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architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
O artigo objetiva analisar as diferentes fisionomias da cidade moderna no contexto da produção historiográfica contemporânea. Para tanto, entre as contribuições teóricas, destacam-se os autores Michel de Certeau e Michel Foucault

english
The article analyzes some different physiognomies of the modern city in the context of contemporary historiographic production. Among the contributions, we can detach the authors Michel de Certeau and Michel Foucalt

español
El artículo se propone a analizar las diferentes fisionomías de la ciudad moderna en el contexto de la producción historiográfica contemporánea. Para eso, entre las contribuciones teórica a, se destacan los autores Michel de Certeau y Michel Foucalt


how to quote

BURITI, Iranilson; ARAÚJO, Silvera Vieira de; MARTINS, José Clerton de Oliveira. Ruídos, marcas e caminhos na escrita da cidade moderna: apontamentos de um balanço historiográfico. Arquitextos, São Paulo, ano 10, n. 115.07, Vitruvius, dez. 2009 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/10.115/8>.

Introdução

Vários olhares visitaram e visitam a cidade. Homens e mulheres que entram pelas suas portas, adentram o cotidiano urbano, passam, olham, captam os sentidos e os sons, estudam seus personagens, sentem os odores e sabores que invadem ruas e becos, praças e coretos, estações de trens e transportes. Ruídos que marcam a escrita de diversos profissionais, dentre os quais geógrafos, urbanistas, arquitetos, sociólogos, historiadores que têm lançado olhares diversos sobre a cidade, principalmente a cidade no contexto da modernidade. Segundo Souza, “a cidade moderna adquire diversas fisionomias, entre elas, a cidade do capitalismo, do trabalho, a cidade do progresso, a cidade do lazer” (1). Também podemos acrescentar outras tipologias que atualmente tem sido atribuída à cidade, como a cidade bela, higiênica, desodorizada, arborizada, sentida pelo olfato, pelos olhos dos transeuntes.

Atualmente, diversos estudos no âmbito da historiografia têm focalizado a cidade enquanto objeto de problematização, devido às múltiplas significações que esta adquire. Neste sentido, este trabalho pretende discutir os diferentes significados atribuídos à cidade nas produções historiográficas mais recentes, principalmente aquelas que dialogam com a história cultural. A cidade moderna que se pretende estudar é aquela que incorpora em seu cotidiano os elementos significativos da modernidade advindos dos desdobramentos da revolução industrial, entre eles o automóvel, o telefone, os aviões, o sistema de abastecimento de água e de esgotos, dentre outros.

Embora não tenha este texto a pretensão de definir o que é cidade, podemos destacar o conceito apresentado por Maria Stella Brescianni, em seu artigo “História e historiografia das cidades, um percurso”, segundo a qual a cidade “é um conjunto de significações acumuladas através do tempo, uma produção social, sempre é referida a alguma de suas formas de inserção topográfica ou particularidades arquitetônicas” (2). Essa produção social marca o cotidiano urbano, seus percursos, seus trajetos, seus dilemas, seus sonhos.

No âmbito desses movimentos cotidianos, Michel de Certeau considera a cidade como um tecido feito “de movimentos contraditórios que vai além do poder, não sendo um campo de operações programadas e controladas, pois se proliferam astúcias e combinações de poderes sem identidades” (3). Essas práticas dos habitantes comuns do tecido urbano são produtoras de espaços e jogam com a disciplina imposta pelos organizadores dos mesmos. A produção desses espaços ocorre a partir de várias práticas, tais como reformas urbanas, embelezamento de paisagens e sanitarização, mas também a partir do estabelecimento de códigos disciplinares e de interdições, elaborando o jogo entre o permitido e o proibido, o normal e o patológico, podendo-se afirmar que “ser habitante da cidade é estar ao mesmo tempo protegido e reprimido por suas muralhas” (4).

As portas urbanas: a cidade moderna na historiografia contemporânea

Em “As setes portas da cidade” (1991) (5), Maria Stella Brescianni analisa a história urbana e destaca as portas de entrada de estudo da cidade no âmbito da historiografia, fazendo uma analogia entre as portas de entrada da cidade antiga e as formas de estudo da cidade no contexto da produção historiográfica. Neste sentido, afirma a autora:

“a primeira porta: a técnica como instrumento de modificação do meio. Estrutura-se o sanitarismo sobre os saberes médicos e da engenharia, sempre tendo em vista, porém a preocupação filantrópica com a moralidade dos pobres; entre os objetivos de melhorar as condições de vida urbana esteve sempre o de civilizar seres semibárbaros. Assim, por meio da modificação do ambiente e em decorrência do corpo e dos comportamentos” (6).

Neste tipo de historiografia, prevalece a análise de práticas e discursos inseridos no espaço urbano, cujo objetivo é racionalizar e purificar a cidade dos resíduos toxicológicos. É a limpeza através da “porta do monturo”, expelindo o feio, o sujo, o lixo que se acumula em ruas e casas, sanitarizando a cidade em nome do progresso e da saúde pública. Expelem-se, através da “porta do lixo”, os resíduos que agridem o olhar dos novos habitantes da cidade, principalmente a partir do final do século XIX, quando esta prática ganhou visibilidade em vários países, dentre estes o Brasil. A discussão presente na historiografia sobre esta temática destaca os procedimentos de disciplinarização dos sujeitos que habitam a cartografia urbana, evidenciando o diálogo com Michel Foucault e seu conceito de tecnologias disciplinares (7). Foucault destaca que na sociedade moderna as tecnologias de disciplinarização dos corpos representam o desejo de padronização dos comportamentos com vistas a uma racionalização do espaço. As estratégias de organização do espaço urbano, lançadas por sujeitos que se situam em um lugar de poder e saber, como médicos, engenheiros e arquitetos, difundem um conjunto de ações e discursos no intuito de ordenar a cidade de acordo com os padrões de civilidade exigidos pela sociedade capitalista.

A obra de Sidney Chalhoub, “Cidade Febril”, analisa como os organizadores do espaço urbano (arquitetos, engenheiros, urbanistas, poder público, dentre outros) adotaram práticas de intervenção no Rio de Janeiro, no final do século XIX e início do século XX. Com o intuito de sanitarizar e embelezar a cidade com vistas à adoção de uma fisionomia moderna, fazia-se necessário eliminar os elementos feiosos e infectuosos da cidade. Dispensar o feioso era um diagnóstico presente em muitos discursos de intervenção. Dessa forma, a demolição do cortiço Cabeça de Porco, no Rio de Janeiro, significou uma medida de combate ao que se considerava um antro de sujeira, fealdade e monstruosidade, um cartão em nada postal que não se enquadrava na perspectiva de cidade moderna que os organizadores do espaço almejavam construir.

A questão social é vista como outra porta de entrada de estudo da cidade.moderna que, segundo Brescianni, é filha da Revolução Francesa. Somada à presença maciça de trabalhadores nas cidades, e nem sempre se comportando como instrumentos dóceis, a problemática social permite elaborar uma outra trama da história urbana. “São os personagens que falam, são relatos de filantropia e dos observadores sociais, pessoas preocupadas com o crescimento da parte pobre da população, com o aumento da insegurança” (8).

A narrativa historiográfica que focaliza os personagens da cidade, geralmente colocam que “as medidas de intervenção no espaço, visando desmontar grupos sociais e suas práticas nada condizentes com a civilização, mostraram-nos que esses segmentos não se tornaram simples contempladores da territorialização da ordem” (9). São personagens que amedrontam os gestores públicos, que gritam suas reivindicações, que exigem casa, trabalho e melhores salários. São homens e mulheres insatisfeitos com o desemprego e o subemprego que, na visão do poder público, precisam ser territorializados, adestrados, docilizados. Destruir o Cabeça-de-porco, por exemplo, constitui numa medida profilática, uma intervenção político-social e moralizadora, pois na opinião do poder constituinte, aquele cortiço era uma afronta às políticas de modernização e de sanitarização (física e moral) que estavam em voga no Rio de Janeiro. Em nome de uma cidade voltada para o progresso, adestrar o outro (visto como atrasado e rude) era uma medida urgente.

Considera-se que na cidade analisada sob o viés da questão social, os personagens como os mendigos, loucos, prostitutas e criminosos são problematizados como sujeitos desviantes, que sofrem procedimentos de disciplinarização para se enquadrarem às normas de convivência social estabelecidas pelas exigências da sociedade moderna e capitalista. As produções historiográficas, contudo, colocam que estes personagens não são passivos a tais estratégias de disciplinarização. São sujeitos que falam, reagem, burlam as normas, redesenham o território urbano com outros contornos nem sempre simpáticos aos gestores.

Neste sentido, Fábio Gutemberg B. de Sousa Ramos, ao narrar os personagens da cidade de Campina Grande no período de 1920 a 1945 destaca:

“Trazer à tona a diversidade de Campina Grande é uma forma de mostrar como as elites tentaram hierarquizar espaços, instituir valores. Mas também é compreender como muitos moradores vão constituir outras cartografias, burlando e ressignificando essa teia de valores e códigos que lhes tentaram impor” (10)

A cidade, para o autor, é um território de confronto, de múltiplos conflitos entre os personagens. É um espaço de fugas, de dribles, de hierarquias. Isto está em concordância com a concepção de cidade introduzida por Lepetit em seu livro “Por uma nova história urbana” no qual enfatiza que a cidade é um espaço de múltiplas significações e apropriações dos seus usuários. Assim como o texto é interpretado pelo leitor, a cidade é vista como um texto em que seus moradores constroem significados, elaboram seus enunciados.

Outra porta de análise da cidade é, segundo Brescianni (1991), a formação de identidades sociais em que há “uma representação da cidade dividida em duas classes: de um lado recobrir com um nome de burguês pessoas diversamente ocupadas com a fabricação de tecidos, carros e [por] outro recobrir com o nome de proletários uma miríade de pessoas sem propriedade” (11). As identidades sociais são tecidas no frenesi cotidiano da cidade, nas idas e vindas de seus habitantes, no vai-e-vem do trabalho, nos circuitos de poder, nas malhas viárias que os espaços urbanos oferecem. São pluralidades identitárias que fazem da cidade um espaço de constante disputa, um território de intrigas cotidianas entre os gêneros, entre os burgueses e proletários, entre os burgueses e burgueses e entre proletários e proletários. Uma guerra por afirmação e construção de referenciais de identificação. Uma “porta” que se abre para múltiplas identidades sociais, mas também culturais, políticas, econômicas e religiosas.

A formação de uma nova sensibilidade urbana, a questão da reeducação dos sentidos dos habitantes da cidade é outra maneira de se olhar a cidade, de senti-la em suas múltiplas dimensões, de enxergá-la como um território da multiplicidade. Walter Benjamim analisa a Paris do século XIX a partir das significações construídas pelo flâneur, um observador das malhas urbanas, mas também um sujeito que elabora significações sobre a cidade que observa (12). A exemplo do flâneur, somos também leitores da cidade, navegando nos limites de seus enunciados que, a primeira vista, parecerem homogêneos e ilegíveis, sugerindo uma prática cultural de leitura em que “compreender a semântica do espaço é adensar a confecção do cenário de imagens e sons, complexificando as múltiplas expressões fisionômicas dispostas no espaço” (13).

Peter Gay em “A experiência burguesa: da Rainha Vitória a Freud”, mostra que “essas grandes turbulências constituíam uma presença constante no século XIX, gerando sonhos de esperanças ou verdadeiros pesadelos” (14). Neste sentido, o autor analisa a questão da educação dos sentidos dos habitantes da cidade moderna, enfatizando as senilidades dos homens diante das constantes transformações e os medos, a insegurança, o desconforto diante da multidão, poluição e sujeira. São as múltiplas expressões fisionômicas, signos urbanos que se apresentam ao leitor da cidade e que exigem deste a capacidade de navegar por muitas águas urbanas, entrando em portas cheias de significados, ambientes polifônicos, num jogo de abundância de formas, mas insuficiência de palavras.

Raymond Willians em “O campo e a cidade: na história e na literatura” (1989) analisa a formação dessas novas sensibilidades urbanas no contexto da modernidade a partir da literatura de ficção, enfatizando que:

“há uma razão mais ampla para a ênfase nas transformações. Os que estavam habituados a ver seu meio ambiente imediato por intermédio de formas intelectuais e literárias previamente dadas tiveram de perceber, no século XVIII, uma outra modificação radical na paisagem: o rápido processo de expansão e transformação da cidade” (15).

A literatura, segundo o autor, focaliza e ao mesmo tempo legitima esse processo de transformação do espaço urbano, fornecendo indícios das novas percepções e usos do homem diante dessas transformações urbanas. Nesse percurso, o leitor das cidades terá que lidar com elementos diversos, que possuem interconexão, mas também imprevisibilidade. O leitor, diante das modificações do tecido urbano, parece paralisado pela multiplicidade de formas e expressões, de novos signos que emergem e de outros que são silenciados, pelo dito e pelo não-dito. Dentro desse conjunto de formas e expressões, podemos citar a cultura popular, vista como a sexta porta de entrada da cidade. Uma porta que se abre para acolher o que foi historicamente marginalizado, visto e dito como o território do outro, do diferente, do marginal. Entrar pela porta da cultura popular possibilita problematizar a cidade como um texto aberto a variadas interpretações, como um hipertexto para o qual convergem as múltiplas fisionomias que “canta uma multiplicidade de vozes autônomas, que se cruzam, relacionam-se, sobrepõem-se umas as outras, isolam-se ou se contrastam”. Além disso, estudar o elemento popular no tecido urbano permite sobrepor “melodias e harmonias, ruídos e sons, regras e imprevisões cuja soma total, simultânea ou fragmentária, comunica o sentido da obra” (16).

Por fim, a última porta de entrada de análise da cidade é a dos territórios da subjetividade. É no campo das subjetividades que a cidade pode ser problematizada como um “campo magnético” que atrai homens, mulheres e suas histórias. Campo de ricas e múltiplas experiências de sentir, cheirar, xingar, brigar, trabalhar, construir, higienizar a si e ao outro, registrar as formas de pensar, agir, remodelar o espaço. É o espaço urbano em cinco sentidos. No estudo das subjetividades, a cidade é a expressão daqueles que a habitam e a sentem em seu cotidiano, possuidora de conflitos, desilusões e utopias que elaboram o tecido da existência humana. A cidade é um território de subjetivação, atravessada pelo devaneio do amor, da paixão, da dor e do prazer. “Um teatro em cujo palco contracenam personagens que escrevem suas histórias dentro e para além dos seus muros” (17).

A percepção urbana constitui outra forma de abordagem da cidade, em que esta é materializada nas práticas e sentimentos dos seus habitantes, uma vez que:

“A percepção urbana é uma prática cultural que concretiza uma certa compreensão da cidade e se apoia, de um lado, no uso urbano, e de outro, na imagem física da cidade. Uso e hábito, reunidos criam uma imagem perceptiva da cidade que sobrepõe ao projeto urbano e constitui o elemento de manifestação concreta do espaço. Entretanto, essa imagem, por que habitual apresenta-se como homogênea e ilegível” (18).

A relação entre a cidade e a percepção que seus habitantes possuem dela têm sido abordada em algumas produções historiográficas que enfatizam “a cidade enquanto poetizada pelo sujeito: este a refabricou para o seu uso próprio, desmontando as correntes do aparelho urbano, ele impõe a ordem externa da cidade a sua lei de consumo” (19).

A cidade não é problematizada apenas enquanto símbolo de um poder que a organiza e insere princípios de racionalidade em sua estrutura material, mas também é abordada pelos usos e significados que seus habitantes fazem desta. O habitante ou usuário do espaço urbano faz uso diverso do território quando está caminhando, dirigindo veículos ou apreciando produtos expostos nas vitrines das lojas. O usuário do urbano vive em meio à fabricação de imagens, ideias, personagens. Traçam linhas e contornos que dão visibilidade a universos fantásticos e imaginativos. Isto significa que:

“O modo como o usuário se apropria do espaço ambiental, identificando-o e se identificando com ele, é o uso que dinamiza o espaço e o interpreta como um modo de habitar, de viver. Como metáforas do espaço habitado, a cidade e moradia adquirem identidades através do uso que conforma e informa o ambiente” (20).

Cidade moderna: higienização, estética, reforma urbana e personagens da cidade

A cidade vista sob o ângulo da higiene figura-se como um novo debate sobre a cidade, e que segundo Gondra (21) possui “uma articulação entre o ideal de civilização e a questão da higienização do mundo social, uma das facetas mais expressivas de civilizar e higienizar comportam uma gramática fortemente articulada.”

As mudanças ocorridas nas cidades brasileiras no final do século XIX e início do século XX foram articuladas aos ideários de civilização e progresso, sendo produto das questões elencadas por higienistas e sanitaristas que justificavam suas ações como medidas de manutenção da saúde e prevenção às constantes epidemias que se faziam presentes, principalmente nas grandes cidades. As medidas de higienização do espaço urbano visavam “colocar a cidade no contexto da modernidade e adequá-la às exigências do capitalismo” (22).

Sarges argumenta que para imprimir o ideal de moralidade, limpeza e higiene associados aos pressupostos republicanos de ordem e progresso, “o poder publico impôs à cidade uma disciplinarização do espaço expressa na revisão do código de posturas, adequando-os aos novos métodos de modernidade”. Em “Belém: um outro olhar sobre a ‘Paris’ dos trópicos (1897-1911)” põe em relevo as transformações ocorridas no espaço urbano da capital do Pará, em sua relação com a renovação material ocorrida na cidade de Paris em meados do século XIX. Segundo a autora, essas modificações do espaço urbano relacionam-se com a intenção de introduzir na cidade todo um princípio de racionalidade, ordenação, mobilidade do tráfego de pessoas e mercadorias, provocando “a regulação cotidiana da cidade que ia desde a fiscalização dos gêneros destinados ao consumo, passando pelo asseio das vias públicas, segregação dos pedintes, loucos e embriagados até a moral e os bons costumes” (23).

A questão da higienização das cidades é também analisada por Sidney Chaloub em sua Obra “Cidade febril: cortiços epidemias no Rio de Janeiro imperial” (1996) em que o autor mostra como o “surgimento da ideologia da higiene, os pobres ofereciam o perigo do contágio. Por um lado, o próprio perigo social representado pelos pobres aparecia no imaginário político brasileiro de fins do século XIX através da metáfora da doença-contágio” (24). Segundo o diagnóstico dos médicos higienistas, os hábitos de moradia dos pobres eram nocivos à sociedade, devido as habitações coletivas serem “focos de irradiação de epidemias, além de serem naturalmente terrenos férteis para a propagação de vícios de todo tipo” (25). Tal percepção legitimava a ação de eliminação dos cortiços, principalmente aqueles que proporcionavam ao centro da cidade uma imagem de sujeira e feiosidade, características não toleradas pelos princípios modernos da “ordem” e do “progresso”.

Chaloub considera que a intervenção dos higienistas nas políticas públicas do Rio de Janeiro no período imperial parecia obedecer ao principio de tornar “o ambiente urbano salubre para um determinado setor da população. Tratava-se de combater as doenças hostis à população branca” (26).

A cidade higiênica se concretiza na medida em que se tem “a redução do ambiente a seus componentes mais técnicos: esgotos, o sistema de drenagem, o modo de limpar as ruas e coletar o lixo, a distribuição de água” (27). Segundo Beguin, a cidade higiênica constitui símbolo de conforto para seus habitantes tendo em vista que “os ambientes insalubres deterioram a saúde e o estado físico da população” (28). Neste contexto, as medidas higienistas adotadas no espaço urbano se justificam e se impõem como medida eficiente contra os possíveis surtos de epidemias e endemias que, por ventura possam afetar a população citadina. Comungando com esta ideia, Buriti argumenta que, dentro desse empreendimento normativo, os homens ilustrados das décadas iniciais do século XX – juristas, médicos, pedagogos, higienistas, arquitetos – investidos de autoridade científica, apresentaram-se como os artífices iluminados, detentores de um saber capaz de dar respostas às necessidades de higienização da cidade, do crescimento econômico do país e de formação de trabalhadores saudáveis física e moralmente. O discurso e as práticas de poder dos atores políticos ligados às esferas municipal, estadual e federal, mobilizaram um conjunto de saberes para qualificar ou desqualificar códigos e comportamentos sociais, com a finalidade de corrigir as “anomalias” que se instauraram nas famílias, principalmente as urbanas. Nesses discursos, combinava-se a destruição dos hábitos e maneiras culturais vistos como ultrapassados e degenerativos da imagem de progresso e a pregação de práticas e condutas autorizadas pela estética vigente (29).

Em “A urbs doente medicada: a higiene na construção de Campina Grande (1877-1935)” Giscard Agra exemplifica em sua obra como a cidade moderna pode ser problematizada no âmbito da historiografia sob o ponto de vista da higienização. E, assim considera que:

“uma história recente da higienização e da desodorização das cidades também nos é colocada por um problema recente: vivemos um momento da história do Brasil em que por todo país pululam discursos sobre a revitalização dos centros urbanos, o que representa dentre outras coisas, a retirada do comercio informal das calçadas das grandes cidades para ordena-los em um lugar próprio e espacialmente delimitado os ‘shoppings populares’ – facilitando a circulação e a movimentação das pessoas pelas calçadas e ruas das cidades” (30).

Na cidade moderna, a questão da higiene é posta em cena como um pressuposto indispensável para a compreensão das transformações urbanas ao longo dos tempos. Neste contexto, é relevante para o historiador e para o arquiteto discutirem como essas transformações são recepcionadas e ressignificadas pelos habitantes do cenário urbano. A urbanização das cidades brasileiras no final do século XIX e início do século XX significou uma recepção e também adaptação das reformas urbanas realizadas nas cidades europeias. Sobre isto, Needell comenta que:

“Um lugar-comum pouco investigado é a afirmação de que as reformas empreendidas por Pereira Passos em 1903-1906 relacionavam-se de algum modo com seus projetos da década de 1870. Documentos do engenheiro e publicações da época confirmam, isso, ressaltando a importância de Haussmann” (31).

Segundo Needell, “para civilizar o Rio, os auxiliares de Rodrigues Alves concluíram que o mapa da cidade e seu sistema de saneamento precisavam de uma reforma. Eles almejavam atingir a civilização por meio de mudanças concretas de acordo com os modernos padrões europeus” (32). Como “símbolo da modernidade”, a cidade do Rio de Janeiro cria caminhos que se bifurcam como um labirinto para desafiar seus leitores. O mapa da cidade parece um grande quebra-cabeça, cujas peças encontram-se embaralhadas, pouco definidas, necessitando de um olhar especializado, engenhoso e engenheiro, para dissecá-lo. Sanear a cidade é abrir caminhos não apenas para a saída do esgoto, das águas pútridas, das doenças, mas é abrir alas para a entrada do progresso na capital da República. Dessa maneira, as reformas urbanas tinham o objetivo de desarticular territórios vistos como perigosos para colocar a cidade no progresso e na civilização, afinal, “o projeto de urbanização das cidades estava relacionado com as questões sanitaristas e higiênicas que se colocavam como marco da remodelação das cidades” (33).

Brescianni enfatiza que a imagem positiva da cidade se funda na ideia de progresso. “A expansão territorial e a variedade das construções e da população. Novos bairros burgueses; praças e jardins, ruas de traçado regular, amplas e arborizadas para o prazer estético do homem” (34). A partir dos elementos simbólicos de modernidade (as avenidas, os serviços de abastecimentos de água, o sistema de iluminação pública, a construção de espaços de consumo), a cidade adquire uma nova fisionomia, segundo os discursos dos habitantes da cidade e seus visitantes.

A remodelação das cidades relaciona-se também com a sua beleza na medida em que “a representação estética da cidade (...) dará as diretrizes para a conformação de uma imagem projetiva futura da cidade, orientando as políticas de intervenção do poder público e as iniciativas dos empreendimentos privados” (35). Nesse palco estético, são dispensados os personagens desfigurados, aleijados, feios, pobres, esfarrapados, marcados pela tônica do atraso. São convidados outros sujeitos, homens e mulheres que possam circular nos cafés e hotéis, nas confeitarias e espaços de diversão.

A proposta de remodelação das cidades tem como uma de suas metas conferir à cidade um aspecto estético positivo. Para isto, “as habitações feias, insalubres e atentatórias a moral, a municipalidade queria a sua remoção, a sua não proliferação, para tal lançava mão de visitas da Junta de Higiene que deveria supervisionar a salubridade” (36). Os cortiços, prédios antigos que tinham um aspecto feioso e anti-higiênico foram alvo de repressão por parte do poder público, que objetivava construir uma cidade bela e higiênica, habitada por personagens esteticamente higienizados e purificados pelos cosméticos que a modernidade inventou. A adoção medidas estéticas visava a “a eliminação dos elementos de atraso e a substituição destes por seduções do moderno” (37).

Os personagens da cidade moderna: exclusão e resistência no contexto das transformações urbanas

Os personagens da cidade moderna são os que cotidianamente fazem usos dos elementos que formam a materialidade urbana. A cidade, conforme Pesavento,

“se estrutura e se constrói não (...) somente pela materialidade de suas construções e pela execução dos serviços públicos, intervindo nos espaços. Há um processo concomitante de construção dos personagens, com esteriotipia fixada por imagens e palavras que lhes dão sentidos precisos” (38).

Os personagens da cidade referem-se a sujeitos considerados pelos gestores públicos como anormais e desviantes segundo os padrões de civilidade burguesa. Estes personagens vistos como “perigosos, indesejáveis e por decorrência, representados como excluídos, são os que não se enquadram às normas vigentes e constituem o verdadeiro outro” (39). Porém, são personagens que criam e recriam o espaço urbano, que expõem as fraturas resultantes da exclusão social, que rompem com o ideário de um espaço bem ordenado e bem normatizado. São os personagens estranhos à cidade do progresso, mal vistos e mal ditos pelos olhos e bocas dos modernizadores. Assustam a “civilidade burguesa” porque são “feios, disformes, dissolutos, violentos, carregam expressões debochadas ou horrorizadas, indignas e indecorosas” (40).

Em “Uma outra cidade: O mundo dos excluídos no final do século XIX”, Sandra Jatahy Pesavento focaliza algumas representações elaboradas pela elite porto-alegrense sobre os sujeitos diferentes que habitavam a cidade de Porto Alegre no momento em que esta passava por transformações em sua materialidade. Segundo a autora, estes são definidos a partir dos lugares que ocupam na cidade, assim “constituem os lugares da cidade dos outros, designados pelo imaginário da exclusão (...). Aos lugares que definem a moradia, o lazer e a contravenção, acrescentam-se os lugares do ocultamento ou confinamento. São eles, o hospital, o hospício, o asilo, a cadeia” (41). São sujeitos “condenados” que representam cenas de um espaço marcado pela tragicidade, que encenam o teatro da vida cujo destino tem um final implacável. Assim argumenta Souza:

“Lançando mão da mesma lógica que mandava casebres, prostitutas, loucos e mendigos, cemitérios, cadeia, matadouro para os subúrbios onde não incomodasse as elites, que definia o que era uma cidade com suas casas, praças e transportes modernos. Assim, tentaram impor as formas e as maneiras de estar e usar os lugares” (42).

A exclusão de sujeitos como os mendigos, criminosos, prostitutas e loucos relaciona-se com algumas das teorias científicas do século final do século XIX, dentre as quais podemos citar a Antropologia criminal, a eugenia, o darwinismo social. Estes saberes irão contribuir para a elaboração de tipologias consideradas desviantes no contexto da sociedade moderna.

Silva argumenta que o termo anormal “é produto das interfaces discursivas do cientificismo do século XIX que vem contribuir para a elaboração da imagem de rebelde, perigoso, nocivo à sociedade” (43). A constituição de saberes sobre a anormalidade no século XIX implica a “formação de uma sociedade disciplinar em que o Estado passa a organizar estratégias para as políticas publicas baseado na utilização de novos instrumentos de intervenção social e política para a construção de uma sociedade moderna e civilizada” (44). Tais saberes são “regimes de verdade” que possuem forças na invenção de subjetividades e de novos comportamentos, formando um tipo de governo dos homens que provoca descontinuidades com os padrões antigos de sociabilidade urbana, vistos e ditos pela ótica da negatividade.

A construção da cidade moderna significava para as elites conferir ao espaço urbano uma limpeza social e física. Isto porque “a sociedade burguesa, pela necessidade intrínseca de construir a figura de um assalariado dócil, teve de criar estratégias disciplinadoras para aqueles que não se submetiam ao mundo do trabalho” (45). Evidencia-se que a cidade moderna é marcada por práticas intervencionistas, adotadas pelo poder público municipal em ação conjunta com outros profissionais, tais como engenheiros, arquitetos, urbanistas, com vistas à racionalização, higienização, embelezamento da cidade. São muitas portas pelas quais entram e saem os elementos desejáveis e indesejáveis. No “paraíso” da cidade moderna, as serpentes devem ser expulsas.

notas

1
SOUSA, Fábio Gutemberg. R. B. Territórios de confrontos: Campina Grande (1920-1945). Campina Grande, EDUFCG, 2006, p. 14.

2
BRESCIANNI, Maria Stella. “Historia e historiografia das cidades: um percurso”. In: FREITAS, Marcos Cezar (org.). Historiografia brasileira em perspectiva. São Paulo, contexto, 2005, p. 23.

3
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano. Volume 1: Artes de fazer. 2ª edição. Petrópolis, Vozes, 1994, p. 102.

4
ROLNIK, Raquel. O que é cidade. São Paulo, Brasiliense, 1988, p. 24.

5
Existe uma outra obra da historiadora Maria Stella Bresciani que dialoga com os conceitos de cidade. Ver BRESCIANNI, Maria Stella. “Permanência e ruptura no estudo das cidades”. In: FERNANDES, Ana; GOMES, Marco Aurélio de Filgueiras. Cidade & História – modernização das cidades brasileiras nos séculos XIX e XX. Salvador, UFBA, 1990.

6
BRESCIANNI, Maria Stella. “As setes portas da cidade” In: Espaços e Debates: Revista de estudos regionais e urbanos. Ano IX, n. 34, Publicações NERU, 1991, p. 11.

7
Ver MICHEL, Foucault. A microfísica do poder. Rio de Janeiro, Graal, 1979.

8
BRESCIANNI, Maria Stella. “As setes portas da cidade” (op. cit.).

9
SARGES, Maria de Nazaré. “Belém: um outro olhar sobre a Paris dos trópicos (1897-1911)”. In: SOLLER, Maria Angélica e MATOS, Maria Izilda S. (orgs.). A cidade em debate. Belém, Recife, Rio de Janeiro, São Paulo, Santos, Uberlândia, Curitiba, Porto Alegre. São Paulo, Editora Olho d´agua, 1999, p.69.

10
SOUSA, Fábio Gutemberg. R. B. Op. cit., p. 56.

11
BRESCIANNI, Maria Stella. Op. cit., p12

12
BENJAMIM, Walter. O flâneur: jogo e prostituição. Obras escolhidas. São Paulo, Brasiliense, 1991.

13
DANTAS, Eugênia; BURITI, Iranilson. Cidade e região: múltiplas histórias. João Pessoa, Idéia, 2005, p. 15.

14
GAY, Peter. A experiência da rainha Vitória a Freud: A educação dos sentidos. Trad.: Per Satter. São Paulo, Companhia das Letras, 1988, p. 4.

15
WILLIANS, Raymond. O campo e a cidade na historia e na literatura. Trad.: Paulo Henriques Britto. São Paulo, Companhia das Letras, 1989, p. 199.

16
CAVENACCI, Massimo. A cidade polifônica. São Paulo, Nobel, 1993, p. 18.

17
DANTAS, Eugênia; BURITI, Iranilson. Op. cit., p. 27.

18
FERRARA, Lucréssia d´ Aléssio. Ver a cidade: cidade, imagem e leitura. São Paulo, Nobel, 1988, p. 3.

19
CERTEAU, Michel de. Op. cit., p. 45.

20
FERRARA, Lucréssia d´ Aléssio. Ver a cidade: cidade, imagem e leitura. Op. cit., p. 22.

21
GONDRA, J. G. Artes de civilizar: medicina, higiene e educação escolar na corte imperial. Tese (Doutorado em Educação), Faculdade de Educação, São Paulo, USP. 2000, p. 9.

22
SOUSA, Fábio Gutemberg. R. B. Cristino Pimentel: Cidade e civilização em crônicas. A Paraíba no Império e na República: Estudos de história social e cultural. João Pessoa, Idéia, 2003, p. 58.

23
SARGES, Maria de Nazaré. Op. cit., p. 58.

24
CHALOUB, Sidney. Cidade febril: cortiços e epidemias na corte imperial, São Paulo, Companhia das Letras, 1996, p. 29.

25
Idem, ibidem, p. 29.

26
Idem, ibidem, p. 8.

27
BEGUIN, François. As maquinarias inglesas do conforto. Tradução Jorge Hajime Osiki. Espaços e Debates: Revista de estudos regionais e urbanos. Ano IX, n. 34, Publicações NERU, 1991, p. 40.

28
Idem, ibidem, p. 40.

29
BURITI, Iranilson. Façamos a familia à nossa imagem. A construção de conceitos de familia no Recife Moderno (1920-1930). Tese (Doutorado em História). CFCH – Universidade Federal de Pernambuco, 2002, p. 33.

30
AGRA, G. F. A urbs doente medicada: A higiene na construção de Campina Grande (1877-1935). Campina Grande, Editora Marcone, 2006, p. 24-25.

31
NEEDELL, Jeffrey D. Belle Époque Tropical: Sociedade e cultura de elite no Rio de Janeiro na virada do século. Tradução Celso Nogueira , São Paulo, Companhia das Letras, 1993, p. 55.

32
Idem, ibidem, p. 67.

33
SOUSA, Fábio Gutemberg. R. B. Cristino Pimentel (op. cit.), p. 74.

34
BRESCIANNI, Maria Stella. “Historia e historiografia das cidades: um percurso”. (op. cit.), p. 239.

35
Idem, ibidem, p. 253.

36
PESAVENTO, Sandra Jatahy. Uma outra cidade: O mundo dos excluídos no final do século XIX. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 2001, p, 123.

37
AGRA, G. F. Op. cit., p. 53.

38
PESAVENTO, Sandra Jatahy. Op. cit., p. 12.

39
Idem, ibidem, p. 45.

40
RAGO, Margareth. Prazer e perdição: a representação da cidade nos anos vinte. Revista brasileira de história. São Paulo, n. 3, set.86-fev.87, p. 78.

41
PESAVENTO, Sandra Jatahy. Op. cit., p. 22-23.

42
SOUSA, Fábio Gutemberg. R. B. Territórios de confrontos (op. cit.), p. 59.

43
Sobre a constituição do termo anormal na sociedade moderna ver: FOUCAULT, M. Os anormais. Curso no Collège de France (1974-1975). São Paulo, Martins Fontes, 2001.

44
SILVA, Mozart Linhares da. “Direito e medicina no processo de invenção do anormal no Brasil” In: História, medicina e sociedade no Brasil. Santa Cruz do Sul, Edunisc, 2003, p. 80.

45
MACHADO, Maria Clara Tomaz. “Uberlândia:há serpentes no paraíso”. In: SOLLER, Maria Angélica e MATOS, Maria Izilda S. (orgs.). A cidade em debate. Belém, Recife, Rio de Janeiro, São Paulo, Santos, Uberlândia, Curitiba, Porto Alegre. São Paulo, Editora Olho d´água, 1999, p. 195.

referências bibliográficas

CLEOBO, João Marcelo Gomes. De Vergniaud a Cássio Cunha Lima: Campina Grande e seus surtos de remodelação urbana. Campina Grande, UEPB-CEDUC (Especialização em História do Brasil), 2005.

FOUCAULT, Michel. O nascimento da Clinica. 6ª edição, Rio de Janeiro, Forense Universitária, 2004.

LEPETIT, Bernad. Por uma nova história urbana. São Paulo, EDUSP, 2001.

MENEZES, Lená Medeiros. “Rio de Janeiro nas trilhas do progresso: Pereira Passos e as posturas municipais”. In: SOLLER, Maria Angélica e MATOS, Maria Izilda S. (orgs.). A cidade em debate. Belém, Recife, Rio de Janeiro, São Paulo, Santos, Uberlândia, Curitiba, Porto Alegre. São Paulo, Editora Olho d´agua, 1999.

RIOS FILHO, Adolpho Morales de. O Rio de Janeiro Imperial. 2 edição. Rio de Janeiro, Topbooks Univer Cidade Editora, 2000.

sobre os autores

Iranilson Buriti é Doutor em História. Professor Adjunto III do PPGH da Universidade Federal de Campina Grande. Pesquisador e consultor ad hoc do CNPq.

Silvera Vieira de Araújo é Mestranda em História – PPGH – Universidade Federal de Campina Grande. Professora da rede particular de ensino.

José Clerton de Oliveira Martins é Historiador pela Universidade do Estado do Ceará. Doutor em Psicologia. Professor do Programa de pós-graduação em Psicologia da Universidade de Fortaleza.

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