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architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
Artigo a respeito de Milton Ramos, arquiteto, segundo o autor, de grande destaque dentre aqueles que presenciaram importante momento de afirmação da modernidade arquitetônica no Brasil

english
Carlos Henrique Magalhães talks about Milton Ramos, who is an architect of capital importance in the process of development of modern architecture in Brazil

español
Carlos Henrique Magalhães habla sobre Milton Ramos, arquitecto, que según él, tiene una importancia de relieve en la afirmación de la arquitectura moderna en Brasil


how to quote

MAGALHÃES, Carlos Henrique. Milton Ramos e o rigor da forma construtiva. Arquitextos, São Paulo, ano 10, n. 110.01, Vitruvius, jul. 2009 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/10.110/40>.

Milton Ramos (1929-2008) foi sem dúvida arquiteto de grande destaque dentre aqueles que presenciaram importante momento de afirmação da modernidade arquitetônica no Brasil e seu posterior desenvolvimento. Moderno na formação e pelo ambiente cultural que vivenciou no Rio de Janeiro repensado pelas vanguardas arquitetônicas desde a década de 1930, Milton é responsável por uma obra de coerência e resultado. O arquiteto é expoente entre uma geração que se viu desafiada pelas transformações vindicadas por um país que havia muito buscava sua identidade.

Formado pela Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil (2) em dezembro de 1958, Milton Ramos se muda para Brasília apenas dois meses depois na busca por ampliar sua experiência profissional, o que de fato acontece quando passa a integrar o quadro de profissionais da Construtora Pederneiras S.A, contratada como responsável pela execução de inúmeros edifícios públicos, comerciais e institucionais nas primeiras décadas da construção de Brasília. Ocupa o cargo de arquiteto entre 1959 e 1967. Dentre os edifícios executados pela construtora, Milton trabalha na obra do Hospital Distrital de Brasília inaugurado em 1959; ao lado de Carlos Magalhães na obra da Residência de Oscar Niemeyer localizada no Park Way (1962); detalhamento e construção do Teatro Nacional de Brasília (1958 em diante) e Palácio do Itamaraty (1962 em diante), todos projetados por Oscar Niemeyer.

Tal oportunidade pode ser somada a outras de igual importância que fizeram com que Milton se tornasse personalidade notória dentre os arquitetos envolvidos na realização de Brasília em todas as escalas previstas no plano urbanístico de Lucio Costa. O êxito como construtor lhe confere uma imensa capacidade de realização e anos seguintes ao abrir o próprio escritório, a oportunidade de projetar certa variedade de temas, sendo que alguns de seus edifícios ganharam importância histórica e artística para Brasília.

Do convívio com profissionais, do aprendizado construtivo, das dificuldades encontradas na administração dos canteiros, é de onde reside parte de sua propriedade projetiva, caracterizada nem tanto pela economia irrestrita de meios, mas por sua correta potencialização. Elementos que numa crítica comum são vistos como inerentes à realização da arquitetura moderna – pilotis, escadas escultóricas, clareza estrutural, rigor na aplicação material – nas mãos do arquiteto têm o valor revelado e transformado.

Milton foi sempre lembrado por contribuições preciosas na execução de várias obras de Oscar Niemeyer – a mais notável, o Palácio do Itamaraty (1962 em diante) – em que a riqueza no trato de algumas soluções é essencial para a integridade do edifício. Obra fundamental na carreira de Niemeyer, o Edifício Sede do Ministério das Relações Exteriores do Brasil é originalmente composto por uma disposição bipartida de edifício representativo e bloco administrativo. Este raciocínio estabelece uma relação estreita entre os dois volumes, com o bloco administrativo configurando um fundo de tal forma a favorecer a leitura sintética e monumental do Palácio, reforçando sua autonomia física.

Segundo Milton Ramos “a arquitetura é um trabalho de pesquisa, é uma evolução permanente, e Brasília foi um exemplo disto, propiciando novas técnicas nas execuções estruturais, novos materiais e métodos.” (3) Investigação esta que se potencializa no exercício que empreendeu na elaboração do projeto executivo e construção do Palácio do Itamaraty cujo resultado final em muito se deve às soluções encontradas por Milton Ramos em parceria com Joaquim Cardozo no desenvolvimento da obra.

As muitas descrições e apreciações levantadas sobre o Itamaraty nunca deixam de mencionar a presença decisiva de Milton Ramos o que se faz compreensível quando observamos sua descrição da atenção que fora dada ali aos procedimentos do cálculo e do desenho. A primeira, com relação à diferença entre os arcos intermediários – em semicírculo com raios de 2,80m – e os arcos extremos, que possuem raio ligeiramente menor: 2,497m. Correção visual necessária à percepção do prédio, cujo princípio remonta à antiguidade clássica, quando os gregos desenvolveram o cálculo para a inclinação das colunas, de modo que estas pudessem ter o correto efeito de prumo aos nossos olhos.

“Como Fídias, Milton Ramos foi responsável por ajustar estas relações entre os arcos plenos e os arcos das extremidades através da solução da correção visual. (...) Para tanto, ocorre uma sensível redução do seu raio (R=2,497m), bem como foi definido um arco com sutis alterações no traçado de sua curvatura. De acordo com o desenho, a altura do arranque dos arcos é a mesma, porém, no término do arco da extremidade a linha curva tangencia a coluna num ponto inferior àquela altura do arranque, com uma diferença de 1,06m. Assim, este arco diferenciado da extremidade termina seu desenho abaixo do arco pleno, mas ainda aprumado com a altura da laje do piso da varanda, sustentando o ritmo da arcada. O desenho deste arco da extremidade é formado por segmentos de curva com 3 raios distintos, traçados a partir de uma linha 15cm abaixo da linha-base do arco pleno, a fim de ajustar a curvatura e sua tangência com a coluna da extremidade, que possui em planta , um inclinação de 45º em relação ao alinhamento da arcada(...).”(4)

Todos estes acertos eram conseguidos não apenas com traço no papel, mas sim por meio de modelos reduzidos e protótipos em escala, nos quais era possível que se realizassem tanto os testes de ângulos, quanto aqueles que permitiriam a feição pretendida ali para as superfícies. Milton realizava nos canteiros protótipos dos arcos para que fosse testada a mistura dos agregados, as variações dimensionais e principalmente o desenho das fôrmas, empregando o concreto dentro de todas as possibilidades plásticas e estruturais da época. Como bem situa Giulio Carlo Argan, a transformação moderna encontra das evoluções mais conseqüentes nas novas relações entre pesos, empuxos e forma por meio de uma nova técnica que não consistia mais na lapidação, arranjo e sobreposição de partes sólidas, mas em verter uma matéria plástica dentro de formas vazadas de madeira.

“A força e a elasticidade do material solidificado e a própria técnica da fundição transformam radicalmente a estrutura da imagem arquitetônica: não mais massas e volumes, mas superfícies e delgados pilares de sustentação; não mais distinção entre espaços cheios plásticos e espaços vazios perspectivos, mas nítido predomínio dos grandes vazios sobre suportes finos e vigorosos; não mais apenas arcos verticais e horizontais a pleno cimbre, mas oblíquas e curvas parabólicas, arabescos; não mais distinção entre partes de sustentação e partes de preenchimento, mas modulação da forma na própria matéria.” (5)

O Palácio do Itamaraty é obra plena no conjunto de congruências espaciais e construtivas que articula. Acerto que se deve não apenas ao gesto essencial de Niemeyer, mas ao pleno desenvolvimento daquelas possibilidades expressivas por meio da técnica. Os vãos intermediários venciam 30 metros com apenas 70 cm de altura da viga, realização possível após sucessivos testes de composição entre cimento e agregados. A composição granulométrica ensaiada serviria não somente ao desempenho estrutural, mas foi essencial também à plasticidade do edifício, e nesse aspecto o desenho de fôrmas era ofício dos mais delicados. A textura das ripas dá aos arcos do Itamaraty o aspecto de unidade pela inexistência de marcos de emenda entre esses elementos de madeira; confere também distinção incomum à escada do salão central, desenho de rara beleza, celebrada como dos mais belos elementos de nossa arquitetura.

Proposições

Ao deixar o quadro de profissionais da Construtora Pederneiras, Milton Ramos passou a realizar projetos em seu próprio escritório. O Anexo do Teatro Nacional (1978), disposto nas adjacências das salas de espetáculo, numa cota inferior, com acesso próprio pela Via N-2 (paralela ao eixo monumental), um dos mais importantes. O projeto é todo composto por subtrações: no lugar de uma delimitação clara entre interior-exterior, o arquiteto propõe um conjunto de planos delimitando as áreas de atividades. Ao redor destas, uma via de serviço percorre o perímetro, propiciando o acesso de pessoas, cargas e equipamentos às salas de espetáculo.

Milton detalhou também o projeto da Biblioteca Central da Universidade de Brasília (1969-73), de José Galbinski e Miguel Alves Pereira. Este edifício que constitui importante exemplar de uma vertente brutalista no campus da UnB, possui alguns elementos plásticos que mais tarde viriam a se repetir na obra de Milton Ramos, como o mobiliário em concreto integrado à edificação e a atenção dada à modulação dos planos de forro.

Dentre os projetos de autoria do próprio arquiteto os espaços residenciais são pioneiros desta trajetória. Antes projetar uma residência unifamiliar, Milton recebe a tarefa de dispor urbanização e edifícios das superquadras norte 407 e 408, originalmente destinadas a apartamentos funcionais do Ministério das Relações Exteriores. Os projetos datam de 1966 e foram denominados por Milton Ramos como Blocos RE. Apesar da quadra não ter sido concluída em sua integridade, estes edifícios dão mostra de uma época em que o empreendimento do estado era mais presente e decisivo no arranjo e disposição urbana da cidade. (6) O plano para as quadras previa ainda a construção de duas escolas classe, também projetadas por Milton Ramos.

Em 1969 recebe a encomenda da construtora Rabelo para realizar, em apenas 15 dias, um projeto de edifício pré-fabricado com três pavimentos a partir de um sistema de placas que variavam de 08 a 10 centímetros de espessura. Na denominação popular e no mercado imobiliário os prédios passaram a ser conhecidos como Rabelo, na obra de Milton recebem a denominação de R2. Nesta oportunidade Milton parece dar novo rumo à sua obra, demonstrando clara preocupação com o resultado final do edifício e com o mínimo esforço empreendido no canteiro, a ponto de que este, no limite, pudesse se limitar ao encaixe entre peças fundidas previamente. Irá também se debruçar sobre os detalhes, como forma de garantir a correta execução entre imaginado e realidade. Estes blocos foram feitos em diversas superquadras 400s do Plano Piloto Sul e embora pouquíssimos guardem o aspecto original, a maioria dos apartamentos permanece inalterada, são exemplo da destreza com a qual Milton dispunha suas plantas que ganham espaço dado o correto proporcionamento entre partes.

As placas utilizadas nos blocos R2 foram encomendadas para a construção de um conjunto de residências uni familiares para a marinha (1972), localizadas no Guará, cidade satélite de Brasília. As casas eram montadas sobre radier por meio de um guindaste que posicionava as peças de paredes e serviam de suporte à estrutura de telhado. As casas eram geminadas duas a duas e podiam ser montadas em até três dias. No mesmo ano em que são realizadas as residências para a marinha são iniciadas as obras de um novo empreendimento residencial na superquadra sul 203. O bloco chamado de R3 é outro expoente da obra do arquiteto, possui seis pavimentos e um padrão construtivo que impressiona pela concisão. Ainda hoje, o edifício permanece praticamente inalterado com relação à proposta original.

As casas realizadas pelo arquiteto nos setores de habitação individual de Brasília revelam uma continuidade na aplicação de elementos de composição, estrutura e arranjo espacial e podem ser descritas como tipos compositivos e espaciais: caixas elevadas; estruturas porticadas e abrigos pavilhonares. Em todas, percebe-se a concisão volumétrica, a introversão de espaços íntimos, o tratamento de superfícies de acordo com determinada solução plástica e funcional e a síntese no arranjo estrutural.

A Primeira residência do arquiteto ou Casa 02 (7) pode ser caracterizada como um pavilhão isolado no extenso lote: uma grande cobertura composta por vigamento em concreto intercalado por forro. Quatro pilares cruciformes estão dispostos em sua periferia, constituídos por duas peças planas – moldadas em formas metálicas tal quais os painéis de parede – cuja sobreposição permite um elemento tridimensional. No perímetro deste bloco compacto está disposta uma varanda que ora serve de espaço social, ora dá abrigo a veículos e efetua transição entre o corpo principal da casa e o volume anexo que configura área de serviços.

A Segunda residência do arquiteto, ou Casa 08 (1973) é constituída por uma caixa elevada seguindo todos os afastamentos determinados pela legislação ao terreno. O tema do volume suspenso comparece aqui de maneira explicita: a residência do arquiteto está organizada em dois níveis bem marcados: no térreo, estão dispostas as áreas de convívio comum e de serviços, conjugadas às varandas externas e jardins; no pavimento superior encontram-se os dormitórios. A angulação formada pelo alinhamento da implantação com relação à frente do terreno propicia uma área de garagem na primeira porção do lote, ficando a outra ocupada por um talude gramado que se eleva suavemente em direção à caixa. O acesso à residência é feito por um trecho entre este talude e o corpo da edificação e se conecta diretamente com a sala, onde panos de vidro oferecem a generosa comunicação com os jardins. É uma solução consistente que gera ambientes íntimos introvertidos. Este volume se apóia nas paredes que delimitam o espaço do pavimento térreo, que na ala social, funcionam também como arrimos.

A Residência AA ou Casa 09, também de 1973, – publicada na revista Módulo em 1978 – reitera o tema do volume sobre talude gramado. A implantação se dá no mesmo alinhamento do lote, seu corpo quase cúbico apresenta-se ao observador de maneira sintética. Sua organização ocorre por meio de um perímetro edificado que ocupa toda a extensão transversal do térreo e que pode ser dividido em três zonas: na primeira estão dispostas áreas de serviço e garagem; na porção intermediária, sob o volume elevado, amplo estar social e varanda no térreo, e dormitórios no nível superior; na porção oposta à garagem, piscina e jardins. Os acessos ocorrem nos intervalos entre os planos gramados que comparecem aqui em função da possibilidade de delimitar as áreas íntimas da casa do que pela necessidade de conjugação entre níveis distintos. O volume em concreto aparente possui empenas laterais cegas, enquanto que as fachadas voltadas para a rua e para os fundos do terreno são inclinadas e vazadas, com recuo sombreado onde se encontram as esquadrias.

A Residência Sr. Hely, ou Casa 13 (1975) apresenta semelhanças com as obras descritas acima, quanto à implantação, no entanto, o volume em caixa suspenso ocupa perpendicularmente quase toda a extensão transversal do terreno, deixando o espaço do jardim à ocupação da área de lazer.

“Procuramos sempre privatizar os espaços internos de intimidade das visuais externas, com base no recurso oferecido pelo terreno natural e ao mesmo tempo unir visualmente o variado espaço interno. Externamente adotamos como acabamento a argamassa pitada de branco e concreto aparente. Internamente, argamassa pintada, madeira, laminado plástico e mármore bege da Bahia.” (8)

A esta volumetria pura e concisa conjuga-se a topografia criada para dar a devida diferenciação de funções. Ao volume principal da residência, soma-se uma laje que abriga, além da garagem, cômodos de serviços e um bar. Este corpo inferior embora mais extenso e recortado por jardins, não se mostra compartimentado, prevalece apenas a linha contínua da laje delimitando os espaços de convívio. As empenas laterais são menores e possuem aberturas recuadas, em toda sua extensão. As empenas maiores são opacas, com aberturas geométricas dispostas de acordo com a necessidade do ambiente.

A escala pública

Milton foi vencedor de alguns concursos de projeto, dois deles construídos: Instituto Histórico e Geográfico de Brasília (1970), erguido parcialmente; e Oratório do Soldado (1972). Ambos possuem na estrutura o elemento característico fundamental. O Instituo Histórico e Geográfico de Brasília, inicialmente deveria abrigar exposições, biblioteca, oficinas, auditório e um museu da imagem e do som. Milton resolve o partido distribuindo estas funções em diferentes volumetrias: uma ala para exposições, biblioteca e oficinas; um auditório de planta trapezoidal e um volume de simetria radial para o museu; este está disposto no primeiro ponto do percurso de forma que os demais funcionam como plano de fundo à vista do observador; é o principal elemento da composição e como tal possui tratamento plástico diferenciado. Sua estrutura é composta por vigas arqueadas convergentes para um centro, de modo a formar uma superfície nervurada aparente. O princípio ocorre de modo semelhante, mas com outro caráter no Oratório do Soldado: o volume principal apresenta-se livre ao observador que o acessa e sob a sobra dos elementos estruturais. Passarelas distribuem os fluxos para a portada principal e funções de apoio. No centro da nave um anel circular permite a iluminação zenital, criando uma ambiência de contraste por meio da luz difusa.

O Oratório do Soldado permitiu que Milton Ramos ficasse conhecido por autoridades militares e com isso a possibilidade de realizar diversas obras para as forças armadas, dentre edifícios de comando militar, clubes sociais e esportivos e um aeroporto, projeto este que lhe rendeu algumas publicações em revistas especializadas e maior visibilidade no cenário nacional. O Aeroporto de Confins (1984), localizado em Belo Horizonte, é um marco significativo na carreira do arquiteto, por sua qualidade construtiva e pelo repertório de elementos plásticos característicos da produção do arquiteto.

A organização do Aeroporto de Confins obedece a critérios de clareza entre percursos de usuários cotidianos e ocasionais. Seu partido é uma linha curva, côncava para a recepção de público e estacionamentos, convexa quando voltada para o pátio de aeronaves. Os níveis foram pensados de forma a se conseguir maior integração entre eles. Todo o conjunto do aeroporto está organizado sob o princípio de unidade plástica e estrutural. Os elementos pré-fabricados foram empregados na execução de vigas e demais elementos repetíveis, o concreto moldado in-loco foi utilizado em diversas formas, dos elementos de circulação vertical, ao mobiliário.

“A pré-moldagem foi sempre uma solução por nós adotada na execução de elementos repetitivos e que exigiam de imediato rapidez de execução em decorrência do ritmo da obra e, ao mesmo tempo, apurados estudos plásticos, a fim de não comprometer os espaços a que seriam expostos, como é o caso das cabines de telefone, propaganda, mesas, assentos, balcões etc.” (9)

A seção transversal do aeroporto revela dois amplos balanços laterais, cada qual com 14 metros, que servem de abrigo por um lado à pista de veículos, por outro para proteger os serviços de rampa e pontes de embarque. No amplo saguão do aeroporto, há espaço para grandes elementos de circulação vertical; uma rampa helicoidal, cujo desenho de fôrmas e revestimento em carpete, conferem a ela rara integridade; a inclinação em torno de 6% que possibilita um trajeto confortável; o mesmo vale para as escadas, amplas nos patamares e com pisos e espelhos desenhados para favorecer o conforto do usuário.

Outro terminal de passageiros na obra do arquiteto é o Anexo da Estação de Embarque Presidencial e Autoridades (1987), de dimensões reduzidas, o prédio adota o partido central para dispor o salão de recepções e ao seu redor atividades de apoio, numa organização comum para edifícios deste programa, como o Aeroporto Santos Dumont (1937) no Rio de Janeiro, de Marcelo e Milton Roberto.

A organização destas funções complexas pode ser percebida em trabalhos do arquiteto para clubes sociais e esportivos. O Iate Clube de Brasília (1961 em diante) foi o primeiro a ser construído às margens do Lago Paranoá e, desde sua inauguração em 1969, recebeu projetos, adições, modificações, reformas e ampliações de diversos arquitetos. Atribui-se a Oscar Niemeyer o primeiro plano diretor. A primeira sede social (1961) foi projetada por Sérgio Rodrigues e é constituída por um pavilhão de madeira que atualmente se encontra restaurado. Milton Ramos foi responsável pela segunda Sede Social (1975) ao lado da primeira piscina. Anos seguintes esta sede foi reformada como parte de uma série de transformações demandadas pela administração do clube. Tem-se ainda outras obras ainda hoje presentes no terreno do clube, como o Pavilhão da Náutica e o Pavilhão de Guincho (1984), ambos de José Galbinski. São também de autoria de Milton Ramos: o Clube da Aeronáutica (1975), o Clube Almirante Alexandrino (1977-79) e o Clube de Sargentos e Suboficiais da Aeronáutica, o CASSAB (1979). Este último possui um belo ginásio poliesportivo, formado por uma estrutura em arco assimétrico, cujo descolamento do vértice no sentido longitudinal, torna mais rica a leitura das fachadas.

Outro Edifício de Milton Ramos com características programáticas semelhantes aos clubes, embora de menor dimensão, é o Hotel de Transito da Aeronáutica (1982), situado ao lado da Estação de Hidroaviões (1937-38) de Atílio Correa Lima, representante pioneiro da Escola do Racionalismo Carioca. O Hotel proposto por Milton se caracteriza por um volume em L configurando um pátio aberto à Baía de Guanabara. Nas empenas externas, regularidade geométrica, no perímetro que faceia o interior, um desenho sinuoso de lajes, cria zonas de sombra para permanências e trajeto.

Em todos os programas propostos percebe-se na obra de Milton Ramos a permanência de um conjunto de características distintivas em que se percebe uma variação no que se refere ao meio de realização de cada partido plástico. Deste modo, encontramos no conjunto de sua obra o mesmo gesto construtivo e de implantação, pensados de forma a valorizar a presença do edifício; a propriedade em efetivar o espaço urbano por meio da clara disposição arquitetônica e do rigor na elaboração geométrica e estrutural; além da vontade em sistematizar o processo produtivo, seja por meio da pré-fabricação ou do constante aperfeiçoamento do detalhe.

Criadores e obras paralelas

A obra de Milton Ramos se insere num amplo e variado contexto onde, por um lado, a modernidade brasileira experimenta críticas severas, por outro, realiza-se em Brasília uma arquitetura que procura contemplar diversos níveis de articulação a favor da realização da cidade; caracteriza a não estanqueidade da tendência arquitetônica produzida em Brasília, sendo esta o resultado de diversas influências dissimiles em conteúdo e resultado formal. Quanto aos diversos esquemas de agenciamento não se percebe predominância de determinada solução, embora algumas características sejam recorrentes: os edifícios de base aberta, os blocos elevados sobre a topografia criada, e os edifícios em barra sobre pilotis. As bases abertas podem ser encaradas como um gesto de delimitação superior do conjunto em que a cobertura passa a ser o elemento protagonista da composição. Os arrimos realizados por meio de taludes gramados oferecem continuidade do terreno em direção à caixa compacta elevada, numa solução utilizada reiteradamente nas residências do arquiteto. Os edifícios em barra sobre pilotis representam um tipo característico condicionado por atributos de legislação urbana, mas de onde Milton Ramos soube extrair número significativo de possibilidades. Cabe aqui uma distinção de raciocínio projetivo que diz respeito a um atributo distintivo de Brasília. Ainda que a maioria das construções esteja intimamente relacionada à lógica das projeções com relativa liberação do térreo público, encontramos em diversos setores a presença de lotes com extensão e limites bem definidos, articulando outros aspectos do espaço público.

As características presentes na obra do arquiteto são por vezes partilhadas por seus coetâneos, e nesse sentido considera-se primordial entender a contribuição arquitetônica, realizadas por esses notáveis criadores. Uma vez que ainda não existe corpo teórico estruturado e coeso acerca da produção que se realiza nos primeiros anos de inauguração de Brasília, a pertinência das obras se faz ainda mais essencial para compreensão dos fatos. A abordagem sistemática de obras e projetos do arquiteto Milton Ramos resulta em rico material para que se possa efetuar uma primeira aproximação ao conteúdo social com o qual dialogavam os arquitetos daquele período e que, antes de representar o fim de uma linha sucessiva que se desenhava desde a década de 1930 pela escola do racionalismo carioca, apontam predileções e escolhas diversas onde as influências são escolhidas, reinterpretadas e transformadas.

notas

1
O presente artigo faz parte de uma pesquisa de mestrado concluída pelo Programa de Pesquisa e pós-graduação da Universidade de Brasília, intitulada Modernidades brasileiras: a obra de Milton Ramos. Seu falecimento (02/08/2008) motivou a realização desse texto, que após revisões e apontamentos pode ser publicado neste periódico. Escrevo como quem se debruçou com paixão e vontade sobre a obra desse mestre nos meses recentes e mesmo não tendo a oportunidade de desfrutar de seu convívio, posso reiterar o depoimento que colhi daqueles que puderam: de um homem leal, convicto, fiel a si mesmo e comprometido com as causas pelas quais se empenhou.

2
A atual Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro é resultado de sucessivas transformações estruturais e curriculares. No ano de 1930, Lucio Costa inicia uma reforma radical no ensino durante o curto período em que foi diretor da Escola Nacional de Belas Artes. Em 1945 ocorre a separação definitiva do curso de Arquitetura da ENBA, dando origem a Faculdade Nacional de Arquitetura, que funcionou no antigo Hospício Pedro II entre 1945 e 1961, quando então é transferida para o atual campus localizado na Ilha do Fundão, onde está localizado o edifício da FAU. Ver: GALVÂO, Alfredo. Subsídios para a História da Academia Imperial e da Escola Nacional de Belas Artes. Rio de Janeiro: ENBA, 1954.

3
Milton Ramos em entrevista ao Correio Braziliense. Consulta feita no arquivo pessoal do arquiteto, referências de data, edição e página não identificadas.

4
ROSSETTI, Eduardo P. Palácio do Itamaraty: questões de história, projeto e documentação de arquitetura (1959-1970). Brasília, 2008. [A longa descrição se faz necessária devido a questões de restrição com relação ao conteúdo por nós levantado, fotografado e estudado no Arquivo do Departamento de Arquitetura do Itamaraty em Brasília. ]

5
ARGAN, Giulio Carlo. Arte moderna: Do iluminismo aos movimentos contemporâneos. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 91.

6
Acerca do histórico de projetos de urbanismo para o Plano Piloto ver: MACHADO, Marília Pacheco. Superquadra: Pensamento e Prática Urbanística. Dissertação de mestrado. Universidade de Brasília, 2007.

7
No desenvolvimento da pesquisa os projetos residenciais de Milton Ramos foram apresentados de maneira cronológica de acordo com a numeração do arquivo pessoal do arquiteto.

8
Memória de projeto do arquiteto publicada em Módulo n° 70, maio de 1982. Ver também: Módulo nº 49 - Junho/Julho 1978.

9
Milton Ramos, memória de projeto do Aeroporto de Confins. Revista Projeto n° 69, novembro de 1984, p. 69.

sobre o autor

Carlos Henrique Magalhães, arquiteto pela Universidade de Brasília, Mestre em teoria e história da arquitetura pelo Programa de Pesquisa e Pós-graduação da mesma instituição. Professor do Instituto de Educação Superior de Brasília – IESB.

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