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architexts ISSN 1809-6298


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Neste artigo, Luciana Fornari Colombo apresenta a Casa Tugendhat, considerada uma das primeiras a reivindicar o estilo moderno, e esclarece alguns mal entendidos gerados por algumas imagens e desenhos publicados


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COLOMBO, Luciana Fornari. Casa Tugendhat. Arquitextos, São Paulo, ano 07, n. 084.06, Vitruvius, maio 2007 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/07.084/249>.

A Tugendhat é uma das primeiras casas a reivindicar o estilo moderno. Seu exemplo bem sucedido colaborou na batalha pela aceitação em todo o mundo de uma nova maneira de se fazer arquitetura. Esses são alguns dos motivos que levaram a Unesco, em 2001, a adicioná-la à lista de Patrimônio Cultural da Humanidade. Tendo tal valor histórico, esta obra pode ser facilmente encontrada em livros ou internet. Porém as suas imagens mais difundidas, as simplificações feitas em muitos dos desenhos arquitetônicos publicados e os textos resumidos costumam gerar certos mal entendidos a seu respeito. O presente artigo pretende apresentar esta importante obra e, após, esclarecer os referidos enganos.

A casa

Construída na cidade de Brno, República Tcheca, esta obra de Mies Van der Rohe deveria abrigar em seus 2000m² nada menos que 11 habitantes: além dos cinco membros da família, o casal e seus três filhos, morariam ali os seis empregados (a babá, duas empregadas domésticas, o cozinheiro e o chofer com sua esposa). Para atender ao estilo de vida da família e garantir o seu conforto, um pavimento inteiro, o mais baixo, seria destinado aos equipamentos técnicos como central de aquecimento de água e central de ar-condicionado, sendo alguns deles bastante inovadores para a época.

A casa já é antiga. Foi construída entre 1928 e 1930, uma época em que, por exemplo, não havia televisão. Ao invés de passarem horas sentados diante dela, um dos principais divertimentos da família era dançar. O patriarca, Fritz Tugendhat, também era fotógrafo e cinegrafista amador. Daí a casa ter uma sala de projeções para filmes e uma ampla documentação iconográfica da família durante os anos em que viveu ali. Sendo antiga, a casa incorpora hábitos hoje obsoletos como quartos separados para o casal. Porém, afora esses detalhes, suas linhas não envelheceram. Aliás, os móveis concebidos especialmente para ela são vendidos com sucesso até hoje, podendo ser freqüentemente vistos na mídia.

Segundo Fritz Tugendhat: “Nós procurávamos por luz, ar, clareza e honestidade e, logo após conhecermos Mies Van der Rohe, o contratamos” (2). Em setembro de 1928, ao visitar o terreno, Mies fica encantado. Mesmo considerando as dificuldades impostas por sua abrupta declividade, ele logo percebe que as vistas e as condições de insolação são muito favoráveis. A visual à sudoeste tinha como horizonte o centro da cidade, incluindo monumentos históricos como o castelo Spilberk. Esta orientação poderia receber grandes aberturas para garantir o aquecimento da casa durante o rigoroso inverno, sem problemas de perda de privacidade, pois esta face se voltava para o interior do terreno. Era a oportunidade ideal para realizar o conceito de abrir o espaço interno para o exterior através de uma ampla pele de vidro. Esta pele torna-se uma das características marcantes do projeto.

O edifício é organizado por Mies em três pavimentos, sendo que apenas o mais alto fica visível desde a rua, já que os outros dois encontram-se semi-enterrados. Os diferentes planos e volumes que compõem o edifício são dispostos assimetricamente. Eles podem ser interpretados da seguinte maneira: como um pódio sobre o qual “paira” um plano, a cima do qual repousam duas caixas que são conectadas entre si e com uma terceira caixa à noroeste (mais vertical, abrangendo todos os pavimentos) por meio de um plano (cobertura). Complementando existem dois volumes menores: a sacada adicionada à caixa à noroeste e o volume vertical da chaminé, contrastante com a horizontalidade que predomina na fachada nordeste.

No volume a noroeste, dotado de acessos próprios, estão localizadas as áreas de serviços e os quartos dos empregados. Contrariando uma disposição convencional de usos, a área íntima se localiza no mesmo nível da rua. Uma “caixa” a sudoeste abriga os quartos dos donos da casa, enquanto outra, a leste, abriga os quartos das crianças e da babá. Todos os membros da família têm seus quartos abrindo para um terraço privativo de onde se tem a vista da cidade. Ligando estas duas caixas e protegido por um plano de cobertura, há um “volume virtual” de vidro leitoso onde se localiza o acesso. Na área externa e coberta adjacente, os usuários podem sair do carro protegidos das intempéries. Descendo a escada em leque do hall, encontra-se a área social do lado sudeste e as zonas de serviço a noroeste. No pavimento inferior, que formalmente funciona como pódio, fica a área técnica da casa. Assim, ao localizar a zona dos empregados a noroeste e a zona dos moradores à sudoeste, Mies garante aos últimos as melhores visuais, uma ótima orientação solar e privacidade. O arquiteto também consegue obter uma ampla área de jardim e uma maior distância dos vizinhos implantando o edifício na ponta norte do terreno.

O ambiente social se destaca das outras partes da casa. Ao contrário delas que são mais compartimentadas do que abertas para atender a demandas funcionais, o espaço de convívio expressa com clareza o conceito de planta livre. Sua subdivisão entre área de estar, jantar, biblioteca e ante-sala, ao invés de ser feita com paredes maciças, é sugerida através da disposição dos móveis e dos planos leves de materiais ricos como a madeira ébano e o mármore ônix. Estes ambientes integrados se ampliam para o exterior através das laterais envidraçadas. A vista privilegiada faz do local um verdadeiro belvedere.

Pautando a zona social, existem pilares cujo formato cruciforme e revestimento de aço polido produzem um efeito de desmaterialização da estrutura, quase negando a sua função. Esta estrutura consiste em um esqueleto de aço com lajes nervuradas que adquirem aspecto liso através de enchimento cerâmico. A malha estrutural tem dimensões predominantes de 4,9 x 5,5m. As vedações são em alvenaria revestida de reboco branco, vidro transparente e vidro leitoso. Os caixilhos são em ferro pintado de cor escura e a maioria das esquadrias apresenta bandeira para ventilação de inverno. Dois módulos do pano de vidro que faz o fechamento da área social podem ser inteiramente recolhidos através de um sistema que é acionado eletricamente. Todas as janelas têm sombreamento adequado, através de persianas ou toldos, ambos de enrolar, evitando que a casa esquente no verão.

Esclarecimentos

Algumas imagens mais paradigmáticas e certas simplificações nos materiais publicados acabam induzindo o leitor mais distraído a uma compreensão enganosa a respeito da casa Tugendhat. Por exemplo, a foto externa mais difundida da casa é aquela que se têm desde o jardim, com a grande pele de vidro. Esta imagem costuma alimentar a idéia de que a casa se encontra em meio rural, pois a rua não é vista, e de que a casa teria precárias condições de habitabilidade, já que não é aparente nenhuma forma de proteção solar. Enquanto isso, certas imagens internas, passam, por vezes, a impressão de um ambiente árido e impessoal. Tudo estaria tão correto em seu lugar que as pessoas não se sentiriam a vontade para intervir no ambiente, dando o seu toque pessoal através de um quadro ou cortina.

Porém, buscando imagens menos acessíveis, percebe-se que estas noções não se verificam. A casa está inserida em meio urbano, sendo que seu acesso desde a rua se dá pela fachada oposta a do jardim. Todas as janelas apresentam proteção solar. Esta era, inclusive, uma das exigências da família. Segundo Fritz Tugendhat: “No inverno a casa é mais fácil de aquecer do que uma casa tradicional com paredes grossas e pequenas janelas duplas. Graças ao vidro que vai do chão ao teto e à posição elevada da casa, o sol atinge o seu interior profundamente. Em dias gelados e ensolarados, podemos baixar os panos de vidro e, aquecidos sob o sol, admirar a paisagem coberta de neve. No verão, os elementos de sombreamento e o ar condicionado proporcionam temperaturas confortáveis” (3). Por último, as fotos internas, em geral, vazias de pessoas, poderiam ser contrapostas com as imagens tiradas por Fritz que mostram a família vivendo na casa. Elas não deixam dúvida do quanto gostavam dela. Os Tugendhat sempre a defendiam, já que, como acontece com o novo, ela foi alvo de questionamento. A família judia só deixa a casa em 1938, quando se vê obrigada devido à perseguição nazista iniciada no país.

ficha técnica

Arquiteto
Ludwig Mies Van der Rohe

Contexto
Subúrbio

Clima
Temperado

Finalidade
Residencial

Sistema construtivo
Esqueleto de aço

Área total de piso
Aprox. 2000 m²

Estilo
Moderno

Período de Construção
1928-1930

Local
Brno, República Tcheca. Rua Cernopolni, 45

Proprietários
Grete e Fritz Tugendhat (industriais, donos de companhias têxteis)

notas

1
Artigo elaborado a partir da pesquisa de iniciação científica “Estudo de Soluções Arquitetônicas Exemplares: Casa Tugendhat” realizada pela mesma autora com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq - Brasil.

2
TUGENDHAT, Fritz apud TEGETHOFF, Wolf. Mies van der rohe : the villas and country houses. New York: Museum of Modern Art, 1985, p. 98.

3
Idem, ibidem, p. 98.

bibliografia complementar

COHEN, Jean-Louis. Mies van der rohe. London: E & Fn Spon, 1996.

DUNSTER, David. Cien casas unifamiliares de la arquitetura del siglo XX. México: Gustavo Gili, 1994.

HAMMER-TUGENDHAT, Daniela; TEGETHOFF, Wolf. Ludwig Mies van der Rohe, The Tugendhat House. New York: Springer-Verlag, 2000.

SCHEZEN, Roberto. Private Architecture: Master Pieces of the Twentieth Century. New York: The Monacelli Press, 1998.

SUDJIC, Deyan; BEYERLE, Tulga. Hogar: La Casa del Siglo XX. Barcelona: Blume, 2000.

TEGETHOFF, Wolf. Mies van der rohe: the villas and country houses. New York: Museum of Modern Art, 1985.

sobre o autor

Luciana Fornari Colombo é estudante de Graduação em Arquitetura & Urbanismo da UFRGS e Bolsista de Iniciação Científica PIBIC/ CNPq 2004-2006.

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