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arquitextos ISSN 1809-6298


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Propõe-se o estudo da produção arquitetônica na Campina Grande de 1907 a 1935, através de um conjunto de fotografias do Museu Histórico da cidade, verificando como ela é representada, como dialoga com a espacialização econômica e social da cidade


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LOUREIRO DE CARVALHO, Juliano; QUEIROZ, Marcus Vinicius Dantas de; TINEM, Nelci . Trem veloz, rupturas lentas. Arquitetura como produção do espaço urbano em Campina Grande – 1907-1935. Arquitextos, São Paulo, ano 07, n. 083.07, Vitruvius, abr. 2007 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/07.083/258>.

1. Arquitetura e Cidade: Campina Grande 1907-1935

Por oposição a cidades paraibanas como João Pessoa ou Areia, tidas como “antigas”, Campina Grande é vista geralmente como “nova”, “moderna”, detentora de espaços ligados exclusivamente ao pós-1935, ano marcado pela intensificação do processo de modernização urbana e arquitetônica da cidade (2). Esta visão tem se fortalecido nos últimos anos, em virtude da percepção, por determinados setores da população, do valor patrimonial do conjunto arquitetônico do centro urbano (no propalado “estilo” art déco, que se expande no Brasil justamente nos anos 1930). É possível entender tal compreensão incompleta do fato urbano como corolário da idealização de um período próspero da história da cidade, associado à arquitetura em questão, representativa, tanto localmente quanto no plano nacional e mundial, de uma modernidade otimista, harmoniosa e acrítica (3). O questionamento premente que surge, porém, é que a cidade, fundada ainda no fim do século XVII, e em rápida expansão desde o início do século XX, possui, antes de 1935, um acervo arquitetônico que não pode ser desprezado e que resiste ainda hoje através de fotografias e também como realidade construída, ainda que em pequena quantidade.

No plano acadêmico, os estudos urbanos e arquitetônicos sobre esta realidade são escassos e os trabalhos existentes são voltados, em sua maioria, para as reformas do período 1935-1945 e para a atuação autoritária do prefeito que se destaca nesse processo, Vergniaud Wanderlei (4). Assim, vai-se constituindo uma história que, mesmo contestando a idealização da ”modernidade” campinense, persiste sem resgatar adequadamente a realidade a que essa modernidade vem a se contrapor. Nesse contexto, mesmo sem se deter na análise da arquitetura, a maior contribuição à pesquisa do tema é a tese de Fábio Gutemberg de Sousa (5), que retrocede a 1925, recuperando, em sua complexidade, a cidade anterior às reformas.

Neste artigo, a análise tem um caráter eminentemente arquitetônico e se propõe a estudar a produção construída na Campina Grande de 1907 a 1935 através de um conjunto de fotografias pertencentes ao Museu Histórico de Campina Grande. O foco da pesquisa é verificar como a arquitetura é representada nessa fonte de caráter oficial, como ela dialoga com a espacialização econômica e social da cidade e como formas, práticas e conteúdos arquitetônicos se relacionam entre si nesse universo.

O recorte temporal escolhido vai da implantação do ramal Itabaiana-Campina Grande (1907) da estrada de ferro Great Western, que marca o início de um período de rápida expansão, à intensificação do processo de reforma urbana, a partir de 1935, que viria a transformar não somente a fisionomia da cidade, mas a própria forma de apropriação do espaço pela população. Do ponto de vista arquitetônico e urbanístico, pode-se inferir o significado do período escolhido a partir da magnitude do número de prédios, que passa de 731, em 1907, para 5.897, em 1935 (6): um crescimento dessa ordem não pode ocorrer sem alterações significativas na estrutura urbana ou sem a formação de um considerável patrimônio edificado.

Poderia ser questionado o recorte temporal escolhido para análise: se a idéia é recuperar a produção não-moderna, 1907 deveria ser o marco final e não a data que define o início da pesquisa. Porém, a escassez de fontes apropriadas no período pré-1907 e o entendimento de que até 1935 a cidade cresce sem alterações significativas na trama urbana, consistindo mais em expansão do que destruição do ambiente construído, justificam a escolha.

2. As imagens como fonte

Seguindo as concepções de Lucien Febvre e Boris Kossoy a partir da recapitulação proposta por Cabral Filho (7), temos como ponto pacífico o potencial valor documental das imagens fotográficas, bem como a necessidade de entendê-las dentro do contexto que as gerou, o que inclui interesses individuais e coletivos, além da realidade social. Assim, no caso das imagens de cidades datadas do início do século XX, torna-se fundamental pensá-las associadas a processos e ideologias próprios de sua época – como a “construção real e imaginária da cidade do trabalho e da ordem, aspirações de uma elite burguesa” (8).

O material analisado é composto por 49 fotografias pertencentes ao Museu Histórico de Campina Grande, algumas delas em exposição permanente. Este conjunto selecionado procura incluir a maior variedade possível de logradouros e de imagens que mostrem de forma clara os conjuntos urbanos. Trata-se de um material heterogêneo, não devidamente sistematizado, de forma que a fonte de boa parte das imagens permanece obscura e mesmo a datação de algumas delas é controvertida. Para fins de análise, porém, optamos por aceitar como verdadeiras as datas propostas pela curadoria da exposição.

É possível identificar o nome de três dos fotógrafos autores das imagens, todos eles contribuem com vistas panorâmicas de logradouros valorizados socialmente à época. Um deles, Euclides Villar, produz essencialmente retratos das famílias mais abastadas do lugar e chega a publicar o Almanaque de Campina Grande de 1933 (9). Sobre o segundo, Sóter Carvalho, existem mais informações disponíveis: também trabalha para as famílias burguesas, mas tem um interesse especial pelo registro da cidade (10). Para entender esse interesse, uma imagem de outra natureza produzida por ele é esclarecedora: retrata, em estúdio, com luz exata e pose estudada, um mendigo. A retirada do mendigo de seu contexto e sua estetização pode servir de paradigma para a sua proposta fotográfica urbana. Finalmente, do terceiro profissional, assinado Andrade, não encontramos maiores referências. Há também algumas imagens sem autoria, cujos textos e legendas deixam claro tratar-se de cartões postais ou fotos de propaganda.

São analisadas, ainda, algumas imagens que pertenceram ao acervo pessoal de Esmeraldina Agra, membro de uma família tradicional da região, contemporânea das fotografias analisadas e figura freqüentemente associada à preservação da memória local. Ela contribuiu para o acervo do museu com imagens de edificações ligadas à sua história pessoal (não elaboradas, mas escolhidas por ela), o que se coaduna com sua visão parcial e saudosista dos fatos (11).

A partir destas considerações preliminares sobre autoria, finalidade e seleção das imagens presume-se que o retrato da cidade a ser estudada será de meio-corpo: necessariamente vinculado aos projetos e aspirações da “elite burguesa” a que se fez referência, que encomenda, financia e escolhe essas fotografias. Considerando-se os meios e fins desse trabalho, trata-se de um corpus que, mesmo parcial, documenta de forma satisfatória um determinado recorte do território campinense – essencialmente a região central e as áreas de expansão ligadas ao comércio do algodão e à moradia da elite.

3. Arquiteturas, técnicas e espaço urbano: possibilidades e limites da análise

Embora o recorte temporal adotado corresponda ao período entre 1907 e 1935, não será tratada apenas a produção arquitetônica desse intervalo. A maior parte dos edifícios analisados é construída após a chegada do trem, mas isso não impede que as fotografias analisadas venham a flagrar – e flagram – arquiteturas desenvolvidas em épocas anteriores, num conjunto que se unifica a partir de sua escala cotidiana e em que a monumentalidade de alguns poucos prédios (12) é a exceção.

Nesse contexto, a principal referência é o estudo de Nestor Goulart Reis Filho (13), Quadro da Arquitetura no Brasil, que traça um panorama da evolução da arquitetura brasileira a partir da tecnologia, da forma, do uso e da sua relação com o tecido urbano, entendendo esse processo como parte do desenvolvimento social e cultural do país.

A principal limitação do presente estudo é a impossibilidade de leitura do espaço interno dos edifícios, em virtude do tipo de documento escolhido (fotografias de conjuntos e edificações). Porém, a abordagem dos conjuntos arquitetônicos não se restringe aos aspectos formais e avaliam também o número de pavimentos, a forma de implantação e o tipo de cobertura, entre outros aspectos. Essa visão permite observar a interligação existente entre transformação arquitetônica e desenvolvimento das estruturas urbanas que, por sua vez, fazem parte das modificações tecnológicas, econômicas e sociais vividas pela cidade.

O número de pavimentos permite revelar o adensamento da paisagem e da ocupação urbana e sua relação com o crescimento econômico. Já as relações entre implantação, volumetria e cobertura são analisadas visando a entender as modificações realizadas ao longo do tempo e a distribuição das edificações nas diferentes áreas da cidade. Assim, é possível verificar o grau de incorporação das novas técnicas construtivas e dos ideais higienistas no sentido de melhorar a salubridade (traduzida em ventilação e iluminação) das edificações, bem como a tentativa de reconciliação espacial com a natureza, expressa na incorporação dos jardins no lote urbano – movimentos próprios de uma modernidade que vai se instalando.

Realiza-se também uma análise das influências formais adotadas, com a consciência das dificuldades inerentes a este processo, já que, em Campina Grande, na época em que a maioria dessas construções é realizada (século XIX e início do século XX), há uma série de limitações: quem projeta e constrói não tem formação específica, apenas imita (com maior ou menor rigor) modelos em voga nos grandes centros e não há dinheiro para reproduzi-los na mesma escala ou com o mesmo requinte. Além disso, com as sucessivas reformas, os prédios acumulam alterações difíceis de datar. Assim, não se espera encontrar exemplares puros, mas sim identificar como as influências formais dominantes na produção arquitetônica brasileira se manifestam na cidade.

As influências formais, a implantação e a cobertura, definidos a seguir, são os elementos analisados nas edificações. Em cada fotografia são identificados os prédios que podem ser classificados quanto a cada um desses três elementos (14). O número de exemplares enquadrado em cada elemento é registrado em uma tabela. O procedimento se repete para cada uma das 49 imagens estudadas, totalizando 260 edificações. O conjunto das tabelas resultantes vai gerar uma nova tabela que mostra (em números absolutos e porcentagens) um “quadro da arquitetura campinense” até o ano de 1935 (15). Um dos objetivos almejados é verificar se os exemplares analisados apresentam coerência entre influências formais, implantação e cobertura, definindo um partido arquitetônico.

Ao mesmo tempo, entendendo as limitações dessa análise quantitativa, as edificações isoladas presentes no acervo fotográfico são estudadas individualmente, de forma a ter um contraponto qualitativo, permitindo uma abordagem mais completa.

Para a compreensão sócio-espacial da cidade, entre 1907 e 1935, conta-se com as descrições de Sousa (16) e com os mapas elaborados pela Secretaria de Educação e Cultura do município para setorizar a cidade em zonas tradicionais ou de expansão, centrais ou periféricas. A setorização ajuda a entender se cada conjunto arquitetônico é realmente novo ou se vai mudando aos poucos através de reconstruções e reformas. Desta forma, a produção da arquitetura (dinâmica) também é abordada e não somente a construção (estática).

São consideradas de características “coloniais” aquelas casas extremamente simples, com vergas retas ou em arco abatido, sem tratamento decorativo à exceção de eventuais sobrevergas, sem platibanda e construídas no nível do solo. Estas edificações persistem, ou são construídas, até o início do século XIX, variando em quase três séculos quanto ao formato das vergas e à proporção entre cheios e vazios na fachada (17). Esta produção resulta de uma técnica extremamente simples, cujo sistema de cobertura, em telhado de duas águas e cumeeira paralela à fachada, lança uma parte da chuva recebida sobre a rua e a outra sobre o quintal. Não só o recuo frontal é ausente, mas também os laterais, de modo que as residências se colam umas às outras, protegendo suas empenas e, muitas vezes, formando um amplo telhado contínuo (18).

As influências seguintes podem ser chamadas de classicizantes (19) e referem-se às edificações que incorporam novidades próprias da época, como as vergas em arco pleno, as vergas retas com coroamento decorado, o vidro (simples ou colorido) nas esquadrias, os porões altos (e seus óculos), as platibandas e, em exemplares mais requintados, os frontões (que na arquitetura civil de função pública são quase uma regra), vasos, estátuas, fruteiras, balaustradas e pilastras sobre a platibanda. O maior refinamento da arquitetura é resultado da abertura dos portos e da integração do país ao mercado mundial, de forma que vários elementos construtivos passam a ser importados (20). Com relação à implantação, mantêm-se, no geral, os mesmos esquemas urbanísticos coloniais. Podemos encontrar nas ruas campinenses, além de edifícios públicos, como o Paço Municipal (com obras iniciadas em 1877), modelos mais simplificados, que apenas adaptam os elementos classicizantes à sua feição colonial.

As manifestações ecléticas conformam o próximo grupo analisado e compreendem aquelas construções que combinam, sem regras definidas, uma mistura de ornamentações, próprias de diversos tempos e lugares, em um mesmo edifício, numa liberdade criativa que tenta dar personalidade a cada construção (21). Na Paraíba, trata-se da tendência dominante desde o fim do século XIX até as primeiras décadas do século XX, que se manifesta na profusão de relevos decorativos em argamassa, nas platibandas recortadas e nas composições de fachada mais complexas.

Essas manifestações se fazem acompanhar, no Brasil, do afastamento das construções em relação aos limites dos lotes. Primeiramente, através do recuo em relação aos limites laterais, geralmente de um só lado. Nas residências maiores, são introduzidos jardins laterais, que, além de elementos paisagísticos, permitem o arejamento e a iluminação dos cômodos, num movimento de supressão das antigas alcovas em troca das vantagens higiênicas. Depois, as construções começam a se afastar da via pública, até que ficam completamente livres no meio lote. Tecnologicamente, o ecletismo reflete a segunda Revolução Industrial, com a produção em massa dos materiais de construção (generalização da construção com tijolos cozidos, ornamentos pré-fabricados, coberturas com telhas tipo Marseille, complexas e com muitas águas, utilização da madeira serrada e instalação dos primeiros banheiros com água corrente) e a alteração das técnicas construtivas pela presença da mão-de-obra dos imigrantes (22).

Ligado a uma modernidade acrítica e a um progresso otimista, o art déco é lançado oficialmente através da Exposição Internacional de Artes Decorativas e Industriais Modernas de 1925, em Paris, vivendo seu ápice no Brasil na década de 1930. Nesse artigo, as influências art déco se ligam: a composição simétrica ou tripartida (base, corpo e coroamento escalonado), ao acesso centralizado ou valorizando a esquina, a predominância de cheios sobre vazios, a articulação de volumes geometrizados e simplificados (varandas semi-embutidas) ou sucessão de superfícies curvas (influência do desenho industrial norte-americano e de suas formas aerodinâmicas), a composição com linhas e planos, verticais e horizontais, definidos e contrastados (23). Em Campina Grande, um dos primeiros edifícios oficiais a adotar a linguagem art déco é o prédio dos Correios, inaugurado em 1933. O projeto padronizado encontrado em diversas cidades do interior da Paraíba, como, por exemplo, Areia e Guarabira, faz parte do plano nacional de normalização arquitetônica oficial estabelecida no âmbito do então Departamento dos Correios e Telégrafos (24).

4. Discutindo arquitetura e produção do espaço urbano na Campina Grande do início do século XX

A análise da arquitetura de Campina Grande, tal como ela aparece no acervo do Museu Histórico, resultou em um quadro quantitativo dessa produção até o ano de 1935.

Tabela 1. Quadro quantitativo da arquitetura de Campina Grande entre os anos 1907 e 1935

Pavimentos
(260 prédios analisados)

Térreo

Térreo + sótão

Térreo + 1 pav.

Térreo + 2 pav.

-

231

5

23

1

-

88,8%

2%

8,8%

0,4%

-

Implantação
(239 prédios analisados)

Sem recuos

Recuo lateral

Recuo frontal

Isolada no lote

Recuo frontal + 1 lateral

203

20

3

10

3

85%

8,4%

1,3%

4%

1,3%

Cobertura
(229 prédios analisados)

2 águas // rua

2 águas ┴ rua

3 águas

4 águas

Arranjos complexos

173

32

4

12

8

75,5%

14%

1,75%

5,25%

3,5%

Influências formais
(124 prédios analisados)

Colonial

Classicizante

Eclético

Art déco

Outros

6

41

64

3

10

4,8%

33%

51,75%

2,4%

8%

           

Os dados da tabela indicam, antes de tudo, a absoluta predominância das edificações térreas, o que pode estar ligado à abundância de terrenos próximos às áreas centrais. De qualquer forma, os vinte e quatro sobrados identificados, comparados com os únicos dois do século XIX (Cadeia Velha e Sobrado Francisco Gouveia) revelam adensamento e valorização dos terrenos. Quando não abrigam instituições, estes sobrados destinam-se ao uso misto de loja e residência.

A predominância de edificações térreas é usada, pela elite e pelo poder municipal, como uma das justificativas para as reformas urbanas modernizadoras das décadas de 1930 e 1940, como aponta o Decreto 51, publicado em 1935:

O Prefeito, considerando que Campina Grande apesar de ser uma cidade bastante adiantada, distancia-se, porém, das outras cidades importantes do país, pelo seu aspecto material, pois as construções e reconstruções em suas principais ruas são geralmente feitas de um só pavimento, considerando que o poder Público tem o dever de interessar-se pelo embelezamento da cidade, pois é ele inquestionavelmente que impressiona os que nos visitam; considerando que para isso é preciso obrigar-se que as construções e reconstruções nessas ruas sejam de mais de um pavimento [...] (25). (grifos nossos)

Esse quadro arquitetônico, acrescido das diferentes classes sociais e usos distintos convivendo no limitado espaço urbano herdado da Colônia e do Império, em geral associado ao atraso, à sujeira e à desordem, leva a um movimento da elite cultural e econômica campinense que, com sistemáticos artigos em jornais, exige imagem compatível com uma cidade agora “civilizada, cosmopolita e moderna”. Assim, durante as décadas de 1930 e 1940, há a intensificação das ações, por parte dos poderes públicos municipal e estadual, pautadas nos ideais de higiene, circulação e embelezamento, responsáveis pela expulsão da feira, das prostitutas e de parte dos pobres da região central, pelo alinhamento de ruas, abertura de largas avenidas, implementação de abastecimento d’água e esgotamento sanitário, construção e reforma de praças e demolição de edificações térreas do centro da cidade para a construção de prédios com mais de um pavimento (26).

Até a década de 1930, as manifestações ecléticas em voga no Brasil predominam na configuração formal da arquitetura presente na região central de Campina Grande. O movimento, que vive seu ponto culminante nas transformações urbanas do Rio de Janeiro entre 1903 e 1906 (27), chega a Campina Grande através do intercâmbio cultural com centros maiores, como Recife (por onde se exporta grande parte do açúcar e do algodão da região) ou como a Cidade da Parahyba, capital do estado. Com ‘a abertura dos portos brasileiros às nações amigas’, no principio do século XIX, Pernambuco passa a pautar-se pela cultura dos países mais “desenvolvidos”, notadamente Inglaterra e França, “constituindo-se em portão aberto à crescente europeização” (28), inclusive no que refere ao ecletismo.

Dessa forma, manifestações formais ecléticas se estabelecem rapidamente no gosto popular campinense, aparecendo tanto nas casas mais simples como nas de maior porte, no curto período desde sua introdução no final do século XIX. Embora a maior parte dos prédios analisados tenha surgido depois da chegada do trem, percebe-se que não há relação unívoca entre construções novas e ecletismo. O que se observa é que nas áreas novas surgem exemplares que continuam repetindo as influências classicizantes, em meio às manifestações ecléticas. Ao mesmo tempo, estas estão presentes nas áreas mais antigas em prédios novos ou reformados.

A implantação sem recuos permanece majoritária, mesmo em trechos da expansão sul (como a rua Irineu Joffily), em lugar da implantação com recuos comumente associada ao ecletismo. O que se conclui, portanto, é que, neste primeiro momento, o ecletismo é absorvido apenas como ornamentação, não vem acompanhado da incorporação de novas técnicas, de exigências higienistas e de uma nova forma de se relacionar com o exterior que resultaria numa nova espacialização interna e na incorporação de espaços livres no lote.

Analisando a cidade mais de perto, o que se percebe é que na área mais central, ocupada pela elite (Largos da Matriz, do Comércio Velho, do Comércio Novo e do Rosário e Rua Maciel Pinheiro) há predominância de implantação e cobertura de características coloniais, de edificações térreas e equilíbrio entre as manifestações classicizantes e ecléticas. Espraiados, encontram-se alguns sobrados e residências com recuos. Na mesma área, concentram-se os edifícios mais significativos da cidade, ligados ao estado, à igreja e ao comércio de luxo. Percebe-se a associação entre o uso institucional e as referências clássicas, com destaque, considerando as limitações da cidade, para o Paço Municipal e o Grupo Escolar Solon de Lucena.

As ruas do Meio, do Emboca e do Progresso e a Praça da Luz mantêm a mesma configuração das anteriores, mas sem sobrados nem edifícios representativos e com menos imponência. Ainda na região central, as ruas das Areias e dos Armazéns e a Praça do Algodão, ligadas ao comércio algodoeiro de grande escala, com edificações de uso diferenciado do restante da cidade, apresentam poucas diferenças formais em relação à área em que se inserem. O uso diferenciado e a conseqüente espacialização destes galpões se traduzem nas coberturas, cuja singularidade são as cumeeiras perpendiculares à rua, resultado das estruturas com tesouras, necessárias aos grandes vãos.

Na expansão em direção à estação de trem (ruas da República, Irineu Joffily e Vidal de Negreiros), persiste a implantação colonial e as arquiteturas classicizantes e ecléticas, mas aparecem, com maior freqüência, exemplares isolados no lote. É nesta área, e também na rua Sete de Setembro, que surgem os únicos palacetes (casarões ecléticos isolados no lote) encontrados na pesquisa.

É interessante observar que estes registros fotográficos não incluem as áreas periféricas, à exceção de alguns pontos de referência isolados, como a estação de trem, a Igreja da Guia e o Açude Velho, o que impede uma análise destas regiões. Evidentemente, não se trata do universo de D. Esmeraldina Agra, nem dos clientes de Sóter Farias e Euclides Villar. Mais que isso, em se tratando da construção da imagem de uma cidade próspera e moderna, essa realidade não lhes interessa. Mesmo assim, é possível identificar, ao fundo de uma das fotos do acervo, (em que aparece em primeiro plano o Açude Velho) uma aglomeração de habitações de taipa, muito precárias, que constitui um exemplo das construções dessas áreas periféricas.

Na tentativa de entender o significado da arquitetura produzida e existente em Campina Grande no período entre 1907 e 1935, constatamos que há um conjunto de mudanças arquitetônicas incipientes e graduais, que não chegam a constituir uma ruptura, mas são, em grande parte, uma continuação das formas anteriores de produção da arquitetura e do espaço urbano. Trata-se de uma realidade perceptível especialmente na dubiedade da incorporação do ecletismo e nas mudanças mais profundas limitadas a poucos exemplares nos bairros novos. É também nesta época que surgem os primeiros indícios arquitetônicos da ruptura formal representada pelo art déco: Correios (1933) e Cine-Theatro Capitólio (1934).

Ressalta-se, enfim, o caminho aberto para novas pesquisas que, a partir de fontes de outra natureza, problematizem a datação das fotos do acervo do Museu Histórico de Campina Grande e, conseqüentemente, os dados aqui apresentados. É importante atentar para o fato de que uma pequena parcela das construções deste período resiste (29) e que estes remanescentes, mais antigos e mais raros do que as propaladas edificações art déco do núcleo central, devem ser, assim como as anteriores, alvo de uma política de preservação.

notas1
Artigo apresentado no XII Encontro Estadual de História da ANPUH/PB, 2006, Cajazeiras. História e multidisciplinaridade: fronteiras e deslocamentos. Campina Grande: UFCG/ANPUH-PB, 2006.

2
As reformulações urbanas e arquitetônicas intensificadas a partir de 1935 estavam dentro de uma conjuntura ideológica de abrangência nacional, à qual se associaram as idéias de saneamento, embelezamento e circulação, e atingiram trechos consolidados da paisagem citadina.

3
SEGAWA, Hugo. Arquiteturas no Brasil 1900-1990. São Paulo: EDUSP, 1997.

4
Ver VERAS, Cassandra. O espelho de narciso: uma visão histórica das transformações urbanas em Campina Grande (1935-1945). Monografia de Graduação. Centro de Humanidades, UFPB/CG, Campina Grande, 1988; BARBOSA, Fabrício Lira. De rainha a plebéia: inventário das transformações urbanas e arquitetônicas de Campina Grande entre 1935-1945. Monografia de Graduação. Departamento de Arquitetura e Urbanismo, UFRN, Natal, 1999.

5
SOUSA, Fabio Gutemberg Ramos Bezerra de. Cartografias e imagens da cidade: Campina Grande – 1920-1945. Tese (Doutorado) - Departamento de Historia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, UNICAMP, Campinas, 2001.

6
CÂMARA, Epaminondas. Datas campinenses. Campina Grande: Caravela, 1988.

7
CABRAL FILHO, Severino. “As imagens fotográficas como fontes para a história das cidades”. Ariús, Campina Grande, n.11, p.46-50, 2002.

8
Ibid, p.48

9
LIRA, Bertrand de Souza. Fotografia na Paraíba: inventário dos fotógrafos através do retrato (1850-1950). João Pessoa: Universitária, 1997.

10
FIGUEIREDO JÚNIOR. “Campina Grande em imagens: o acervo de Sóter Carvalho e a memória da cidade”. Ariús, Campina Grande, v.12, nº 1, p.87-95, 2004.

11
Já apontada por SOUSA (2001)

12
Basicamente, o Paço Municipal, a Igreja Matriz e a Igreja do Rosário.

13
REIS FILHO, Nestor Goulart. Quadro da arquitetura no Brasil. 8.ed. São Paulo: Perspectiva, 1997.

14
Por exemplo, em determinados casos é possível analisar três coberturas, mas apenas duas fachadas.

15
Lembrando que este “Quadro da Arquitetura Campinense” só diz respeito às regiões aqui analisadas (região central e as áreas de expansão ligadas ao comércio do algodão e à moradia da elite).

16
SOUSA (2001)

17
COSTA, Lúcio. “Documentação necessária”. In: TELLES, Augusto C. da Silva. Arquitetura civil II. São Paulo: FAU-USP, 1975.

18
REIS FILHO (1997)

19
LEMOS (1987) chama essa produção de Ecletismo Classicizante por entendê-lo como o primeiro momento das idéias ecléticas que viriam a se desenvolver em seguida de forma plena. Neoclássico da província (REIS FILHO, 1997) e Classicismo Imperial (SOUSA, Alberto. Arquitetura neoclássica brasileira: um reexame. São Paulo: Pini, 1994) são, com pequenas nuances, outras denominações da mesma produção.

20
REIS FILHO (1997)

21
LEMOS, Carlos. “Ecletismo em São Paulo” In: FABRIS, Annateresa. (Org.). Ecletismo na arquitetura brasileira. São Paulo: Nobel/EDUSP, 1987.

22
REIS FILHO (1997)

23
Ver CONDE, Luiz Paulo Fernandez & ALMADA, Mauro. “Panorama do art déco na arquitetura e no urbanismo do Rio de Janeiro”. In: CZAJKOWSKI, Jorge (Org.). Guia da arquitetura art déco no Rio de Janeiro. 3. ed. Rio de Janeiro: Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro/ Casa da Palavra, 2000; BRESLER, Henri. “O art décoratif moderno na França” In: CENTRO DE ARQUITETURA E URBANISMO DO RIO DE JANEIRO. Art déco na América Latina. Rio de Janeiro: Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro/Solar Grandjean de Montigny, 1997; SUAREZ, Naia Alban. “Art déco e moderno: conceitos que se confundem no ambiente progressista brasileiro” In: CENTRO DE ARQUITETURA E URBANISMO DO RIO DE JANEIRO. Art déco na América Latina. Rio de Janeiro: Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro/Solar Grandjean de Montigny, 1997. PINHEIRO, Maria Lucia Bressan. Moderno ou moderne? Questões sobre a arquitetura francesa no entreguerras. In: CENTRO DE ARQUITETURA E URBANISMO DO RIO DE JANEIRO. Art déco na América Latina. Rio de Janeiro: Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro/Solar Grandjean de Montigny, 1997.

24
Ver PEREIRA, Margareth da Silva. Os correios e telégrafos no Brasil: um patrimônio histórico e arquitetônico. São Paulo: MSP/ Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, 1999.

25
DECRETO 51 apud SOUSA (2001).

26
SOUSA (2001).

27
BRENNA, Giovanna Rosso Del. “Ecletismo no Rio de Janeiro” In: FABRIS, Annateresa (Org.). Ecletismo na arquitetura brasileira. São Paulo: Nobel; EDUSP, 1987, p. 53.

28
SILVA, Geraldo Gomes. “Arquitetura eclética em Pernambuco” In: FABRIS, Annateresa. (Org.). Ecletismo na arquitetura brasileira. São Paulo: Nobel; EDUSP, 1987, p. 181.

29
Persistem exemplares isolados nas ruas da Floresta, Irineu Joffily, Miguel Couto, Treze de Maio, Monsenhor Sales (Pavilhão Epitácio) e Pres. Epitácio Pessoa, assim como na praça Cel. Antonio Pessoa.

30
A comparação entre o Paço Municipal e esta escola é esclarecedora dos diferentes momentos a que se ligam as construções: enquanto o primeiro aproveita a mão-de-obra de retirantes da seca, com um resultado provinciano, o segundo tem composição mais rebuscada, já associada ao ecletismo. O projeto foi do arquiteto italiano Hermenegildo Di Lascio, radicado na capital paraibana.

sobre os autores

Juliano Loureiro de Carvalho, mestrando no PPGAU/UFBA.

Marcus Vinicius Dantas de Queiroz, mestrando no PPGAU/EESC-USP.

Nelci Tinem, doutora pela ETSAB/UPC e professora associada do DA/UFPB e do PPGAU/UFRN.

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