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architexts ISSN 1809-6298

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Com foco nos apartamentos de Rino Levi, a autora aborda a relação entre produção imobiliária e projeto modernista nos edifícios coletivos verticalizados de São Paulo no período entre 1930 e 1960


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VILLA, Simone Barbosa. Um breve olhar sobre os apartamentos de Rino Levi:. Produção imobiliária, inovação e a promoção modernista de edifícios coletivos verticalizados na cidade de São Paulo. Arquitextos, São Paulo, ano 10, n. 120.07, Vitruvius, jun. 2010 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/10.120/3437>.

Rino Levi. Edifício Prudência, 1944
Foto Nelson Kon

A verticalização como símbolo da metropolização de São Paulo

Desde o último quarto do século 19, a cidade de São Paulo foi palco de diversas reformas e intervenções em seu tecido urbano, visando sua modernização, já que, à elite local, parecia necessário exorcizar a antiga imagem da Vila de Piratininga. Somados a tais realizações, os novos meios de rentabilidade foram argumentos extremamente importantes. Foi neste cenário dos anos 1930 que o edifício de apartamentos trouxe à tona uma discussão sobre um modelo de cidade que deixava sua matriz européia para vincular-se ao domínio do capital americano e à sua imagem: o arranha-céu (2). O edifício de apartamentos, neste momento, veiculava a imagem de progresso e avanço técnico, gerando uma rentabilidade bem superior à das habitações horizontais de aluguel construídas até então, inclusive por permitir a sobreposição de unidades numa mesma gleba, em vários pisos.

Segundo Castello-Branco (3), as principais empresas paulistas começaram a construir edifícios altos - entre seis e dez pavimentos - na área central da cidade de São Paulo destinando-os aos escritórios de suas empresas, e associando-lhes apartamentos voltados única e exclusivamente à renda. Nas décadas de 1930 e 1940, consolidava-se, portanto, a fase rentista da verticalização, já esboçada anteriormente, uma vez que a grande maioria dos edifícios era produzida para aluguel, representando uma boa opção de investimento. Nesse período importante da ampliação do espaço verticalizado da cidade, o bairro de Higienópolis (4) foi o grande palco desses acontecimentos, depois da verticalização ocorrida nos Campos Elíseos e na Barra Funda.

Segundo Regina Meyer (5) “o crescimento vertical e a organização de novas funções criou simbólica e concretamente um papel diferenciado, prestigioso e dominante para o centro da metrópole”. Neste contexto, Meyer explica que a tecnologia esteve totalmente comprometida com o crescimento vertical e que o arranha-céu atestava a intensidade da atividade industrial, criava novas relações de uso do solo urbano e alterava estruturalmente a metrópole, ilustrando a capacidade tecnológica e produtiva da sociedade como um todo. Em meados dos anos 1930, a cidade de São Paulo já era considerada uma metrópole, com uma verticalização consolidada na área central e em franco processo de expansão em bairros circunvizinhos. Os dados indicam que, até 1929, existiam pouco mais de 50 edifícios acima de quatro andares na cidade, depois de 1930 existem 10 vezes mais (6).

Segundo a periodização proposta por Nádia Somekh (7), de 1920 a 1930 foram produzidos, na cidade de São Paulo, edifícios altos que reproduziam predominantemente padrões europeus, ainda que essa verticalização de feições européias já apresentasse, no começo dos anos 1920, influência norte-americana.  A arquitetura do arranha-céu fez surgir, no mundo ocidentalizado, um novo estilo com predomínio das massas e linhas verticais, que, no cenário paulistano do início da verticalização, apenas se insinuava, já que predominavam, em seu espaço urbano, edifícios de 6 a 9 pavimentos.

No final da década de 1920, já se observa na produção de apartamentos uma tendência, ainda que tímida, à racionalização de formas e espaços. Em 1926, Christiano das Neves desenvolveu um edifício de renda para a família Maluf, na qual articulava espaços e volumes com uma racionalização ainda não alcançada nos projetos anteriores. No ano seguinte, foi construído o primeiro edifício modernista em São Paulo (8) na avenida Angélica, projetado pelo arquiteto Júlio de Abreu Júnior, formado pela Escola de Belas Artes de Paris. O edifício apresentava uma linguagem despojada de ornamentação e certa racionalização dos espaços.

Os apartamentos colocados no mercado para aluguel eram um modelo reduzido das casas térreas, onde salas de jantar, toaletes, copas, gabinetes, quartos de empregados, pareciam desnecessários, já que algumas das atividades realizadas nestes cômodos começavam a ser relegada ao espaço público. Tais apartamentos, que passaram a ser oferecidos a uma parcela da população com menor poder aquisitivo, que não poderiam pagar por apartamentos maiores, nem por pessoal doméstico, e que trabalha fora por ser, em geral, assalariado, representava para os investidores imobiliários uma possibilidade de ampliação do mercado que incluía parcelas mais pobres da população. Nabil Bonduki (9) mostra que, em 1920, 68,6% dos imóveis em São Paulo – e um número ainda maior de habitações -, eram ocupados por inquilinos. Ainda em 1940, mais de dois terços das habitações eram alugadas e somente uma quarta parte delas era ocupada por proprietários.

A grande maioria dos edifícios de apartamentos construídos para fins lucrativos apresentava uma diversidade de soluções espaciais que atestavam a eficiência do empreendimento. Num mesmo edifício era possível encontrar apartamentos de um, dois, três dormitórios e configurações semelhantes aos hotéis, com apenas quarto e banheiro, onde a sala e a cozinha eram suprimidas. Também eram oferecidos equipamentos de uso coletivos, localizados nas circulações dos pavimentos, como banheiros, guarda-malas, e, em alguns casos, até uma espécie de kitchenette - ou pequena cozinha. Esta configuração deixa supor que os usuários principais destes edifícios de aluguel eram pessoas sozinhas que, possivelmente, aí habitavam em caráter transitório. O piso térreo destes edifícios continuava a possuir espaços comerciais, característica que vai aos poucos sendo eliminada nos projetos posteriores das décadas de 1940 e 1950.

A década de 1930: Rino Levi e a busca por caminhos e soluções na produção de apartamentos

Quatro anos após a Semana de Arte Moderna de 1922, Rino Levi escreveria um artigo onde defendia a simplicidade e a sinceridade dos elementos decorativos (10). Para Levi, as velhas formas e os velhos sistemas já haviam tido sua época. Era necessário que o artista criasse algo novo capaz de obter maior fusão entre estrutura e decoração. Para tanto, o artista precisava ser também um técnico. Combatendo a monotonia das ruas meramente perpendiculares, o ideário modernista completava-se no discurso de Levi, quando defendia a “estética das cidades” como um novo campo de trabalho para o arquiteto, a exemplo do que acontecia na França, Alemanha e Itália. A arquitetura Moderna em São Paulo, que segundo historiadores começa com os textos publicados por Rino Levi (11) e por Gregori Warchavchik (12), manifesta-se ainda timidamente nos edifícios altos. Porém, suas obras e reflexões representaram a referência que faltava para a intelectualidade da semana de 1922, no que concerne uma visão modernista da arquitetura.

Entretanto, as proposições e o posicionamento de Rino Levi e Warchavchik constituíam uma entre várias vertentes racionalistas que se formulavam durante ou mesmo antes da década de 1930 no Brasil. Foram arquiteturas também chamadas de “modernas”, “cúbicas”, “futuristas”, que pontuaram, principalmente, as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Estas manifestações representavam certa renovação arquitetônica, “qualquer que seja ela – à maneira folle, mimeticamente, pragmaticamente ou como transformação modernizadora em sua dimensão perversa” (13). A exemplo temos as linhas verticais dos arranha-céus, que rompiam com a paisagem das cidades, associadas à linguagem art déco dos anos 1930.

Apesar da sociedade da época preferir edifícios como os que Christiano das Neves fazia, lembrando os palácios europeus e as residências dos ricos, observa-se, já na década de 1930, a realização de edifícios de apartamentos com uma estética modernizante. Do ecletismo arquitetônico ao “estilo modernizado”, arquitetos e engenheiros disputavam seus clientes através do gosto classicista predominante. Porém, em meio a projetos ecléticos, Elisiário da Cunha Bahiana, ergueu, no início dos anos 1930, o primeiro edifício art déco da cidade, popularmente chamado de futurista, na época. “A passagem do ecletismo para o art déco e, em seguida, para o estilo modernizador, sem ornamentação, fica clara na amostra dos pedidos de aprovação na Prefeitura de São Paulo” (14).

Rino Levi idealizará seu primeiro projeto de edifícios de apartamentos no ano de 1929, o edifício Eugênio Gazeau, apresentando incipiente racionalização das formas e espaços (15). O projeto demonstra, de maneira clara, a exigüidade das áreas e o desuso de alguns cômodos de prestígio, já que seus apartamentos possuem apenas sala, cozinha, banheiro, dormitórios e um pequeno terraço de serviço. Neste edifício de três pavimentos, as regras clássicas de acessibilidade e de hierarquização dos espaços se mantêm, apesar de sua metragem quadrada reduzida. O acesso único e central por escadas que conduzem aos apartamentos e uma parcial simetria conferem ao edifício certa modernidade. O próprio desenho do edifício apresenta um detalhamento técnico que atesta esta idéia de modernidade, onde o arquiteto prevê em seu projeto todos os avanços e recursos técnicos contemporâneos. As peças hidráulicas e sanitárias são desenhadas, assim como são previstos armários embutidos, varandas, floreiras, dutos de lixos, além de detalhes de esquadrias, cujo maneirismo caracterizará o trabalho posterior de Rino Levi em edifícios de apartamentos. Esta racionalização dos espaços internos pode estar relacionada ao fato de que neste período, os edifícios de apartamentos eram, em geral, construídos para fins lucrativos, o que explica o fato de as unidades não possuírem cômodos com funções bastante definidas em residências ou apartamentos maiores. (Fig.01)

Fig. 01 - Edifício Gazeau, Rua da Glória nº 172, São Paulo, Rino Levi, 1929. Planta tipo [Arquivo FAU-USP]


Fenômeno inerente à idéia de modernização da cidade e do próprio espaço habitável, a verticalização, aceita inicialmente com relutância, se multiplicaria nas décadas de 1930 e 1940, constituindo-se numa grande inovação no setor residencial com a consolidação da tipologia vertical coletiva de morar - os prédios de apartamentos. “Nos anos trinta, com a disseminação do uso do concreto, o prédio de apartamentos mostra-se definitivamente como solução de moradia coletiva, até então altamente rejeitada pelo gosto popular e pela classe média que associava os edifícios multifamiliares aos cortiços de pobres” (16). Havia uma resistência em se morar em edifícios não só pela associação com o cortiço, mas pelo medo de tragédias.

Sobre este contexto, concretizaram-se nos anos 1930 basicamente dois padrões de apartamentos. De um lado, os edifícios para alugar, com apartamentos de um, dois e até três dormitórios que representavam uma versão bastante reduzida das casas térreas, com programas mínimos para se morar. De outro, temos os edifícios construídos para as famílias mais ricas, com programas similares aos dos palacetes, que buscavam abrigar uma maneira de morar das elites. Segundo Lemos (17), esta classe média de hábitos modestos e passadio frugal, oriunda das antigas propriedades que se agarravam ao nome de família, quase sempre ostentavam, da porta da rua para fora, costumes na verdade não bem condizentes com as posses de sua camada social. Os apartamentos que representavam este padrão deveriam parecer equivaler às casas isoladas dos mais abastados, o palacete. Deveriam ter o máximo conforto aliado ao mínimo de promiscuidade. “Precisava-se alardear que o apartamento era casa de família, casa de respeito. Moradia completa, com copa e cozinha, salas de jantar e de visitas, e com acomodações para a criadagem, principalmente” (18).

Neste sentido, Rino Levi esboçará os primórdios da arquitetura Moderna em São Paulo, entre 1929 e 1930, “projetando um edifício com estrutura de concreto armado e projeto minucioso de instalações e dos vedos” (19). Considerado um dos primeiros projetos Modernos de Rino Levi, o edifício de apartamentos Columbus constituiu o exemplo concreto da nova forma de morar em altura. “Obra inovadora para a época: para uma sociedade pouca afeita à promiscuidade ou ao coletivismo da moradia em altura, um projeto com planta e infra-estrutura bem resolvidas (vale lembrar que os primeiros arranha-céus no Brasil tinham péssima resolução de planta, pelo ineditismo da tipologia), destinado a usuários de bom padrão econômico – quando ainda a casa e o jardim eram valores altamente considerados num ambiente arquitetonicamente conservador” (20). (Fig.02)

Fig. 02 - Edifício Columbus, Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, São Paulo, Rino Levi, 1930. Planta tipo [Anelli, 2001]


Segundo Anelli e Guerra (21), através do projeto Columbus, Levi colocaria em prática as proposições de Le Corbusier, Walter Gropius e demais arquitetos Modernos que ele conhecera durante o período de sua formação na Itália, adaptando-as às condições paulistas. Cerca de cinco anos durou o desenvolvimento das diversas propostas para o edifício Columbus, sendo construído somente em 1934, após conclusão de sua versão final. O edifício apresentava conceitos Modernos representados pela simplificação das linhas, com um tratamento total externo que cuidava de todas as fachadas do edifício.

Analisando os espaços internos do Columbus, percebe-se o desenvolvimento da relação interior/exterior, um dos procedimentos de projeto comum na obra de Levi, que se faz presente através do volume maciço que é rompido diagonalmente, ligando a sala de estar, no centro do apartamento, com a paisagem exterior, através da varanda, em balanço na quina do edifício. Notar que isso apenas ocorre nos dois apartamentos frontais. Segundo texto de apresentação do projeto (22), nas habitações internas dos apartamentos teve-se a preocupação de bem distinguir e caracterizar as suas partes componentes - serviço, social e habitação noturna -, localizando-as de modo nítido e prático. A fusão da sala e do terraço em um conjunto só foi realizada pelo sentido diagonal e centrífugo que se organizam os ambientes no projeto, possibilitando uma vista panorâmica em todas as direções do apartamento. Atitude na qual observamos que na prática não ocorre.

Apesar do autor do projeto buscar, através da plástica e da relação entre interior e exterior, uma clara referência modernista européia corbuseana, o edifício Columbus apresenta à cidade de São Paulo “um curioso e inusitado compromisso entre o modo de morar francês e o norte-americano” (23). No que concerne os espaços internos, Rino Levi proporia, segundo Lemos (24), um projeto que tinha como intenção principal “examinar, no seu verdadeiro aspecto e sem preconceitos de forma, o problema de abrigar numerosas famílias e de oferecer-lhes o maior conforto possível”. O programa proposto ainda espelha-se na casa burguesa francesa apresentando uma tripartição dos espaços em áreas social, serviço e íntima – setorizadas e compartimentadas, mesmo que no projeto original se utilize uma nomenclatura dos espaços diferenciada - “serviço, social e habitação noturna”.

Construído para a classe média paulistana, o projeto do edifício Columbus, já demonstrava certa preocupação em adequação aos padrões que o mercado imobiliário de apartamentos, ainda que incipiente, legava. Fato perceptível na primeira proposta do edifício, onde os apartamentos apresentavam áreas mais reduzidas, com cômodos menores e suprimidos - como é o caso do dormitório e banheiro de empregados e o vestíbulo -, o que gerava um maior número de unidades por andar – na primeira proposta são seis no lugar dos quatro por andar, da proposta executada. (Fig.03)

Fig. 03 - Edifício Columbus, Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, São Paulo, Rino Levi, 1930. Planta tipo do 1º estudo [Anelli, 2001]


Programa similar foi apresentado por Rino Levi, em 1933, com o edifício Nicolau Schiesser. Com uma implantação e plástica referenciada na experiência modernista européia, o edifício Schiesser, demonstrava, portanto, uma clara filiação burguesa oitocentista na organização dos espaços internos, propondo um programa reduzido dos palacetes. Várias salas compartimentadas em área social, os dormitórios e banheiro na área íntima e a área de serviços bem servida com copa, cozinha, dormitório e banho de empregados. Além de todos os dispositivos considerados modernos, como armários embutidos, dutos de lixo, etc. (fig.04)

Fig. 04 - Edifício Nicolau Schiesser, Rua Augusta, São Paulo, Rino Levi, 1933. Planta tipo [Anelli, 2001]


Valem lembrar, neste momento, alguns dos projetos elaborados pelos arquitetos modernistas europeus para edifícios de apartamentos. Sabe-se que as realizações européias das primeiras décadas, sobretudo pelas que se seguiram à Primeira Guerra Mundial, marcaram fortemente, ao longo de todo o século 20, a concepção da habitação nos países capitalistas. A proposta do Movimento Moderno de uma nova habitação para um novo homem inscreve-se no projeto maior de uma nova sociedade, esboçado teórica ou empiricamente desde, pelo menos, o final do século 18 (25). Auguste Perret, em 1903, marcaria mais uma etapa em direção à planta livre com seu projeto construído à rue Franklin de Paris, desenvolvido conceito posteriormente por Le Corbusier, Walter Gropius, Mies Van der Rohe, entre outros, na década de 1920 em várias propostas de habitações flexíveis.

Os edifícios Columbus e o Schiesser foram os primeiros de uma série de edifícios de apartamentos projetados por Rino Levi para a cidade de São Paulo, entre os anos de 1930 a 1960. Durante estes anos, vários arquitetos como Adolf Franz Heep, Álvaro Vital Brasil, Gregori Warchavchic, Eduardo Kneese de Mello, Oswaldo Arthur Bratke, Abelardo de Souza, Victor Reif, entre outros modernistas, atuaram de forma marcante no cenário arquitetônico de São Paulo, além dos demais arquitetos atuando no mercado, não filiados única e exclusivamente aos preceitos modernistas e apresentando uma linguagem arquitetônica variada. Jacques Pilon, Escritório Técnico Ramos de Azevedo/ Severo & Villares, Francisco Beck, construtoras, engenheiros, entre outros cada um à sua maneira, edificaram a grande massa de edifícios de apartamentos da cidade. Ambos construíram, nos dizeres de Toledo (26), a terceira versão, em concreto, da cidade de São Paulo, que substituiria a cidade de tijolos e os últimos vestígios da cidade de taipa.

Com o final da Primeira Guerra, os Estados Unidos foram colocados no cenário mundial como a principal potência industrial, a partir de sua vitória, seu sucesso econômico, sua superioridade militar e seu parque industrial em franca expansão. Esta nação passou, então, a simbolizar o progresso e a modernidade de uma sociedade mecanizada, a partir de seu modelo de cidade. No Brasil, esta imagem passou a ser almejada, provavelmente desde a construção do edifício Martinelli em São Paulo, na década de 1930, marco da verticalização da cidade e símbolo de modernidade através da tipologia do arranha-céu. O edifício de apartamentos fora parte integrante deste processo de modernização. “Só foi possível começar a convencer os paulistanos a deixarem suas casas para irem viver em apartamentos porque, tanto quanto aos japoneses e aos franceses, se lhes fez acreditar que, desta forma, eles estariam sendo irretocavelmente Modernos, em suma” (27). Neste sentido, na segunda metade da década de 1930, a cidade de São Paulo fora palco da produção de uma série de edifícios de apartamentos modernistas que representavam a mais nova e moderna maneira de morar brasileira.

Acostumada aos exageros ornamentais, a classe média ainda primava por referências formais aos palacetes dos barões do café. As normas de etiqueta e sociabilidade pouco haviam mudado nos anos 1930 e os indivíduos eram qualificados pelo que possuíam - fato que não foi alterado até os dias atuais. Sob esta ótica, morar em um edifício modernista significava alcançar uma posição de destaque, pois, além dos equipamentos de luxo, o edifício oferecia aos moradores uma condição moderna de viver.

Base do pensamento projetual modernista europeu, a casa máquina flexível bipartida em habitação diurna e noturna, raramente foi implantada nos edifícios brasileiros. No Brasil, os arquitetos do período modernista projetavam os edifícios utilizando uma linguagem já tão conhecida pelos clientes, como uma verdadeira estratégia para garantir a aceitação do empreendimento. O próprio Le Corbusier, na construção de alguns edifícios, havia lançado mão de referências burguesas oitocentistas nos apartamentos, através da articulação dos espaços e da nomenclatura utilizada nos cômodos. A fim de garantir o sucesso da tipologia, foi preciso manter nos espaços internos referências burguesas oitocentistas, principalmente a setorização e compartimentação das áreas de prestígio, íntima e de rejeição.

Se observará então, na cidade de São Paulo, no final da década de 1930, algumas dezenas de edifícios projetados por arquitetos filiados ao Modern Style, com seus paredões de concreto recortados em formas inovadoras, porém com interiores que trazem, basicamente, uma versão reduzida dos antigos palacetes burgueses.

A produção destes edifícios de apartamentos era iniciativa de investidores que, prioritariamente visavam o lucro. Segundo Lemos (28), “naquele tempo, o aluguel foi um rendimento ótimo, talvez o melhor deles, muito melhor que as ações, como as da Paulista, a estrada de ferro querida de todos”. Deduz-se que o melhor investimento, portanto, seria a construção de edifícios bem aceitos pela sociedade da época, que ainda primavam pelas tais referências européias de habitar. Isto se traduz na construção de edifícios de apartamentos com uma plástica modernista, ou mesmo art déco, e interiores basicamente convencionais.

Fig. 05 - Edifício Higienópolis, rua Quintino Bocaiúva nº 29, São Paulo, Rino Levi, 1935. Planta tipo [Arquivo FAU-USP]


Rino Levi projetou, em 1935 e 1936 respectivamente, os Edifícios Higienópolis (Fig.05) e Guarani (Fig. 06), que mesclam conceitos modernistas, traduzidos na plástica e ordenação dos volumes, e referências burguesas presentes na organização dos espaços interiores. Estes apartamentos demonstram uma característica que se afirmará nas décadas seguintes: a redução da tipologia compartimentada em cômodos com um programa básico de sala, dormitórios (2 ou 3), banheiro e cozinha. Proporcionando aos moradores alguns equipamentos básicos da vida moderna - como armários embutidos, dutos de lixo, caldeira, presença da figura do zelador -, nestes apartamentos será recorrente a distinção entre as entradas social e de serviço, e a presença de cômodos para empregados dentro da unidade.

Fig. 06 - Edifício Guarani, rua Florêncio de Abreu nº 47, São Paulo, Rino Levi, 1936. Planta tipo [Anelli, 2001]


Esta distinção entre acessos demonstra a presença de empregados domésticos nos apartamentos brasileiros, e nos remete diretamente aos apartamentos franceses do século 19, que se caracterizavam pela dissociação de circulações entre patrões e empregados. Notamos que esta característica de acesso, somados à presença de cômodos de empregados no interior das habitações, ao longo dos anos, foi freqüentemente relacionada a certo requinte dos apartamentos colocados no mercado, tanto para aluguel, como para venda. Este apartamento será repetido infinitamente durante os anos seguintes, nos programas mais baratos, diferindo dos programas mais requintados e extensos para as famílias mais abastadas produzidos principalmente na década de 1950, em edifícios modernistas.

Neste contexto, finalizaremos a década de 1930 com um quadro bastante claro das principais tipologias existentes na cidade de São Paulo. Com um incipiente, porém já fortalecido mercado imobiliário, veremos a produção predominante edifícios de aluguel. Filiados à estética modernizadora, e com recursos da chamada vida moderna notaremos os apartamentos destinados às famílias, variando o tamanho da célula e o nível de equipamento, desde os maiores até os mais reduzidos. Quanto mais elevada a classe social, também mais alto será o nível de equipamento do edifício e do apartamento.

Destinado, principalmente, a pessoas sós, teremos os apartamentos de um dormitório ou kitchenette, que oferecem aos moradores uma habitação, muitas vezes, transitória. Aqui detectamos os mais variados tipos e tamanhos, com ou sem cozinhas, com ou sem salas, com ou sem equipamentos coletivos, enfim, propostas de habitação para uma cidade em franco desenvolvimento e crescimento demográfico e com um mercado imobiliário ainda experimentado.

Fig. 07 - Edifício à rua Abranches, São Paulo, Rino Levi, 1939. Estudos da planta tipo [Arquivo FAU-USP]


Importantes considerações podem ser feitas na análise de alguns projetos de edifícios de apartamentos idealizados por Rino Levi no final da década de 1930. Na busca sempre contínua por soluções espaciais diferenciadas, Levi esboçou, já nesta época, uma solução projetual que se tornaria bastante comum nos anos de 1980 identificada por dormitório opcional, ou terceiro reversível. Estudos de um edifício para a rua Abranches de 1939 (Fig. 07) nos mostram a indicação das possibilidades de escolha na utilização dos espaços internos – dormitório ou sala e alcova ou quarto de empregada. Semelhante atitude projetual é adotada no projeto do edifício Porchat de 1940 (Fig. 08), o arquiteto indica a possibilidade de uso dos espaços pelo desenho do layout. A possibilidade de tornar os espaços mais flexíveis também foi observada em vários estudos de apartamentos de Rino Levi, quando tirava proveito de divisórias leves que recortavam os ambientes e os dotava de uma gama maior de alternativas de uso pelos moradores.

Fig. 08 - Edifício Porchat, av. São João esquina r. Apa, São Paulo, Rino Levi, 1940. Planta tipo de duas unidades [Anelli, 2001]


Neste sentido, a produção de edifícios de apartamentos realizados por Rino Levi e também pelo arquiteto russo Gregori Warchavchik, entre o final da década de 1930 e o início dos anos 1940, nos remete a vários pensamentos. Ambos idealizaram apartamentos dos mais diferentes tipos e formatos, com soluções as mais diversas, desde as mais convencionais, descritas anteriormente, até algumas que utilizavam divisórias móveis nos ambientes. Esta diversidade nos aponta algumas deduções. Inicialmente, demonstra certa preocupação por parte dos autores em estar atento às necessidades habitacionais da população, já que as propostas apresentavam diversidade no número de dormitórios. Outra dedução seria a preocupação por parte dos arquitetos em elaborar projetos de apartamentos que respondessem às determinantes dos proprietários-rentistas da época, que na verdade edificavam a grande massa dos edifícios verticais da cidade. E, por último, os arquitetos poderiam estar experimentando novas possibilidades referentes aos edifícios de apartamentos, ou mesmo estariam testando maneiras de se obter o aproveitamento máximo das áreas.

Os anos 1940: os apartamentos de Rino Levi e o cenário da produção imobiliária

A partir de 1939, “observa-se uma mudança nas características do processo de verticalização, que de predominantemente terciário passa a residencial e localiza-se principalmente, fora da área central da cidade” (29). Segundo Somekh (30), o início do processo de verticalização – nas décadas de 1910, 1920 e 1930 -, caracteriza-se por um fenômeno tipicamente central e predominantemente terciário. Paralelamente ao aumento da construção de edifícios de apartamentos no cenário imobiliário paulistano, percebe-se, ao longo dos anos 1940, a consolidação da preferência por uma maneira de morar nas alturas.

A banalização de preceitos puristas do Movimento Moderno na cidade se traduziu, ao longo dos anos, pelo uso indiscriminado e aleatório de certos elementos que foram se tornando símbolo de modernidade. A união de um vocabulário plástico modernista a um repertório espacial bastante simplificado nos interiores dos apartamentos, aliado a dutos de lixo, armários embutidos, água potável encanada, e espaços monofuncionais reduzidos, com a presença de cômodos de empregados e entradas de serviços, chegaram ao final da década de 1940, representando a mais nova maneira de morar verticalizada. Quase a totalidade dos apartamentos dos anos 1940 continha banheira em pelos menos um dos banheiros, o que demonstra a importância deste equipamento para a comercialização das unidades, na época. 

Os anos 1940 foram marcados por vários episódios das mais variadas ordens que influenciaram direta e indiretamente o espaço habitável vertical. A disseminação de uma maneira de morar e de viver americanizada, difundida principalmente após o ano de 1945, com a vitória aliada na Segunda Guerra Mundial, propunha espaços como cozinhas e salas, reduzidos em função do equipamento e da modernização dos materiais de construção e mobiliário. Além disso, as legislações impostas pelo Estado neste momento foram determinantes para o desenvolvimento posterior desta modalidade habitacional.

Até o ano de 1942, casas e apartamentos de São Paulo, constituem de uma forma de rentabilidade e investimento bastante segura. De fato, desde a segunda metade do século 19, o investidor obtinha, com o imóvel de aluguel, uma renda mensal e uma excepcional valorização imobiliária ocasionada pela expansão da cidade, o que transformava a propriedade imobiliária ao mesmo tempo reserva de valor e fonte de renda. Segundo Bonduki (31), isto fez com que chegássemos ao ano de 1940 com 70% dos domicílios paulistanos alugados, mesmo numa época em que já se difundiam outras formas de moradia, como os loteamentos periféricos, onde os mais pobres podiam adquirir um lote e edificar sua casa.

Com uma visão basicamente focalizada na rentabilidade, o proprietário-rentista foi, ao longo dos anos, utilizando todos os recursos possíveis para o majoramento de seus lucros. Observa-se, na cena paulistana das décadas de 1920, 1930 e início de 1940, uma profusão de edifícios de apartamentos dos mais variados estilos e dimensões, onde se evidenciava, na maioria dos casos, o aproveitamento total das áreas construídas permitidas. Eram oferecidos apartamentos de 1, 2 ou 3 dormitórios no mesmo edifício, amplos ou menores, bem aceitos pela população trabalhadora que não parava de chegar à cidade. A demanda era maior do que oferta, o que facilitava muito o trabalho do proprietário-rentista, que não necessitava de muito esforço para alugar seu imóvel. Esta discrepância entre demanda e oferta fez com que houvesse também abusos em relação aos preços dos aluguéis, e, principalmente, os últimos anos da década de 1930 e os primeiros da década de 1940 assistiram a aumentos absurdos dos valores dos aluguéis, também em conseqüência dos altos índices de inflação da economia. Quadro alterado somente com a Lei do Inquilinato, no ano de 1942, quando se regulamentou o mercado de aluguéis com seu congelamento, desestimulando a produção rentista e transferindo para o Estado e para os próprios trabalhadores o encargo de produzir suas moradias.

Neste cenário, consolidou-se uma nova modalidade de empreendimento: a incorporação destinada às classes de renda média e alta. Este processo marca a migração de muitos dos antigos proprietários-rentistas, do mercado do aluguel para o mercado da incorporação. Segundo Ribeiro (32), a procura por imóveis teve como efeito um crescimento acelerado da incorporação de edifícios de apartamentos para venda. Veremos então, a partir do estabelecimento da construção de apartamentos pela incorporação, um incremento no número de edifícios de apartamentos destinados ás classes média e alta - possuindo programas completos e mais extensos, com várias salas, dormitórios com banheiros e dependências de empregados, e uma redução no número de edifícios com programas mistos – anteriormente elaborados principalmente para aluguel. Este novo direcionamento do mercado imobiliário contribuiu para o desenvolvimento posterior dos edifícios de apartamentos. Como referência da metrópole moderna, os edifícios de apartamentos destinados à classe média e alta passaram a ser construídos por alguns dos grandes nomes da arquitetura modernista brasileira, principalmente os programas de três dormitórios.

Também neste sentido, Rino Levi elaborou, na cidade de São Paulo, mais alguns edifícios de apartamentos com programas voltados à classe média-alta, como o Porchat, o Irmãos Gonçalves e o Prudência.  O projeto do edifício Prudência de 1944, representa uma importante continuidade, em termos de edifícios habitacionais, na obra de Rino Levi. Construído no bairro de Higienópolis, este prédio de apartamentos apresenta, para a época, alto padrão de conforto por suas dimensões - quatro dormitórios e grandes salas -, pelos materiais empregados e equipamentos de água quente e ar condicionado centrais, constituindo uma iniciativa sem paralelo em seu tempo.

O edifício está implantado em amplo terreno que permite uma forma geométrica simples, um volume com planta ortogonal em U, que abriga quatro apartamentos por andar, agrupados dois a dois em função das duas torres de circulação vertical, localizadas nos ângulos internos do conjunto. A distribuição interna dos espaços foi modulada com base na grelha estrutural do edifício. Tal grelha ordena a espacialidade interna e sua clareza é tanta, que se torna possível a exploração das possibilidades da fachada livre. Os estudos foram minuciosos em diferentes aspectos, nas áreas de estar, jantar e dormitórios, concebidas de forma a possibilitar aos usuários a reorganização das divisões internas, mediante remanejamento de divisórias. “As subdivisões internas, deveriam ter sido realizadas com armários e vedações leves, permitindo inteira liberdade ao morador para adaptar o apartamento às suas necessidades” (33). (Fig. 09)

Fig. 09 - Edifício Prudência, av. Higienópolis, São Paulo, Rino Levi, 1944. Opções de layout dos espaços flexíveis [Anelli, 2001]


Segundo os depoimentos dos arquitetos Roberto Cerqueira César e Luís R. Carvalho Franco, todos os proprietários dos apartamentos, com exceção de um, o Sr. Severo Gomes, recusaram essa proposta, construindo paredes de alvenaria sobre os eixos da modulação. “Esta concepção espacial dos apartamentos chocava-se com certos consensos da elite brasileira da época. Um deles – e que parece estar em vigência até hoje – era o de que a residência de prestígio deveria caracterizar-se por uma sucessão de cômodos com finalidades específicas, o que excluía qualquer possibilidade de sobreposição de funções” (34). Segundo Tramontano (23), a atitude de recusa dos elementos flexíveis por parte dos moradores do Prudência pode estar relacionada ao fato deles associarem tal solução à precariedade das casas dos pobres, que improvisavam na utilização de tapumes, cortinas e armários para divisão dos cômodos de suas casas.

Tal atitude projetual, de testar elementos flexíveis no espaço doméstico através do uso de divisórias retráteis, pôde ser percebida com certa freqüência no trabalho de Rino Levi, mesmo anterior ao edifício Prudência. Leiam-se alguns estudos de viabilidade de empreendimento de edifícios de apartamentos realizados para a cidade de São Paulo como é o caso do Edifício à Rua Vieira de Carvalho de 1939 na qual três plantas são propostas para apartamentos de um dormitório. (Fig. 10)

Fig. 10 - Edifício rua Vieira de Carvalho, São Paulo, Rino Levi, 1939. Estudos de planta tipo [Arquivo FAU-USP]


A execução de edifícios modernos intensificou-se nos anos 1940 e 1950, alterando as características estilísticas da cidade de São Paulo. Entre eles o edifício Louveira, de J. Vilanova Artigas (1946), o edifício Lausanne, de Adolf Franz Heep (1953), o edifício Nações Unidas, de Abelardo de Souza (1953), e outros. As fachadas desprovidas de ornamentos, com suas estruturas aparentes, brises-soleil e volumes recortados, passaram a conviver com as formas ecléticas dos edifícios dos anos 1920 e 1930. Porém, a maneira de morar da classe média, habitante destes apartamentos, permaneceu nos moldes burgueses – espaços setorizados e compartimentados. Um dos pontos básicos da arquitetura moderna – a planta livre, na maioria dos casos, não saiu do papel.

No final da década de 1940, assistiu-se à execução de uma série de projetos visando a demanda da classe média-alta, como é o caso dos edifícios Prudência e Pilotis, projetado por Francisco Beck. Nestes casos, é característica a busca pela disposição de maiores áreas e pelo número maior de cômodos. Neste momento, se consolidaria a presença de halls de entrada no edifício com portarias e de elevadores separados para patrões e para empregados. Ainda nesse período, se difundiram timidamente alguns aparatos de uso coletivo como garagens, play-grounds e áreas ajardinadas, que visando comercialização em melhores condições, se constituíam como parte de um repertório de diferenciação entre os edifícios. Como um elemento de destaque no programa, notamos a presença da suíte no dormitório do casal, que, se por um lado, indicava a necessidade de mais privacidade, por outro, consistia em um requinte no equipamento da habitação.

Entretanto, a maior incidência entre os edifícios de apartamentos nos anos de 1940 foi a da planta reduzida da tipologia burguesa oitocentista com um programa básico de sala, dormitórios (2 ou 3), banheiro e cozinha, apresentando, na maioria dos casos, cômodos de empregados - dormitório e banheiro -, e entradas separadas para as áreas social e de serviços. Esta organização espacial, que pode ser considerada uma tipologia, de certa forma começou a se repetir mais intensamente nesta década, porém, foi ao longo das décadas de 1950 e 1960 que se tornou mais recorrente, para chegar aos anos 1970, já completamente consolidada. Esta tipologia foi utilizada por vários dos arquitetos, modernistas ou não, engenheiros e construtores, tornando-se talvez o mais rentável e seguro programa para os incorporadores.

Fig.11 - Edifício Betty, São Paulo, Rino Levi, 1946. Planta tipo [Arquivo FAU-USP]


As propostas de Rino Levi para a década de 1940 nos mostram, por um lado, a tentativa de colocação do arquiteto no mercado imobiliário configurado até então, e por outro, a preocupação em elaborar espaços diferenciados tipologicamente, propondo edifícios de variados tamanhos e soluções. È o caso dos estudos para o edifício Betty de 1946 (Fig. 11), para o edifício Oswaldo Dorchat de 1946 (Fig.12) e o edifício Liberdade de 1948 (Fig.13), ambos com programas bem variados. Segundo Rossella Rossetto (35), analisando as tipologias da incorporação desenvolvidas nesta época, defende-se que os resultados arquitetônicos não eram dissociados da lógica da produção imobiliária e que existia a articulação entre produto e processo. Através dessa ótica percebe-se que determinados conceitos e pressupostos da Arquitetura Moderna foram empregados amplamente pelo mercado imobiliário.

Fig.12 - Edifício Oswaldo Dorchat, São Paulo, Rino Levi, 1946. Planta tipo [Arquivo FAU-USP]


Fig. 13 - Edifício Liberdade, São Paulo, Rino Levi, 1948. Planta tipo [Revista Acrópole 176]


Os anos de 1950: continuidade projetual e o afastamento do arquiteto na produção imobiliária

No ano de 1950, a cidade de São Paulo já apresentava um crescimento vertical visível, em blocos, não só nos bairros próximos ao centro como nos mais afastados (36). Entretanto, na década de 1950, a cidade foi marcada por um boom imobiliário, caracterizando a expansão de áreas periféricas ainda não verticalizadas e o adensamento das áreas próximas ao centro, onde os edifícios altos se destacavam. Este crescimento foi possibilitado também em função da legislação vigente, que estabelecia, até 1957, um generoso coeficiente de aproveitamento do solo, que variava de 8 a 10 vezes a área do terreno (37). A partir de 1957, com a edição da lei 5261, tais coeficientes foram restringidos a 6 vezes a área do terreno, no caso de uso comercial, e a 4, para uso residencial. Ainda assim, o edifício de apartamentos transformou-se em um dos marcos mais reveladores dos novos modos de vida da sociedade paulistana (38).

 As formas cúbicas e geométricas do Movimento Modernista já faziam parte do vocabulário arquitetônico paulistano neste período, visível nos inúmeros edifícios modernistas construídos na cidade. Entretanto, a verdadeira inovação deste momento foi a introdução, no mercado imobiliário, de uma nova modalidade de comercialização e de administração: o condomínio.

Os primeiros apartamentos comercializados sob a forma de condomínios possuíam apenas um dormitório ou eram do tipo kitchenettes, e constituíram uma rentável forma de investimento e lucratividade aos especuladores. Em seguida, o sistema foi estendido aos apartamentos de dois e três dormitórios, e foi então que os condomínios se transformaram na grande vedete dos anos 1950 e 1960. Dentro desta nova forma de organização comercial, segundo Regina Meyer, havia, tanto quanto em outros momentos, mas talvez agora de forma mais acentuada, duas categorias de projetos e de realizações: a produção assinada, comprometida com as propostas arquitetônicas eruditas veiculadas internacionalmente, e a produção comercial, comprometida com a aceitação segura do mercado (39).

Pilotis, brise-soleil, panneaux de verre eram elementos constantes de edifícios produzidos por arquitetos renomados como Oscar Niemeyer (Edifício Copan – 1951/1952), Abelardo de Souza (Edifício Nações Unidas – 1953), Adolf Franz Heep (Edifício Lausane – 1953), Plínio Crocce, Roberto Aflalo e Salvador Candia (Edifício João Ramalho – 1953), Jacques Pilon (Edifício Paulicéia – 1956). Grandes referências da arquitetura modernista brasileira foram erguidas nos anos de 1950 e 1960, no que diz respeito à plástica e às soluções técnicas usadas nos edifícios. É, no entanto, curioso notar que quase nenhum dos apartamentos construídos apresentava inovações na forma de organizar o espaço interior, excetuados alguns exemplos de habitação de interesse social (40).

Segundo Yves Bruand (41), os apartamentos chegariam ao final dos anos de 1960 como uma das principais modalidades habitacionais do Brasil, construídos, na época, única e exclusivamente pela iniciativa privada. Em depoimento sobre a classificação dos edifícios modernistas brasileiros, Bruand diz que os profissionais da construção civil tiveram o mais vasto campo de ação de que dispunham na execução de edifícios.

Teria, no entanto, havido uma desproporcionalidade entre as realizações de caráter social, cujos canteiros ficaram muito secundários e não deram origem senão a algumas poucas tentativas válidas – Pedregulho, Gávea, etc. –, as realizações para classes intermediárias, mais abundantes, mas sem interesse profundo, e as casas ou apartamentos de luxo que dominam o mercado pelo número e pela qualidade. “Esta última série é que examinamos de modo mais essencial, por razões evidentes: ela constituiu a parte dominante da obra da maioria dos arquitetos e, em muitos casos, a parte onde eles conseguiram expressar-se melhor” (42). Sua condição de símbolo de modernidade e sucesso social, entretanto, não parece ter estimulado, em seus idealizadores, maiores reflexões sobre as recentes transformações por que passava a sociedade, e, inevitavelmente, observamos nestes apartamentos os princípios de organização da casa isolada tradicional: estanqueidade entre cômodos, entre áreas, entre circulações. Bruand ainda comenta que “em geral, não há pesquisas novas como, por exemplo, na unidade habitacional de Le Corbusier, em Marselha; trata-se simplesmente de uma sobreposição de residências, numa versão desmesuradamente ampliada do prédio para aluguel que esteve muito em voga na Europa do século 19. Nada de surpreendente, já que ambos os modelos tinham exatamente o mesmo fim especulativo, com a diferença de que, agora, a propriedade é condominial ao invés de concentrar-se nas mãos de um só dono” (43).

Fig. 14 - Edifício Olívio Gomes, rua Bahia esquina rua Sergipe, São Paulo, Rino Levi, 1951. Planta tipo e opção de variação nos espaços íntimos [Arquivo FAU-USP]

Nestes apartamentos assinados por arquitetos filiados aos movimentos internacionais, desde os pequenos até os de maior área, observamos que os espaços continuam a ser organizados da maneira tradicional. Percebemos, entretanto que, havia um desejo, ainda que incipiente, de flexibilização dos espaços em alguns projetos. Isto pode ser percebido, principalmente, no trabalho de Rino Levi na maioria de seus edifícios de apartamentos, quando notamos a presença sempre possível de divisórias leves e, em alguns casos, móveis, em cômodos que permitiam diferentes utilizações. Tal atitude projetual não se restringia aos programas menores, já que temos exemplos do uso de divisórias leves entre ambientes tanto em apartamentos destinados à classes mais abastadas, como é o caso do Edifício Olívio Gomes de 1951 (Fig. 14), como nos programas menores, visto os estudos para o edifício Florentina de Falco de 1953 (Fig. 15). Parece-nos que Rino Levi neste período experimentou diversos públicos de apartamentos – os maiores, como é o caso do Edifício Olívio Gomes, que apresenta um apartamento por andar, aos menores, visto o edifício Andorinhas, de 1952 e o edifício Jovira Rolim de 1957, ambos ofereciam apartamentos de 1 dormitório.

Fig. 15 - Edifício Florentina de Falco, av. Nove de Julho, São Paulo, Rino Levi, 1953. Planta tipo duplex [Arquivo FAU-USP]


Interessante também é a maneira como Levi organizou os espaços de higiene pessoal em um de seus projetos de apartamentos no ano de 1957 – o edifício Jovira Rolim (Fig. 16), desmembrando espacialmente as três peças básicas do banheiro: vaso sanitário, chuveiro e pia. Esta é uma das raras reflexões realizadas no campo da organização espacial, nos projetos dos apartamentos paulistanos dos anos de 1950 e 1960.

Fig. 16 - Edifício Jovira Rolim Toledo, ed. desconhecido, São Paulo, Rino Levi, 1957. Planta tipo [Revista Acrópole 226]


A segunda categoria de apartamentos produzida nos anos 1950 e 1960 foi a chamada “produção comercial”, que contribuiu de maneira decisiva ao boom imobiliário ocorrido no período, na cidade de São Paulo. Vários foram os personagens participantes desta trama, das quais se destacavam os engenheiros e as construtoras, com especial ênfase para a Construtora e Imobiliária Monções.

Filiados ou não aos preceitos internacionais da arquitetura modernista, a maioria dos edifícios de apartamentos produzidos na década de 1950 e 1960 continua a organizar seus interiores baseada na tripartição das áreas. Nos programas de um dormitório ou mesmo nos kitchinnetes, nota-se uma maneira de organização espacial bastante semelhante às dos anos 1940, apenas uma incidência maior de apartamentos com divisórias móveis que separam os cômodos. Percebe-se uma redução nas áreas destes apartamentos e na diminuição, ou quase abolição, dos incrementos dados a estes na década de 1940, como bares, salas distintas separadas por arco, hall, etc.

Neste momento, o foco principal do mercado imobiliário seria a produção dos grandes edifícios, destinados a classes mais abastadas. As kitchenettes, que denotavam um programa mais econômico, pareciam perder mais espaço ainda no terreno da incorporação e do sistema de condomínios, tão em voga. Em relação aos programas de dois e três dormitórios, foi durante as décadas 1950 e 1960 que se difundiu a redução de áreas do modelo tripartido, que denominamos anteriormente, com características básicas: além da redução da área dos cômodos, a distinção entre entradas social e de serviços e a presença de cômodos de empregados. Neste quadro, podemos perceber algumas diferenciações. Dentro deste programa existiam os apartamentos mais baratos – com áreas menores e cômodos suprimidos -, e os maiores - que eram completos. Entretanto, nestas décadas ainda encontra-se apartamentos espaçosos, com áreas bem superiores às das décadas vindouras.

Localiza-se, portanto, no final dos anos 1960, o início da consolidação de uma tipologia de habitação, no momento em que o modelo de apartamento reduzido tripartido se repetirá infinitamente no cenário imobiliário paulistano dos anos 1970. Durante as décadas anteriores já pode ser notada esta organização espacial, mas apresentando algumas variações de áreas. O mais interessante é que podemos identificá-la tanto nos edifícios de apartamentos produzidos pelos interesses puramente mercadológicos, como nos grandes exemplos da produção assinada.

Em relação à elaboração de edifícios de apartamentos do arquiteto Rino Levi, e obviamente de seu escritório, notamos que a partir dos anos de 1950 sua produção diminuiria comparada à produção de projetos de habitações individuais, e outras tipologias elaborados neste mesmo período. Segundo Anelli e Guerra, na década de 1950, Levi elaboraria apenas cinco habitações coletivas, em comparação às dezenas de projetos de outras tipologias (44). Tal fato pode sugerir, já neste momento, a dificuldade de viabilização de propostas arrojadas e diferenciadas para o mercado imobiliário paulistano e o afastamento do arquiteto criativo frente à produção coletiva verticalizada. 

notas

1
O presente artigo foi baseado na Pesquisa de Mestrado concluída em 2002: VILLA, S. “Apartamento Metropolitano: habitações e modos de vida na cidade de São Paulo”, São Carlos, EESC-USP. A pesquisa contou com o apoio financiador da FAPESP. O artigo foi apresentado no I Seminário Docomomo Brasil São Paulo e publicado no Caderno de Resumos do evento: VILLA, S. B. “Os Apartamentos de Rino Levi: produção imobiliária, inovação e a promoção modernista de edifícios coletivos verticalizados na cidade de São Paulo”. In: I Seminário São Paulo – A Modernidade Paulistana – Docomomo Brasil, Caderno de Resumos, São Paulo, 2004.

2
SOMEKH, N. A Cidade Vertical e o Urbanismo Modernizador - São Paulo 1920-1939. São Paulo: Studio Nobel, EDUSP, FAPESP,1997, p. 23.

3
CASTELLO-BRANCO, I. Arquitetura no centro da cidade. São Paulo, edifícios de uso coletivos: 1930-1945. São Paulo: FAU-USP. Dissertação de mestrado.

4
HOMEM, M. C. N. Higienópolis, grandeza e decadência de um bairro. São Paulo: Prefeitura Municipal, 1980. Sobre Higienópolis consultar este excelente trabalho.

5
MEYER, M. P. R. Metrópole e Urbanismo – São Paulo anos 1950. Tese de Doutoramento. São Paulo: FAU-USP, 1991, p.29.

6
SOMEKH, N., op. cit., p. 103.

7
Idem, p. 23.

8
XAVIER, J; LEMOS, C; CORONA, E. Arquitetura moderna paulistana. São Paulo: Pini, 1983.

9
BONDUKI, N. G.Habitação Popular: contribuição para o Estudo da evolução urbana de São Paulo”. In: VALLADARES, L. (ed.). Repensando a habitação no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 1983, p. 135-168.

10
LEVI, R.A architectura moderna: a architectura e a esthetica das cidades”. In: Revista Construção Moderna, fev/jul; São Paulo, 1926.

11
A arquitetura e a estética das cidades
, publicado no Jornal O Estado de São Paulo em outubro de 1925.

12
Acerca da Arquitetura Moderna
, publicado no Correio da Manhã em novembro de 1925.

13
SEGAWA, H. Arquiteturas no Brasil: 1900-1990. São Paulo: EDUSP, 1997, p. 55.

14
SOMEKH, N., op. cit.

15
ANELLI, R; GUERRA, A. Rino Levi. Arquitetura e Cidade. São Paulo: Romano Guerra Editora, 2001, p. 289.

16
LEME, M. S. O pensamento industrial no Brasil: 1919-1945. São Paulo: Dissertação de Mestrado, História – FFLCCH/USP, 1977. Citado por Somekh, N., op. cit. p.199.

17
LEMOS, C.O Apartamento”. In: Cozinhas, etc. São Paulo: Perspectiva, 1978.

18
Idem
, p. 162.

19
MACHADO, L. G., op. cit. Citado por ANELLI, R. L. S. Arquitetura e cidade na obra de Rino Levi. São Paulo: Tese de Doutorado, FAUUSP, 1995, p. 114.

20
SEGAWA, H., op. cit., p. 65.

21
ANELLI, R. L. S. Arquitetura e cidade na obra de Rino Levi. op. cit., p. 112.

22
Texto de apresentação do projeto para o Columbus. Original escrito em italiano e arquivado junto aos memoriais técnicos do projeto na arquivo Rino Levi. Citado por ANELLI, R. L. S. Arquitetura e cidade na obra de Rino Levi. op. cit., p. 237-8.

23
TRAMONTANO, M. Novos Modos de Vida, Novos Espaços de Morar. Paris, São Paulo, Tokyo. Tese de Doutorado. São Paulo: FAUUSP, 1998, p. 120.

24
LEMOS, C. Arquitetura Brasileira. São Paulo: Melhoramentos, EDUSP, 1979, p.133.

25
Aprofundamentos no entendimento desse processo extrapolariam os limites do presente trabalho.

26
TOLEDO, B. L. São Paulo: três cidades em um século. São Paulo: Duas Cidades, 1983, p.141.

27
TRAMONTANO, M. op. cit., p. 121.

28
LEMOS, C. Edifícios residenciais em São Paulo: da sobriedade à personalização. São Paulo: Revista Projeto, n. 130, 1990, p. 57.

29
SOMEKH, N. A Cidade Vertical e o Urbanismo Modernizador - São Paulo 1920-1939. op. cit., p. 19.

30
Idem

31
BONDUKI, N. Origens da habitação social no Brasil. Arquitetura Moderna, Lei do Inquilinato e Difusão da Casa Própria. São Paulo: Estação Liberdade, Fapesp, 1998, p. 218.

32
RIBEIRO, L. C. Q.Da propriedade fundiária ao capital incorporador: as formas de produção da moradia na cidade do Rio de Janeiro”. Tese de Doutorado, FAU-USP, 1989. In: Bonduki, N. Origens da habitação social no Brasil. Arquitetura Moderna, Lei do Inquilinato e Difusão da Casa Própria op. cit., p. 251.

33
ANELLI, R. L. S. Arquitetura e cidade na obra de Rino Levi. op. cit., p. 250.

34
TRAMONTANO, M, op. cit., p. 267.

35
ROSSETTO, R. Produção Imobiliária e Tipologias Residenciais Modernas. São Paulo – 1945/1964. Tese de Doutorado, FAU-USP, São Paulo, 2002.

36
SOMEKH, N. A (Des)Verticalização de São Paulo e o Plano Diretor da Cidade. op. cit., p. 80.

37
Em certos casos, o coeficiente de aproveitamento chegava até 22 vezes, como no caso do edifício Martinelli. COCCARO, J. L. Modernização urbano-industrial e arquitetura na cidade de São Paulo no período de 1960-1975. São Paulo, Dissertação de Mestrado, FAU-USP, 2000, p. 50.

38
MEYER, R. M. P., op. cit., p. 35.

39
MEYER, R. M. P., op. cit., p. 37.

40
Por necessitarem de metodologia de coleta e análise específica, os apartamentos ditos de interesse social encontram-se fora dos limites desse trabalho.

41
BRUAND, Y. Arquitetura Contemporânea no Brasil. São Paulo, Ed. Perspectiva, 1991, p. 20-21.

42
Idem, p. 375.

43
Idem, p. 21.

44
ANELLI, R. op. cit, 316.

sobre a autora

Simone Barbosa Villa, Arquiteta e Urbanista, Doutora pelo Programa de Pós-Graduação da FAU-USP. Docente da Faculdade de Arquitetura,Urbanismo e Design (FAUeD) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU)

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