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architexts ISSN 1809-6298


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Palco das primeiras obras do artista Roberto Burle Marx, a cidade do Recife é referencial do estudo da arte da paisagem no Brasil


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CLÁUDIA PESSOA, Ana; CARNEIRO, Ana Rita Sá. Burle Marx nas praças do Recife. Arquitextos, São Paulo, ano 04, n. 042.03, Vitruvius, nov. 2003 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/04.042/638>.

Palco das primeiras obras do artista Roberto Burle Marx, a cidade do Recife é referencial do estudo da arte da paisagem no Brasil. De 1934 a 1937, Burle Marx dirigiu o Setor de Parques e Jardins da Diretoria de Arquitetura e Urbanismo do Governo do Estado de Pernambuco sob a coordenação do arquiteto Luís Nunes, quando elaborou projetos para seus espaços públicos. Os jardins da Praça de Casa Forte, seu primeiro projeto de jardim público, realizado em 1935, deixam transparecer as preocupações ecológicas e estéticas, reunindo uma variedade de espécies vegetais provenientes da Amazônia, da Mata Atlântica como também plantas exóticas. O projeto da Praça Euclides da Cunha, então denominada "Cactário da Madalena", foi realizado no mesmo ano, criando um outro cenário, aquele típico da região semi-árida, onde estão presentes espécies da caatinga. Posteriormente em 1957, já desligado do cargo, concebe a Praça Ministro Salgado Filho, localizada em frente ao Aeroporto dos Guararapes, cujo desenho abstrato expressa formas irregulares marcantes pela variedade de espécies vegetais, riqueza de cores e texturas.

O elemento vegetal é o principal objeto de composição nas três praças, nas quais ele utiliza exemplares até então desconhecidos na criação de cenários urbanos de beleza especial, numa proposta em que busca fugir aos padrões europeus, até então vigentes, para criar um jardim tropical, um jardim brasileiro (2). Foi assim que Burle Marx firmou no Recife o segundo momento da tradição paisagística perpetuando a obra pioneira de conde Maurício de Nassau no século XVII e consolidando as raízes do paisagismo no Brasil. Nessa abordagem ressaltam-se os aspectos artístico, ecológico, social e educativo do projeto das praças e as transformações no projeto original por conta da falta de manutenção, então constatada mediante a opinião dos usuários, entrevistas com técnicos e observações no local. A atuação de Burle Marx no Recife amplia-se até outras praças situadas na área central, como a Praça Dezessete, a Praça do Entroncamento, a Praça da República, a Praça Artur Oscar e a Praça do Derby, e no bairro da Várzea, a Praça Pinto Damaso.

Metodologia

A metodologia para a análise das três praças reuniu pesquisa bibliográfica, levantamento de documentação e de jornais, entrevistas com técnicos, questionários com usuários das praças e observação no local que foram iniciados no ano de 1996 por ocasião do trabalho de graduação e confirmados no desenvolvimento da pesquisa Espaços Livres do Recife, realizada pelo Laboratório da Paisagem de 1998 a 2000. Na análise dos projetos paisagísticos, utilizou-se o projeto original da Praça de Casa Forte, único disponível para aquisição no Escritório Roberto Burle Marx, no Rio de Janeiro, bem como os projetos de reforma, posteriores a Burle Marx, da Praça Euclides da Cunha e da Praça Salgado Filho, ambos encontrados no arquivo da Empresa de Manutenção e Limpeza Urbana da Prefeitura do Recife – EMLURB.

O levantamento da literatura mostrou a carência de estudos analíticos sobre os projetos de Burle Marx associados ao seu conhecimento artístico na pintura, escultura e outras artes plásticas, e a observação no local levou à constatação de que, apesar das sérias alterações ocorridas na vegetação, a identidade de cada uma se mantinha. Foram realizados 20 (vinte) questionários com usuários para identificar a relação existente entre a função da praça como lugar de contemplação e os outros usos detectados, e 6 (seis) entrevistas com técnicos sobre o projeto e a manutenção. Isso permitiu o conhecimento dos problemas existentes e de sugestões de melhoria.

Praça de Casa Forte

De traçado geométrico originado por formas regulares, a Praça de Casa Forte enquadra-se, segundo a interpretação de Camillo Sitte, na categoria de "praça de profundidade", em relação à Igreja de Casa Forte, existente no local, pois os seus componentes estão dispostos em direção a sua fachada principal. Está situada no tradicional bairro de Casa Forte conhecido no Recife como o 'bairro verde', pela vasta cobertura vegetal que ainda se estende pelos quintais e jardins privados, onde ela exerce o papel de monumento e marco simbólico da paisagem local.

Em linhas gerais, seu projeto paisagístico possui o formalismo dos jardins franceses, pela simetria e regularidade. A praça é constituída de dois jardins retangulares e um quadrado, contendo uma riqueza de espécies vegetais: plantas arbóreas brasileiras da Amazônia, da Mata Atlântica e também plantas exóticas. Burle Marx trabalhou a vegetação como o elemento vertical do espaço em relação ao casario histórico, proporcionando efeitos de verticalidade e de escala. Procurou distribuí-las evidenciando não só a floração em épocas diferentes do ano, mas também explorando plantas aquáticas nos três espelhos d'água situados em cada um dos jardins, então inspirados na proposta do Kew Gardens de Londres (3).

No jardim central, Burle Marx utiliza plantas da Amazônia como o pau mulato (Calycophyllum spruceanum), o abricó de macaco (Couroupita guianensis), e no lago, a vitória-régia (Victoria amazônica). Pela observação no local, a vegetação aquática foi a que mais sofreu ao longo do tempo dada a falta de conservação que levou à extinção da vitória-régia, readquirida por ocasião da intervenção de 1998. No projeto original, consta a estátua de uma índia a se banhar no centro do lago central, mas que nunca existiu (4). No trecho próximo à Av. 17 de agosto, estão dispostas as plantas americanas onde se incluem as da Mata Atlântica como o pau-rei (Basiloxylon brasiliensis), árvores que atingem até 28 metros e que formam uma verdadeira cortina protetora. Próximo à Igreja, está o jardim das plantas exóticas que formam um outro cenário, contendo a cássia rosa (Cassia grandis), o filício (Filicius decipiens), o resedá (Lagerstroemia indica), entre outras espécies.

Devido à sua capacidade de 'ler' a paisagem local e identificar o seu caráter, Burle Marx explicita o sentido de cada planta empregada em cada solução: o emprego da vegetação aquática para a preservação da fauna, a presença das palmeiras e do pau-mulato ressaltando a verticalidade e as fileiras duplas de árvores para marcar a linearidade do terreno. O elemento água está presente exercendo seu poder de atração, característico dos jardins árabes, chineses e japoneses como elemento favorecedor de meditação e purificação do espírito, que compõe ao lado de pedras dispostas com regularidade, abrindo perspectivas para o olhar. Ao projetar, subentende a condição de que a percepção visual do usuário conduz a uma experiência do corpo de quem participa e assiste a um espetáculo; a vivência do jardim é uma experiência cinética mediante consciência do plano e da disposição dos pontos de vista.

O projeto paisagístico da Praça de Casa Forte é um exemplo marcante de expressão artística de um jardim em consonância com os elementos construídos na paisagem urbana. Para Burle Marx a compreensão do urbano é fundamental para a concepção do parque ou da praça como parte de um sistema de espaços livres com função ecológica e estética, na relação com o espaço edificado. Assim, resultou uma praça de paisagem convidativa e harmônica que está em perfeito equilíbrio com a arquitetura histórica e edificações modernas de um bairro residencial tradicional. Portanto, em seus primeiros trabalhos, Burle Marx já definia um tratamento plástico compatível com as novas tendências da arquitetura no Brasil.

Ao visitante apresenta-se uma paisagem de profundidade e reflexão, por que não dizer um jardim pictórico e poético. Os espelhos d'água são pontos de atração de um jardim de traçado retilíneo seguindo a configuração do sítio e paralelo ao casario, utilizando uma dinâmica própria quando dispõe as plantas acompanhando os caminhos e canteiros, além de pensar na época de floração oferecendo um verdadeiro espetáculo a ser apreciado no decorrer do ano. Assim, a dinâmica da paisagem tem no elemento vegetal seu principal estímulo.

Com uma área de 1,38 hectares, a Praça de Casa Forte é também bastante freqüentada por pessoas de outros bairros. Na opinião dos usuários, moradores ou não das redondezas da praça, o problema mais grave é a falta de manutenção dos espelhos d'água e de segurança à noite. A maioria das pessoas questionadas tinha faixa etária variando entre 20 e 40 anos e freqüentava a praça há muitos anos. Como residentes do tradicional bairro de Casa Forte, se referem à praça demonstrando uma forte relação afetiva ressaltando-a como palco de comemorações. A Festa da Vitória Régia promovida pela Igreja de Casa Forte e que se realiza na praça, constitui evento de importância social não só para o bairro, mas para toda a Cidade, muito embora provoque sérios danos à vegetação, principalmente a arbustiva e herbácea.

Ainda segundo os usuários, o que mais atrai é a tranqüilidade e um certo ar bucólico proporcionado pelo verde das plantas e pelo elemento água. Foram identificados profissionais e pessoas ligadas à arte que vão se inspirar observando os elementos naturais. Ao mesmo tempo, é grande o número de praticantes de caminhadas percorrendo sua longa extensão lateral. Na opinião dos técnicos, o que mais impressiona na referida praça é o grande porte das árvores, a verticalidade, e a presença de plantas da região da Mata Atlântica e espécies da Amazônia em zona urbana.

A Praça de Casa Forte vem sendo mantida em parceria com o setor privado desde 1996, dentro do Programa "Adote uma Praça", promovido pela Prefeitura da Cidade do Recife, e foi restaurada no ano de 1998, nos moldes do projeto original, mediante a participação de um grupo de profissionais da Prefeitura do Recife – URB, EMLURB e SEPLAM – e a colaboração do Laboratório da Paisagem da Universidade Federal de Pernambuco, além da Universidade Federal Rural de Pernambuco.

Praça Euclides da Cunha

A Praça Euclides da Cunha ou Praça do Internacional, antigo “Cactário da Madalena”, tinha no projeto original, um belo jardim de cactáceas na parte central, circundado por um caminho e por árvores de grande porte isolando-o da intensa circulação dos veículos do entorno. No local, que em 1934 era denominado Largo do Viveiro, surge uma praça com vegetação da caatinga, da região do sertão nordestino – um jardim de cactáceas – caracterizando o verdadeiro jardim brasileiro, cujo nome foi dado por Burle Marx homenageando o autor de “Os Sertões”, obra literária que tanto admirava (5). Seu desenho reproduz a forma geométrica de uma elipse, seguindo a morfologia do terreno, ainda guardando uma certa rigidez nos caminhos que estão demarcados pela fileira de árvores circundantes.

O jardim das cactáceas na parte central foi, através dos tempos, descaracterizando-se pelo crescimento espontâneo de outros tipos de vegetação arbórea e arbustiva chegando a anular o motivo de sua criação, onde deveriam ter sido conservados os elementos mais significativos da região da caatinga, ou seja, os cactos e as pedras. Os tipos vegetais mais representativos ainda existentes são: a palma (Opuntia), o juazeiro (Ziziphus joazeiro), o ipê roxo (Tabebuia pentaphyla) e o pau-ferro (Caesalpina ferrea). Substituindo as cactáceas encontram-se mangueiras (Mangifera indica), oitizeiro (Moquilea tomentosa), azeitoneira (Zizigium jambolanum) e outras espécies que cresceram espontaneamente escondendo a escultura de um vaqueiro usada no lugar do homem de tanga, indicada pelo paisagista (6).

A paisagem urbana resultante é de um ambiente ameno proporcionado pela transparência das árvores que se contrapõem ao espaço construído do entorno, onde estão situados casarões tradicionais. Um banco em forma de serpentina foi colocado posteriormente semelhante ao que Burle Marx projetou para o sítio histórico da Jaqueira. Apesar de sua área reduzida de 0,63 ha, e cenário descaracterizado, a Praça Euclides da Cunha detém uma beleza especial na paisagem pelos princípios que regem o desenho de fácil legibilidade, sua vegetação de grande porte circundando o passeio externo como barreira protetora e o ritmo exercido pelo alinhamento das árvores, pedras e plantas, que enquadram este jardim como uma sala de recepção do Clube Internacional ligando o bairro da Madalena ao bairro do Derby. Tem localização privilegiada pela proximidade ao rio Capibaribe articulando-se pela Ponte do Derby com a Praça do Derby também projeto do paisagista Burle Marx.

Seu estado atual mostra a necessidade de recuperação dos caminhos de terra batida e do gramado, que, no limite externo, formam um pequeno talude contornado por uma mureta construída em reforma posterior. A restauração do projeto original também implicaria a remoção de algumas espécies vegetais e plantio dos cactos, fazendo ressurgir o jardim das cactáceas que foi admirado por muitos recifenses. Também pela falta de conservação passa a ser um espaço propício para estacionamento por ocasião das festas do clube e como campo de pelada dos moradores de áreas pobres das proximidades.

Na opinião dos moradores do entorno, o local não tem segurança para permanência mais prolongada, principalmente pela presença da massa de vegetação na parte central que concretiza uma barreira visual proporcionando uma sensação de medo, além da precária iluminação. Apesar de considerarem a praça local de passagem, muitos dos entrevistados, que têm freqüentado a praça nos últimos cinco ou até 10 anos, moram nas proximidades, e admiram a vegetação diferenciada.

Praça Ministro Salgado Filho

Formando uma unidade plástica, a Praça Ministro Salgado Filho ou Praça do Aeroporto, contendo 2,24 ha e situada no bairro do Ibura, possui um traçado de formas irregulares presentes nos pitorescos jardins ingleses. Seu motivo abstrato como uma busca da forma pela forma, assemelha-se às pinturas de artistas modernos que influenciaram Burle Marx. O projeto paisagístico é de 1957, período posterior à época em que o paisagista atuou na Diretoria de Arquitetura e Urbanismo. Diferenciando-se do motivo das outras praças, a Praça Salgado Filho tem um desenho excepcionalmente livre, como se só as combinações de formas e cores importassem. As manchas que surgem no plano parecem estar num ritmo inteiramente independente da morfologia do terreno e do entorno, como um oásis no deserto, como uma flor que brota num canteiro e fica estampada.

Essa praça tem como ponto focal um espelho d'água de forma irregular que parece penetrar pela vegetação densa, variada e contínua, mostrando a combinação dos agrupamentos vegetais que proporcionam aos visitantes uma sensação de deleite e de interação com a natureza. É interessante observar as mudanças de textura da forração e da folhagem das plantas que ele utiliza neste projeto.

A vegetação com flores foi apontada como elemento relevante pelos usuários, tais como aninga (Montrichardia linipra) e lírio (Crinum asiaticum), encontrados no espelho d'água. Grandes canteiros são desprovidos de floração, mas possuem folhagem colorida como a arca de noé (Rhoeo discolor) e a cordilinea roxa (Cordyline terminalys). Como exemplo de vegetação expressiva assinala-se o pau-rei (Basilxylon brasiliensis), a sibipiruna (Caesalpinia piramidalis) e o coqueiro (Cocus nucifera), entre outras.

Na opinião dos usuários, a Praça Salgado Filho está, relativamente, bem conservada e proporciona certa segurança, favorecendo a permanência dos visitantes para a contemplação do cenário artístico cheio de recantos agradáveis e caminhos curvos repletos de surpresas inclusive no acesso ao espelho d'água pela escadaria proposta. Os entrevistados sugeriram brinquedos infantis próximos ao espelho d’água, árvores que ofereçam sombras generosas aos bancos, podação da vegetação aquática para evitar esconderijo de viciados e manutenção do gramado. A maioria dos entrevistados também freqüentava a praça há mais de 10 anos, não como residentes, mas como visitantes de rotina pelas atividades que exercem nas proximidades seja de taxista, comerciante, servente ou outras profissões de nível médio. A localização dessa praça interfere bastante no tipo de uso pela presença do aeroporto, que está associado a vias de fluxo pesado no entorno, além das paradas de ônibus nas suas calçadas e de edifícios comerciais.

A última intervenção realizada na praça ocorreu em 1991 sob a responsabilidade da Prefeitura do Recife, respeitando o projeto original requisitado pelo órgão ao Escritório Roberto Burle Marx. Mesmo assim, parte da vegetação foi substituída, dada a dificuldade de sua disponibilidade nas sementeiras locais. Nessa ocasião, também foi reincorporada parte da área da praça até então utilizada como estacionamento de táxi, que passou a funcionar como canteiro, segundo o desenho original do paisagista.

Vegetação: a linguagem da paisagem de Burle Marx

Na busca de efeitos plásticos, Burle Marx consegue manter um diálogo entre os elementos naturais pedra e planta e os elementos artificiais edificações, esculturas, enaltecendo as condições ecológicas e estéticas da natureza, assim como a busca da forma pela forma no desenho abstrato. Isso tudo, como ele diz, é fruto de sua curiosidade pelas coisas do mundo que o levaram a estudar literatura, poesia, pintura, escultura, música, arquitetura e urbanismo. Encarando o jardim como um instrumento de educação e prazer, Burle Marx afirma a missão pedagógica do paisagista respeitando a natureza e o homem. É esse sentimento de totalidade, de equilíbrio e de trabalho artístico que ele desenvolve nas três praças analisadas, cada uma com suas características especiais. Entende o projeto como um sistema de correspondências e evocações entre as formas, as cores e as relações que aprendera na pintura (7). Alia a cor, a geometria, o conhecimento botânico às necessidades dos usuários. De uma maneira geral, é a função contemplativa que prevalece nas três praças, verdadeiros jardins de sensibilidade, permanecendo, portanto, a mesma função do momento em que foi concebida.

A Praça de Casa Forte tem detalhes marcantes como os canteiros simétricos e lineares, contendo exemplares de ecossistemas diversos tal qual um laboratório de caráter educativo e artístico expondo cor, geometria, verticalidade, escala e unidade. A Praça Euclides da Cunha, cujo nome comunica o conteúdo temático, ainda enaltece uma vegetação da região do sertão pela bela floração do pau-ferro, alguns grupos de agaváceas e que pode ser restaurada para novamente exercer seu papel simbólico na paisagem do Recife. Um detalhe peculiar da Praça Salgado Filho, além do traçado sinuoso e do espelho d'água como ponto focal, é a variada vegetação aquática que se transforma mudando o colorido, reunindo nesse espaço de descanso uma grande diversidade de estratos vegetais. Duas das praças foram concebidas valorizando o elemento água bastante representativo na construção da paisagem do Recife.

A análise dos projetos paisagísticos de Burle Marx revela a preocupação em combinar formas e conceber uma obra de arte dotada de cenários produzidos pela vegetação. Ressalta a importância na conservação dos projetos originais resultantes de reflexão multidisciplinar, para preservar nosso legado histórico, evidentemente adequado, quando possível, às necessidades atuais. Percebe-se assim a necessidade de tratar as praças projetadas por Burle Marx como jardins históricos, verdadeiros monumentos, seguindo as recomendações da Carta de Florença de 1981 que ressalta: "um jardim histórico é uma composição arquitetônica e vegetal que, do ponto de vista da história ou da arte, apresenta, um interesse público".

Essa pesquisa realizada desponta como um instrumento analítico dos trabalhos de Burle Marx, face ao compromisso com a cidade do Recife, berço de sua obra de rara beleza e reconhecimento internacional.

notas

1
Este texto foi apresentado no Encontro Nacional de Arborização Urbana, em novembro de 1997, Belo Horizonte, em parceria com a engenheira agrônoma Ana Cláudia Pessoa. Posteriormente foi complementado para o Curso “Pensar a paisagem, projetar o lugar” realizado pelo Laboratório da Paisagem em setembro de 2001.

2
LEENHARDT, Jacques. Nos jardins de Burle Marx. São Paulo, Perspectiva, 1994, p. 15 e p. 63.

3
REVISTA PROJETO, n.146, out. 1991, p. 61.

4
DIÁRIO DA MANHÃ, São Paulo, 22 jun. 1935.

5
DIÁRIO DA TARDE, 14 mar. 1935.

6
Idem, ibidem.

7
LEENHARDT, Jacques. Op. cit., p. 12.

bibliografia complementar

CARTA DE FLORENÇA, 1981. In CURRY, Isabele (org.). Cartas patrimoniais. Rio de Janeiro, IPHAN, Edições do Patrimônio, 2000.

FARIAS, Abelardo Cabral. Praça de Casa Forte. Redescoberta e resgate. Monografia do curso de Engenharia Florestal, UFRPE, 1997.

MARX, Roberto Burle. Arte e paisagem. São Paulo, Nobel, 1987.

SÁ CARNEIRO, Ana Rita; MESQUITA, Liana. Espaços livres do Recife, Prefeitura do Recife/UFPE, 2000.

SITTE, Camillo. A construção das cidades segundo seus princípios artísticos. São Paulo, Ática, 1992.

sobre os autores

Ana Rita Sá Carneiro é doutora, professora da graduação e pós-graduação do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Pernambuco; coordenadora do Laboratório da Paisagem - UFPE; membro do CECI – UFPE.

Ana Cláudia Pessoa é engenheira agrônoma, arquiteta formada em 1996 com trabalho de graduação sobre as três praças projetadas pelo paisagista Roberto Burle Marx.

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