Your browser is out-of-date.

In order to have a more interesting navigation, we suggest upgrading your browser, clicking in one of the following links.
All browsers are free and easy to install.

 
  • in vitruvius
    • in magazines
    • in journal
  • \/
  •  

research

magazines

architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
O artigo fala da Fábrica de Cimento Santa Rita S.A. na formação e na origem de Itapevi - SP. Além de construir escolas, vilas operárias e espaço para lazer, a empresa foi determinante no financiamento da campanha política de emancipação do Município


how to quote

CARUSO ALMEIDA, Henrique. Patrimônio industrial e memória. A formação da cidade de Itapevi SP a partir da contribuição da Santa Rita S.A.. Arquitextos, São Paulo, ano 06, n. 069.07, Vitruvius, fev. 2006 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/06.069/381>.

Esse tem como objetivo principal, apresentar a formação e a origem do Município de Itapevi, na Grande São Paulo, através da influência direta política e econômica da Fábrica de Cimento Santa Rita S.A. na região.

O histórico, as fontes e as paisagens, revelam toda a transformação do espaço em sua volta, determinado pela a empresa. Cito como importância sócio-econômica: a construção de toda uma infra-estrutura criada pela a empresa para o escoamento de cargas através de linhas férreas, rodoviárias e aéreas. Um outro fator importante foi a aceleração determinante de sua parte na migração de mão-de-obra para o seu local, onde tal migração se fixou e que contribuiu para o aumento populacional do município. Além de construir escolas, vilas operárias e espaço para lazer, a empresa foi determinante no financiamento da campanha política de emancipação do Município de Itapevi frente ao município de Cotia. O que antes era apenas distrito de Cotia, passou a se tornar uma cidade independente politicamente e dando inicio ao seu processo de identidade e história próprias.

A história de uma cidade e de um povo passa a ser contada a partir do momento da origem da empresa no local e, o objetivo é contar e resgatar essa história através de memórias, relatos e fontes escritas e orais para as gerações atuais e futuras do Município. A empresa está desativada e o que sobrou das edificações, são pilares para a montagem de todo esse resgate de pesquisa e memória do espaço e da região.

A estratégia do presente trabalho é, através das fontes visuais – edifícios, as instalações, as vilas operárias, etc. –, contar e montar toda a pesquisa de memória e de histórica do lugar. Serão registrados todos os relatos verbais de seus antigos funcionários que fizeram a história da empresa e do Município direta e indiretamente. Pesquisaremos os registros escritos e visuais que contam a memória e o passado da empresa que serviu como base para a identidade do Município e de seu povo.

História

Rita era a esposa do Fundador do Grupo Calci e Cimenti di Segni de origem italiana da Região de Roma. Em homenagem a essa mulher, resolveram “batizar” o nome da indústria de cimento que o grupo instalou no Brasil no início da década de 1950 como Cimento Santa Rita S.A..

Três representantes à serviço do grupo italiano e com uma procuração em mãos, desembarcaram no Brasil no início da década de 1950 com a missão de implantar a fábrica e explorar as jazidas de calcário que se encontravam no município de Araçariguama (km 44 da Rodovia Castelo Branco) em S. Paulo. Jazidas que pertenciam a um grupo norte-americano de proprietários de origem desconhecida (até o momento por mim) e que sua exploração se encontrava desativada quando a empresa veio a se instalar em Itapevi.

Não tardou muito para a empresa adquirir junto aos americanos as jazidas de calcário e dar ao nome da pedreira o mesmo nome de batismo da fábrica: Pedreira Santa Rita S.A. O bairro onde se encontra a pedreira e a fábrica acabou recebendo esse nome (Santa Rita) pela referência e pelo o poder exercido pela a fábrica no local onde ambas se instalaram, já que antes o local era conhecido como Bairro da Lagoa e Parada do km 40 da Estrada de Ferro Sorocabana (atual Parada Cimenrita da CPTM, trecho Oeste) respectivamente.

Personagens

São esses os três representantes e funcionários da Companhia italiana acima citada que vieram ao Brasil para a instalação da fábrica: Guido Annicchiarico Petruzzeli, se tornou o 1º Engenheiro responsável por toda a produção industrial, Roberto Bellini responsável pelo Departamento de Vendas e Marketing da empresa e Renato Tonacci Diretor-Superintendente da empresa.

No Brasil, o responsável direto e articulador da instalação da empresa foi o Sr. Gentil de Oliveira, que negociou a vinda da empresa ao local. Ele Apresentou as vantagens para o grupo, verificou qual local seria o ideal para a sua instalação, fez acordos com os proprietários de terras da região para a instalação das torres dos teleféricos, negociou com os políticos locais todos os benefícios e vantagens que a empresa teria ao se instalar nas proximidades, entre outros feitos para que a instalação se tornasse possível. Enfim, foi o responsável em solo brasileiro por todo o suporte técnico e empresarial do Grupo. O que o tornaria, mais adiante, futuro Prefeito da Cidade de São Roque, devido a todo seu poder de articulação, carisma e conhecimento do local e das pessoas.

E como “prêmio”, o Sr. Gentil de Oliveira se tornou o 1º vice-presidente da empresa quando ela começou o seu processo produtivo. Cargo esse que era apenas de cortesia, já que, o Sr Gentil não ficava muito na empresa, aparecia de vez em quando, pois os seus compromissos políticos eram de maior importância para ele. Ele mesmo se sentia livre e deixou claro ao grupo que só aceitaria o cargo se essas condições lhe fossem oferecidas...

A empresa teve como Gerente Administrativo o Sr. Giorgio Compagno, nascido na Itália e que veio ao Brasil no início dos anos 50 com sua família e fora admitido pela a empresa no ano de 1955 e que permaneceu no cargo até o ano de 1987, ano em que se aposentou e que ainda vive próximo das imediações da fábrica de cimento no Bairro de S. João Novo em São Roque. Foi um grande colaborador oral das histórias da empresa e que cedeu alguns de seus documentos para o enriquecimento da pesquisa.

Globalização, geopolítica e infra-estrutura

O grupo italiano que produzia cimento em solo italiano e posteriormente em solo brasileiro explorou algumas das jazidas de cobre e calcário existentes na Albânia (Leste europeu) e detinha em seu poder, aproximadamente seis (6) fábricas de cimento do Centro ao Sul da Itália.

Com a implantação do Regime Comunista na Albânia e em todo o Leste europeu após o término da Segunda Grande Guerra Mundial (1939-1945), o governo comunista albanês da época, resolveu estatizar todas as empresas não-albanesas e confiscou todos os bens financeiros dos estrangeiros existentes no país, causando o término das atividades econômicas do grupo italiano em solo albanês.

No Brasil na década de 1950, com incentivos da política de industrialização durante os anos de JK, as vantagens oferecidas pelo governo brasileiro se tornaram atraentes para os investidores estrangeiros. O grupo italiano desvia suas atenções para o Brasil e escolhe a Grande S. Paulo como ponto central dessas vantagens e oportunidades.

Na região, o grupo encontra toda uma infra-estrutura montada pela a antiga produção cafeeira de décadas passadas como: estradas de ferro, rodovias, mão-de-obra abundante, mercado de consumo em grande formação, matérias-primas, portos, vantagens tributárias, doações de terrenos, etc. Esses foram alguns dos elementos indispensáveis para a instalação da fábrica em solo brasileiro e já no ano de 1.951, começa o processo de instalação da fábrica.

O terreno na altura da parada km 40 da antiga Estrada de Ferro Sorocabana (E.F.S.) era pantanoso e acidentado, isso dificultou o início das operações do processo de implantação de suas primeiras instalações. Depois de um longo processo de terraplanagem (caminhões e caminhões de terras, tratores cortando barrancos, etc.), são instalados os primeiros galpões, as primeiras torres da fábrica, o Departamento de Administração, a Vila dos Engenheiros e dos Técnicos, dando início ao processo de origem da empresa em solo itapeviense e brasileiro.

Todo o maquinário específico da empresa foi importado da Europa (da França veio o maior número desses equipamentos e da Itália o menor número, além de virem outros da Suécia e até mesmo dos Estados Unidos da América). De lá vieram: os moinhos de bola, os filtros eletrostáticos, os secadores, os silos de homogeneização, os silos de cru, os separadores, os fornos, os britadores, os aquecedores, os moinhos, os separadores de material, os silos de klinquer, etc., O transporte de todo esse material veio de navio até o Porto Marítimo da Cidade de Santos e transportados de trem pelo a linha férrea da antiga Estrada de Ferro Sorocabana até o destino final – Parada km 40 em Cotia.

Cotia era o nome de origem da Cidade onde a fábrica Santa Rita se instalou. Somente alguns anos depois é que o local vai se tornar Itapevi, após um longo processo de emancipação política da região em relação à Cotia. Itapevi, nesse caso, era um distrito de Cotia, a chamada Vila Itapevi (Itapevi em Tupi Guarani significa: Pedra Achatada).

Os técnicos especializados em suas instalações, manutenção, reparo e assistência, foram trazidos da França juntos com outros técnicos italianos, suecos e alemães em menor número.

Da Europa, mais precisamente da Itália, veio o teleférico, que continha aproximadamente 300 vagões e mais de 20 km de cabos – e todo o material de suporte para a sua instalação. Foram instalados 11 km (11 de ida e 11 de volta) de cabos para o deslizamento dos vagões da pedreira até a fábrica e várias torres de suporte, além de telas de proteção em locais específicos onde se corria o risco de acidentes, como por exemplo, em cima de ruas, vilas, estações de trem, rodovias, pastos, etc.

Além da fábrica e da Pedreira Santa Rita, a empresa construiu em suas imediações (da fábrica) duas vilas operárias: uma destinada aos operários que contou com 50 casas e outra destinada aos engenheiros, arquitetos e gerentes. Construíram um clube de campo denominado Grêmio Santa Rita com quadra poliesportiva, campo de futebol tamanho oficial com grama e arquibancada para aproximadamente 150 pessoas, quadra de bocha e malha e um galpão para festas e reuniões sociais, culturais, trabalhistas e lúdicas.

A vila possuía um alojamento para 40 funcionários sem residência fixa na cidade (o chamado “galpão dos solteiros”), uma escola de ensino fundamental (inaugura em 1957), uma cooperativa de crédito e um armazém de secos e molhados.

Nas proximidades da pedreira (em Araçariguama), a empresa construiu uma outra vila operária e uma escola de 1ª a 4ª séries do ensino fundamental para atender aos seus...

Operários e aos filhos de operários da pedreira. Essa escola se encontra desativada no atual bairro da Lagoa em Araçariguama, km 44 da Rodovia Castelo Branco, já que a prefeitura local construiu uma nova escola para os alunos do bairro. A vila possui 6 casas, sendo que, 3 delas são geminadas e as outras três não possuem o mesmo projeto, ou seja, são separadas umas das outras.

As casas pertencem à Mineração Votorantim, empresa do Grupo Votorantim S.A. que é a dona do local. Na escola há uma quadra de futsal que se encontra na ativa, onde os operários e familiares batem uma bolinha nos finais de semana, já a “molecada” joga todos os dias. Os moradores da pedreira à utilizam para a pratica desse esporte e para a prática de outras atividades lúdicas.

A Santa Rita no auge de sua produção e já com suas instalações bem definidas, foi responsável diretamente pela a construção da Estrada da Roselândia (10 km de extensão), que passou a ligar os municípios de Itapevi a Cotia. Dando acesso à Rodovia Raposo Tavares, que deslocava a sua produção aos mercados de consumo local e regional. Foi responsável pela a pavimentação e sinalização da Rodovia Engenheiro René Benedito da Silva, que ligava à empresa ao centro do município e, posteriormente aos municípios de S. Roque e Mairinque.

Foi a pioneira de grande porte no município de Itapevi, o que proporcionou um desenvolvimento econômico no sentido de geração de empregos e impulsionou o desenvolvimento urbano e social local. Por exemplo.: a própria vila operária e sua escola, deixa claro essa tendência desenvolvimentista do município e do local. Além de gerar empregos diretamente, gerou vários empregos indiretamente. Contribuiu para acelerar o fluxo de cargas vias férreas e rodoviárias o que contribuiu para alterar a paisagem local do espaço geográfico do bairro e da cidade como um todo, além de, ceder uma de suas áreas para o loteamento do bairro que se formava ao seu redor.

Ao criar infra-estruturas diretamente e indiretamente no espaço, contribuiu com essas ações para a possível instalação de novas empresas, como por exemplo, a instalação do Frigorífico Itapevi e da fábrica Têxtil Kiriako, ambas localizadas na Rodovia Eng. René Benedito da Silva próximas da empresa Santa Rita.

Ao se instalarem em Itapevi, essas empresas contribuíram muito para a arrecadação de impostos do município, o que depois seriam revertidos na implantação de infra-estrutura para a população do município e para o desenvolvimento e estratégias para que novas empresas se instalassem no local.

Uma importante contribuição dada pela a empresa ao município de Itapevi e que hoje é historicamente importantíssima ao seu povo, foi a construção de toda a Igreja Matriz São Judas Tadeu. A empresa cedeu a planta, os tijolos, o cimento, a mão-de-obra e tudo o que foi necessário para a construção da igreja central do município. Vale lembrar aqui que São Judas Tadeu é o santo padroeiro do município de Itapevi.

A construção da igreja foi supervisionada e acompanhada pelo Sr. Mário Valz Blim (arquiteto) funcionário da empresa.

Uma outra pessoa que devemos citar aqui nesse processo de construção da igreja é o Padre Romeu Mecca, que foi responsável pela a articulação junto à fábrica na construção de sua igreja juntamente com o Padre Ângelo Manfredi. Ambos importantíssimo nesse processo de construção do espaço religioso.

Decisões políticas

Além da construção da igreja e de outras benfeitorias criadas pela a empresa, uma das mais decisiva foi a do financiamento do projeto político de emancipação do Distrito de Itapevi rente ao Município de Cotia. O Sr. Guido A. Petruzzeli, assinou “vários cheques” para esse financiamento da campanha de emancipação do Município. O Distrito de Itapevi era pertencente à cidade de Cotia.

Grupos de famílias tradicionais do Distrito como a família Nunes, a família Caramez, os Chaluppes, os Novais, os Michellotis, entre outros, receberam montantes do Sr. Guido Annicchiarico Petruzzelli, então presidente da empresa, para a sustentação do projeto político para o município: O de se tornar Cidade e a mesma passar a ter uma identidade, uma história e características próprias.

Não tardou muito e já na década de 1960, Itapevi se vê emancipada. Onde teve como seu 1º prefeito o Sr. Rubens Caramez um dos principais articuladores desse grupo e desse processo político de emancipação.

Nos anos de 1970, o Sr. Jurandir Salvarani (atual secretário de Governo do Município), se tornou um dos Prefeitos do Município e, por curiosidade, foi funcionário da empresa de cimento e que também foi agente ativo no grupo dos emancipadores.

Momento atual e futuro da empresa

Desativada, mas ainda preservando suas características arquitetônicas da época e com algumas modificações mais recentes, boa parte de seus antigos funcionários, filhos de ex-funcionários e netos de seus ex-funcionários, ainda moram na vila operária e nas suas imediações e até mesmo em alguns bairros um pouco mais distantes do local da empresa.

Isso, de certa forma, mantém a “memória viva” daqueles que fizeram da empresa uma das líderes na produção e comercialização do cimento, e essas histórias e estórias são passadas de gerações à gerações. Suas lutas, memórias, amores, conflitos e vivências profissionais são relatos daqueles que viveram anos na linha de produção. Criando assim uma identidade com o lugar e com a antiga fábrica.

O futuro da empresa (resíduo arquitetônico) é incerto. A empresa pertence atualmente ao Grupo Votorantim S.A. onde no ano de 1986 a adquiriu e que mais tarde no ano de 1991 à desativou e não se sabe ao certo se o grupo vai reativar a fábrica (o que é o menos provável já que a empresa se tornou “sucata”), Ou se irá derrubá-la, preservá-la ou fazer o tombamento para a utilização de uma outra atividade sócio-cultural-econômica.

A Prefeitura de Itapevi adquiriu rente ao Grupo Votorantim a área de 46 mil metros quadrados do antigo Grêmio Santa Rita. Há o projeto já em andamento no Departamento de Desenvolvimento Urbano da Prefeitura para a instalação do SESI no município. Serão construídos apenas 7 mil metros quadrados de área, onde o restante 39 mil será preservado como área verde do município.

O que há de certo é que no interior da empresa ainda existe algum tipo de “segredo industrial” e que a mesma está sofrendo internamente de um processo de desmanche em suas estruturas internas (maquinários, ferragens, divisórias, etc.). Toda a parte de documentos e registros que sobraram se encontram em poder da Mineradora Votorantim, ou em mãos do Grupo Votorantim em sua Matriz. O responsável pela a “gerencia” ou que sobrou da fábrica desativada é a Mineradora localizada em Araçariguama.

Boa parte dos registros (fotos, relatórios, livros de visita, etc.), foram enviados para a Itália logo nos primeiros anos de suas instalações e funcionamento. Há fotos em poder de ex-funcionários e que os mesmos ainda possuem suas carteiras profissionais da época em que estavam na ativa. A Diretoria regional de Ensino de Itapevi possui alguns registros de matrículas de ex-alunos da escola da Santa Rita, o Cartório do Imobiliário de Cotia mantém alguns documentos da empresa dos anos de 1960.

A movimentação dentro e fora da empresa é praticamente nula, há apenas uma leve movimentação (esporádica) de caminhões da prefeitura do município que retira os resíduos de brita que foram doadas pela a empresa à prefeitura para a pavimentação de ruas do município. Não chega a ser uma pavimentação tradicional e, sim, uma camada de pedra em ruas sem asfalto do município.

A desativação modificou a paisagem do espaço. Se antes tínhamos uma poeira constante saindo de suas chaminés, caminhões, trens, bondinhos entrando e saindo da fábrica, hoje temos o ar límpido ao seu redor. Até mesmo os trens que servem a população local se encontram em não circulação (já que a empresa CPTM não vem fazendo as manutenções devidas na linha férrea e em seus carros), o próprio teleférico foi desativado e vendido como sucata e os caminhões já não circulam com intensidade dentro da fábrica, o que há, é apenas o movimento constante de veículos circulando na rodovia paralela à fábrica. As residências locais provam o quanto a poluição deteriorou o lugar e a saúde de alguns moradores. Basta observarmos nos telhados e veremos os resíduos de cimento grudados em seus assentos.

De paisagem natural à paisagem social. Se a fábrica “viva” era o retrato de uma paisagem em movimento, hoje encontramos uma paisagem “morta” e decadente pós-desativação, ou se preferir um outro tipo de paisagem. Sem a movimentação constante dos teleféricos, dos caminhões e trens que rasgavam asfaltos, espaços aéreos e férreos, o visual lembra um quadro de Manchester (Inglaterra) pós Margaret Tachear, neoliberalismo nato, onde as concorrências global e local e o fim da presença do Estado na economia, geraram um “fim da industrialização” do espaço e suas sucatas fabris passam a ser visíveis.

Além do interior da fábrica, a vila operária se tornou um espaço de convivência do grupo que ali residiu e reide. Famílias se tornaram amigas e vizinhas, romances foram aflorados entre operários e operárias, entre filhos e filhas de operários. As crianças e suas brincadeiras nas imediações da vila, a escola e suas fantasias infantis e romances, lendas e objetivos dos jovens adolescentes. Brigas, revoltas, descontentamentos e sonhos foram constantes nesse espaço de convívio proporcionado pela a fábrica.

A área de lazer: espaço aberto aos churrascos no final de semana, o futebolzinho entre os amigos e os “contras” entre equipes locais. A quadra de bocha aos aposentados, além de seus jogos de dominó, dama, xadrez e o truco para lavar a alma de mais um dia e de mais uma semana puxada na fábrica, serviam para o agrupamento e o surgimento de uma “grande família” a família Santa Rita S.A.

Até mesmo os que não trabalhavam diretamente na fábrica, criavam uma identidade com o local. Por fazer parte da paisagem, se encontravam dentro do seu cotidiano. Ouviam os relatos dos operários, jogavam bola no campo da empresa ou na lateral dos muros da fábrica, conviviam com a fumaça do ar, tinham parentes próximos ou distantes dentro da empresa. Alguns (os mais jovens), brincavam de passear em cima do teleférico quando o mesmo ainda funcionava no transporte da matéria-prima. Indo de um barranco ao outro, servindo como uma espécie de lazer para a garotada.

Grupo de ex-funcionários aposentados da Santa Rita criaram por iniciativa própria, a Associação dos Aposentados de Itapevi. Essa instituição age com o objetivo de dar toda uma assistência técnica e jurídica aos aposentados e desempregados do município em suas lutas travadas contra a Previdência Social. Além de oferecer benefícios aos menos favorecidos, como por exemplo, serviços odontológicos, uso da Internet para pesquisa, etc. Age como uma espécie de assistência jurídica aos trabalhadores, aposentados e pensionistas.

Considerações finais

O objetivo dessa pesquisa é o de resgatar a memória através da conservação do patrimônio industrial da Cidade de Itapevi.

A fábrica de cimento Santa Rita pelo o meu entendimento, têm um papel importantíssimo nesse sentido. Além de ser a pioneira na cidade, contribuiu de forma direta e indireta nas decisões políticas e econômicas do município. Tudo “girava em torno da fábrica”, ela tinha o poder econômico em mãos e decidia o que, como, onde e quando fazer.

Pensando nesse sentido que preservar ou utilizá-la para um outro fim, é de fundamental importância para o município, para a sua população e para a sua paisagem sócio-cultural.

Desde sua vinda, a paisagem passou a ser transformada devidas as suas ações no espaço, criou-se no local uma fixação de centenas de pessoas vindas de todos os cantos do país e alguns do mundo para trabalharem nela e residirem em suas imediações, o desenvolvimento econômico do município se deu através de sua órbita.

A historia da região e a identidade de uma população passou a ser contada a partir do momento em que o seu processo de industrialização começou lá nos 50 com o surgimento dessa indústria de cimento e de sua infra-estrutura criada para atender seus interesses e os de seus funcionários.

Se hoje temos características de cidadania (o direito de ir, vir e ficar dentro do espaço da cidade), não podemos deixar de ressaltar a importância da fábrica nesse processo construtivo. Suas decisões influenciaram nos sonhos daqueles que se identificavam com o local, apoiando política-economicamente tal objetivo e objetivos foram alcançados, resultando num só: Itapevi. Cidade que busca ainda em seus objetivos construir de forma plena tal cidadania e identidade.

Hoje vemos desigualdades alarmantes dentro desse espaço, mas a memória viva faz com que novos objetivos sejam traçados e que sejam executados para que os sonhos e lutas continuem aflorando dentro do município com o objetivo final de conquistas de igualdades plenas e, principalmente, a eterna busca de sua construção histórica.

nota

1
O presente trabalho contou com a colaboração teórica e metodológica da Prof. Dra. Eloísa Dezen-Kempter (Unicamp), Prof. Ms. Leonardo Nogueira (Letras da PUC-SP) e Prof. Dra. Ângela Telles (História Social – PUC-SP).

bibliografia

LEPETIT, Bernardo. “O presente da história”. In: Por uma nova história urbana. São Paulo, Edusp, 2001.


TAGIL, Nizhny. Carta para o patrimônio industrial.


MENEGUELLO, Cristina; RUBINO, Silvana. “Patrimônio industrial: perspectivas e abordagens”, Campinas, 2005.


Rotunda
, nº 3, Campinas, Unicamp, out. 2004.

fontes orais

Sr. Alcides Alves – ex-operário da empresa do Departamento de Transportes de 1969 a 1991, Sr. Fábio –ex-aluno da escola da vila operária e filho de ex-funcionário, Sr. José Feitosa, morador há 38 anos no bairro, Sr José Roberto Oliveira, secretário da Associação dos aposentados de Itapevi e ex-funcionário do Departamento Pessoal da empresa de 1959 à 1987, Sr. Giorgio Compagno – Gerente Administrativo de 1955 à 1987, Mitchel Evangelista, morador do Município, Dona Sônia, moradora da vila operária da pedreira, Supervisora Mônica Aparecida Lima Nakamoto da D. Ensino de Itapevi e ex-aluna da escola da vila operária da fábrica, Sr Jaci Tadeu, secretário de desenvolvimento urbano do Município e Vice-Prefeito de Itapevi.

sites consultados

www.grupovotorantim.com.br

www.estacoesferroviarias.com.br/cimenrita.htm


www.google.com.br


www.vitruvius.com.br

arquivos

Biblioteca Pública Municipal de Itapevi, Cartório de Registros e Documentos de Cotia, Prefeitura Municipal de Itapevi, Associação dos Aposentados de Itapevi, Sindicato do Imobiliário de Itapevi e Região, Diretoria Estadual de Ensino – Itapevi/SP.

sobre o autor

Henrique Caruso Almeida é aluno matriculado no curso de pós-graduação da Unicamp no Curso Ética e Cidadania. É professor de Educação Básica II de Geografia do Governo do Estado de São Paulo e da Prefeitura Municipal de Barueri e residente na Cidade de Jandira-SP

comments

newspaper


© 2000–2017 Vitruvius
All rights reserved

The sources are always responsible for the accuracy of the information provided