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A partir de um conto de Murilo Rubião, Carlos Teixeira imagina uma interessante ficção sobre uma hipotética construção da gigantesca torre Maharishi em São Paulo


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TEIXEIRA, Carlos M.. Maharishi Tower. Arquitextos, São Paulo, ano 05, n. 050.04, Vitruvius, jul. 2004 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/05.050/565>.

DESTAQUE NO PRÊMIO JOVENS ARQUITETOS 2004 – IAB-SP

A partir de um conto de Murilo Rubião (O Edifício, 1965)

1. O guru Maharishi ou “o grande sábio e cientista da consciência” idealizou o maior prédio do mundo, a Maharishi São Paulo Tower. A torre seria um elogio à ciência dos Vedas (2) e aos ensinamentos do hinduísmo (3), aproveitaria os antigos princípios da arquitetura védica, e teria uma área construída 20 vezes maior do que o atual maior prédio do mundo. Também teria seu projeto sustentado por pesquisas científicas na área da neurofisiologia, da psicogeografia e em todos os campos do saber direta ou indiretamente ligados à arquitetura e ao urbanismo.

2. De todas as etapas de construção, mais longa foi aquela das fundações: cinco anos. Chegou-se a uma profundidade de 80 metros abaixo da cota 300, nível médio da área que acompanha as margens do rio Tamanduateí. Construídas em área que abrange 60 quarteirões ou 750.000 m2, as estacas causaram a remoção de terras e mais terras e foram usadas na construção de um gigantesco aterro sobre o próprio parque que integraria o projeto. Além desse parque de 50 hectares, outros benefícios anunciados foram dois museus, dezesseis shoppings (4), sete centro de convenções, nove hotéis, sete Spas, e mais um milhão e meio de metros quadrados de área construída distribuídos em salas, lojas, apartamentos e tudo o mais que há numa cidade.

3. A torre na verdade seriam quatro: uma em cada canto de um quadrado, sendo que o espaço entre elas seria reservado como áreas públicas suspensas em cada um de seus 108 andares. A forma de tronco de pirâmide, típica da arquitetura hindu, traria também a São Paulo todo o poder inerente às forças divinas e as energias sobrenaturais capazes de combater os males e as aflições da condição humana, o fim das ondas de violência, da avareza, da inveja, da cobiça e de todos os demais pecados de todos os homens (5).

4. E então, quando terminadas as fundações, chegou a hora da superestrutura. Esta seria inspirada no conceito do John Hancok Building (6), de Chicago, construído em 1969. Inserida no perímetro do prédio, todas as forças dessa fantástica estrutura estão refletidas no desenho de sua trama tubular, sendo dispensável o emprego de pilares internos. Todos os empuxos, contraventamentos, reações, recalques e torções estariam resolvidos e estampados na fachada. O arquiteto escolhido para desenvolver o projeto foi o nipo-americano Minoru Yamasaki (7). A reação da cidade frente ao monstro foi imediata: arquitetos locais, pessoas bem instruídas, intelectuais, artistas, jornalistas, etc., foram terminantemente contra e ativaram todos os jornais e televisões contra o projeto, mas enquanto a longa polêmica não se resolvia despontavam no horizonte os primeiros marcos verticais da pirâmide.

5. As obras seguiram com velocidade estrondosa. Em um ano e meio já tinham chegado na altura do octogésimo andar quando surgiram as primeiras desavenças entre os próprios incorporadores, o Maharishi Global Development Fund (o “tesouro inesgotável do mundo para a paz e a felicidade da Terra”) e o grupo Brasilinvest (8), parceiro brasileiro. Este último provou que as fundações foram superdimensionadas e suportariam uma carga até três vezes maior que a carga do projeto, o que justificaria um aumento do número de andares para 324. A nova polêmica prosseguiu até que fosse atingido a último andar da pirâmide.

6. Em conversas durante a festa da cumeeira, decidiu-se então que o grupo Brasilinvest seria responsável pela continuação do prédio. Os riscos seriam apenas do Brasilinvest, que teria também que arcar, sozinho, com o seguro de construção dos primeiros 108 andares e dos novos andares. Yamasaki foi consultado para continuar projetando, mas seu escritório recusou a tarefa, ciente que estava do destino assustador de dois de seus mais conhecidos edifícios (o conjunto habitacional Pruitt Igoe (9) – que, quando implodido, marcou a morte da arquitetura moderna – e o World Trade Center de Nova York).

7. A estrutura não poderia ser uma mera continuação da estrutura original: teriam antes que prover alguns ajustes na malha perimetral para que as novas cargas não prejudicassem a estrutura já montada, calculada para receber somente os 108 andares. Calculistas consultados, chegou-se à conclusão que o melhor mesmo seria adotar um outro tipo de estrutura, que alteraria a estrutura original do edifício.

8. Os protestos do guru não impediram que o projeto da bem-aventurada pirâmide fosse deturpado. Um calculista de concreto armado, estrutura típica dos prédios do Brasil, decidiu inserir uma malha tradicional, com colunas modernistas e vigas ortogonais lançados segundo as práticas do país, para reforçar a estrutura. Enormes vigas de transição suportariam uma malha de 124 colunas, agora locadas no miolo do prédio e não mais no plano das fachadas.

9. Até que, na altura do centésimo quadragésimo sétimo andar, os próprios incorporadores passaram a temer a altura atingida pela construção. Oscilações de mais de três metros, para um lado para o outro nos últimos andares, faziam os trabalhadores dos últimos andares descer desesperadamente para andares menos vulneráveis às forças do vento. Assustados, os incorporadores recorreram então aos planos de arquitetos e engenheiros de arranha-céus famosos e saíram-se com a idéia de voltar à estrutura metálica, inserindo agora pilares metálicos (que se misturavam com os de concreto armado) no meio do prédio, o que reforçaria a estrutura do arranha-céu e possibilitaria o efetivo e máximo aproveitamento das fundações.

10. Assim foi a construção até o andar de número 184.

11. Mas ocorreu uma súbita falta de fundos do incorporador. As oscilações da economia brasileira, boatos sobre o destino incerto prédio, a relutância do prefeito de São Paulo em salvar o empreendimento com recursos públicos – tudo isso fez com que fosse anunciado o término das obras, pelo menos temporariamente. Tudo ficou parado por mais de três meses.

12. Até que os técnicos dos quatro prédios, insuportável que achavam a cena daquele colosso incompleto, resolveram eles mesmos continuar a obra. Assim, simplesmente: “queremos nós mesmos continuar a obra”. Sem qualquer experiência, encarregados e serventes agora substituíam os metais por peças de madeira sobrepostas a coisas de concreto e a “obras de arte” (10) – pontes e viadutos de concreto que melhor articulavam os quatro prédios entre si –, enquanto engenheiros antes subordinados agora executavam suas próprias idéias.

13. Enquanto os engenheiros e estagiários continuavam cheios de fôlego e autoconfiança nessa hercúlea empreitada, o incansável empresário Mário Garnero (11), do grupo Brasilinvest, conseguia agora novos empréstimos via contatos diretos com bancos públicos. Todos os salários atrasados foram pagos. Toda a precariedade e improvisação dos últimos andares foi então substituída por mais pilares metálicos, agora obedecendo à lógica inicial da estrutura na fachada. E assim foram construídos mais de 143 andares sem que nada de excepcional acontecesse, agora construídos com a estrutura seguindo a lógica do John Hancock Building.

14. Mais 40 andares foram construídos, com apenas um acidente de trabalho e uma queda fatal (do 217º andar). Os trabalhadores continuavam construindo loucamente, durante feriados, dias de semana, domingos, de dia, de noite, de madrugada, sempre.

15. O caixa do empreendimento agora parece não mais ter problemas: a procura por apartamentos e salas se torna maior que a oferta possível, o que faz aumentar o preço por metro quadrado, o ágio entre revendedores e a ansiedade na espera pelo término do prédio.

16. Mais 33 andares.

17. Mais 12 andares.

18. Mais 81 andares. Sem acidentes, sem desacordos, sem problemas.

19. Mais 23 andares. Tudo sob controle. Agora não só os trabalhadores, mas os engenheiros, arquitetos e corretores, cada vez mais orgulhosos que estavam do gigante monumento sob seus pés, decidiram também trabalhar aos sábados e domingos, mesmo que os empregadores negassem-se a lhes pagar hora extra. Começaram também a finalizar os primeiros 100 andares das torres, logo depois ocupados pelos primeiros compradores. Na cerimônia de inauguração, uma reação inusitada: o total apoio da população, elogios rasgados da mídia e artigos em jornais que exaltavam a mistura de programas e as formas do prédio, que foram implantados (só até o 108º andar) de acordo com o projeto original do guru Maharishi.

20. Mais 78 andares. Dias atuais. O prédio continua crescendo vertiginosamente, à taxa de 20 andares por mês. E as imagens do prédio, antes denunciadas por arquitetos brasileiros (“arquitetura apátrida que em nada enriquece nossas sólidas tradições modernas!”), são agora um arrojado símbolo nacional. Todos os andares de número 1 a 209 já estão ocupados, sendo longa a lista de pretendentes aos espaços que serão disponibilizados nos próximos andares – todos há muito vendidos e revendidos (com ágio) várias vezes e com quase a mesma liquidez de papel moeda.

21. Através de um Fundo Imobiliário de capital aberto, o metro quadrado da Maharishi passa a ser negociado na Bolsa de Valores de São Paulo, fato até então inédito na história do mercado imobiliário brasileiro. Rumores de que a Torre se aproxima de sua altura máxima fazem o preço da cota subir vertiginosamente; boatos de que a estrutura está comprometida reduzem as ações a preços simbólicos; notícias de assaltos, assassinatos e seqüestros cada vez mais intensos no resto a cidade realavancam o capital do fundo, e assim sucessivamente.

22. Inicialmente uma cacofonia de prédios sobre prédios, agora os espaços internos da torre são absurdamente complexos e surpreendentes: barracos improvisados se alinham a delírios modernistas, formalismos radicais penetram com incrível agressividade na estrutura em X da fachada, e fantasias estruturais mestiças (metal + concreto armado) possibilitam ocupações inusitadas dos enormes vazios entre as quatro torres da Torre. Telhados viram terraços, que servem como decks que se transformam em pontes que são ocupadas por casas e que viram prédios construídos sobre obras de arte, e assim sucessivamente.

23. Mais 55 andares. Enquanto todos lutam por um lugar na torre, a cidade de São Paulo começa a se esvaziar. Na periferia, no Centro, nos Jardins e em Jaçanã, casas, prédios, hospitais, shoppings, escolas – enfim, todos os imóveis em todos os bairros de toda a Grande São Paulo vão sendo abandonados.

24. E então a Torre começa, num surpreendente crescimento horizontal da base do colosso, a abraçar os principais edifícios do Centro. O Mosteiro de São Bento, o Vale do Anhangabaú, o Pátio do Colégio, o edifício Copam, o edifício Martinelli e o edifício Banespa – praticamente nenhum símbolo da cidade é poupado, pouco restando para comemorar a memória arquitetônica dos 450 anos da cidade.

25. Alguém lembra que a soma dos andares (quantos são até agora?) já ultrapassa em muito o número máximo permitido pelas fundações. Mas ninguém liga, e todos continuam construindo, comprando, especulando, mudando para a Torre.

notas

1
Artigo originalmente publicado em e-book e disponibilizado no website www.vazio.com.br, aonde poderá ser obtido na versão original para download.

2
Vedas: Do sânscrito, “saber”. São os livros do hinduísmo que contém as verdades eternas reveladas pelos deuses ou a ordem (drama) que rege os seres e as coisas, organizando-as em categorias distintas (castas), cada uma com seus próprios direitos e deveres espirituais e sociais.

3
Hinduísmo: religião de grande parte da população da Índia, cujas raízes remontam ao antigo vedismo. Atingindo o que foi convencionado chamado de hinduísmo antigo por volta de 500 d.c, a religião prosseguiu modificando-se , seguindo uma tendência de sincretismos até os tempos modernos. O hinduísmo recente é resultado tanto da transição do vedismo para o bramanismo, como da deste para os movimentos que lhe opuseram.

4
Segundo a ABRASCE (Associação Brasileira de Shopping Centers), um Shopping é "um centro comercial composto de uma série de lojas destinadas à exploração de ramos diversificados de comércio e/ou serviços que permaneçam em sua maior parte como objeto de locação, submetidas a normas contratuais padronizadas, além de outros ítens de menor relevância". Só no estado de São Paulo, o número de shoppings é de 91, perfazendo uma área construída de 2,427,433m2 e gerando 190,248 empregos.

5
Meditação Trancendental: técnica de auto-ajuda surgida no auge da contracultura dos anos 60. É praticada hoje por muitos americanos, incluindo executivos, militares e políticos.

6
John Hancock Building: em 1960, programas de computador aplicados a engenharia já permitiam a investigação de novos sistemas estruturais. Combinados com o desenvolvimento de aços de alta resistência, eles tornaram possível o desenho de estruturas resistentes a forças laterais do vento e a força vertical da gravidade, já que ambas poderiam ser absorvidas por uma estrutura tridimensional. Terminado em 1969, o JHC abriga 700 apartamentos, além de salas, lojas, um supermercado e um hotel. O mais alto edifício multi-uso do mundo (334m), seu sistema estrutural tubular foi concebido pelo escritório SOM.

7
Minoru Yamasaki: arquiteto nipo-americano. Fundou Yamasaki Architects & Associates em 1955, firma que alcançou fama internacional depois do projeto do World Trade Center de Nova York, terminado em 1976. O método do escritório consiste em conceber uma arquitetura que "responda apropriadamente aos critérios funcionais de um projeto, enquanto expressa os objetivos e os valores do cliente".

8
Grupo Brasilinvest: “Ao longo dos 25 anos de história, logramos grandes realizações. No setor financeiro ou nas telecomunicações; na infra-estrutura ou na geração de energia, o Brasilinvest tem sido peça fundamental na modernização da economia brasileira. Nesse período, o Brasilinvest desenvolveu projetos que ultrapassam US$ 2 bilhões.’’

9
Pruitt Igoe: "arguably the most infamous public housing project ever built in the United States. A product of the postwar federal public-housing program, this mammoth high-rise development was completed in 1956. Only a few years later, disrepair, vandalism, and crime plagued Pruitt-Igoe. The project's recreational galleries and skip-stop elevators, once heralded as architectural innovations, had become nuisances and danger zones. Large numbers of vacancies indicated that even poor people preferred to live anywhere but Pruitt-Igoe. In 1972, after spending more than $5 million in vain to cure the problems at Pruitt-Igoe, the St. Louis Housing Authority, in a highly publicized event, demolished three of the high-rise buildings. A year later, in concert with the U.S. Department of Housing and Urban Development, it declared Pruitt-Igoe unsalvageable and razed the remaining buildings".

10
Obras de arte: no jargão da construção pesada, a expressão denomina todos as tipologias que empregam estrutura de concreto armado (pontes, bueiros, viadutos, etc).

11
Mario Garnero: empresário, político, diplomata, patrono das artes, filantropo e presidente do Grupo Brasilinvest.

sobre o autor

Carlos Moreira Teixeira é mestre em urbanismo (distinction) pela Architectural Association, Londres (1994). Foi bolsista do programa Virtuose do MEC na mesma AA. Tem escritório próprio desde 1995 e é professor de arquitetura da FUMEC. Publicou o livro "História do Vazio em Belo Horizonte", foi premiado em concursos nacionais e internacionais, e publica regularmente na imprensa geral e especializada

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