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architexts ISSN 1809-6298


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O autor comenta as idéias defendidas por John Sterling, de uma diferença estrutural entre a economia tradicional do 25 estados mais conservadores, e os demais estados, aonde predominam as regiões metropolitanas densamente habitadas


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LEITE, Carlos. Metrô x Retrô: Califórnia 2004. Cidades, diversidade, inovação, clusters e projetos urbanos. Arquitextos, São Paulo, ano 05, n. 059.00, Vitruvius, abr. 2005 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/05.059/469>.

Preâmbulo 1: John Sperling, John Kerry, Jane Jacobs

Uma das melhores caricaturas emergidas na América pós-eleitoral apareceu no The New York Times duas semanas após o pleito: reflete o sentimento de inúmeros liberais indignados com os resultados eleitorais e com o domínio do país pelos conservadores religiosos. O Canadá, normalmente solenemente ignorado neste país, transformou-se no território vizinho mais próximo de seus ideais e valores: objeto do desejo da América liberal, pró-aborto, pró-casamento gay, pró-pesquisas com células-tronco e, acima de tudo, livre desta inusitada aproximação religião-Estado nos EUA.

John Sperling, o milionário “empresário-intelectual” democrata, fundador da próspera University of Phoenix, escreveu um dos livros mais comentados pela crítica na esteira do ano eleitoral: The Great Divide: Retro vs. Metro America, incitou um grande e polêmico debate, passando por diversas áreas do conhecimento além da política (2).

Sperling, baseado em dados estatísticos oficiais, lançou uma série de considerações para demonstrar a sua tese: há atualmente uma profunda divisão cultural e política nos EUA que se pauta, grande parte, em contextos econômicos extremamente diferenciados.

A tese geral é de que há uma América “retrô”, conservadora, constituída majoritariamente por estados “vermelhos” – republicanos – e outra América “metrô”, metropolitana, formada pelos estados “azuis”, democratas, situados nas costas do Atlântico e do Pacífico e à beira dos Grandes Lagos (veremos que a geografia e o uso do território pautam a tese de Sperling).

A América “retrô” é formada por 25 estados insulares onde predomina uma economia tradicional e em muitos casos, rural; uma média salarial menor; uma maior rigidez de valores morais; a presença de instituições de ensino tradicionalmente conservadoras e religiosas (privadas); lideranças políticas formadas por grupos de “intolerant white male political leadership” na grande maioria das pequenas cidades que constituem tais estados. Em resumo, Sperling chama este território americano de “Bible Belt” em alusão à forte predominância dos valores religiosos cristãos conservadores (os mesmos de Bush) (3).

Por outro lado, América “metrô” é constituída por 24 estados que ocupam território consideravelmente menor – 34% dos EUA – apesar de concentrar 2/3 da população. Aqui se encontram as maiores cidades, como Nova Iorque, Chicago, Boston, Los Angeles, São Francisco, San Diego, Atlanta e Seattle. A população vive, diferentemente da “outra” América, em regiões metropolitanas densamente habitadas (aqueles vivem predominantemente nos sprawled suburbs de baixíssima densidade e áreas rurais). Sua economia é chamada de “máquina nacional de crescimento e inovação”. Ou seja: predomina a chamada Nova Economia: indústrias e serviços ligados à alta-tecnologia e aos processos de inovação: o Vale do Silício californiano, o cluster de alta tecnologia ao longo da Route 128 em Boston, os novos clusters de biotecnologia de Seattle e San Diego, entre outros. Os resultados advindos dessa nova economia, somados aos nichos financeiros (Nova Iorque, Los Angeles) e ao high-performance agrobusiness (Califórnia central) geram 41% do PIB americano e concentram 80% dos empregos relacionados à alta-tecnologia (4).

As maiores e mais renomadas universidades e centros de tecnologia e inovação estão nos estados “azuis”: Harvard e MIT; IIT/Chicago; Yale; Columbia, Cornell e Princeton; Georgetown; Stanford e todos os 24 campi da Universidade da Califórnia. Conforme Sperling, “educação e ciência são os maiores artefatos da cultura. Segundo todos os índices de excelência em educação em qualquer nível e em qualquer campo – artes, ciência e tecnologia –, a América ´metrô´ excede” (5).

Em resumo: a América metropolitana prefere o democrata progressista da liberal e inovadora Boston, John Kerry, mas por pequena, porém, decisiva maioria, a “outra” América elegeu o conservador cristão criado no rancho do “vermelho” Texas, George Bush (6).

Mas o que nos chama maior atenção, como urbanistas, não é exatamente a divisão entre os estados americanos, mas sim a profunda diferença entre as cidades ditas “vermelhas” e “azuis”. O mapa mais interessante nos parece ser aquele que revela outra informação preciosa: a despeito da “cor” do estado, todas as grandes metrópoles americanas votaram em Kerry. Florida e Texas são estados “vermelhos”, mas Miami e Austin são cidades “azuis”, por exemplo. Independentemente do resultado do estado, as metrópoles são democratas, liberais.

Ora, uma análise focada na escala da cidade, e não mais do estado, nos revela indicadores interessantíssimos. E mais do que analisar diferenças, ressalta aos olhos as características específicas das metrópoles americanas. É aqui que Sperling se aproxima das análises pioneiras de Jane Jacobs. As metrópoles, como esta gama de dados revelados no livro de Sperling mostra, são o locus da diversidade – da economia à ideologia, passando pela religião e cultura. E esta gera inovação.

Jacobs, já em 1961, fazia uma defesa veemente das grandes cidades enquanto ambientes únicos de uma desejável, democrática e estimulante “concentração de diversidade”. Vinte e três anos depois daquele estudo clássico, ao realizar importante análise comparativa de cidades de diversas nações, ela voltaria a mostrar que “a vida econômica se desenvolve através da inovação”! Revela-nos, por exemplo, que o contínuo crescimento de Boston, passando por três gerações de reestruturação econômica produtiva de sucesso, se deve, basicamente, ao seu excepcional capital humano com elevados índices de educação e criatividade (7).

Preâmbulo 2: Richard Florida, Paul Krugman, Jane Jacobs

Outro best-seller recente na América é The Rise of the Creative Class, de Richard Florida, professor de desenvolvimento econômico na Carnegie Mellon University e pesquisador do prestigiado Brookings Institution, Washington (8).

Florida, após extensa coleta de dados comparando diversos graus de tolerância, diversidade e alta tecnologia em 50 metrópoles norte-americanas, desenvolveu o que ele chama de “rankings de indicadores de criatividade”: Gay Index; Bohemian Index; Foreign-born Index; Composite Diversity Index. O primeiro mede a quantidade de casais homossexuais relativamente à população de determinada metrópole. O segundo mede, do mesmo modo, a quantidade relativa de “artistas”: escritores, designers, arquitetos, músicos, atores e diretores de cinema e teatro, pintores e escultores, fotógrafos e dançarinos. O terceiro refere-se ao percentual de moradores não americanos em determinada metrópole e o último é o cruzamento dos três primeiros. Finalmente, Florida compara seus dados com o Tech-Pole: The Milken Institute Tech-Growth Index: um indicador que mede a quantidade de inovação em alta tecnologia em diversas metrópoles norte-americanas (9).

O estudo gerou uma série polêmica de conclusões e transformaram Florida no mais novo consultor “de peso” americano com palestras muito bem pagas em instituições de ensino, pesquisa econômica, empresariado e governos locais interessados em melhorar a posição de suas cidades no já famoso “ranking de cidades criativas”, elemento mais comentado produzido pelo livro.

O famoso ranking das cidades mais criativas da América. No topo, as grandes metrópoles de São Francisco, Boston, Seattle, Dallas e Los Angeles [FLORIDA, 2004]


O fato é que, além de demonstrar que 38 milhões de americanos hoje trabalham no que se chamou de “classe criativa” – a que mais cresce economicamente nos EUA –, seu ranking revela dados interessantes:

  • A diversidade geral (cruzamento dos seus três índices) é um forte indicador do sucesso em economia de alta tecnologia de determinada metrópole.
  • Metrópoles com alta concentração de residentes estrangeiros na sua população estão entre as líderes do ranking de cidades criativas.
  • Uma alta concentração de “artistas” ou “boêmios” é forte indicador de sucesso na economia de alta tecnologia.
  • As cinco metrópoles com maior concentração de casais homossexuais estão situadas entre as 15 primeiras no ranking da nova economia: São Francisco, Washington, Austin, Atlanta e San Diego.

Florida argumenta que o capital humano é a chave para o desenvolvimento econômico local desta nova economia: clusters inovadores e de alta tecnologia. Mais: capital humano específico, de talento. Idéias criativas são o maior ingrediente nas empresas ligadas a esse tipo de economia que predominará neste século. Na nova economia, baseada no conhecimento – knowledge-based economy –, estar em ambiente criativo – os innovative milieux – é fundamental (10). Sua conclusão: diversidade é fundamental no crescimento econômico; tecnologia e tolerância caminham juntas. Ou seja: novamente surgem as correlações fundamentais entre metrópole, diversidade, ambiente inovador e crescimento econômico!

Ambientes com alta concentração de pessoas criativas crescem mais rapidamente e atraem mais gente de talento. Metrópoles com clusters de alta tecnologia contém maior número de pessoas de talento do que outras. Talento, tolerância e diversidade são os ingredientes indissociáveis no crescimento destas metrópoles que lideram o ranking de cidades criativas (11).

Seu mais recente estudo mostra como o crescimento econômico das 11 cidades melhores posicionadas no seu ranking de criatividade (“as 11 metrópoles mais criativas dos EUA”) tiveram um crescimento no número de empregos significativamente maior do que aquelas que ficaram nas 11 últimas posições (“as 11 metrópoles menos criativas dos EUA”) (12).

Na verdade, os economistas – não apenas Florida, mas prêmios Nobel como Robert Lucas e Paul Krugman – estão resgatando aqui as chamadas “externalidades espaciais” no desenvolvimento econômico local apontada, há décadas, por Jane Jacobs. Krugman, após resgate precioso da teoria pioneira de Marshall acerca do papel das aglomerações industriais, tornou-se o porta-voz de uma “geografia econômica”, onde destaca o fundamental papel do território no desenvolvimento das nações. Lucas destaca com tal dimensão as externalidades de Jacobs no desenvolvimento econômico local que chega a propor um prêmio Nobel de economia a ela (13).

Florida, por sua vez, cita enfaticamente Jane Jacobs ao comentar que cidades que não geram ambientes com diversidade e tolerância entram em declínio econômico, muitas vezes pelo excesso de rigor, regulamentação, burocracia e aversão à inovação.

Suas mais recentes pesquisas comprovam que maiores densidades populacionais urbanas estão diretamente ligadas a maior desenvolvimento de alta tecnologia, gerando outro interessante debate contra o tradicional modelo americano de suburbanização e baixa densidade (urban sprawl) e em defesa das grandes metrópoles com muito maior densidade.

Panorama: clusters urbanos

Há dois anos, começamos a investigar as bases do que temos chamado “processos inovadores de reestruturação produtiva e regeneração urbana: clusters (14) como potenciais instrumentos de desenvolvimento econômico local (DEL) nas estratégias de políticas públicas e projetos urbanos sobre vazios metropolitanos” (15).

Os precedentes são relativamente claros. Ao longo das últimas décadas, fortes mutações territoriais emergiram na chamada cidade de economia pós-fordista, mais enfaticamente após a reestruturação da economia espacial. O declínio industrial gerou o esvaziamento de áreas urbanas inteiras. O território metropolitano tornou-se, repentinamente, depositário de enormes transformações ao mesmo tempo em que o abandono e desperdício urbanos tornaram-se particularmente evidentes na fábrica urbana contemporânea: zonas industriais subtilizadas, armazéns e depósitos industriais desocupados, edifícios centrais abandonados, corredores e pátios ferroviários desativados (“vazios urbanos”, “terrenos vagos”, “wastelands”, “brownfields” ou “terrain vague” conforme a diferenciação da nomenclatura).

Trata-se, naturalmente, de problema típico das metrópoles mundiais neste momento de transformação produtiva. Nos EUA, onde este processo de reestruturação vem ocorrendo já há algumas décadas de modo acelerado em diversas metrópoles e , por outro lado, vem sendo estudado de modo mais consistente, já surgem diversas teorias a respeito, como temos apontado.

Em interessante contraponto à famosa “Escola de Chicago”, de onde emergiram estudos clássicos de desenvolvimento urbano-econômico na segunda metade do século XX, vários estudiosos dos novos padrões de desenvolvimento econômico e seu rebatimento na dinâmica territorial, particularmente a partir do exemplo pioneiro californiano, têm argumentado em nome de uma nova “Escola de Los Angeles”, de onde – a partir da UCLA – já têm emergido vários estudos acerca da sociedade pós-industrial. Note-se que enquanto inúmeras áreas metropolitanas sofriam com o esvaziamento produtivo da antiga indústria num processo de “desindustrialização”, Los Angeles estava se “reindustrializando” através dos novos clusters industriais e tecnopolos.

E, como temos ressaltado, os novos padrões de organização e produção econômica pós-fordista tendem a confirmar e intensificar a existência de tendências de aglomerações produtivas, só que de modo bastante mais dinâmico e flexível (16).

Em face desta reestruturação produtiva e da redefinição do papel do Estado, destaca-se cada vez mais a necessidade de formas de ação formuladas e implementadas em nível local, com o objetivo de promover o desenvolvimento econômico (local). Os novos formatos de desenvolvimento local advindos da nova economia oferecem subsídios potencialmente ricos como possíveis respostas ao quadro acima descrito. Os sistemas produtivos locais (SPLs) têm despontado em várias cidades do mundo globalizado ao mesmo tempo em que, sob o enfoque da inovação tecnológica da produção, surgem os ambientes inovadores como nova estratégia de desenvolvimento local.

Assim, pareceu-nos urgente o estudo dos impactos positivos gerados no desenvolvimento urbano dos territórios produtivos em transformação a partir do desenvolvimento dos clusters como alavancadores da nova economia e como preciosos instrumentos de desenvolvimento local em bases emergentes de funcionamento territorial nos casos de reindustrialização inovadora.

Por um lado, estratégias e projetos urbanos nestes territórios devem operar novas funções e programas produtivos – diferentemente, portanto, dos programas de revitalização de áreas centrais tradicionais, normalmente de viés cultural, turístico ou cenográfico. Por outro lado, no atual quadro de competição global das cidades, os programas de reestruturação produtiva devem buscar a união de competitividade e inovação através das várias oportunidades geradas pelos novos sistemas de produção (17).

Algumas questões indagativas e hipóteses de trabalho se colocaram inicialmente frente ao problema:

Quais as possíveis conclusões geradas a partir da correlação – pouco explorada até o momento – entre a “dimensão urbana” e os efeitos dos “novos arranjos produtivos locais”?

Como estratégias criativas para reconfigurar a dimensão urbana e o desenvolvimento ambiental sustentável podem ser geradas a partir dos novos formatos de desenvolvimento local – ambientes inovadores e clusters urbanos?

Síntese: São Francisco Mission Bay

No segundo semestre de 2004, estivemos na Califórnia desenvolvendo as pesquisas de campo para a análise crítica de alguns estudos de caso que nos pareceram relevantes para a nossa pesquisa. Dentre os vários casos interessantes de clusters inovadores situados naquela região, um deles particularmente nos parece de extremo interesse pois congrega diversos parâmetros que remetem diretamente ao nosso problema da reestruturação produtiva de vazios metropolitanos: São Francisco Mission Bay.

O projeto urbano de Mission Bay, junto à área portuária de São Francisco, vem sendo construído sob coordenação da empresa privada Catellus Development e pretende ser um modelo, completo e inovador, de desenvolvimento urbano sobre uma área metropolitana deteriorada: um vazio urbano de 303 acres. Cria-se uma área habitacional para mais de 10 mil moradores, uma zona de comércio de alta qualidade, uma área de laboratórios e empresas biotecnológicas, uma zona empresarial de alta tecnologia, um hotel de 500 quartos e o novo campus de bio-investigação da Universidade da Califórnia em São Francisco – UCSF (18).

O maior elemento funcional do projeto é, naturalmente, o campus científico e de empresas biotecnológicas da UCSF. Orçado em 4 bilhões de dólares, o Mission Bay Biosciences Campus deverá ser o maior propulsor no desenvolvimento econômico local desta área tradicionalmente industrial. O campus começou a ser construído há 10 anos e a sua primeira fase entrou em operação em 2003. Quando totalmente concluído, o investimento deverá ultrapassar 1 bilhão de dólares, pretendendo fixar 9000 pessoas, entre pesquisadores e equipe de apoio.

Como todos os clusters de sucesso, há uma concentração única e fundamental de capital humano de especial talento: avalia-se em cerca de 250 mil pessoas o número de investigadores e técnicos ligados ao setor da biotecnologia nesta região da Califórnia e estima-se o investimento anual em desenvolvimento e pesquisa em mais de 2 bilhões de dólares.

Trata-se, como quase sempre no redesenvolvimento urbano-econômico nos EUA, de um caso clássico de parceria público-privado, onde as empresas privadas desde cedo participam ativamente do desenvolvimento de todo o projeto. Neste caso, há claramente um forte investimento privado do setor de biotecnologia e pesquisa avançada numa região que há décadas se destaca pela sua participação pioneira na nova economia e no setor de alta tecnologia.

Ou seja, a chamada Bay Area, que congrega toda esta região da Califórnia – indo de San Jose a Oakland –, após ver a emergência espontânea do que viria a se tornar o poderoso Vale do Silício há mais de 30 anos, agora, de modo muito bem planejado, vê surgir uma nova geração de clusters, ligada à biotecnologia.

Particularmente a cidade de São Francisco almeja agora liderar a corrida da “bioeconomia”, cuja partida começou aqui com o efeito estrondoso das descobertas em torno do genoma humano que envolveu parcerias entre as universidades de São Francisco, Berkeley, Stanford e San Jose e diversos laboratórios privados. Nos últimos anos, esta corrida tem se espalhado por várias cidades da Califórnia e dos EUA: San Diego e Seattle, por exemplo, concentram também importantes clusters de biotecnologia que, como aqui, têm sido mola propulsora de amplos processos de reestruturação produtiva com importantes reflexos nos seus projetos de regeneração urbana (19).

Urbanisticamente, também se deve lembrar que este é o último e maior de uma série de projetos de regeneração urbana de áreas industrial-portuárias deterioradas de São Francisco. O processo tem procurado reabilitar diversos dos antigos edifícios industriais e galpões do cais, processo que já havia se iniciado com os projetos de reciclagem urbana em Fisherman´s Wharf e Embarcadero, ao longo da Orla Portuária, e de reciclagem de edifícios como o premiado Ferry Building Terminal, além das intervenções urbanísticas de South of Market (SOMA) e Yerba Buena Center.

O projeto Mission Bay tem início da década de 80, quando a Santa Fe Pacific Realty Corporation, empresa de transportes ferroviários, proprietária de Mission Bay, aceita a possibilidade de participação da comunidade local na elaboração de um projeto urbanístico para a região. Após várias mudanças significativas no tipo de uso predominante para a área, e com o concurso público de projetos cancelado, a proposta final foi efetivamente concluída em 1998, sendo desenvolvida pelo escritório Johnson Fain, de Los Angeles e contando com a colaboração dos paisagistas Simon Martin-Vegue, Winkelstein & Moris, de São Francisco.

Foi a partir do processo de desenvolvimento desse urban master plan que, em 1997, a UCSF promoveu o seu próprio concurso internacional de arquitetura e desenho urbano para a elaboração do novo campus, que ocuparia metade da área toda de Mission Bay. Cinco projetos finalistas foram escolhidos, de autoria de Shin Takamatsu; Machado & Silvetti; Solomon; Steven Holl e Harvgreaves; STUDIOS Architecture e SWA O projeto vencedor é de Machado, Silvetti & Associates, importante escritório de Boston, com parceria dos arquitetos locais Gordon H. Chong & Partners e dos paisagistas Olin Partnership, que desenvolveram o já inaugurado parque linear de Mission Creek junto ao novo estádio de baseball, na borda da área, para o time do San Francisco Giants. O Pacific Bell Park, inaugurado em 2000, foi um importante instrumento no processo de renovação da região. A localização do estádio garantiu atratividade e uma nova opção de lazer para a comunidade local.

Dois elementos fundamentais no desenvolvimento de projetos urbanos desta natureza e deste porte são infra-estrutura e acessibilidade. Como na maioria dos casos, o poder público se encarregou de prover ambos. Toda uma rede subterrânea de infra-estrutura, incluindo fibra ótica e cabeamentos ultramodernos, têm sido implementada.

Novos acessos foram criados ligando o território ao restante do centro da cidade e ampliações de linhas de transporte público também foram feitas. A grande e maior inovação neste aspecto foi o alto investimento no transporte público sobre trilhos, através da extensão da linha de metrô de superfície – MUNI – que passou a conectar a região com o distrito financeiro da cidade. Mission Bay é agora servida pelo MUNI, novas linhas de ônibus e uma nova estação de trem, a Cal-Train Station, que interliga todo o Vale do Silício. O mais interessante, entretanto, é o reaproveitamento do leito ferroviário original passando pelo corredor da Third Street e cruzando todo o território de Mission Bay.

Argumentos

À guisa de conclusão do artigo, devemos lembrar que aqui se procurou levantar algumas questões relevantes que emergiram neste nosso período de análise de alguns estudos de caso na Califórnia. Destacamos o papel das metrópoles norte-americanas na geração de diversidade e inovação. Mostramos que tais elementos estão determinando novos formatos de desenvolvimento econômico local baseados na nova economia (informação e tecnologia). Finalmente, procuramos discutir se, e de que forma, estes novos padrões de desenvolvimento do tipo dos clusters de inovação, podem atuar como elementos catalisadores no processo de reestruturação produtiva de áreas metropolitanas em mutação (vazios urbanos).

A questão básica que levantamos logo de inicio foi acerca da possibilidade destes ambientes inovadores operarem transformações positivas nas novas estratégias de regeneração urbana. Em que condições os clusters de inovação podem participar decisivamente nos projetos urbanos de refuncionalização dos vazios urbanos. Para isto recorremos ao caso especifico de São Francisco.

Ora, parece-nos que alguns argumentos específicos podem ser sintetizados a partir dai:

A questão da interdisciplinaridade entre campos do conhecimento distintos deve enfrentar o desafio da busca por uma semântica comum. Neste caso que envolve interfaces entre urbanismo e economia – para ficar só nos dois maiores campos – devemos aprofundar as definições próprias de cada área e do que é comum, até para não se cair na armadilha dos termos e conceitos “de moda”.

O problema urbano. Os estudos de caso são interessantes como análise crítica e possíveis rebatimentos à nossa realidade local surgem quando o problema analisado for semelhante. O problema básico que nos tem movido nesta pesquisa é a questão da regeneração, através da presença de clusters inovadores, de áreas urbanas em processo de reestruturação produtiva: San Francisco Mission Bay só pode nos trazer lições a partir deste problema comum.

Ou seja: interessa-nos, sobretudo, a análise do problema e sua estratégia de regeneração, não a importação de modelos de desenho urbano. É óbvio que o transporte simples de “modelos de sucesso” internacional é incabível para nós – cabe-nos sempre lembrar dos obstáculos ao desenvolvimento em nossas áreas urbanas de baixa renda e com riscos de exclusão.

A vocação do território (cidade e região). Novamente: nossos casos se pautam pelos territórios de vocação histórica produtiva. São os típicos vazios urbanos que emergiram nas metrópoles pós-industriais que necessitam de projetos de regeneração urbana capazes de lhes trazer novas funções produtivas e não projetos de “revitalização urbana” tradicionais.

O papel do planejamento estratégico. A articulação das agências de planejamento local, gestão publica, órgãos de planejamento urbano e parcerias público-privado são fundamentais nos casos analisados de sucesso e nós estamos apenas iniciando esse processo em nossas regiões metropolitanas. O planejamento integrado das dimensões política, tecnológica, econômica e urbana pode atuar como facilitador da nova organização econômico-territorial.

Inovação e tecnologia: infra-estrutura de porte é pré-requisito básico para atrair novos empreendimentos. Não existe ambiente inovador no mundo sem a forte presença no território de (a) boa infra-estrutura urbana e (b) boa acessibilidade de transporte e tráfego.

Inovação e capital humano. Os casos revelam, sem exceção, a forte presença de elementos geradores de capital humano especializado, “de talento”: universidades e instituições de pesquisa de porte. Quanto mais, melhor. Especializações podem ser altamente favoráveis.

Ambientes inovadores, reestruturação produtiva e regeneração urbana. Quem se beneficia desse novo território? Algumas questões que emergem de imediato:

  • O desenvolvimento econômico: novas empresas, mais empregos? Na nova economia, nem tanto. Ou, pelo menos, predominam os empregos e atividades altamente especializadas no inicio do processo;
  • O desenvolvimento local: normalmente se verifica a revitalização do território lindeiro. Lado positivo: reerguimento de atividades urbanas deterioradas ou inexistentes. Risco: transformação radical da vocação histórica do tecido urbano, inclusive pelo substancial aumento do preço da terra;
  • Gentrificação do território? Quase inevitável;
  • “Elitização” do ambiente inovador: predomina a presença apenas do chamado capital humano especializado, “de talento”, no novo território;
  • Imagem do lugar: risco de transformação substancial no que se refere aos recursos tecnológicos. Porém, se o território sempre teve vocação produtiva, industrial, trata-se apenas de uma “nova linguagem” para essas mesmas vocações;
  • Ambientes “informacionais”: vários estudos já têm sugerido enfaticamente que, ao contrário do senso comum predominante, os ambientes inteligentes, informacionais, espaço internético, etc., só se complementam com a tradicional interação física. Na verdade, nunca se valorizou tanto a troca informal de informações, “face-a-face”, o chamado conhecimento tácito. Nos clusters inovadores de sucesso, há enorme valorização do capital humano interativo. Inúmeros clusters só tiveram sucesso por conta da rica e única troca de informações propiciadas pela presença, no mesmo ambiente, de atividades comuns. Ou seja: o ambiente é inovador, antes, por facilitar e gerar idéias inovadoras e, depois, pela sua infra-estrutura avançada de comunicações e troca de informações inovadoras (20).

Assim, parece-nos evidente o papel único das metrópoles na nova rede de fluxos mundial e processos inovadores. O potencial do território central regenerado e reestruturado produtivamente é imenso na nova economia, desde que planejado estrategicamente.

Sob o prisma do desenvolvimento urbano sustentado, voltar a crescer para dentro da metrópole e não mais expandi-la é outro aspecto altamente relevante nestes casos: reciclar o território é mais inteligente do que substituí-lo. Reestruturá-lo produtivamente é possível e desejável no planejamento estratégico metropolitano.

A arquitetura “inovadora” encontra grande espaço para o seu o desenvolvimento quando vinculada a este tipo de demanda. Inovar tecnologicamente visando sustentabilidade urbana. Inovar programaticamente integrando-a ao ambiente inovador. Inovar ao gerar a desejável arquitetura de responsabilidade urbana, fluída, permeável. Uma arquitetura transparente à interação que as metrópoles possuem, que absorva a sua diversidade e propague inovação (21).

Ou seja: regenerar produtivamente territórios metropolitanos existentes deve ser face da mesma moeda dos novos processos de inovação econômica e tecnológica.

Finalmente, a despeito dos enormes potencias existentes em metrópoles brasileiras como São Paulo, devemos lembrar das nossas imensas dificuldades locais, inerentes a um país ainda em processo de desenvolvimento. Aqui, não se pode apenas exigir a instalação de infra-estrutura e acessibilidade, por exemplo, sem antes enfrentar os desafios de acumulação de competências e da construção de um amplo processo social que impulsione o desenvolvimento local.

Se nossas metrópoles podem gerar eficiência, diversidade e inovação, será a partir de modelos próprios, o que não exclui, porém, um processo de aprendizado com os casos pioneiros internacionais (vale lembrar que os casos recentes de sucesso de reestruturação produtiva e regeneração urbana em metrópoles canadenses, como o famoso Montreal Citè Multimedia, muito se valeram de lições prévias dos exemplos americanos). Metrópoles como São Paulo devem urgentemente definir o seu (enorme) papel no Século XXI. Afinal, como se sabe, o futuro não é algo que simplesmente acontece, mas é criado.

Notas1
NE – Este trabalho foi proferido no workshop Clusters Urbanos, organizado pelo curso de pós-graduação em urbanismo na Universidade Mackenzie, 2 e 3 de agosto de 2004, em São Paulo. O autor do artigo foi o organizador do evento. Os artigos desta série são os seguintes:

2
SPERLING, John. The Great Divide: Retro vs. Metro America. Nova York, Polipoint, 2004.

3
Idem, ibidem.

4
Idem, ibidem.

5
Idem, ibidem.

6
Kerry, junto a sua esposa, Tereza Heinz Kerry, promovem um amplo programa de desenho urbano sustentável e negócios urbanos inovadores em várias cidades, principalmente na Pensilvânia, através do The Heinz Endowments.

7
JACOBS, Jane. Cities and the Wealth of Nations. Nova Iorque, Random House, 1984. À propósito: Jane Jacobs, hoje com 85 anos e eleita pela comunidade americana como uma das 100 maiores intelectuais deste país, vive na liberalíssima Toronto, Canadá, desde 1968, quando deixou a sua amada Nova Iorque para que seus filhos fugissem do alistamento militar para a guerra do Vietnã. Com relação a situação dos clusters de Boston e seus contínuos processos de reestruturação produtiva, ver Saxeniam, AnnaLee. Regional Advantage. Culture and Competition in Silicon Valley and Route 128. Cambridge: Harvard University Press, 1996.

8
FLORIDA, R; GATES, Gary. Technology and Tolerance: The Importance of Diversity to High-technology Growth. Washington DC: Center on Urban & Metropolitan Policy, The Brookings Institution, 2001.

9
Ibid.

10
Acerca do surgimento dos “ambientes inovadores” e seus rebatimentos no território urbano, ver: Hall, Peter. The Generation of Innovative Milieux. An Essay in Theoretical Synthesis. IURD Working Paper #505. Berkeley: IURD/UC Berkeley.

11
FLORIDA, 2001. Op. cit.

12
FLORIDA, Richard. In: The Next American City. The Great Creative Class Debate. The Next American City, Special Feature, #5, pp. i-viii. Nova Iorque: The Next American City, Inc., 2004 e KRUGMAN, Paul. Localization in Geography and Trade. Cambridge: MIT, 1991.

13
FLORIDA, 2004. Op. cit.

14
Clusters podem ser definidos como aglomerações produtivas estabelecidas em território geograficamente bem definido, onde as empresas e demais agentes envolvidos atuam de forma, ao mesmo tempo, cooperativa e competitiva, normalmente junto a instituições de pesquisa. A aglomeração de atividades similares num dado território específico produzem o que chamamos de ambientes inovadores. Ver Porter, Michael. The Economic Performance of Regions: Measuring the Role of Clusters. Gotemburgo: The Competitiveness Institute, 2003.

15
O Grupo Clusters Urbanos situa-se junto ao Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie e vem trabalhando nesta pesquisa desde dezembro de 2003 com subsídios do Mackpesquisa, CAPES e FAPESP.

16
HALL, P.; BEKER, U. Towards the Post-Industrial City. A Symposium on Structural Change, Urban Problems, and Local Policies in the Regions of Frankfurt and San Francisco. IURD Working Paper #543. Berkeley: IURD/UC Berkeley, 1991.

17
SIMMIE, J. (Ed.) Innovative Cities. Londres. Routledge, 2001.

18
MARQUES, Juliana. Clusters: Instrumento Estratégico de Regeneração Urbana e Urbanismo Sustentável. Dissertação de Mestrado, UPM, 2005.

19
Idem, ibidem.

20
DUARTE, F. Crise das matrizes espaciais. São Paulo: Perspectiva/FAPESP, 2002.

21
ROGERS, Richard. Cities for a Small Planet. Cambridge: MIT Press, 2001.

sobre o autor

Carlos Leite, Professor Doutor do Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie. O autor agradece ao apoio do MACKPESQUISA pelo subsídio à pesquisa conduzida na UPM; à CAPES pelo subsídio ao Pós-doutorado realizado em 2004 (estudos de caso junto à Califórnia Polytechnic University) e à FAPESP pelo subsídio aos estudos de caso no Brasil

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059.10

Uma introdução aos Sistemas de Informações Geográficas no planejamento urbano

Renato T. de Saboya

059.11

Arquitetura penitenciária: a evolução do espaço inimigo

Suzann Cordeiro

059.12

Operações Urbanas em São Paulo: crítica, plano e projetos. Parte 2 – Operação Urbana Faria Lima: relatório de avaliação crítica

Pedro Manuel Rivaben de Sales

059.13

Cidades na sociedade de informação: clusters urbanos

Fábio Duarte

059.14

Notas sobre o fomento de Arranjos Produtivos Locais para o desenvolvimento econômico e renovação territorial urbana

André I. Leirner

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