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architexts ISSN 1809-6298


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Paulo Ormindo de Azevedo comenta a passagem e as obras deixadas pelo arquiteto alemão Alexander S. Buddeüs na Bahia


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AZEVEDO, Paulo Ormindo de. Alexander S. Buddeüs. A passagem do cometa pela Bahia. Arquitextos, São Paulo, ano 07, n. 081.01, Vitruvius, fev. 2007 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/07.081/268>.

A primeira fase do Modernismo no Brasil, aquela que precede a emergência, em 1936, da chamada “Escola Carioca”, muito ligada a Le Corbusier e aos CIAMs, foi fortemente influenciada pela arquitetura moderna alemã, pré-nazista. Os alemães foram um dos pioneiros no uso do concreto armado e este material, que ganharia uma enorme plasticidade na mão dos arquitetos e estruturalistas brasileiros, foi basicamente introduzido por eles no país, através de calculistas e empresas construtoras. Uma das figuras centrais no processo de inserção da arquitetura brasileira na Revolução Industrial é R. Riedlinger, diplomado por uma escola técnica da Alemanha e que desembarca no Rio de Janeiro em 1912, onde se faz engenheiro.

R. Riedliger fundou a Cia. Construtora em Cimento Armado e faria vir da Alemanha mestres de obras conhecedores da nova técnica. A Cia. Construtora em Cimento Armado seria encampada pela germânica Wass & Freitag, de renome mundial, e em 1928 transformada na Companhia Construtora Nacional, que conjuntamente com a dinamarquesa Christiani Nielsen, dominaram o mercado de grandes obras em concreto até os anos 80 do século passado. Além dessas, destaca-se também a alemã Kemnitz & Cia.

Instituto do Cacau, fachadas posterior e lateral

O escritório de R. Riedliger seria uma verdadeira escola. Ali ingressou, em 1912, ainda como estagiário o teuto-descendente Emílio Baumgart, que se transformaria num dos maiores recordistas em estruturas de concreto armado do mundo. Emílio Baumgart, além de mestre dos mais importantes calculistas brasileiros de segunda geração foi também um dos pioneiros da arquitetura moderna e teve papel destacado no I Salão de Arquitetura Tropical realizado no Rio de Janeiro em 1933, sendo um dos conferencistas do evento discorrendo sobre as Novas Possibilidades Architectónicas (1) e o autor do calculo estrutural do edifício do Ministério de Educação e Saúde no Rio.

As revistas de arquitetura que circulavam no Brasil na década de 1930 eram alemãs, segundo Diógenes Rebouças (2). “Por influencia da arquitetura moderna européia, principalmente a alemã, então importada, sobre a que nos era mostrada pelos nossos mestres europeus ou de formação européia (sic), usava-se muito as janelas de canto, fachadas lisas e uma planta ainda com resquícios de arquitetura clássica” (3). Esta influência não se processava apenas através das revistas e de professores com formação alemã, mas também pela atuação de profissionais germânicos com grande presença no mercado, como o austríaco Anton Floderer, que formava com Robert Prendice um dos maiores escritórios de arquitetura do país. Além de numerosos projetos no Rio de Janeiro, eles realizaram grandes obras em Porto Alegre, como a Usina do Gasômetro (1928), em São Paulo, como a sede da Sulacap, e na Bahia, onde tiveram participação no projeto do Elevador Lacerda (1929).

Erich Mendelsohn; Magazine Schocken, Stuttgart, 1926-1928

Outro arquiteto que teve atuação importante na primeira fase do Modernismo no país foi o judeu berlinense Alexander Altberg, que construiu casas e apartamentos, projetou o edificio-sede do Montepio dos Empregados Municipais do (antigo) Distrito Federal (1935) e ganhou o “Concurso para Construção de Edifícios Públicos, Ginásio e Estadium” em Ilhéus, Bahia. Altberg participou do I Salão de Arquitetura Tropical, desenhou seu catálogo e chegou a editar três números de Base, revista de arte, técnica e pensamento, em 1933 (4). Dentre outros arquitetos alemães, um dos mais interessantes e pouco conhecidos é Alexander S. Buddeüs (5).

Recentemente descobrimos uma carta sua, postada em Adis Abeba, Etiópia, em 30/10/1952, dirigida a um eminente intelectual brasileiro, que revela sua saga no exterior, depois de deixar o país em 1938, seu espanto pelo desenvolvimento de nossa arquitetura e seu desejo de voltar ao Brasil. Reunindo-se fragmentos esparsos, já conhecidos, com informações novas agora reveladas pode-se armar um puzzle, traçar seu perfil, ainda que com lacunas, e tentar compreender sua obra.

Erich Mendelsohn; Magazine Schocken, Chemnitz, 1928-1929

Alexander S. Buddeüs era alemão, da mesma família de Johann Franz Buddeüs (1667-1729), que foi divine ou teólogo luterano de grande projeção em sua terra. O arquiteto deve ter chegado ao Rio de Janeiro com cerca de trinta anos, no final da década de 20, pois em 1930 já possuía pelo menos um edifício construído no Rio de Janeiro. Apesar de jovem, já havia projetado obras importantes na Europa, como o Pavilhão Hanseático Germânico na Exposição de Antuérpia e um aeroporto em Munique (6).

Naquele mesmo ano de 1930 publica no Rio de Janeiro seus primeiros artigos sobre arquitetura e é convidado por Lucio Costa para ensinar no renovado Curso de Arquitetura da Escola Nacional de Belas-Artes em companhia de outros arquitetos modernistas, como Gregori Warchavchik e seu assistente, Afonso Eduardo Reidy. Lucio Costa ficara impressionado com um edifício seu situado na Rua da Alfândega. Deste edifício, que não conseguimos identificar, temos apenas a referência de possuir revestimento de majólicas semelhantes ao utilizado por Prentice & Floderer na portada e vestíbulo do Edifício Itaoca, situado na rua Divivier, em Copacabana (7).

O arquiteto alemão teve um papel destacado na tentativa de reforma da Escola Nacional de Belas por Lucio Costa, no período 1930-31, assumindo o ensino de Composição de Arquitetura no quinto ano do curso, acima inclusive de Warchavchik. Buddeüs difundiu na escola revistas racionalistas e funcionalistas alemãs, como a Form e Modern Bauformen e transmitia aos alunos um discurso radical sobre a nova arquitetura. “O modernismo não é uma evolução do tradicional, isto é, dos valores artísticos do passado, mas uma criação integral do nosso tempo. A orientação modernista é construtiva, social e econômica, ao passo que a orientação tradicional era artística, decorativa, simbólica”. Ensinava aos alunos: “a fachada deve ser o reflexo da planta”. Ernani de Vasconcelos, seu ex-aluno, falava dele com entusiasmo, segundo Paulo Santos (8).

Erich Mendelsohn; Berliner Tageblatt, Berlim, 1921-1923

Buddeüs não era só um projetista, mas construtor e um estudioso de novas tecnologias de construção. Durante a II Grande Guerra construiu duas grandes fabricas na Alemanha. No inicio da década de 1950 se dedicava a estudar o isolamento térmico de coberturas e à aceleração da cura de rebocos, como declara na referida carta. São essas qualidades que o credenciaram a realizar grandes obras na Bahia, como veremos adiante. Há poucos registros de suas obras no Brasil, mas as mais importantes se encontram em Salvador. No Rio, além do prédio da Rua da Alfândega, realizou o projeto do Rio Cricket Club, ainda existente em Niterói, em parceria com Anton Floderer, com quem teve escritório durante algum tempo. O Rio Cricket Club foi exposto no Salão de Arquitetura Tropical, realizado no Hotel Palace, no Rio de Janeiro, em 1933.

O austríaco Anton Floderer, que já havia realizado importantes obras em seu país, possuía escritório com o escocês Robert Prendice e juntos, na segunda metade da década de 1920, fizeram, entre outros, o projeto do pavilhão da mapoteca do Palácio do Itamarati, no Rio de Janeiro (1927-30) e três outros projetos para a Construtora Christiani Nielsen na Bahia, a saber, Banco Econômico da Bahia (1926-27), sede da firma Manuel Joaquim de Carvalho e Cia. (1927) e a “tropicalização” do projeto de Elevador Lacerda, do sueco-americano Fleming Thiesen (1929). Prentice seguiria depois  carreira solo de sucesso. Rompendo com o sócio, Floderer faria, por um ou dois anos, umas poucas obras sozinho, como o projeto do Edifício Tofic Nigri & Fos.(1931), no Rio. Em seguida, se associa a Buddeüs e o novo escritório é responsável pelos projetos do Rio Cricket Club e Instituto de Cacau da Bahia (1932-34). É provável que Buddeüs tenha aceitado essa parceria por não possuir titulo reconhecido pelo CREA do Rio de Janeiro. Alexander Altberg, que chegara ao Brasil em 1931, levaria sete anos para obter o reconhecimento de seu diploma (9).

Interior do Salão de Exposições em estilo “marajoara”

A introdução da arquitetura moderna na Bahia se deve ao desejo de mudança dos novos representantes locais da Revolução de 30 e à presença de grandes construtoras, como a Cia. Construtora Christiani Nielsen, que trabalhavam com arquitetos com formação européia radicados no sul do país. A construtora, de origem dinamarquesa fundada em 1904 e estabelecida no Brasil desde 1922, foi contratada pelo Estado da Bahia para realizar algumas obras públicas no estado. Esta empresa, que se dedicava a construção de pontes, barragens, obras portuárias, silos e construção civil em concreto armado, se caracterizava pelo seu alto padrão tecnológico, sendo responsável pelo desenvolvimento das estacas pré-moldadas e formas deslizantes, verticais e horizontais para concreto armado, razão pela qual se transformou em uma líder mundial em construção de silos e cais cavalete. No campo da construção civil trabalhou sempre com os maiores escritórios de arquitetura do país, já que foi a criadora do sistema de contratos Turn Key, em que a empresa se responsabiliza desde a elaboração dos estudos preliminares até a entrega das chaves (10).

Antes de realizar grandes obras civis em Salvador, a empresa construiu algumas pontes e estradas no interior. Sua escolha para a construção do Elevador Lacerda (1929-30), uma concessão pública, e o Instituto do Cacau (1932-36) se deveu, além de menor preço, à sua reconhecida experiência internacional no uso de formas deslizantes e construção de silos e armazéns. No primeiro caso, o escritório de arquitetura escolhido foi o do sueco-norte americano Fleming Thiesen, provavelmente indicado pela Otis Company fornecedora dos equipamentos (11). Mas o projeto teria sido adaptado às normas brasileiras e detalhado pelo escritório Prentice & Floderer, com quem a construtora vinha, na mesma época, realizando outra grande obra em Porto Alegre, a Usina do Gasômetro, segundo informação de Hugo Segawa (12). A Christiani Nielsen já havia feito, anteriormente, com o mesmo escritório as sedes do Banco Econômico da Bahia (1926-27) e da firma Manuel Joaquim de Carvalho e Cia.(1927) mas com tratamento eclético, de tipo classicizante.

Com a dissolução do escritório Prentice & Floderer o projeto do Instituto de Cacau foi confiado ao novo escritório Floderer & Buddeüs. O jovem arquiteto alemão era um profissional perfeito para enfrentar uma obra de grande complexidade tecnológica e que deveria, ao mesmo tempo, transmitir a imagem de modernidade ansiada não só pelas autoridades revolucionarias como pelos soteropolitanos, que associavam o marasmo da cidade, resultante da falência da agroindústria açucareira e crise do cacau com a quebra da bolsa de Nova York, às suas tradições históricas (13).

ICEIA, vista aérea geral

A reação do Interventor Federal, Ten. Juracy Magalhães, à situação de depressão que encontrou na Bahia foi o fortalecimento da produção do novo esteio econômico do Estado, o cacau. Seu principal defensor era o Dr. Joaquim Ignácio Tosta Filho, Secretário da Agricultura, Viação, Comercio e Obras Públicas, idealizador e criador do Instituto do Cacau da Bahia, em 1931, como órgão de fomento da cacauicultura. Tosta Filho fez sua formação na Inglaterra, onde se formou em Engenharia Mecânica. Segue em seguida para os Estados Unidos para estagiar durante cinco anos nos mais diversos estabelecimentos comerciais e bancários. Era, portanto, um homem reparado e com os olhos voltados para o mundo. A modernidade da sede do Instituto não foi um acaso, era um item programático.

Embora assinado pelos dois sócios, o projeto do Instituto do Cacau, datado de 1932, foi elaborado por Buddeüs, segundo Abelardo de Souza, o que é fácil comprovar diante da produção pretérita de Floderer de cunho eclético (14). O edifício ocupa toda uma quadra, medindo 104 x 38 m, localizada no Comércio, próximo ao cais, com 16.250 m2 de área construída distribuídos em quatro pavimentos com pés direitos altos. Pilares tipo cogumelo distribuídos segundo um modulo de 5,00 x 5,52 m apóiam lajes em vigas calculadas para suportarem uma sobre-carga de 1.500 kg/m2.

Trata-se de um edifício avançadíssimo para seu tempo, seja do ponto de vista estrutural, seja funcional. Ele foi concebido como um edifício misto, com um grande hall de exposições, auditório-biblioteca, diretoria, assessoria técnica e expediente, ocupando cerca de um terço do térreo. O restante da construção é um grande depósito para 350.000 sacos de cacau. O produto ao chegar era desinfetado em autoclaves e depois movimentado por elevadores, deslizadores e esteiras até o local de estocagem. Uma esteira subterrânea levava a sacaria até o cais, por debaixo da Av. da França. Todo o ambiente interno era desumidificado por um sistema de ventilação forçada e filtros de sílica-gel instalado no terraço. Estas características o tornavam um protótipo dos atuais edifícios inteligentes.

ICEIA, vista do pátio de recreio

O Instituto do Cacau segue a linha da arquitetura expressionista alemã. É indisfarçável a influência de Erich Mendelsohn nessa obra. Ali estão suas duas marcas, as janelas contínuas e os cantos arredondados. Quem tiver duvida confira as lojas de departamento Schocken de Stuttgart (1926-28) e Chemnitz (1928-29), construídas quando Buddeüs deixava a Alemanha. É curioso que o reconhecimento da obra de Mendelsohn só seria feito após a sua morte, em 1953, mas não teria passado desapercebida, de imediato, a Buddeüs.

A decoração marajoara do Hall de Exposições aparentemente não é de Buddeüs. Ela teria sido exigida pelo Prof. Frederico Edelweis, professor de tupy guarani e membro da diretoria do Instituto, como uma referencia à origem amazônica do cacau, segundo a Profa. Consuelo Pondé de Sena, sua ex-assistente. Seu projeto e execução seriam da firma Laubisch & Hirth, a melhor do gênero no país à época, e que contava com excelentes designers, entre outros, Joaquim Tenreiro. De qualquer modo, o Marajoara, de inspiração revival, já havia sido utilizado por Agache, em 1929, e esteve de moda algum tempo, sendo utilizado por Edgar Viana, Louis Lacombe entre outros. O Instituto do Cacau, com seu exterior muito sóbrio, não poderia ter passado despercebido à missão do Museu de Arte Moderna de Nova York, MoMa, de reconhecimento da nascente arquitetura moderna brasileira, em 1942, mas provavelmente foi considerado uma obra mais alemã, que brasileira.

Em artigo de 1988 atribuímos a Alexander Buddeüs uma outra grande obra em Salvador, o Instituto Normal da Bahia (1936-39), atual ICEIA (15). As razões foram duas. Primeiro era uma obra realizada pouco depois do Instituto do Cacau pela mesma construtora e não havia porque trocar de arquiteto, depois do sucesso daquela obra. Segundo, é evidente a influencia do Bauhaus nessa obra. Não existia naquele momento no Brasil nenhum arquiteto com essa vivência, senão Buddeüs. Philip L. Goodwin, que chefiou a missão do MoMa ao Brasil, constata isso.

Fachada principal do Instituto do Cacau

“Os exteriores muito simples da Escola Normal da cidade da Bahia, por exemplo, são de inspiração germânica, ao passo que muitos edifícios de São Paulo traem a influencia italiana de um moderno mais pesado e mais pretensioso. Certo numero de arquitetos são mesmo de origem estrangeira, tendo vindo para o Brasil já formados, prontos a aplicar idéias e princípios que traziam”. Comentando o Instituto Normal, Goodwin afirma: “Uma escola ampla, bem projetada por um arquiteto brasileiro formado na Alemanha. Destaca-se por suas largas galerias abertas, salas de aula bem arejadas e uma atraente piscina” (16).

A missão do MoMa visita a Bahia em 1942 para conhecer a arquitetura colonial brasileira e é recebida por Godofredo Filho, diretor do Sphan e ligado ao grupo carioca. Acidentalmente Goodwin descobre e se espanta com o Instituto Normal (17). Naquela oportunidade Buddeüs já havia voltado para a Europa e ninguém, na Bahia e no Rio, sabia dar uma informação precisa sobre a autoria do projeto, daí resultando o equivoco. Não se tratava de um arquiteto brasileiro formado na Alemanha, senão um alemão que havia vivido cerca de dez anos no país, falava muito bem o português e estava integrado á vida brasileira.

Havia no país alguns arquitetos descendentes de alemães, especialmente no Rio Grande do Sul, mas até onde sabemos só um, Arnaldo Glasdoch, havia estudado na Alemanha, em Munique. Glasdoch tinha uma obra de muito caráter, marcada por fachadas trabalhadas em tijolo aparente e não nos consta que tenha projetado uma só vez para a Christiani & Nielsen e para o Nordeste.

Fachada principal do Teatro do ICEIA

A construção de uma nova escola normal com capacidade para atender a demanda de Salvador e dotada de todos dos requisitos de um verdadeiro centro educacional fazia parte do projeto de modernização da Bahia empreendido pelo Interventor Federal, Ten. Juracy Magalhães. Mas seu grande batalhador foi o novo diretor, Prof. Álvaro Augusto da Silva. Originalmente o modelo de referencia era o Instituto de Educação do Rio de Janeiro cujo projeto, obrigatoriamente neocolonial, fora ganho em concurso por Ângelo Brunhs, em 1928. Em 1934, o diretor consegue autorização do Governador para visitar os estabelecimentos congêneres e colher dados e sugestões para a nova escola.

“De minha viagem ao Sul, durante a qual estive em contacto com os maiores técnicos do país, em matéria de educação: Lourenço Filho, Fernando de Azevedo, Anísio Teixeira, Nereu Sampaio, Almeida Junior, Guerino Santa Casa, – trouxe dados, croquis e estudos que submeti a apreciação de S. Exa. e do Sr. Secretário da Educação” (18).

Em 6 de março de 1936, é publicado edital de concurso para a apresentação de projetos para a sede do novo Instituto Normal, de cuja redação participara o Prof. Álvaro Silva. Apenas a Christiani Nielsen apresenta um anteprojeto e solicita um técnico em educação para assessorar o desenvolvimento do projeto, sendo designado o diretor do Instituto.

ICEIA, interior do teatro

“O Diário Oficial de 22 de janeiro (de 1937) dá publicidade aos pareceres da comissão (julgadora), sendo que o nosso, acompanhado de sugestões, capituladas em trinta e tantos itens, envolvendo algumas divergências e alterações ao excelente projeto, as quais aceitas e encaminhadas pelo Governo, lograram integral acolhimento por parte da acreditada firma, candidata à construção...afirma o diretor”.

Aberta concorrência para sua construção, em 3 de abril do mesmo ano, se apresentam a Christiani Nielsen e a Construtora Nacional, ganhando a primeira (19). Como se vê, a concepção do instituto e elaboração do programa foram do Prof. Álvaro Silva, em perfeita interação com o arquiteto da Christiani Nielsen. Mas é supostamente Buddeüs quem dá forma ao edifício e rompe com o modelo neocolonial oficial vigente. O programa compreendia alem de salas de aula, um teatro, campo de futebol, quadras de esporte e uma piscina, tudo articulado por passarelas. O projeto original incluía a demolição de casas em sua frente para a criação de uma praça e construção de um viaduto ligando os bairros de Nazaré e Barbalho, onde se encontrava a escola.

As obras começaram no final de 1937 e Buddeüs não pode acompanhar a execução de seu projeto. O mais interessante é que nessa obra ele abandona, completamente, o tratamento expressionista que adotara no Instituto de Cacau, com cantos arredondados e um certo classicismo, expresso na planta e fachadas simétricas. Prefere trabalhar, agora, com a articulação de volumes puristas brancos, de diferentes tamanhos, como a própria sede do Bauhaus em Dessau, de Gropius. A fenestração é mais livre, com um jogo de grandes painéis envidraçados verticais e janelas moduladas dispostas horizontalmente. Apenas um elemento comum aos dois projetos, o esquema compositivo das fachadas principais do Instituto de Cacau e do Teatro do Instituto Normal. Este seria o último projeto de Buddeüs no Brasil.

ICEIA, vista dos terraços e pista de atletismo

O impacto dessa primeira onda de Arquitetura Moderna, patrocinada pela Revolução de 1930, em uma cidade ainda colonial, constituída por sobrados e casinhas de uma porta e duas janelas, foi enorme. São construções imensas, envidraçadas, ocupando quadras inteiras, como as já citadas, a nova sede dos Correios, o Elevador Lacerda, com torre de 73,50 m de altura e acesso por uma ponte de 71,00 m de vão e a moderníssima estação de hidroaviões da Ribeira. A maioria desses projetos estava localizada na nova área de expansão do centro de Salvador, o Comércio. Diante desse choque, a segunda onda de Modernismo, ocorrida a partir de meados dos anos 40, inspirada na Escola Carioca e representada por Diógenes Rebouças, Paulo Antunes Ribeiro, Bina Fonyat e os novos arquitetos formados pela UFBa é muito pálida. São casas privadas, edifícios de escritórios e apartamentos em uma escala muito menor que os da década de 1930.

Portanto, a introdução do Modernismo na Bahia não é obra do Estado Novo, nem tem inspiração corbusiana ou carioca. É conseqüência da Revolução de 30 e da visão de alguns baianos como Ignácio Tosta Filho e Álvaro Augusto da Silva e da introdução na Bahia de arquitetos europeus, em sua maioria germânicos, que atuavam no Sul, pelas grandes empreiteiras sulistas. A imagem desta modernidade foi consagrada em um cartão postal da época em que o dirigível Graff Zeppelin paira sobre o Instituto de Cacau, em meio ao novo aterro deserto do Comercio.  A Christiani Nielsen, Engenheiros e Construtores S.A., uma das mais importantes protagonistas da engenharia e da arquitetura moderna brasileira foi adquirida em 1988 pela Carioca Engenharia S.A. e passou a denominar-se, a partir de 1992, Carioca, Chistiani-Nielsen Engenharia S. A. Os ricos arquivos técnicos da construtora dinamarquesa têm sido conservados por sua sucessora, no bairro de São Cristóvão, no Rio, mas precisam de apoio oficial para ser organizados e abertos ao público. 

Em 1938, depois de viver cerca de uma década no Brasil, Buddeüs volta à Alemanha a convite da Cia. de Dinamite Alfred Nobel para construir duas das maiores fábricas de explosivos mundiais. Era a Alemanha se preparando para a Segunda Guerra. Não há indicações que ele fosse um simpatizante do nazismo, senão um técnico em busca de melhores condições de trabalho. Passa o período da guerra em seu país e enfrenta as agruras da derrota. “Liquidado até a camisa” e temendo um terceiro conflito mundial aceita, em 1951, um convite para ir trabalhar na Etiópia sendo encarregado de projetar um novo palácio para o Imperador Haile Selassié I, que já possuía outros doze.

ICEIA, vista do pátio descoberto

O palácio referido na carta é o Palácio Nacional, atual residência oficial do Presidente da Republica, uma construção imensa, precedida de pórtico neoclássico, situada em um parque urbano onde estão o Museu de Historia Natural e o Zoológico. Apesar de se tratar de um convite “honroso”, Buddeüs não estava feliz, vivendo em um país paupérrimo sob uma tremenda ditadura e compelido a fazer uma arquitetura formalista contra a qual sempre se insurgiu. Esperava poder se livrar do compromisso profissional até no máximo 1955, quando deveria ser inaugurado o palácio, coincidindo com as comemorações do jubileu de prata da coroação do “Leão de Judá”, razão pela qual o edifício passou a ser mais conhecido como Jubilee Palace. Aparentemente Buddeüs trabalha também na universidade local, pois faz referência a seus últimos estudos sobre técnicas construtivas aplicáveis às condições (tropicais) do Brasil. Esta suposição é confirmada pelo seu papel timbrado, que tem como cabeçalho: “Prof. Alexander S. Buddeüs / Architectural Adviser / Ministry of Public Works and Communication”

Em agosto de 1952, a revista francesa L’Architecture D’Aujourd’Hui publica um volume duplo, no 42-43, dedicado ao Brasil com artigos de André Bloc, Siegfried Giedeon, Lucio Costa, José Lins do Rego, Milton Roberto e Vinicius de Moraes acompanhados de projetos muito bem ilustrados dos mais importantes arquitetos brasileiros. Quando Buddeüs põe os olhos na revista, em outubro do mesmo ano, se espanta com o salto que deram os arquitetos brasileiros, muitos dos quais seus ex-alunos, e vislumbra a possibilidade de restabelecer comunicação com os colegas brasileiros e concretizar a volta ao país, que deixara há catorze anos.

Resolve assim escrever uma carta comovente, datada de 30 de outubro de 1952, em um português quase perfeito, a Sergio Buarque de Holanda, que traduzira seus primeiros artigos no Brasil (20). Como não possuía seu endereço, a missiva é endereçada simplesmente à Revista do Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Rio de Janeiro, e é entregue em uma semana. Rodrigo Melo Franco de Andrade a encaminha com um bilhete, de 8 de novembro, ao “compadre” Sérgio, imaginando que se tratasse de um amigo que ele havia conhecido na Alemanha. Nela, Buddeüs, como um náufrago, lança um pedido desesperado de socorro. Mas aparentemente a mensagem naufraga na escrivaninha de Sergio e fica sem resposta. Buddeüs morre sem poder se comunicar com os colegas brasileiros, com Lucio Costa, que recorda como “um artista e homem de distincção”, e voltar a “terra do meu coração”, como chamava o Brasil.

Instituto do Cacau e o Zeppelin Graff

Sua trajetória profissional iniciada na Alemanha, passando pela Bélgica e pelo nosso país, o retorno à Alemanha, a ida para a Etiópia e o desejo de voltar ao Brasil demonstra uma personalidade irrequieta, que nunca criou raízes e cuja única paixão era fazer arquitetura. Curiosamente sua vida se parece muito com a de Mendelsohn, marcada por muitas vicissitudes, inclusive a falta de trabalho, e pelo fato de ter deixando uma obra dispersa em muitos continentes. Ambos se impuseram um permanente auto-exílio. A explicação para isto foi dada pelo próprio Mendelson, mas podia ser aplicada a Buddeüs; “Um homem de gênio deve constantemente se renovar, senão se ossifica” (21).

notas

NE - Este artigo é um resumo de comunicação feita no Seminário Docomomo Norte e Nordeste, realizada no Recife, em maio de 2006.

1
YRIGOYEN, Adriana. Wright e Artigas: duas viagens. São Paulo, Ateliê/Fapesp, 2002, p. 63.

2
AZEVEDO, Paulo Ormindo. Diógenes Rebouças, um modernista baiano. In: CARDOSO, Luiz; OLIVEIRA, Olivia. (Re)discutindo o modernismo. Salvador, PPGAU UFBa, 1977, p. 189.

3
SOUZA, Abelardo. A ENBA antes e depois de 1930 (1978). In: XAVIER, Alberto (org). Arquitetura moderna brasileira, depoimento de uma geração. São Paulo, Pini/Abea/FVA, 1987, p. 60.

4
MOREIRA, Pedro. Alexandre Altberg e a Arquitetura Nova no Rio de Janeiro. Arquitextos, São Paulo, ano 05, n. 058.00, Vitruvius, mar. 2005 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/05.058/484>.

5
Ver verbete BUDDEÜS, Johann Franz. Enciclopaedia Britannia. London, 1955, v.4, p. 325.

6
SANTOS, Paulo F. Quatro séculos de arquitetura. Rio de Janeiro, IAB, 1981, p. 98.

7
Idem, ibidem, p. 115.

8
Idem, ibidem, p. 98 e 104.

9
MOREIRA, Pedro. Op. cit.

10
CHISTIANI-NIELSEN Engenheiros e Construtores. 60 Anos:1922/1982. (Rio de Janeiro: s/ed.), 1982; CHRISTIANI & NIELSEN. Index CN/POST NR. 1-147, 1848-1984. Copenhagen, 1984. Nele estão listadas as obras da empresa em quarto continentes e seus responsáveis.

11
AZEVEDO, Paulo Ormindo. Crise e modernização, a arquitetura dos anos 30 em Salvador. In: Arquiteturas no Brasil/Anos 80. Introdução de Hugo Segawa. São Paulo, Projeto, 1988. Do mesmo autor, ver AZEVEDO, Paulo Ormindo. A Alfândega e o Mercado: Memória e restauração. Salvador, Secretaria do Planejamento, Ciência e Tecnologia, 1985.

12
SEGAWA, Hugo. Arquitetura no Brasil, 1900-1990. São Paulo, Edusp, 1997.

13
AZEVEDO, Paulo Ormindo. Crise e modernização, a arquitetura dos anos 30 em Salvador (op. cit.); PERES, Fernando da Rocha. Memória da Sé. Salvador, Secretaria da Cultura e Turismo, 1999.

14
SOUZA, Abelardo. Op. cit., p. 60.

15
AZEVEDO, Paulo Ormindo. Crise e modernização, a arquitetura dos anos 30 em Salvador (op. cit.), p. 14-18.

16
GOODWIN, Philip L. Brazil Builds. Nova York, MoMa, 1943, p. 81 e 144.

17
KIDDER SMITH, G. E. Entrevista dada a Anna Beatriz Galvão em 1996, pouco antes de morrer. Smith foi o fotografo da missão do MoMa ao Brasil, em 1942.

18
SILVA, Álvaro Augusto da. Subsídios para a História do Instituto Normal da Bahia. Salvador: s/ed, 1958.

19
Idem, ibidem, p. 15-19.

20
SIARQ – Sistema de Arquivo da Unicamp. Fundo Sergio Buarque de Holanda. Carta de Rodrigo M.F. de Andrade a SBH de 08/11/52 encaminhando correspondência de Alexander S. Buddeüs, Cp 112P7.

21
EYLON, Lili. “Erich Mendelsohn – Oriental from East Prússia”. Architecture Week, 24 jan. 2001 <www.architectureweek.com/2001/0124/culture_1-1.html>. Acesso em 24/06/05.

sobre o autor

Paulo Ormindo de Azevedo, arquiteto, Doutor pela Universidade de Roma, Prof. Titular da Universidade Federal da Bahia.

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