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architexts ISSN 1809-6298


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O discurso ambiental só veio a se incorporar às preocupações energéticas na última década, como forma de contribuição no atendimento às metas estabelecidas no Protocolo de Kyoto


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MEIRIÑO, Marcelo J.. Arquitetura e sustentabilidade. Arquitextos, São Paulo, ano 04, n. 047.05, Vitruvius, abr. 2004 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/04.047/595>.

Até que ponto e de que forma a arquitetura contribui na busca por uma sociedade sustentável? Entende-se como desenvolvimento sustentável, aquele capaz de atender às necessidades das atuais gerações sem comprometer os direitos das futuras gerações. As questões ambientais e escassez de recursos energéticos fazem parte desse discurso; é na forma como arquitetos e engenheiros se inter-relacionam com esses temas que se dá a contribuição da arquitetura na sustentabilidade.

Abordaremos neste artigo a escassez de recursos energéticos e sua relação com a Arquitetura. A geração de energia elétrica a partir de combustíveis fósseis (recurso finito), por meio de termelétricas que geram alto custo ambiental e estão sujeitas aos "humores" do mercado do petróleo, mostrou-se desinteressante aos países europeus já a partir de 1973 com o choque do petróleo, que abalou o sistema energético europeu.

O discurso ambiental só veio a se incorporar às preocupações energéticas na última década, como forma de contribuição no atendimento às metas estabelecidas no Protocolo de Kyoto. Nesse momento surgem as primeiras iniciativas no âmbito da economia e uso racional de energia elétrica, política que atingiu em cheio as edificações.

Quando a França, por exemplo, entre 1973 a 1989 obteve uma economia de 42% no setor, por meio de uma legislação visando o uso racional desse insumo em suas edificações, o modelo francês passou a ser adotado em toda a Europa. No início dos anos 90 foi a vez dos EUA, tornar obrigatória a adoção de legislação para economia e uso racional de energia elétrica em edificações em todos os estados da federação, embora alguns já a possuíssem antes da obrigatoriedade.

A esse conceito que envolve um vasto conjunto de procedimentos e estratégias tanto em etapas de projeto como em retrofits ("reformas") que visam garantir o uso racional da energia e conforto aos usuários, denominamos Eficiência Energética em Edificações.

Esse conceito só agora começa a chegar ao Brasil, possivelmente porque as hidroelétricas – responsáveis por 82,36% da energia elétrica produzida no Brasil (1) – produzem um impacto ambiental muito menos alardeante que as emissões atmosféricas das termelétricas (padrão europeu e americano por exemplo), além de sua produção teoricamente virem suprindo nossas necessidades, ao menos até à pouco quando vieram os "apagões" em 2001; conservação e uso racional de energia elétrica passou a ser preocupação constante, impulsionando inclusive a certificação ("etiquetagem") de aparelhos eletrodomésticos, facilitando a opção por aparelhos poupadores de energia.

Mas onde entra a arquitetura e o arquiteto, devem estar se perguntando? Na elaboração de projetos energeticamente eficientes, através de uma arquitetura adaptada ao clima, considerando a iluminação natural integrada à artificial, na especificação de acabamentos e materiais adequados ao clima, no uso de ventilação natural, entre outros aspectos. Enfim na elaboração de uma edificação de fato inteligente, menos casuística e desnecessariamente automatizada.

De certa forma essa nova onda que irreversivelmente está chegando ao Brasil, traz de volta o ato projetual consciente, perdido há muito pela grande maioria dos arquitetos e engenheiros, traz consigo também novos horizontes de mercado de trabalho, tanto na elaboração de projetos novos como na adequação (retrofits) de edificações existentes; essas oportunidades vão desde estudos de sombreamento até a elaboração de cadernos de encargos para empresas privadas, simulação computacional, elaboração de normas públicas, comissionamento e certificação de edificações, entre outras.

O setor de edificações residenciais e comerciais consomem 43% de energia elétrica no Brasil. Em pesquisa de campo, conforme constatado por Juan e Lúcia Mascaró: "20 a 30% da energia consumida seriam suficientes para o funcionamento da edificação; 30 a 50% da energia consumida são desperdiçados por falta de controles adequados da instalação, por falta de manutenção e também por mau uso; 25 a 45% da energia são consumidos indevidamente por má orientação da edificação e por desenho inadequado de suas fachadas, principalmente" (2) e ainda "um mesmo projeto de edificação em locais diferentes, pode provocar aumento de até 80% da demanda de energia elétrica, por exemplo, quando se compara Belém e Porto Alegre" (3).

A princípio poderíamos pensar que eficiência energética em edificações se daria basicamente através do uso de equipamentos ou iluminação mais eficientes, mas na verdade como vimos cabe à arquitetura e conseqüentemente aos arquitetos a maior parcela de contribuição ao uso racional e conservação de energia elétrica em edificações, através de projetos adequados.

Em países europeus e EUA, já se faz uso de certificação (etiquetagem) das edificações, assim como ocorre com os nossos aparelhos eletrodomésticos já citados, possibilitando aos usuários optarem por edificações energeticamente eficientes (mais econômicas), que portanto contribuem para a conservação de energia e conseqüentemente para com o meio ambiente.

Por meio de um mecanismo simples e de fácil interpretação (a etiqueta), a população passa a interagir com o tema, na medida em que pode facilmente optar por edificações de maior rendimento e naturalmente vai pondo à margem do mercado as empresas que não se adequarem à nova realidade, esse mesmo mecanismo permite às empresas demonstrarem seu diferencial umas frente às outras, o que passa a ser aproveitado como oportunidade de marketing. Essa etiquetagem é promovida por organismos de reconhecimento público, assim como o INMETRO faz com os nossos eletrodomésticos.

Essa realidade indubitavelmente ocorrerá no Brasil, justificada no alto custo financeiro e ambiental com a simples ampliação da planta elétrica brasileira para suprir a demanda crescente, políticas de conservação e uso racional de energia elétrica têm custo menor, o setor de edificações, como visto, tem papel de suma importância nessa nova ordem, conseqüentemente arquitetos e engenheiros tem grande contribuição a realizarem.

Para quem acha que nada de importante tem ocorrido por aqui, poderíamos citar o "Caderno de Encargos para Eficiência Energética em Prédios Públicos", editado em 2002 pela Prefeitura do Rio de Janeiro que traz orientações de projeto para adequação ao tema, já sendo válido para as novas edificações dos jogos pan-americanos de 2007.

A cidade de Salvador também elabora o seu código de Eficiência Energética em Edificações. São os primeiros passos no setor público, mas que demonstram um caminho sem volta no sentido de seguirmos um modelo já adotado em grande parte do mundo, como EUA, Europa, países da Ásia e África, inclusive nossa vizinha Colômbia já se mobiliza.

Cabe a nós nos prepararmos para essa nova realidade, ou ficaremos à margem das oportunidades de trabalhos que ela traz consigo, reclamando dos efeitos nocivos da irreversível globalização, das oportunidades de trabalho "roubadas" por colegas de profissão estrangeiros mais bem preparados.

A relação entre Arquitetura e Sustentabilidade título deste artigo, pode ser facilmente percebida após o exposto; ocorre na medida em que o uso racional da energia elétrica em edificações, garante a preservação dos recursos energéticos e ambientais para as gerações vindouras, sem prejuízo ao progresso da humanidade (4).

notas

1
BIG – Banco de Informações Gerais, ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica), 2002.

2
MASCARÓ, J.L.; MASCARÓ, L.E.R. Incidência das variáveis projetivas e de construção no consumo energético dos edifícios. 2ª edição, Porto Alegre, Sagra-DC Luzzatto, 1992.

3
SANTOS, Romeo Ferreira dos. A arquitetura e a eficiência nos usos finais da energia para o conforto ambiental, São Paulo, Dissertação apresentada ao Programa Interunidades de Pós-Graduação em Energia (IEE/EP/IF/FEA) da Universidade de SãoPaulo para a obtenção do título de Mestre, 2002.

4
Ver também sobre o assunto LAMBERTS, Roberto; DUTRA, Luciano; PEREIRA, Fernando O. R. Eficiência energética na arquitetura. São Paulo, PW Gráficos e Editores Associados Ltda, 1997.

sobre o autor

Marcelo J. Meiriño é arquiteto e urbanista , formou-se em 1995 pela FAU/UFRJ e é membro do Grupo E3 – Eficiência Energética em Edificações, grupo composto por especialistas em racionalização no uso da energia elétrica em edificações.

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