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architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
A terceira parte do artigo de Luiz Antonio Lopes de Souza, a respeito da reconstrução integral ou parcial de edifícios em sua evolução na história do patrimônio arquitetônico com especificidade no caso da Alemanha

english
Read the third part of Luiz Antonio Lopes de Souza's article about the full or partial reconstruction of buildings especially in countries like Germany

español
Lea la tercera parte del artículo de Luiz Antonio Lopez de Souza sobre la reconstrucción integral o parcial de edifícios, especificamente en el caso de Alemania


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SOUZA, Luiz Antonio Lopes de. Wiederaufbau: a Alemanha e o sentido da reconstrução. Parte 3: Divisão e Reunificação. Arquitextos, São Paulo, ano 10, n. 114.06, Vitruvius, nov. 2009 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/10.114/15>.

Após a destruição da segunda grande guerra, impunha-se o problema da capacidade de reproduzir-se novamente toda estrutura das cidades e o seu papel no país e consequentemente na Europa. Especificamente na Alemanha, as antigas cidades eram organismos de personalidade única, extremamente diferenciadas nas diversas regiões do país. Essa característica constituía um valor essencial a ser preservado. O mais difícil seria, em um processo vagaroso e penoso, preservar a partir dos escombros. E ao mesmo tempo renovar-se preenchendo o conjunto de lacunas urbanas. O novo e o antigo devendo ser reunidos em escala e materialidade, em técnica e arquitetura.

Em Munique a reconstrução começou imediatamente após o final da guerra, ainda em 1945, especialmente no centro histórico. Dentre as mais valiosas construções históricas, quase o total do efetivo de igrejas, mosteiros, a Residência e ainda prédios públicos e privados foram ao chão (1) durante os ataques. O conceito para a reconstrução foi expresso em 1946 nas propostas do então secretário de obras Karl Meitinger (2), que visavam a preservação do traçado medieval da cidade através da manutenção de ruas, praças e estruturas históricas fundamentais, como portas e muralhas. Isto sem deixar de atender as novas exigências para a modernização do fluxo de tráfego na cidade através de medidas como o alargamento de ruas e praças, recuos de alinhamento e abertura de arcadas para pedestres. A fase inicial de restauração das obras monumentais, entre 1945 e 1950, foi logo substituída por uma crescente tendência de reconstruções em geral, reforçada pela volta das pesquisas científicas e pelo aprimoramento de técnicos e artesãos. A tônica da reconstrução continuou nos anos cinquenta, com instruções nas posturas municipais  para que as novas construções habitacionais e comerciais fossem feitas dentro de regras de gabarito, proporção e materiais em concordância com o partido urbano que havia sido implantado anteriormente à guerra.

Nuremberg foi uma das mais destruídas cidades alemãs (3). Os bombardeios atingiram principalmente o centro histórico e arrasando a totalidade dos monumentos. Como saldo, cerca de 50 por cento das habitações e quase dois terços do total das construções ficaram totalmente ou parcialmente destruídos. Nenhuma igreja ou construção de porte da cidade histórica ficou intacta, assim como a muralha da cidade, severamente atingida. Em 1947 foi realizado um concurso de ideias para a reconstrução do centro histórico, tendo como objetivo a recuperação da antiga imagem da cidade. Os aspectos essenciais que deveriam nortear a reconstrução seriam aqueles que possibilitariam fazer de Nuremberg novamente um polo econômico, administrativo e cultural, além da abertura de um sistema adequado de tráfego urbano. Em 1950 o Plano Básico para o Centro Histórico (4)assegurou a preservação da estrutura deste traçado histórico, através da manutenção das principais linhas de construções e das dimensões dos lotes. Entretanto, a abertura para o tráfego de automóveis levou à algumas alterações que prejudicaram a aparência do centro histórico, como o alongamento de vias e duplicação de eixos para fluxo de veículos.

As premissas para a reconstrução estipuladas no Plano Básico foram que os prédios totalmente destruídos não seriam reconstruídos e não deveriam ser feitas cópias das construções históricas. Somente os prédios históricos com substância suficiente passível de regeneração seriam passíveis de reconstrução. Novas construções deveriam ser identificadas pela escala e os materiais e, sem imitarem os estilos históricos, adaptarem-se ao entorno. O perfil da cidade foi recuperado com as medidas implantadas até 1955. Elas foram regulamentadas visando a continuidade estética da tradição construtiva local, como as empenas cor de tijolo e o revestimento externo em tons de arenito. Assim obtiveram-se poucos resultados desagradáveis de adaptação arquitetônica.

Os escombros da capital do Reich perfaziam a sexta parte dos escombros de todas as demais cidades alemãs. Em Berlim (5) destruíram-se mais casas do que Munique jamais contara. Em um espaço de dois meses a potência ocupante soviética dominou irrestritamente a área e a população da cidade, assumindo a sua administração. No acordo firmado em 12 de setembro de 1944, a “Área Berlinense” seria ocupada em comum pelas forças armadas dos EUA, do Reino Unido e da União Soviética, aos quais futuramente se juntaria a França. As quatro potências reconheceram a sua “responsabilidade comum pela solução do problema alemão” no acordo firmado na conferência realizada em 23 de julho de 1945.

Os soviéticos, entretanto, tencionavam dominar integralmente a cidade. Com o “bloqueio de Berlim”, eles tentaram interromper o abastecimento dos três setores ocidentais e forçar os habitantes desta parte da cidade à capitulação política. A vida em Berlim ocidental foi dominada, durante o bloqueio, pela fome e pelo frio. O bloqueio foi finalmente suspendido em 12 de maio de 1949, quando a dominação política pelos comunistas da parte oriental provocou a cisão de Berlim e em seguida de toda a Alemanha, formando três zonas de ocupação ocidentais por um lado e a zona de ocupação soviética pelo outro. A parte livre de Berlim só poderia subsistir a longo prazo, caso se ligasse o quanto possível, sob o ponto de vista do direito estadual e da economia, à parte livre da Alemanha. E assim em 1º de setembro de 1950, Berlim passou a ser um estado da República Federal da Alemanha.

O principal desdobramento da derrota na Segunda Guerra Mundial foi o surgimento de dois Estados: a República Federal da Alemanha (RFA, a Alemanha Ocidental) e a República Democrática Alemã (RDA, a Alemanha Oriental) (6). Com isso, o país tornou-se o marco divisório de dois blocos e sistemas político-econômicos antagônicos, liderados pelos EUA e pela União Soviética. Em nenhuma outra parte do mundo a chamada Guerra Fria iria se manifestar com tanta intensidade. Esta divisão persistiria até 1990. Na Alemanha Ocidental a reconstrução foi possibilitada através dos recursos financeiros provenientes do Plano Marshall (7), que impulsionou a recuperação econômica e a estabilidade interna. Enquanto a RFA recuperava-se, integrando-se cada vez mais com os Estados Unidos e o restante da Europa (8), a RDA isolava-se cada vez mais no bloco oriental soviético. Apesar dos planos do chanceler Adenauer (9) de uma futura reunificação, as diferenças entre as duas Alemanhas se pronunciavam cada vez mais. Os dois estados tomavam caminhos diferentes.

Com o passar dos anos, a situação agravou-se, especialmente em Berlim. A cidade atraía cada vez os alemães orientais pelas liberdades democráticas, o comércio e as atividades urbanas, símbolos do progresso ocidental. Não podendo mais tolerar o grande êxodo população, o governo da RDA iniciou a construção do muro que iria dividir a cidade até 1989 (10). Foi impossibilitada a passagem dos habitantes de Berlim Ocidental e do setor soviético de um lado para o outro. Ao longo dos anos esta fronteira tornou-se uma verdadeira fortaleza. As repercussões da “Muralha da Vergonha” na opinião pública mundial foram enormes. Ela iria afetar diretamente 17 milhões de habitantes da zona soviética da Alemanha e de Berlim Ocidental. Estima-se que mais de mil pessoas foram mortas tentando atravessá-la.

A reconstrução de Berlim ocidental está diretamente ligada à constituição da República Federal da Alemanha, em 1949. Como capital do Reich, Berlim era anteriormente não apenas a sede do governo, mas também o centro das grandes organizações e federações. Com a perda deste status, a cidade foi privada de milhares de postos de trabalho, anteriormente responsáveis por metade de sua base econômica. Tornou-se indispensável o auxílio da RFA, através do chamado subsídio federal, diretamente concedido à cidade. Também se conseguiu intensificar a migração de operários e empregados da Alemanha Ocidental para Berlim. De 1953 a 1965 foram construídas com os subsídios públicos cerca de 190 mil novas moradias, o que corresponde à construção de uma cidade com meio milhão de habitantes. A reconstrução também abrangeu um novo plano urbanístico para a cidade. Até 1962 haviam sido restaurados 32 milhões de metros quadrados de parques e jardins, além da abertura de novas vias públicas. Neste período também foram construídas escolas, hospitais, igrejas, complexos desportivos e equipamentos culturais.

A Gedächniskirche (fig.1) de Berlim constitui um monumento da era do chamado segundo Reich alemão. A igreja foi construída entre 1891 e 1895 em memória do imperador Gulherme I, por seu neto Guilherme II, tendo sido arruinada durante os bombardeios de 1943. Logo após o fim da guerra foi lançada a ideia da construção de uma nova igreja no interior da ruína. Posteriormente foi realizado um concurso, em que o projeto vencedor do arquiteto Egon Eierman propunha a demolição integral da ruína e a construção de um novo e moderno edifício para a igreja. Esta ideia suscitou um intenso debate, que determinou que a ruína de 68 metros de altura da antiga torre deveria permanecer, sendo tecnicamente consolidada e mantida como memorial da guerra. Em volta dela seria erguido, a partir de um novo desenho do arquiteto, um novo complexo de edifícios, abrangendo uma nova nave e uma nova torre sineira. As obras foram concluídas em 1963. O resultado é o conhecido contraste extremamente diferenciado entre linguagem arquitetônica dos volumes novos e a ruína preservada, reforçando o caráter simbólico desta última em relação aos novos volumes que apontam para o futuro. A opção pela não reconstrução da Gedächniskirche caracteriza aqui na realidade a importância da reconstrução da cidade de Berlim, sem esta se esquecer nunca de seu passado. Este é um exemplo do conflito de visões no âmbito do patrimônio arquitetônico na Alemanha do pós-guerra.

Ainda em Berlim, o Reichstag, prédio do parlamento alemão (1884/94), foi parcialmente reerguido entre 1957/72 (a nova cúpula seria projetada por de Norman Forster na década de oitenta). Ainda na mesma cidade, durante o regime comunista, em 1950, foi demolido o Berlinerschloss(Palácio de Berlinense, fig. 2), que começou a ser erguido no século XV e havia sido seriamente danificado durante a guerra. A sua reconstrução encontra-se e em fase de captação de recursos financeiros.

O processo de reaproximação das duas Alemanhas iria recomeçar na década de setenta. Isto se deu principalmente pelas ações do presidente Willy Brandt, da RFA, que estreitou as relações com a União Soviética e promoveu assinatura do Tratado de Base entre as duas Alemanhas. No Tratado, os dois estados abdicaram do uso da violência e reconheceram as fronteiras interalemãs, prometendo respeitar a autonomia um do outro. Em setembro de 1973, a RFA e a RDA foram admitidas juntamente nas Nações Unidas. Apesar disso, ainda nesta década atentados terroristas de esquerda e o surgimento da Facção do Exército Vermelho (o grupo Baader-Meinhof) dominaram a política interna com debates sobre medidas judiciais para conter o terrorismo.

Os cinco estados alemães orientais – Brandemburgo, Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, Saxônia, Saxônia-Anhalt e Turíngia – passaram a integrar o território da República Federal da Alemanha a partir de 3 de outubro de 1990. No dia 2 de dezembro, foram realizadas as primeiras eleições parlamentares da Alemanha reunificada. Neste momento já havia sido iniciado o movimento para a reconstrução da Frauenkirche, em Dresden (fig. 3). A cidade está localizada à margem do rio Elba, no atual estado da Saxônia, e constitui hoje um dos principais centros turísticos da Alemanha. Originalmente uma cidade eslava, conheceu o seu apogeu no século XVIII sob o reinado da dinastia dos Augustos (Frederico Augusto I e Frederico Augusto II). Desta época barroca datam o palácio Zwinger, e a Frauenkirche (a catedral protestante) além das impressionantes coleções de pintura e objetos de arte. A célebre ópera projetada pelo arquiteto Gottfried Semper foi inaugurada em 1878. No início do século XX, a cidade seria ainda o berço do movimento expressionista alemão

A fundação da Frauenkirche remonta ao século XI, quando o templo original foi consagrado à Virgem Maria. No início do século XVIII o edifício era muito pequeno e estava em más condições para acolher o crescente número de fiéis. George Bähr (1666-1738) foi o arquiteto comissionado e em 26 de agosto de 1726 foi lançada a pedra fundamental. Em 1743 a obra foi concluída. A monumental cúpula de arenito passou a ser conhecida como  Steinerne Glocke, o “sino de pedra”, tornando-se não só o coroamento da silhueta da cidade, mas uma obra prima da arquitetura em toda a Europa

Poucos meses antes do fim da segunda grande guerra mundial, na noite de 13 para 14 de fevereiro de 1945, Dresden foi o alvo de dois devastadores bombardeios aéreos pelas tropas aliadas, que causaram cerca de 135 mil vítimas. Em 15 de fevereiro de 1945 ruía a cúpula da Frauenkirche, consumida pelo fogo após dois dias de bombardeios (11). Por mais de quarenta anos as ruínas da igreja lembraram a destruição de Dresden e os horrores da guerra. Em 1982 as ruínas tornaram-se o símbolo para o movimento de libertação da Alemanha Oriental, local escolhido para as manifestações populares.

A partir da década de noventa foi intensificado o movimento para reconstrução com a criação (entre diversas ações da comunidade local) da Fundação Frauenkirche Dresden, para a sua promoção e arrecadação de recursos. Foi então estabelecido que o templo de George Bähr deveria ser reerguido através do uso de sua substância construtiva original e segundo o seu projeto original e que reconstrução se daria com a utilização da tecnologia moderna e no estágio atual dos conhecimentos da tecnologia da construção;

Os trabalhos foram iniciados em 1992, quando foi formada a equipe de projeto e a proteção às ruínas foi reforçada. Começou então o estudo do sítio arqueológico formado pelas ruínas e os escombros. Em 1994 as obras de reconstrução foram iniciadas. Houve uma preocupação especial com as obras de infraestrutura (fundações, instalações elétricas e hidrosanitárias), a fim de viabilizar o novo programa arquitetônico previsto para o subsolo.

O principal material utilizado foi o arenito natural da região. Os blocos recém extraídos foram lavrados com a ajuda do computador, conforme o levantamento detalhado que levou em consideração os desenhos projeto original ainda disponíveis, levantamentos e documentação fotográfica dos séculos XIX e XX, o estudo fotogramétrico das ruínas, além da análise das peças originais resgatadas dos escombros. Para o dimensionamento da cúpula foram utilizadas fotos históricas analisadas fotogrametricamente.

A reconstrução possibilitou também a correção dos desvios no sistema estrutural original, com o estabelecimento preciso da geometria do edifício. Para tanto foram feitos cálculos por computador e introduzidos materiais especiais de ancoramento na alvenaria. A cúpula foi terminada em 2003, sendo que a as obras foram concluídas no final do ano de 2005.

É importante observar na reconstrução da Frauenkirche aspectos relativos às posturas adotadas em relação às técnicas de restauro. A contemporaneidade da ação de reconstrução se deu no desenvolvimento das técnicas construtivas, utilizando-se todo o estágio de conhecimento da tecnologia disponível neste campo. Este é ponto de contato entre as matérias nova e original a que agora se integram em um contexto diferenciado daquele anterior à destruição da igreja. As matérias estão dispostas lado a lado como são, não podendo ser confundidas. Embora a matéria original, representada pelas ruínas e blocos de pedra remanescentes, esteja presente em escala muito menor, destaca-se através da sua diferenciação de cor com a matéria nova. Há, portanto, uma identificação marcante das partes originais e novas denotando a ação da reconstrução (fig. 4).

Os modernos materiais de construção foram utilizados para a implantação de uma infraestrutura que atendesse as necessidades de um programa arquitetônico contemporâneo. A reconstrução deu-se como ação de uma dupla temporalidade, do século XVIII e do século XXI. É interessante observar que essa temporalidade está expressa na não só na visualidade identificada na matéria restaurada, mas nas ações contemporâneas adotadas na reconstrução. Entretanto, apesar do uso de toda a tecnologia moderna, as técnicas artesanais também foram de grande importância na reconstrução. O trabalho de pedreiros, escultores e mestres artesãos especializados foi utilizado durante toda a obra do preparo das pedras originais à execução de detalhes arquitetônicos.

Achim Hubel, no texto Denkmalpflege zwischen Konservieren und Rekonstruiren (12) (A preservação entre o conservar e o reconstruir), também aborda o problema da Frauenkirche. Formulando questões sobre a importância da ruína e a valorização do monumento, e, considerando-se que o seu significado seja conscientemente abstraído, o autor aborda aspectos da problemática da reconstrução. Ele comenta a seguinte declaração feita pelo historiador de arte Jörg Traeger, um dos maiores defensores da reconstrução da Frauenkirche:

“Quando se quer ser provocador e não se prender a dogmatismos, deve-se afirmar que a arquitetura é ocasionalmente substituível. Ela permanece e não de desfaz com a pátina que nela se depositou, não se identificando necessariamente com o material da sua construção”. (13)

Para Hubel, tal tese é uma prova alarmante de que as preocupações fundamentais da preservação não são mais compreendidas. Se fosse realmente possível substituir a arquitetura, e a noção do substituído, entendida como de valor equivalente, então o sentido de muitas medidas de preservação deveria ser colocado em questão. Em um mundo em que qualquer edifício histórico é aparentemente reconstruível e até mesmo varias vezes reproduzível, a preservação do patrimônio perde o seu sentido.

Hubel considera este um atentado à dimensão histórica do patrimônio. O autor vê o monumento histórico como um completo documento de múltiplas camadas. O trabalho da preservação é não somente recolher as provas de sua história, mas também garantir a sua legibilidade no futuro. O valor de um monumento não pode prescindir das informações que, em um sentido mais amplo, poderão ser lidas a partir da substância original. Entretanto, de forma diferente das demais obras de arte, como pinturas e esculturas, a arquitetura pode ser reproduzida fora do âmbito da autenticidade. Jörg Traeger baseia-se neste aspecto para formular suas ideias: “A substância original da Frauenkirche, bem documentada, requer formalmente uma reconstrução.” (14)

Neste ponto deve-se então questionar a qualidade da documentação disponível sobre a Frauenkirche. Ela só pode naturalmente advir do estágio do conhecimento até a destruição do edifício, não podendo ultrapassar no caso a metodologia utilizada até os anos quarenta do século XX. Sabe-se, entretanto, que os documentos de construção e os resultados de exames realizados antes da guerra são insuficientes em relação aos parâmetros atuais. Pela primeira vez nos últimos quinze anos (antes da data de publicação do texto de Hubel) foram colocados em prática procedimentos de documentação atualizados e precisos. Eles levaram, por exemplo, a medidas como a exata deformação compreendida por cada pedra na construção, proporcionando uma visão detalhada de suas particularidades. Somente com dados desse tipo pôde-se então falar sobre uma documentação realmente satisfatória sobre a Frauenkirche.

Deve-se considerar, por exemplo, que no período de quinze anos anterior à sua destruição, o interior da igreja foi sabidamente modificado duas vezes. Até 1930 existia uma configuração interna, com a decoração e partido cromático que haviam sido executados em uma restauração realizada em 1868. Durante nova restauração, entre 1930 e 1932, as cores foram modificadas, quando a pintura decorativa barroca foi reconstituída. Este trabalho não pôde ser concluído por motivos financeiros. Entre 1940 e 1943 novos trabalhos de restauração foram executados no interior, desta vez sob severas críticas à proposta de reconstrução forçada da configuração do século XVIII, quando foi colocada em dúvida a validade prospecções feitas para se chegar àquele resultado. Uma vez que estas pesquisas não puderam mais ser comprovadas, ficaria agora a reconstrução diante de uma tarefa insolúvel, tendo-se que decidir por exemplo qual a configuração correta a se escolher para o interior a ser reconstruído (fig. 5).

A reconstrução, mesmo apresentando-se da forma mais completa, não pode substituir o original perdido. Ela poderia no melhor caso lembrá-lo e proporcionar uma imagem sua, em uma tentativa de aproximar-se de sua aparência, constituindo uma cópia com a qual o original jamais poderá ser totalmente identificado. Entretanto, isto não significa que uma reconstrução não possa possuir um significado próprio. Como escreveu Friedrich Mielke em 1961:

“A dor da perda e o desamparo diante do vazio que ficou levam à ideia de substituir-se os originais desaparecidos por cópias. E, todavia, essas cópias não são em si vazias, enquanto objetos reconstruídos cientificamente. Elas serão utilizadas dentro do desejo de construção de um povo após uma determinada crise. Para além dos sentimentos e vivências pessoais estão aquelas obras em que está personificada a tradição que se apreende de uma coletividade. Como tais, estas obras se tornam então símbolos, que nesta qualidade são independentes da parte material dos originais em que foram baseados. Elas consolidaram-se com sua imagem tão fortemente na consciência das pessoas, que conquistaram uma condição espiritual, o momento então quando a cópia torna-se um objeto de valor”. (15)

Passou-se mais de 30 anos desde que esta reflexão foi formulada. Todavia, ela se confirma em casos como o da Frauenkirche. Contudo, para Hubel, em todo o entendimento para o bem sucedido embasamento de uma reconstrução, dever-se-ia ser honesto o suficiente para tornarem-se explícitos os limites que ela poderia atingir. A proposta feita durante o Ruf aus Dresden (chamado de Dresden) para que a Frauenkirche, após sua reconstrução, entrasse para a lista do patrimônio mundial da UNESCO, configura um desconhecimento absoluto das circunstâncias que envolvem esta ação. O autor então atesta: “A Frauenkirche pode ser reconstruída como imagem ou símbolo, jamais como monumento”. (16)

E ele ainda cita a seguinte resolução, emitida pela Associação de Patrimônio da República alemã:

“O significado dos monumentos não reside só nas ideias do artista por eles incorporadas, mas essencialmente em sua forma material, construtiva e artística condicionada ao tempo, e que traz consigo as provas do seu destino. A sua materialidade transmitida é, como testemunha da história, que não se repete como a própria história” (17)

Pode-se então observar que a reconstrução na Alemanha é antes de tudo uma ação heterogênea. Conferir-lhe um sentido é na realidade transitar por diversos sentidos e momentos que compartilham um objetivo comum: recuperar a materialidade perdida de uma determinada arquitetura. Mas para que e por quê? A reconstrução se justifica a partir deste objetivo, que é colocado acima de questões como a da autenticidade daquilo o que está sendo reconstruído. Tem-se a consciência de que a matéria reconstruída jamais trará consigo o testemunho do tempo conferido ao monumento histórico, objeto da adoração cultural e detentor do poder de transposição para o presente do valor da experiência verdadeira e vivida, desde o momento de sua criação. Entretanto, mesmo após a sua destruição, o monumento sobrevive como memória e o seu valor permanece, servindo de catalisador para a ação da reconstrução.

Com a reconstrução, o monumento transcende a sua própria condição e passa a ser visto como um símbolo, aceitando-se que o objeto reconstruído é a personificação da obra perdida. É esta visão simbólica que caracteriza a reconstrução na Alemanha que é a reconstrução de uma identidade, seja ela religiosa, política, intelectual ou nacional. Foi assim desde antes do país ser um país, quando a cultura germânica ainda tinha apenas a religião como o elemento congregador, na reconstrução do Kaiserdom. Quando, no século XX, o país mais uma vez recuperou a sua unidade, a mesma cultura germânica precisou de um símbolo que a redefinisse como nação, na reconstruçãoda Frauenkirche.

O desejo de unidade. Ao longo de toda a história, este parece ter sido o principal motivo que torna legítima a reconstrução na Alemanha. Ela é aqui o instrumento que realmente preserva este desejo, o desejo de uma nação de conservar-se inteira e íntegra em sua evolução. A pergunta que foi feita na primeira parte deste artigo pode então arriscar-se a obtenção de uma resposta: reconstruir é preservar. Preservar os símbolos imanentes de uma cultura.

Concluindo, a grande variedade de exemplos de reconstrução na Alemanha torna viável a ideia de um estudo mais aprofundado e referencial deste fenômeno. Seria então interessante a introdução deste tema no campo de estudo do patrimônio arquitetônico brasileiro, sem esquecer-se das especificidades dos respectivos contextos, considerando-se que as trajetórias da preservação do patrimônio arquitetônico destes dois países estão em patamares distintos no tempo e no espaço.

No Brasil, a reconstrução é certamente um tema de difícil abordagem na história do patrimônio arquitetônico. O projeto moderno do século XX estabeleceu os valores para a preservação dos exemplares da história da arquitetura dentro do processo de renovação sem precedentes na evolução urbana. As cidades, para modernizar-se, necessitaram cortar os laços com o seu passado imediato, o século XIX. Para pensar-se sobre a reconstrução no Brasil seria necessário, antes de qualquer coisa, investigar a destruição. Ao longo do século XX, a cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, viveu a perda de sítios significativos como o morro do Castelo e o rio Carioca, além de monumentos como a igreja de São Pedro dos Clérigos, a antiga Academia Imperial de Belas Artes e Chafariz da Carioca de Grandjean de Montigny e, finalmente, o Palácio Monroe. Daí o interesse pelo tema da reconstrução como uma das alternativas para a preservação de um patrimônio arquitetônico perdido. Assim poder-se-ia então pensar a nova introdução desta memória urbana perdida através da reconstrução na paisagem cultural, resgatando valores e reabilitando o patrimônio para o seu papel principal: através da presença do passado, reconhecer-se o presente e preparar-se o futuro.

notas

1
Ao fim da guerra, dos 60.098 prédios de Munique, cerca de 13.000 haviam sido totalmente destruídos, 8000 severamente avariados e apenas 1500 permaneceram intocados. Na spartes mais novas da cidade 50 % das construções foi destruída, 60 % no centro histórico. Ver HEMMETER, Karlheinz. Bayerische Baudenkmäler in Zweiten Weltkrieg. p. 89.

2
Ver MEITINGER, Karl. Das Neue Munchen – Vorschläge zum Wiederaufbau. Haidhausen-Verlag, 1982 (edição original de 1946). 64 p.

3
Idem pp.172 – 174.

4
Ttradução aproximada: “Grundplan der Altstadt Nurnbergs.”

5
Em 1943 a cidade contava com 4 milhões de 500 mil habitantes. Ver ARNTZ, prof. Dr. Helmut (org.). A Alemanha de Hoje. Wiesbaden: Franz Steiner Verlag (editado pelo Depertamento Federal de Imprensa e Informação), 1965 (3a edição). 992 p. pp.137-153.

6
Com a promulgação da Lei Fundamental, elaborada por um conselho parlamentar, deu-se origem à República Federal da Alemanha (RFA). A denominação Lei Fundamental sublinhava seu caráter provisório, pois somente depois que o país voltasse à sua unidade deveria ser ratificada uma constituição definitiva. O novo Estado tinha a cidade de Bonn por capital. A União Soviética, que integrara a zona leste do país à sua estrutura de poder, não ficou atrás, anunciando, em outubro de 1949, a fundação da República Democrática Alemã (RDA), com Berlim Oriental como capital. Seu regime era comunista e de economia planificada, dando prosseguimento à socialização da indústria e ao confisco de terras e propriedades privadas. O Partido Socialista Unitário (SED) passou a ser a única força política na Alemanha Oriental.

7
Embora recebesse ajuda dos EUA desde 1946, foi só com o programa de luta contra "a fome, a pobreza, o desespero e o caos" que a Alemanha Ocidental recebeu o impulso decisivo para iniciar sua reconstrução. O chamado Plano Marshall disponibilizou 1,4 bilhão de dólares de 1948 a 1952. A zona de ocupação soviética não teve a mesma sorte, tendo que arcar sozinha com os custos de sua recuperação, além de sofrer a sangria das reparações de guerra (que também afetou a parte ocidental) e desmontagem de fábricas, estradas de ferro e instalações levadas para a União Soviética.

8
Em 1950, a Alemanha foi admitida no Conselho da Europa e, em 1952, na Comunidade Europeia do Carvão e do Aço. Ao ser revogada a categoria de território ocupado, em 5 de maio de 1955, a RFA pôde criar um Ministério das Relações Exteriores, estabelecer relações diplomáticas com outros países e abrir embaixadas no exterior. Nesse mesmo dia, entrou para a OTAN, o que determinou o rearmamento da Alemanha para cumprir suas funções de defesa no âmbito da Aliança Atlântica. A filiação à Comunidade Econômica Europeia a partir de 1º de janeiro de 1958 (Tratado de Roma) foi um outro passo decisivo na integração no bloco ocidental.

9
Konrad Adenauer, da União Democrata Cristã (CDU), foi eleito primeiro chanceler federal da República Federal da Alemanha em 1949, encabeçando uma coligação dos novos partidos políticos. Governou a RFA de 1949 a 1963.

10
O início da construção do Muro de Berlim deu-se em 13 de agosto de 1961.

11
A restauração do patrimônio arquitetônico da cidade, em especial as milagrosas reconstruções do Zwinger e da Semper Oper iniciadas logo após, possibilitou, como em Munique, a inserção dos conceitos do urbanismo moderno no espaço histórico.

12
HUBEL, Achim. (Org.). Dokumentation der Jahrestagung 1989 in Hildesheim. Thema: Denkmalpflege zwischen Konservieren und Rekonstruiren. Bamberg: Arbeitskreis fur Theorie und Lehre der Denkmalpflege, 1993.

13
Tradução aproximada: „ Auch wenn es provozierend klingt und von Dogmatikern nich gern gehört wird, sei festgestellt: Architektur ist notfalls ersetzbar. Sie steht und fällt nicht mit der Patina, die sie angesetzt hat. Auch ist sie nicht unbedingt identisch mit ihrem Baumaterial.“Jörg Traeger, Das Entsetzlische läβt sich nicht konservieren. Fur den Wiederaufbau der dresdner Frauenkirche, in: Suddeutsche Zeitung n. 74 de 28 e 29 de março de 1991. Idem. p. 98.

14
Ttradução aproximada: „Der bestens dokumentierte Originalzustand der Frauenkirche verlangt förmlich eine Rekonstruktion.“Ibid. p. 99.

15
Tradução aproximada: „Der Schmerz uber den Verlust und die Hilflosigkeit angesichts der entstandenen Leere lieβen den Gedanken zur Tat werden, entschwundene Originale durch Duplikate zu ersetzen... Und dennoch sind diese Kopien keine leeren, allein wissenschaftlich rekonstruierten Gebilde. Sie werden getragen von dem Wunsch un dem Bauwillen weiter Bevölkerungskreise... Uber das persönliche Gefuhl und Erleben hinaus ist die in den Bauten verkörperte Tradition Ausdruck des Gemeinwesens. Als solche werden die Bauwerke zu einem Symbol, das in dieser Eigenschaft unabhängig ist von dem Anteil materieller Originalsubstanz. Die charkteristischen Bauwerke sind mit ihrem Erscheinungsbild so stark in dem menschlichen Bewuβtsein verankert, daβ sie eine vergeistigte Position errungen haben, die auch eine Kopie zum Wertobjekt erhebt.“Friedrich Mielke, Das Original und der wissenschaftliche Denkmalbegriff, in : Deutsche Kunst und Denkmalpflege (1961). Ibid. p.101.

16
Tradução aproximada: „Wiederhergestellt werden kann die Frauenkirche nur als Abbild und Symbol, nie als Baudenkmal.“ Ibid. p.101.

17
Tradução aproximada: „Die Bedeutung der Baudenkmale... liegt nicht allein in den kunstlerischen Ideen, die diese verkörperten, sondern wesentlich in ihrer zeitbedingten materiellen, baulichen und kunstlerischen Gestalt mit allen Schicksalspuren. Die uberlieferte materielle Gestalt ist als Geschichtszeugnis unwiederholbar wie die Geschichte selbst.“ In : Deusche Kunst und Denkmalpflege 49, 1991, P. 96. Ibid. p.101. Hubel comenta que esta resolução foi publicada prematuramente, logo após a reunificação, sem levar em consideração as diferenças de abordagem do patrimônio arquitetônico que existiam ainda naquele momento entre Leste e Oeste, embora houvesse inúmeros casos de reconstrução em ambas as Alemanhas desde 1945.

sobre o autor

Luiz Antonio Lopes de Souza (1963) possui graduação em Arquitetura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1986) e mestrado em Arquitetura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2006). Atualmente é arquiteto chefe do Núcleo de Arquitetura da Fundação Biblioteca Nacional.

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Giovanna Ortiz de Oliveira and Laura Machado de Mello Bueno

114.01

Gaudí e a água

Claudio Bastos

114.02

As passarelas urbanas como novos vazios úteis na paisagem contemporânea

Vera Magiano Hazan

114.03

Arquitetura Mackenzie e o Jardim Ana Rosa em São Paulo

Eunice Helena Sguizzardi Abascal and Celio Pimenta

114.04

O Laboratório Agudos

Adalberto Retto Jr., Bernardo Secchi, Norma Regina Truppel Constantino and Marta Enokibara

114.05

Considerações sobre o tipo e seu uso em projetos de arquitetura

Ana Kláudia de Almeida Viana Perdigão

114.07

Ultraecletismo?

Artur Simões Rozestraten

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