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architexts ISSN 1809-6298


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Análise arquitetônica cujo método é a introdução de um instrumento dinâmico que revela como os ambientes de uma obra arquitetônica se comportam e como interagem entre si de acordo com a intensidade e distribuição dos usos ao longo do tempo


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DUARTE, Fábio; DINIZ, Ricardo. Cronotopia – Casa Isobe, um primeiro ensaio. Arquitextos, São Paulo, ano 07, n. 073.05, Vitruvius, jun. 2006 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/07.073/347>.

Introdução

If a man isn't willing to take some risk for his opinions, either his opinions are no good or he's no good. Ezra Pound

People find ideas a bore because they do not distinguish between live ones and stuffed ones on a shelf. Ezra Pound

A ação crítica é o que nos interessa. Quando a análise de uma obra, aqui arquitetônica, depende diretamente da intervenção do leitor. Quando as inferências sobre uma obra dependem diretamente das interferências do leitor na obra. Quando a análise está mais focada no método que nos resultados. Quando as qualidades de uma obra só são despertadas pela introdução de um elemento que lhe seja estranho – ou que lhe sejam intrínsecas, mas não vista a não ser por um novo instrumento crítico.

Este ensaio pretende explorar uma possibilidade de análise arquitetônica onde a intervenção do leitor, onde qualquer interpretação dependa umbilicalmente do instrumento conceitual e metodológico de análise. Um ensaio, um exercício de crítica. Como escreveu Josep Maria Montaner (1), “o ensaio entendido como indagação livre e criativa, não exaustiva nem especializada, sem um caráter rigorosamente sistemático, é a mais genuína ferramenta da crítica”.

Uma crítica pela metalinguagem, onde qualidades do objeto analisado sejam processadas em outra linguagem, e que por paralelismos qualitativos, volte-se ao objeto com outro olhar.

Tempo como instrumento crítico

A intenção aqui é inserir o tempo na análise de um projeto arquitetônico. Não inserir o objeto arquitetônico no tempo, seu tempo histórico de concepção e construção, ou analisar um objeto arquitetônico e suas transformações de uso, valores estilísticos ou inserção urbana ao longo do tempo. Mas inserir o tempo como instrumento de análise arquitetônica.

A relação entre tempo e espaço (aqui, arquitetônico) é perigosa. Margaret Wertheim (2) considera que a partir da teoria da relatividade geral de Einstein, a relação entre tempo e espaço é tão indissociável que para a física moderna o tempo é mesmo uma dimensão espacial, do espaço relativístico onde uma membrana espacial envolvesse todas as dimensões e forças física, em uma “arquitetura cósmica dinâmica”. Por mais instigante conceitualmente, as relações entre ciências avançadas (freqüentemente abstratas) e ciências e artes cotidianas, correm o risco de acabar em metáforas que não resistem a uma análise aprofundada. Julio Plaza, artista e teórico de arte-tecnologia, comentando a relação entre arte e ciência, já alertava do perigo de se criar paralelismos forçados entre esses termos (3). Enquanto é intrínseco à determinação do objeto científico que haja códigos estabelecidos e hipercodificados, na arte (e aqui podemos colocar a arquitetura quando pretende ser nova) o processo criativo depende constantemente da indeterminação dos códigos.

Assim, neste ensaio nossa intenção é introduzirmos o tempo como um instrumento de análise arquitetônica, de modo que somente com a intervenção do crítico facetas de uma obra se revelem.

Cronotopia - Método de leitura

O método de leitura espacial que propomos aqui é a introdução de um instrumento dinâmico que nos revele como os ambientes de uma obra arquitetônica se comportam e como interagem entre si de acordo com a intensidade e distribuição dos usos ao longo do tempo.

Nas poucas referências encontradas sobre a sistematização da análise temporal dos espaços (4), Thomas Sieverts e grupo da universidade de Darmstadt, Alemanha, analisam espaços na cidade e seus usos ao longo da semana, com o objetivo de identificar possibilidades de ocupá-los nos períodos ociosos. Para isso, determinam a densidade de uso, em função de tempo onde 1 significa uso e 0, não uso, com gradações (5).

Para nossa análise, utilizamos também a densidade de uso, mas a relacionamos com a intenção de uso de cada espaço. Em uma casa onde vivem 4 pessoas, o quarto do casal, por exemplo, tem ocupação máxima de 2, e a sala de estar, de 4.

Diferentemente dos estudos sobre uso de espaços urbanos que têm a intenção de estimular sua ocupação em períodos ociosos, nas casas não se trata de propor que todos os espaços tenham uso pleno o tempo todo. Mas quando analisamos a distribuição espacial dos usos no tempo no conjunto da casa, vemos equilíbrios e desequilíbrios na ocupação de pavimentos, nas interações familiares estimuladas pela integração entre usos, e na performance energética do projeto.

Menos que as conseqüências desta análise, neste artigo buscamos explorar a metodologia de análise. Para isto, utilizamo-nos da Casa estúdio Isobe, do arquiteto Schinichi Ogawa.

Caracterização do projeto

A Casa Estúdio Isobe, foi projetada por Schinichi Ogawa [figura 1]. Uma família de 4 pessoas, sendo o pai um designer que trabalha em casa. Para a mãe, dona-de-casa, um filho, engenheiro, e outro, estudante no turno matinal, os cotidianos foram simulados.

Situada em Yamaguchi, Japão, está implantada em terreno de acentuado desnível. Seus ambientes são distribuídos em dois níveis, com acesso externo pelo piso superior, onde estão as áreas sociais da casa. Este pavimento é translúcido, à exceção do bloco branco que contém o lavabo, a cozinha e o armazém. Em contraponto, o pavimento inferior, com áreas íntimas, é opaco.

Intensidade de uso

Para cada ambiente foi determinado, pelas suas características de uso e pela composição da família, uma intensidade ideal de uso, e uma escala que mede as variações de uso de sub-utilização a super-utilização. Ou seja, as salas de estar e jantar foram concebidas para abrigar a família e convidados, chegando à 6 pessoas pelo layout proposto. Quando usada por 6 pessoas, sua carga é ideal (igual a 0); quando vazia, sua carga é -6. O quarto do casal tem carga ideal de 2 (duas pessoas), -2 quando vazio e +3 se ocupado além da intensidade de uso prevista no projeto.

Usos no tempo 1 – divisão por ambientes

Primeiramente, separamos cada ambiente da casa e construímos um gráfico de intensidade de usos (eixo y) ao longo do dia (eixo x). O gráfico ao lado [figura 2] é um exemplo do estúdio, de um procedimento feito para todos os cômodos da casa. Vemos que o estúdio é o ambiente de trabalho do pai, designer, onde trabalham auxiliares e recebe clientes, e teria carga ideal de receber 3 pessoas. Analisando os hábitos do pai, temos a intensidade de uso plena durante o dia, esvaziando-se à noite.

Já a sala de estar [figura 3], com capacidade para 6 pessoas, mesmo nos períodos diários de utilização, atinge uma ocupação máxima de 4 pessoas por 2 ou 3 horas – quando tem nível de subutilização -2.

Usos no tempo 2 – a casa

Mais do que olhar individualmente para cada cômodo, interessa-nos ver como os ambientes contíguos se comportam em intensidade de uso ao longo do dia. Para isso, sobre as plantas dos 2 pavimentos da casa, distribuímos as intensidades de uso para cada hora do dia.

No primeiro desenho [figura 4] vemos a carga de usos na casa Isobe no período da 0 às 5 horas da manhã, mostrando a carga ideal nos quartos, e todos os outros ambientes com carga negativa. Este período é o mais óbvio (6).

O interessante na análise aparece em horas com usos mais distribuídos, como nos períodos das 19h às 20h [figura 5] e das 20h às 21h [figura 6]. Nos dois períodos, o pavimento inferior (onde estão os quartos), está inativo; mas no pavimento superior, entre 19h e 20h, a sala de estar está completamente inativa (carga -6, pela sua intensidade possível de uso), enquanto a sala de jantar, ocupada por 4 pessoas da família, tem carga -2 (também pela sua intensidade possível de uso); já no período seguinte, as cargas de redistribuem, e a sala de jantar se esvazia enquanto a sala de estar recebe carga de uso -3, e a cozinha, carga ideal (1 pessoa).

Integração de usos

O pavimento inferior da casa Isobe é íntimo, com uso noturno. Já o espaço superior concentra atividades sociais e também profissionais, e a separação das intensidades de uso ao longo do dia por vezes é sutil – espacial e temporalmente, os usos da cozinha, salas de estar e jantar e estúdio se distribuem de maneira mais fluida ao longo do dia. Esta fluidez nos usos espaço-temporais permite um melhor aproveitamento dos ambientes, seja na interação familiar, seja no equilíbrio energético da casa. Quando colocamos os cômodos do pavimento superior em uma tabela simples de distribuição ao longo do dia se têm uso ou não (independente do número de usuários), chegamos a porcentuais de ociosidade dos ambientes; e considerando que estão contíguos com trânsito fluido, podemos considerar possibilidades de usos integrados, o que nos daria que durante o dia, esse pavimento tem uma não utilização de 25%.

Conclusão

O ensaio é menos uma afirmação de conceitos pétreos e mais uma exploração de dúvidas. Não há nenhuma teoria particular a se afirmar, mas tentativas exploratórias. Poderíamos dizer que parte de um movimento abdutivo, nos termos de Charles S. Peirce, um método “meramente preparatório”, ou o “primeiro degrau do raciocínio científico” (7). Na crise da crítica dos anos 60, o excesso de interpretações alheias à obra que a sufocavam, chegou ao apontado por George Steiner (8) como a poluição crítica, como uma infinita redundância de textos sobre textos.

Aqui buscamos, mais que ver a obra, incitá-la a pulsões de usos, introduzir o tempo como nosso guia. É preciso ainda uma sistematização da metodologia de análise e um conjunto de obras analisadas de um mesmo arquiteto para traçar comparações possíveis entre questões de inserção urbana, escolhas formais, materiais utilizados e outros diversos parâmetros críticos. Mas é um ensaio onde se assume o risco de colocar um instrumental crítico ainda em formação em evidência. As articulações com outros parâmetros, as conseqüências possíveis dessas análises virão a seu tempo.

notas

1
MONTANER, Josep Maria. Arquitectura y crítica. Barcelona, Gustavo Gili, 1999, p.10.

2
WERTHEIM, Margaret. Uma história do espaço – de Dante à Internet. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2001, p. 126-130.

3
PLAZA, Julio. “Arte/Ciência: uma consciência”. Comunicações e Artes n° 29; set-dez 1996; p. 24-33.

4
Em buscas até a 250ª referência no Google, Scholar Google e Yahoo!, quase nada se encontrou. Toda contribuição e indicação bibliográfica é muito bem vinda.

5
SIEVERTS, Thomas et al. Organizing Space in Time. Paper in www.igd.fhg.de/igd-a9/publications/documents/GMDPaper.pdf; s/d.

6
As análises foram feitas em animações. A reprodução estática é apenas para reprodução no artigo.

7
Apud SEBEOK, Thomas A. e SEBEOK, Jean Umiker. “’Você conhece o meu método’: uma justaposição de Charles S. Peirce e Sherlock Holmes”. ECO, Umberto e SEBEOK, Thomas. O signo de três. São Paulo, Perspectiva, 2004; p. 13-58.

8
Apud MONTANER, Josep Maria. Op. cit., p. 16.

sobre os autores

Fábio Duarte é professor do mestrado em Gestão Urbana da PUCPR. Arquiteto e urbanista pela Universidade de São Paulo, mestre em Multimeios pela Unicamp, doutor em Comunicações e Artes pela Universidade de São Paulo. Autor de Global e local no mundo contemporâneo (Moderna, 1998), Arquitetura e tecnologias de informação: da revolução industrial à revolução digital (Annablume / Fapesp / Unicamp, 1999) e Crise das matrizes espaciais: arquitetura, cidades, geopolítica e tecnocultura. (Perspectiva, 2002) e Do átomo ao bit: cultura em transformação (Annablume, 2003).

Ricardo Diniz é arquiteto com especialização em Arquitetura Contemporânea pela PUCPR.

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