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architexts ISSN 1809-6298


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Este ensaio trata de análise e projetação do espaço urbano e territorial da mesma forma que na música há a análise, a escrita e a composição


how to quote

SALES, Pedro Manuel Rivaben de. Cidade, urbanismo: linhas de devir. Arquitextos, São Paulo, ano 07, n. 082.02, Vitruvius, mar. 2007 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/07.082/261>.

Da mesma forma que linhas e planos secantes podem ser traçados – como num mapa – entre natureza e sociedade, entre ciência e cultura, os campos do saber influenciam-se reciprocamente mesmo a uma grande distância, ainda quando exploram temas não contíguos entre si. O que interessa nisso são os movimentos de remissão – transversais, recíprocos e contínuos – que supõem a possibilidade de fecundar (crossfertilize) conceitos e práticas dos mais diversos domínios. Desde este ponto de vista e tomando emprestados aos grandes filósofos-cartógrafos – Deleuze, Guattari, Latour, Simondon (2) e Serres (3) – os modos de constituição e operação desse mapa – “um conjunto de linhas diversas funcionando ao mesmo tempo, como as linhas da mão” –, este ensaio procura explorar o terreno – relevo e itinerários – por onde talvez passe o urbanismo e, sobretudo, o devir da cidade e do território contemporâneos.

Sua hipótese central: a transposição das escalas, a sobreposição dos estratos, a justaposição de imagens – mas, sobretudo, o trânsito que isso supõe em cada situação concreta – configuram planos contingentes, redes de geometria variável, que selecionam materiais e relações com as quais construir e operar o mapa do pensamento e da atuação urbanística. As premissas: i) à semelhança do que harmonia, melodia e ritmo constituem para a música, estrutura, forma e paisagem constituem modos, modulações, relações entre territórios; ii) em razão da máquina social, coletiva, que os atravessa, (des)dobrando-os, esses modos atualizam – e são atualizados –, capturam – e são capturados – pelos fluxos de pessoas, de coisas, de informação, de capital, de comportamentos, de desejos, segundo agenciamentos que ora estratificam-se e sedimentam-se, ora impelem a fugir, a escapar, a desterritorializar-se (4).

Música

Na música (mais como linhagem que linguagem) é fácil entender como isso se faz: a combinação dos parâmetros de altura, duração, intensidade e timbre desenha linhas verticais (harmonia), horizontais (melodia) e espaço-temporais (ritmo), que se entrecruzam, configurando hierarquias (sistema tonal, modo maior, modo menor) ou séries (atonalidade, dissonâncias), e formas (sonata, cantata, ópera, fuga). Ou como no agenciamento musical de Guattari (5), onde os fluxos são de toda ordem – vibrações, vozes, ondas hertezianas – e os territórios musicais estão em relações múltiplas – ritmos, timbres, ressonâncias, seqüências, harmônicos, obras, gêneros. Já os phylum (ou a potência inerente às diversas linhagens tecnológicas) (6) variam em razão dos diferentes tipos de agenciamento musical: “phylum de escritura, de instrumentação, das normas profissionais, da utilização da música no campo social ou religioso: cada um deles virá acoplado a instituições, mídias, instalações, corporações etc. Daí as grandes caracterizações como a Ars Nova, a música clássica ou o jazz”. É tudo isso que produz “a subjetividade musical e seus diferentes modos de valorização” (7), mas a cada momento haverá que ser precisado que tipo de agenciamento ocorre em seu interior, porque sempre pode ocorrer uma “captura das dimensões maquínicas da música, a perda de sua territorialidade, ou novas relações entre expressão e conteúdo”.

[Uma figura arquitetônica: Charles Rosen, pianista e historiador da música, em sua biografia sobre Schoenberg, afirma que a música do Renascimento ao século XIX foi “construída mediante a disposição e composição de grandes blocos de materiais pré-fabricados. [...] O que não faltou na música, entre Mozart e Schoenberg, foi precisamente a possibilidade de recorrer a esses grandes blocos de materiais pré-fabricados” (8), sempre privilegiando “agregações tonais, isto é, agrupamentos de acordes facilmente identificáveis e progressivamente hierarquizados entre si” (9). A partir do final do século XIX, com a persistência no emprego desse sistema resultando em pastiche, “a música, com Schoenberg, Webern e Berg começa, a ser escrita “nota por nota” (10). Da mesma forma como o vocabulário e a gramática propostas por Corbusier, por Wright ou pela cidade soviética (ênfase na ruptura, aceitação da fragmentação do real e a impossibilidade de reconstrução da unidade da experiência) (11) buscaram expressar as mudanças da sociedade e do território (12). No entanto, à diferença do que ocorreria na arquitetura e no urbanismo (cujas diversas linhas de pensamento enfatizariam, a cada momento, os parâmetros de estrutura, de forma ou de paisagem, de modo excludente e irredutível), o desenvolvimento subseqüente da música contemporânea implicaria unificar e universalizar o princípio teórico da série dos doze sons, até então focado apenas nas alturas, para todos os componentes do fenômeno sonoro: além da altura, a duração, a intensidade e o timbre, entrelaçados e coesos, com toda a complexidade e dificuldade que isso comporta, precisamente pela relação que essas características exercem umas sobre as outras. “O pensamento serial de hoje faz questão de sublinhar que a série deve não somente engendrar o próprio vocabulário, como também aumentar a estrutura da obra (perpétua expansão); é, portanto, uma reação total contra o pensamento clássico cuja intenção é que a forma seja, praticamente, algo de preexistente, assim como é a morfologia geral (gravitação e atração)” (13). Mas “a heterogeneidade dos fragmentos (escritos nota-a-nota) não impede a construção de um horizonte de sentido compreensível e de uma forma unitária. As treze Sequenze de Luciano Berio, compostas em um arco de tempo de quase três décadas, são fragmentos, entretanto, cada uma delas e seu conjunto têm um caráter altamente unitário” (14). Algo de parecido poderia se dar com a cidade contemporânea e seus materiais: “suscetíveis à repetição, à conexão e composição (e, para usar os termos deste ensaio, ao entrecruzamento e à implicação recíproca) os fragmentos da cidade contemporânea” constituem os materiais urbano-territoriais de um sistema aberto: “alguns se sobrepõem e se encaixam uns aos outros até perder a própria identidade, outros se aproximam, outros guardam grandes distâncias recíprocas”(15)].

Saturação e variação, indeterminação e estrutura, instabilidade e acaso, continuidade e fragmento: se essas figuras dão conta do que passa com a música contemporânea, não cabe aqui prolongar mais o parêntese, mas sim observar que a cada agenciamento, a cada formação, a cada regime, em que domínio for, o devir passa por mudança de código, descodificação e recodificação (do sistema tonal para a atonalidade musical, da perspectiva clássica para a simultaneidade cubista ou o abstracionismo Klee-Kandisnki-Pollock, da continuidade narrativa para a simultaneidade literária). E por desterritorialização/reterritorialização dos elementos (o contraponto que se desterritorializa na música tonal e se reterritorializa na série, o centro no subúrbio americano), fazendo variar não apenas os pontos de vista, mas, sobretudo, a seleção e as formas de arranjar e/ou inventar os elementos, as singularidades próprias a cada phylum. Instância combinatória, “a cada agenciamento o phylum seleciona, qualifica e mesmo inventa os elementos técnicos” (16), e ao mesmo tempo em que o atravessa (para continuar em um outro) é recortado por ele em linhagens diferenciadas.

Então, o que se tem sempre são linhas de variação: por elas um grupo de elementos previamente desconectados inesperadamente atinge um estado crítico pelo qual esses começam a cooperar para formar uma entidade superior (17). Trocando em miúdos, o exemplo da tabela periódica ou a metalurgia de Deleuze (18), onde a variação do espaço dinâmico e das estratégias de agenciamento, bem como das singularidades, das qualidades e operações que isso supõe, torna claras as diferenças entre o sabre em aço fundido (“arma de talho e oblíqua”) e a espada em ferro forjado (“estoque, trespasse de frente”).

Urbanismo, arquitetura, agenciamento, mapa

Na arquitetura, é quase a mesma coisa, parâmetros tecnológico-construtivos, dimensionais e geométricos combinados ensejam ou engendram qualidades, condições, programas e atividades: espaços e acontecimentos. Na cidade e, logo, no urbanismo, isso se fará (segundo a idéia central deste ensaio) pelos graus de imbricação das instâncias de estrutura, de forma e de paisagem: cruzamento da combinação de escalas (fluxos e relações), da combinação de estratos (afecções) e da combinação de imagens (percepções). Por essa via, talvez se possa ver a cidade e o urbanismo – como também a arquitetura, a música e a metalurgia – efetuar (e funcionar por) linhas que se cruzam, se bloqueiam, fixam, deslizam ou fogem, ao mesmo tempo, pressupondo e constituindo agenciamentos. Segue que se pode imaginar os agenciamentos urbanísticos, não de forma restritiva, tomados em si, mas como linhas que se articulam, desdobram e transformam em outras. À semelhança da música e da metalurgia, mas com seu “tempo” próprio, o urbanismo (como a cidade e o território e a arquitetura) constitui cadeias de variáveis relacionadas entre si. Isto tem implicações: a estrutura, a forma e a paisagem (como os parâmetros musicais ou os componentes metalúrgicos) não são universais, mas designam modos, processos singulares de unificação, de totalização, de verificação, de objetivação, de subjetivação: processos imanentes a um dado dispositivo ou agenciamento. E como diz Deleuze: do dispositivo de Foucault (como se fora sua própria conceituação de agenciamento): “Então é preciso desemaranhar as linhas, e, em cada caso, traçar um mapa, cartografar [...]. É preciso instalarmo-nos sobre as próprias linhas, que não se contentam apenas em compor um dispositivo, mas atravessam-no, arrastam-no, de norte a sul, de leste a oeste ou em diagonal”. Assim é que, “as diferentes linhas de um dispositivo repartem-se em dois grupos: linhas de estratificação ou de sedimentação, linhas de atualização ou de criatividade” (19).

Variação, produtividade, proliferação. Dobras e segmentações. Daí a idéia de máquinas e mapas: já se viu, o que Deleuze chama de mapa ou diagrama, “é um conjunto de linhas diversas funcionando ao mesmo tempo, como as linhas da mão” (20). Elas seriam os elementos constitutivos das coisas e dos acontecimentos; “por isso cada coisa tem sua geografia, sua cartografia, seu diagrama”. Não representação, interpretação ou significância (e tampouco contradições e oposições binárias, derivadas das relações biunívocas causa/efeito, significante/significado, infra-estrutura/superestrutura, forma/função). Mas mapas, linhas contínuas, quebradas, em zig-zag. E, por elas, segmentos estabilizados e planos de agenciamento maquinados, implicando, como dois lados de uma moeda, códigos e modos de organização e de desenvolvimento estratificados (com seus territórios-escalas próprios), e vetores de desterritorialização e descodificação correlativos; esses vetores, as máquinas sociais – técnicas e semióticas ao mesmo tempo – os operam, pelas pontas da diferença, constituindo devires: individuação (21).

Daí de que adiantaria dizer que o urbanismo, a arquitetura (como a metalurgia de Deleuze) são uma ciência porque descobrem leis constantes: eles são sobretudo “indissociáveis de diversas linhas de variação; variação de qualidades que tornam possível tal ou qual operação, ou decorrem de tal ou qual operação” (22). Seja como for, não há outra saída, senão traçar linhas: toda uma cartografia de coisas, funções e planos que se cruzam, se conjugam, se afastam. E indagar em que medida, por quais movimentos e com que variáveis essa cartografia na contemporaneidade escapa (pode escapar) à opção do enunciado dominante, mas sempre excludente e redutor, que, como propõe Zourabachvili (23), se fez na modernidade pela:

  • pela retilinearidade de um progresso técnico ou social,
  • pela verticalidade genealógica das fundações,
  • ou pela seqüencialidade e superficialidade das imagens líquidas, dos discursos e das linguagens midiáticas.

Modernidade

Não parece difícil ver a correspondência que tais enunciados – de futuro, de origem ou do presente hiper-real – entretêm com o modelo dualista da modernidade proposto por Latour (24) que, como ele mesmo mostra, dispõe de um código (ou Constituição) que separa, encerra e tranca cada coisa, cada ente ou no pólo da natureza, da ciência ou no pólo da sociedade, da política e da cultura: só ao discurso é permitido ocupar o centro (mas ao fazer isso, ele se autonomiza e se desvincula dos pólos). Tampouco é difícil vê-los – enunciados redutores (do progresso linear, da espessura histórica, da aparência superficial) e dualidade moderna (natureza x sociedade, discurso, deus entre parênteses) – corporificados nas principais correntes do pensamento urbanístico do século XX (25). Correntes essas que, por sua vez, poderiam ser distinguidas e agrupadas precisamente a partir da ênfase que cada uma (ou cada família delas) conferiu, em seu discurso ou em sua técnica, à estrutura (princípio geral, organização das partes, em função de algo de cunho genérico e global), à forma (estado físico sob o qual se apresenta um corpo, uma substância; estado) e à paisagem (conjunto de componentes naturais ou não de um espaço externo que pode ser apreendido pelo olhar).

Ou seja, a pretensa universalidade, racionalidade, funcionalidade, salubridade, eficiência, ordenação das funções de extração modernista, encontraria na estrutura, na re-organização estrutural, técnica e social, do espaço, a chave de seu enunciado: Zeitgeist objetiva e concretamenteplasmado no plano. Enquanto a (des)ordem da diversidade, competitividade e flexibilização de origem pós-fordista talvez encontre no não-lugar semantizado, nos fragmentos de imagens e aparências, de reflexos e símbolos flutuantes, material privilegiado para seu discurso midiático, hiper-real. Em relação à forma, o genius loci, caro aos morfologistas, fazia sobressair a concreção física dos lugares como síntese de todo o complexo de tomada de decisões em seu contexto sócio-econômico; concreção que poderia ser sintetizada pela combinação das formas de solo, traçado e edificação como o diferencial da identidade e distinção geográfica dos lugares. No primeiro, a salvação redentora, no segundo, o cinismo da desconfiança, no terceiro, um texto a completar.

É óbvio que, do mesmo modo que música nenhuma pode ser dita estritamente contrapontística ou estritamente harmônica – “toda música depende necessariamente de características horizontais e verticais, [...] apenas quando a preponderância se manifesta mais especialmente numa direção que em outra, podemos dizer, então, que a música é harmônica ou que é contrapontística” (26) –, nenhuma corrente do pensamento urbanístico será estritamente estrutural, morfológica ou imagética. Mas – Latour mostra – a separação, a divisão purificadora é a evidência constituiva da grande aporia da modernidade: ao mesmo tempo em que a existência prática supõe proliferação de intermediários, híbridos de natureza e cultura, conexão, mediação, tradução, mistura entre gêneros de seres e constituição de redes, o código – a Constituição – da modernidade prega a purificação imantada nos pólos opostos, totalmente distintos e separados (Kant), contraditórios (Hegel) e até incomensuráveis (Heidegger): de um lado, natureza (transcendente, porém mobilizável), de outro, sociedade (imanente, mas que nos ultrapassa infinitamente), entre eles a linguagem e os sentidos.

No entanto, como o próprio Latour reconhece: “os modernos não estavam enganados ao quererem não-humanos objetivos e sociedades livres (a não separabilidade pré-moderna das naturezas e das sociedades possuía o inconveniente de impossibilitar a experimentação em grande escala, uma vez que toda transformação da natureza devia estar de acordo, ponto a ponto, com uma transformação social). Apenas estava errada sua certeza de que esta produção exigia a distinção absoluta dos dois termos – natureza e sociedade – e a repressão contínua do trabalho de mediação” (27).

E a resposta à pergunta sobre as razões por que escapar à opção única, dicotômica, axiomática, pretensamente purificadora, das opções urbanísticas modernas começa a ser dada aí. E essa resposta passa necessariamente pela inversão da ênfase entre o centro de mediação prática e os pólos de purificação crítica, pois o entendimento do trabalho de purificação como caso particular do trabalho de mediação “faz emergir o conceito de rede: linhas conectadas, e não superfícies”, onde “só há caminhos contínuos para nos transportar do local ao global, do circunstancial ao universal, do contingente ao necessário se pagarmos o preço das baldeações”. “Mais flexível que a noção de sistema, mais histórica que a de estrutura, mais empírica que a de complexidade” (28), a rede, como o agenciamento de Deleuze/Guattari, é conexões, séries de conexões que não são “nem objetivas, nem sociais, nem efeitos do discurso, sendo ao mesmo tempo reais como a natureza, e coletivas como a sociedade, e narradas como o discurso”: conteúdo e expressão, dimensão técnica-tecnológica e semiótica. Enquanto considerarmos separadamente estas práticas, Latour assevera que seremos realmente modernos, ou seja, “estaremos aderindo sinceramente ao projeto de purificação crítica [...] A partir do momento em que desviamos nossa atenção simultaneamente para o trabalho de purificação e o de hibridação, deixamos (inclusive no pretérito) imediatamente de ser modernos.” (29)

Reflexões, entradas e saídas

A partir dessas colocações não cabe agora, nesse estágio da investigação, senão uma atitude semelhante à que Nietzsche propõe em relação ao banho frio. Ou seja, entrar e sair rápido: daí a seqüência de proposições e corolários, constatações e perguntas que seguem (abrindo e convocando elaboração).

Proposição 1: em consonância com a Constituição, ou código da modernidade, que pressupunha e promoveu inexorável separação crítica entre as coisas em si e os homens entre eles, entre natureza e sociedade, entre o ocidente e as demais culturas/sociedades, (embora dependesse da proliferação de híbridos para sua realização prática e desenvolvimento), o pensamento urbanístico do século XX pode ter suas principais linhas agrupadas segundo a ênfase que cada uma delas conferira à ciência e à técnica (como visão de futuro), à história (como procura de origem) e à linguagem como articulação de sentido e significado.

Corolário 1: a cada um desses agrupamentos temático-teleológicos corresponde, conceitual e praticamente, ênfase especial nas figuras de estrutura, forma e paisagem: a mistura concretamente verificável na cidade apenas reforça a tese da constituição moderna da distinção dos pólos natureza, sociedade e discurso.

Constatação 1: a contemporaneidade, depois do discurso desenganado, nostálgico e cínico da pós-modernidade, passa pelo reconhecimento dos híbridos, cuja centralidade estabelece graus de purificação em relação aos pólos natureza e sociedade, que seriam antes de mais nada apenas casos particulares do trabalho de mediação (30).

Constatação 2: “o capitalismo como o grande desterritorializador (de fluxos de capital, de trabalho, de informação, de signos, de máquinas, de velocidade, de tempo) convive com reterritorializações as mais brutais, raciais, tecnoburocráticas, desejantes com seus efeitos de estancamento ou serialização subjetiva” (31).

Corolário 2: do mesmo modo, a fragmentação e a dispersão do espaço contemporâneo e o caráter fluido e trans-escalar de suas variáveis dominantes são fatores que multiplicam relações e conexões, mas, ao mesmo tempo, promovem igualmente fechamentos, centramentos, hierarquia, exclusões e totalizações.

Hipótese 1: se o espaço urbano e territorial se diz, se (des)dobra e se articula segundo três instâncias – estrutura, forma e paisagem –, o urbanismo contemporâneo encontra uma saída no trânsito entre as variáveis de cada uma dessas instâncias, na mistura e agenciamento contingente que isso supõe.

Proposição 3: para tanto, um primeiro passo a ser dado, ainda intuído (ou seja, carente de verificações ulteriores), é o que aponta na direção de entender cada situação e cada contexto territorial como um agenciamento que supõe um território e suas relações, um domínio formal reconhecível, um código associado (regras, regulações, relações jurídicas, antropológicas), e máquinas sociais e coletivas, sejam elas de natureza técnica – formações de potência, efetuação, no plano do conteúdo (os materiais e potenciais urbanos) – ou semiótica – regime de signos, enunciação,no plano da expressão (o discurso sobre eles).

Pergunta 1: como fazê-los, agenciamentos, códigos, máquinas sociais, técnicas e semióticas, traçar linhas de fuga para uma cidade por vir?

Constatação 3 desde Cage: procurando explicar o que considera indeterminação na música, o próprio Cage classifica as peças segundo os parâmetros de estrutura, método, forma e material” (32). Como material, Cage considera a freqüência, a amplitude, o timbre e a duração. A duração inclui os sons e os silêncios da composição. “E, pelo fato da música moderna e contemporânea prescindir, muitas vezes, dos aspectos tradicionais da melodia e harmonia, a utilização de termos mais apropriados valorizariam os aspectos de dinâmica, timbre e textura, que se tornaram elementos importantes da estrutura da música do século XX”(33).

Pergunta 2: será que, à semelhança da música, as noções de estrutura, forma, paisagem ainda dão conta dos processos contemporâneos – fragmentação, descontinuidade, mistura e diversificação, temporalidades sobrepostas e entrecruzadas? Ou campo e rede, topologia (limite e camada) (34) e simulacro (cópia sem modelo) melhor correspondem aos nossos, da cidade e do território, problemas?

Conclusão (parcial e provisória)

Seja como for, valendo estrutura ou campo, forma ou topologia, paisagem ou simulacro, este ensaio trata de análise e projetação do espaço urbano e territorial da mesma forma que na música há a análise, a escrita e a composição. Em ambos os domínios haverá que se indagar em que agenciamentos entram, que instituições supõem, que regências-gestões os orientam e valorizam, que públicos afetam. No caso da cidade e do urbanismo brasileiro contemporâneo, uma outra ordem de questões se impõe ao referir:

  • de um lado, às nossas dívidas acumuladas devido a um “futuro” sempre impedido e adiado (por razões legadas por um “passado” patrimonialista, sempre excludente),
  • e de outro lado, às dúvidas interpostas por um “futuro” que, embora ofuscado pela reprodução incessante do “presente”, deixa-se entrever pela irreversibilidade das novas práticas e técnicas. Como queria M. Santos, aderidas ao território, elas passam a desestabilizar, desorganizar e reorganizar polifonicamente seus vínculos e velocidades, seus conteúdos e formas.

notas

1
Este artigo é resultado parcial do trabalho de pesquisa Estrutura, forma, paisagem: as dobras e articulações do espaço como material do projeto contemporâneo, que conta com bolsa financiada pela Diretoria de Pesquisa e Extensão da Anhembi Morumbi, dentro do Programa “Projeto Individual de Pesquisa para Docentes”.


2

Ver SIMONDON, Gilbert. Du mode d’exsitence des objets techniques. Paris, Editions Aubiers, 1989.

3
Ver SERRES, Gilbert. Atlas. Madri, Ediciones Cátedras, 1995.

4
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Felix. Mil platôs. São Paulo, Editora 34, 1997. Vol.1 e 5. É assim, como quer Deleuze, que na cidade ou no mundo, em qualquer dimensão, “sempre uma máquina abstrata (seja ela, urbana, semiótica, artística, econômica ou todas juntas) trabalha, dobrando e desdobrando coisas e entidades, matérias e meios, sistemas, materiais e signos, individuando-os e des-individuando-os segundo agenciamentos cuja única unidade é o co-funcionamento de muitos termos heterogêneos (Ibidem, p. 84). Agenciamentos que por um lado são maquínicos (conteúdo técnico, tecnológico) e, por outro, em pressuposição recíproca, são de enunciação (expressão, linguagem, simbolismo)” (Ibidem, p. 219). Ver e falar. “Por conteúdo, não se deve entender apenas a mão e as ferramentas, mas uma máquina social técnica que a elas preexiste e constitui estados de força ou formação de potência. Por expressão, não se deve apenas entender a face e a linguagem, nem as línguas, mas uma máquina coletiva semiótica que a elas preexiste e constitui regime de signos” (Ibidem, p. 80). Porém, a territorialidade do agenciamento (inclusive conteúdo e expressão) “é só o primeiro aspecto; o outro diz respeito às linhas de desterritorialização que o atravessam e arrastam” (Ibidem, p. 219).

5
GUATTARI, Félix. “Agencements. Transistances. Persistances”. 1981 

6
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Felix. Op. cit., p. 87. “É possível falar de um phylum maquínico, ou de uma linhagem tecnológica, a cada vez que se depara com um conjunto de singularidades, prolongáveis por operações, que convergem e as fazem convergir para um ou vários traços de expressão assinaláveis”.

7
Idem, ibidem. Dentre as várias sugestões feitas pelo arquiteto Paulo José Amaral para este texto, cabe ressaltar aquela que colhe em T. Adorno a observação de que, à parte seu desprezo pela cultura de massa, o jazz apresenta estruturas mais complexas do que a maior parte da música de Haydn.

8
SECCHI, Bernardo. Prima lezione di urbanistica. Roma/Bari, Laterza, 2000.

9
BARRAUD, Henry. Para compreender as músicas de hoje. São Paulo, Perspectiva, 1997.

10
ROSEN, Charles (1976). Apud SECCHI, Bernardo. Op. cit.

11
SECCHI, Bernardo. La città del ventesimo secolo. Roma/Bari, Laterza, 2005.

12
Com raízes na domesticidade da arquitetura anglo-saxônica, o movimento das Arts and Crafts, Ruskin, Morris e Carpenter, Unwin, Muthesius, Berlage, Abercrombie, Rasmusssen, Taut, Stein e Gibberd, construíram uma linha diversa “como busca de uma continuidade em relação aos aspectos mais substanciais do passado, como tentativa de acolher as novas exigências, por exemplo, a dilatação do espaço aberto e a conseqüente autonomia do objeto arquitetônico, sem perder a percepção do espaço urbano como espaço narrativo, contínuo e regular” (Secchi in Secchi 2000).

13
BOULEZ, Pierre. Apontamentos de aprendiz. São Paulo, Perspectiva, 1995.

14
SECCHI, Bernardo. Op. cit. Roma/Bari, Laterza, 2000.

15
Idem, ibidem.

16
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Felix. Op. cit., p. 88.

17
LANDA, Manuel de. “The Machinic Phylum (essay)”: 1997 

18
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Felix. Op. cit., p. 87.

19
DELEUZE, Gilles. Foucault filósofo. São Paulo, Brasiliense, 2005.

20
DELEUZE, Gilles. Conversações. São Paulo, Escuta, 1998.

21
Como diz Pierre Levy (1998), remetendo a Guatari e Deleuze:“quer se trate de um objeto cósmico, de uma espécie, de um biotopos (meio biológico como condição de habitat estável), de uma cultura, de um regime político, de um momento, de uma atmosfera ou de um sujeito, sob qualquer processo de individuação uma máquina trabalha.” A rigor, as máquinas abstratas operam, uma remetendo a outra, “não apenas porque elas são inseparavelmente políticas, econômicas, científicas, artísticas, ecológicas, cósmicas – perceptivas, afetivas, pensantes, físicas e semióticas –, mas porque entrecruzam seus tipos diferentes tanto quanto seu exercício concorrente” (Ibid: 227).

22
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Felix. Op. cit., p. 87.

23
ZOURABICHVILI, François. O vocabulário de Deleuze. Rio de Janeiro, Relume Damará, 2004, p. 86.

24
LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos. São Paulo, Editora 34, 2005.

25
Uma rápida revisitação às correntes do pensamento e da prática urbanística no século XX seria suficiente para reuni-las em famílias mais ou menos homogêneas do ponto de vista das “visões de mundo”, isto é, das relações/separações espaço-sociedade implicadas. As principais, obedecendo certa ordem cronológica de prevalência profissional ou acadêmica, seriam: as compositivas, as funcionalistas, as sistêmicas, as materialistas, as morfológicas e as meio-ambientalistas.

26
BOULEZ, Pierre. Op. cit.

27
LATOUR ,Bruno Op. cit.: p. 138.

28
Idem, ibidem: p. 115.

29
“Ao mesmo tempo em que deixamos de ser modernos, no pretérito, pois tomamos consciência, retrospectivamente de que os dois conjuntos de práticas estiveram operando desde sempre no período histórico que se encerra”. Idem, ibidem. As conseqüências de tal tomada de posição (divisão interna – sociedade/natureza – e divisão externa – ocidente/outros –) seriam muitas e o relativismo, a dominação, o imperialismo explicados de outra forma.

30
LATOUR, Bruno. Op. Cit.

31
PELABART, Peter Pál. Vida capital. São Paulo, Iluminuras, 2003, p. 216.

32
CAGE, John. Apud POZZO Maria Helena Maillet Del. “Blirium C 9 de Gilberto Mendes: um estudo de análise em uma peça com escrita indeterminada”.Revista eletrônica de musicologia, 2004. 

33
POZZO Maria Helena Maillet Del. Op. cit.

34
Para além da geometria euclideana, a topologia privilegia as propriedades intensivas, que não podem ser configuradas e divididas espacialmente (velocidade, temperatura, pressão) em vez das extensivas, que se configuram e dividem espacialmente (volume, área, comprimento).

bibliografia complementar

GAJA, Fernando. “Los paradigmas urbanísticos y su influencia en la enseñanza del urbanismo en las Escuelas Técnicas Superiores de Arquitectura del Estado”, in Ciudades nº 2, Valladolid, Instituto de Urbanística de Valladolid, 1995

GANDELSONAS, Mario. X-Urbanism: architecture and american city. Nova York, Princeton Architectural Press, 1999.

SOLÁ-MORALES, Manuel; ORDOÑEZ, José L. Gomez. La enseñanza del urbanismo. Perspectiva española 1970-80. Barcelona, Reedição LUB , 1974.

VEGARA, Alfonso, DE LAS RIVAS, Juan L. Urbanismo de ideas. Sinergia de una escuela de arquitectura. Pamplona: Diputación foral de Viscaya, Departamento de Acciónn Territorial y Municipal. Dirección de Urbanismo y medio Ambiente e EUNSA,1989.

observação sobre as imagens

As imagens referentes ao concurso da cidade multifuncional da Coréia são extraídas de International Urban Ideas. Competition for the new multifunctional-administrative city in the Republic of Korea. Multifunctional-administrative City Construction Agency . Presidential Committee of the Multifunctional-administrative City Construction. Saigon: 2006

sobre o autor

Pedro Manuel Rivaben de Sales, arquiteto, professor-doutor

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