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architexts ISSN 1809-6298


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Os autores problematizam as relações entre urbanismo, arquitetura e a disciplinarização da sociedade com os ideais da modernidade progressista, centrando-se no caso da ordenação da malha urbana de Porto Alegre e suas relações com a segmentação da loucura


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ARTUR COSTA, Luis; FONSECA, Tânia Mara Galli . A construção da civilidade:. Urbanismo, arquitetura e loucura na Porto Alegre de fins do século XIX e início do XX. Arquitextos, São Paulo, ano 09, n. 101.06, Vitruvius, out. 2008 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/09.101/105>.

O presente artigo problematiza as relações entre urbanismo, arquitetura e a disciplinarização da sociedade conforme os ideais da modernidade progressista. Para tanto, visibilizamos aqui diversos pontos neste processo onde estas disciplinas surgem como estratégias fundamentais no trato para com o que fugia à normalidade simétrica e ordenada da sociedade disciplinar, centrando-nos no caso da ordenação da malha urbana de Porto Alegre e suas relações com a segmentação da loucura. Nesta luta por criar geometrias centralizantes unívocas, as práticas espaciais geraram uma série de dispositivos os quais tinham por objetivo moldar os corpos e os gestos que habitavam estes espaços, para, forjar o homem com a civilidade urbana e moral burguesa. Assim, em conjunto com as ciências do século XIX, o urbanismo e a arquitetura deram corpo à razão abstrata em quadros adequados à classificação e vigilância, permitindo a máxima inteligibilidade imediata do espaço e seus fluxos. É exatamente neste ponto de convergência de diversas práticas espaço-sociais que este artigo se detém, questionando estes importantes atravessamentos na construção das segmentações que objetivam nosso conceito de normalidade.

Constituição e segmentação da malha urbana: espaços classificatórios

Estabelecida a precária capital da então província de São Pedro nos setecentos, são erguidas fortificações que delimitam as fronteiras entre o urbano da vila e o rural das estâncias e chácaras. Assim, com muradas e portões, se estabelece o núcleo rarefeito, despossuído de abastecimento de água, esgoto, iluminação, limpeza públicas, calçamento nas ruas. Estas últimas, picadas inconstantes em nomes e percurso, cortadas por vielas menores e acidentadas, denominadas becos, onde habitava a gente pobre do povoado em casebres de adobe, pau-a-pique ou taipa de pilão e palha (1). Ruas modestas e incertas, por onde boiadas, na direção do porto, ainda levantavam poeira por entre transeuntes carregados de água do Guaíba ou excrementos privados. Mas, já ruas de uma cidade, contrapondo-se ao espaço rural e suas imensidões desbragadas: “O espaço interior é o espaço central das vivências do povoado, protegido de ataques, lugar de comércio e mesmo de algumas chácaras situadas dentro das fortificações” (2). Convergência de fluxos efetivada em dispositivos como os estreitos largos de chão batido e pelourinhos, onde a urbe se misturava, festejava sua cultura e dava o exemplo do que ocorria aos que desta fugissem. Para além destas festividades, a elite, desprovida de opções, reunia-se em saraus e reuniões rodeadas pelas paredes de seus sobrados, enquanto os desprovidos da moeda civilizada freqüentavam os maus falados botequins dos becos.

Nas duas primeiras décadas do século XIX Porto Alegre tem um grande desenvolvimento populacional, que inicia por gerar um incremento da malha urbana do município. No início dos oitocentos, a assistência à loucura reduzia-se a dois estabelecimentos de caráter unicamente assistencial: uma enfermaria para “pobres e enfermos” e um albergue de uma negra chamada Ângela que prestava assistência à mesma população (3). Assim, até então, o atendimento à população que necessitava de algum tipo de assistência era fornecido por iniciativas civis particulares, sem qualquer centralização sobrecodificada na máquina de ressonância soberana de um poder imperial, religioso ou científico.Com o referido crescimento populacional, tal situação não se sustentou, já que, evidentemente, também aumentou muito a população carente. Tem-se, então, em 1826 a inauguração da Santa Casa de Misericórdia (a pedra fundamental data de 1803), primeiro dispositivo de saúde centralizado, atendendo à população porto-alegrense que de algum modo necessitava ser assistida.

No início da década de 1830 a cidade redige seu primeiro “Código de Posturas”, este ordenava diversos fluxos do urbano: onde se coleta a água, onde se despeja o lixo e dejetos, onde se lava a roupa dos hospitais (4) e outras especificações classificatórias que doam atribuem designam localizações específicas a cada atividade especifica, evitando a contaminação, moral e física, entre estas. Dão-se as primeiras balizas, ainda incertas, aos vários fluxos que escorrem pelas ruas de Porto Alegre. Próximo da metade do século XIX, ocorre a construção da Casa de Correção: primeira busca em Porto Alegre de implementar uma tecnologia sofisticada na reforma dos indivíduos considerados anômalos perante a normalidade normativa e estatística.

Assim, a cidade inicia sua disciplinarização, mas de modo ainda incipiente e um tanto desordenado. Os caminhos de suas ruas começam a tomar mais corpo, duração e justeza de reta, ainda que muito estreitos, ainda tortuosos e íngremes. Alguns locais para confinamento da população desviante da normalidade civilizada começam a surgir, mas somente na Casa de Correção já se pensa em um tratamento de realocação do cidadão à sua normalidade, enquanto a Santa Casa apresenta-se, por enquanto, somente como um local de simples confinamento e assistência benemérita. É o princípio da construção de uma ressonância ordenadora de uma soberania por sobre os fluxos ainda por demais soltos de uma sobrecodificação reguladora, mas um princípio difuso, ainda sem uma centralidade construída e de confusões entre privado-público e laico-religiosos.

Constituição e segmentação da malha urbana: a condução das condutas

Em 1855 ocorre um grande surto de cólera na cidade, levando os notáveis da sociedade a acentuar a preocupação com o saneamento urbano e assumir a responsabilidade por sua implementação contra os perigos das pestes. Assim, na segunda metade do século XIX, a cidade continua em seu processo de disciplinarização das capilaridades urbanas. A administração passa a fornecer o abastecimento de água a alguns domicílios e chafarizes; ordena seus largos, retirando destes os detritos que se acumulavam, além de ter regularizado, por lei, a coleta de lixo (5).

Vê-se, então, que do mero balizamento estanque de locais classificados e habilitados para atividades específicas, como se viu no código de posturas anterior, a cidade permite-se agora também balizar os procedimentos de tais atividades. Do localizar a ação, para um esquadrinhar da ação mesma, gerindo a eficácia máxima do modus operanti. Os fluxos iniciam seu sobrevôo, partindo das singularidades para uma sobrecodificação na regulação do Estado. Ao mesmo tempo, novos lazeres vão surgindo, e tomam um espaço antes ocupado por festividades privadas ou “antros”, desde que botequins e bordéis eram divertimento para os populares e demais entes suspeitos (6).

Também na segunda metade deste século, em 1874, se constrói a primeira relação regular entre centro e arraiais, era estabelecida por uma linha de bonde puxado por tração animal. Até o final deste mesmo século, seriam já oito linhas efetuando a comunicação regular entre centro e periferia, sedimentando o princípio desta dinâmica radial de ordenação do território.

A cidade, nesta segunda metade dos oitocentos, sedimenta uma centralidade em torno da qual se espargem diversos arraiais (seja para os refúgios de campo dos abonados, como para a deposição do refugo humano), e colônias, as quais em torno desta (economicamente e socialmente) orbitam. Com o fim de ordenar o centro da cidade, seus administradores ampliam e reorganizam a periferia da cidade, os arraiais, para nestes assentar a população pobre. Também se numeram e alinham casas, colocam placas nas ruas denominando-as, dentre outras ações disciplinares. Mas, é principalmente sobre o centro que as ações urbanizadoras irão se dirigir, já que é neste que ocorrerá a convivência entre os cidadãos de fato e mérito. “Os arrabaldes estão aí e devem ser habitados pelos proletários. Na cidade propriamente dita, só devem residir os que podem se sujeitar às regras e preceitos da burguesia” (7). A luta se dava não apenas contra a proliferação de doenças pelas más condições de higiene, mas se tratava também de um saneamento moral: "porque em lugares que reúnem-se ébrios e vadios, a ordem não pode permanecer inalterável' porque essas pessoas 'não sabem ou não querem saber como lhes compete proceder no centro de uma cidade civilizada” (8). Os “bons cidadãos trabalhadores” viviam ao lado e freqüentavam locais, onde se encontravam os vagabundos, as prostitutas, enfim, os então considerados germes que maculavam a sociedade Porto-alegrense impedindo-a de alçar à civilização.

Assim surge o Hospício São Pedro, em meio a diversas medidas de disciplinarização da cidade. A cidade vai construindo-se através de práticas do medir e etiquetar, voltadas a um determinado conceito de bom-conviver, fundamentado em uma existência planificada. Práticas sustentadas por um discurso que prega a modernização e a moralização do espaço urbano a um só tempo segundo uma utopia de civilidade: “a utopia da cidade perfeitamente governada” (9).

É de 1857, o primeiro registro de uma ação voltada especificamente para os “alienados mentais”: a tentativa de seu degredo para o Hospício Pedro II no Rio de Janeiro, ação que foi logo abortada, e substituída pelo projeto de construção de um Hospício em Porto Alegre. Pode-se visibilizar a partir desta substituição, o quanto esta última ação é guiada pelo objetivo da mera exclusão: troca-se o degredo pelo seqüestro.

Em 1874, é aprovada a Lei que autoriza a arrecadação de dinheiro para a construção do Hospício. A população neste período havia aumentado 85%, o que tornava a medida mais emergencial, mas ao mesmo tempo mais delicada. Acontece que obras antes exteriores às fronteiras da cidade como a cadeia e o cemitério públicos, além da própria Santa Casa, agora tinham sido engolidas pelo crescimento urbano, e o terreno onde se construiria o Hospício teria que ser necessariamente fora da cidade, não somente por um isolamento com fins de exclusão, mas também pelo fato de na época as teorias médicas prescreverem ao louco o isolamento em contato com a natureza, crendo que esta em sua harmonia seria uma força re-harmonizadora da percepção desordenada do alienado.Tais cuidados na construção do prédio para um hospício eram comuns nessa época. Na França mesmo, existiam algumas sistematizações de indicações para tanto, duas delas são: a Regulamentação de 1839 e o Tratado de Arquitetura de Louis Cloquet em 1900. A primeira levava em consideração uma quantidade reduzida de questões como: salubridade (dentro e fora da edificação); afastamento de qualquer vizinhança para segurança e conforto de ambos lados; uma separação mínima para dividir entre adultos e crianças, entre gêneros e permitir o isolamento dos convalescentes e furiosos; e, por fim, a construção e o terreno deviam garantir a vigilância sobre os pacientes. Já o Tratado de Cloquet traz estas e outras assertivas com relação às especificidades do espaço manicomial, duas entre elas são interessantes de serem aqui ressaltadas: tem que ser construído em locais que agradam a vista”; e deve antes ter uma geometria retangular dispersiva do que uma radial centralizada. Segundo o próprio: “A disposição radial é aqui inútil; a vigilância central é desnecessária; a vigilância se faz sobretudo dentro das salas e dos dormitórios. As edificações tem formas retangulares, alongadas, formas essencialmente favoráveis à classificação dos doentes” (10).

Como se pode ver, a construção de um prédio hospitalar, e de um hospício, por conseguinte, leva em consideração, na sua elaboração arquitetônica, a captura dos fluxos e a organização dos seus deslocamentos. Fluxos principalmente de ar, luz e corpos. Os fluxos corpóreos é necessário fixar em espacializações classificatórias, dividindo a estes em categorias separadas segundo critérios analíticos vários, e impedindo seu encontro, sua mistura, não apenas para evitar a geração de confusão, mas também, se não principalmente, para evitar interações “perniciosas” à saúde em geral dos corpos: contágios, agressões, sujeira, sexo, etc. Já quanto ao ar e à luz, deve-se atentar para a sua maior infiltração possível no espaço hospitalar, impedindo a umidade e estagnação do ar, produtores de insalubridade. Para tanto, se deviam planejar as aberturas, passagens e volumes que permitissem farta incidência solar e renovação do ar constante. Pela especificidade dos seus enfermos, ao pensar o espaço manicomial outros fatores tem que ser levados em consideração. Olinto (1930) nos ajuda a pensar alguns:

“Janellas de Hitzig, de grossos vidros e meias venesianas, fixas por um varão de ferro que lhes serve de eixo, giram facilmente sem que permittam nos espaços lateraes a passagem de quem quer que seja. O ar e a luz, penetrando largamente no aposento, trazem aos que ahi permanecem a impressão de liberdade completa. Asseio, flores, enfermeiros e enfermeiras carinhosos, outros doentes deitados em agradavel repouso, etc., fornecem a qualquer, mais inquieto e subversivo, a plena convicção de que é elle um doente a quem o resguardo sob os lençóes é aproveitavel. (...) Assim é que os doentes de todas as cathegorias sociaes, de todas as graduações das perturbações cerebraes, encontram ahi guarda sem alterar muito os seus habitos, sem se sentirem coagidos, sem se aperceberem que estão reclusos” (11).

Esta intersecção entre arquitetura e saúde, tão cara aos médicos de então, findava por gerar diversos conflitos entre os profissionais destas áreas ao se encontrarem em um projeto. Várias posições delineavam-se, desde uma que via o exercício da arquitetura como subordinado ao médico, até os que encaravam tal relação como uma parceria necessária, este era o caso do próprio Dr. Lisboa (primeiro diretor do HSP): “O alienista e o arquiteto devem andar de mãos dadas; devem obrar de comum acordo; a construção de um hospício deve ser obra de ambos” (12).

Inaugura-se o Hospício São Pedro ainda inacabado em 1884. “Se nada mais tivermos para mostrar aos estrangeiros que nos visitarem senão o Hospício de Alienados, mereceremos, por certo, os elogios a que temos direito, como um povo civilizado e humanitário” (13). Como se vê o Hospício serve de monumento à modernidade e humanidade da província. A cidade recebe o HSP não apenas enquanto o dispositivo de exclusão que é, mas também como o aparelho disciplinador que traz para a cidade o controle moderno: sem as crueldades da dor pela dor sem função, proporcionar maior ordem à cidade.

Se o HSP se inseria na cidade como mais uma ação estratégica na formação de espaços classificatórios e de contenção-ordenação no espaço urbano, esta otimização utilitarista ainda não existia no seu próprio espaço Institucional. Este servia antes a mera contensão asilar do que à produção de saberes e práticas na busca de controlar e prever ao “alienado mental”. Instrumento antes apenas administrativo a serviço da província ao prevenir a desordem, do que instrumento médico, tinha o papel de dividir, fixar, anular e marcar uma população em um espaço de exclusão.

Com o advento da República algo dessa situação se altera, quando as instituições de saúde mantidas pelo Estado passam a ser administradas por este através da figura do médico, visto na época como legítimo representante de uma ciência, ou seja, de um modo de gerir “neutro”, que prescinde de interesses pessoais. Delegando suas instituições para as ciências, o próprio Estado Republicano pretendia-se científico, julgando poder agir com uma ação “neutra”, que visasse sempre o “bem comum”. Buscava com isso diferenciar-se, em muito, do Estado Imperial, percebido como constantemente atravessado por interesses particulares.

Em 1924, iniciam-se remodelações urbanísticas globais para Porto Alegre tornar-se uma capital moderna: abertura de grandes avenidas e alargamento das ruas, urbanização de novos lotes, aumentam e melhoram o abastecimento de água e esgotos, ajardinam-se novos campos, dando origem a mais passeios esteticamente agradáveis; aumenta e melhorar a iluminação pública, estendendo a vida publica e os olhares policiais noite adentro, melhorar a rede de bondes, para o mais rápido deslocamento do trabalhador até seu posto de trabalho, um cada vez mais distante do outro, seccionados pelos aí nascentes muros de velocidade. Ainda que sejam épocas de higienistas, vê-se como principal preocupação a higiene estética e o lazer, à procura de uma harmonia planificada e civilizada: dominar a peste do caos nos campos virgens, em detrimento de domesticar as pestes infecciosas que assolavam freqüentemente a população, principalmente de baixa renda. Largas avenidas, belos passeios públicos, iluminação moderna, são alguns dos diversos aspectos que passam a ser tratados com o rigor formalizado de uma ciência de regulação dos fluxos: “A administração da ‘petit ville’ deve deixar de ser empírica e converter-se em uma verdadeira ciência” (14).

Ciência dos fluxos urbanos que tem paralelos com o trabalho de William Harvey no seu motuscordis (1628), onde descobre os fluxos do corpo aos olhos dos homens: o sangue circula pelo corpo, bombeado pelo coração. Posteriormente, este modelo dinâmico será utilizado para compreender o sistema respiratório e o sistema nervoso: institui-se uma mecânica circulatória. Tal perspectiva quebrava com as univocidades estáticas da anima que, como um imóvel primeiro motor Aristotélico, pretensamente provia diretamente, essencialmente, o corpo de vida, calor; sendo agora este processo mecânico o responsável por isso. Assim, inseria um mecanismo circulatório onde havia apenas Um gerador ou gestor da vida corporal: agora vida e movimento estão ligados diretamente.

Esta perspectiva, como pode ser visto acima, logo se aplica sobre as cidades, dando seu primeiro passo com a analogia elaborada por Ernst Platner, no século XVIII, ligando o sangue ao ar que circula pelas ruas, e a desobstrução da membrana da respiração sanguínea com a limpeza da pele dos corpos humanos e das ruas do corpo citadino. Quebra-se a noção rural da sujeira no corpo e nas coisas enquanto algo com propriedades benéficas, como efeitos nutricionais (fertilização), e se passa a um conceito urbano de higiene saudável. Prática que irá fomentar muitas das reformas que ocorreram nas cidades posteriormente com um urbanismo sanitarista-higienista. Extirpar “algo fora do seu lugar”, assim pode ser lido o ímpeto por limpeza. O lixo, os arcaísmos, as pobres moradias, e muitas vezes seus próprios moradores, nada mais eram do que “coisas fora de um lugar correto”, tornando-se deletéria sua presença à funcionalidade saudável da cidade.

Seguindo a lógica circulatória do corpo de Harvey, abrem-se vastos espaços abertos, uma imensidão apenas, assim como largas avenidas que ligam rapidamente os pontos, mas dividem-nos com muros de velocidade. Espaços grandiloqüentes que não unem, findam por dispersar a massa sem pontos para o encontro, para o estar, existindo somente esse campo aberto à circulação. Sem dispositivos de captura dos fluxos que se dispersam. As vias e desobstruções evitam os coágulos, não apenas em prol da “circulação saudável”, mas também temendo a articulação subversiva da multidão em movimento, fazendo com que esta escorra sempre.

“Acrescentam, ainda, que era um verdadeiro foco de miasmas a envenenar a saúde pública e de imoralidade pela classe baixa de seus moradores. Diziam que o desaparecimento dos pardieiros que bordejavam este beco, era mais que uma palpitante necessidade (já naquela época [1891] considerada!) urgentemente reclamada tanto pelo decoro da saúde pública, como pelo embelezamento da capital, que em vez de um esterquilinio infectuoso, carecia ter uma artéria à circulação de atividade da nossa capital” (15).

Espaço que tem como princípio a transparência, ideal que possibilitaria a liberdade do não segredo, do não secreto, da livre expressão. Porém, deste principio instituíram-se dispositivos espaciais outros, espaços abertos sim, mas ao urbano olhar vigilante do policial: militar da cidade e dos costumes. Pretensamente neutros, transparentes, apóiam-se nestes atributos (ou preceitos?)de verdade, de razão absolutizada como justificativa ao agir sem receios sobre as coisas e pessoas. Referindo-se ao Palácio de Cristal da exposição Internacional das Industrias de 1851, em Londres, todo de vidro em uma estrutura de metal, Dostoievski tece o seguinte comentário: "Acreditais no palácio de cristal, indestrutível através dos séculos, isto é, um edifício tal que não se lhe poderá mostrar a língua às escondidas, nem fazer figa dentro do bolso" (16).

Tal sistema busca uma importante mudança neste espaço em crescente capitalização?: a passagem de uma cidade definida em sua localidade, sua especificidade de comunidade, o ethos da Polis, para a cidade CosmoPolita. Trata-se da troca do lugar pelo espaço, geral e irrestrito, como bem apraz ao homoeconomicus que não deve se apegar às raízes locais sob o risco de fracassar em seus negócios que exigem mobilidade e mudança: “...não há solo, não há povo, a nacionalidade é apenas um determinado sistema de impostos, a alma, uma tabula rasa, uma cerinha com a qual se pode imediatamente moldar um homem verdadeiro, um homem geral, universal, um homúnculo...” (17).

Em conjunto com o esquadrinhamento da malha urbana porto-alegrense, transformando-a em uma rede cada vez mais simétrica, veloz e rica em espaços de fechamento, o antigo Hospício, se torna gradativamente Hospital Psiquiátrico. Assim como os urbanistas baseavam-se nas mudanças executadas na capital do País, as quais por sua vez foram baseadas em modelos francófilos, o Dr. Godoy havia aprendido sobre a psiquiatria Francesa de seu tempo em uma viajem de estudos. Quando se torna Diretor do HSP (1926), o Dr. Godoy passa a imprimir neste a dinâmica requerida por um “moderno hospital”, defrontando-se com “Asylo São Pedro”. Sua ação visa a transformação que ele denomina, “de deposito de alienados em hospital psiquiátrico” (18). Medicalizar a instituição e a loucura de acordo com os padrões científicos de sua época.

Deste modo, buscava não apenas elevar o alienado ao status de doente vulgar, como à psiquiatria ao status de especialidade médica. Com a biologização da loucura, inicia-se, segundo Godoy, a fase Positivista da psiquiatria: “já se pode afirmar com desassombro que as moléstias mentais não existem” (19). E, para tanto, efetuará uma ampla remodelação do espaço do hospital, construindo novas edificações e remodelando antigas. As reformas foram múltiplas, dignas de uma pequena cidade que se moderniza: saneamento, eletrificação, aquecimento central, cozinha e lavanderia a vapor, residências para funcionários, atelier de costura, farmácia, Serviço Aberto, de Serviço somático, salas de banho, narcose, impermeabilização dos pisos paredes de todos locais reformados, entre diversas outras medidas de modernização do espaço.

Evidentemente, nestas transformações espaciais inseriram-se novas práticas de tratamento da loucura. O espaço branco é provido de especificidades técnicas. Luzes cirúrgicas que não fazem sombra nem aquecem; camas e banheiras dotadas de mecanismos específicos à Clinoterapia e Balneoterapia; instrumentos cirúrgicos, laboratórios químicos; etc. O reluzente dos metais esmaltados e as novas transparências dos tubos de ensaio somam-se à transparência do vidro e ao branco das paredes.

Com esta complexificação executada no HPSP, o espaço-geográfico, antes quase curinga funcional, passa a diferenciar-se para dar conta das exigências técnicas das novas funções. Deste modo, as funções passam a fixar-se a espaços determinados, diferenciados em seu preparo especial para estas com seu incremento tecnológico.

Centrais da civilidade: geometrias espaciais da disciplina

Do século XVIII à primeira metade do século XX, assistiu-se a um crescente processo de ordenação urbana em nome de ideais progressistas de modernização. Considerando em especial o advento da República e a entrada da ciência enquanto saber constituído de tais práticas, as cidades tiveram alargadas suas avenidas, extirpados os becos e ruelas, findaram-se os cortiços, etc. Buscava-se uma rua limpa e segura que garantisse a civilidade da convivência coletiva. Para tanto, foram criados espaços que, em um primeiro momento, serviam somente à reclusão de segmentos populacionais específicos (disciplina muro), considerados nocivos por algum motivo – contágio, violência, imoralidade – para, posteriormente, sob os auspícios da ciência republicana, tornarem-se máquinas de normalização dos cidadãos desviantes (disciplina máquina). Criavam-se, assim, quadros classificatórios, produtores de inteligibilidade (20) que permitiam um melhor controle e previsibilidade do espaço urbano e de seus habitantes.

Assim, concebemos o espaço enquanto dispositivo agenciador de corpos, olhares, fluxos. O espaço visibilizado a partir de algumas práticas da modernidade constituiu-se como disciplina da modernidade dura, momento em que se construíram grandes espaços onde efetuava um fechamento dos corpos, onde estes recebiam investimentos, pois que, o valor de produção do corpo para o trabalho não podia mais ser desprezado. Afastamento que não vem somente proteger os corpos que continuam na cidade: retirar o sujeito desviante do contexto complexo da cidade para outro, linear, planificado, previsível e controlável, corpos investidos para aumentar a um só tempo suas habilidades e docilidade. O "espaço fechado" destas instituições não é literalmente fechado. Por mais que o muro e a grade, instrumentos de contenção-prisão e não de proteção-fortaleza, sejam ícones e práticas espaciais comuns de tais instituições, "espaço fechado" remete a uma auto-referência instituída antes pelo esquadrinhamento do espaço do que por seu cercamento. É a estrutura classificatória, a qual posiciona e articula os corpos e seus comportamentos, que os captura em um sistema de ritmos espaço-temporais – hábitos –, que imprime o dito "fechamento" ao sujeito, objetivando-o com esta captura por linhas e colunas: a solidez fixa o espaço e prende o tempo. Espaços fixos e tempos presos subjetivam, fazem ecoar saberes e poderes específicos.

Contidos não somente por contenção, mas também, antes, por inclusão nesta estrutura: colocando-se em co(o)-tensão com seu sistema de forças. É o fechamento dos 'quadros' feitos no séc. XVIII de que nos fala Foucault (21), quadros que efetuavam "classificações racionais" com fins de: repartir, regularizar, observar, registrar, controlar, etc., enfim, fechar em um quadro esquadrinhador. Dividir o espaço e o tempo (duração) em segmentos sucessivos e paralelos (22) e organizá-los em seqüências e seqüências de seqüências segundo um quadro analítico. Estratégia de poder, histórica e específica à determinada época, dizendo respeito a instituições como a escola, a prisão, o exército e o hospital.

Constituía-se, então, uma geometria centralizante, vigilante e classificatória, tomada por uma intricada rede de microações sobre os corpos contidos nestes espaços, com fins de prepará-los para o máximo rendimento de suas capacidades em prol do sistema social hegemônico e suas trocas. São exemplos de tais espaços, a escola, a prisão e o hospício.

Cidade e Hospício são tomados pela ciência em seu método de reforma e disciplinarização dos cidadãos de um Brasil até então arcaico e em muito atrasado: cidade e hospício transformam-se em metrópole e hospital psiquiátrico.

notas

1
SYMANSKI, Luis Claudio Pereira. Espaço privado e vida material em Porto Alegre no século XIX. Porto Alegre, Edipucrs, 1998.

2
MONTEIRO, Charles. Porto Alegre: urbanização e modernidade. Porto Alegre, EDIPUCRS, 1995, p. 24.

3
WADI, Yonissa Marmitt. Palácio para guardar doidos: uma história das lutas pela construção do hospital de alienados e da psiquiatria no Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Editora da UFRGS, 2002.

4
MONTEIRO, Charles. Op. cit., p. 30.

5
SYMANSKI, Luis Claudio Pereira. Op. cit.

6
MARONEZE, Luiz Antonio Gloger. “Espaços de sociabilidade e memória : a vida publica porto-alegrense: 1890-1930”. In: Porto Alegre. Prefeitura Municipal. Porto Alegre : dissertações e teses. Porto Alegre, Unidade Editorial, 1996, p. 73-80

7
Gazetinha, 1896. Apud MONTEIRO, Charles. Op. cit., p. 34.

8
Gazetinha, 12 mar. 1896. Apud MAUCH, Claudia. “Saneamento moral em Porto Alegre na década de 1890”. In: Porto Alegre na virada do século 19: cultura e sociedade. Porto Alegre, Editora da UFRGS, 1994, 1994, p. 12.

9
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis, Vozes, 1987, p. 164.

10
CLOQUET, Louis. Tratado de arquitetura. Apud ANTUNES, Eleonora Haddad; BARBOSA, Lúcia Helena Siqueira; PEREIRA, Lygia Maria de França. Psiquiatria, loucura e arte: fragmentos da história brasileira. São Paulo, EDUSP, 2002, p. 63.

11
OLINTO, Plínio. Introducção à Psychiatria. Rio de Janeiro, F. Briguiet & Cia. Editores, 1930, p. 32-34.

12
Relatório Hospício São Pedro, 1884, p. 4. Apud SCHIAVONI, Alexandre Giovani da Costa. A institucionalização da loucura no Rio Grande do Sul: o hospício São Pedro e a faculdade de medicina. Dissertação (Mestrado em Historia). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1997, p. 24.

13
Souza, 1943, p. 76. Apud SCHIAVONI, Alexandre Giovani da Costa. Op. cit., p. 22.

14
A Federação
, 1927. Apud SCHIAVONI, Alexandre Giovani da Costa. Op. cit., p. 71.

15
Idem, ibidem, p. 101.

16
DOSTOIEVZKI, Fiodor. Memórias do subsolo. São Paulo, Editora 34, 2000, p. 48.

17
DOSTOIEVZKI, Fiodor. O Crocodilo e Notas de inverno sobre impressões de verão. São Paulo, Editora 34, 2000, p. 95-96.

18
GODOY, Jacintho. Psiquiatria no Rio Grande do Sul. Porto Alegre, edição do autor, 1955, p. 15.

19
Idem, ibidem, p. 72.

20
FOUCAULT, Michel. Op. cit.

21
FOUCAULT, Michel. Op. cit, p.127.

22
FOUCAULT, Michel. Op. cit., p. 134.

sobre os autores

Luis Artur Costa, Mestre em Psicologia Social UFRGS.

Profª Drª Tânia Mara Galli Fonseca, Profª do PPG em Psicologia Social e Institucional da UFRGS, Coordenadora do grupo de pesquisa Modos de subjetivar.

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