Your browser is out-of-date.

In order to have a more interesting navigation, we suggest upgrading your browser, clicking in one of the following links.
All browsers are free and easy to install.

 
  • in vitruvius
    • in magazines
    • in journal
  • \/
  •  

research

magazines

architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
Neste artigo a autora relaciona a arquitetura de Shigeru Ban a alguns episódios de desastres naturais, onde a contribuição do arquiteto com a sua técnica de construção baseada em materiais leves e baratos foi de enorme importância

english
In this article the author relates Shigeru Ban's architecture to some episodes of natural disasters, when the skills of this architect through the use of light and inexpensive materials and his technique, helped enormously

español
Este artículo relaciona la arquitectura de Shigeru Ban y algunos momentos de desastres naturales, donde el arquitecto fue capaz de contribuir con su técnica y uso de materiales ligeros y baratos


how to quote

CAMPOS, Bruna Caroline Pinto. Shigeru Ban e sua contribuição para a arquitetura efêmera. Arquitextos, São Paulo, ano 10, n. 115.04, Vitruvius, dez. 2009 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/10.115/5>.

Sigheru Ban – O arquiteto

“La gran diferencia entre muchos arquitectos y artistas japoneses y los del oeste, es que la diferencia entre “influencia” y “copia” está muy clara. Debido a que no se puede definir claramente esta diferencia, tenemos que concretar estos parámetros por nuestra cuenta.” (1)

Aficionado pelo estilo do New York Five, decidiu fazer seu curso de arquitetura na Cooper Union, onde estudaram Peter Eisenman, Richard Meier e Hejduk, três dos cinco componentes do NY Five. Finalizado seu curso, retornou ao Japão e mesmo sem experiência começou a realizar trabalhos por sua conta, produzindo exibições para Emilio Embasz e Judith Turner, onde se podia perceber seu estilo geométrico (2). Ele mesmo define sua forma de projetar como original, soube aprender dos estilos passados e contemporâneo, sem imitações buscando uma maneira nova de pensar. O uso do papel como material corriqueiro em suas obras é exemplo disso, seu estilo se moldou em um eixo principal: os tubos de papel. Além de sua sensibilidade, a cultura japonesa o impulsionou. O papel é muito comum no Japão e usado de diversas maneiras, como o bambú por exemplo.

No Japão até hoje se acredita que o solo é um lugar sagrado e deve ser respeitado, assim que as experiências que teve com as construções para refugiados de catástrofes naturais, principalmente em Kobe, foram de grande relevância. Teve oportunidade de dar uma resposta arquitetônica para as necesidades daquele momento, a qual foi perfeitamente assimilada para aqueles para quem servia o espaço construído. A resposta veio diretamente dos usuários, do momento pelo qual passavam, suas necessidades reais, e Ban soube captar e devolver o que realmente eles precisavam. David N. Buck (3) comenta com base nas ideias de Mies van der Rohe que: “la arquitectura no es un arte individualista, sino que depende del tiempo”, concluindo assim que Ban está preparado para representar uma diferença fundamental. Complementa Matilda McQuaid (4): “His work has profound relevant because of its ability to draw together both world events and personal beliefs”. Trabalha sem limites, tentando buscar uma visão geral da necessidade para solucionar seus problemas, logo assimila novos métodos, ainda que saiba que o novo não é perfeito.

Para McQuaid (5) Ban não se preocupa com a ornamentação, em formas muito elaboradas ou alta tecnologia, se preocupa mais com a estrutura, materiais simples, criando novidades explorando a reelaboração do que já existe. Para Buck (6), o papel reciclado permitiu qualidade na criação de seus espaços além de ser um material alternativo que respeita a natureza e evita sua degradação,   bem como interage com a preferência japonesa pelo uso de materiais naturais nas moradias. A fabricação é simples, explica McQuaid (7), começa com a polpa saturada em água, logo se corta em tiras e se coloca para saturar com cola. Em seguida são passadas em um espiral em uma barra metálica que quando retirado, no final, cria um espaço interno oco. Pode ser fabricado em diferentes diâmetros, espessuras e comprimentos, dependendo do uso. Reciclados, criam um ciclo sem fim de reuso.  A cor marrom dos tubos de papel recordam o uso da madeira que sempre foi muito fraquente. A experiência de Ban demonstra que junto com os projetos para a clientela particular e para os organismos públicos, também trabalha para a sociedade no sentido mais amplo da palavra, afirma Buck (8).

Obras de Shigeru Ban realizadas em tubos de papel

Inicialmente Ban participou de uma série de exposições usando suas realizações com papel. Tudo muito simples ainda que a necessidade de realizar algo bem feito em pouco tempo provoca a necesidade de ter boas ideias muito rápido. Pôde realizar testes e melhoramentos em suas investigações e propostas, o que posibilitou habilidade e destreza no uso de papel, como pôde comprovar várias vezes em um curto período de tempo, possibilidades e soluções, ter ideas inteligentes e criativas.

Em princípio realizou a exibição da fotógrafa Judith Turner em 1986. Devería ter em conta a relocação em vários outros lugares e prever a falta de iluminação. Foram criados painéis ajustáveis e montáveis, sistema este que pasou a ser produzido como produto padronizado, possibilitando usufruir de várias novos arranjos. (9)

Atraído pelos tubos de papel devido ao baixo custo, facilidade de relocação, low-tech (10), conservação da cor natural e produzindo pouquíssimo resíduo, Ban começou de fato a explorar o material em função estrutural em pequena escala em 1986 para a exibição de Alvar Aalto, “Mobiliário e Vidro”   em Nova York no Museu de Arte Moderna, MOMA, e logo na Galeria Axis em Tokio (11). Foi criado um interior onde se pudesse expor as criações de mobiliário, que por motivos de orçamento teve um uso limitado de madeira, que era jogada fora ao final da exibição (12). Assim, foi possível propor o uso dos tubos de papel reciclado de vários tamanhos, os quais passaram por processos de impermeabilização e tratamento de resistência ao fogo, que ao final tiveram uma grande qualidade estrutural e de apresentação encorajando mais testes e inclusive estudos estruturais com o professor Gengo Matsui da Universidade Waseda, com o Centro de Tecnologia Industrial de Tokio e o centro de pesquisas do fabricante. Os diámetros e os tratamentos de resistência contra água e fogo foram aperfeiçoados, o uso do reforço estrutural no oco dos tubos, além de se detectar a boa capacidade de isolamento acústico e térmico,   foram muitos dos estudos que permitiram o uso do material em projetos seguintes (13).

De fato, o Ministério da Construção, só permitiu construir algo permanente com estrutura de tubos de papel em 1993, através do projeto da casa de papel, sucedendo na construção de uma série de projetos (14). Segundo McQuaid (2003), a casa de papel, teve como principal missão, inserir o uso do papel nas regulamentações na construção japonesa. Foi construída em 1995 em Yamanashi, residência de verão do própio. Tem cento e dez tubos de papel estruturais aparafusados em sua base por uma junta de madeira (2700mm de extensão, 280mm de diâmetro e 15mm de espessura) ancorados na fundação da planta de 10m x 10m de onde se ergue em formato de S, sujeitando a coberta tal qual a planta, criando dois espaços circulares principais, onde o maior formado por oitenta tubos que suportam cargas e abriga dormitório, cozinha, estar, armário móvel, divididos em uma única zona, dois ou três dependendo da disposição da fusuma (15) e do armário, como se faz tradicionalmente na maioria das casas japonesas. No círculo menor,   de tubos que não faziam parte da estrutura, existe um banheiro e um jardim. Externo aos círculos, estão os espaços exteriores: terraças e uma coluna de maior espessura que abriga um lavabo (16). Tem um discurso especial sobre a relação entre os espaços internos e externos, pois ao mesmo tempo que está dentro da casa pertences ao exterior, e virce-versa, devido à amplitude criada pela pouca divisão entre os espaços.

Se pode perceber a facilidade e adaptabilidade dos trabalhos de Ban claramente. Realizou trabalhos de cenografia para teatro e desfiles de moda. Trabalhou com o diretor Mannojo Nomura em Tokio em 1997, realizando o cenário para as cenas de uma performance baseada em uma mescla entre as culturas japonesa e chinesa, no Teatro Kabuki-za. Quatro tubos de papel concretizavam a ideia japonesa de espaço e tempo. As colunas de papel foram exibidas também na composição da passarela para o desfile da coleção de Issay Miyake em Paris, em 1998. Eram dezessete unidades de 13m de altura e 62cm de diâmetro localizadas de acordo com a disposição da constelação da Ursa Maior, por onde entre caminhavam os modelos (Shigheru Ban Architects, 2009).

Cada vez mais havia interesse no uso de papel nas obras, novas tipologias e necessidades. Para a Cúpula de papel, construída em Masudagun – Gifu, em 1998, foram exigidos mais testes sobre as juntas entre o papel e a madeira usada em sua construção. A estrutura proposta seria formada pela composição de três arcos sobre postos gerando um vão de 27,2m, as medidas totais de 28m x 25m de extensão e 8m de altura, dividido em dezoito sequências de tubos de papel de 1,8m de extensão e 29cm de diâmetro externo, devido à flexibilidade do material, unidos por juntas de madeira. Os tubos tiveram que passar por tratamento com poliuretano para criar impermeabilização devido à umidade e diferenças de temperatura que provocam expansão e contração do material (17).

Também usado em situações emergenciais, os tubos de papel fizeram a estrutura de tendas para cerca de dois milhões de refugiados do genocídio da Tanzânia e Zaire, em Ruanda, África, em 1995. Realizado por Ban em paceria com o Alto Comissionado das Nações Unidas para os Refugiados – (United Nations High Commission for Refugees – UNHCR), o qual providenciou vários plásticos de 4m x 6m para vedar o local. Os abrigos criados tinham problemas com relação ao material estrutural que, como não eram fornecidos pela UNHCR, eram buscados na própia natureza pelas pessoas, gerando problemas de desflorestamento. Foram realizados vários estudos em uma primeira fase quanto ao material, sua durabilidade, seu custo, resistência térmica e ordenação espacial, com base em três protótipos. A solução encontrada estava no terceiro protótipo que permitia maior área livre dentro do abrigo e união com outros mais, criando áreas com outras funções. A estrutura era de papel, depois de vários testes com bambú, alumínio e plástico, que são de baixo custo, podem ser produzidos no local, gerando pouco resíduo, são fáceis de transportar e montar (18).

O coreto de papel foi uma obra e experimento importante nos estudos de Ban e Matsui, devido ao tempo de exposição do material onde se pôde comprovar a eficácia da cola usada em sua construção, com suas propriedades melhoradas, preservando a propriedade estrutural. Criada para que se pudesse escutar al suikinkitsu (19) na Design Expo em Nagoya em 1989, o coreto foi erguido em uma base circular de concreto que servia como fundação para os tubos de papel (de 4m de extensão, 330mm de diâmetro e 15mm de espessura) sustentados individualmente servindo como fechamento e sustentação da coberta. Por precaução, foi construída antes do prazo para que se pudesse fazer ajustes em seus detalhes técnicos, como por exemplo a necessidade de retirada de algumas juntas para criar entrada/saída de ar, detalhe este que criou um efeito de luz e sombra quando acesa de noite (20).

Depois de várias experiências com o sistema construtivo com base em papel reciclado, em 1991 Ban fez sua primeira obra permanente com este material. Uma biblioteca, anexo de uma casa localizada em Zushi criada com base em quatro estantes que serviam também de estrutura para a composição da malha feita com tubos de papel e juntas de madeira capazes de apoiar o fechamento e a coberta arqueada. O uso de móveis como componente estrutural culminou na criação de um novo sistema construtivo: “Furniture House” (21).

A igreja de papel, construída em 1995 tem uma importância singular nos trabalhos de Ban. Premiada pelo Instituto Japonês de Arquitetura, um trabalho de reconstrução para a igreja de Takatori queimada em um incêndio provocado por um terremoto em Janeiro de 1995 em Kobe.. Cento e sessenta pessoas desabrigadas trabalharam durante cinco semanas como voluntários na construção, fazendo do uso de papel na igreja um fator chave como material de baixo custe e fácil montagem/desmontagem. A estrutura de papel foi usada devido ao pouco tempo que havía para o início das obras. Sua planta era de 10m x 15m em aço onde estavam dispostas paredes de painéis de policarbonato translúcido e cinquenta e oito tubos de papel de 5m de extensão (330mm de diâmetro e 15mm de espessura) dispostos de forma elíptica criando um grande vão com capacidade para oitenta pessoas sentadas (22).

“la respuesta de Ban era simples y convincente. Aunque los materiales con los que se realizó la estructura puedan considerarse poco ortodoxos, se trataba sin ninguna duda de un edificio religioso, con sus espacios sutilmente estratificados y llenos de dignidad y reverencia. (…) mundo natural: la luminosidad de un bosque brumoso: diáfanos rayos de luz que atraviesan un laberinto de troncos; (…) El silencio fue la voz que utilizó Ban.” (23)

Segundo Buck (24), Ban trabalhou diretamente com a comunidade a qual participou da definição do programa arquitetônico e da construção. Hoje a igreja está em Taiwan, reconstruída tal qual como pôde servir em Kobe durante dez anos, de acordo com as últimas notícias publicadas pelo escritório de Ban em 2009.

Ban, segue provando a capacidade do uso do papel e de criação de uma arquitetura alternativa que possa subsidiar inclusive aqueles que não podem ter um espaço digno de morar depois de um momento imprevisto provocado por um fenômeno natural. As cabanas de papel foram geradas pela necesidade de abrigar pessoas depois da destruição de suas casas por fenômenos naturais que ocorreram no Japão, Turquía e Índia. Em 1995 em Kobe a proposta dos abrigos para os desabrigados no terremoto de Nagata-Ku, foi muito bem aceita devido âs vantagens quanto ao: custo, montagem/desmontagem, fabricação, tempo de manipulação, isolamento térmico satisfatório, resultado estético presentável, transporte e armazenamento, tudo isso sem perder a capacidade de um espaço com privacidade, conforto, proteção e favorável às atividades dessas pessoas, obviamente o mínimo necessário, mas trazendo inclusive a dignidade e o direito de viverem abrigados outra vez. A cabana, fabricada por voluntários, composta por uma base fabricada com caixas de cerveja alugadas preenchidas com areia, fechamentos em tubos de papel de 108mm de diâmetro e 4mm de espessura, vedados com uma cinta de espuma auto adesiva capaz de resistir à água. O teto era de lona montado de maneira tal que se podia abrir e fechar para a passagem do ar (25). Cada casa teve um custo de 250,000 rupias indianas (26) e eram recicláveis o que facilitou a busca de financiamento. Eram necesárias oito horas para a construção das seis primeiras casas e em um mês se pôde fazer vinte e uma, com a ajuda de uma equipe de dez voluntários mais um líder por cada unidade. McQauid comenta ainda que a concepção dos abrigos era o mais importante, baseado em um sistema simples de expressão. Os materiais sempre existiram, mas os conceitos variam de acordo com cada projeto. A necessidade de encontrar o material mais barato, mas que fossem seguros para os abrigos temporários, por exemplo, foi o que gerou o desenho deste projeto.

“Anyone who participates in the construction of a paper log house in that situation could not find himself spiritually untouched. Moreover, is different to construct temporary housing with one´s own labor as opposed to simply purchasing reddy-made accommodations. Even if the paper log house themselves were pulled down alter several years, they will remain in the minds of the people who built and lived in them.” (27)

Em 2001 foi a vez de Bhuj na Índia, depois de um terremoto fortíssimo que chegou a 7,9 graus na escala Richter deixando cerca de 600.000 pessoas sem casa. Ban pôde fazer   uma parceria com o escritório local Kartikeya Shodhan Associates, indicado pela mesma pessoa que o contactou e patrocinou a construção de vinte abrigos, uma mulher de negócios: a senhora Neeta Premchand. Foram usados tubos de papel de 3,2m x 4,9m para estruturar as paredes e se teve que adaptar a fundação usando escombros e chão de barro, e para a cobertura, divisões de bambú fechadas com plástico (28).

A senhora Premchand, responsável por contactar com Ban para as cabanas na Índia, conheceu em 2000, o trabalho realizado para o pvilhão do Japão na Expo de Hannover. Ela acreditava que poderia fazer algo parecido ou pelo menos com o conceito, técnicas e materiais usados no pavilhão, este que foi um desafio e uma experiência na qual se pôde realizar uma grande inovação plástica e formal. Já se sabia como criar curvaturas com os tubos como fez em trabalhos como o arco de papel também em 2000 em Nova York nos jardíns do Museu de Arte Moderna e na cúpula de papel em 1998. Criou com a ajuda do arquiteto alemão Frei Otto, o pavilhão do Japão com 3.100m2, na Expor Hannover, na Alemanha, que tinha como tema: Humanidade-Natureza-Tecnologia: Um Novo Mundo Surge. Foi uma construção que conseguiu sobreviver a muitos imprevistos, que demarca um avanço na tecnologia do papel, inclusive porque tinha como meta a mínima produção de resíduos e que o material usado pudera ser reaprovitado de alguma maneira. A ideia foi fazer uma casca ondulada de 74m x 25m x 16m composta por quadrículas de extensos tubos de papel apoiada em uma primeira base formada por um entramado tridimensional, o que reduziría o alto custo de fabricação das juntas de madeira e ainda seria capaz de suportar esforços laterais e de criar a forma S. A união dos tubos foi feita com junções de madeira, tecido e juntas metálicas. Ban ainda queria eliminar o uso de madeira devido ao tema da sustentabilidade, e o uso do tecido fazia a vez para criar o ângulo necessário para curvar os tubos em três dimensões. Otto propôs a criação de uma segunda membrana de arcos para melhorar os apoios e fixar a coberta feita com o mesmo material usado em bolsos de entrega, um papel inflamável com reforço de fibra de vidro e uma cinta de polietileno laminada inflamável. As fundações foram feitas com caixas de aço cheias de areia. O pavilhão foi um êxito em coerência com o tema e com as regulamentações alemãs de construção, uma experiência grandiosa que gerou uma estrutura completamente reciclável (29).

O Museu Nômade foi outro grande trabalho, sua área era de 4.500m2, 20m de frente e 205m de extensão feito em tubos de papel e cento e quarenta e oito contêineres, teve sua primeira montagem em Nova York – USA em 2005. Em 2006 foi transferido para Santa Mônica (USA), e teve suas dimensões alteradas. Dividido em duas grandes galerias paralelas de 100m de extensão, com um espaço coberto entre elas adicionando tendas e cinema. Logo foi instalado em 2007 em Tokio (Shigheru Ban Architects, 2009).

Seguindo com o tema dos museus efêmeros, a proposta para o New York´s Solomon R. Guggenheim Museum em Tokio, foi realizada para um concurso em 2001 onde Ban pôde competir ao lado de dois ícones atuais da arquitetura, Zaha Hadid e Jean Nouvel. A proposta foi dividida em três partes, cada uma referente a três fases diferentes do projeto que exigíam mudanças. A primeira fase tinha como requisitos: Uma construção de 7.000m2, com vida útil de dois anos, tempo para projetar e construir de um ano. Ban propôs uma colunata na fachada da entrada usando o material usado no pavilhão do Japão. Para a fase dois se pedia vida útil de dez anos e o tempo de projeto e construção, dez meses. Ban criou um único elemento, uma pilha de contêineres de 30m de altura com nove enormes persianas la fachada com vista para o mar. Fez modificação de materiais e usou um sistema construtivo mais eficiente baseado no uso adicional de concreto e aço para prevenir incêndios. Os espaços foram divididos através de uma estrutura interna de papel que media 23m x 30m x 84m, na qual estava montada uma membrana transparente para melhorar o controle climático do ambiente. “This combination of material made the building easy to disassemble, transport, and rebuild in another location.” (30).

A versão final foi simplificada: desenvolveu a ideia das persianas dentro de uma estrutura de aço. As quatro fachadas eram compostas por essas persianas fabricadas em fibra de vidro transparente que quando fechadas dava a impressão de que o museu estava translúcido e quando aberta aparecia a membrana branca, responsável pela divisão dos espaços, como segunda pele permitindo quando retiradas mostrar o interior (31).

O arco de papel, localizado no Abby Aldrich Rockefeller Sculpture Garden no Museu de Arte Moderna de Nova York, o MOMA, era uma estrutura pura de papel de 9,1m de altura e extensão de 26,5m todo em tubos de papel, que transformou o espaço em uma grande sala de exposição ao ar livre, uma instalação temporária. O museu pretendia expor os avanços atuais nas construções e a proposta de Ban foi baseada em seus trabalhos com papel. A construção do arco foi feita em Maspeth, NY, onde a unidade foi dividida em oito partes para facilitar o transporte até o museu, onde foi erguido com a ajuda de uma grua e logo montado. Mais uma vez Ban fez o elemento arquitetônico de maior destaque o telhado, inspirado na experiência de Hannover.

Seus trabalhos mais recentes dentro do tema de estruturas efêmeras são de menor escala e vários realizados na França. Em Paris, foi convidado pela marca Louis Vuitton para criar um espaço expositivo baseado em seus bolsos. Se criou uma cúpula com estrutura de papel, protegida com uma membrana de PVC branco na terraça da loja, inspirada no trabalho têxtil da bolsa Papillon. E no Palácio de Versalles em 2006 fez o cenário para um show onde criou uma caixa têxtil para cobrí-lo a qual era erguida no início do espetáculo por duas maquinárias laterais que funcionavam como colunas móveis.

A importância de Ban e do uso do papel na construção

A arquitetura de Shigeru Ban é singular. É possível encontrar algo parecido, mas o trabalho dele será sempre reconhecido. “He will surelly play an important role in the years to come.” (32). O fato é que Ban superou o juízo comum, o fato de agradar ou não. O desenvolvimento do uso do papel na arquitetura já não é mais uma dúvida. É real, é possível e ainda é importante e necessário. A arquitetura deve ser durável o tempo que seja preciso, não importa se para uma hora, um século ou séculos.

McQuaid (33) acredita que uma das mayores contribuições de Ban foi suas pesquisas e o aprimoramento da utilização do papel nas construções. Toma partido de um material simples e banal, conservando suas características, melhorando suas qualidades e criando um forte material estrutural. O uso do papel tem implicações específicas de acordo com o lugar, mas os conceitos gerais têm implicações de grande magnitude, que podem variar com o contexto e programa.

Para ele, resistência e sustentabilidade, dependem da técnica construtiva e do quanto se conhece as qualidades do material usado. Ban se refere ao papel como madeira revestida, dizendo que o papel e a madeira compartilham muitas similaridades, inclusive um é fonte para o outro.

“Esa es la gran simplicidad y banalidad del papel que Ban cita en las descripciones del poder y belleza del material. Ban conserva las características modestas de los tubos de papel, mejorando sus calidades fundamentales para crear un sólido material estructural. Mientras él está transformando tubos en monumentales columnas o fantásticas estructuras, pudo cambiar para siempre nuestra noción de debilidad, durabilidad, y naturaleza efímera del papel.” (34)

As investigações de Ban abrem portas para novos experimentos e estudos de novos materiais. Para ele, o uso do papel tem posibilidade de crescer cada vez mais e para isso é necessário estudo continuado e novas técnicas para sua aplicação. Complementa Buck (35), dizendo que ainda que seja um material frágil em relação à outros, tem fácil aplicabilidade e pode ser usado como alternativa em vários tipos de construção, ainda mais favorece o desenvolvimento sustentável sem impactos negativos.

Existe uma lógica visual, que transcede uma simples recompilação de fragmentos de formas e que se vê reforçada pelo uso de materiais previamente inexplorados para criar espaços completamente novos. Existe também uma lógica social, que, através da exploração de regiões previamente desconhecidas para a conciência arquitetônica japonesa, permite construir espaços que respondem a ideais sociais mais elevados.

Julgem como julguem seus edificios no futuro, seu trabalho agora tem uma importância que vai além do puramente formal.

“No sólo la cantidad, sino la calidad de la arquitectura social es un fenómeno del diseño del siglo XX. Por supuesto, me gustaría hacer algunas piezas relevantes de arquitectura, pero con tantos desastres naturales o causados por el ser humano, es muy importante para nosotros, las personas que nos dedicamos a la arquitectura, enfrentarnos a los problemas de vivienda.” (36)

Ban enfoca o século XXI como o prognóstico de uma época na qual a arquitetura se verá compelida a abraçar ativamente inquietudes mais amplas, inclusive tendo em conta a responsabilidade em referência ao meio ambiente.

notas

1
BAN apud BUCK, David N. Shigeru Ban. 1ª ed. Barcelona, Gustavo Gili, 1997, p. 5.

2
BAN, Shigeru. Shigeru Ban. London, Laurence King, 2001.

3
BUCK, David N. Op. cit., p. 06.

4
MCQUAID, Matilda. Shigeru Ban. 1ª ed. London, Phaidon Press Limited, 2003, p. 6.

5
Idem. ibidem.

6
BUCK, David N. Op. cit.

7
MCQUAID, Matilda. Op. cit.

8
BUCK, David N. Op. cit.

9
Idem. Ibidem.; BAN, Shigeru.Op. cit.

10
Low-tech
contrário de High tech, que significa alta tecnología, low tech significa algo realizado com uma tecnologia mais simples, de fácil assimilação.

11
BUCK, David N. Op. cit.; MCQUAID, Matilda. Op. cit.

12
BAN, Shigeru. Op. cit.

13
BUCK, David N. Op. cit.; BAN, Shigeru. Op. cit.

14
BUCK, David N. Op. cit.; BAN, Shigeru. Op. cit.; MCQUAID, Matilda. Op. cit.

15
Segundo McQUAID, Matilda. Op. cit., fusuma são as divisórias, paredes corrediças presentes na arquitetura japonesa, principalmente no interior das casas.

16
BAN, Shigeru. Op. cit.; MCQUAID, Matilda. Op. cit.

17
MCQUAID, Matilda. Op. cit.

18
BUCK, David N. Op. cit.; BAN, Shigeru. Op. cit.; MCQUAID, Matilda. Op. cit.

19
Instrumento musical típico japonês.

20
BUCK, David N. Op. cit.; BAN, Shigeru. Op. cit.

21
MCQUAID, Matilda. Op. cit.

22
BUCK, David N.Op. cit.; MCQUAID, Matilda. Op. cit.

23
BUCK, David N.Op. cit, p.04

24
Idem. Ibidem.

25
BUCK, David N. Op. cit.; BAN, Shigeru. Op. cit.

26
Equivalente a 4.960,32 dólares americanos, ou 3.746,49 euros, de acordo com a conversão do Banco Central do Brasil em 9 de abril de 2009.

27
BAN, Shigeru apud MCQUAID, Matilda. Op. Cit, p.14.

28
MCQUAID, Matilda. Op. cit.

29
BAN, Shigeru apud MCQUAID, Matilda. Op. cit.

30
MCQUAID, Matilda. Op. cit., p. 230.

31
Idem. Ibidem

32
Idem. Ibidem, p. 5.

33
Idem. Ibidem.

sobre o autor

Arquiteta e Urbanista graduada pela Unversidade Potiguar em Natal/RN. Pós graduada em Arquitectura, Arte y Espacio Efímero: escenografia, eventos y conceptos escénicos pela Fundación UPC de Barcelona/España, com curso de extensão em Stands Comerciales pela BAU - Escuela de Disseny também em Barcelona. Atualmente, doutoranda na Universidad Politécnica de Cataluña (Barcelona/ES) em Comunicación Visual en Arquitectura y Diseño.

comments

newspaper


© 2000–2019 Vitruvius
All rights reserved

The sources are always responsible for the accuracy of the information provided