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arquitextos ISSN 1809-6298


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O complexo equilíbrio entre a cidade e o meio ambiente é o principal assunto do romance A Cidade e as Serras, escrito por Eça de Queiroz em 1901, que apresenta questionamentos tão atuais que podem facilmente ser transpostos para o urbanismo contemporâneo

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The complex balance between cities and the environment is the main subject of the novel A Cidade e as Serras, written by Eça de Queiroz in 1901, that presents questions that are so current that can be easily transposed to contemporary urbanism


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SANTOS, Maria Fernanda Nóbrega dos; CAVASSAN, Osmar; BATTISTELLE, Rosane Aparecida Gomes. A cidade e as serras. Eça de Queiroz e a construção do pensamento ambiental. Arquitextos, São Paulo, ano 11, n. 124.03, Vitruvius, set. 2010 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/11.124/3574>.

O planejamento urbano e a relação entre as cidades e o meio ambiente são assuntos a serem amplamente discutidos, principalmente com a crescente e atual preocupação ambiental que transpassa todas as atividades humanas.

Segundo Arruda (1), temas como: desenvolvimento sustentável; plano de gestão ambiental; conservação de recursos naturais; ética ecológica; proteção dos recursos naturais; meio antrópico; ambiente natural; cenários ambientais; ecologia urbana; fontes renováveis; biomassa e licenciamento ambiental; fazem parte de uma nova linguagem que os arquitetos estão tendo que apreender para atuar no mais novo mercado de trabalho mundial, o do planejamento urbano ambiental.

Nessa linha de trabalho, o planejamento urbanístico da cidade deve estar prioritariamente vinculado ao estudo do meio ambiente em que a mesma está inserida, preocupando-se com os possíveis impactos ambientais que sua implantação e gestão poderão causar.

Dessa forma, como trazer este questionamento à tona e discutir com os futuros arquitetos esta nova vertente do tão antigo e já conhecido planejamento urbano?

Uma das possibilidades é por meio de uma atividade interdisciplinar como a proposta neste trabalho, que se utiliza de um texto não técnico para introduzir e debater o assunto, nesse caso, o romance A Cidade e as Serras (2).

De acordo com Fazenda (3) a importância da interdisciplinaridade na formação dos indivíduos, se deve pela substituição de concepções fragmentadas por uma concepção unitária do ser humano, preservando a integridade do pensamento e evitando a dissociação do saber. Em relação à questão ambiental, a busca por abordagens interdisciplinares se faz mais necessária, em virtude da abrangência do tema.

Desse modo, o romance A Cidade e as Serras de Eça de Queiroz (4) foi utilizado para introduzir a questão da oposição Cidade X Campo e a partir de uma leitura interdisciplinar e crítica, relacionar a visão de mundo e cidade apresentada pelos personagens com as ideias urbanísticas sobre o tema. Nesse contexto, o Campo pode ser entendido como qualquer ambiente natural, que não seja construído artificialmente pelo ser humano.

No texto de Eça de Queiroz, existe uma clara evolução da percepção de mundo, cidade e natureza que ocorre em seu personagem central, Jacinto. Ao longo da narrativa, as concepções que Jacinto desenvolve acerca da Cidade X Campo vão mudando radicalmente, passando por três fases bem definidas: cidade sobrepõe-se ao campo; campo sobrepõe-se à cidade e a busca da conciliação entre a cidade e o campo.

Pode-se dizer que estas fases também estão presentes na concepção de planejamento urbano, por meio dos diferentes estilos e movimentos urbanísticos. Desse modo, a proposta deste trabalho é traçar um paralelo entre as diferentes fases pelas quais atravessa o personagem Jacinto no livro com as fases do planejamento urbano, buscando despertar a atenção do futuro arquiteto para os aspectos ambientais relacionados ao assunto, tão presentes e atuais na obra A Cidade e as Serras.

Fase 1: Cidade sobrepõe-se ao Campo

Nesta primeira fase do livro, pode-se dizer que algumas das características mais marcantes do realismo de Eça de Queiroz ainda estão presentes, como seu olhar extremamente crítico, seus tipos caricatos e a comicidade das situações descritas, mostrando os absurdos da vida na sociedade da época.

Durante os primeiros cinco capítulos, o livro mostra a vida de Jacinto em Paris e sua residência, o palácio n. 202 na Avenida Champs-Elysées. Outro personagem importante na obra é Zé Fernandes, amigo e confidente de Jacinto, com o qual a maioria dos diálogos se desenrola.

Nesta parte da narrativa, pode-se dizer que Eça de Queiroz apresenta uma visão de mundo, personificada por Jacinto, na qual existe um elogio à racionalidade das cidades e uma crítica à rusticidade do mundo natural.

Excertos

“Ora, neste tempo Jacinto concebera uma ideia... Este Príncipe concebera a ideia de que ‘o homem só é superiormente feliz quando é superiormente civilizado’” (pág. 11).

“Por uma conclusão bem natural, a ideia de civilização, para Jacinto, não se separava da imagem de cidade, de uma enorme cidade, com todos os seus vastos órgãos funcionando poderosamente.” (pág. 13).

“– Mas que maravilhoso organismo, Zé Fernandes! Que Solidez! Que produção!” (pág. 24).

Nestes trechos apontados, pode-se perceber claramente o caráter funcional que a cidade exerce para Jacinto, como se fosse uma máquina ou mesmo uma fábrica, funcionando à disposição de seus habitantes, numa ideia claramente racional e mecanicista. Para Jacinto, a cidade se resume:

“Só tijolo, só ferro, só argamassa, só estuques; linhas hirtas, ângulos ásperos; tudo seco, tudo rígido. E dos chãos aos telhados, por toda a fachada, tapando as varandas, comendo os muros, tabuletas, tabuletas...” (pág. 24).

Outra situação que merece destaque é quando Jacinto e Zé Fernandes saem para um passeio no campo, onde fica evidente a dificuldade do primeiro em lidar com a natureza, como apresentado no excerto abaixo.

“Logo que se afastava dos pavimentos de madeira, do macadame, qualquer chão que os seus pés calcassem o enchia de desconfiança e terror... Todas as flores que não tivesse já encontrado em jardins, domesticadas por longos séculos de servidão ornamental, o inquietavam como venenosas...” (pág. 14).

Porém, apesar de dispor de todo o conforto e civilização que um homem do século XIX poderia almejar, Jacinto começa a sentir-se cansado e enfastiado. Desse modo, é no capítulo VI que se estabelece a primeira visão crítica do personagem em relação às cidades e à civilização, crítica esta, que foi induzida por Zé Fernandes. Neste capítulo, especificamente, existem trechos muito interessantes a serem trabalhados com os alunos, em uma crítica que pode ser facilmente transposta para a nossa realidade.

Zé Fernandes, do alto de uma colina, mostra à Jacinto a cidade abaixo deles, com todas as suas misérias e contradições, contrapondo a grandeza daquela construção com as imensas desigualdades daqueles que ali vivem.

“E se ao menos essa ilusão da cidade tornasse feliz a totalidade dos seres que a mantém... Mas não! Só uma estreita e reluzente casta goza na cidade os gozos especiais que ela cria. O resto, a escura, imensa plebe, só nela sofre, e com sofrimentos especiais que só nela existem!... E com este labor e este pranto dos pobres, meu Príncipe, se edifica a abundancia das cidades! Ei-la agora, coberta de moradas em que eles não se abrigam; armazenada de estofos, com que eles não se agasalham; abarrotada de alimentos, com que eles não se saciam!” (pág. 49).

Desse modo, para finalizar seu discurso ideológico, Zé Fernandes critica a postura de seu próprio amigo Jacinto, que se diz muito preocupado com as questões sociais, porém não possui uma atitude condizente. Jacinto sente-se então “absolutamente saciado, abarrotado, nauseado pela opressão de sua abundância.” (pág. 62).

É justamente nesse momento, perturbado por estas questões, que o personagem então decide ir para sua residência nas serras de Tormes – Portugal, para resolver assuntos de família. Porém, mesmo desencantado com a civilização, Jacinto carrega junto de si uma imensa bagagem, para que não lhe falte absolutamente nenhum conforto da cidade. E é neste período, a partir da viagem às serras, que se inicia o processo de transformação que o personagem irá passar durante todo o resto da obra.

Movimentos Urbanísticos

Pode-se dizer que o início do planejamento urbano se dá por volta do ano 2000 a.C. na construção da cidade da Babilônia. Nesta cidade, idealizada pelo rei Hamurábi as ruas já são retas e têm largura constante e os muros se recortam em ângulos retos. É claro que o surgimento das cidades data de época muito anterior a este período, como a cidade de Ur (na Mesopotâmia) que é considerada a mais antiga cidade que se tem registro, porém a cidade de Babilônia é um marco por causa de seu planejamento prévio (5).

Já se percebe neste período, a vontade do homem de regularizar o traçado urbano e organizar o espaço segundo suas necessidades. Porém, quando surge o movimento renascentista, o planejamento urbano toma traços cada vez mais ousados na tentativa de racionalizar o espaço, por meio dos diversos tratados que foram escritos na época.

Muitos destes tratados ainda hoje são estudados pelos arquitetos, como os famosos escritos deixados por Vitruvius. Os padrões de proporções e os princípios preconizados por Vitruvius “utilitas, venustas e firmitas” (utilidade, beleza e solidez) inauguraram a base da arquitetura clássica renascentista. As formas geométricas e racionais das ruas, quarteirões e praças que as cidades renascentistas adotam, são extremamente coerentes com a estética da época e podem ser facilmente visualizados na cidade de Florença na Itália.

Quando o período dos grandes descobrimentos se iniciou no século XVI, muitos destes princípios foram trazidos para as novas cidades que estavam sendo fundadas na América pelos colonizadores. Os espanhóis foram extremamente metódicos na fundação de seus assentamentos e desenvolveram uma série de regras de planejamento urbano, o que não ocorreu da mesma forma com os colonizadores portugueses no Brasil. Pode-se dizer então, que os colonizadores ignoraram o modo como as comunidades indígenas estavam estabelecidas no território, bem como as questões físicas, quando impuseram seus modelos predeterminados de cidade (6).

Com o tempo, os aglomerados urbanos foram crescendo cada vez mais, e a partir da revolução industrial, percebe-se a crescente ascendência das cidades e de seu planejamento calcado na racionalização do espaço. A indústria, as máquinas a vapor, a ferrovia, tudo isso vai transformando a cidade de forma cada vez mais rígida.

Assim, foi em função do estado precário em que se encontravam as cidades no final do século XIX que se colocaram uma série de críticas ao sistema vigente de urbanização. Os bairros insalubres onde os trabalhadores residiam, a falta de espaços públicos de lazer, a necessidade de saneamento e o afastamento dos ambientes naturais, eram alguns dos pontos citados pelos urbanistas da época (7).

A necessidade de planos urbanos se torna cada vez mais urgente, não somente pelas questões estéticas, mas também pelas questões de higiene e saúde pública. Deste modo, inúmeras reformas e planos urbanos foram desenvolvidos e colocados em prática neste período, como pode ser visto em Londres, Viena, Barcelona, Washington, dentre outras.

Partilhando dos mesmos conceitos, também pode ser citada a mais paradigmática dessas intervenções, as reformas promovidas por Haussmann em Paris entre 1850 e 1870, que culminaram na construção da “cidade luz”, ícone da industrialização nascente, sendo a Torre Eiffel sendo seu símbolo máximo.

Haussmann impõe um plano urbanístico grandioso à Paris, com amplas avenidas, praças e edifícios monumentais. Todos os cortiços do centro da cidade, onde os trabalhadores das indústrias moravam, foram derrubados para dar espaço à imponente Avenida Champs-Elysées.

É interessante a relação que se pode fazer entre a reforma urbana que ocorreu em Paris promovida por Hausmann e o livro estudado. Eça de Queiroz, apesar de ser português, morava em Paris na época da reforma e escreveu a obra A Cidade e as Serras justamente neste período. Jacinto, o personagem principal, também descendente de portugueses, mora na Avenida Champs-Elysées e desfruta de todo os benefícios promovidos pela reforma, como o encanamento de água, esgoto e luz.

Ao primeiro momento, o personagem de Jacinto tece inúmeros elogios à vida na cidade de Paris, porém, com o passar do tempo o personagem começa a sentir-se enfastiado da artificialidade e contradições sociais vividas na cidade. Desse modo, todas estas críticas apresentadas pelos personagens Jacinto e Zé Fernandes na obra, podem ser frutos dos próprios questionamentos vividos por Eça de Queiroz ao assistir esta importante reforma urbana que acontecia em Paris na época.

Fase 2: Campo sobrepõe-se à Cidade

Assim, cansado da vida urbana atribulada e superficial de Paris, Jacinto segue para as serras de Portugal. Nesta segunda fase, a partir do momento em que o personagem chega às serras, as imagens e descrições da natureza que aparecem no livro, passam a ter um caráter mais romântico, bucólico e até mesmo idílico, evidenciando somente as características positivas da vida simples no campo em companhia da natureza, como pode ser percebido a partir do capítulo VIII.

Excertos

Jacinto chega às serras de Tormes em Portugal e o ambiente natural lhe parece muito familiar, iniciando uma exaltação da natureza e dos valores simples do campo.

A passagem que se segue, quando Jacinto e Zé Fernandes estão na casa da serra ao anoitecer, mostra um momento muito significativo para o crescimento do personagem, como pode ser observado nos dois trechos destacados na sequência. Ao entrar em contato com a natureza, longe do tumulto da cidade, Jacinto pode finalmente observar com cuidado todas as características desse ambiente, passando a partir deste momento a mostrar uma nova postura.

“Jacinto nunca considerara demoradamente aquela estrela... nem assistira jamais, com a alma atenta, ao majestoso adormecer da Natureza. E este enegrecimento dos montes que se embuçam em sombra... eram para ele como iniciações. Daquela janela, aberta sobre as serras, entrevia uma outra vida, que não anda somente cheia do Homem e do tumulto da sua obra. E senti o meu amigo suspirar como quem enfim descansa.” (pág. 78).

“Na Cidade (como notou Jacinto) nunca se olham, nem lembram os astros – pôr causa dos candeeiros de gás ou dos globos de eletricidade que os ofuscam. Pôr isso (como eu notei) nunca se entra nessa comunhão com o Universo que é a única glória e única consolação da vida. Mas na serra, sem prédios disformes de seis andares, sem a fumaraça que tapa Deus, sem os cuidados que, como pedaços de chumbo, puxam a alma para o pó rasteiro – um Jacinto, um Zé Fernandes, livres, bem jantados, fumando nos poiais duma janela, olham para os astros e os astros olham para eles.” (pág. 79).

Após um tempo vivendo nas serras, Jacinto já se sente muito à vontade com este novo ambiente e o amigo Zé Fernandes, citando o poeta Virgílio, diz:

Fortunate Jacinthe! Hic, inter arva nota

Et fontes sacros, frigus captabis opacum...”

Na tradução: “Afortunado Jacinto, na verdade! Agora, entre campos que são teus e águas que te são sagradas, colhes enfim a sombra e a paz!” (pág. 84).

Jacinto desenvolve nesta fase então, um amor romântico pela natureza que lhe é apresentada nas serras, filosofando e louvando as plantas e a terra. As descrições são sempre exageradas, românticas e idealizadas, em um estilo que quase não lembra o autor Eça de Queiroz, que sempre primou pela crítica e ironia. Nesta fase do romance, existem elementos de exaltação bucólica.

“Ah, mas agora, com que segurança e idílico amor se movia através dessa Natureza, de onde andara tantos anos desviado pôr teoria e pôr hábito!” (pág. 87).

“Na Natureza nunca eu descobriria um contorno feio ou repetido! Nunca duas folhas de hera, que, na verdura ou recorte, se assemelhassem! Na Cidade, pelo contrário, cada casa repete servilmente a outra casa; todas as faces reproduzem a mesma indiferença ou a mesma inquietação; as ideias têm todas o mesmo valor, o mesmo cunho, a mesma forma, como as libras; e até o que há mais pessoal e íntimo, a Ilusão, é em todos idêntica, e todos a respiram, e todos se perdem nela como no mesmo nevoeiro... a mesmice – eis o horror das Cidades!” (pág. 87).

Movimentos Urbanísticos

Após as grandes transformações provocadas pela Revolução Industrial, o aumento populacional, o crescimento desordenado das cidades e as maciças reformas urbanas implantadas para corrigir os problemas sanitários, surgem na Europa e nos Estados Unidos, uma nova filosofia urbanística, voltada essencialmente para a valorização do campo.

Esse movimento, idealizado inicialmente por Ebenezer Howard e publicadas em seu livro Garden Cities of To-morrow (8) em 1902, propõe a resolução dos grandes problemas que assolam as cidades – sociais e ambientais – por meio de um desenho urbano que estivesse mais associado à natureza. Para Howard, muitos destes problemas ocorrem justamente pela falta de vínculo entre as cidades e o campo.

A cidade de Letchworth na Grã-Bretanha é considerada a primeira Cidade Jardim concebida nestes ideais. Fundada em 1903 pela Associação das Garden-Cities, serviu de modelo para inúmeros projetos urbanísticos.

Como características comuns das Cidades Jardim, podem ser citados: o traçado informal e orgânico das ruas, os amplos recuos entre as edificações, os acessos secundários em cul de sac e a grande quantidade de jardins e passeios públicos, repletos de gramados e árvores. Assim, após a primeira guerra mundial, o conceito de Cidades Jardim foi cada vez mais difundido e gradualmente se tornou o movimento urbanístico mais utilizado no planejamento de novas cidades, principalmente para a reconstrução da Inglaterra (9).

Posteriormente, o movimento foi se disseminado também nos Estados Unidos, onde foram produzidos diferentes planos urbanísticos baseados nestes princípios. Pode-se dizer que o projeto mais significativo, ou o mais conhecido, é o da cidade de Radburn, implantada em 1928, por Clarence Stein.

A grande diferença que pode ser notada entre as Cidades Jardim inglesas e americanas é que, embora ambas tenham sido minuciosamente planejadas e projetadas, as segundas não possuem nem áreas para indústrias e nem para a agricultura. Por isso, nos Estados Unidos as Cidades Jardim se transformaram em “subúrbios jardins”, ou seja, são apenas bairros residenciais separados fisicamente do resto da cidade por áreas verdes.

Assim, o que para Howard era uma qualidade das Cidades Jardim – a amplidão e grande quantidade de áreas verdes – torna-se uma crítica frequente à este modelo, em virtude do efeito de suburbanização que ele proporciona. As áreas residenciais, as zonas comerciais e os parques industriais se encontram tão distantes fisicamente que originam uma série de impactos ambientais: a dependência do automóvel para se locomover dentro da cidade; o aumento da poluição que o uso em grande escala do automóvel proporciona; a devastação da vegetação nativa e das terras agrícolas; a concentração da pobreza em algumas áreas da cidade e os altos custos de implantação deste modelo de urbanização (10).

Desse modo, assim como Jacinto em seu primeiro contato com a natureza, as Cidades Jardim também estavam calcadas em uma concepção utópica e romântica acerca do meio ambiente. Nessa compreensão, mais importava o caráter estético do campo, vinculado às paisagens bucólicas, grandes áreas verdes, caminhos tortuosos e aparente desordem da vegetação, do que o respeito às características reais dos ambientes naturais.

Por diversas vezes, grandes áreas de vegetação nativa foram devastadas para dar lugar a imensos gramados em condomínios e cidades que aparentemente valorizavam a natureza, assim como obras de significativo impacto ambiental foram realizadas com o mesmo objetivo.

Fase 3: Conciliação entre Cidade e Campo

Ao mesmo tempo em que vai passando a euforia inicial de Jacinto em relação aos encantos da serra e sua admiração romântica pela natureza, ele também vai encontrando diversos problemas no local que necessitam de ação, e não de contemplação. O personagem, nesta última fase, busca conciliar e equilibrar os benefícios proporcionados pela cidade com o respeito ao ambiente natural.

Excertos

“Durante essas semanas que preguicei em Tormes, eu assisti, com enternecido interesse, a uma considerável evolução de Jacinto nas suas relações com a Natureza. Daquele período sentimental de contemplação, em que colhia teorias nos ramos de qualquer cerejeira, e edificava sistemas sobre o espumar das levadas, o meu Príncipe lentamente passava para o desejo da Ação... E duma ação direta e material, em que a sua mão, enfim restituída a uma função superior, revolvesse o torrão.” (pág. 93).

Esse parágrafo mostra o início do amadurecimento e da busca de equilíbrio do personagem Jacinto em relação aos questionamentos propostos durante toda a obra: a dualidade Cidade X Campo. Jacinto, que no primeiro momento negava completamente qualquer relação com a natureza, passou para um segundo momento de admiração e contemplação do campo e, segundo Zé Fernandes, estava passando para uma nova fase, onde a ação, voltada para o bem das serras e de seus moradores, seria seu novo e final objetivo. Resumidamente: “Depois de tanto comentar, o meu Príncipe, evidentemente, aspirava a criar.” (pág. 93).

Assim, Jacinto começa a se questionar sobre quais as suas ações voltadas para a natureza e observa, por exemplo, que apesar de tanto falar, ele nunca havia plantado uma árvore sequer, como no excerto abaixo.

“...Jacinto observou, mais para si do que para mim: – É curioso... Nunca plantei uma árvore!” (pág. 93).

Jacinto passa também a se interessar pelos trabalhadores que na serra residem, assim como pelas atividades que estes desempenham. Então, no capítulo X, ao se abrigar de uma chuva forte que atinge Tormes, Jacinto vê um menino, filho de um dos moradores do lugar, muito amarelado e doente. Jacinto se espanta com o estado de saúde da criança e indaga a Silvério (espécie de caseiro da propriedade) o que teria causado a enfermidade ao garoto. Silvério lhe responde que o menino se encontra em tal estado, devido à situação de fome e miséria que vive sua família em Tormes. Jacinto fica estupefato ao constatar que nas serras, tão maravilhosamente formadas pela natureza, também existem problemas sociais sérios e Zé Fernandes conclui:

“ – Tu também andavas namorado da serra, sem a conhecer, só pela sua beleza de Verão. E a serra, hoje, zás! De repente, descobre a sua grande úlcera...

 – É verdade! Vi a chaga! Mas enfim, esta, louvado seja Deus, é das que eu posso curar!” (pág. 106).

Assim, a partir deste momento, Jacinto inicia uma grande reforma em sua propriedade de Tormes, reconstruindo as casas dos moradores, abrindo novas estradas, trazendo água e um pouco de conforto e civilização ao povo das serras.

“E com efeito! Jacinto era agora como um Rei fundador dum Reino, e grande edificador. Pôr todo o seu domínio de Tormes andavam obras, para o renovamento das casas dos rendeiros, umas que se consertavam, outras mais velhas, que se derrubavam para se reconstruírem com uma largueza cômoda.” (pág. 107).

Ao trazer um pouco da cidade para o campo, Jacinto encontra finalmente o equilíbrio que tanto buscava, entre a civilização e a natureza, como se denota no excerto transcrito a seguir.

“Mas onde eu reconheci que definitivamente um perfeito e ditoso equilíbrio se estabelecera na alma do meu Príncipe, foi quando ele, já saído daquele primeiro e ardente fanatismo da Simplicidade – entreabriu a porta de Tormes à Civilização.” (pág. 122).

Movimentos Urbanísticos

O conceito de planejamento urbano das Cidades Jardim, separando cada função da cidade em uma zona diferente, tomou proporções cada vez maiores com o urbanismo moderno. Le Corbusier, importante arquiteto do movimento moderno, divide a cidade em quatro funções que devem estar prioritariamente separadas: habitação, trabalho, lazer e circulação. O planejamento da cidade de Brasília, por exemplo, foi diretamente influenciado por estes conceitos.

Aos poucos, tanto o conceito romântico das Cidades Jardim de Howard, quanto os ideais utópicos do urbanismo moderno pregados por Le Corbusier, foram mostrando seus pontos fracos. Assim, em 1961 é lançado um dos livros mais importantes do urbanismo: The Death and Life of Great American Cities de Jane Jacobs (11). Este livro traz uma série de críticas ao urbanismo que foi implantado em larga escala no século XX nas cidades norte-americanas, no entanto, essa mesma crítica pode ser transposta para a maioria das grandes cidades mundo afora.

Em função do distanciamento crítico de Jacobs, que não era nem arquiteta nem urbanista, a autora teve liberdade suficiente para escrever um dos mais importantes libelos contra o urbanismo moderno. Ou mais exatamente, das práticas urbanísticas originadas das propostas de Howard e suas Cidades Jardim, assim como das ideias de Le Corbusier (12).

Segundo a autora, os problemas sociais e ambientais de que padecem as grandes cidades, são em boa parte, decorrentes de seu planejamento equivocado. A segregação da cidade em áreas destinadas a apenas um tipo de uso, como comercial, residencial ou industrial, criam zonas muito distantes entre si, além disso, estas regiões ficam ocupadas somente durante um período do dia (por exemplo, a área comercial fica movimentada de dia, enquanto as pessoas trabalham, mas fica vazia a noite, quando as pessoas vão para suas casas, como acontece nos centros) criando insegurança e violência.

Dessa forma, todos os questionamentos a respeito do processo de planejamento das cidades, apresentados por Jacobs em 1961, ainda nos parecem muito familiares e atuais e, neste contexto, o urbanismo vai aos poucos perdendo a sua legitimidade e o sonho utópico de “refazer o mundo”. Ao mesmo tempo, diversos encontros, como as Habitats (Conferência Mundial sobre Assentamentos Humanos), são realizados ao redor do mundo, vinculados com a problemática da habitação social e do planejamento das cidades, porém com uma nova e cada vez mais presente abordagem: a questão do desenvolvimento sustentável das cidades (13).

Aqui no Brasil, no ano de 1992, a ONU promove no Rio de Janeiro a conferencia sobre meio ambiente Rio-92, que discute além das questões ambientais, assuntos relacionados à gestão democrática das cidades, o direito de seus moradores à cidadania e a função social da cidade e da propriedade.

E desse modo, novas preocupações vão sendo inseridas ao planejamento das cidades, transformando a ideia original de urbanismo em um processo muito mais amplo e complexo: questões sociais, ambientais, econômicas, físicas, climáticas, históricas, democráticas, legislativas, estéticas... Enfim, tudo isto faz parte do que hoje se pode chamar de “planejamento urbano sustentável”.

Como parte deste novo ferramental para o planejamento das cidades, também pode ser citado o Estatuto das Cidades, lei que entrou em vigor em julho de 2001 e a criação dos diversos Planos Diretores Participativos nas cidades brasileiras, que buscam democratizar as decisões acerca do planejamento urbano.

Pode-se dizer então que, assim como Jacinto em sua busca por equilibrar a cidade e o campo, o urbanismo também passou por diversos questionamentos nas últimas décadas, na busca de contrabalancear todos estes aspectos.

Considerações finais

A obra A Cidade e as Serras de Eça de Queiroz, apesar de ter sido escrita no início do século XX, apresenta questionamentos muito atuais e mostrou-se uma ferramenta interessante e motivadora para tratar do assunto proposto: o conflito entre o planejamento urbano e as questões ambientais.

Por meio de uma leitura crítica da obra, associada à pesquisas complementares sobre o tema, foi possível traçar um panorama abrangente no que diz respeito à evolução da preservação ambiental. Inicialmente tratada como um entrave ao desenvolvimento das cidades e ao progresso, a preocupação com o ambiente foi pouco a pouco sendo levada a sério e, apesar do romantismo dos primeiros questionamentos, hoje a busca pelo equilíbrio ambiental está em todas as atividades humanas.

Dessa forma, o personagem Jacinto serviu para personificar o amadurecimento e a busca de toda uma sociedade em equilibrar o crescimento econômico, as contingências sociais e as questões ambientais.

Talvez Jacinto, se vivesse nos dias atuais, diria que toda a sua saga, do Palácio n° 202 na Champs-Elysées de Paris ao pequeno vilarejo na serra de Tormes em Portugal, era apenas fruto da sua busca pessoal do tão comentado “Desenvolvimento Sustentável”, equilibrando-se em seus três pilares principais: o desenvolvimento social, o ambiental e o econômico.

notas

 

1
ARRUDA, Ângelo Marcos. O arquiteto e o planejamento ambiental e os riscos da falta de discussão. Arquitextos, São Paulo, 02.015, Vitruvius, ago 2001 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/02.015/860>.

2
QUEIROZ, José Maria Eça de. A cidade e as serras. Rio de Janeiro, Ediouro, s/d. Coleção Prestígio.

3
FAZENDA, Ivani Catarina Arantes. Interdisciplinaridade: história, teoria e pesquisa. Campinas, Papirus, 1994.

4
José Maria Eça de Queiroz, grande prosador lusitano, nasceu na cidade de Póvoa de Varzim em 1845. Formado em Direito pela Universidade de Coimbra, Eça de Queiroz ligou-se bem jovem à chamada “Escola de Coimbra”, grupo renovador da literatura portuguesa que foi responsável pela introdução do realismo no país. Porém, é importante lembrar que Eça de Queiroz não participou diretamente da “Questão Coimbrã”. Profissionalmente, Eça de Queiroz dedicou-se ao jornalismo e viajou pelo Oriente. Mais tarde, seguindo a carreira diplomática, serviu sucessivamente em Cuba, Inglaterra e França, onde veio a falecer em 1900, após doze anos morando em Paris. Em relação à obra A Cidade e as Serras, pode-se dizer que está classificada na Terceira Fase do autor, considerada a sua maturidade artística, onde pode ser observada uma reconciliação de Eça com os valores da sociedade portuguesa e um elogio à simplicidade do campo. Temos também como obra desta fase A Ilustre Casa de Ramires (1900).

5
MORENO, Julio. O futuro das cidades. São Paulo, Editora Senac, 2002.

6
Idem.

7
PILOTTO, Jane. Rede verde urbana: um instrumento de gestão ecológica. Tese (Doutorado em Engenharia de Produção). Florianópolis, UFSC, 2003.

8
HOWARD, Ebenezer. Garden cities of tomorrow. Cambridge Mass, MIT Press, 1965.

9
ANDRADE, Liza Maria Souza de. O conceito de Cidades-Jardins: uma adaptação para as cidades sustentáveis. Arquitextos, São Paulo, 04.042, Vitruvius, nov 2003 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/04.042/637>.

10
Idem.

11
JACOBS, Jane. The death and life of great American cities. New York, Random House, 1961.

12
SEGAWA, Hugo. Uma crítica ao modernismo urbanístico. Jornal da Tarde, São Paulo, 26 ago, 2000, p. 4.

13
MORENO, Julio. Op. cit.

sobre os autores

Maria Fernanda N. Santos, arquiteta urbanista, mestranda em Eng. de Produção na área de Gestão Ambiental, UNESP/Bauru. Bolsista do CNPq, atua em pesquisas relacionadas a técnicas construtivas mais sustentáveis

Osmar Cavassan, biólogo, mestre em Biologia Vegetal pelo IB/Rio Claro/UNESP e doutor em Ecologia pelo IB/UNICAMP. Docente no Departamento de Ciências Biológicas, UNESP/Bauru

Rosane Battistelle, engenheira civil, mestrado em Eng. de Estruturas e doutorado em Ciências da Eng. Ambiental, USP/São Carlos. Docente do Departamento de Eng. Civil e da Pós-Graduação em Eng. de Produção, UNESP/Bauru

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