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Ana Rosa de Oliveira objetiva realizar uma breve abordagem do projeto original do Parque apresentando as premissas que o nortearam, e a relevância desta obra para a população


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OLIVEIRA, Ana Rosa de. Parque do Flamengo:. Instrumento de planificação e resistência. Arquitextos, São Paulo, ano 07, n. 079.05, Vitruvius, dez. 2006 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/07.079/288>.

Muitos têm acompanhado a campanha pela preservação do Parque do Flamengo que numa vitória sem precedentes para a proteção de bens culturais no país, culminou no embargo das obras do Projeto de Revitalização da Marina da Glória (2). O projeto é um mega-empreendimento da iniciativa privada com apoio da Prefeitura do Rio, que sob o pretexto dos Jogos Pan-Americanos prevê a instalação, junto à enseada da Glória e seu entorno imediato de um pool de comércio e serviços com a cessão de 10% da área pública do Parque. Esta é uma área não edificável que cedida à iniciativa privada materializaria ações completamente antagônicos ao espírito norteador do Parque.

Durante a campanha pela preservação do Parque do Flamengo sentimos a necessidade de realizar uma breve abordagem do projeto original do Parque no intuito de apresentar as premissas que o nortearam, bem como enfatizar a relevância desta obra plenamente assimilada e usada pela população, ainda, porém, pouco conhecida. Este é, portanto, o objeto deste artigo.

O Parque do Flamengo surgiu em um contexto completamente diverso da dita “Revitalização da Marina da Glória”. Naquela época se aliaram a vontade de um governo democrático e o trabalho de uma equipe visionária e competente.

O Parque do Flamengo é antes de tudo uma importante experiência no contexto brasileiro em termos de utilização de um parque como instrumento específico de planejamento urbano, que precede e orienta as iniciativas da administração pública e de particulares. Paralelamente à sua criação, melhorou-se a conexão viária entre a Zona Sul e o centro do Rio, criou-se uma praia artificial, integraram-se importantes equipamentos urbanos como o aeroporto Santos Dumont, o MAM, o Iate Clube.

O parque é também uma vitória à ofensiva da especulação imobiliária e à espacialização de caráter excludente prática arraigada na cidade do Rio.

Na época em que se iniciou o Aterro do Flamengo – a base para implementação do Parque – o aumento da densidade populacional e o boom imobiliário nos bairros oceânicos do Rio, haviam gerado a necessidade de renovar sua infra-estrutura física próxima ao colapso, pelo comprometimento da costa, do sistema viário e da acessibilidade ao centro da cidade, Zonas Sul e Norte.

Neste sentido, a urbanização do Aterro do Flamengo deve ser vista como parte integrante de um plano maior cujo objetivo era articular e melhorar o tráfego entre as zonas sul, centro e norte, juntamente com o desmonte do Morro Santo Antônio, a Avenida Perimetral e o Túnel Rebouças.

Estas idéias fundamentais para o urbanismo do Rio de Janeiro vinham sendo maturadas desde o Plano Agache (1927-1930). Nas diferentes soluções urbanísticas elaboradas pelo Departamento de Urbanismo para a cidade do Rio, o arquiteto Affonso Eduardo Reidy teve um papel fundamental, atuando desde 1929, como estudante assistente de Agache e depois como Diretor do Departamento a partir de 1947 e mais efetivamente ao retomar suas propostas de urbanização do Aterro a partir de 1961.

A iniciativa de criar um parque na área do Aterro do Flamengo surgiu no governo de Carlos Lacerda quem nomeou, em janeiro de 1961, Maria Carlota de Macedo Soares (Lota), para assessoria do Departamento de Parques da Secretaria Geral de Viação e Obras e a Superintendência de Urbanização e Saneamento (SURSAN), mais especificamente para coordenar o projeto do parque (3).

Um mês após sua nomeação, Lota comunicaria ao governador que o Aterro do Flamengo era “a última grande área no centro da cidade que possibilitava ao seu governo realizar uma obra que reunisse grande utilidade pública e beleza”. Além disso, segundo ela, “a área do aterro, [pedia] um cuidado especial no sentido de preservar sua paisagem privilegiada e a brisa marítima”. E, visionariamente, previa: “Um simples corredor para carros poderá se transformar numa imensa área arborizada e acabará se convertendo num símbolo para a cidade” (4).

Para Lota não se tratava de criar um parque convencional, com fontes, bancos, bustos de celebridades e playgrounds. Em sua idéia de Parque estava implícita a tarefa de contribuir para melhoria da qualidade de vida, conter a ofensiva da especulação imobiliária e possibilitar a reconciliação dos cidadãos com sua cidade.

Apesar do importante trabalho desenvolvido por Burle Marx, que, no entendimento coletivo decanta como mentor do Parque, é necessário lembrar do papel decisivo das três grandes equipes com atribuições justapostas que trabalharam na definição do projeto do Parque.

Uma equipe responsável pelo tráfego e obras (Secretaria Geral de Viação e Obras), outra pela infra-estrutura: (SURSAN) e o Grupo de Trabalho criado pelo decreto estadual nº 607, de 4/10/1961, presidido por Maria Carlota de Macedo Soares. Este Grupo, segundo Enaldo Cravo Peixoto (5), era formado pelos seguintes profissionais: Affonso Eduardo Reidy, Jorge Machado Moreira Sérgio Bernardes, Hélio Mamede, Maria Hanna Siedlikowski, Juan Derlis Scarpellini Ortega e Carlos Werneck de Carvalho (arquitetos); Berta Leitchic (engenheira), Luiz Emygdio de Mello Filho (botânico), Magú Costa Ribeiro e Flávio de Britto Pereira (assessoria em botânica); Ethel Bauzer Medeiros (especialista em recreação), Alexandre Wollner (programação visual), Roberto Burle Marx e Arquitetos Associados: Fernando Tábora, John Stoddart, Julio César Pessolani e Mauricio Monte (paisagistas), Sérgio Rodrigues e Silva e Mário Ferreira Sophia (desenhistas), Fernanda Abrantes Pinheiro (secretária), Ressalta-se também a importância dos trabalhos do Laboratório de Hidráulica de Lisboa (estudos hidráulicos), de Richard Kelly (iluminação) e do urbanista Helio Modesto, que segundo Bertha Leitchik, “não era membro do grupo propriamente dito, porém, fazia a ligação entre o grupo e o restante da administração estadual” (6).

A complexidade da área onde se instalaria o parque derivava do fato de ser o único enlace direto entre a zona sul e o centro do Rio. O grande desafio era, portanto, o de conceber um parque como parte de um circuito que organizasse o trânsito de veículos entre a zona sul e o centro sem que perdesse sua identidade como parque. Além disso, segundo Lota, “duas das onze pistas previstas já haviam sido implementadas, cortando o aterro ao meio criando grandes problemas para sua urbanização, não somente pelo lado estético como pelo lado utilitário, no relativo ao aproveitamento das áreas e à forçada travessia dos pedestres pelas pistas de alta velocidade” (7).

A SURSAN propôs o estabelecimento de 4 pistas de alta velocidade. O Grupo de Trabalho defendeu a idéia de um projeto com 2 vias rápidas que foi a proposta que prevaleceu. Com isso evitava-se a compartimentação do parque em inúteis fragmentos decorados com jardins e a criação de uma praia sem vínculo com a cidade. Mesmo assim na época, o engenheiro chefe da SURSAN declararia: “Não sei para que serão aproveitadas as áreas restantes” (8).

Com relação ao traçado do Parque em si, a problemática urbanística da área de entorno foi determinante. Além de adaptar-se ao traçado preliminar do Aterro e das vias, o projeto do Parque deveria integrar importantes equipamentos urbanos já realizados separadamente como o Aeroporto Santos Dumont (1944), o Museu de Arte Moderna (1956) e o Monumento aos pracinhas (1956).

A idéia do parque também levava implícito o projeto de criar um “parque vivo”. Assim o pretendia Ethel Bauzer Medeiros, especialista em áreas de recreação pública. Para atingir tal objetivo pedira aos membros do Grupo de Trabalho que definissem espaços específicos para as crianças, adolescentes, adultos e idosos. Sugeria também que se evitasse sobrecarregar o espaço do parque com equipamentos. Pelo contrário, buscou a criação de muitas áreas sem atividades pré-definidas para que os usuários, especialmente as crianças pudessem sentir-se livres.

Essas e outras pautas de funcionamento foram transferidas ao desenho do Parque através de um claro esquema funcional distribuído em três faixas principais: a primeira situada entre os limites edificados da cidade e as vias rápidas, onde se situaram os estacionamentos, as quadras e os playgrounds. Os estacionamentos foram colocados nesta faixa, entre outros motivos, para estimular os usuários a caminhar.

A segunda faixa é constituída pelas vias rápidas e jardins centrais projetados com uma perspectiva profunda para serem vistos a partir dos carros e a grande velocidade.

A terceira faixa que margeia a baía dá suporte aos equipamentos de lazer, à praia, e as atividades associadas. Para comunicar as faixas entre si, criaram-se passarelas e passagens subterrâneas. No interior do parque estruturaram-se diferentes sistemas de circulação que enlaçam as áreas do parque e a cidade, sem conflitos entre estas. Estes trajetos levam em conta os passeios em bicicleta ou a pé.

O traçado do parque com seu programa original prevê 26 itens dentre eles: uma marina, áreas de estar, playgrounds, coleções de árvores, área de estacionamento, campos de futebol, um restaurante, pistas de aeromodelismo, pistas de kart, áreas de piquenique, uma praia artificial, etc.

No que se refere ao uso da vegetação mais que a simples execução de um projeto, a obra do Flamengo mostra as conquistas de um grande experimento. Um experimento em cultivo de plantas em adversas condições climáticas (ventos, maresia) e edáficas (solo constituído de aterro, entulho, lama salgada, e com alta salinidade). O Parque do Flamengo também constitui uma importante contribuição para a ampliação do vocabulário de plantas usadas em arborização urbana. Ivete Farah relaciona em torno de 31 novas espécies nativas e exóticas de alta qualidade plástica e ecológica usadas pela primeira vez em paisagismo no país (9).

Como se pode deduzir a partir desta breve abordagem, a importância do Parque do Flamengo é incontestável. Apesar de ter sido protegido pelo poder público durante mais de 40 anos e da recente vitória do embargo da obra de Revitalização da Marina da Glória, o Parque, no entanto, está muito ameaçado.

Nas últimas semanas várias estratégias vêem sendo desenvolvidas para reverter o embargo da obra, pela EBTE – Empresa Brasileira de Terraplanagem e outros setores interessados na apropriação indevida deste patrimônio coletivo que é o Parque do Flamengo (10).

Parafraseando Abílio Guerra, ressalta-se, que “o espaço público é uma propriedade compartilhada por um ente abstrato que é a comunidade. [...] Na reconquista desse espaço, um conhecimento urbanístico, amparado por uma ação administrativa ética e democrática é a maneira de converter o anseio coletivo de uma cidade num espaço mais humano para todos. É possível ainda escolhermos entre o vale tudo da especulação imobiliária e o controle racional e democrático de vários aspectos da fisicalidade urbana” (11).

Pelo que vamos optar, pela contemplação do desmembramento e privatização gradativa do Parque do Flamengo ou pelo apoio à sua preservação?

notas

1
Artigo publicado originalmente no Jornal da Paisagem, nov. 2006.

2
Ver OLIVEIRA Ana Rosa de; BARROSO, Cláudia Maria Girão. “SOS Parque do Flamengo”. Minha Cidade, nº 162. São Paulo, Portal Vitruvius, maio 2006 <www.vitruvius.com.br/minhacidade/mc162/mc162.asp>. O artigo em questão gerou uma enorme participação de leitores no Fórum de Debates.

3
OLIVEIRA. Carmem L. Flores raras e banalíssimas. Rio de Janeiro, Rocco, 1995, p. 79.

4
Ibid. p. 80.

5
GIRÃO, Cláudia. Parque do Flamengo, enseada da Glória. Parecer nº 003/2006/DITEC/ 6ª SR – IPHAN, p. 4.

6
Idem, ibidem, p. 4.

7
BONDUKI, Nabil (org). Affonso Eduardo Reidy. São Paulo/Lisboa, Instituto Bardi/Editorial Blau, 1999.

8
O Globo, 16 out. 1961. Apud OLIVEIRA. Carmem L. Op.cit., p. 95.

9
FARAH, Ivete Mello Calil. Arborização pública e desenho urbano na cidade do Rio de Janeiro: a contribuição de Roberto Burle Marx. Dissertação de mestrado. Rio de Janeiro, PROURB-UFRJ, 1997.

10
O acompanhamento destes e outros acontecimentos associados à campanha pela preservação do Parque do Flamengo pode ser feito em OLIVEIRA, Ana Rosa; BARROSO, Cláudia Maria Girão. “SOS Parque do Flamengo”. </www.vitruvius.com.br/minhacidade/mc162/mc162.asp>, Minha Cidade, nº 162. São Paulo, maio 2006. Ver também os blogs: http://averdadedopan2007.blogspot.com e http://parquedoflamengo.blogspot.com.

11
GUERRA, Abílio. “Três questões sobre urbanismo”. Arquitextos, nº 5. São Paulo, Portal Vitruvius, out. 2000 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq005/arq005_00.asp>.

bibliografia recomendada

DOURADO, Guilherme Mazza. Modernidade verde. Jardins de Roberto Burle Marx. Dissertação de Mestrado, Universidade de São Carlos - USP, 2000.

OLIVEIRA, Ana Rosa. Hacia la extravasaria. La naturaleza y el jardín en Roberto Burle Marx. Tese de Doutorado. Valladolid, Universidad de Valladolid, 1998.

TABACOW, José (org). Roberto Burle Marx. Arte e paisagem. Conferências escolhidas. São Paulo, Studio Nobel, 2004.

sobre o autor

Ana Rosa de Oliveira é pesquisadora do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

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