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arquitextos ISSN 1809-6298


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português
Este trabalho relaciona madeira, sustentabilidade e contexto brasileiro, esclarecendo questões sobre o ciclo de vida do material, sistemas legais de exploração e emissão e fixação de carbono, que colocam o Brasil em destaque quanto aos impactos ambientais

english
This article relates wood, sustainability and the Brazilian context, focusing on the cycles of the material, legal systems of exploitation and carbon emission, which put Brazil under the spotlight on environmental impact subjects


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CUNHA, Viviane. Madeira e sustentabilidade, como vai esta relação? Arquitextos, São Paulo, ano 11, n. 129.05, Vitruvius, fev. 2011 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/11.129/3750>.

Sustentabilidade da madeira

A madeira é material orgânico vegetal que está no planeta desde o período carbonífero, em constante formação e renovação, dependendo para isso de condições naturais propicias. Ela é formada por compostos químicos orgânicos baseados em 50% de carbono e 43% de oxigênio (1). “É o único material renovável, cuja produção é não poluente e tem baixo consumo energético”, como argumenta Facchin (2). Embora seja suscetível à insetos e fungos, sua secagem, preservação e utilização junto a outros materiais torna-a durável (3) e é considerada uma das atividades a poder melhor conjugar expansão econômica e baixo impacto ambiental, através da racionalização da sua exploração (4) e a compatibilização das características de alta renovabilidade, energia acumulada, fixação de carbono e ciclo de vida. Pelo seu maior acesso, facilidade de manuseio e seus desdobramentos através da história, a madeira é considerada material básico para desenvolvimento humano (5).

O Brasil, com a floresta tropical de maior diversidade e dimensão do mundo, tem cobertura florestal que chega a 550 milhões de hectares, o que representa 14,5% da extensão florestal nativa mundial (6). Teixeira (7) afirma que a devastação das florestas entre 10 a 20 milhões de hectares por ano (ou 10 quarteirões a cada minuto) é impulsionada por “aumento da demanda por área para expansão territorial e pelos recursos florestais, áreas estas geralmente desmatadas pela aplicação de fogo, acarretando perda de biodiversidade”, como encontrado também em Gerwing e Vidal (8). As consequências do desmatamento são listadas pelo autor na tabela abaixo (9):

Tabela 1- Consequências do desmatamento.

A participação da indústria madeireira no desmatamento é muito relevante, como aponta Corso (10): “a cada ano 5.000.000 de hectares, no mínimo, de florestas tropicais são cortadas para a obtenção da madeira”. A madeira extraída, segundo Veríssimo (11), é consumida no país em 64% e 36% é exportada. A quantidade utilizada internamente 42% são para estrutura de telhados, 28% para andaimes e formas de concreto e 15% para moveis populares e 11% para forros, pisos e telhados, conforme dados de Sobral (et al) pesquisados para São Paulo, o maior consumidor de madeira amazonense (2002).

E destas demandas de produtos de madeira, apesar do aumento de florestas plantadas e do consumo de madeira proveniente destas florestas, o IBAMA aponta para o quadro de consumo de madeira para setores industriais, em que se pode ver a posição brasileira de exploração ainda demonstra pouca diferenciação entre florestas nativas ou plantadas, quando poderiam ter critérios mais ambientalmente responsáveis quanto aos impactos que geram, como encontrado em Teixeira (12):

Tabela 2 – Consumo de madeira industrial em toras no Brasil no ano de 2000 (10 3 m3).

Assim, a maior parte do desmatamento para madeiras no Brasil acontece para beneficiamento de produtos de baixo valor agregado. Basicamente, de todo o consumo de madeira feito pelas indústrias, quase todo o volume de madeira nativa explorada é para carvão vegetal, lenha industrial e serrados. Ou seja, árvores que podem ter mais de 40 anos de idade estão sendo extraídas para fornecer tipos de produtos que seriam bem atendidos se feitos a partir de árvores que alcançam maturidade em 7 a 8 anos, que é o caso das espécies encontradas em florestas de reflorestamento. E ainda, considerando-se, como vai ser visto mais a frente neste texto, que a grande parte desta floresta nativa exploradas no Brasil não utiliza processos de manejo ou certificação, esta grande porcentagem de árvores extraída gera também outros impactos ambientais.

Esta constatação, entretanto, não deve induzir a se pensar a madeira como material cuja exploração deve ser paralisada. Quando feita de forma sustentável, a exploração da madeira é importante inclusive para a economia da região da floresta em que está inserida. É necessário, sim, paralisar o desmatamento ilegal e predatório que é predominantemente feito no Brasil, que pode não só tornar este recurso escasso como também causar grandes danos ambientais.

Veríssimo (13) afirma que “a madeira tropical é uma matéria prima nobre e que deve ser valorizada e usada na construção civil”, e que o que é necessário é que seja feita a certificação florestal e lei de gestão de floresta pública. Ele considera que avanços fora feitos nesta direção, com o Pacto Madeira Manejada (AIMEX/MMA) de julho de 2008 e com a viabilidade de monitoramento independente dos planos de manejo florestal. Outro impulso a ser intensificado é a exigência por parte dos compradores – sejam eles públicos e/ou privados, como acontece em alguns países quanto à importação madeireira – de que material seja manejado, e principalmente certificado. O autor ainda aponta o papel relevante da demanda em diversificar a especificação das espécies a serem adquiridas e em cobrar sistemas de monitoramento independente para a madeira manejada não certificada.

1. Relação da madeira com o carbono

A preocupação com alterações na biosfera provocadas pelo aumento da concentração de gases da atmosfera levou as Nações Unidas a começar em 1991, discussões através do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática – IPCC- pra regular redução de emissões de CO2, como aponta Manyu (14). O objetivo desta convenção era gerar ações para equilibrar as concentrações dos gases do efeito estufa na atmosfera (15). Em 1997 o Protocolo de Kyoto estabeleceu a redução de emissões destes gases em 5,2% dos níveis em 1990, para os países industrializados, entre 2008 e 2012. O relatório do Grupo III do IPCC, de 2001, anuncia que o aumento do gás carbônico na atmosfera nos últimos cem anos é principalmente devido a queimas de combustível fóssil.

Estes gases, dentre eles o dióxido de carbono (CO2), formam uma capa na atmosfera que mantêm o calor de radiações solares absorvidos pela terra, protegendo de grandes variações de temperatura. O conceito de fixação do carbono, segundo Balbinot (16) “normalmente se relaciona com a ideia de armazenar reservas de carbono em solos, florestas e outros tipos de vegetação. Também se promove o incremento nas reservas de carbono pelo estabelecimento de novas plantações florestais, sistemas agro florestais e pela recuperação de áreas degradadas”.

O crescimento atual na concentração dos gases do efeito estufa (GEEs) tem sido apontado como principalmente decorrente de atividades humanas, como visto em Cenamo (17), e podendo desencadear aumento de temperatura média do planeta. Faz parte dos projetos do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), proposto a partir do protocolo de Kyoto, não só a redução de emissões, mas também o “sequestro de carbono”, que significa retirar da atmosfera CO2 através da captação e estocagem do carbono em florestas (18). Moutinho (19) afirma que “na floresta amazônica está armazenada uma quantidade de carbono equivalente àquela que a humanidade emite durante mais de uma década. Este carbono tem sido gradualmente liberado para a atmosfera através do desmatamento e queimadas... apesar do Brasil ter um dos setores energéticos mais limpos do mundo desenvolvido, o país é um dos grandes emissores de carbono através do desmatamento.”

O carbono orgânico na floresta se relaciona à biomassa, nas árvores, no solo, na sarapilheira e na ciclagem bioquímica de nutrientes, segundo Babinot (20), sendo que 44% é representado pela madeira. Nas árvores o carbono tende a se concentrar na produção da biomassa da copa ate o crescimento, quando passa a se fixar mais no troco. E as raízes fixam 19% do carbono total das florestas. No solo a entrada de carbono chega a 100 m de profundidade, embora se concentre 77% na camada de 0 até 20 cm, devido a material orgânico abaixo dele ou acima, como queda de folhas e resíduos de arvores, vegetação e animais em decomposição, como biomassa morta (serapilheira). Estes elementos somam-se para as estimativas de estoques de carbono, segundo Fearnside (21). Ou seja, quando se corta uma árvore e sua madeira é beneficiada para gerar produtos o carbono não é emitido, continua estocado nos produtos de madeira. Só quando esses produtos se transformam em resíduo e se decompõe, o carbono é liberado. Por outro lado, árvores maduras, segundo Moutinho (22) armazenam muito mais carbono do que florestas replantadas, “pelo menos por um período de cem anos de crescimento”.

A composição da madeira, segundo Hellmeister (23), é de 50% de carbono e 43% de oxigênio. Assim, sendo significativa a quantidade de carbono fixada na madeira, quanto mais tempo a madeira fica plantada ou é extraída para ser transformada em produtos - em vez de ser deixada no solo para se decompor ou ser queimada - grande quantidade de carbono fica acumulado nela e não é emitida, reduzindo emissões. E aguardar que árvores estejam maduras para serem extraídas e beneficiadas, como é proposto pelo manejo florestal, em vez de retirar árvores indiscriminadamente, por estarem incluídas na área a ser desmatada (como fazem os desmatamentos ilegais), também garante maior quantidade de carbono estocado. E utilizações de madeira para ciclos de vida curtos ou cujo objetivo final seja a queima, devem dar preferência a madeiras de árvores plantadas para reflorestamento, que vão assim emitir menos carbono, já que tem menos carbono acumulado na sua biomassa em relação a espécies nativas.

Estes dados apontam para a urgência de se reduzir desmatamentos ilegais e a concentração de explorações legais no Brasil. Moutinho (24) esclarece que “diminuir o desmatamento não significa, contudo, prejudicar o desenvolvimento da região, manter a floresta intacta e marginalizar sua gente. Pelo contrário, a Amazônia tem um potencial enorme para o desenvolvimento sustentável baseado no desenvolvimento da sua vocação florestal, por um lado, e pela intensificação da agricultura e recuperação florestal nas áreas já abertas, por outro lado.” Várias outras pesquisas advogam a favor da sustentabilidade ecológica na floresta amazônica, como importante para a conservação da floresta através da ocupação de uma população em determinadas áreas explorando recursos sem gerar ameaças ambientais, como novo referencial científico da relação entre sociedade e meio ambiente (30).

O manejo sustentável da floresta, com a exploração seletiva das arvores nativas, para gerar produtos que vão ser utilizados por longo período de tempo, não só conserva e protege a floresta e sua biodiversidade, seus solos, águas, o desenvolvimento de economia rural com benefícios sociais, ambientais e econômicos, como também podem gerar créditos de carbono, segundo Moutinho (31), pelo desmatamento evitado e as emissões de CO2 associadas a ele. E, por outro lado, o cultivo de florestas plantadas também contribui para os projetos de sequestro de carbono, já que o estoque de madeira nas florestas pode ser retido na biomassa e em produtos de madeira em torno de 110-200 Mg ha-1 de carbono, como argumentam Nabuurs e Mohren (32).

2. Tipos de exploração de madeira

O beneficiamento das madeiras extraídas de florestas nativas ou plantadas é feito a partir das toras de madeira sólida, como descrita na tabela abaixo, apresentada por Teixeira (33):

Tabela 3 – Cadeia industrial da madeira. [ABIMCI, 2003]

Desta cadeia produtiva a exploração principal é feita na Floresta Amazônica, depois do quase extermínio da Mata Atlântica. Teixeira (34) aponta para a relevância da exploração de madeira nativa no Brasil e seu caráter histórico, que remete ao pau-brasil e levou ao quase extermínio da Mata Atlântica.

O consumo de madeira é vinculado a três ramos da indústria: de móveis, de embalagens e da construção civil, segundo dados da ABIMCI (1999), alem da primazia da sua utilização para a produção de papel, celulose, lenha e carvão, sendo extraídas de florestas nativas ou plantadas. No caso das madeiras beneficiadas pelas indústrias paulistas para produtos para pisos e esquadrias, 98% de sua origem é nativa da Amazônia (35).

Aproveitamento de resíduos

Freitas (36) argumenta que “segundo o IBAMA, o aproveitamento de toda a árvore pelas indústrias madeireiras, esta em torno de 30% a 60%”. A proporção restante, de ate 2/3 “vira sobra ou serragem”, como afirma o Greenpeace (37).

O aproveitamento dos resíduos de beneficiamentos da madeira é tratado em diversos trabalhos, associados ao desenvolvimento de produtos, como painéis de madeira reconstituída ou produtos industriais como aglomerados, compósitos de matriz cimentícia ou polimérica, e a relação ou não de toxicidades causadas por tratamentos de preservação ou proteção feitos nas madeiras.

Manejo florestal

O manejo florestal sustentável é a alternativas hoje mais eficiente para desenvolver economicamente regiões de floresta respeitando-se também aspectos sociais e ambientais, comercializando-se não só madeiras mas também outros produtos florestais de forma a permitir a regeneração da floresta.

A área florestal brasileira, segundo Sabogal (38), ocupa aproximadamente 65% do território nacional. E deste total, 60% estão na Amazônia Legal, que inclui áreas dos Estados do Maranhão, Tocantis e Mato Grosso às áreas da Amazônia brasileira. Dos 4 milhões de m2 que ocupava, a floresta em 2005 ja tinha sido removida em 0,7 milhões, por avanços principalmente da pecuária e exploração madeireira. E Sabogal (39) aponta que o manejo florestal tem sido prescrito para evitar os efeitos negativos da exploração madeireira, embora ainda ainda nao seja intensivamente utilizado: “diversos programas de pesquisa tem sido realizados desde a decada de 1990 para promover a adoção do manejo florestal, com destaque para aqueels desenvolvidos pela Embrapa-Cifor (Moju, Tailândia e Paragominas, Pará), Imazon (paragominas, Pará), IFT (diversas áreas no Pará e Mato Grosso) e Funtac (Floresta Estadual do Antimary, Acre). Na esfera de políticas públicas, a doção do manejo florestal é uma das grandes prioridades do PNF, lançado pelo MMA originalmente em 2000 e posteriormente reestruturado na nova administração federal a partir de 2003. Além disso, a promoção do manejo florestal é uma das prioridades dos governos do Acre(desde 1999) e Amazonas (a partir de 2003). Entretanto, embora as tecnicas de manejo florestal tenham sido intensivamente aprimoradas na Amazonia brasileira nas duas ultimas décadas, os avanços na sua adoção pelas empresas madeireiras ainda sao modestos.” Segundo o IBAMA (40) a exploração predatória, nao manejada, em 2005 ainda representava 62% dos processos de extração madeireira.

A definição de manejo florestal sustentável, encontrada no Projeto de Lei 4776, MMA/PNF 2005 é: administração da floresta para a obtenção de benefícios economicos, sociais e ambientais, respeitando-se os mecanismos de sustentação do ecossistema objeto do manejo e considerando-se, cumulativa ou alternativamente, a utilização de múltiplas espécies madeireiras, de múltiplos produtos e subprodutos não-madeireiros, bem como a utilização de outros bens e serviços de natureza florestal”.

E as práticas de manejo devem incluir, obrigatoriamente, de acordo com a IN do IBAMA n. 4 (41): inventário, delimitação da área de manejo florestal (AMF) e das UPAs, planejamento das estradas e ramais de arraste, corte planejado, arraste controlado, monitoramento do crescimento da floresta e manutenção da infra-estrutura.

Assim, a extração de árvores ilegalmente, que pode acontecer em terrenos nao autorizados, em que por dificuldade de conhecimento, recursos e planejamento, abre clarões na floresta pela queda eventual de muitas outras árvores menores, para retirada ou transporte não organizado de árvores grandes, pelo transporte utilizando rios e não estradas autorizadas, pela mão-de-obra não legalizada, muitas vezes incluindo trabalhos infantis, gera vários desperdícios, emissões de carbono e outros impactos ambientais e sociais evitáveis se fosse utilizado o sistema de manejo sustentável.

Certificação

A certificação florestal é uma garantia de que a madeira vem de uma floresta ou plantação florestal que foi manejada atendendo a vários critérios ambientais e sociais, alem dos econômicos.

O sistema de manejo florestal estabelecido pelo Forest Stewardship Council – FSC – é hoje o que tem maior reconhecimento internacional dos seus padrões ambientais, sociais e econômicos.

O Forest Stewardship Council (Conselho de Manejo Florestal), que concede o certificado FSC, foi o primeiro esquema de certificação florestal, fundado em 1993 no Canadá e hoje sediado no México. Este sistema é de origem internacional e atua em diversos países. É uma organização nao governamental e é a garantia mais respeitada de que todas as atividades relacionadas com processos madeireiros acontecem de modo legal e sustentável para a floresta, seguindo princípios da Declaração das Florestas, aprovada no Rio de Janeiro em 1992.

Para receber o selo de certificação FSC a madeira foi extraída sem gerar impactos negativos nas economias locais e nos sistemas ecológico do aproveitamento florestal, conservando a capacidade de regeneração das florestas nativas, preservando os recursos hídricos e habitat de vida silvestre. Assegura ainda que os processos madeireiros apóiem o desenvolvimento econômico das populações locais, não empregam mão-de-obra infantil ou informal e que os diretos dos trabalhadores e das comunidades locais são preservados.

Princípios do selo FSC:

  1. O cumprimento das leis nacionais e acordos internacionais.
  2. A manutenção dos direitos e responsabilidades da propriedade.
  3. Que se observem os direitos dos povos indígenas.
  4. O respeito dos direitos do trabalho e das comunidades locais.
  5. A promoção do uso eficiente dos múltiplos benefícios da floresta.
  6. A existência de uma Plano de Manejo Florestal com objetivos claros.
  7. A conservação da biodiversidade.
  8. O resultado e avaliação deste tipo de gestão.
  9. A conservação das florestas de alto valor ecológico.
  10. Que a gestão dos cultivos florestais se realize seguindo os critérios anteriores.

De acordo com o Imaflora (42), duas modalidades de certificação são implementadas pelos órgãos credenciados pelo FSC para certificar a unidade de manejo florestal ou determinado produto: a certificação do manejo florestal, a qual certifica operações de manejo florestal que cumprem com o Princípios e Critérios do FSC, e a certificação de cadeia de custódia (CoC), a qual certifica as indústrias que processam e vendem produtos florestais, rastreando a matéria-prima desde a floresta até o consumidor.

Esta certificação florestal vem sendo buscada por várias organizações no mundo inteiro e, no Brasil é operada desde 1995. Em dezembro de 2004, existiam 169 empresas com produtos certificados em cadeia de custódia. Segundo Sabogal (43), este sistema de certificação florestal é o de maior credibilidade e reconhecimento de mercado existente.

Certificado do FSC e Documento de Origem Florestal (DOF) respectivamente.

O DOF é o Documento de Origem Florestal, criado pelo IBAMA em 2006, através da Instrução Normativa IBAMA n.112, para o controle de transporte de produtos e subprodutos florestais de origem nativa. Como visto em Morgado (44), assim como o a Guia Florestal (GF), o DOF deve acompanhar as madeiras até o destino final, mas não substitui ou se confunde com o certificado FSC.

Reflorestamento  

Segundo Teixeira (45), comentando Cesar (2002), um grande impulso para o crescente reflorestamento no Brasil aconteceu a partir do esgotamento de araucárias no sul do país, na década 1960, quando “se criou incentivos fiscais para o plantio de florestas de pinus e eucalipto, sendo um fator determinante para a indústria madeireira nacional”.

Tabela 4 – área total de plantação de florestas de reflorestamento de pinus e eucalipto, segundo Calil e Garlipp.

O pinus e o eucalipto, embora sejam espécies exóticas, foram escolhidas para serem cultivadas nas florestas plantadas pelas características de crescimento acelerado e facilidade de manejo, como argumentado por Teixeira (46), embora pesquisas apontem para árvores nativas que possam levar a melhor adequação ambiental.

O crescimento rápido destas espécies, associado à menor concentração de carbono que estocam como visto anteriormente, fazem destas plantações boas opções para reduzir a pressão de extração de madeira nas florestas nativas. Porém, a plantação extensiva destas árvores é relacionada a problemas em relação à biodiversidade, como encontrado em Majer e Recher (47), que recomendam que “as plantações sejam árvores nativas, onde for possível e deveria ser plantada apenas em terras já degradadas ou desmatadas para evitar desmatar florestas existentes. Se as plantações estão em uma floresta matrix, elas devem ser planejadas para permitir corredores de vida silvestre entre blocos de florestas nativas e deveriam não ser plantadas até uma extensão que a quantidade de floresta nativa restante se torne mínima”.

Conclusão

O entendimento de alguns aspectos sócio ambientais intrinsecamente relacionados à madeira, analisados neste trabalho, apontam para uma dimensão fora do alcance direto e objetivo dos padrões de consumo difundido na nossa sociedade há mais de século. Utilizamos a madeira amazônica no nosso dia-a-dia, em diferentes produtos, sem que nos remetam às questões da floresta, que parecem tão distantes. Neste contexto, a associação de práticas que não exigem madeira legal com a manutenção da ilegalidade e devastação da Amazônia tende a parecer uma conexão forçada e exagerada, já que não se relacionam diretamente, não levam a efeitos que claramente relacionam causa e consequência. É intenção deste trabalho esclarecer com informações sobre algumas perspectivas desta realidade.

notas

1
HELLMEISTER, João Cesar. “Madeiras e suas características”, In: I EBRAMEM – Encontro Brasileiro em Madeiras e em Estruturas de Madeira. Anais. São Carlos, 1983.

2
FACCHIN, Fernando. Casa pré-fabricada de madeira: análise e dimensionamento de uma parede. Trabalho Integrado de Conclusão de Curso, Universidade do Vale do Itajaí, 2006, p. 11-12.

3
CARRASCO, E. V. M. “Estruturas de Madeira: Apostila 1”. Belo Horizonte, Departamento de Engenharia de Estruturas, Universidade Federal de Minas Gerais, 1999.

4
OLIVEIRA, J. T. S. Características da Madeira de Eucalipto para a Construção Civil. Tese de Doutorado. São Paulo, Escola Politécnica, Universidade de São Paulo, 1998.

5
TEIXEIRA, Marcelo. Aplicação de Conceitos da Ecologia Industrial para a Produção de Materiais Ecológicos: o exemplo do resíduo de madeira. Dissertação de mestrado. Curso de pós-graduação em Gerenciamento e Tecnologia Ambiental no Processo Produtivo. Escola Politécnica. Universidade Federal da Bahia, 2005.

6
SANTOS, Thereza Christina Carvalho; CÂMARA, João Batista Drummond (orgs.). Geo Brasil 2002 – Perspectivas do Meio Ambiente no Brasil. Brasília: Edições IBAMA, 2002.

7
TEIXEIRA, Marcelo. Op. Cit.

8
GERWING,Jeffrey; VIDAL, Edson. Degradação de Florestas pela Exploração Madeireira e Fogo na Amazônia. Serie Amazônia n. 20. Belém, Imazon, 2002.

9
TEIXEIRA, Marcelo. Op. Cit.

10
CORSO, Walter H. Manual Global de Ecologia. São Paulo, Ed. Augustus, 2002, p. 100.

11
VERÍSSIMO, Adalberto. “Sobre o Uso Sustentável da madeira”, Apresentação no I Simpósio Brasileiro de Construção Sustentável, realizado pelo Conselho Brasileiro de Construção Sustentável em 2008.

12
TEIXEIRA, Marcelo. Op. Cit.

13
VERÍSSIMO, Adalberto. Op. Cit.

14
MANYU, Chang. “Sequestro de Carbono Florestal: oportunidades e riscos para o Brasil”, Revista Paranaense de Desenvolvimento, n. 102, jan/jul, 2002, p. 85-101.

15
ROCHA, M. T. Aquecimento global e o mercado de carbono: uma aplicação do modelo CERT. Tese de Doutorado.Piracicaba, ESALQ, 2003.

16
BALBINOT, Rafaelo; SCHUMACHER, M. V.; WATZLAWICK, L. F.; SANQUETTA, C. L. “Inventário do carbon organic em um plantio de pinus taeda aos 5 anos de idade no Rio Grande do Sul”, Revista Ciências Exatas e Naturais, vol. 5 n. 1, UNICENTRO, jan/jun, 2003.

17
CESAMO, Mariano C. “O mercado de Carbono e as oportunidades para o agronegócio brasileiro”. Artigo elaborado para CEPEA – Centro de Estudos Avançados área Economia Aplicada e Mercado de Carbono, USP, 2005.

18
Idem.

19
MOUTINHO, Paulo; NEPSTAD, D.; SANTILLI, M.; CARVALHO, G,; BATISTA, Y. “As oportunidades para a Amazônia com a redução das emissões de gases do efeito estufa”. Trabalho baseado na palestra conferida no Seminário Nacional sobre o Desenvolvimento da Amazônia: um debate sobre o Programa Avança Brasil. Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, Instituto Sócio Ambiental e Fundação Konrad Adenauer Stiftung, 2001.

20
BALBINOT, Rafaelo; et al. Op. Cit.

21
FEARNSIDE, P. M. “Biomassa das florestas amazônicas brasileiras”, In: Emissão x sequestro de CO2 – uma nova oportunidade de negócios para o Brasil. Rio de Janeiro, 1994, p. 95-124.

22
MOUTINHO, Paulo; et al. Op. Cit.

23
HELLMEISTER, João Cesar. Op. Cit.

24
MOUTINHO, Paulo; et al. Op. Cit.

25
BRECHIN, S. P.; WILSHUSEN; FORTWANGLER, C.; WEST, P. “Beyong the square wheel: toward a more comprehensive understanding of biodiversity conservation as social and political process”, Society and Natural Resources, n. 14, 2002, p. 41-64.

26
NEPSTAD, D.; MACRATH, D.; LENCAR, A.; BARROS, A. C.; CARVALHO, G.; SANTILLI, M. E.; VERA DIAS, M. “Frontier Governance in Amazônia”, Science, n. 295, 2002, p. 629-631.

27
HEYWOOD, V. H., IRIONDO, J. M. “Plant Conservation: old problems, news perspectives”, Biological Conservation, v. 113, 2003, p. 321-335.

28
WADT, L. H. O.; KAINER, K. A.; STAUDHAMMER, C. L.; SERRANO, R. O. P. “Sustainable Forest use in Brazilian extrative reserve: natural regeneration of Brazil nut exploited populations”, Biological conservation, v. 141, 2008, p. 332-346.

29
LIMA, D.; POZZOBON, J. “Amazônia socioambiental. Sustentabilidade Ecológica e Diversidade social”. Dossiê Amazônia Brasileira II. Estudos avançados, v. 19, n. 54. São Paulo, 2005.

30
BRECHIN, S. P. et al. Op. Cit.; NEPSTAD, D. et al. Op. Cit.; HEYWOOD, V. H.; IRIONDO, J. M. Op. Cit.; WADT, L. H. O. et al. Op. Cit; LIMA, D.; POZZOBON, J. Op. Cit.

31
MOUTINHO, Paulo; et al. Op. Cit.

32
NABUURS, G.J.; MOHREN, G. M. J. Modelling analysis of potential carbon sequestration in selected Forest types. Can. J. For. Res. v. 25, 1995.

33
TEIXEIRA, Marcelo. Op. Cit.

34
Idem.

35
SOBRAL, Leonardo; et al. Acertando o Alvo 2: consumo de madeira amazônica e certificação florestal no estado de São Paulo. Belém, Imazon, 2002.

36
FREITAS. Luiz Carlos de. A baixa produtividade e o desperdício no processo de beneficiamento da madeira: em estudo de caso. Dissertação. Florianópolis, UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina, 2000.

37
GREENPEACE. Face a face com a destruição. Relatório Greenpeace sobre as companhias multinacionais madeireiras na Amazônia Brasileira, 1999.

38
SABOGAL, César; LENTINI, B. P; SILVA, J. N. M.; ZWEEDE, J; VERÍSSIMO, A; BOSCOLO, M. Manejo Florestal Empresarial na Amazônia Brasileira: restrições e oportunidades. Belém, CIFOR – Center for International Foresty Research, 2006.

39
Idem.

40
SANTOS, Thereza Christina Carvalho; CÂMARA, João Batista Drummond (orgs.). Op. Cit.

41
IBAMA. Ofício n. 261/2005. CGREF/DIREF. Brasília, 26 de agosto de 2005.

42
IMAFLORA – INSTITUTO DE MANEJO E CERTIFICAÇÃO FLORESTAL E AGRÍCOLA. Manual de certificação de cadeia de custódia no sistema do Forest Stewardship Council - FSC. Piracicaba, 2002.

43
SABOGAL, César; et al. Op. Cit.

44
MORGADO, Renato P.; SOBRAL, L.; PALMIERI, R. “O que o piracicabano tem a ver com a conservação da Amazônia?”, Fórum Amazônia Sustentável, Boletim Imaflora, 2008.

45
TEIXEIRA, Marcelo. Op. Cit.

46
Idem.

47
MAJER, Jonathan D.; RECHER, H. F. “Are eucalyptus Brazil´s friend or foe? An entomological viewpoint. São os Plantios de eucaliptos amigos ou ameaça? Uma visão entomológica”, In: Anais da Sociedade Entomológica do Brasil. Na. Soc. Entomol. Bras. v. 28, n. 2. Londrina, junho, 1999.

sobre a autora

Viviane Cunha é doutora em Arquitetura pela UFRJ, mestre pela University College London, na Inglaterra, onde foi também pesquisadora visitante. É a primeira profissional licenciada para certificação BREEAM para edifícios verdes. É consultora em construção sustentável, coordenadora do MBE Economia e Gestão da Sustentabilidade na Construção Civil, professora na Fundação Getulio Vargas e na Universidade Candido Mendes e tem escritório de arquitetura há 23 anos.

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