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architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
O artigo traz uma contribuição para o estudo da história do trabalhador da arquitetura na Grécia Antiga. Procura determinar o seu estatuto social e profissional, utilizando-se de trechos da Odisséia, de Homero, e de algumas obras de Platão e Aristóteles

english
In this article Adson Lima pretends to contribute with the studies about the status of architecture workers in ancient Greece

español
En este artículo Adson Lima pretende contribuir con los estudios sobre la história del trabajador de la arquitectura en Grécia antigua


how to quote

LIMA, Adson Cristiano Bozzi Ramatis. Archetekton: algumas considerações em torno dos trabalhadores da arquitetura na Grécia antiga. Arquitextos, São Paulo, ano 10, n. 115.03, Vitruvius, dez. 2009 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/10.115/4>.

1. Introdução

“Ao empregar um termo grego para exprimir uma coisa grega, quero dar a entender que essa coisa se contempla, não com os olhos do homem moderno, mas sim com os do homem grego.”
(Werner Jaeger. Paidéia)

Há um fato na História das artes que já é bastante divulgado: temos, em relação à produção artística da Grécia Antiga, um conhecimento apenas derivativo e muitas vezes indireto. Isto é, muito do que conhecemos e apreciamos como "arte grega” é, na realidade, cópias romanas de originais gregos que se perderam. Este processo de conhecimento indireto ocorre com a escultura e, principalmente, com a pintura, da qual pouco ou quase nada teria resistido ao tempo. No entanto, se estas asserções são corretas, há que se refletir com mais minúcia um domínio específico da produção de imagens: a arquitetura. Ora, há, em toda a Grécia continental, e mesmo na chamada Magna Grécia, vários exemplares de obras arquitetônicas – e, principalmente, templos – que nos proporcionam um conhecimento direto, isto é, um conhecimento que, neste caso, não necessita da mediação da cultura romana. Mesmo o estado de ruínas destas construções remanescentes, e que lhes empresta seguramente o aspecto de um objeto que perdeu a sua feição de completude, não é suficientemente importante para impedir um certo grau de conhecimento e de experiência sensível. Além disto, há descrições de exemplares arquitetônicos realizadas por viajantes que estiveram no mundo grego, as quais podem ser comparadas com as construções ainda existentes, e, através deste método, "completa-se" com as imagens evocadas pelos textos os objetos arquitetônicos. Assim, não estaríamos longe da verdade se afirmássemos que possuímos um conhecimento mais seguro da arquitetura grega do que da sua escultura e, principalmente, da sua pintura.

Este fato, no entanto, foi muitas vezes eclipsado pelo simples motivo de que o mundo grego não nos legou nenhum documento tão completo e tão espetacular quanto o De Architectura Libro Decem, do arquiteto romano Vitrúvio, escrito, provavelmente, em 27 ou 16 a.C (2) (3). Porém, mesmo que se trate de um texto escrito por um arquiteto romano, pode-se estudar e conhecer, através deste documento, parte do pensamento e da prática arquitetônica gregas; e, novamente neste caso, estamos fadados a conhecer a arquitetura grega a partir da cultura romana... Destarte, assim como no caso da escultura e da pintura, estaríamos expostos a um conhecimento apenas indireto. É possível, no entanto, seguir um outro caminho, uma vez que alguns filósofos e aedos escreveram sobre a prática arquitetônica e sobre o estatuto social do arquiteto no mundo grego. Não vamos encontrar, certamente, um texto que poderia ser compreendido como uma espécie de "tratado de arquitetura avant la lettre" – com todo o anacronismo que esta visão implica – como normalmente o texto vitruviano o é. Os filósofos, por exemplo, apenas abordaram o tema por razões expositivas e no interior dos seus sistemas de pensamento (4). Não escreveram sobre o ofício de arquitetura simplesmente porque isto não seria culturalmente possível, uma vez que a prática arquitetônica era considerada, como explicaremos nas próximas páginas, uma téchne, e, a este título, não seria julgada um objeto da filosofia:

"Da teoria técnica à prática dos ofícios, os aspectos de estagnação acentuam-se ainda mais. Os artesãos não nos deixaram, acerca de seu trabalho, testemunhos diretos. Mas os escritores da Antigüidade são concordes em reconhecer aqui o tipo de atividade rotineira. A téchne artesanal não é um verdadeiro saber. O artesão não tem inteligência de seu método, não compreende o que faz". (5)

Pode-se depreender, das asserções do estudioso francês, duas conseqüências diretas: a arquitetura somente poderia existir e ser pensada como uma "prática profissional", isto é, como ofício; e este mesmo ofício era uma atividade artesanal, um trabalho manual que, certamente, dependia de uma teoria, mas que se realizava, verdadeiramente, na produção de um objeto sensível. Não existia no mundo grego – ao menos no mundo grego arcaico e clássico – uma esfera de pensamento que tomasse a multiplicidade do sensível como um tema possível ou digno de importância para a filosofia. Explicando-nos em outros termos: não há, na Grécia Antiga, algo que poderia vir a ser compreendido como "fruição estética", e, sem este conceito, não há "arte" no sentido moderno – assim como não há "estética", como um campo privilegiado para o estudo da arte (6). O termo “estética”, ainda que as suas raízes mais profundas estejam fincadas em solo grego – refiro-me, naturalmente, à etimologia da palavra, aisthesis –, não pode ser aplicado à Grécia Antiga sem o risco de se cometer um evidente anacronismo. Pintura e escultura ou bem serviam como ornamento, ou bem eram realizadas por razões votivas – possuíam, então, uma função utilitária bastante precisa. E, naturalmente, os objetos arquitetônicos não eram compreendidos de outra forma.

Procuraremos, nas páginas a seguir, estabelecer uma esfera de conceitualização que privilegie o surgimento da compreensão histórica de um trabalhador específico e da sua prática, assim como o seu estatuto no interior de uma dada sociedade. Utilizaremos, para tanto, três textos de dois filósofos: Ética a Nicômano e Metafísica, de Aristóteles, e Político, de Platão; além da Odisséia, epopéia atribuída a Homero. Tratar-se-á, como o leitor já terá percebido, de uma "leitura interessada", na medida em o sistema filosófico de Platão e de Aristóteles serão expostos apenas quando iluminarem a questão da prática do archetekton. Recorrer-se-á, igualmente, a textos de pesquisadores que já refletiram diretamente esta questão ou que, de alguma forma, a assimilaram ao seu discurso. Neste sentido, os textos supracitados serão considerados mais como documentos de caráter histórico do que como textos filosóficos ou obras literárias. Tentaremos, na medida em que este processo for possível, interpretá-los à luz desta inquietante questão: quem era o archetekton, isto é, quem era o trabalhador responsável, na Grécia Antiga, pelo papel que, nas sociedades modernas e contemporâneas, cabe ao arquiteto?

2. A Grécia arcaica: aedos

Inicialmente, como o ato preliminar de um método, convém indagar pela gênese da palavra arquiteto, isto é, archetekton. Como verbete de dicionário este termo significa "arquiteto, construtor de uma obra e engenheiro naval" (7). Isto é, um profissional encarregado da direção de atividades realizadas em pedra e em madeira – materiais de construção extremamente comuns e usuais na Antigüidade, principalmente no que se refere a edificações de grande porte destinadas às classes dirigentes. Neste sentido, o archetekton diferencia-se de um simples tekton porque em seu título lê-se a palavra archi, que significa, justamente, mestre ou chefe. Existem, ao menos, duas conseqüências interessantes desta breve genealogia: o termo archi coloca este profissional acima dos demais trabalhadores envolvidos nos processos construtivos, uma vez que ele ordenaria mais do que obedeceria, e que "faria fazer" mais do que concretamente "faria"; outra conseqüência não é menos clara: há uma superposição entre o artífice que trabalha com a madeira e aquele que trabalha com a pedra. Isto suscita, como conseqüência do próprio pensamento, uma outra questão: esta superposição estaria apenas no termo, ou realmente não haveria diferentes artífices para o trabalho dos dois diferentes materiais? Mas a resposta para esta questão não será pertinente se não for instaurado um campo de pensamento que trate o processo diacronicamente; isto equivale a perguntar como esta possível superposição se deu historicamente no mundo grego. Estabeleceremos, na tentativa de responder estas questões, uma clivagem: trataremos diferentemente a Grécia Arcaica – a Grécia cantada pelos aedos, tal como o próprio Homero – e a Grécia Clássica, a qual tomamos contato, neste artigo, através da obra filosófica de Platão e Aristóteles.

Seguindo, então, esta clivagem, iniciaremos o nosso percurso pensando o ofício do archetekton desde as indicações que podemos encontrar na Odisséia, canto XVII, indicações que foram valiosas para a observação de Vidal-Naquet (8):

“Com efeito, quem iria procurar um hóspede a mais se ele não fizesse parte dos artesãos (demiourgói)ou se não fosse adivinho, curandeiro ou carpinteiro (tekton)ou ainda aedo divinamente inspirado, cujos cantos nos encantam.
Essas são as pessoas que vamos buscar pela terra infinita.
Ninguém iria convidar um mendigo para piorar a sua situação.”

Essa é a resposta de Eumeu a uma acusação realizada pelo pretendente Antínoo, de ter introduzido um mendigo no palácio. No entanto, tratava-se do próprio Ulisses disfarçado de mendigo... Este fato é interessante porque nos remete ao estatuto social de que gozavam na Grécia Arcaica algumas profissões. É extremamente significativo que diferentes ofícios sejam listados e compreendidos desde o mesmo registro: artesãos, isto é, os demiurgos, além dos adivinhos, curandeiros, carpinteiros e aedos... Não parece haver diferentes gradações nem alguma espécie de hierarquia entre eles, e, sendo todos trabalhadores da téchne, isto é, capazes de dominar a natureza através de astúcia e habilidades variadas, porém precisas, todos, em princípio, se equivalem socialmente. O próprio Ulisses, ainda que não fosse nem um artesão nem um carpinteiro, fabricou ele mesmo o leito de Penélope (9). A este respeito escreveu Vernant:

“Em Homero, o termo téchne aplica-se à habilidade dos demiourgói, metalúrgicos e carpinteiros, e a certas tarefas femininas que requerem experiência e destreza, como a tecelagem. Mas ele designa também as magias de Hefesto e os sortilégios de Proteu. Entre a eficiência técnica e a prática mágica, a diferença não é ainda nítida.” (10)

Pode-se concluir, então, que as atividades, na Grécia Arcaica, de forjar uma lançadeira ou de construir uma casa não apenas se equivaliam como não seriam considerados socialmente inferiores, como normalmente se supõe (11). Ora, não apenas não havia ainda um domínio específico de reflexão sobre a téchne, como também não deveria existir uma clivagem nítida entre o archetekton e o tekton. O termo utilizado na Odisséia, tekton, e que foi traduzido por carpinteiro, indica uma atividade ligada a um material específico, a madeira – e, como a etimologia da palavra ensina – igualmente à pedra, mas não indica a produção de um objeto específico: poderia ser uma arma, assim como um leito ou um navio, e, igualmente, uma casa. A oposição existente no trecho citado não está localizada no interior de uma dada atividade, mas entre o trabalhador e aquele que, não possuindo nenhum tipo de habilidade específica, está reduzido à condição, socialmente inferior, de mendigo. Assim, a frase de Régis Debray dita acerca do fabricante de imagens da Grécia, segundo a qual, "(...), o fabricante de imagens é vítima do desprezo que pesa sobre todos os trabalhadores manuais" (12), deve ser vista, no mínimo, com muitas ressalvas. Em Homero observa-se que aquele que não exerce nenhuma ocupação é que é desprezado, e o trabalhador, seja ele matemático, demiurgo ou tekton, goza certamente de um certo prestígio social.

Porém, é importante que se diga que, em relação à Grécia Arcaica, ainda não estamos refletindo o archetekton, mas o tekton – a epopéia de Homero, assim como a tragédia de Ésquilo, indica apenas o tipo de atividade exercida, mas não deixa perceber ou entrever nenhuma distinção importante em termos de divisão social ou técnica do trabalho. Se supuser a existência de um profissional encarregado da direção dos trabalhos parece razoável e mesmo lógico, é, no entanto, uma reflexão de caráter apenas especulativo, uma vez que os textos em questão não a autorizam. Deve-se avançar alguns séculos para que a arquitetura, esta téchne específica, se clive em uma maior especialização.

3. A Grécia clássica: filósofos

Há, nos escritos que nos legaram os filósofos clássicos, inúmeras considerações sobre os profissionais da arquitetura – não se trata, como já afirmamos na introdução deste texto, de registros detalhados sobre a atividade técnica da construção, os quais envolveriam, necessariamente, a descrição de regras construtivas assim como de uma tipologia arquitetônica – estaremos diante de asserções que, se por um lado apenas tangenciam a questão, por outro lado permitem-nos ao menos conhecer o estatuto social de que gozavam tanto o archetekton quanto o tekton na Grécia Clássica.

Começaremos o nosso estudo por Platão, principalmente porque o seu pensamento apresenta uma relação um pouco ambígua com as imagens – alguns estudiosos, como o esteta francês Raymond Bayer, defendem o "caráter estético" deste pensamento: "Platão não escreveu uma estética propriamente dita, mas a sua metafísica é toda ela uma estética" (13). Naturalmente, o autor francês não está afirmando que o filósofo grego pensava a partir de considerações estéticas que poderiam vir a ser compreendidas no sentido moderno, isto é, como uma espécie de "ciência do belo". No entanto, é certo que a teoria platônica a que nos referimos possibilita, em um certo nível, uma aproximação estética, uma vez que supõe uma intuição, ainda que intelectual, a respeito das Idéias. Há uma posição não menos importante para o tema que estamos desenvolvendo, já que nos remete a uma interpretação quase canônica dele. Trata-se dos que afirmam que o fabricante de imagens seria, no pensamento platônico, desprezado, ou, ao menos, menosprezado, porque faria, sempre, a "cópia da cópia", isto é, a cópia daquilo que, por sua vez, já seria uma cópia da Idéia. Neste sentido, uma pintura ou uma escultura apresentariam menos verdade do que o próprio objeto representado. Estas asserções encontram-se sintetizadas neste admirável trecho de A República: "Temos razão em criticar o poeta, pois, em relação à verdade, ele faz obras tão vis quanto o pintor" (14) (15). Se esta teoria, usualmente compreendida como "anti-estética", encontra-se nos escritos do próprio Platão, é necessário, no entanto, relativizá-la, ou ao menos, pensá-la a partir do ofício do archetekton. A partir destas considerações preliminares pode-se refletir a profissão de arquiteto na Grécia Clássica tal como alguns escritos platônicos determinam.

No diálogo Político pode-se ler algumas asserções sobre a função do archetekton:

“ESTRANGEIRO:
– A seguinte: lembras-te de que falávamos da arte do cálculo...
SÓCRATES, O JOVEM:
– Sim.
ESTRANGEIRO:
– Pois toda ela faz parte, creio eu, das ciências teóricas.
SÓCRATES, O JOVEM:
– Nem poderia ser de outro modo.
ESTRANGEIRO:
– Bem, o cálculo, que nos dá a conhecer a diferença entre os números, terá ainda outra função além daquela de julgar as diferenças?
SÓCRATES, O JOVEM:
– Que teria ele mais a fazer?
ESTRANGEIRO:
– Nenhum arquiteto (archetekton)trabalha como operário, mas apenas dirige os operários.
SÓCRATES, O JOVEM:
– É certo.
ESTRANGEIRO:
– A sua contribuição é um conhecimento, e não uma colaboração manual.
SÓCRATES, O JOVEM:
– Sim.
ESTRANGEIRO:
– Seria certo então dizer que ele participa da ciência teórica?
SÓCRATES, O JOVEM:
– Perfeitamente.
ESTRANGEIRO:
– Ele, no entanto, uma vez traçado o plano, não deve considerar-se livre e abandonar a tarefa como o faria o calculista. Ao que creio, cabe-lhe ainda indicar a cada um dos operários tudo quanto lhes compete fazer até que tenham terminado todo o trabalho.
SÓCRATES, O JOVEM:
– É certo.
ESTRANGEIRO:
– Assim, pois, todas estas ciências são teóricas, incluindo as que participam da arte do cálculo, mas os dois gêneros que elas formam diferem; pois um deles, em seus cálculos, apenas julga, e outro, além de julgar, também dirige.
SÓCRATES, O JOVEM:
– Parece que sim.” (16)

Este trecho do diálogo platônico tem importantes conseqüências para o conhecimento das funções desempenhadas pelo archetekton. A primeira destas conseqüências é uma determinação mais precisa do seu papel social no interior do ofício. Como se pode perceber, não estamos mais diante da indistinção entre archetekton e tekton da Grécia Arcaica, tal como se pôde depreender da leitura da epopéia homérica –, trata-se, ao contrário, de uma nítida divisão: de um lado temos o operário, o tekton, responsável pelos trabalhos manuais, e de outro lado há o trabalhador que não executa concretamente as atividades, mas as elabora intelectualmente e as dirige. Aqui já surge claramente uma nítida divisão entre aquele que executa as tarefas e aquele que dirige o processo. A segunda conseqüência apresenta, igualmente, repercussões importantes; ora, tratando-se das atividades realizadas pelo archetekton, trata-se, por conseguinte, da formação requerida para o desempenho satisfatório do ofício. São partes integrantes da téchne específica do archetekton, segundo o texto platônico, o traçado dos planos e a direção das obras, e ambas são compreendidas como conhecimento e ciência teorética, e não como um mero trabalho manual (17).

Não estamos diante, contudo, de um inventário de habilidades e disciplinas tão detalhado e exaustivo como aquele encontrado no escrito de Vitrúvio, mas já é possível perceber com certo nível de certeza que por volta do século IV a. C. já existia no mundo grego um trabalhador encarregado de realizar um esquema gráfico suscetível de antecipar, em um certo nível, a obra construída e, igualmente, de zelar pela sua execução. E, como se pode depreender da leitura do texto platônico, temos certeza ao menos de uma disciplina que seria de suma importância na formação do archetekton: a matemática. Conhece-se suficientemente como era determinante a participação desta disciplina no pensamento platônico, mas, neste caso, vai-se além do simples cálculo: de um lado temos a matemática como ciência teorética, responsável por "despertar o pensamento do homem" (18); e, de outro lado, há a sua utilidade prática, que no caso do archetekton seria o de fundamentar o "traçado dos planos". Porém, certamente a matemática não era a única disciplina formadora do archetekton: não seria, com certeza, uma mera especulação se afirmássemos que seria necessário conhecer a trajetória do sol, e as estações do ano, para construir uma residência adequada em termos de "conforto térmico". Estamos, aqui, nos referindo a esta dimensão da arquitetura justamente porque temos, em Xenofonte, uma afirmação atribuída a Sócrates bastante precisa neste sentido:

Ainda se referindo à construção, Sócrates deu uma lição de que como deveriam ser construídas as casas para que fossem ao mesmo tempo belas e úteis. Eis como ele tratou a questão:

"Quando alguém deseja construir uma casa, ele não deve planejá-la de forma tal que esta seja tão agradável para viver e tão útil quanto possível?"

E isto estando admitido, ele perguntou:

"E não deveria ser a casa fresca no verão e quente no inverno?"

E quando se concordou igualmente com este princípio:

"No inverno, uma vez que as casas estejam voltadas para o sul, não penetram os raios de sol no pórtico? E, no verão, os raios de sol não se dirigem acima das nossas cabeças e do telhado, deixando-nos na sombra? Se, ainda, este for o melhor arranjo possível, deve-se construir as casas de forma tal que o lado sul tenha o telhado mais alto para receber o sol de inverno e o lado norte mais baixo para maior proteção contra os ventos frios? Em resumo, a casa que seja um bom abrigo em todas as estações e um depósito seguro para os pertences do proprietário é, ao mesmo tempo, a mais bela e agradável. Pinturas e ornamentos não acrescentariam em nada a esta casa". (19)

Os argumentos socráticos vão, certamente, no sentido da kalokagatia, mas, para que a dimensão do "conforto térmico" fosse abordada de forma tão clara por Sócrates, seria preciso que já existisse socialmente como uma espécie de expectativa em relação à atividade do archetekton. É bem pouco provável que o mestre de Platão estivesse criando uma inesperada exigência construtiva ao associar a beleza de um objeto arquitetônico à sua estrita utilidade. Destarte, já possuímos alguns dos componentes prováveis da formação do archetekton: o cálculo, a geometria (uma vez que um plano deveria ser traçado) e a "clímata". (20)

Mas estes não são, certamente, os únicos conhecimentos requeridos ao archetekton; em um outro trecho de Memoráveis, Sócrates interpela o jovem Eutidemo, que passava por possuir uma vasta biblioteca, com livros de poesia, tratados de medicina e de matemática, além de escritos de arquitetura. Em certo momento da conversa, o mestre de Platão pergunta pela finalidade de possuir tantas obras: "Mas talvez você deseje ser arquiteto? Neste caso é necessário possuir, como no campo da medicina, muitos conhecimentos" (21). O termo do original grego, gnômonikou, traduzido por nós a partir da versão em língua inglesa como "possuir muitos conhecimentos" (22), poderia ser traduzido, igualmente, por "estar apto para emitir juízos". Isto significa que o archetekton deveria ter tido contato, na sua própria formação, com muitas e variadas disciplinas. No entanto, não há como elencá-las na sua totalidade sem correr o risco de realizar uma especulação muito frágil.

Estas frases de Sócrates, assim como as de Platão, evidenciam um ponto de extrema importância: já estamos diante de do binômio "projeto e canteiro de obras", atividades realizadas por trabalhadores que, ao longo de muitos séculos, foram compreendidos diferentemente pelas inúmeras sociedades que atingiram um certo nível de sofisticação construtiva. Seja um artífice bizantino como Antêmio de Tralles (23), seja um anônimo maistre masson do gótico francês, ou um célebre ourives italiano como Brunelleschi (24), o desenho e a supervisão dos trabalhos sempre acompanharam este ofício. E se retornarmos a frase de Debray, citada no capítulo anterior, a qual indica a baixa consideração social de que gozariam os fabricantes de imagem na Grécia Antiga, veremos que ela não se aplica à Grécia Clássica, assim como já não se aplicava sem as devidas ressalvas à Grécia Arcaica.

Porém, foi analisado apenas um texto, e talvez estejamos incorrendo em uma simplificação, uma vez que um único documento não é material suficiente para conformar uma história. Destarte, assim como havíamos antecipado na introdução deste trabalho, recorreremos a um trecho da obra do Estagirita na tentativa de estabelecer uma visão um pouco mais panorâmica do ofício do archetekton. O trecho abaixo foi retirado da obra Ética a Nicômano:

Na classe do variável incluem-se coisas produzidas tanto quanto coisas praticadas. Há uma diferença entre produzir e agir (quanto à natureza de ambos, consideramos como assente o que temos dito mesmo fora de nossa escola); de sorte que a capacidade raciocinada de agir difere da capacidade raciocinada de produzir. Daí, também, o não se incluírem uma na outra, porque nem agir é produzir, nem produzir é agir.

Ora, como arquitetura é uma arte (téchne), sendo essencialmente uma capacidade raciocinada de produzir, e nem existe arte alguma que não seja uma capacidade desta espécie, nem capacidade desta espécie que não seja uma arte, segue-se que a arte é idêntica a uma capacidade de produzir que envolve o reto raciocínio (25).

Há importantes considerações neste trecho para o tema de que tratamos, e há uma espécie de questão principal que perpassa e determina todas as outras: a oposição indicada por Aristóteles entre ação (práxis) e produção (poiésis). Ora, se a arquitetura não é uma práxis tampouco se conforma como uma poiésis tout court... O ofício do archetekton, ao contrário daquele praticado pelo tekton, é suscetível de ser ensinado, uma vez que envolve o "reto raciocínio", como nos ensina Fernando Puentes: "Por este motivo o arquiteto, por exemplo, é considerado mais sábio do que o pedreiro, pois ele conhece a razão (lógos) e a causa (aitíon) do que será construído, enquanto o pedreiro sabe apenas como executar a construção propriamente dita, mas isso ele o sabe apenas por costume (éthos)" (1998, p. 131). No mundo grego clássico, como o trecho supracitado indica, a pura experiência não pode ser objeto da ciência, e o trabalho baseado na simples observação e na repetição não goza do mesmo prestígio daquele que se baseia no estudo e conhecimento das causas. Há uma outra obra na qual Aristóteles trata da questão do ofício do archetekton, a Metafísica, a qual, de certa maneira, reforça e amplia as conclusões exposta acima:

Por isso consideramos os que têm a direção (archetekton) nas diferentes artes (téchne) mais dignos de honra e possuidores de maior conhecimento e mais sábios do que os trabalhadores manuais (cheirotechnês), na medida em que aqueles conhecem as causas das coisas que são feitas; ao contrário, os trabalhadores manuais agem, mas sem saber que o fazem, assim como agem alguns dos seres inanimados, por exemplo, como o fogo queima: cada um desses seres inanimados age por certo impulso natural, enquanto os trabalhadores manuais agem por hábito. Por isso consideramos os primeiros mais sábios, não porque capazes de fazer, mas porque possuidores de um saber conceitual e por conhecerem as causas (26).

Nas frases acima se percebe que o archetekton é "mais sábio" que o tekton justamente porque a sua téchne é um "saber conceitual", e não exatamente porque seja "capaz de fazer"... Se a sua habilidade consistisse somente na realização material, isto é, na poésis, não se diferenciaria muito do trabalhador manual – no entanto, não seria uma mera especulação se afirmássemos que o ato de "traçar o plano" e "dirigir o trabalho" não são ocupações manuais que possam ser compreendidas como poéisis, mas fazem parte de um domínio que pode ser sistematizado como conhecimento e, a este título, ensinado. E se é certo que uma obra arquitetônica de uma certa sofisticação pressupõe a existência tanto de um "plano" como de uma "direção", é igualmente seguro que não são exatamente trabalhos "intelectuais" como a solução de um problema lógico ou matemático o seria. O que determina a diferença e marca mesmo uma distinção social entre o archetekton e o tekton não é a realização poética, mas a diferença no interior mesmo do trabalho, na medida em que de um lado é colocado o conhecimento teorético e, do outro lado, dispõem-se o hábito e a tradição.

Posto esta questão, é mister que analisemos os objetos produzidos pelo ofício do archetekton; já havíamos salientado, na introdução deste texto, a ambigüidade e a dicotomia presentes no termo archetekton, o qual indica uma téchne ligada tanto ao trabalho em madeira quanto ao trabalho em pedra. Esta ambigüidade é reforçada em algumas traduções de textos gregos, nas quais tanto o termo archetekton quanto tekton são traduzidos por carpinteiro. Esta escolha tradutiva pode provocar o sentimento no leitor hodierno de que não havia nenhuma distinção social nem nenhuma divisão técnica na prática arquitetônica, porém, já conhecemos os inúmeros significados que o termo "carpinteiro" pode ocultar... Faz-se necessário, então, refletir se o mesmo archetekton realizava tanto trabalhos em madeira como em pedra, sem nenhuma espécie distinção, ou se havia algum tipo de especialização. Não é uma pergunta que possa ser respondida exaustivamente, uma vez que os textos não são exatamente precisos. Mas sabemos que o ofício do archetekton era relativamente vasto, principalmente se comparado com as funções atuais do arquiteto: arquitetura e urbanismo, construção de navios, engenhos de guerra, decorações e maquinarias teatrais (27) (28). Ou seja, se realizarmos uma "leitura moderna", ainda que incorrendo em um evidente anacronismo, perceberemos que o termo archetekton subsume, simultaneamente, o imenso campo de atuação da Engenharia – no que se refere ao cálculo e à supervisão do canteiro de obras – e o da Arquitetura e Urbanismo – como o projeto de prédios e de cidades e a direção (hoje utilizaríamos, preferencialmente, o termo "coordenação") dos trabalhos. No entanto, é necessário perceber que o archetekton não é nem um Engenheiro Civil nem de um Arquiteto e Urbanista no sentido moderno, e nem se trata de uma fusão entre ambos os profissionais. O archetekton é, naturalmente, um outro "profissional", nascido de uma civilização que apresenta, como toda civilização, as suas idiossincrasias e especificidades.

Mas a questão foi apenas parcialmente respondida, posto que há uma pergunta que ainda guarda o seu poder de inquietação: todos os profissionais da archetekton realizavam todas as atividades elencadas ou havia uma seleção e escolha consoante as oportunidades de trabalho e os diferentes locais? E isto equivale a perguntar se esta téchne comportava divisões e especificidades. Há, felizmente, um texto bastante esclarecedor a este respeito, atribuído a Xenofonte:

"Nas pequenas cidades, o mesmo operário (technai) produz leitos, portas, charruas, mesas; às vezes, constrói mesmo casas (...). Mas, nas grandes cidades, em que cada um encontra muitos compradores, é suficiente uma só profissão para alimentar um homem. Às vezes, mesmo, não se tem necessidade de uma profissão completa: um fabrica o calçado para homens; outro, calçado para senhoras. Um corta, outro costura simplesmente o sapato, um só corta as roupas, outro ajusta as diferentes peças". (29) (30)

Mesmo que o termo empregado pelo discípulo de Sócrates tenha sido genérico, marcando apenas um trabalhador da téchne e não exatamente um tekton e muito menos um archetekton, não estaríamos apenas especulando se afirmássemos que o archetekton não existiria nos termos descritos por Platão e Aristóteles senão em certas cidades – as maiores, mais prósperas e mais populosas – do mundo grego. Assim, tomando as asserções de Xenofonte para melhor refletir a prática do archetekton, poder-se-ia afirmar que as atividades elencadas por Vernant eram exercidas, nas cidades menores, por uns poucos trabalhadores da téchne; e, nas cidades maiores, estas atividades seriam exercidas por "profissionais especializados" – glosando a tradução brasileira do texto francês, dir-se-ia que exerceriam a sua profissão de maneira "incompleta". Isto significa que, talvez – o termo da incerteza se impõe uma vez que, de fato, o nosso conhecimento sobre este ofício é apenas fragmentário – houvesse trabalhadores que se dedicassem tão somente à construção de residências e de outros prédios, ao passo que outros se dedicariam à esta atividade acrescida da construção de navios, de engenhos de guerra, etc. Esta divisão do trabalho seria determinada pelo número de habitantes de uma polis, e não por uma questão de regulamentação da "profissão", que, como é conhecido, não existia no mundo grego:

"Uma observação de história social permite precisar estes pontos: na época clássica, não se encontra nenhuma forma de organização religiosa da profissão. Não há intermediário entre o artesão e a cidade: nem corporação, nem confraria. O fato contribui para colocar a "profissão" sob uma luz inteiramente racional: ela é vista em sua função econômica e política". (31) (32)

Feitas estas considerações, e à guisa de síntese, poder-se-ia afirmar que não é tarefa fácil descrever e precisar o estatuto social de um trabalhador e o papel que este ocupa no interior da sua téchne – e mesmo esta última é difícil de ser compreendida na sua totalidade, uma vez que lançar uma luz moderna sobre a questão seria cometer um evidente anacronismo. Isto significa que não podemos pensar o ofício do archetekton desde o ofício do arquiteto moderno, por mais tentador que isto seja (e torna-se ainda mais tentador porque o léxico do termo parece autorizar...). Toda sociedade afastada do universo cultural do pesquisador, seja a partir de uma perspectiva histórica, seja a partir de uma perspectiva geográfica, seja – como no caso deste trabalho – tanto histórica quanto geograficamente, deve ser estudada a partir das especificidades culturais que a determinam. Neste caso, o único método possível é uma hermenêutica cuidadosa dos textos produzidos na época e no espaço em questão.

No entanto, nem este método poderia colocar o pesquisador fora do alcance de anacronismos e de interpretações imprecisas ou mesmo francamente errôneas. O número escasso de documentos escritos que tratem o tema, e a própria condição "marginal" do tema no interior dos documentos, fazem com que a trama na qual a narrativa histórica é urdida apresente-se, muitas vezes, como um conjunto de fios entrelaçados cuja ordem é de difícil percepção. Mas o "ordenamento dos fios" não pode ser feito desde o exterior, deve ser realizado, ao contrário, a partir dos próprios documentos, como o ofício de uma tecelã que domine perfeitamente a sua téchne.

notas

1
Este artigo foi publicado em: Interpretar Arquitetura, volume 8, 2007, p. 12.

2
TUFFANI, Eduardo. Estudos vitruvianos. São Paulo, HVF Representações, 1993, p. 23.

3
Os fabricantes de imagens escreveram, certamente, sobre o seu ofício, como nos assevera o pensador francês Régis Debray: "Pelos fins do período clássico, no século III Ac, praticantes da escultura, como Xenócrates e Antígono, codificavam, por escrito, a respectiva profissão, como já tinha sido feita por Ictino, arquiteto do Partenon". Ver: DEBRAY, Régis. Vida e morte da imagem: uma breve história do olhar no Ocidente. Petrópolis, Vozes, 1989, p. 175.

4
A este respeito o pensador francês Régis Debray afirmou com fina ironia: "Em último caso, pode-se jantar ou conversar com esse pessoal (pintores, escultores e arquitetos), mas não consagrar-lhes um livro ou prefaciá-los". Ver: DEBRAY, Régis. Op. cit., p. 177.

5
VERNANT, Jean-Pierre. Mito e pensamento entre os gregos. Tradução: Haiganuch Sarian. 2 ª edição. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 2002, p. 374.

6
Sobre esta questão escreveu Panofsky: "Com efeito, a partir do momento em que Platão avalia o valor das produções da escultura e da pintura em função do conceito de um conhecimento verdadeiro, isto é, de uma conformidade com a Idéia – conceito que lhes é fundamentalmente alheio –, uma estética das artes plásticas não pode encontrar em seu sistema filosófico a título de domínio específico do espírito (aliás, somente no século XVIII irá se instaurar uma separação, fundada em princípios, entre a esfera da estética e as da teorética e da ética) (...)". Ver: PANOFSKY, Irwin. Idéia: a evolução do conceito de belo. 2ª edição. Tradução: Paulo Neves. São Paulo, Martins Fontes, 2000, p. 8.

7
Ver: YARZA, Florencio I. Sebastián. Dicionario Griego-Espanõl. Barcelona, Rámon Sopena, 1954; e PEREIRA, Isidro S. J. Dicionário Grego-Português e Português-Grego. 5ª edição, Porto, Apostolado da Imprensa, 1976.

8
VIDAL-NAQUET, Pierre. O mundo de Homero. Tradução: Jônatas Batista Neto. São Paulo, Companhia das Letras, 2002.

9
Idem, Ibidem, p. 106.

10
VERNANT, Jean-Pierre. Op. cit., 2002, p. 357.

11
Na tragédia de Ésquilo, Prometeu, Vernant observou a mesma questão: "Por outro lado, não se encontram traços na tragédia de qualquer reserva em relação ao técnico. Nenhuma oposição se marca entre ciência pura e as artes da utilidade: na lista de seus benefícios, Prometeu coloca no mesmo plano a ciência dos números, a arte de domar os cavalos e a exploração das minas". Ver: VERNANT, Jean-Pierre. Op. cit., 2002, p. 321.

12
DEBRAY, Régis. Op. cit., p. 172.

13
BAYER, Raymond. 1979, p. 37.

14
PLATÃO. República. 605a

15
Esta interpretação que nomeamos de "canônica" pode ser lida em Panofsky: "Platão, que conferiu ao sentido e ao valor metafísico da Beleza fundamentos universais, e cuja teoria das Idéias adquiriu para a estética das artes plásticas uma significação cada vez maior, não foi capaz, no entanto, de julgar equanimemente estas mesmas artes plásticas" (PANOFSKY, Irwin. Op. cit., 2000, p. 7). Jaeger, porém, analisando esta questão à luz da paidéia, determina-a de maneira mais matizada: "Encontramo-nos aqui numa viragem da história da paidéia grega. A luta trava-se em nome da verdade contra a aparência. Recorda-se de passagem que a poesia imitativa devia ser desterrada do Estado ideal que se pretende fundar. E como nunca nem em parte alguma, talvez, se poderá vir a realizar o Estado ideal, como Platão acaba de declarar, o repúdio da poesia não significa tanto o seu afastamento violento do Homem, como uma delimitação nítida da influência espiritual para quantos aderirem às conclusões de Platão" (JAEGER, Werner. Paidéia: a formação do homem grego. Tradução: Artur M. Parreira. 3ª edição, São Paulo, Martins Fontes, 1994, p. 982). A questão da paidéia, se determina a inferioridade social dos produtores de imagens em relação aos filósofos, produtores do verdadeiro conhecimento, coloca, no entanto, os poetas ao lado destes últimos: "Sem dúvida, os verdadeiros representantes da paidéia não são os artistas mudos – escultores, pintores, arquitetos –, mas os poetas e músicos, os filósofos, os retóricos e os oradores, quer dizer, os homens de Estado" (Idem, Ibidem, p. 18).

16
259 e

17
Comentando partes da obra platônica Raimundo Araújo afirma: "O arquiteto possui elementos de saber teórico, capacidade de "construção especulativa" que podem ser transmitidos por um ensinamento de caráter lógico, isto é, como um movimento articulado do lógos (discurso, razão) diferente da aprendizagem prática que não precisa necessariamente de teoria mas das repetições de ações. No primeiro, o tipo de aprendizagem capacita o aprendiz a dominar os fundamentos do saber, daí a expressão "saber teórico" ou "epistêmico"; no segundo, há uma repetição de comandos por desconhecimento dos fundamentos. O architékton em sua atividade de construção apóia-se em uma téchne que é, de algum modo teorética, isto é, que se apresenta sob a forma de uma teoria mais ou menos sistemática". Ver: ARAÚJO, Raimundo. “O solo histórico da noção de techne e a reflexão de Platão na República”. In: Technê. São Paulo, EDUC, Palas Athena, 1998, p. 95.

18
JAEGER, Werner. Op. cit., p. 897.

19
Xenofonte. Mem., III, 8, 8-10. A nossa tradução para o Português foi realizada a partir da tradução de língua inglesa. O texto em Inglês, assim como o original grego, pode ser consultado no site: <www.perseus.tuft.edu/>. Para a tradução em Português pode-se consultar: XENOFONTE. Ditos e feitos memoráveis de Sócrates. Tradução: Jaime Bruna; Líbero Rangel de Andrade; Gilda Maria Reale Strazynski. 5ª edição, São Paulo, Nova Cultural, 1991. Esta edição, no entanto, não apresenta o texto na íntegra.

20
Tomamos o termo emprestado a Vitrúvio: "É necessário que conheça a ciência da medicina por causa das alterações no firmamento que os gregos denominam clímata (...)". Em nota da edição brasileira lemos a explicação do termo: "diferentes inclinações do sol; daí o termo climas". Ver: POLIÃO, Marco Vitrúvio. Da arquitetura. 2ª ed. Tradução: Marco Aurélio Lagonegro. São Paulo, Hucitec, Annablume, 2000, p. 52.

21
Mem., IV, 2, 8-10. Ver nota 17.

22
Na tradução inglesa temos: "One needs a well-stored mind for that too". Na tradução da edição brasileira lê-se: "A arquitetura também exige instrução".

23
IDRISI, apud PEDRERO-SÁNCHEZ, Maria Guadalupe. História da Idade Média – textos e testemunhas. São Paulo, Unesp, 2000, p. 55.

24
ARGAN, Giulio Carlo. Clássico anticlássico: o Renascimento de Brunelleschi a Bruegel. Tradução: Lorenzo Mammì. São Paulo, Companhia das Letras, 1999.

25
livro VI, 4, 2-6

26
981 b

27
Em Atenas, uma das significações do termo archetekton é "administrador de teatro". Ver: PEREIRA, Isidro S. J. Op. cit., 1976, p. 85.

28
VERNANT, Jean-Pierre. Op. cit., p. 361.

29
XENOFONTE, Ciropédia. VIII, 2, Apud: VERNANT, Jean-Pierre. Op. cit., 2002, p. 342.

30
Ver nota 17.

31
VERNANT, Jean-Pierre. Op. cit., p. 336.

32
Jaeger, no entanto, discordaria desta asserção, ao menos no que se refere aos médicos: "O 'juramento' hipocrático, que deviam prestar os que queriam ingressar na agremiação, continha entre outras a obrigação solene de guardar o segredo da doutrina. Era, geralmente, de pais e filhos que ela se transmitia, uma vez que estes podiam suceder àqueles no exercício da profissão. As pessoas estranhas, ao serem aceitas como discípulos, eram equiparadas aos filhos. Em troca, obrigavam-se a transmitir gratuitamente a arte médica aos filhos que o seu mestre deixasse morrer. Outro traço muito típico era também o de os discípulos se casarem, tal como os aprendizes, dentro da corporação" (2000, p. 1011, destaque nosso).

referências bibliográficas

ARISTÓTELES. Ética à Nicômano. Coleção: Os Pensadores, volume II, Tradução: Leonel Vallandro e Gerd Bornheim. São Paulo, Nova Cultural, 1991.

ARISTÓTELES. Metafísica. Tradução: Givanni Reale. São Paulo, Loyola, 2002.

LIMA, Adson C. Bozzi R. “Arquitetura: a historicidade de um conceito”. In: Interpretar Arquitetura. volume 4, n. 7, jul. 2004. Disponível em: <www.arquitetura.ufmg.br/ia/>

PLATÃO. Político. Coleção: Os Pensadores, volume III, Tradução: Jorge Paleikat e João Cruz Costa. São Paulo, Abril Cultural, 1972.

PLATÃO. A República. Tradução: Albertino Pinheiro. 6ª edição. São Paulo, Atena, 1956.

PUENTES, Fernando Rey. “A téchne in Aristóteles”. In: Technê, São Paulo, EDUC, Palas Athena, 1998.

XENOPHON. Cyropaedia. Disponível em: <www.perseus.tuft.edu/>. Acessado em 21/01/2005.

XENOPHON. Memorabilia. Disponível em: <www.perseus.tuft.edu/>. Acessado em 24/01/2005.

sobre o autor

Adson Cristiano Bozzi Ramatis Lima, arquiteto e urbanista, Mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Espírito Santo, Doutorando em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, Autor do livro Arquitessitura ? três ensaios transitando entre a filosofia, a literatura e arquitetura. Professor Assistente da Universidade Estadual de Maringá, Departamento de Arquitetura e Urbanismo

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