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architexts ISSN 1809-6298


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Autor defende que a obra de Affonso Eduardo Reidy faz parte da vertente silenciosa da arquitetura moderna brasileira, que parte de Lucio Costa e busca a síntese entre a arquitetura moderna européia, as tradições construtivas e urbanas locais

español
El autor defiende que la obra de Affonso Eduardo Reidy es parte de un camino silencioso de la arquitectura moderna brasileña, que parte de Lucio Costa y busca la síntesis entre arquitectura moderna europea, las tradiciones constructivas y urbanas locales


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MAHFUZ, Edson. The importance of being reidy. Arquitextos, São Paulo, ano 04, n. 040.03, Vitruvius, set. 2003 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/04.040/652>.

Ainda que de um modo caricatural, podemos falar de dois caminhos que foram se abrindo na arquitetura moderna brasileira a partir dos seus inícios na década de 1930. De um lado, um caminho silencioso, de síntese entre a arquitetura moderna européia, as tradições construtivas e urbanas locais, e os problemas reais do país. Lúcio Costa é o representante mais ilustre deste caminho. Por outro lado, uma via que, especialmente no período pós-Brasilia, opta pela concentração na aparência do objeto arquitetônico, reivindica como valores fundamentais sua originalidade e ineditismo, e resulta mais preocupada em afirmar a “artisticidade” do projeto do que em resolver os reais problemas arquitetônicos de um país em desenvolvimento. Esta via, crescentemente egocêntrica e auto-expressiva, tem como representante máximo Oscar Niemeyer, arquiteto cujo objetivo máximo ainda é, aos 95 anos de idade, causar espanto e assombrar os usuários dos seus edifícios. O estado indigente da arquitetura brasileira neste início de século pode ser parcialmente explicado pelo abandono do caminho aberto por Lúcio Costa, em benefício da opção “artística” ou da pura importação de modas estrangeiras (2).

A obra de Affonso Eduardo Reidy não apenas faz parte da vertente silenciosa da arquitetura brasileira como é um dos seus principais representantes. Talvez o esquecimento a que Reidy foi relegado por um longo tempo se deva exatamente ao fato de praticar uma arquitetura discreta e nada preocupada em deixar marcas ou criar impacto. Apenas recentemente seu trabalho começou a receber a atenção que merece, mas qualquer exame superficial da arquitetura produzida no Brasil durante o século vinte é suficiente para que se reconheça a importância de Reidy, infelizmente falecido no auge da sua capacidade produtiva.

Como a de muitos arquitetos brasileiros que desenvolveram sua prática a partir dos anos 1930, a arquitetura de Reidy se desenvolve a partir de duas origens importantes: a influência intelectual de Lúcio Costa, e a absorção de elementos da obra de Le Corbusier, notadamente combinando os “5 pontos para uma nova arquitetura” com alguns tipos ou estruturas formais extraídas da sua obra. No entanto, não é a afiliação corbusiana que define a importância da sua obra, mas o modo em que esta é desenvolvida e transcendida. Muitos, em várias partes do mundo, também usaram como ponto de partida o sistema formal criado por Le Corbusier, mas poucos foram capazes de ir além do seu uso como imagen aggiornata e adaptá-lo tão bem às realidades locais quanto Reidy.

Nos seus projetos aparece um número restrito de elementos que vão sendo recombinados de modo diferente a cada nova situação. O elemento universal desse repertório é o edifício linear, usualmente um bloco retangular que aparece em vários tamanhos e alturas, utilizado de modo isolado, combinado com outros, dobrado ou curvado para adaptar-se ao programa ou ao sítio. Também é evidente a presença de um número de estruturas formais derivadas de Le Corbusier como, por exemplo:

  • O esquema Pavilhão Suíço: uma placa de vários pisos que abriga a parte repetitiva de um programa, acompanhada de um corpo mais baixo, de configuração simples ou complexa, que abriga os componentes especiais do programa (empregado por Reidy no projeto para a Prefeitura do Rio de Janeiro);
  • A torre tripartida, de planta retangular ou hexagonal, com elementos especiais na planta baixa e na cobertura (presente no projeto para a Viação Férrea do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre);
  • O edifício linear curvo, talvez derivado do projeto de Le Corbusier para o Rio de Janeiro, e evidente nos conjuntos do Pedregulho e Marquês de São Vicente;
  • Solução seccional para terrenos em declive, com um pilotis no nível da rua e vários andares abaixo e acima dele, utilizado também nos dois conjuntos citados acima, e originado no arranha-céu que Le Corbusier projetou para Argel..

Mas a importância de Affonso Eduardo Reidy no panorama da arquitetura moderna brasileira reside no fato de que o repertório herdado de Le Corbusier vai gradualmente se refinando e ampliando na medida em que enfrenta cada encargo específico. Em cada projeto, o significado não emana dos elementos componentes, mas das relações estabelecidas entre eles, cuja lógica é parcialmente decorrente do sítio e do programa, mas não se resume a isso. Parece claro que o passo crucial em cada projeto é o estabelecimento de relações formais e funcionais entre as partes, assim como entre o todo e os elementos do entorno circundante. Na obra de Reidy, as exceções formais ao sistema geral nunca são resultado de um capricho pessoal, mas respostas à potencialidades latentes no programa ou sítio, como bem ilustram as barras curvas presentes nos conjuntos do Pedregulho e Marquês de São Vicente.

Ao contrário de muitos arquitetos modernos da segunda ou terceira geração, para Reidy o diálogo com a cidade tradicional era sempre um aspecto fundamental do processo criativo, não apenas quando projetava no casco histórico do Rio de Janeiro, mas também quando tinha que criar uma nova condição urbana em áreas periféricas da cidade.

As características evolutiva, relacional e urbana da obra de Reidy são lições que deveriam ser bem estudadas por aqueles preocupados em recuperar o bom nível geral que a arquitetura brasileira apresentava até a década de 1960. Elas aparecem com clareza nos dois principais conjuntos residenciais que ele projetou, Pedregulho e Marquês de São Vicente. Embora o primeiro, de 1946, seja muito mais conhecido (talvez porque foi o único construído na sua totalidade), o segundo, de 1952, apresenta uma evolução considerável em relação ao Pedregulho, pois pela maior proximidade dos seus componentes logra criar espaços abertos com maior definição espacial, criando uma versão moderna dos espaços abertos da cidade tradicional.

Talvez não seja arriscado afirmar que Reidy atingiu tal domínio da escala urbana porque todos os problemas arquitetônicos eram abordados com as mesmas ferramentas projetuais. Ou seja, um interior, uma casa ou um conjunto habitacional era visto como problemas análogos que requeriam igualmente uma estrutura formal, por constituírem apenas diferentes escalas de um mesmo problema.

Outra lição importante que podemos extrair dessa obra precocemente interrompida é sua sistematicidade, ou seja, o desenvolvimento de um modo de projetar que possa resolver o maior número possível de temas arquitetônicos. O procedimento sistemático de Reidy é o oposto do modo sintomático de operar de muitos dos arquitetos de hoje, pois tratam os problemas como se fossem únicos e requeressem soluções especiais do ponto de vista formal. Mesmo quando a obra de Reidy evolui e muda em termos das soluções que passa a empregar, a tendência é fazer com que uma solução para um problema especial gere uma nova série, como é o caso da íntima relação existente entre o Colégio Brasil-Paraguai e o MAM, cuja solução estrutural e volumétrica é análoga. Tivesse ele continuado sua carreira, esta série não teria sido interrompida no segundo caso.

Num momento de desorientação da prática arquitetônica em todas as partes, as lições oferecidas pela arquitetura de Affonso Eduardo Reidy podem ser de extrema utilidade. Sistematicidade, descrição e espírito público são qualidades que dão crédito a qualquer prática arquitetônica.

notas

1
Texto originalmente publicado em DPA, 19, Barcelona, maio 2003, p. 12-15. O título é um jogo de palavras, onde o nome de Reidy substitui a palavra ready na frase the importance of being ready, que pode ser traduzida para o português como a importância de estar pronto, no sentido de atento.

2
Embora existam no Brasil arquitetos da importância de um Paulo Mendes da Rocha, Lelé, Eduardo de Almeida e outros, suas obras são raras exceções entre milhares de obras de baixíssima qualidade.

sobre o autor

Edson da Cunha Mahfuz é arquiteto, professor titular da UFRGS, diretor regional da Padovano e Associados Arquitetura S/C Ltda

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