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arquitextos ISSN 1809-6298


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Neste artigo, o autor Adson Lima nos traz reflexões acerca do tema habitar em arquitetura, em uma análise que considera a função dos espaços, seu uso, o ser e o tempo


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LIMA, Adson Cristiano Bozzi Ramatis. Habitare e habitus — um ensaio sobre a dimensão ontológica do ato de habitar. Arquitextos, São Paulo, ano 08, n. 091.04, Vitruvius, dez. 2007 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/08.091/183>.

1. O ser da arquitetura: habitar

O arquiteto americano Louis Khan, em um conhecido texto, afirmou: "Na natureza do espaço estão o espírito e a vontade de existir de uma certa maneira" (2). Nesta pequena frase ecoam inúmeras determinações concernentes à natureza da arquitetura, ao seu destino e às suas inúmeras vicissitudes. Inicialmente, forja-se uma definição bastante usual: a arquitetura como espaço, como um artefato humano cuja função reside no preenchimento do seu interior, o qual se conforma como um oco, um vazio — e é este espaço interior que o homem habita ao preenchê-lo. É neste sentido que, diante de uma casa desabitada, afirma-se que ela está vazia. A forma está lá, à espera de que se cumpra a sua função.

E, ainda refletindo a frase do arquiteto americano, poder-se-ia afirmar que este espaço guarda as suas particularidades, uma certa anterioridade a toda ocupação, pois ele "quer existir de uma certa maneira". Pode-se perceber que há, "na maneira pela qual o espaço quer existir", um caráter de necessidade, isto é, ele deve, imperiosamente, ser daquela maneira e não de outra (3). E esta vontade somente pode se realizar na medida em que esta anterioridade é atualizada, isto é, na medida em que o espaço é habitado — ora, o que vai tornar diferente o espaço de uma sala de concerto do espaço de um laboratório é o seu uso, a sua função: salas com dimensões, configurações, texturas e superfícies diferentes, e necessariamente diferentes. Portanto, se é na função do espaço que reside o seu ser, a conclusão lógica da frase de Louis Khan é que habitar um certo espaço de uma certa maneira é realizar o ser da arquitetura (4).

No entanto, nesta nossa breve exposição e análise faltaria inserir o tempo como uma importante dimensão em uma esfera de compreensão mais nítida: faltaria, então, refletir sobre o tempo e a sua relação com o ser da arquitetura. O ato de habitar de uma certa maneira como a realização do ser colocar-se-ia como uma atividade supra-temporal, ou, mesmo, a-temporal? Seria justo compreender metafisicamente os espaços da arquitetura? Esta questão tem implicações fundamentais: os espaços criados há muitos anos, e mesmo há muitos séculos, ainda seriam suscetíveis de revelar o seu ser? Seriam, neste sentido, habitáveis? Tomaremos um simples exemplo na tentativa de lançar alguma luz sobre esta intricada questão: o domus romano poderia ainda ser habitado? Em caso positivo, sob quais condições? Ora, as condições da sua habitabilidade, compreendendo esta expressão como um conjunto de práticas econômicas, políticas, funcionais, de usos e costumes, e que tornaram possíveis a construção e habitação deste espaço, há muito deixaram de existir. Como se sabe, não se habita da mesma maneira que se costumava habitar no tempo em que estas residências senhoriais foram construídas. O mesmo raciocínio seria válido para estruturas urbanas, como a agora grega ou o forum romano — as instituições políticas e as relações de poder que ocorriam nestes espaços se dão, agora, de maneira muito diferente. Estes espaços estariam, então, condenados a uma perda irreversível do seu ser? Como não são mais habitados da maneira que deveriam ser, como a sua vontade e o seu espírito determinariam, é justo imaginar que estes espaços acabaram por tornarem-se irremediavelmente vazios.

Pode-se retorquir, no entanto, com um fato tanto de ordem material quanto lógica: os domi, tais como os conhecemos, estão sendo desenterrados das cinzas do Vesúvio, e o espanto e a surpresa do homem moderno diante destas estruturas suspendem toda e qualquer possibilidade de habitação. Restam, apenas, uma apreensão estética e um olhar histórico. Quanto ao forum e a agora, a objeção é mais evidente: estes espaços não existem materialmente senão como ruína e vestígio, como uma escritura apagada que lentamente forja um saber e uma memória. Sabe-se, então, que não é possível uma habitação destes espaços pelo simples fato de que não há habitação historicista, posto que todo ato de habitar nos remete, inexoravelmente, ao momento presente em que se vive.

Se concordarmos com a questão de que habitar é um ato ligado ao presente, resta, no entanto, uma importante questão a ser respondida: o que é, exatamente, habitar? Partiremos, aqui, da premissa de que habitar é um conceito plural, coletivo, se constituindo de um conjunto de atos ligados a práticas cotidianas. Habitar significa, entre outros sentidos dos quais o termo pode estar revestido, abrigar-se, como um ato de dirigir-se para o interior de um invólucro e nele permanecer. Neste sentido, habitar significa dominar, ou, ao menos, controlar a natureza pelo trabalho e pela técnica. Esta definição bastante simples parece ajudar a elucidar a questão: habitar significa transformar a natureza e colocá-la sob o domínio e a serviço do homem. Sob este sentindo, e correndo o risco da contradição, uma família moderna poderia habitar um domus pompeiano pela simples razão de que ali ela estaria abrigada. No entanto, estar abrigado também é um conceito diverso, plural, pela simples razão de que as pessoas se abrigam de formas diferentes, de variadas maneiras, na medida mesmo que se ocupam diferentemente enquanto ocupam o espaço. Assim, habitar significa, igualmente, realizar diversas atividades, como dormir, banhar-se, preparar os alimentos e deles alimentar-se, ler, ou simplesmente, refletir. Cada uma destas possíveis atividades humanas, tão diferentes umas das outras, e que podem ser exercidas de maneiras diferentes consoante o homem ou a família que habita, e à força de se repetirem, dia após dia, tornam-se hábitos.

Pode-se, então, pensar tal questão a partir de uma inquietante semelhança lingüística: em muitas línguas, principalmente naquelas de origem latina, o vocábulo habitar liga-se ao vocábulo hábito (5). Ainda que esta relação não seja necessariamente direta, uma vez que habitar, em português, tenha se originado do termo latino habitare, e hábito, por sua vez, tem como matriz formadora a palavra latina habitus. O termo habitare significa "morar, povoar, residir", ou, em uma única palavra: "habitar". Já o termo latino habitus indica, na sua acepção originária, condição, estado (de uma coisa), circunstâncias, estado (do corpo), ou, em poucas palavras: "maneira de ser", isto é, o conjunto de qualidades ou atributos que formam e definem um ser (6). Como se pode observar, não há nenhuma ligação originária entre habitar e hábito que nos permita inferir que do ato de habitar criaram-se hábitos. No entanto, se retornamos à frase com a qual abrimos este ensaio, veremos que há uma insuspeita ligação: "Na natureza do espaço estão o espírito e a vontade de existir de uma certa maneira". Queremos insistir no peso dado pelo arquiteto americano ao "existir de uma certa maneira", isto é, ao sentido mais propriamente latino da palavra hábito. Quando "se é de uma certa maneira"  — isto é, habitus — uma série de atos ligados, necessariamente, à existência são repetidos no cotidiano, ganhando, assim, a dimensão de hábitos. Como se sabe, os atos que se repetem são realizados já sem o concurso de um pensamento pleno, que o determine nas suas mínimas operações. Quem acende o fogão elétrico para cozinhar não pensa a sua atividade como um ato físico-químico, mas como uma operação cuja lógica se realiza pela repetição. Desta forma, há um "parentesco" que se revela entre o ato de habitar e a criação de hábitos — habitar, então, significa possuir hábitos, na medida mesmo em que habitar é "ser de uma certa maneira". Apenas habita o homem que tem hábitos, porque a maioria das suas atividades cotidianas necessariamente se repetem, dia após dia, no mesmo espaço habitado (7).

Sob este aspecto, e pensando sobre a habitação, a família moderna não poderia habitar o domus romano, uma vez que os seus hábitos estão necessariamente distantes dos hábitos que criaram e deram forma àquele espaço. Voltemos, então, a nossa sentença: não há habitação histórica, posto que os hábitos mudam. Isto nos coloca diante de uma questão crucial: ora, se habitar é realizar o ser da arquitetura, as construções antigas perderam o seu ser porque não são mais habitáveis? E, assim, teriam se tornado espaços sem sentido?

2. Um novo sentido para habitar: reme-morar

Pode-se, no entanto, refletir sobre outros sentidos para o ato de habitar. Diante dos sentidos analisados, isto é, o hábito, as atividades cotidianas e a função de abrigo de todo espaço, é lícito desconfiar que haveria mais sentidos, que os limites de tal conceito poderiam ser alargados, que a sua "área de abrangência" poderia ser aumentada ao ponto de incluir perspectivas antes insuspeitas. De outra forma, dificilmente conseguiríamos explicar a contento um fato bastante evidente: os domi romanos estão sendo desenterrados, e, se não terão a função de habitação nos sentidos já determinamos, ainda assim as suas estruturas materiais estão ressurgindo com um vigor renovado  — e o forum romano, se não é mais habitado, é ciosamente cuidado, reparado, isto é, preservado. Mas, ousaríamos perguntar, por que estes trabalhos de resgate e de preservação se estes espaços, por seu evidente anacronismo, já perderam, e há muito tempo, as suas condições de habitabilidade?

Ora, anteriormente havíamos restringido o ato de habitar à dimensão do indivíduo, ou, no máximo, ao universo de uma única família. No entanto, o ato de habitar tem uma outra dimensão: todos habitam e todos devem habitar. É uma dimensão que funda coletividades, que coloca homens e mulheres em um mesmo espaço organizado, o qual vai ser denominado de comunidade. E, desta forma, o habitar instaura uma dimensão de comunidade no sentido em que é comum a todos. Uma cidade pode ser vista de muito modos, mas foi a sua função primordial de abrigar, isto é, de habitar, que durante tantos milênios forjou a sua razão de ser. Desde a aldeia primitiva do Paleolítico, passando pela cidade política da Antigüidade, até a cidade industrial moderna, uma cidade é uma coletividade organizada em torno de um mesmo princípio: proteção mútua, isto é, abrigo mútuo. Assim, uma cidade de 20 mil habitantes organizava-se eficientemente para o trabalho da agricultura e da criação de animais: arando em conjunto, construindo paliçadas e barragens, trabalho que, de outro modo, como no universo restrito de uma única família ou de um clã, seria praticamente impossível. Houve um tempo em que a força e o poder de uma cidade, compreendendo este termo como um território mais ou menos vasto e militarmente unificado, dependia diretamente do número dos seus habitantes. Houve um tempo em que impérios eram cidades.

Assim, se pensarmos que cidade são habitadas, que países são habitados, a dimensão coletiva do habitar se instaura como uma potência definidora. Portanto, já sabemos porque os domi pompeanos devem ser desenterradas das cinzas do Vesúvio: o seu ser reside em uma dimensão coletiva, que se cumpre sempre pela memória. O tour que os filhos das classes superiores européias faziam à Roma e à Grécia se revestia deste aspecto de "pertencimento" a uma comunidade maior que a nacional: a idéia de "civilização ocidental". E todos aquelas ruínas formavam a pièce à conviction, isto é, a evidência material, desta mesma idéia. Desta forma, para os italianos meridionais, assim como para todos os italianos, e, em uma escala mais abrangente, para todos aqueles que, de alguma forma, partilham da idéia do Ocidente, os espaços de antanho são habitáveis, posto que são habitados pela memória. Deve-se ver nestas estruturas históricas o substrato material, de pedra, de madeira e de argila, que torna possível o ato de recordação. Neste caso, trata-se de uma concretude que torna possíveis as abstrações da memória.

Pode-se ler estas determinações no conhecido livro A poética do espaço, do filósofo francês Gaston Bachelard:

Logicamente, é graças à casa que um grande número de nossas lembranças estão guardadas; e quando a casa se complica um pouco, quando tem um porão e um sótão, cantos e corredores, nossas lembranças têm refúgio cada vez mais bem caracterizados. (...) Por vezes acreditamos conhecer-nos no tempo, ao passo que se conhece apenas uma série de fixações nos espaços da estabilidade do ser, de um ser que não quer passar no tempo; que no próprio passado, quando sai em busca do tempo perdido, quer "suspender" o vôo do tempo. Em seus mil alvéolos, o espaço retém o tempo comprimido. É essa a função do espaço (8).

Neste texto responsável por evocaras belas imagens poéticas do sentido do habitar, duas claras referências literárias são realizadas: o lamento em versos, do romântico francês Lamartine (9), sobre o desejo humano de que o tempo não devenha, que ele seja pela eternidade, como um conjunto de momentos rigorosamente iguais entre si e cujo fluxo se conforme como um eterno retorno, e a outra referência, bem mais inquietante: a personagem proustiana em busca de um tempo que já se sabe como perdido, como irremediavelmente perdido... (10) No trecho citado há uma imbricação destas duas referências, busca-se o tempo perdido não exatamente pela memória, mas pela eterna repetição do mesmo. No entanto, não há uma "memória perfeita", que seja capaz de repetir sem diferenciar-se — ora, cada nova lembrança é um novo ser, que já se afastou definitivamente daquele evento distante que desejaria ressurgir. O que Bachelard vai enfatizar, no entanto, não é um fracasso inerente a todo processo ligado à memória, mas as inúmeras possibilidades de rememoração postas pelo espaço: a função do espaço é reter o tempo, comprimindo-o em seus alvéolos para liberá-lo, em seguida, para aquele que deseja lembrar-se. Ora, se toda lembrança é lembrança de alguma coisa, há em toda rememoração um espaço definido, mais ou menos preciso conforme o caráter da memória. É neste espaço assim concebido, ao mesmo tempo envolvido e envolvente, ao mesmo tempo potência de memória e coisa lembrada, em que, talvez, resida mais uma função do habitar.

Pensemos, então, em um sentido suplementar para o habitar: a partir destas breves considerações sobre as relações entre o espaço e o tempo, o ato de habitar surge como a potência coletiva que permite que as comunidades se lembrem, fundando um conhecimento histórico sobre as condições de toda habitabilidade. Não que os domi pompeianos instaurem, imediatamente, um saber sobre as habitações modernas, mas, certamente, possibilitam que os homens modernos tomem o seu abrigo e os seus hábitos em um sentido histórico. Trata-se de uma experiência urbana bastante comum: "naquela rua, lembro-me...". Ou, ainda: "naquela casa viveram os meus antepassados...". Isto é, em ambos os casos, o espaço vai instaurar as condições de toda lembrança, a qual, sem o seu concurso, permaneceria apenas uma lembrança comprimida em si, impossível de se fazer uma lembrança sensível. Assim como uma família torna-se o que ela é nos espaços de uma casa, uma comunidade inteira forja-se nos espaços comuns de uma cidade. Neste sentido, é comum que o imaginário de alguma comunidade dependa, mais profundamente, de algum espaço tornado emblemático e, a este título, carregado de significados. Um burguês, diante de um velho prédio, abandonado, no qual os negócios da sua família teriam começado, lembrar-se-ia, habitando, assim, a velha estrutura material. Pode-se compreender no mesmo registro, porém em uma escala universal, o cristão que visita Jerusalém e o muçulmano que cumpre a sua visita à cidade de Meca. Certos espaços sedimentam crenças, dão sentido aos hábitos e, paradoxalmente, fundam comunidades que não estão mais restritas a um certo espaço delimitado e preciso. Sob este aspecto, é interessante observar como o Cristianismo, como a primeira religião verdadeiramente universal, espalhou-se pelo mundo, na medida mesmo em que espalhava a sua estrutura hierárquica, os seus rituais litúrgicos e, é claro, os seus templos.

Podemos, neste momento, retornar à frase com que abrimos este ensaio: "Na natureza do espaço estão o espírito e a vontade de existir de uma certa maneira" (11). Delimitamos três das inúmeras possibilidades “para que o espaço exista de uma certa maneira”: abrigar-se, como uma função primordial que instaura o ser do homem, na medida mesmo em se trata de um dos atos que inaugura a cultura; possuir hábitos, como uma possibilidade determinada pela função de abrigo, e que torna mais visível a dimensão temporal de toda habitabilidade, posto que, como se sabe, os hábitos se fazem no tempo, e, muitas vezes, os primeiros atos que os fundaram perdem-se em um início indeterminado, quase mítico; e, finalmente, habitar como lembrar-se, como aquilo que permitirá que as comunidades se reconheçam como tais em uma longa perspectiva histórica.

notas

1
Apresentado como comunicação oral no 3º CEAU (Ciclo de Estudos em Arquitetura e Urbanismo), promovido pelo Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Maringá, PR, no mês de junho do presente ano.

2
KAHN, Louis. Silence et Lumière. Paris, Edition du Linteau, 1996, p. 20. Retiramos a frase de Kahn do seu devido contexto, isto é, o texto completo A ordem é. As considerações tecidas por nós, no entanto, não negam nem contradizem o texto de Kahn; trata-se, na realidade, de uma “apropriação teórica”. O texto completo de Kahn poderia ser compreendido como a busca de um “princípio essencial”, nomeado de Ordem pelo arquiteto americano, e que nortearia a fatura do objeto arquitetônico. Neste sentido, o espaço quer existir de uma certa maneira pela ordem: “Antes que a estação ferroviária seja uma construção/ ela quer ser uma rua/ ela cresce a partir das necessidades da rua/ a partir da ordem do movimento” (1996, p. 20 ¾ grifo nosso ¾ tradução nossa do francês para o Português). Neste caso, como afirmam os tradutores da edição francesa, Christian Devillers e Mathilde Bellaigue, a ordem representa as leis da natureza: “Cada material e cada objeto arquitetônico pertencem à uma ordem.  O arco pertence à ordem do tijolo (que não pode trabalhar senão em compressão). Ver: Avertissement des traducteurs (1996, p. 3 ¾ tradução nossa do francês para o Português).

3
Neste caso, é o inelutável pertencimento à Ordem o que determinará o caráter de necessidade.

4
Os termos ser e a expressão ser da arquitetura devem ser compreendidos, todas as vezes em que forem usados ao longo deste ensaio, como a parte mais fundamental e mais originária de um objeto ou da atividade que fez com este objeto passasse a existir. Não se trata de uma metafísica, mas de uma ontologia, uma vez que não fazemos referência ao termo essência, como aquilo que "é em si e para si", com um caráter estrito de universalidade e de necessidade (ainda que o caráter de necessidade esteja, algumas vezes, presente e, a este título, seja por nós aludido). O conceito a que fazemos referência é social, na medida em que o seu sentido é construído e partilhado por uma coletividade — desta forma, a expressão "habitar um certo espaço de uma certa maneira é realizar o ser da arquitetura" significa que, para uma certa comunidade, em um dado período histórico, a arquitetura somente tem sentido na medida em que é habitada de uma determinada maneira —, e é este o seu fundamento.

5
Em francês temos habiter como habitar e habitude como hábito — e esta última palavra teria se originado da palavra latina habitudo, e que guarda, como habitus, o significado de "maneira de ser". Já na língua espanhola temos exatamente a mesma situação lingüística que encontramos na língua portuguesa: habitar como habitar, e habito para hábito. Na língua italiana há o termo habitare, como habitar, e abitudine, para hábito. Na língua inglesa, a "mais latina das línguas germânicas", temos uma ocorrência semelhante: to habit para habitar, e habit como hábito.

6
Pra maiores esclarecimentos, consultar: TORRINHA, Francisco. Dicionário Postuguês-Latino. 2 ed. Porto, Editorial Domingos Barreira, 1938.

7
Em uma dimensão mais ampla o arquiteto egípcio Hassan Fathy afirmou: “A tradição está para sociedade assim como o hábito para o indivíduo, e na arte ele tem o mesmo efeito, de liberar o artista das decisões secundárias e sem importância a fim de que possa voltar toda a sua atenção às que são vitais”. (FATHY, Hassan. Construindo com o povo: arquitetura para os pobres. Tradução: Maria Clotilde Santoro, Rio de Janeiro, Forense-Universitária, 1982, p. 38).

8
BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. Tradução: Antonio de Padua Danesi. São Paulo, Martins Fontes, 1988, p. 27-8.

9
Trata-se de uma alusão aos seguintes versos do poema Le lac: Ô temps! Suspends ton vol, et vous, heures propices!/ Suspendez votre cours:/ Laissez -nous savourez les rapides délices/ Des plus beaux de nos jours. In: LEUILLIOT, Bernard (Org.). Anthologie de la poésie française du XIX e. siècle. Paris, Gallimard, 1984. p. 122.

10
O filósofo francês Gilles Deleuze logrou ver no fenômeno da memória involuntária proustiana um signo que guarda uma relação ambivalente, ou dialética, entre o nada da morte e a imagem ressurgida: "A botina, tanto quanto a madelaine, provoca a intervenção da memória involuntária: uma sensação antiga tenta se superpor, se acoplar à sensação atual e a estende sobre várias épocas ao mesmo tempo.  Basta, entretanto, que a sensação atual oponha à antiga sua “materialidade” para que a alegria dessa superposição dê lugar a um sentimento de fuga, de perda irreparável, em que a sensação antiga é repelida para o fundo do tempo perdido.  O fato de o herói sentir-se culpado dá apenas à sensação atual o poder de evitar que ela seja absorvida pela sensação antiga.  Ele começa sentindo a mesma felicidade que no caso da madelaine, mas logo a felicidade é substituída pela certeza da morte e do nada.  Há uma ambivalência que sempre permanece como uma possibilidade da memória em todos os signos que ela intervém (daí a inferioridade destes signos). É que a própria memória implica a “estranha contradição entre a sobrevivência e o nada”, a “dolorosa síntese da sobrevivência e do nada”. Mesmo na Madelaine ou nas pedras do calçamento o nada aparece, desta vez encoberto pela superposição de duas sensações" (DELEUZE, Gilles. Proust  e os signos. Tradução: Antônio Carlos Piquet e Roberto Machado. Rio de Janeiro, Forense Universitária: 1987, p. 20).

11
KAHN, Louis. Op. Cit., p.20.

sobre o autor

Adson Cristiano Bozzi Ramatis Lima é Arquiteto e Urbanista pela Universidade Federal do Espírito Santo, Especialista em Filosofia Contemporânea (UFES), Mestre em Estudos Literários (UFES). Professor de Teoria e História da Arquitetura e Urbanismo do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Maringá, e Chefe do Departamento de Arquitetura e Urbanismo. Principais publicações: “Arquitetura – a historicidade de um conceito” (Interpretar Arquitetura, número 7 (vol.5) - agosto 2004, disponível em: www.arq.ufmg.br/ia/.) “Do nomadismo à cidade – o conceito de urbano na obra de Henri Lefebvre”(Interpretar Arquitetura, número 8 (vol.6) - outubro 2005, disponível em: www.arq.ufmg.br/ia/.). “Arquitessitura – três ensaios transitando entre a arquitetura, a literatura e a filosofia”. (Livro) Maringá: EDUEM, no prelo (previsão de publicação: segundo semestre de 2006).

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