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architexts ISSN 1809-6298


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Os autores escrevem sobre a obra do arquiteto chileno José Cruz Ovalle, considerado de destaque no panorama atual da arquitetura latino-americana e analisa mais profundamente seu projeto para o Campus Peñalolen


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SOUSA, Alberto; NOGUEIRA, Helena de Cássia . O plano de implantação da cidade da Parahyba (1585) – Parte I. Arquitextos, São Paulo, ano 08, n. 093.02, Vitruvius, fev. 2008 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/08.093/166>.

A criação da cidade da Parahyba, em 1585, constituiu uma interessante expressão do urbanismo colonial português no Brasil.

Fundada para dar início à colonização da capitania real da Paraíba, ela foi a segunda urbe brasileira implantada com um traçado regular.

De caráter peculiar, seu traçado (Fig. 1) não seguiu os dois referenciais com maiores probabilidades de servir-lhe de modelo. De um lado, ele não repetiu o tipo de arruamento da primeira cidade brasileira de traça regular, Salvador, fundada em 1549, pela Coroa portuguesa, para ser a cabeça de sua colônia americana. Do outro, ele não reproduziu o esquema quadriculado seguido na América pela Coroa espanhola, à qual Portugal e o Brasil estavam subordinados desde 1580.

Dava-lhe peculiaridade o fato de ele procurar combinar aspectos da implantação de Olinda – uma vila de traçado irregular e topográfico, fundada em 1537 – com características do urbanismo regular europeu da segunda metade do século XVI.

Olinda fora erguida no alto de uma colina e seu arruamento inicial consistia em duas ruas, de traçado adaptado ao relevo, que partiam do largo da igreja matriz e se estendiam, quase paralelamente, sobre o topo da elevação. Além do largo, uma única travessa fazia a ligação entre elas, deixando claro que o tecido da urbe era (ao contrário do de Salvador) o resultado de uma justaposição de ruas e não de um somatório de quadras.

O fundador da cidade da Parahyba, o ouvidor-geral Martim Leitão, que conhecia bem Olinda, viu méritos nessa forma de ocupação e optou por adotar alguns dos princípios nela implícitos. A povoação seria implantada no alto de um platô e seu arruamento inicial seria formado por duas ruas longitudinais e duas ou três travessas interligando-as.

Mas ele queria também que a nova urbe tivesse uma aparência moderna e ordenada, como convinha a uma cidade real do império espanhol, que havia erguido numerosos núcleos urbanos regulares nos seus territórios americanos. O esquema muito rígido desses núcleos não lhe pareceu adequado. Porém, alguns traços básicos dele, capazes de dar regularidade à povoação da Parahyba, precisavam ser adotados. Ele decidiu então que as ruas deveriam ser retas e paralelas e que as travessas seriam dispostas perpendicularmente a elas, mas sem gerar uma quadrícula. E escolheu um sítio elevado que permitisse a adoção dessas diretrizes.

Com essa abordagem híbrida, ele conseguiu produzir um assentamento de caráter inovador que conciliava traços de origem medieval, prezados pelos portugueses, com características modernas preconizadas pela cultura renascentista.

Ao conceber o plano da povoação da Parahyba, o licenciado Martim Leitão, homem instruído e a maior autoridade judiciária da colônia brasileira, agiu como um autêntico planejador urbano, pois não só criou uma cidade regular de feição própria como a planejou para o futuro, dotando-a de um arruamento capaz de acomodar o crescimento que ela experimentaria nas cinco décadas seguintes.

Antecedentes da fundação da cabeça da Paraíba

Os planos para a fundação de uma povoação destinada a servir de base para a colonização da Paraíba começaram a ser postos em prática só em 1574. A Paraíba não fora colonizada pelo seu donatário e por isso voltou ao domínio da Coroa portuguesa, mas esta não se interessou em povoá-la de imediato.

A estratégia para iniciar a colonização da Paraíba era fundar uma cidade no estuário do rio do mesmo nome e explorar economicamente (sobretudo através da produção de açúcar) as terras a ele vizinhas, que incluíam vastas várzeas de grande fertilidade (2). Os franceses adentravam com freqüência esse estuário, para se abastecer de pau-brasil, e temendo que eles terminassem por se fixar em tais terras, o rei de Portugal resolveu colonizá-las para não vir a perdê-las (3).

Esse estuário (Fig. 2) é o maior de todos os existentes no litoral paraibano e permitia a penetração das grandes embarcações da época (4). Oito rios deságuam nele, formando várias ilhas, uma das quais situa-se bem perto da barra e divide o rio Paraíba em dois braços, formando uma espécie de baía, cuja largura chega a ser superior a 4 km. Grande parte das margens dos rios e da superfície das ilhas encontrava-se coberta por manguezais (manchas verdes escuras na Fig. 2). A distância da embocadura até o ponto em que o rio Paraíba se alarga muito devido à contribuição das águas dos rios Paroeira e Sanhauá é de cerca de 16 km. Nesse ponto o estuário tem mais de 5 km de largura. Entre o mar e o estuário, corre, mais ou menos na direção norte-sul, uma língua de terreno arenoso – uma restinga, indicada em amarelo na Fig. 2 –, cuja largura varia entre uns 800 m e pouco menos de 3 km. Ao sul dessa restinga ergue-se um platô (contorno verde-musgo na Fig. 2), cuja altura máxima é de pouco mais de 50 m e que em 1580 estava coberto por uma mata. Outro platô, mais alto, levanta-se na margem esquerda do estuário.

Foi um evento trágico que levou o governo português a tomar a primeira providência concreta visando à colonização dessa região: o massacre, pelos potiguares, dos moradores de um engenho situado próximo à fronteira setentrional da capitania de Pernambuco. Os potiguares habitavam a região que se estendia da margem esquerda do rio Paraíba para o norte, e por isso tal ataque a um núcleo pernambucano situado a mais de 40 km ao sul dessa região despertou o temor de que eles pudessem vir a atacar Igaraçu e Olinda. Diante disso, o rei D. Sebastião ordenou ao governador-geral do Brasil que se colonizasse de imediato a Paraíba (5).

Em 1574, foi enviada à Paraíba uma expedição chefiada pelo ouvidor-geral Fernão da Silva. Ela chegou, por terra, ao estuário do rio, mas, rechaçada pelos índios, foi forçada a bater em retirada. No ano seguinte, o governador-geral preparou uma frota de 12 navios para conquistar a Paraíba, mas ela não conseguiu atingir o seu destino, em razão da adversidade do tempo.

Em 1579 um rico morador de Olinda, Frutuoso Barbosa, propôs à Coroa portuguesa conquistar a Paraíba com seus próprios recursos, desde que ganhasse em troca o direito de governá-la durante 10 anos. A proposta foi aceita e para atingir seu intento ele organizou, em Lisboa, uma bem equipada frota, que iniciou viagem mas não chegou à Paraíba, devido ao mau tempo. Nela vieram alguns frades carmelitas, e através do documento que os incumbia de tomar parte nela, datado de janeiro de 1580, ficamos sabendo que a povoação que Barbosa iria fundar estava sendo então identificada pelo nome de cidade da Parahyba (6).

Em 1580, Portugal passa a ser governado pelo poderoso rei espanhol Felipe II, e Frutuoso Barbosa trata logo de conseguir que este ratifique a concessão que ele havia obtido do falecido governante português D. Henrique – o que se materializaria no ano seguinte. Em organiza nova frota e, em 1582, parte de Lisboa para Pernambuco. Ali, ele arma a estratégia para a conquista almejada: ele seguiria por mar, com seus navios, e o capitão de Pernambuco iria por terra, à frente de uma expedição, para encontrar-se com ele no estuário do rio Paraíba. Assim foi feito. Contudo, como acontecera oito anos antes, a investida portuguesa foi repelida pelos índios.

Diante disso, o governo espanhol resolveu se engajar na conquista (7). Aproveitando a presença, em Salvador, da armada do general Diogo Flores de Valdez, o governador-geral do Brasil pediu a este que fosse conquistar a Paraíba, com o apoio de uma expedição terrestre que partiria de Olinda sob o comando do capitão de Pernambuco. A operação foi desencadeada em 1584 e desta vez chegou-se a um melhor resultado: conseguiu-se construir um forte, junto ao qual a povoação deveria ser edificada. Por decisão de Valdez, ele foi erguido na margem esquerda do rio Paraíba (8), a 6 km de sua barra (onde está o círculo rosa marcado na Fig. 2). Porém, não foi possível implantar a povoação, devido aos constantes ataques dos potiguares, durante meses a fio.

No início de 1585, acontece um fato que iria viabilizar a conquista: chega ao estuário do Paraíba uma migração de índios tabajaras, que se fixaram na margem direita dele. Eles vinham da Bahia, onde conviviam pacificamente com os portugueses, ajudando-os, até o dia em que, para vingar uma traição, mataram dezenas deles – o que os obrigou a migrar para não sofrer retaliações.

Ao chegar ao estuário, em março daquele ano, à frente de uma poderosa expedição que ia socorrer os ocupantes do forte assediado, Martim Leitão tentou restabelecer a amizade com os tabajaras, mas estes se mantiveram hostis e juntaram-se aos potiguares contra os portugueses. O forte foi socorrido, mas teve uma curta sobrevida depois do regresso da expedição a Olinda em abril: no mês de junho, desesperados, seus defensores o abandonaram depois de o incendiarem.

Mais uma vez os esforços redundavam em fracasso. Porém, quase de imediato a sorte muda para os portugueses. Ameaçados pelos potiguares, com os quais se desentenderam, os tabajaras pediram auxílio a Martim Leitão para enfrentá-los, em troca do reatamento da antiga amizade rompida. O ouvidor-geral não deixou escapar esta oportunidade de ouro: mandou logo o capitão João Tavares à Paraíba, numa caravela bem equipada, para socorrer os tabajaras. A cinco de agosto, dia de Nossa Senhora das Neves, esse capitão sela com o cacique Piragibe a paz que colocaria do lado dos portugueses um numeroso exército de índios que os capacitava a enfrentar, com maiores chances de sucesso, os aguerridos potiguares.

Com isso, o estabelecimento da cidade da Parahyba tornava-se uma empreitada viável, à frente da qual Martim Leitão se colocou, como representante do governador-geral e da Coroa. Em meados de outubro, ele parte de Olinda, levando um bom número de combatentes e gente com prática na construção (inclusive o mestre das obras do rei) para finalmente implantar o assentamento que fora motivo de tantos esforços.

Condicionantes da implantação da cidade

O tipo de implantação que se daria à povoação da Parahyba foi condicionado, em nossa opinião, pelo conjunto de fatores que examinaremos em seguida.

Para começar, a macrolocalização da cidade tinha sido previamente definida pela Coroa espa-nhola, que recomendara ao capitão Frutuoso Barbosa, em alvará de 1581, que ela fosse erguida na margem direita do estuário do rio (9), a qual compreendia dois elementos geográficos distintos, dos quais já falamos: a restinga atrás referida e o platô situado ao sul dela (Fig. 2). Maximiano Machado dá a entender que a recomendação régia já indicara tal platô como a área preferida para a implantação do assentamento (10).

A opção pela margem direita do estuário explicava-se pelo argumento de que ela era bem mais acessível do que a outra, para quem viesse, por terra, de Olinda, vila com a qual a nova cidade precisaria manter estreitos vínculos. Para se chegar à margem esquerda era preciso atravessar o largo estuário ou a ampla várzea a ele contígua (indicada em verde claro na Fig. 2), que na época chuvosa ficava tomada pelas águas. Uma preferência pelo platô, coberto por uma mata tropical, também se justificava porque, além de ele oferecer melhores condições de defesa, nele seria bem mais fácil obter boa água potável que na restinga, espremida entre o mar e o estuário salobro.

Na certa foi o próprio Frutuoso Barbosa que convenceu a Coroa espanhola de que a margem direita do estuário e o platô nela existente eram a melhor localização para a povoação, porque ele conhecia bem aquela área, onde já estivera, recolhendo pau-brasil – o que dava peso aos seus argumentos.

A macrolocalização em questão deve ter sido uma proposta dele, pois foi por ele defendida em uma ou duas ocasiões. Uma foi quando o general Valdez decidiu que a cidade deveria ser erguida na margem esquerda do estuário e mais perto da barra, o que gerou um sério atrito entre os dois homens (11). Segundo Maximiano Machado, outra ocasião foi quando Martim Leitão sugeriu, na sua primeira expedição à Paraíba, que a povoação fosse implantada nas proximidades do rio Marés e de uma aldeia dos índios tabajaras – proposição à qual Barbosa teria se oposto com veemência (12).

Mesmo estando a macrolocalização da cidade praticamente definida de antemão, cabia a Martim Leitão determinar a localização precisa dela, pois o platô em pauta era muito extenso (Fig. 3).

As características físicas deste iriam ter um papel essencial tanto na escolha do sítio específico a ser ocupado quanto na concepção do traçado do assentamento.

A Fig. 4 é uma planta topográfica que mostra o trecho do platô onde seria implantada a povoação e o entorno dele. Nela marcamos alguns pontos que precisavam ou mereciam serem levados em conta por quem fosse ali implantar um núcleo urbano.

O ponto A indica o melhor local da área para se estabelecer um ancoradouro (foi lá onde aportaram os colonizadores que vierem de barco). Ele está localizado no rio Sanhauá, bem perto do lugar onde este deságua no rio Paraíba. Ao sul desse ponto, o rio Sanhauá ia ficando cada vez mais raso, tornando impraticável a navegação de embarcações de grande porte, enquanto na direção norte manguezais se estendiam por cerca de 8 km, impedindo a atracação de navios em toda essa extensão; só depois desses manguezais é que aparecia um novo local para ancoradouro, já em plena restinga e relativamente longe do platô (Fig. 2).

Os pontos B e C identificam um talvegue que constituía um caminho natural favorável para se alcançar o alto do platô. Do ponto C podia-se continuar subindo, na mesma direção e sem grande esforço, até o ponto D, situado mais ou menos na cota 34. Daí, para se chegar ao alto do platô (ponto E, na cota 45), era necessário virar à esquerda e vencer uma curta ladeira íngreme, quase perpendicularmente às curvas de nível. Na certa, esse caminho foi cedo percebido pelos colonizadores como a mais conveniente ligação entre o ancoradouro e o topo do platô.

O ponto F mostra o local de transição entre duas elevações existentes no platô (ou seja, o ponto menos elevado da cumeada delas), que é, por isso, o melhor ponto para se passar de uma para a outra. Esse local é também o topo das encostas situadas a leste e a oeste dele.

O ponto G indica o fundo de uma dolina (isto é, uma depressão em forma de bacia) existente no platô, que era ocupado por uma pequena lagoa, situada mais ou menos na cota 30 e rodeada por um charco – uma barreira natural à ocupação urbana.

Os pontos H e I são os locais mais altos do trecho do platô mostrado na planta – com cotas de pouco mais de 47,5 m e 50 m, respectivamente. Do primeiro se podia ver o rio Sanhauá, uma sucessão de manguezais e a ampla várzea do rio Paraíba penetrando a oeste, em direção ao interior. Do segundo, que ficava um pouco mais afastado do ancoradouro, se podia ter uma visão panorâmica de todo o estuário, desde sua embocadura, e também da restinga e do mar.

Finalmente os pontos J, L e M identificam a localização de fontes de ótima água potável exis-tentes na área em foco (mais tarde denominadas fonte dos Milagres, de São Francisco e de Tambiá, respectivamente).

Se as características do sítio eram um elemento essencial para a tomada de decisões relativas à implantação da cidade, não menos importantes eram os referenciais urbanísticos que Martim Leitão na certa tinha em mente.

É muito improvável que um desses referenciais não fosse a cidade do Salvador, fundada 36 anos antes pela Coroa portuguesa, numa operação cuidadosamente programada, para ser a capital da possessão brasileira. Afinal, a criação da cabeça da capitania real da Paraíba era um ato que, por sua natureza, tinha analogias com a fundação de Salvador: uma expedição, que incluía diversos profissionais da construção civil, iria erguer, em curto tempo e de forma planejada, uma cidade régia, a ser assentada numa elevação tendo um ancoradouro aos seus pés.

Salvador fora construída num terreno quase plano e de formato irregular, existente no alto de uma elevação de pouco mais de 60 m de altura, situada às margens da baía de Todos os Santos.

Seu núcleo inicial foi implantado com um traçado relativamente regular, aparentado aos de certas cidades planejadas européias de fins da Idade Média. As ruas eram retas e alinhavam-se com base em dois eixos principais (que, acompanhando os dois lados maiores da área ocupável, convergiam para um largo, deixado no extremo sul do núcleo,): elas eram ou paralelas ou perpen-diculares a eles. Num dos cantos do assentamento, no lado norte, foi criada uma grande praça, adjacente à escarpa, olhando para a vasta baía e destinada a abrigar, no seu perímetro, os principais edifícios administrativos da cidade.

Cedo o núcleo primitivo, que ocupava uma área de pouco mais de 4 ha, se expandiu para o Norte, gerando um novo bairro, de desenho bem mais regular, que já estava definido por volta de 1580. Com quase todas as ruas paralelas ou perpendiculares, o tecido deste bairro tinha o aspecto global de uma quadrícula (13). Apenas uma rua fugia desse padrão: uma levemente oblíqua e bastante larga, quase um largo de formato alongado, fazendo a ligação entre Terreiro de Jesus e o local onde se instalou, em 1587, o convento franciscano (edifício que fez surgir tal ligação dissonante, que alterou o plano quadriculado original do bairro).

Portanto, a impressão geral que se tinha de Salvador na primeira metade dos anos 1580 – quando Martim Leitão lá morou na condição de ouvidor-geral do Brasil – era a de uma cidade com ruas retas e paralelas, e quarteirões de forma quadrada ou retangular (Fig. 5).

Outro referencial urbanístico para Martim Leitão era Olinda, onde ele se fixou para organizar a conquista da Paraíba, vila que era, em termos de escala – cerca de 700 habitantes em meados dos anos 1580 (14) –, um parâmetro mais apropriado que Salvador, cujo tamanho era bem maior.

Fundada quase 50 anos antes, sem a interferência da Coroa portuguesa, Olinda fora implantada à maneira de cidades orgânicas medievais, com o traçado condicionado pela topografia e tendo por espinha dorsal uma rua principal que interligava edifícios importantes.

Seu núcleo inicial foi erguido numa estreita área mais ou menos plana existente no alto de uma colina com pouco mais de 50 m de altura e situada perto da beira-mar. Ele foi estruturado a partir da localização da moradia fortificada do seu fundador, Duarte Coelho, no extremo oriental de tal área. Diante dessa edificação foi deixado um largo irregular, de formato próximo ao de um triângulo, em volta do qual seriam construídas a igreja matriz, a casa da Câmara, a cadeia e o açougue. Desse largo saía uma rua relativamente larga, passando pelo meio da área em questão, que seguia reta por cerca de 200 metros e depois se encurvava para permanecer no interior da área, indo acabar na extremidade ocidental desta, local escolhido para a construção da igreja e do hospital da Misericórdia (15).

Portanto – ao contrário de Salvador, planejada em forma de trama – Olinda teve um eixo estruturador, acomodado à topografia e interligando prédios públicos importantes, à maneira medieval. Somavam-se a ele uma rua reta mais curta – quase paralela a ele e iniciada na praça da igreja matriz – e um largo alongado situado entre o segmento curvo do eixo e o convento feminino de N. S. da Conceição (Fig. 6). Não sabemos se esses dois outros logradouros foram contemporâneos do eixo estruturador, mas provavelmente eles já existiam no tempo em que Martim Leitão conheceu Olinda.

Se Salvador e Olinda eram referenciais concretos para Martim Leitão, pelo menos um referencial teórico devia estar presente na sua mente. Como alto funcionário da Coroa espanhola e maior autoridade judiciária da colônia brasileira, ele certamente conhecia a importante legislação urbanística editada pelo rei Felipe II em 1573, conhecida como Leyes de Indias, que estabelecia normas para a implantação de núcleos populacionais nas colônias espanholas.

Tal legislação rezava, entre suas numerosas e variadas disposições, que as povoações a serem fundadas deviam ser estruturadas a partir de uma grande praça retangular (a plaza mayor, onde ficariam os principais edifícios públicos), cujos lados se prolongariam em ruas retas perpendiculares e paralelas, às quais se juntariam outras ruas a elas paralelas, formando uma trama viária ortogonal e um conjunto de quarteirões de forma quadrada ou retangular.

Essas normas nem sempre tinham sido seguidas rigidamente pelos colonizadores espanhóis, de maneira que Martim Leitão sabia que estava livre para aproveitar delas apenas as prescrições que lhe parecessem adequadas às especificidades envolvidas na criação da capital da capitania paraibana – a exemplo do sítio a ser ocupado e do modo de ser português.

É quase certo que Martim Leitão tenha ouvido a opinião de auxiliares antes de decidir o tipo de implantação que daria à cidade da Parahyba. Sabe-se que ele pediu ao mestre das obras do rei, Manuel Fernandes, que o acompanhava, que percorresse o platô atrás aludido para fazer um reconhecimento dele e dar seu parecer sobre as possibilidades de localização da povoação (16).

É provável que para Manuel Fernandes, conhecedor de Salvador, essa cidade régia, projetada com bom senso e com uma certa modernidade, representasse um referencial urbanístico para o plano da urbe que ele viera ajudar a edificar. Ademais, como um homem dedicado à arte de construir, ele devia ser partidário dos quarteirões retangulares ou quadrados, por saber que as construções ficavam mais fáceis de executar quando suas paredes se encontravam em ângulo reto. Assim, certamente seu eventual aconselhamento deve ter sido no sentido de que se desse à povoação uma traça regular, com ruas paralelas e perpendiculares.

Martim Leitão pode ter consultado igualmente Cristóvão Lins, porquanto este decerto tinha um razoável conhecimento sobre a engenharia militar (que naquela época tratava também do projeto de cidades), uma vez que lhe foi dada a incumbência de planejar e orientar a construção do forte que protegeria o ancoradouro da futura cidade. Este homem era um oficial alemão que veio para Olinda provavelmente na década de 1540. Ali ele se incorporou à elite local, tornando-se dono de engenho e casando-se com uma das filhas de Jerônimo de Albuquerque, o cunhado e braço direito de Duarte Coelho, fundador da vila e donatário da capitania de Pernambuco.

É possível que Cristóvão Lins considerasse Olinda um parâmetro urbanístico para a implantação da cidade da Parahyba. Mas, como conhecedor da engenharia militar, ele sabia que esta recomendava que os novos núcleos urbanos tivessem traçado regular, ou quadriculado ou radioconcêntrico – esta última alternativa adequando-se mais às praças-fortes muradas, o que não era o caso da povoação a ser criada por Martim Leitão. Achamos, pois, que seus possíveis referenciais seriam ou Olinda ou uma cidade em quadrícula.

Afora os parâmetros urbanísticos sobre os quais estivemos especulando, mais um condicionante precisava ser levado em consideração por Martim Leitão na hora de definir o plano de sua povoação: o tamanho que esta deveria ter.

Ele sabia que Olinda, apesar de sua prosperidade, só tinha cerca de 700 moradores em 1585, quase meio século depois de ter sido fundada (17). Não havia, portanto, necessidade de prever um horizonte populacional maior do que esse para a povoação da Parahyba, pois em condições normais ele só seria atingido por volta de cinco décadas depois, como acontecera com Olinda. De fato, a História mostrou que foi isso o que aconteceu: em 1634, com quase 50 anos de existência, a capital paraibana só possuía cerca de 700 habitantes (18).

Ele devia ter noção do tamanho que deveria ter um tecido urbano capaz de abrigar tal população – e este foi certamente um dos elementos principais levados em conta na hora de decidir o tipo de implantação a ser dado à povoação.

Se ele adotasse um traçado urbano nos moldes do de Salvador ou das prescrições das Leyes de Indias – isto é, composto de um conjunto de quarteirões retangulares – ele poderia abrigar, com folga, 700 moradores em 12 quarteirões com lados de 50 e 55 metros (dimensões não muito maiores que as de boa parte das quadras de Salvador). Estes, a malha viária a eles associada e ainda uma praça, uma igreja matriz, uma Casa da Misericórdia e os prédios da administração pública caberiam num retângulo de 200 metros por 300 (os conventos seriam localizados em volta deste), ou seja, numa superfície de seis hectares (Fig. 7). Era, portanto, pequena a área de que Martim Leitão necessitava para acomodar sua povoação.

Para fins de comparação, saibam que 40 anos depois de fundada, Salvador, um núcleo muito mais importante e de população bem maior, tinha, na cidade alta, um tecido urbano que, sem o colégio jesuíta e o convento franciscano, ocupava uma superfície de aproximadamente quatorze hectares, embora se estendesse longitudinalmente por cerca de 900 metros (entre as portas norte e sul) e sua largura chegasse, em alguns pontos, a um máximo de 250 metros.

Por outro lado, se ele optasse por uma implantação à maneira olindense (isto é, desenvolvendo a povoação ao longo de dois eixos longitudinais, sem a preocupação de formar quadras), ele poderia folgadamente acomodar 700 habitantes em duas ruas de 350 metros, que comportariam não apenas os lotes residenciais mas também a largura das travessas que as interceptariam, a igreja matriz, a Casa da Misericórdia e os prédios da administração pública. Sendo as ruas paralelas, o tecido urbano poderia ficar com uma largura de 150 metros, o que daria a ele uma área de pouco mais de cinco hectares – a qual chegaria a perto de seis hectares ao se acrescentar a ele o espaço destinado a uma praça.

Essas eram, portanto, as necessidades de Martim Leitão em termos de área, para implantar a capital paraibana, e certamente ele estava ciente delas.

Para nós, os condicionantes atrás apontados tiveram um papel determinante na definição do tipo de implantação que se daria à cidade (Fig. 1) – implantação esta que será discutida num outro artigo, que dará continuidade a este e que, com o mesmo título deste, será em breve publicado nesta revista.

notas

1
Este trabalho é uma versão modificada de parte de um artigo publicado, em meio digital, nos Anais do IXSHCU (São Paulo, 2006). A segunda parte pode ser lida em: NOGUEIRA, Helena de Cássia; SOUSA, Alberto. "O plano de implantação da cidade da Parahyba (1585) – Parte II". Arquitextos 095_03. São Paulo, Portal Vitruvius, abr. 2008 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq095/arq095_03.asp>.
2
O jesuíta que redigiu, em fins do Quinhentos, o relato publicado no livro História da Conquista da Parahyba (Campina Grande, 1983) disse que essas várzeas podiam abrigar “mais de 40 engenhos de açúcar, por toda a terra ser singular para cana” (p. 24).

3
Gabriel Soares de Sousa justificou assim a necessidade de colonizar o estuário: “Este rio da Paraíba é mui necessário fortificar-se, uma por tirar esta ladroeira dos franceses dele, outra por se povoar, pois é a terra capaz para isso, onde se podem fazer muitos engenhos de açúcar. E povoado este rio, como convém, ficam seguros os engenhos da capitania de Itamaracá e alguns da de Pernambuco, que não lavram com temor dos potiguares” (em Tratado descritivo do Brasil em 1587, 4ª ed., São Paulo,1971, p. 54).

4
Pela amplitude de sua barra (mais de 1 km) e por sua boa profundidade no trecho contíguo a esta, o estuário constituía um ótimo porto natural. Segundo o autor da História da Conquista da Parahyba, em tal trecho a profundidade alcançava 15 metros. Na avaliação dele, o local, “abrigado de todos os ventos”, era “muito maior porto, e capaz de maiores embarcações, que o de Pernambuco” (p.24).
5
A narrativa histórica que se estende deste parágrafo ao fim da presente secção está baseada em principalmente dois livros, aqui já citados: o de Gabriel Soares de Sousa e a História da Conquista da Parahyba.

6
Esse documento está reproduzido em Datas e notas para a história da Paraíba, de Irineu Pinto (João Pessoa, 1977). Ele diz: “mandamos aos Religiosíssimos Padres [...] que acompanhem ao sobredito capitão na viagem que se há de fazer para edificar a cidade da Parahyba” (vol. I, p. 15).

7
Em 1583, a Coroa espanhola tomou uma significativa providência legal: declarou juridicamente fundada, por alvará de 29 de dezembro, a cidade que seria a cabeça da Paraíba, antes que ela fosse implantada de fato.

8
O autor da História da Conquista da Parahyba escreveu que o local escolhido por Valdez pareceu desfavorável a muitos, “por ser baixo e de ruim água” (p.40).

9
Ver: MACHADO, Maximiano, História da Província da Paraíba, vol. I, João Pessoa, 1977, p. 50, 58.

10
Ibidem
, p. 74-75.

11
Ibidem
, p. 58.

12
Ibidem
, p. 74-75.

13
Em 1587, Gabriel Soares de Sousa referiu-se a partes desse novo bairro. Sobre a rua ligando a Sé ao Terreiro de Jesus, ele disse ser “outra rua mui larga, também ocupada com lojas de mercadores, a qual vai dar consigo num terreiro mui bem assentado e grande”. Ele observou também: “Passando avante do colégio, vai outra rua muito comprida pelo mesmo rumo do norte, muito larga e povoada de casas e moradores”. Sobre as quadras situadas a leste dessa rua ele assinalou: “tornando desse mosteiro para a praça pela banda da terra vai a cidade muito bem arruada, com casas de moradores com seus quintais”. Op. cit., p. 136-137.

14
Ibidem
, p. 58.

15
O núcleo inicial olindense foi descrito, em 1630, pelo reverendo holandês Joannes Baers: “Descendo o monte, a partir do Convento dos Jesuítas, depara-se novamente com uma nova eminência sobre a qual eleva-se a principal igreja paroquial do lugar, chamada Salvador, a Casa da Câmara, debaixo da qual acha-se o açougue, e à direita acima dela a prisão, e uma grande parte da cidade, sendo a eminência em cima plana e igual: também ali existe uma bela e larga rua ultimamente chamada Rua Nova, que foi a primeira rua da cidade. Em: Baers, Joannes, Olinda conquistada, 2ª ed., São Paulo/Brasília, 1978, p. 85-86.

16
História da conquista da Parahyba
, p. 66.

17
Ver nota 14.
18
Segundo estimativa feita por Francisco de Brito Freyre no seu Nova Lusitânia. História da Guerra Brasílica, publicado em Lisboa, em 1675 (p. 301 da edição recifense de 1977).

sobre o autor

Alberto Sousa é arquiteto, doutor e professor da Universidade Federal da Paraíba, em João Pessoa. É autor de vários livros, o mais recente dos quais intitula-se A variante portuguesa do classicismo imperial brasileiro (Editora Universitária-UFPB, 2007).

Helena de Cássia Nogueira é arquiteta, mestra e professora do CEFET e do IESP, em João Pessoa.

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