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Leia no artigo de Elisa Vaz Ribeiro a relação peculiar da cidade de Amsterdã com a água, estratégica para o desenvolvimento da cidade, onde as atividades portuárias sempre desempenharam papel fundamental. A autora explora o conjunto das Docas Leste


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VAZ, Elisa. Docas leste em Amsterdã:. Multiplicidade ou multiplicação? Arquitextos, São Paulo, ano 09, n. 097.07, Vitruvius, jun. 2008 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/09.097/138>.

Origem e ocupação das Docas Leste (Oostelijk Havengebied)

Ao observar o mapa de Amsterdã é possível constatar, através da intricada rede de canais, sua peculiar relação com a água. Como não poderia deixar de ser, essa relação tornou-se estratégica para o desenvolvimento da cidade, onde as atividades portuárias sempre desempenharam papel fundamental.

Localizado ao leste de Amsterdã, o conjunto das chamadas Docas Leste (1) (Oostelijk Havengebied) é formado por uma ilha (denominada na sua parte leste de KNSM-eiland e na parte oeste de Java-eiland) e duas penínsulas (Borneo e Sporenburg). Estas docas foram construídas após a abertura do Noordzeekanaal (Canal do Norte) em 1876, para atender, principalmente, ao intenso comércio com a Indonésia, então colônia holandesa. Após a Segunda Guerra Mundial, o declínio do comércio com o oriente – principalmente em conseqüência da descolonização da Indonésia, em 1949 – fez com que as atividades portuárias se concentrassem no Noordzeekanaal.

O sucessivo esvaziamento das Docas Leste deu origem ao primeiro plano para transformação da área em 1975, mas nunca colocado em prática, o plano foi completamente descartado cerca de dez anos depois. A desertificação das docas do leste, aliada a uma crise habitacional nos anos 1980 – na qual famílias de renda média deixaram Amsterdã em busca de melhores condições de moradia –, provocou uma reação por parte da municipalidade que, na década de 1990, passou a investir maciçamente na questão habitacional através da construção de milhares de habitações sociais e de classe média. A área, outrora ocupada por armazéns, containers, guindastes e trens de carga, abriga hoje mais de 8.000 residências.

Escritórios de arquitetura holandeses desenvolveram masterplans para a área, sendo os edifícios propriamente ditos projetados por arquitetos de várias partes do mundo. Segundo Ton Schaap (vinculado ao departamento municipal de planejamento), um dos principais condicionantes dos planos urbanos foi a alta densidade estipulada para seu desenvolvimento: cem habitações por hectare, a mesma do centro de Amsterdã. Este índice parece ainda mais alto se comparado às novas zonas de desenvolvimento da Holanda, onde a densidade média é de aproximadamente 30 habitações por hectare.

A KNSM-eiland foi a primeira das áreas das docas a ser reurbanizada (1988-2000). O masterplan urbano do arquiteto Jo Coenen introduziu nesta área, sobretudo, o conceito de “superbloco” (aqui entendido como grande edifício multifuncional), referente à escala do porto. Para as penínsulas de Borneo e Sporenburg (1996-1997), o escritório West 8 intercalou conjuntos habitacionais de fins sociais, com superblocos, além de um pequeno loteamento com uma arquitetura mais individualizada. Já o desenvolvimento da Java-eiland (1995-2000) é marcadamente diferente do padrão adotado na KNSM-eiland. Para o plano urbano dessa ilha, o urbanista Sjoerd Soeters adotou um partido relativamente convencional: ao longo do cais se fazem presentes edifícios habitacionais que delimitam praças públicas no interior da ilha e uma arquitetura de escala menor caracteriza pequenos canais que fazem referência aos canais do centro da cidade. É principalmente para essa ocupação da Java-eiland que este texto se volta a partir de agora.

Java-eiland e sua ocupação aparentemente tradicional

O arquiteto Sjoerd Soeters foi o responsável pelo plano urbano (2) da ilha que abriga 1.300 habitações e é assim chamada em referência à ilha de Java, na Indonésia. Pode-se dizer que o plano trabalha com duas escalas diferentes: uma maior nos cais, e uma menor nos canais que cortam a ilha transversalmente.

Uma linha de edifícios, com aproximadamente 27 metros de comprimento cada um, configura a ocupação dos cais norte e sul da ilha (Sumatrakade e Javakade, respectivamente). Os mesmos edifícios, no interior da ilha, delimitam espaços públicos cuja configuração, segundo Soeters (3), foi a maior preocupação na elaboração do plano urbano. A adoção de princípios tradicionais, tais como a ocupação do pavimento térreo, a implantação geminada das edificações e a conseqüente delimitação da rua em virtude dessa disposição edilícia, contribui para espaços públicos mais claramente definidos, que proporcionam mais intimidade e sensação de segurança. Nessas áreas internas, a circulação fica restrita a ciclistas e pedestres. Já os cais englobam também a circulação de veículos, sendo o cais norte dotado de uma via maior para tráfego de automóveis enquanto no cais sul destaca-se uma área para estacionamento de veículos e uma grande avenida para pedestres.

O projeto residencial dos cais está continuamente acomodado, interrompido apenas por canais transversais, cujas pontes requeridas dividiram o longo horizonte do cais, criando um ritmo e linhas de visada. Desta forma, a implantação perpendicular dos canais permite a permeabilidade da circulação e do olhar. Sjoerd Soeters procurou, através destes canais, estabelecer uma relação com o centro de Amsterdã, resgatando, na nova ocupação, o que, segundo o arquiteto-urbanista, seria o ritmo das pontes, canais e edificações existentes na cidade antiga. A proposta de aberturas de canais com fundo de concreto, sobre uma ilha resultada de aterro, soou, inicialmente, como um completo absurdo. “Houve muita discussão sobre estes canais”, recorda Ton Schaap (4): “Meu diretor achou que a idéia era demasiadamente ruim e ela foi ridicularizada na imprensa arquitetônica. Canais foram sempre feitos, por razões náuticas, para transporte ou para delimitar o espaço da água. Aqui eles seriam construídos apenas para divertimento”. Soeters afirmava, no entanto, que os canais em Amsterdã eram admirados não por sua função, mas pela sua qualidade pitoresca e que o mesmo passeio feito em pequenos barcos nos canais do centro, poderiam também ser realizados na Java-eiland. Os quatro pequenos canais – Brantasgracht, Lamonggracht, Majanggracht e Seranggracht – acabaram por ser construídos, cortando a Java-eiland em seu sentido transversal, situando-se a 1,50m abaixo do nível da água. As casas que margeiam os canais, submetidas às limitações de 4,5m de largura e 4 ou 5 andares, reinterpretaram o conceito das casas do séc. XVII do centro de Amsterdã.

Uma questão de Escala

A área dos cais (Sumatrakade e Javakade) é aquela onde a Java-eiland possui uma escala urbana maior, perceptível não apenas pela dimensão dos edifícios, mas também pelos elementos ao seu redor. O volume de água com o qual as edificações se relacionam e a distância das margens do rio justificam edifícios maiores. Já a adição dos canais transversais propiciou uma relação mais próxima da ilha com a água, configurando áreas mais enclausuradas, onde os elementos anteriormente citados – a água, o cais e os edifícios – se apresentam em escala reduzida. As residências dos canais configuram novas arquiteturas em parcelamentos tradicionais, parecem aludir à diferenças ocasionais que poderiam ter sido provocadas pelos acidentes do tempo. Se comparada aos canais, intencionalmente nostálgicos, a imagem dos cais chega a ser prospectiva. No entanto, a clara delimitação do espaço e a abordagem de escalas que, embora distintas, não deixam de dialogar com o homem, são características típicas da tradição urbana pré-moderna que sempre teve continuidade na Holanda. Essas características, presentes tanto nos canais quanto nas praças internas configuradas pelos edifícios dos cais, tornam reconhecível a unidade do conjunto.

A abordagem dessas duas diferentes escalas não objetiva uma apreciação qualitativa de cada uma das distintas imagens, nem estabelecer a primazia de uma em detrimento à outra, mas mostrar como elas podem ter importâncias análogas e complementares. Diferentes modelos podem ser importantes quando abordados em um quadro relacional.

Unidades multiplicadas

Ainda que a questão das escalas concebidas no projeto urbanístico de Soeters pareça bastante apropriada, uma atenção especial deve ser dada aos objetos arquitetônicos propriamente ditos. Se, em um primeiro olhar, a organização e parcelamento do projeto parecem proporcionar espaços peculiares, um olhar mais atento pode detectar, não sem surpresa, a repetição dos objetos arquitetônicos na paisagem. Sob o argumento da busca por unidade, o plano de massa elaborado descarta a unicidade e trabalha com a repetição de edifícios em variados pontos. Nos estreitos canais, edifícios se repetem nas margens leste e oeste, apenas em diferente ordem sucessiva (imagens 8 a 11). Na realidade, os quatro canais são constituídos por dois modelos, reproduzidos aos pares, constituindo ruas inteiramente repetidas. Essa repetição de edifícios também ocorre nos chamados “palácios” (5) e em vários edifícios ao longo dos cais norte e sul da ilha. A questão da orientação foi, nesse caso, totalmente relegada. Segundo Soeters, a adoção de um partido que faz uso da “alternância” dentro da continuidade dos edifícios do cais é o resultado de uma busca por “unidade na multiplicidade”, slogan sob o qual a plasticidade das fachadas foi formulada (6).

Diante do exposto, cabem aqui algumas perguntas: Onde fica a peculiaridade de uma paisagem que se repete? Tal repetição poderia ser justificada pela possibilidade de dar um ritmo à paisagem através de objetos reconhecíveis? Seria a solução de “fragmentação” de um único bloco na paisagem, melhor do que as extensas “unidades de habitação” do tão criticado modernismo?

Exemplos não faltam da degradação de grandes conjuntos habitacionais modernistas. O que atualmente se observa são imagens de um cotidiano distante daquele que, se acreditava, tais edificações poderiam proporcionar. Hoje é possível afirmar que o modernismo pecou ao conceber utópicos ideais de uma vida coletiva que, ao menos no mundo ocidentalizado, parece afastar-se cada vez mais da realidade. Deixando de lado os ideais do habitar moderno – tais como a questão ética da moradia mínima ou a idealização de um inexistente homem padrão – realiza-se, no presente texto, uma comparação baseada na análise da inserção do objeto na paisagem.

A arquitetura moderna foi muito criticada por conceber paisagens monótonas e repetitivas. De fato, na maioria das vezes em que o produto modernista ultrapassou a dimensão da moradia para se estender à dimensão do bairro, tais acusações não são totalmente injustas. Além da justificativa da padronização para otimizar o processo construtivo, mais uma vez os conceitos de habitação coletiva e igualdade social entraram como argumentos na elaboração de tais complexos.

Em Amsterdã, a expressão máxima dos conceitos funcionalistas em extensos complexos residenciais foi atingida em Bijmermeer (1962-73). No conjunto construído em campo aberto na área sudeste de Amsterdã, a implantação e a escala não são mais as da quadra tradicional: blocos hexagonais de 750m de comprimento configuram o complexo. Neste caso, não apenas o conjunto, mas cada bloco edificado já constitui por si só um exagero em extensão uniforme, tornando inevitável a monotonia da paisagem. Hoje parcialmente demolido, pelas críticas que o projeto recebeu (e de que ainda é alvo) e pelos problemas sociais que abriga, Bijmermeer acabou se tornado um antimodelo de núcleo habitacional (7).

Não é por acaso que esses complexos residenciais normalmente abrigam classes sociais menos privilegiadas financeiramente, pois, à parte a monotonia da paisagem, outra ressalva parece subjacente às críticas feitas a esse tipo de conjunto: o fato de que a repetição de unidades parece ser mais bem aceita dentro de um único volume arquitetônico do que a repetição de volumes arquitetônicos em sua totalidade. A imagem da cidade padronizada, repetidora de unidades habitacionais, nunca deixou de ser vista como uma estética válida e representativa da classe trabalhadora. Benévolo (8) afirma sobre os bairros formados por unidades de habitação: “Os elementos funcionais maiores – e, sobretudo a unidade de habitação – são praticamente recusados pela sociedade contemporânea, porque entram em conflito com o equilíbrio dos interesses dominantes. As unidades repetíveis (...) são admitidas até agora como episódios excepcionais: são reconhecíveis como obras apreciáveis, não como exemplos para mudar a estrutura geral da cidade”.

A repetição de células dentro de um mesmo corpo confere a este uma forma própria, que se perde no momento em que o corpo é reproduzido. Segundo Brites (9), “a casa ultrapassa sua função básica de abrigo para ser igualmente a imagem do habitante”. A forma exclusiva de sua habitação (seja ela casa ou edifício) permite que o morador se identifique com ela e seja identificado através dela. Com a repetição da forma, ela deixa de ser referencial e o morador perde, também, um pouco de sua identidade. Na contribuição modernista, casos mais bem sucedidos parecem ter sido aqueles em que a “unidade de habitação” deixou de constituir conjuntos para adquirir o perfil de “edifício de habitações mínimas”. Também na inserção do objeto na paisagem o edifício de dimensões moderadas permite uma maior variedade e criação de uma identidade própria. Deve-se estar sempre atento para a produção de espaços que possuam, além de identidade territorial, características com as quais seus habitantes possam identificar-se, pois, se por um lado este não é pré-requisito único, é condição sine qua non para uma maior permanência da produção arquitetônica.

Se a repetição da forma arquitetônica parece não ser bem aceita mesmo quando configura um conjunto claramente definido, o que dizer quando essa repetição dá-se alternadamente? Se, por um lado, ela quebra a monotonia da paisagem, por outro, ela gera uma falsa diversidade, incômoda a partir do momento em que é percebida. Em Java-eiland, no caso dos edifícios dos cais, a distância para a margem do rio os insere em uma escala que permite a leitura da paisagem de pontos mais longínquos e justifica a existência de edifícios maiores em suas margens (questão esta já colocada na abordagem das duas diferentes escalas urbanas existentes na ilha). No entanto, sem nenhum ônus possivelmente ocasionado pela elaboração de um maior número de projetos arquitetônicos, os edifícios “repartidos” ao longo do cais poderiam ser somados em blocos únicos que atingiriam extensão máxima de 81m. Fazendo uma analogia com a extensão de obras renomadas, tal dimensão estaria mais próxima dos 65m de comprimento dos edifícios projetados por Lúcio Costa para o Parque Eduardo Guinle, no Rio de Janeiro, do que dos 135m da Unité d’Habitation de Marseille, ambos exemplos de edifícios inseridos em contextos de diversidade urbana, sem qualquer prejuízo desta.

Distanciando-se um pouco do modelo modernista, o Plano de Expansão Urbana Sul de Amsterdã serve como exemplo comparável à hipótese de junção dos edifícios repetidos em Java-eiland, não só pela concepção de prédios relativamente extensos, como pela prática projetiva adotada para o desenvolvimento do plano. Assim como em Java-eiland, no plano elaborado por Berlage, séries semelhantes foram trabalhadas por diferentes arquitetos, a cada um cabendo uma faixa de elevação urbana correspondente a 25-30 lotes (o que corresponderia aproximadamente aos supostos 81m para os edifícios da Java-eiland). Segundo Casciato (10), as fachadas do Plano de Expansão Urbana Sul resultaram em um sofisticado conjunto de feições padronizadas, com sutis distinções dentro da uniformidade, o que fez do desenho do distrito ABV (Amstels Bouwvereniging at Vrijheidslaan) um dos mais felizes da escola de Amsterdã. Nesse plano de expansão da cidade foi desenvolvida uma arquitetura coletiva onde não é o edifício individualmente que tem importância especial: o foco dado contempla menos as moradias perfeitas de certas buscas racionalistas e mais a coesão de uma série de edifícios, configurando quadras numa unidade compreensiva, que expressa bem os valores tradicionais da cidade. Já em Java-eiland, apesar da afirmação de Soeters de que restrições arquitetônicas foram elaboradas visando a impedir uma “guerra de projetos”, parece claro que os edifícios foram concebidos de forma ainda individualizada, nem sempre proporcionando convivências das mais harmônicas entre obras vizinhas.

A solução de unificação das unidades edilícias reproduzidas seria incabível, entretanto, no que diz respeito aos edifícios dos canais. Isto porque a adoção do estreito parcelamento, tradicional no centro da cidade, impede a “junção” dos edifícios repetidos em um único bloco. Por outro lado, vizinho a Java-eiland, o loteamento livre de Borneo, adotando parcelamento semelhante, está entre as melhores propostas no conjunto das Docas Leste (imagem 14). Trata-se de 60 residências construídas em lotes que variam de 4,2 a 6 metros de largura por 15 metros de profundidade. Foram duas as principais exigências para os projetos das edificações: as residências teriam três andares e deveriam comportar uma garagem (item relacionado ao cotidiano contemporâneo, mas não contemplado nas edificações da Java-eiland). A comparação entre os antigos cais da cidade do Século de Ouro e os criados em Borneo, distantes três séculos, faz surgir uma diversificada atualização do modelo urbano com motivações completamente diversas, mas que conduzem a resultados comparáveis, oferecendo a imagem de uma continuidade inesperada. Esta ambiência peculiar poderia ter sido também atingida nos canais de Java-eiland, não fossem as repetições, que fazem desaparecer qualquer indício de peculiaridade.

Espontaneidade em meio ao artificial

A análise das propostas desenvolvidas para o conjunto Docas Leste revela como os elementos tradicionais de composição urbana podem ser reinventados em situações urbanas diferenciadas das convencionais e numa nova época. As propostas urbanas em Docas Leste ora apóiam-se numa tradição cultural e histórica (como na implantação de alguns conjuntos), ora rompem com ela (como na concepção de superblocos), mas, fundamentalmente a têm como referência na busca de uma linguagem urbana contemporânea. Mais uma vez, a questão da moradia em Amsterdã, sempre condicionada a altas densidades, aparece como um tema impulsionador de uma discussão sobre a cidade e as relações que nela são traçadas.

Ao invés de configurarem mais uma expansão urbana, as novas intervenções buscaram um desenvolvimento sustentável através da requalificação de espaços com concentração de investimentos para a ocupação de vazios urbanos e a reutilização do patrimônio instalado. Neste contexto, nas últimas décadas, metrópoles de todo o mundo (Boston, Baltimore, Londres, Barcelona, Bilbao, Berlin e Hamburgo, citando apenas algumas) têm devolvido às antigas áreas portuárias um papel estratégico. Como destaca Del Rio (11), nos últimos anos, com a revalorização das áreas de frente de água, as alterações nas relações entre o indivíduo e o seu tempo de lazer, e a tendência à construção de fragmentos qualificados de cidade, as áreas portuárias destacaram-se por suas potencialidades paisagísticas, logísticas e imobiliárias.

Diante das especulações e da dinâmica econômica contemporânea cabe a reflexão sobre até que ponto os arquitetos produzem espaços realmente vivenciáveis ou se promovem, sobretudo, uma investigação no campo das disciplinas que concernem à morfologia arquitetônica.

A repetição de objetos arquitetônicos de fins habitacionais é freqüentemente associada a complexos residenciais de baixa renda. No entanto, a presença dessa característica em Java-eiland pode ser apontada como uma tentativa de inserir a repetição em uma nova realidade social (voltada, sobretudo, para as classes de média renda). Se por um lado, para ser aceita em novo meio, a reprodução dos edifícios teve que ser suavizada, através da alternância que a torna mais sutil, por outro lado, é justamente essa espécie de disfarce da repetição que transforma a paisagem em um cenário portador de uma pseudo-unicidade, provavelmente mais incômoda do que a repetição evidenciada. Entre multiplicidade e multiplicação, conceitos que aludem, respectivamente, ao diverso e ao repetitivo, o que se observa em Java-eiland é a predominância da multiplicação em detrimento à multiplicidade.

Ciente da dificuldade implícita no projeto urbano, o arquiteto contemporâneo consulta fatos e experiências existentes, sempre à procura de um projeto de solução abrangente e ao mesmo tempo específica, onde o espaço possibilite e otimize os encontros sociais. Em geral, as intervenções urbanas disponibilizam grandes espaços materiais que proporcionam experiências concretas portadoras de valores subjetivos. Entre erros e acertos, artificialidade e espontaneidade, a impressão de marcas pessoais e de uma ambiência “humanizada” parece ser o leitmotiv de qualquer espaço que inclua o uso habitacional; e se a relação entre construção e sociedade pode ser considerada subjetiva, é sempre possível encontrar, mesmo na paisagem meticulosamente construída, como em Java-eiland, expressões improvisadas das necessidades pessoais daqueles que a utilizam (imagem 15).

notas

1
A denominação de Docas Leste foi definida pela autora, uma vez que não foi encontrada uma denominação oficial específica para a área na língua portuguesa.

2
Além do plano urbano, o escritório holandês Sjoerd Soeters desenvolveu o projeto de sete dos edifícios dos cais, agenciamento do estacionamento e foi responsável pela supervisão geral do projeto. Os demais edifícios do cais e palácios foram projetados por dez arquitetos, ao passo que vinte jovens arquitetos foram convidados para projetar as casas dos canais. As pontes de pedestres e bicicletas foram projetadas por Paul Wintermans e o departamento municipal de planejamento desenhou o layout dos espaços públicos.

3
http://www.soetersvaneldonk.nl/eng/p-java.html
. Acesso em: 11 de janeiro de 2008.

4
KROOL, Bertine. Expanding Amsterdam. 2003. Disponível em http://www.radionetherlands.nl/features/cultureandhistory/040623doc.html. Acesso em: 11 de janeiro de 2008.

5
Termo pelo qual Soeters se refere aos edifícios que delimitam as laterais dos jardins internos das quadras.

6
Além do artifício da repetição dos objetos arquitetônicos, outros critérios foram adotados na busca por uma unidade do conjunto. Planos de massa com restrições arquitetônicas foram elaborados, a fim de, segundo o arquiteto-urbanista, impedir uma “guerra de projetos”. Apesar de a unidade de materiais e cores da tradicional arquitetura holandesa ter sido prescrita, nos edifícios do cais, a unidade na altura das janelas e dos edifícios foi requerida. http://www.soetersvaneldonk.nl/eng/p-java.html. Acesso em: 11 de janeiro de 2008.

7
RUBANO, Lizete Maria. “Tecidos habitacionais em Amsterdã”. In: DOCOMOMO Brasil, 3. 1999. São Paulo. Disponível em: <www.docomomo.org.br/seminario%203%20pdfs/subtema_A4F/Lizete_rubano.pdf>.

8
BENEVOLO, Leonardo. História da cidade. São Paulo. Editora Perspectiva. 3ª edição, 1997, p. 657.

9
BRITES, Blanca. O kitsch na arquitetura popular brasileira: manifestação essencialmente urbana. Porto Arte: Revista Semestral do Instituto de Artes, Porto Alegre, v.2, n.4, p.20-25, nov. 1991.

10
CASCIATO, Maristella. The Amsterdam School. Rotterdam, 010 Publishers: 1996.

11
DEL RIO, Vicente. “Voltando às origens: a revitalização de áreas portuárias nos centros urbanos”. Arquitextos n. 15 Texto Especial 091. São Paulo, Portal Vitruvius, ago. 2001. <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp091.asp>.

sobre o autor

Elisa Vaz Ribeiro, arquiteta pela UFPE, foi colaboradora no escritório VRF arquitetos (Vital Pessoa de Melo), Recife, e consultora do Centro Josué de Castro para o desenvolvimento dos planos diretores de Arcoverde e Belo Jardim (PE). Em 2007 foi colaboradora de Márcia Moreira (Ruimtelijke Vormgeving en Interieur Advies), Haarlem, Holanda. Atualmente trabalha no escritório André Lobo Arquitetura, Recife.

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