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architexts ISSN 1809-6298

abstracts

português
Enquanto produto cultural, o espaço é constituído a partir de práticas sociais concretas que indicam a possibilidade de um fazer compartilhado e significativo. De fato, o espaço construído é lugar do sujeito, feito por sujeitos, para sujeitos

english
As cultural product, the space is made from concrete social practices which indicate the possibility of a doing together action. Indeed, the built space is the subject’s place, made by individual, for individuals


how to quote

CORDEIRO, Suzann. Algumas articulações teóricas sobre o espaço arquitetônico com a teoria ecológica do desenvolvimento. Arquitextos, São Paulo, ano 11, n. 130.02, Vitruvius, mar. 2011 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/11.130/3781>.

IBA Emscher Park, Alemanha. Projeto de revitalização do vale do rio Emscher
Foto divulgação [Arquivo IBA Emscher Park]

Uma vez que a utilização da palavra ‘sistema’ para se referir a todo o espaço aqui investigado, assim como as relações sociais, dentre outros aspectos, é recorrente, entendemos ser relevante refletir sobre esta palavra. Segundo da Silva, “sistema designa as práticas culturais de um contexto, num sentido abrangente, como se tudo o que ali está, constitui o sistema, incluindo-se também o espaço construído” (1).

Como proposta de totalidade, o sistema pode ser visto de duas maneiras: a partir do todo, assim como pelas partes, embora acreditemos que qualquer uma das visões é parcial, permitindo uma apreensão de sistema que parece atrofiada.

Os caminhos para algum lugar são, num sentido geral, o código psicológico universal da vida psicológica humana. A construção humana de ambientes é resultado de alguma primeira jornada além do conhecido (para os primeiros construtores de artefatos culturais), e segundamente, artefatos estabelecidos para fazer jornadas possíveis. Assim, o espaço pode ser um artefato culturalmente construído pelas culturas pessoal e coletiva. (2)

Estas reflexões se coadunam com a Teoria Ecológica do Desenvolvimento (3),  que propõe o sujeito em desenvolvimento inserido em diversos ambientes. Esses ambientes são muito mais do que o espaço imediato que circunda o indivíduo e, devido à sua complexidade e abrangência, são chamados sistemas, multidimensionados e organizados em diferentes níveis. A teoria ecológica do desenvolvimento define um modelo ecológico onde é possível compreender a relação entre homem e meio ambiente e o conseqüente desenvolvimento desta. O sujeito é colocado no centro, de forma dinâmica, enquanto que, em seu entorno, vão se criando níveis diferenciados de interações ou transições.

Bronfrenbrenner (4) concebe o ambiente ecológico como um conjunto de estruturas concêntricas, onde uma está contida na outra.

Teoria Ecológica do Desenvolvimento

Fonte: Molina, H; Bedregal, P & Margozzini, P, 2001. Revisión sistemática sobre eficacia de intervenciones para el desarrollo biosicossocial de la ni¨nez. Santiago de Chile, Ediciones Terra Mar, 2002.

O modelo ecológico do desenvolvimento humano apresentado na figura acima parte da concepção de que os diferentes ambientes (micro e macrossociais) interatuam. Dentro desta visão, os ambientes ou scripts estão representados pelo Estado, a Comunidade e a Família.

Spirn (5), por outro lado, enfatiza a importância dos edifícios de serem entendidos não só como sistemas em si mesmos, mas como uma pequena peça do “ecossistema metropolitano global”, em que os edifícios seriam considerados micro ecossistema e a cidade, assim, participaria como ator fundante da relação indivíduo-meio e sua constituição como subjetividade.

Uma vez que são nomeados os ambientes, por exemplo, inicia-se um processo de regulação que pretende construir, no indivíduo que o ocupará, a compreensão de quais ações deverão ser ali desenvolvidas.

Artefatos culturais são utilizados para limitar o que (6) denomina de Zona de Movimentação Livre (ZML), que é uma estrutura cognitiva socialmente construída na relação do indivíduo com o ambiente, a qual organiza o seu acesso a partes do ambiente e define que objetos estarão ao seu alcance e como o indivíduo deverá agir em relação a eles (7).

“Na medida em que a espaciosidade ou espaçamento são constituintes da subjetividade, nesta medida a cidade (como espaço) o é igualmente” (8)

Cada edifício é assim, parte integrante de um todo de modo que podem ser catalisadores da qualidade do ecossistema e do seu entorno.

Tentando articular a Teoria Ecológica do Desenvolvimento, onde Bronfrenbrenner (9) concebe o ambiente ecológico como um conjunto de estruturas concêntricas, onde uma está contida na outra, com a discussão sobre o Ecossistema urbano de Spirn, arrisca-se uma classificação onde o microecossistema seria aquele mais próximo à pessoa, constituído pelos ambientes que com ela interagem mais imediatamente, estabelecendo-se um vínculo primário, como a casa, por exemplo; O mesoecossistema pode ser considerado como tecido que interconecta os microecossistemas, enquanto que o exoecossistema se constituiria dos ambientes que não estão em contato direto com a pessoa em desenvolvimento, mas que a influenciam indiretamente.

O macroecossistema, mais amplo, seria o cenário do contexto cultural em que a pessoa se insere – os valores, costumes e estruturas institucionais, considerando-se que é impossível estudar o indivíduo e o processo de construção de sua identidade, sem considerar os contextos em que os comportamentos se dão. Assim,

Retire o ambiente e você não tem mais o sujeito; retire o sujeito e você não tem mais o ambiente” (10)

Caracteriza-se neste nível, um padrão de atividades, papéis e relações interpessoais experienciadas pela pessoa em desenvolvimento em um determinado ambiente com características especificas que, a princípio, estariam localizadas no planejamento arquitetônico pelas nomenclaturas dos espaços, podendo ser modificadas ou não a partir do uso dos ambientes.

Considera-se ambiente o local onde existe a interação, atividades, papeis e relações interpessoais como elementos, ou estruturas construtoras desse nível mais interno. Outro aspecto importante que o contextualiza é a experimentação, ou a maneira pela qual todas as propriedades acima descritas são percebidas e vivenciadas pelo indivíduo naquele ambiente.

O sujeito, portanto, se constrói a partir de um conjunto de processos através dos quais as particularidades do individuo e, dentre outros, as multideterminações espaciais passam a interagir, produzindo mudanças nas ações e características do individuo ao longo de sua vida.

Dessa forma, a constituição do indivíduo enquanto sujeito pode ser concebida ainda como o processo pelo qual o individuo se desenvolve, se torna gradualmente mais ativo e capaz de se envolver em atividades funcionais e significativas para si mesmo, em estruturas ambientais com diferentes níveis de exigência e complexidade.

Apesar de uma linguagem funcionalista, dando a entender, inicialmente que individuo e instituição são duas coisas distintas, podemos perceber como sujeitos e instituições se produzem mutuamente, numa completa implicação: as práticas institucionais produzem sujeitos como efeito dessas práticas, que por sua vez são tomados como alvos de manutenção delas ou se organizam como focos de resistência à ordem institucional, através do uso dos espaços e/ou componentes arquitetônicos que se configuram em elementos de negociação (11).

Responsivo às alternativas colocadas pela arquitetura o sujeito o faz aceitando-se, delas discordando, modificando-as, retendo certos elementos nela existentes, transformando-os em novos elementos para os quais vai procurar novos significados.

 Este processo irá orientar a ação do indivíduo, pois sendo um ser que responde ao seu ambiente, o faz dando as respostas possíveis naquele momento em função dos limites e possibilidades que a realidade espacial lhe oferece. Esses novos elementos podem, no momento subseqüente, se transformar em novas possibilidades, de tal modo que vão formando gradativamente os vários níveis de mediação que aprimoram e complexificam a atividade do homem, bem como enriquecem e transformam sua existência.

Estas articulações da teoria ecológica de Bronfrenbrenner nos levam a buscar compreender como, então, se daria a relação do indivíduo com os componentes arquitetônicos, que - como dito acima - funcionam, numa primeira visão, como delimitadores dos sistemas de relações entre os indivíduos, nos ambientes, e não apenas como delimitadores, mas como reguladores dos sistemas de relações.

Não obstante esta delimitação espacial, observa-se que estes subsistemas estão intimamente articulados e inter-relacionados, sofrendo interferências mútuas entre si. Estas interferências, por vezes, modificam os subsistemas, ampliando-os ou reduzindo-os, fato que nos leva a uma articulação destes conceitos com o conceito de Zonas de Construção.

Considera-se que o desenvolvimento das ações ocorre no tempo, e mediante um processo de transformação que resulta de complexas inter-relações que se estabelecem entre o indivíduo e o ambiente sócio-cultural e espaço-temporal, processo este que também é orientado para o futuro. O importante dessa concepção integrada de passado-presente e futuro representa a abertura de um espaço-tempo para a indeterminação dos processos desenvolvimentais, onde a construção e a emergência do novo se torna possível (12).

O uso culturalmente definido, regulado pelo artefato existente, não é a ação esperada resultante, o que possibilita uma ampliação de uso, oriundo de uma adaptação criativa.

Considera-se como o processo de adaptação criativa a emergência de novos mecanismos contingentes de uso. A adaptação criativa dos indivíduos no ambiente altera os níveis de organização dos artefatos culturalmente definidos, permitindo a emergência de novos significados para os mesmos, que acabam por ser compartilhados coletivamente, num processo de atualização de produção de sentidos constante.

Quando se focaliza o mundo subjetivo da pessoa, vê-se este sendo construído e reconstruído constantemente a partir das relações dinâmicas e de contínua transformação que ela estabelece com o mundo externo e objetivo, culturalmente mediado. Destaca-se que o caráter ativo do sujeito na construção de seu próprio desenvolvimento, bem como a participação efetiva das sugestões sociais presentes nos mecanismos de canalização cultural, orienta os limites físicos e semióticos que atuam nos processos interativos entre o indivíduo e o contexto (13), ainda que o indivíduo subverta estes mecanismos de canalização cultural, numa emergência de ações orquestrada por Zonas de Construção prescritivas que atualizam as anteriores.

Observa-se, portanto, a função mediadora/reguladora do espaço nas relações com o indivíduo e entre os indivíduos que o ocupam, atravessadas pelo tempo.

Por essas definições, o ambiente não age em resposta a ação do homem, isoladamente, nem o homem imprime ao espaço modificações isoladas. O espaço construído, enquanto síntese, funciona como regulador, uma vez  que pretende ordenar as ações do sujeito, o qual, ao mesmo tempo em que tem suas ações reguladas, modifica o espaço, re-organizando-o, o que dispara uma variabilidade na ordenação das ações do próprio sujeito.

notas

1
DA SILVA, Dinorá Fraga. “Inserção epistemológica da teoria da complexidade nos estudos lingüísticos: sobre fragmentos e totalidades”. In: Calidoscópio, Vol. 5, n. 3, set/dez 2007, p. 186.
2
VALSINER, J.; BRANCO, A. U.; DANTAS, C. “Co-construction of human development: Heterogeneity within parental belief orientations”. In: Parenting and children's internalization of values, por J. E. Grusec e L Kuczynsky. New York: Wiley, 1997, pp.283-304.
3
BRONFENBRENNER, U. A ecologia do desenvolvimento humano: experimentos naturais e planejados. Tradução: Maria Adriana veríssimo Veronese. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.

—. The Ecology of Human development: Experiments by Nature and Design. Cambridge: Harvard University Press, 1979.

4
BRONFENBRENNER, U. A ecologia do desenvolvimento humano: experimentos naturais e planejados. Op. Cit.
5
SPIRN, A. W. “Projeto do ecossistema urbano”. In: SPIRN, Anne W. O jardim de granito – a natureza no desenho da cidade. São Paulo: EDUSP, 1995, p. 267-287.

6
VALSINER, J.; BRANCO, A. U.; DANTAS, C. “Co-construction of human development: Heterogeneity within parental belief orientations”. Op. Cit.

7
A cadeira alta utilizada para dar refeição aos bebês, é um bom exemplo de artefato cultural. Ela restringe os movimentos do bebê e possibilita aos pais controlarem quais objetos estarão ao alcance da criança e quando serão colocados ou retirados, limitando sua liberdade de ação. Algumas situações, como a alimentação ou a aplicação de medicamentos, levam os pais a limitar a Zona de Movimentação Livre (ZML) para conseguir seus objetivos.
8
RABINOVICH, E.P. “Barra Funda, São Paulo: as transformações na vida das crianças e na cidade - um estudo de caso”. In: GUNTHER, H.; PINHEIRO, J.O,; GAZZO, R.S.L. Psicologia ambiental - entendendo as relações do homem com seu ambiente. São Paulo: Alínea, 2004 – grifo nosso.
9
BRONFENBRENNER, U. A ecologia do desenvolvimento humano: experimentos naturais e planejados. Op. Cit.
10
BALDWIN, J. M. Apud MEIRA, L. Comunicação Pessoal. Análise Interacional e videográfica. Pós-graduação em Psicologia Cognitiva, UFPE, 2007.
11
CORDEIRO, S. De perto e de dentro: a relação entre o indivíduo preso e o espaço arquitetônico penitenciário a partir de lentes de aproximação. Maceió: Edufal, 2009.
12
VALSINER, J.; BRANCO, A. U.; DANTAS, C. “Co-construction of human development: Heterogeneity within parental belief orientations”. Op. Cit.
13
VALSINER, J.; BRANCO, A. U.; DANTAS, C. “Co-construction of human development: Heterogeneity within parental belief orientations”. Op. Cit.

PALMIERI, Marilicia Witzler Antunes. “Cooperação, Competição e Individualismo em uma perspectiva Sócio-cultural Construtivista”. In: Psicologia, Reflexão e Crítica 17, v.2, 2004, pp 189-198.

bibliografia complementar

BALDWIN, J. M. Personality-suggestion. Psychological Review, 274-279, 1894.

—. social and ethical interpretations in mental development. New York: MacMillan, 1897.

sobre a autora

Arquiteta e Urbanista, Mestre em Arquitetura e Urbanismo (DEHA/UFAL) e Doutora em Psicologia Cognitiva (UFPE). Atualmente é Professora Adjunta da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Alagoas (FAU/UFAL).

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