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architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
O artigo chama a atenção para a tradição, na administração pública, de desprezo aos rios e de sobrevalorização do sistema viário, sempre canalizando córregos e rios e ocupando áreas de várzea e discute a possibilidade de recuperação desses espaços

english
The article points out to the current disdain for the rivers and too much importance to street system, making use of the river banks as highways, chanelling the water, and how to redesign those spaces

español
El artículo apunta para las acciones de la administración pública que no le da importancia al carácter natural de los ríos, canalizandolos y creando vías expresas en sus orillas, y analiza cómo se podrían arreglar esos espacios


how to quote

BARTALINI, Vladimir. Os córregos ocultos e a rede de espaços públicos urbanos. Arquitextos, São Paulo, ano 09, n. 106.01, Vitruvius, mar. 2009 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/09.106/64>.

É comum, em planejamento, o emprego do termo “sistema” para designar o conjunto das partes ou etapas que, ao menos teoricamente, encadeiam-se de modo coordenado para atingir um determinado fim: sistema viário, sistema de transportes, sistemas de abastecimento, sistema de ensino, sistema de saneamento, etc. Mesmo que o funcionamento destes sistemas esteja longe de atender satisfatoriamente às demandas dos habitantes das nossas cidades, eles obedecem a uma certa racionalidade para atingir um objetivo previamente traçado.

Seria, no entanto, abusivo estender estas considerações para as chamadas áreas verdes ou, de um modo mais geral, para os espaços livres públicos, ao menos para a maioria das cidades brasileiras. Aqui eles nunca chegaram a formar um conjunto dotado de intencionalidade. Pode ter havido intenções nas partes, não no todo. Assim, cada praça, cada parque, cada área verde valem por si sós. Se há algum efeito de conjunto ele é casual, não foi preconcebido.

Pode-se argumentar que para os demais sistemas, durante um tempo, também foi assim. As vias de tráfego eram abertas ou prolongadas para atender a necessidades imediatas ou a interesses específicos, sem muita preocupação com o geral ou com o futuro, até que se projetaram e executaram anéis viários, radiais, marginais. O mesmo teria acontecido com os transportes: a “integração modal”, embora ocorresse de alguma maneira (o percurso de uma pessoa, desde uma estação de trem até uma chácara nos arredores da cidade, podia envolver vários “modos”, como um carro ou um bonde puxado a cavalo que a levasse até um determinado ponto e, a partir daí, o andar a pé ou em cavalgadura, até o destino final) não recebia os cuidados de hoje.

Para adequar-se às novas situações e responder às novas necessidades, promoveram-se mudanças tanto no modo de gestão e na legislação, como também programaram-se e executaram-se intervenções no próprio corpo da cidade. Formaram-se consórcios, criaram-se parcerias, alteraram-se regras, efetuaram-se desapropriações e demolições.

Sem entrar no mérito destes feitos e longe de insinuar que eles testemunham algum tipo de evolução, o fato é que ao menos em certos casos – circulação, transportes, abastecimento (água, energia elétrica, mercadorias, etc.), entre outros –  existiram e continuam a existir políticas setoriais, ou seja, elaboram-se planos e projetos que, bem ou mal, se concretizam e ajudam a constituir os sistemas de circulação, transportes, abastecimento, etc.

Falar que isto não ocorreu e nem ocorre com os espaços livres, particularmente com as áreas verdes, seria constatar o óbvio. Entender porque isto se deu seria mais interessante, porém requereria mais munição do que a disponível para a elaboração destas páginas, embora seja possível suspeitar onde estão as chaves para a sua compreensão: em última instância, na competição pelo espaço, que é arbitrada pelo preço da terra. Na cidade vista como mercadoria, o que não rende não vale a pena. Sob uma ótica estritamente econômica, também não vale a pena investir naquilo que não é essencial para a reprodução da força de trabalho. Espaços livres, áreas verdes para o desfrute desinteressado, raramente se colocaram entre as prioridades da maioria dos pobres e remediados das cidades e, sendo públicos, nem da minoria dos ricos, embora provavelmente quase todos, ricos e pobres, sonhassem com uma cidade que as tivesse e, de preferência, bem tratados e bonitos.

Mas, apesar dos sonhos e desejos também movimentarem o mundo, este dos chamados espaços verdes custa a emergir para o mundo real, sobretudo no caso paulistano, ao menos com o grau de idealização com que comparece nos planos.

É certo que tivemos que aprender a lidar com restrições e insuficiências. Tanto que, ao menos em São Paulo, apesar dos parques e áreas especiais de preservação previstos no Plano Diretor Estratégico de 2002 terem mais de onírico do que de concreto, os sonhos não são bem sonhos, porque são “resignados”, conformados ao que restou de possibilidades (o que é paradoxal mas não necessariamente negativo).

Forçado pelas circunstâncias, o Plano trabalha sobre os retalhos. Mas, apesar de vigiados pelo implacável superego, também conhecido como “a dura realidade”, os parques ali propostos não deixam de revelar um desejo profundo, o que é típico dos sonhos.

Isso porque na proposta desenhada transparece a crença num conjunto articulado de áreas verdes. Ele estaria apoiado na chamada “Rede Hídrica Estrutural”, do que poderia advir uma série de vantagens tanto do ponto de vista ambiental, quanto recreativo e de organização da paisagem urbana.

Os benefícios ambientais são óbvios, porquanto as áreas verdes marginais garantiriam a um só tempo a permeabilidade do solo e a proteção das margens a custos baixos. Do ponto de vista da recreação pública, áreas verdes situadas junto aos cursos d’água, por serem lineares, oferecem maiores possibilidades de acesso à rede de espaços equipados para o lazer, pois intrometem-se com maior eficiência no tecido urbano do que grandes superfícies concentradas (2). Se encarados sob o aspecto da organização da paisagem, os espaços verdes junto aos talvegues destacam visualmente as linhas definidoras do sítio urbano. Assim, conjugam-se e reforçam-se mutuamente os proveitos que podem advir da sobreposição das áreas verdes à rede hídrica.

Não é uma descoberta nova, o que não desmerece a proposta, pois há boas idéias que desafiam o tempo. Mas é inevitável perguntar por que elas não se tornaram realidade e por que haveriam de tornar-se agora.

De fato, ao longo da nossa história, as calhas e as planícies dos nossos principais rios foram comprometidas pela monofuncionalidade das avenidas, em obediência a uma visão pragmática de alcance inversamente proporcional às dimensões das vias nelas implantadas. Não que tenham faltado idéias de associar os rios às áreas verdes. Urbanistas como Saturnino de Brito, Ulhoa Cintra e Prestes Maia, sucessivamente, propuseram extensos parques ao longo do rio Tietê no seu trecho paulistano. Pelo Plano de Avenidas de Prestes Maia, elaborado em 1929, não só o Tietê, mas também o rio Pinheiros e os córregos do Tatuapé, da Mooca e do Ipiranga integrariam o “Circuito de Parkways” que dotaria a cidade de dezenas  de quilômetros de parques lineares, ainda que, ressalvava o autor, sem aspirar àqueles idealizados por Olmsted, nos Estados Unidos, na segunda metade do século XIX. A rigor, a possibilidade de um cinturão verde junto aos rios já fora aventada, para São Paulo, por Barry Parker, em 1918, durante sua estada aqui (3). Em 1950, quando se cogitava a retificação do rio Pinheiros para atender aos interesses da Light, outro urbanista estrangeiro, Robert Moses, buscava convencer sobre a conveniência do poder público impor a reserva de áreas para parques junto àquele rio.

O potencial das planícies fluviais paulistanas para a implantação de áreas verdes ainda era considerável em 1965, levando-se em conta o que havia de espaços então desocupados ao longo dos rios mais importantes (4). Se, em meados dos anos de 1960, restavam tantos vazios marginais aos cursos d’água, imagine-se do que se dispunha nas décadas anteriores, quando foram construídas as avenidas Pacaembu e Nove de Julho literalmente sobre as várzeas dos córregos que lhes serviram de diretrizes. No entanto, não só tamponaram-se os córregos, como não houve qualquer preocupação em reservar áreas verdes além de canteiros centrais, que ainda hoje sobrevivem na avenida Pacaembu e na avenida Nove de Julho, nesta apenas no trecho ao sul do espigão da Paulista.

A avenida Vinte e Três de Maio, que se sobrepôs ao córrego Itororó, foi aberta já na década de 1960. Se há ali algo a atenuar a reincidente oclusão do rio, são os largos canteiros centrais e os taludes laterais vegetados por lembrarem, embora apenas visualmente, que ali era um vale. Não se reviu, portanto, o conceito a fundo. Passada mais uma década, o mesmo procedimento – tamponamento do curso d’água e tratamento dos taludes e dos canteiros centrais –  foi aplicado na avenida Sumaré, sobre o córrego Água Branca.

Por mais condenáveis do ponto de vista ambiental, os casos das avenidas Nove de Julho, Pacaembu, Vinte e Três de Maio e Sumaré apresentam ao menos algumas veleidades urbanísticas. Afinal, as êxedras nas laterais das bocas dos túneis da avenida Nove de Julho buscaram recuperar, simbolicamente, as fontes formadoras do córrego Saracura. Das suas paredes desciam cortinas de água que descansavam em tanques cuidadosamente desenhados, sendo todo o conjunto valorizado, à noite, pelo efeito das luzes, antes da hidrofobia contaminar os valores urbanísticos dos responsáveis pela administração dos espaços públicos.

A avenida Pacaembu teve sua extremidade superior arrematada com categoria pelo estádio municipal e pela praça Charles Muller, dignificando (poder-se-ia dizer, numa perspectiva ambientalista, como um mausoléu) as nascentes do córrego.

Corroborando o argumento de que, em certos campos, quanto mais o tempo avança mais se retrocede, as avenidas Vinte e Três de Maio e Sumaré, apesar dos canteiros e taludes verdes já citados, não chegaram a estabelecer laços significativos com as cabeceiras dos seus respectivos córregos. Ambas atravessaram o espigão central, superando o obstáculo topográfico sem o compromisso de desatar o nó górdio: cortaram-no com buldozers e reataram-no com viadutos prosaicos. Só mais recentemente a estação Sumaré do metrô, suspensa no divisor de águas, veio conferir alguma importância ao local de nascimento do rio. Alguns quarteirões abaixo, porém, com a insistência e a audácia de clandestinos, olhos d’água insurgem na encosta, tomam corpo e se avolumavam o suficiente para escorrer por uma bica que passaria despercebida, não fosse sua apropriação por moradores de rua.

Se não ambientalmente corretas, as avenidas Pacaembu, Vinte e Três de Maio e Sumaré são, ao menos, belos sarcófagos, muitos pontos acima daqueles das avenidas Aricanduva (sobre o córrego de mesmo nome), Salim Farah Maluf (córrego Tatuapé), Luís Inácio de Anhaia Melo (córrego da Mooca), Eliseu de Almeida (córrego Pirajussara), Caetano Álvares (córrego Cabuçu de Baixo) e de tantas outras que, não atravessando zonas nobres, não mereceram os mesmos cuidados. A cena final deste espetáculo de impropriedades foi protagonizada pela avenida construída sobre o Tamanduateí. É difícil evitar o contraponto com a via expressa executada sob o rio Mapocho, que atravessa a cidade de Santiago, capital do Chile, em que pesem as críticas dos urbanistas locais sobre a conveniência daquela obra.

Aqui e ali despontam exceções que ficam por conta de alguns loteamentos projetados por urbanistas da primeira metade do século XX que, numa perspectiva ao mesmo tempo sanitarista e estética, faziam coincidir áreas verdes e linhas de drenagem natural (5). Outras, que se poderia chamar com propriedade de pontuais mesmo, dadas suas dimensões, são ilustradas por trechos dos córregos das Corujas (Pinheiros) e Tiquatira (Penha) em que os cursos d’água, a céu aberto, estão envolvidos por áreas verdes que permitem a fruição por pedestres. Não passam de casos isolados a que não se deu continuidade, condutas que não vingaram mesmo quando se apresentavam oportunidades favoráveis.

Quando não entaladas pelas pistas das avenidas, as margens dos rios serviram de chão para os mais pobres, desatendidos pela política habitacional. Nos casos de remoção, observa-se a regra de construir vias de automóveis o mais rente possível do canal para evitar futuras ocupações. Teria sido possível revegetar as margens desocupadas, implantar parques lineares? Decidiu-se sempre pelo não, com o argumento de que as áreas verdes são alvos fáceis para novas invasões.

Temos, portanto, uma forte tradição, na administração pública, de desprezo aos rios e de sobrevalorização do sistema viário. Não custa acreditar em mudanças nas condições concretas de produção da cidade e na mentalidade de alguns técnicos, mas se há boa vontade no otimista há também boas razões para o cético.

Segundo o Plano Diretor, a recuperação (parcial, incompleta) de importantes linhas naturais de drenagem como áreas verdes seria hipoteticamente viabilizada por operações conjugadas entre o poder público e os empreendimentos imobiliários da iniciativa privada.

Não serão pequenas as dificuldades para a sua consecução. Os cursos d’água estão poluídos (quem escolheria morar junto a canais sujos, a céu aberto?) e são poucos aqueles cujas margens não estão invadidas. Transformá-los em parques pressupõe articulações com as políticas de infra-estrutura e de habitação social, o que demanda tempo e dinheiro. Se se formarem conjunções favoráveis é quase certo que a implantação dos parques junto aos rios estará sujeita às vicissitudes do mercado, que definirá onde, quando e quanto fazer. Os bilros que urdem esta rede estão em mãos invisíveis. Não se sabe o desenho que resultará, nem se haverá rede.

É fácil ser pessimista, mas seria injusto não reconhecer os aspectos positivos da proposta e mesmo suas possibilidades práticas. Só o fato de inscrever as áreas verdes nas várzeas dos rios que ainda estão livres de projetos viários já é um ganho, pelo menos porque as compromete de antemão. São pedras no caminho da fúria viária, removíveis, sim, mas que podem dar um certo trabalho e que permitem ganhar tempo, enquanto uma nova mentalidade em relação aos rios urbanos toma corpo na opinião pública e se torna hegemônica no meio técnico.

Também há de se creditar a favor da proposta o abandono de uma hierarquia tão rígida quanto inútil que orientou por muito tempo os planos de áreas verdes: a classificação dos parques em metropolitanos, urbanos, setoriais, de bairro, de vizinhança. Tratando-se de áreas verdes, parece que o conceito de rede é mais apropriado do que o de sistema. Rede tem a ver com continuidade, espraiamento espacial, entrelaçamento, comunicação, eqüidade na distribuição, o que não deve ser interpretado como apologia do homogêneo, do genérico, pois a rede não implica a anulação das especificidades, antes possibilita a versatilidade dos papéis dos diferentes parques que vierem a constituí-la.

O Plano, porém, não estabelece prioridades nem desce a detalhes, atendo-se aos rios ou córregos mais aparentes, de maior visibilidade. Contudo, a rede hídrica e, por conseguinte, a rede possível de parques ou de espaços públicos ribeirinhos, é ampla e complexa, compreendendo cursos d’água das mais variadas magnitudes até, no limite, aqueles que, dados por insignificantes, foram tão ocultados que somente um trabalho de investigação mais acurado, baseado na análise da cartografia histórica e em procedimentos próximos aos da arqueologia, a partir de vestígios esparsos, podem ser trazidos à luz.

São corriqueiros os casos de obliteração dos cursos d’água que compõem a trama mais fina, os capilares da rede hídrica. Podem ser encontrados em qualquer cidade, de qualquer porte. Muitos deles passam sob os quintais das casas, quando não sob as próprias edificações. Atravessam o interior das quadras que os absorvem e, assim, disfarçam a modelagem original do relevo, desfigurando-a a ponto de impedir até mesmo que se reconheçam as linhas mais fundas por onde a água passa.

Outras vezes – e estas são as situações mais promissoras do ponto de vista aqui defendido – coincidem com vielas estreitas e tortuosas que sublinham o desenho da drenagem natural. São passagens públicas, sem qualquer atrativo, mas públicas e, por isso, potencialmente reveladoras do que a produção material das cidades recalcou.

Um plano mais detalhado, ao alcance de uma subprefeitura, poderia prever a recuperação destes espaços, não propriamente como áreas verdes, porque são quase inexistentes as oportunidades de plantio ou de aumento significativo da permeabilidade do solo junto a eles, mas, ao menos, como espaços livres integrados à rede de áreas verdes.

As vantagens resultantes têm componentes pedagógicos – na medida em que intervenções que ali ocorram ajudarão a explicitar elementos básicos do suporte físico das cidades com os quais, conscientemente ou não, nos relacionamos cotidianamente – bem como de dignificação de espaços relegados ao abandono, recuperando-os para uma efetiva apropriação pública.

O caso do córrego Água Preta

Poucos o conhecem por esse nome e, provavelmente, os que estão de passagem, e mesmo moradores mais recentes, nem sabem que sob aquelas vielas e ruas tortuosas passa um córrego.

A bacia do Água Preta é contígua à do Água Branca, ou Sumaré, e sua área, de 4,45 km2, é maior do que a deste último (6). Ainda assim passa incógnito, pois nenhuma avenida foi traçada sobre ele. No entanto, não só vias importantes, como as avenidas Heitor Penteado e Pompéia, estão contidas na sua bacia, como também equipamentos urbanos de grande expressão, como a estação de Metrô Vila Madalena e o Sesc Fábrica Pompéia, situam-se ao longo do seu curso.

As cabeceiras das linhas de drenagem que constituem o córrego Água Preta alinham-se num arco que corresponde, grosso modo, ao traçado de algumas vias que são referências na região oeste da cidade de São Paulo: avenida Dr. Alfonso Bovero, trecho da avenida Heitor Penteado e rua Aurélia. Desta cumeeira principal partem vários esporões divisores de água secundários que formam grotas acidentadas, sulcadas pelos contribuintes do Água Preta.

O curso do córrego principal só ganha maior definição a uma distância de quase um quilômetro do ponto mais alto da cumeeira, que se situa na confluência das ruas Cerro Corá, Aurélia e avenida Heitor Penteado. A amplitude altimética na região das cabeceiras é da ordem de 70 metros. Uma vez formado o canal de escoamento principal, o rio percorre mais ou menos três quilômetros até desaguar no Tietê, em terrenos com declividade cada vez menor de modo que, da altura do Sesc Pompéia em diante, mal se distingue no relevo o sulco de drenagem. São, portanto, os cursos alto e médio que oferecem as situações de maior interesse, na medida em que os vestígios da água se apresentam de formas mais variadas.

Um dos indícios mais explícitos é o jorro contínuo que flui aos pés de uma longa escadaria, na confluência das ruas Dr. Paulo Vieira e Salto Grande. Uma bica foi ali improvisada, sem qualquer atenção às ricas possibilidades paisagísticas que o local encerra, entre elas a praça Homero Silva, a menos de 50 metros. Mas, ao menos, a água está à mostra. Logo porém é engolida pela tubulação sob o leito das ruas ou sob passagens que, incorporadas às quadras que atravessam, são ocultadas ao olhar do público. O relato, mal começado, é interrompido. Só a cartografia revela que aquele curso d’água encontrará um outro, escondido sob a rua Francisco Bayardo que, por ser funda, estreita e sinuosa e tendo uma escadaria para vencer a inclinada encosta, faz pressentir a existência de algum córrego.

A suspeita é confirmada uns duzentos metros adiante, atravessada a avenida Pompéia, não pelos olhos, num primeiro momento, mas pela audição e pelo olfato. O som e o cheiro fortes da água escapam por um bueiro no ponto mais baixo da rua Pedro Lopes, junto a uma área verde remanescente da desapropriação de uma frente de quadra. Pela grelha que protege a abertura se entrevê o fluxo volumoso, mesmo em épocas de estiagem.

Ali, um outro riacho se junta aos anteriores e não é difícil deduzir que ele jaz sob a travessa João Mathias, uma viela longa e apertada, escura, suja e sem vida, que sobe da rua Pedro Lopes à rua Alfredo Gemi. Neste ponto o fio narrativo se rompe de novo, pois a extensa quadra entre a rua Pedro Gemi e a avenida Heitor Penteado encerra o córrego no seu interior, impedindo que a exploração continue a montante.

Mas o relevo fala pelo rio eclipsado, ressaltando as formas do seu vale: à esquerda ergue-se um dos esporões mais expressivos da bacia, onde se instalou a Vila Anglo Brasileira, enquanto à direita, a vegetação da praça Vicente Tramonte Garcia alude à situação primitiva da encosta.

Retomando o caminho a jusante, pela estreita travessa João Mathias, a vista se abre no largo da rua Pedro Lopes (onde a água respira num instante) e logo se fecha para se distender de novo na praça Rio dos Campos e tornar a retrair-se até a rua Ciridião Buarque. Esta seqüência de distensões e contrações visuais, embora virtualmente atraente, não tem nada a qualificá-la. Não há espaços preparados para as pessoas, nem mesmo na praça Rio dos Campos, de nome sugestivo, mas que não passa de uma rotatória. As calçadas são mínimas junto a estas ruas que rastreiam o Água Preta.

No entanto, uma vez cruzada a rua Ciridião Buarque, ouve-se novamente, por outro bueiro, o som do córrego que se insinua sob a viela Roque Adoglio, onde não entram carros. Ela é mais larga e luminosa que a travessa João Mathias, embora igualmente suja e sem vida, pois apenas os fundos descuidados das construções a faceiam.

O rio segue seu curso pela viela Estevão Garcia, que passa no meio da quadra formada pelas ruas Miranda de Azevedo e Bárbara Heliodora, e é aberta ao tráfego de veículos. Nem transcorridos 40 metros ele recebe, pela margem esquerda, um extenso afluente. Nenhum marco para celebrar o encontro dos rios. Só chama a atenção o terreno ermo, coberto de macega, relativamente amplo na embocadura e que vai se afunilando até se tornar uma passagem em chão de terra, ziguezagueante, espremida entre os muros das construções, que não incita a entrada.

Se a curiosidade vencer o receio, passados uns cem metros, chega-se a uma via pavimentada que dá continuidade à viela intransitável. Sob ela continua a passar o córrego afluente, mas nada o denuncia. Seguindo rio acima tudo o que se vê, à esquerda, são fundos das construções _casas, fábricas, galpões_ da rua Miranda de Azevedo e uma pequena “área verde” oblonga, abandonada, provável “sobra” dos trabalhos de canalização do córrego. À direita alinham-se os muros de fundo dos lotes da rua Bárbara Heliodora, alguns dos quais se abrem para a viela, aliviando-lhe o aspecto sinistro. Ela dá de topo com a rua João Jabotan e ali pára, insipidamente. Começa e termina como se fosse uma rua qualquer e não estivesse transportando secretamente um rio.

No entanto, subindo a João Jabotan, à direita, a menos de 50 metros da extremidade da viela, está a praça Jesuíno Bandeira. A “praça” não é mais do que uma ilha de forma triangular, que organiza o encontro de várias ruas. Mas é arborizada e tem alguns bancos. Trata-se, portanto, de uma referência local. Simétrico à área arborizada, em relação à rua João Jabotan, abre-se um espaço asfaltado, uma espécie de largo, que dá continuidade à praça, só que destinado ao trânsito de veículos. É outra referência, não só como contraponto à área verde e por apresentar uma certa coesão espacial, mas também por receber uma escadaria, elemento sempre revelador dos acidentes do relevo e, conseqüentemente, alusivo às cabeceiras do córrego (7). Nenhuma vontade urbanística, porém, ligou estes “fatos”, ou índices, ao rio que está tão próximo.

Retomando o curso principal do Água Preta, a jusante da foz do afluente, outro empreendimento se anuncia à margem esquerda, entre a rua Bárbara Heliodora e a viela Estevão Garcia. As antigas casas já estavam demolidas em agosto de 2002, liberando, temporariamente, a visão da encosta do vale e, definitivamente, o terreno para a construção de grandes edifícios.

Não foi ainda possível obter informações sobre o projeto deste empreendimento, mas seria de admirar caso ele previsse alguma relação significativa, do ponto de vista paisagístico, com a memória do rio que vagava a seus pés, ou ainda algum diálogo com a praça Diogo do Amaral, que lhe fica quase em frente, vertente acima, do outro lado da rua Bárbara Heliodora.

O córrego continua pela rua Dr. Francisco Figueiredo Barreto, logradouro oficializado que apresenta, em dois trechos do que outrora foi a margem esquerda, alargamentos do passeio (pequenos embora expressivos no contexto) incorporados ao espaço público quando da canalização do rio. Um é mero chão batido; o outro ostenta alguma vegetação plantada por iniciativa de um morador, mas sem critérios claros, e está mal mantido.

Cruzando a rua Desembargador do Vale, ainda é possível seguir os passos do córrego oculto pelo terreno ocupado por uma empresa de jardinagem que mantém ali um pequeno viveiro de plantas. Mas logo se entrepõe a barreira de um condomínio residencial que dá frente para a rua Ministro Ferreira Alves, e cujo estacionamento, ao ar livre, está implantado sobre o rio. É preciso contornar a quadra, ou pela margem esquerda, através da rua Frei Henrique de Coimbra, ou pela margem direita, através da Miranda de Azevedo, para recobrar o fio da meada.

Duas áreas, impropriamente denominadas “praças”, podem servir de sinal: uma delas é a praça Tupã, um pequeno e declivoso triângulo arborizado que, embora não passe de um talude entre as ruas Frei Henrique de Coimbra, Rafael Correia e Ministro Ferreira Alves, é um testemunho “verde” da encosta do vale; a outra é a praça Daniel Berciano Villasol, também triangular e pequena, mas plana por estar já em terreno de várzea. Apesar de serem partes do mesmo acidente geográfico e contíguas (apenas uma rua as separa) não houve qualquer tentativa de aproveitá-las para trazer à lembrança o rio escondido, que prossegue, ignorado, sob uma rua aberta há não muito tempo, denominada José Tavares de Miranda.

Esta via rasgou diagonalmente duas quadras que o rio atravessava. Interligando poucas ruas, seu efeito sobre o sistema viário é desprezível. É fruto típico da mentalidade segundo a qual qualquer rua é melhor que um córrego. Mas ela está lá, escondendo o rio e expondo os fundos dos lotes das quadras afetadas. O prêmio de consolação desta iniciativa obtusa foi uma pequena praça triangular e plana, na interseção com a rua Augusto de Miranda, chamada Ilza Weltman Hutzler. Ela é o par simétrico da praça Daniel Berciano Villasol, com a qual se assemelha na forma, nas dimensões e na situação topográfica. Porém não houve nenhum esforço para relacioná-las paisagisticamente, nem por parte do projeto viário e, provavelmente, nem pelo projeto “Villa Bella”, grande empreendimento imobiliário, hoje paralisado, entre as ruas Miranda de Azevedo, Augusto de Miranda e José Tavares de Miranda, onde há alguns anos estavam as instalações da Saturnia S.A.

O último rastro do rio fica ocluso no terreno da White Martins, reverenciado com um arvoredo na encosta que dá para a rua Venâncio Aires, a uma quadra do SESC Fábrica Pompéia. Daí em diante o talvegue se descaracteriza, e assim era mesmo antes da urbanização da região, pois já atinge os terrenos baixos da planície do Tietê e nela se perde de vez.

Só no plano simbólico o Água Preta é remido, ainda dentro dos limites do SESC Fábrica Pompéia, já afastado dos olhares da rua. De fato, o estrado do solário na área de lazer ao ar livre assenta sobre seu leito, e o “rio” em meandros no interior do grande saguão, próximo à entrada do SESC, até poderia aludir a ele, se não se referisse ao rio São Francisco). No entanto, o córrego real, involucrado, chega pelos fundos, pela “entrada de serviço”. Do lado de fora, para lá dos muros, o Água Preta é um enjeitado, um incômodo e uma ameaça.

* * *

Esta história pode valer para outros tantos pequenos cursos d’água que sulcam os bairros das nossas cidades. Vivem anonimamente, escondidos, e só na época das chuvas alguns deles emitem sinais. O Água Preta chegou a provocar desastres em algumas cheias, muitos anos atrás. Atualmente seus “incômodos” sentem-se apenas no baixo curso, inundando a área onde se dá a confluência das avenidas Pompéia e Francisco Matarazzo (8). Daí para cima ele está submetido, enquadrado. O método disciplinar, porém, deixou marcas que produziram outros inconvenientes: os becos escuros, as travessas sem vida, as vielas sujas.

Em alguns casos a prevenção ou a resposta a estes problemas foi, como vimos, incorporar o canal subterrâneo às quadras ou aos lotes condominiais. Eliminam-se as vielas só que, com elas, também se vai o que sobrou da memória dos rios, além de se perder a oportunidade de urdir uma rede mais sutil de espaços públicos, destinada a pedestres e a ciclistas, que poderia ser uma alternativa para os passeios e deslocamentos no interior do espaço urbano.

O caso do Água Preta é exemplar no sentido de permitir que o percurso entre uma estação de metrô, situada nas suas cabeceiras, e instituições culturais, esportivas, educacionais, localizadas no seu curso baixo, a menos de três quilômetros de distância, possa ser vencido sem o sobe e desce exaustivo que as ruas existentes impõem. Cabe ainda notar que, andando mais um quilômetro pelos terrenos baixos do Tietê chega-se à estação Água Branca da CPTM, de modo que, pelo córrego, numa distância menor do que quatro quilômetros, integram-se dois meios de transporte de massa. O trajeto contrário, o da volta, seria o de uma subida branda, como a do rio. A diferença de nível entre os fundos do SESC Fábrica Pompéia, onde se encerrou a descrição do caminho do rio, e as praças e escadarias situadas na área das nascentes, onde se iniciou o relato, gira em torno de 30 metros. A declividade até aí é, portanto, quase imperceptível. Ela se torna mais forte apenas nos 500 metros finais, que separam estas praças da estação de metrô, atingindo uma média de 10%.

São potencialidades. Seria possível realizá-las sem grandes investimentos materiais, embora exijam maior empenho de gerenciamento, algumas alterações em posturas urbanísticas e um papel mais incisivo do poder público na indicação de diretrizes para a aprovação de novos empreendimentos imobiliários e na atribuição de incentivos a usos e ocupações do solo, que visem à integração qualificada destes espaços à vida urbana.

Os bairros da bacia do Água Preta são consolidados, com boa infra-estrutura, fácil acesso e já passam, há alguns anos, por transformações cujo ritmo se acelera constantemente. Antigas casas, modestas no padrão, são demolidas e substituídas por edifícios de apartamentos. Muitas fábricas, de pequeno e grande porte, que podem ser encontradas ao longo de todo o trajeto do córrego, foram desativadas e suas instalações deitadas abaixo para dar lugar a condomínios verticais, ou tiveram seu uso reciclado.

Só no caminho descrito, estritamente na linha do córrego, há exemplos de sobra de oportunidades que se oferecem, ou se ofereciam, para recuperá-lo, atuando não apenas sobre o espaço público mas condicionando também os lotes e construções às melhorias que se deseja promover.

Um deles era o imóvel da antiga fábrica Eletro Acústica Ltda que, por ocasião da visita que ensejou este trabalho, iria a leilão. Um de seus lados dá para a travessa João Mathias, sob a qual passa um dos afluentes do córrego. Qualquer que fosse o destino do imóvel, seria o momento da prefeitura, ou da subprefeitura, encetar ações conjuntas para rever a relação daquela lateral, cega e hostil, com a viela, ou seja, com o vestígio do córrego.

Mais adiante, como já apontado, um edifício em construção na esquina da rua Miranda de Azevedo, dá fundos para o córrego. Já está aprovado e em obras, mas não seria ainda possível e razoável o poder público reivindicar um tratamento paisagístico dos recuos, condizente com aquela situação tão peculiar, e atualmente tão desprezada, de encontro de dois córregos e, assim, evitar que se erga um paredão opaco que só pioraria as condições presentes naquele espaço público?

Poucos metros a jusante assinala-se outro empreendimento, na época ainda na fase de demolição das construções antigas, com um extenso limite junto ao córrego enterrado. O fato de já estar aprovado pela municipalidade, não deveria obrigatoriamente impedir que negociações, com vistas à valorização da viela Estevão Garcia, pudessem ser tentadas.

Há ainda o condomínio Villa Bella, na rua José Tavares de Miranda, já no baixo curso, cujas obras estavam paralisadas. Seria o momento do poder público preparar propostas para que, uma vez resolvidas as pendências judiciais incidentes sobre aquele empreendimento e retomados os trabalhos, algo resultasse em benefício da paisagem daquela rua sob a qual passa o Água Preta.

Isto tudo sem contar com as praças e outras áreas livres remanescentes de desapropriações, bem como com os pequenos largos e escadarias já referidos que ocorrem de sobejo no trajeto. São espaços públicos, portanto sob a tutela da municipalidade, plenos de possibilidades que só se consumariam, no entanto, se coordenados em um conjunto. Eles podem deixar de ser peças isoladas, palavras soltas, como são hoje, e comporem, juntamente com outras peças, um texto ou um quadro com algum significado. Eles podem contar a história do rio.

Há, por fim, ainda outra frente de atuação possível e desejável que é a da administração pública, num trabalho mais próximo com os moradores da área, intervir diretamente nas travessas, becos e vielas, trabalhando os seus pisos e as empenas, equipando-os com mobiliário adequado e mesmo permitindo e incentivando que se abram portas e janelas para eles (o que hoje ocorre clandestinamente). Pode também dar estímulos para os que exponham visualmente aos passantes seus quintais arborizados, lembranças dos pomares que antes chegavam até a beira dos riachos.

Nada disto recuperará o córrego propriamente dito, nem beneficiará a drenagem pela permeabilidade do solo. Mas se estas ações não exumam o córrego, ao menos vivificam sua memória ao integrar seus rastros à rede de espaços livres, verdes ou não, com alguma decência, ou decoro, como convém a tudo o que é público.

notas

1
Publicação original: BARTALINI, Vladimir. Pós – revista do programa de pós-graduação em arquitetura e urbanismo da FAU-USP, n. 16, 2004, p. 82-96, e revisado em 2009.

2
WHYTE, William. The last landscape. New York, Doubleday & Company, 1968.

3
PARKER, Barry. “Tow years in Brazil”. In The Garden Cities and Town Planning Magazine, vol. IX, n. 8, august, 1919.

4
BARTALINI, Vladimir. Parques Públicos Municipais de São Paulo – A ação da municipalidade no provimento de áreas verdes de recreação. Tese de doutorado, FAU-USP, 1999; BARTALINI, Vladimir. “A municipalização do verde público na cidade de São Paulo: da Administração dos Jardins Públicos e Arborização à Subdivisão de Parques, Jardins e Cemitérios”. In Pós – Revista do Programa de Pós Graduação em Arquitetura e Urbanismo da FAU-USP, n. 10, dez. 2001.

5
A respeito, ver: KAWAI, Célia Seri. “Os loteamentos de traçado orgânico realizados no município de São Paulo na primeira metade do século XX”. Dissertação de mestrado, Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 2001; O urbanismo do engenheiro Jorge de Macedo Vieira, edição sem autor identificado patrocinada pela HSBC com apoio da Prefeitura do Município de São Paulo, sem data.

6
EMPRESA MUNICIPAL DE URBANIZAÇÃO – Estudos e diagnósticos das bacias dos córregos Sumaré e Água Preta (realizado pela Hidroestudio por encomenda da Empresa Municipal de Urbanização – Emurb).

7
A escadaria foi a solução possível para o projeto da rua Bento Vieira de Barros que, dada a excessiva declividade do terreno, não pôde ser realizado.

8
“Diagnósticos das bacias dos córregos Sumaré e Água Preta”, op.cit.

sobre o autor

Vladimir Bartalini, arquiteto, mestre e doutor pela FAU-USP. Professor dos cursos de graduação e de pós graduação daquela Faculdade, na área Paisagem e Ambiente.

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