleschi. Sobre ele, Vasari irá dizer que era baixo e feio porém genial e tinha uma inteligência brilhante como ouro em terra suja. Leal, afetuoso, indulgente, humilde e tão inimigo do vício como amigo da virtude. Um modelo não somente de artista como também de homem, com um coração tão grande quanto a cúpula que ele mesmo havia projetado para a catedral de Florença.

Brunelleschi dá início ao domínio da técnica quando, ainda jovem, descobre sua capacidade inventiva e de representação, chegando a confeccionar objetos de pedras preciosas e relógios, cujos mecanismos buscava aperfeiçoar. Nesta fase conhece Donatello, seu fiel parceiro por longos anos, com quem compartilha o gosto pela escultura.

Um primeiro exemplo do domínio da técnica surge numa ocasião em que Donatello mostra a ele um crucifixo que havia talhado e Brunelleschi, de um modo irônico, responde:

— Você pôs um homem do campo na cruz.

Donatello rispidamente responde:

— Então, talhe um você.

Daquele desafio surgiu um Cristo que hoje está na igreja de Santa Maria Novella e contam que Donatello ao ver o trabalho feito por Brunelleschi, dando-se por vencido, diz:

— A ti foi concedido talhar os Cristos e a mim os homens do campo.

Brunelleschi, através da escultura passa a ter domínio da técnica dos materiais, da escala humana e da qualidade expressiva, associando mente e mão como procedimento de dar forma a um modo de pensar.

Um outro exemplo, agora passando da escultura para o espaço construído, e que lhe dará a fama como arquiteto, foi a já conhecida proposta para a cúpula da Catedral de Santa Maria del Fiore, em Florença. Arnolfo di Camlio quando projetou esta catedral e iniciou sua construção, não imaginava que Florença não estivesse preparada para dar termo à elevação de andaimes de tal envergadura. Quando a consulta foi feita a Brunelleschi, este aconselhou às autoridades que convocassem os melhores artesãos para debater a obra da cúpula. Daquelas reuniões surgiram soluções das mais tradicionais às mais inusitadas, desde sustentá-las com colunas como preencher o grande vazio com terra mesclando a ela moedas de ouro. Uma vez terminada a cúpula, todos os homens de Florença seriam chamados para retirar a terra com a promessa de poderem ficar com as moedas de ouro que encontrassem. Após estas propostas às vezes absurdas e irrealizáveis, Brunelleschi apresenta a sua que, a princípio, também dava a impressão de ser impossível a sua realização. Baseava-se nos princípios clássicos e defendia a construção de dupla cúpula que absorveria suas próprias tensões. Para sua execução prevê um andaime, inventado por ele, e uma grua para o translado dos materiais. Pôs em prática um método para a sustentação da cúpula, inventou as máquinas necessárias à construção e executou o projeto sem utilizar o cimbre, armação de madeira que serve de molde e suporte aos arcos e abóbadas e retirados depois de completada a obra.

Assim, a cúpula será construída e dará fama a Brunelleschi que passará a ter seu nome associado a um grande construtor e técnico de alta capacidade e genialidade.

Um outro momento marcante ocorre durante a construção da Catedral, quando tem a responsabilidade pela execução. Os trabalhos corriam normalmente até o momento em que os operários, indignados com o valor que recebiam, resolvem entrar em greve, paralisando todos os trabalhos. Brunelleschi não se intimida e percorre as ruas de Florença recrutando mendigos e pobres que encontra pelo caminho, levando-os ao canteiro de obra e ensinando o trabalho que deveriam realizar. Tudo volta à normalidade a não ser pela indignação dos antigos operários que vão até ele e pedem o retorno ao emprego. Brunelleschi concorda desde que passassem a receber menos do que antes da greve e eles, sem opção, não tendo como negar, aceitam e voltam ao trabalho normalmente. Apesar de ser uma ação questionável, revela uma clareza e um domínio que não cabe contestação. Ensina porque tem em mente todas as fases do processo construtivo. Ensina porque tem o domínio do fazer.

Os exemplos apresentados até aqui refletem como Brunelleschi desenvolve um modo pessoal de compreensão da técnica construtiva, com um olhar no seu tempo presente. Domina a técnica desde a elaboração de objetos artesanais, passando pela escultura e desembocando na grande temática construtiva. Este saber olhar o mundo à sua volta, entender as características próprias dos materiais, sua maleabilidade, mecanismo e procedimento de composição, preparam-no para um dos caminhos mais férteis que o arquiteto há de trilhar.

Com o domínio da técnica, o saber fazer resolvido, abre-se a imensa porta que o saber pensar possibilita.

O primeiro ponto que podemos elucidar quanto ao pensar o espaço segundo Brunelleschi é a sua descoberta e aplicação das leis da perspectiva linear. Haverá, a partir deste descobrimento, uma mudança cultural do modo de ver e do modo de representar, quando a expressão plástica adotará uma visão do espaço perfeitamente mensurável, construído cientificamente e representado segundo normas matemáticas.

Brunelleschi ao descobrir a perspectiva linear, será o primeiro arquiteto a pensar e conceber a arquitetura como espaço. Esta ciência irá superar os limites da prática pictórica e irá constituir a base nova das artes que têm o desenho como princípio (a pintura, a escultura, a arquitetura e a cenografia teatral).

Assim explica o conceito da perspectiva do seguinte modo: a perspectiva consiste em dar com exatidão e racionalidade a diminuição e o aumento das coisas, que resulta para o olho humano o afastamento ou a proximidade das casas, planos, montanhas, paisagens de todas as espécies.

Ao elaborar o conceito de perspectiva e aplicá-lo nas igrejas de Santo Espírito posiciona o ponto de fuga na imagem de Cristo, no centro do altar, colocando-o como o centro referência, para onde todos os olhos deveriam estar fixados. No entanto, surge uma questão interessante: quando abordamos, no início deste escrito, a influência das posturas de Galilei Galilei (1520-1591) quanto ao Renascimento, há em Brunelleschi um prenuncio do pensamento do grande cientista. Por mais que a imagem de Cristo no altar constitua o ponto de referência, como seria o sol em relação aos planetas, cada indivíduo ao estar posicionado dentro do espaço-igreja terá seu ponto de vista individual. Há uma centralidade espacial, porém não há um centro temporal, o que levará Brunelleschi, posteriormente, propor a igreja de plano central da Capela Pazzi.

A perspectiva, utilizando princípios matemáticos, tornou possível a representação de um espaço tridimensional a partir de uma superfície plana. A nova técnica de representação, conhecida como “perspectiva artificialis”, de rigorosa exatidão matemática, apresenta um método novo de concepção do espaço, de um espaço equivalente em todas as suas partes, homogêneo e constante. A “perspectiva artificialis” pressupõe um mecanismo da visão com um ponto único e imóvel, colocando um plano de abstração em respeito às condições naturais da visão, pois pressupõe uma visão mono-ocular e imóvel, ignorando a curvatura do campo visual, conhecida desde a antiguidade. A perspectiva linear constitui uma criação mental e abstrata, um “modo de ver” e de constituir o espaço.

Aprender a ver, aprender a dominar a técnica, apreender os aspectos sociais e culturais são requisitos indispensáveis para que o arquiteto possa dar vazão para o que há entre a razão e a ação. Para Brunelleschi faltava apenas o domínio de uma linguagem arquitetônica que pudesse refletir a ansiedade renascentista, visto que a arquitetura gótica já não seria representativa do “quatrocentto”. Surge a retomada de uma “língua morta”, ou seja, haverá o retorno do clássico, tão esquecido durante a Idade Média, e os olhos encaminham-se para o conhecimento da arquitetura greco-romana. Descobre-se o valor da história e com ela a retomada de princípios harmônicos, rítmicos, de simetria e de proporcionalidade. Retoma-se a tríade vitruviana de utilitas, firmitas e venustas e a redescoberta da composição, amparada na seção áurea como base formadora do kosmos arquitetônico.

Será Brunelleschi, com seu fiel escudeiro, Donatello, mais uma vez, quem irá atrás deste conhecimento. Surge o impasse: como dominar a linguagem clássica?

Após o término de alguns pequenos trabalhos, resolve seguir, em suas próprias palavras ao lugar “onde a arquitetura e as esculturas são boas: Roma”.

Vende algumas terras que possui e põe-se a caminho desde Florença, acompanhado de Donatello, com o intuito de investigar as ordens arquitetônicas, suas medidas e composições. Ambos sobreviverão realizando pequenos trabalhos e passarão a maior parte do tempo contemplando, desenhando e medindo as ruínas romanas. Palmo a palmo estudarão o Coliseu e, sobretudo, o Panteon, de onde tirarão a idéia de que a perfeição tem planta central e cúpula, o que levará Baltasar Castigione escrever posteriormente, em 1528: “De Deus nasce a beleza, e é como um círculo cujo centro é a bondade; e como não pode existir círculo sem centro não pode existir beleza sem bondade”.

A árdua busca dos florentinos, corpos sujos e machucados, roupas rasgadas e sujas faz com que os romanos, sem entender a busca incansável dos dois, começassem a chama-los de “caçadores de tesouros”, pois pensavam que era isto que buscavam ao remexer espaços e paredes de construções tão antigas. Assim fala Antonio di Tuccio Manetti, outro biógrafo de Brunelleschi: “ao observar as esculturas viu o modo de construir dos antigos e suas simetrias, e ficou iluminado ao perceber uma certa ordem dos membros e do vazio, como o modo como Deus deu a muitas coisas Parecendo-lhe muito diferente do que se usava naquele tempo, propôs-se reencontrar o modo excelente e de grande artifício de construir dos antigos e suas proporções musicais e vendo as grandes construções e difíceis que entre elas havia, não deixou de tratar e compreender os modos e instrumentos que aqueles haviam manejados”.

Uma enfermidade inesperada faz com que Brunelleschi volte à Florença, interrompendo seus estudos, porém regressa com idéias tão antigas e esquecidas que irão surgir como novas. Haverá, a partir deste retorno, o abandono da linguagem gótica, não apenas por parte de Brunelleschi, mas como uma definição inovadora de um modo de pensar a arquitetura. Os olhos voltam-se à magia da linguagem clássica e ao processo compositivo, em que palavras como simetria, ordem, regularidade, ritmo, proporção voltarão a ser, de modo incisivo, empregados.

A descoberta deste “tesouro” irá alastrar-se e influenciará tantos outros arquitetos, como influenciou Filarete, que diz: “Eu também gostava dos edifícios modernos, porém quando comecei a apreciar os edifícios clássicos, deixei de gostar dos primeiros”.

Surge o Renascimento pela mente e mãos de Brunelleschi. Apresenta-se um arquiteto que integra o pensar e o fazer. Domina a técnica e com ela a inovação de procedimentos. Porém, jamais, deixa de buscar o novo, mesmo que este se ampare em procedimentos escondidos nas entranhas da história.

Em 16 de abril de 1446, morre Filippo Brunelleschi e Florença perde “o maior artista depois dos gregos e romanos”.

notas

1
Para algumas passagens da vida de Brunelleschi, utilizamos como referência o livro Vidas Construidas – biografias de arquitectos, de Anatxu Zabalbescoa e Javier Rodrigues Marques, Editoria Gustavo Gilli:Barcelona, 2002.

sobre o autor

Jorge Marão Carnielo Miguel é doutor pela FAUUSP, professor de Teoria da Arquitetura do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Londrina e coordenador do Curso de Especialização “Arquitetura e Pós-Modernidade: Composição e Linguagem” da UEL.

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