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architexts ISSN 1809-6298


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Neste artigo, Bruno César Euphrasio de Mello faz uma revisão bibliográfica buscando nos textos os discursos acerca da relação entre arquitetura brasileira e modo de fazer e ser africano negro vindo ao Brasil como escravo


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MELLO, Bruno César Euphrasio de. E o negro na arquitetura brasileira? Arquitextos, São Paulo, ano 13, n. 145.01, Vitruvius, jun. 2012 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/13.145/4372>.

A intenção deste artigo é avaliar de que forma comparecem na pesquisa sobre a história da arquitetura nacional assertivas sobre sua relação com o africano negro vindo ao Brasil como escravo. Foi estudado um conjunto de textos do século XX que se debruçam em avaliar a presença de diversas referências técnicas-culturais nas características da arquitetura brasileira. Mesmo não sendo uma revisão bibliográfica completa, aponta para uma diversidade de perspectivas deixando claro que não há consenso sobre o assunto. Não se trata aqui de buscar explicações partindo da noção de influência – perspectiva que não é a nossa, mas que é amplamente utilizada pelos autores que abordaremos a seguir. Buscaremos sim nos textos os discursos acerca da relação entre arquitetura brasileira e modo de fazer e ser africano negro.

A motivação inicial surgiu a partir do conhecimento da publicação da Lei nº 12.288 de 20 de julho de 2010, o Estatuto da Igualdade Racial, que indica em seu artigo 11 que “nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio, públicos e privados, é obrigatório o estudo da história geral da África e da história da população negra no Brasil”. Esta determinação provoca uma reflexão. Saindo do universo do ensino médio e fundamental, nos perguntamos como textos e pesquisas que são referencia para o conhecimento da arquitetura brasileira tratam da questão da participação do negro na arquitetura nacional?

É possível, sem muito esforço, identificar ressonâncias da cultura africana negra na culinária, no vocabulário, na música, na religiosidade brasileira, dentre diversos outros aspectos. E na arquitetura, é possível identificar ressonâncias de seu saber e de seu modo de fazer? Como os pesquisadores da arquitetura nacional têm se dedicado a esse tema ao longo dos anos?

Comecemos por um nome de relevância indiscutível. O arquiteto Lúcio Costa, destacado tanto por sua obra arquitetônica e urbanística quanto por sua obra teórica e sua participação na preservação do patrimônio histórico construído nacional. Em texto de 1951, intitulado Depoimento de um arquiteto carioca (1), aponta que um fator fundamental, originário do século XIX, condicionou as transformações tanto no programa da habitação, quanto da técnica construtiva e a expressão arquitetônica delas decorrentes. A abolição da escravatura. Segundo ele:

A máquina brasileira de morar, ao tempo da colônia e do império, dependia dessa mistura de coisas, de bicho e de gente, que era o escravo. Se os casarões remanescentes do tempo antigo parecem inabitáveis devido ao desconforto, é porque o negro está ausente. Era ele que fazia a casa funcionar: havia negro para tudo – desde negrinhos sempre à mão para recados, até negra velha, babá. O negro era esgoto; era água corrente no quarto, quente e fria; era interruptor de luz e botão de campainha; o negro tapava goteira e subia vidraça pesada; era lavador automático, abanava que nem ventilador. Mesmo depois de abolida a escravidão, os vínculos de dependência e os hábitos cômodos da vida patriarcal de tão vil fundamento, perduraram, e, durante a primeira fase republicana, o custo baixo da mão de obra doméstica ainda permitiu à burguesia manter, mesmo sem escravos oficiais, o trem fácil da vida do período anterior (2).

A escrita de Lúcio Costa tem sabor de conto, de delicada crônica do cotidiano, de beleza literária destacada. Expõe-se como texto que busca outra natureza de compreensão, não se apresenta estritamente com as pretensões da ciência. Não se preocupa em definir hipóteses, apresentar e discutir fontes e o caminho metodológico que delinearia as conclusões. Evidentemente que, como qualificado pesquisador da arquitetura brasileira, tinha conhecimento consistente do assunto. Todavia não parece ser sua intenção no texto um debate sobre as características da arquitetura nacional alicerçado em evidencias diversas. Para ele o negro não participou com formas, elementos ou técnica construtiva, mas como meio de funcionamento da casa. Com a abolição e conseqüente desaparecimento desta modalidade de trabalho a habitação teve de reformular seu programa de necessidades e suas áreas. Sua atuação é como serviçal.

Jean-Baptiste Debret, Negros cangueiros. Escravos urbanos no Brasil, c. de 1830 [Wikimedia Commons]

Curiosamente – ou nem tanto – a forma geral da montagem do argumento deste trecho do texto de Lúcio Costa é semelhante ao comentário de Gilberto Freire em seu Casa Grande e Senzala acerca da participação do africano no modo de ser e na formação social da família brasileira. Para ele esta está:

Na ternura, na mímica excessiva, no catolicismo em que se deliciam nossos sentidos, na música, no andar, na fala, no canto de ninar menino pequeno, em tudo que é expressão sincera de vida, trazemos quase todos a marca da influência negra. Da escrava ou sinhama que nos embalou. Que nos deu de mamar. Que nos deu de comer, ela própria amolengando na mão o bolão de comida. Da negra velha que nos contou as primeiras histórias de bicho e de mal-assombrado. Da mulata que nos tirou o primeiro bicho-de-pé de uma coceira tão boa. Da que nos iniciou no amor físico e nos transmitiu, ao ranger da cama-de-vento, a primeira sensação completa de homem. Do muleque que foi o nosso primeiro companheiro de brinquedo (3).

Esse ponto de vista de Lúcio Costa acerca do papel do negro junto à casa brasileira, supomos, tem relação ainda com outra fonte não citada aqui diretamente, mas comentada em outro lugar. Em texto anterior, de 1948, intitulado Ensino do Desenho (4), aponta que “o único meio de satisfazermos a curiosidade [sobre parte da arquitetura histórica do Brasil], é recorrermos aos desenhos e às gravuras antigas, feitos por viajantes ou artistas que acompanhavam as missões científicas [...] mostrar reproduções dos desenhos ou pinturas de Debret, de Wagner ou de Frans Post” (5). As imagens de Debret, em especial, só tiveram maior circulação pelo público brasileiro na década de 1930. Segundo Bandeira e Lago:

A etapa fundamental do novo reconhecimento de Debret foi sem dúvida a compra de um grande acervo de esboços e aquarelas acabadas redescoberto no final dos anos de 1930 e trazido para o Brasil por Raymundo Ottoni de Castro Maya. A partir daí consolidou-se no Brasil uma verdadeira ‘Debretmania’ e suas imagens foram reproduzidas ad nauseam em folhinhas, revistas, jornais, livros de historia e manuais escolares, tornando seu nome familiar a um grande numero de brasileiros. As descobertas posteriores de outros conjuntos de obras de Debret tiveram menor repercussão, e não influíram decisivamente no estudo de sua obra, pois o conjunto Castro Maya continuou a ser predominantemente estudado e divulgado (6).

As imagens de Debret, só amplamente divulgadas no final da década de 1930, devem ter chamado a atenção do arquiteto e satisfeito, em alguma medida, a sua curiosidade. E o negro aparece nas imagens de Debret sempre como trabalhador braçal em diversos ofícios – calceteiro, carregador, vendedor, serrador, abanador, ama de leite, ou esquálidos nos mercados de escravos, massacrados nos castigos.

Jean-Baptiste Debret, Escravidão no Brasil, c. 1830 [Wikimedia Commons]

Foram nessas pinturas que, supomos, Lúcio tenha alicerçado boa parte de suas assertivas acerca do negro na casa brasileira, e porque não dizer, como parte da própria casa brasileira. Mas, e se Debret tivesse registrado o negro a partir de outra perspectiva que não exclusivamente a do serviçal na capital, se tivesse registrado outros negros em outros ambientes que não fundamentalmente os do Rio de Janeiro, será que as conclusões do arquiteto seriam diferentes?

Passando a outro autor, João Baptista Pianca, professor da disciplina de Arquitetura no Brasil do primeiro corpo docente da UFRGS (7), em seu Compilações de arquitetura no Brasil, de 1956 (8), define logo de início os primórdios da arquitetura nacional. Segundo ele os fatores que “influenciaram” a nossa arquitetura foram, por um lado, a terra e o clima, e por outro, o homem. E subdivide o elemento humano em três: o português, o índio e o negro. Anota que estudos modernos apontam para essa tripla influência e que, no que tange ao fazer do negro no Brasil anota que “a sua arquitetura era muito rudimentar, pois suas habitações eram de taipa” (9). Para ele, o negro está presente na arquitetura nacional através de características impalpáveis. Indica que “na arquitetura Brasileira nota-se, certo amolecimento [em relação à dureza da arquitetura portuguesa], há mais suavidade, mais ternura, a que devemos atribuir provavelmente ao sangue negro e ao calor dos trópicos” (10). A imprecisão dos termos “amolecimento”, “suavidade” e “ternura” não definem de maneira clara um tipo especifico de saber arquitetônico. Não há nem a indicação de sobre quais aspectos estas características incidiriam, se sobre aspectos formais, sobre a tecnologia construtiva, ou qualquer outra.

Jean-Baptiste Debret, Negra tatuada vendendo cajus, aquarela, 1827 [Wikimedia Commons]

Essa idéia de tripla origem dos aspectos culturais brasileiros está em estreita vinculação com a argumentação de Gilberto Freire. É este autor que aponta a “influência do clima amolecedor” (11) e que “em vez de dura e seca, rangendo do esforço de adaptar-se a condições inteiramente estranhas, a cultura européia se pôs em contato com a indígena, amaciada pelo óleo da mediação africana” (12).

Mais adiante afirma que “os negros possuíam sensibilidade artística que se manifestou tanto na escultura como na pintura. Aleijadinho, mestre Valentim e Manuel da Costa Atayde, foram expoentes na arquitetura e na escultura, o último somente na pintura, e descendiam de negros” (13). Registra assim seu reconhecimento ao talento destes artistas.

Já John Bury, em texto da década de 1950, A arquitetura e a arte no Brasil Colonial (14), é categórico.

Não houve contribuição artística indígena ou africana que estimulasse ou explicasse a individualidade brasileira, e a ocupação holandesa de Pernambuco (1630-1654) não teve posteridade artística. Portanto devem ser atribuídas a outras causas as características originais da arquitetura e da arte do Brasil colonial (15).

A arquitetura brasileira teria para ele, exclusivamente, paralelo com a tradição européia. Negros e indígenas não participaram da peculiaridade da arquitetura nacional. Entre as causas da originalidade e da correlação entre arquitetura e arte brasileira e européia estariam, segundo Bury, a influência de gravuras e livros que chegaram às Américas, contribuições pessoais de italianos e centro europeus que vieram ao Brasil e a ocorrência tardia de estilos artísticos. O único caso que foge a essa regra, digno de menção, é o de Aleijadinho, talento individual e único.

Jean-Baptiste Debret, Negros vendedores de aves, aquarela, 1823 [Wikimedia Commons]

Estes três textos iniciais são contemporâneos, da década de 1950. Passemos a outros de data posterior. Paulo F. Santos, em sua obra Quatro Séculos de Arquitetura (16), de 1977, em momento em que trata da relação entre Brasil e Portugal, aborda as raízes das características arquitetônicas que chegaram à colônia através de sua metrópole. Concentra na cultura arquitetônica européia, mas não descarta a participação dos saberes asiáticos e africanos. Conforme escreve:

As fontesem que Portugalse abastecia estavam muitas vezes fora: na Itália – (...) dado o avassalante prestígio da renascença; um pouco na Espanha (...); e um pouco também na França – preponderantemente no século XVIII; mas mesmo nesse século a influência italiana foi maior. Houve muitas outras influências: da mesma Europa e também da Ásia e África, que não cabe citar numa esquisse relativa ao Brasil (17).

Também dedica algumas linhas à relação negro – arquitetura brasileira. Segundo ele:

A abolição, para a arquitetura foi o fato capital. O escravo tinha na sociedade colonial e na imperial tríplice significação: na economia, como fator de produção; na família, de que participava efetivamente, contribuindo para lhe dar um calor de humanidade e uma coesão, que sem ele ela perdeu; na casa, fosse rural ou a urbana, cujo funcionamento dependia dele e cujo programa sem ele teve de ser não somente reduzido como modificado na sua orgânica e no seu funcionamento (18)

As conclusões sobre a influência da libertação dos escravos para a arquitetura nacional são as mesmas de Lúcio Costa. Teria Santos chegado a elas através de fontes diversas ou simplesmente esquecido de citar Lucio Costa? Não há como saber a partir do texto, pois não há menção a nenhuma das hipóteses. Outras citações que faz são relativas à morada do negro no período colonial, as senzalas, quartos dos negros e dependências dos fundos nas casas dos senhores.

Frans Post, Vista da Ilha de Itamaracá, óleo sobre madeira, 1637 [Wikimedia Commons]

O mineiro Sylvio de Vasconcellos em seu estudo de 1977, Vila Rica: formação e desenvolvimento (19), obra essencial para quem pretende conhecer a arquitetura e a formação da cidade de Ouro Preto também contribui nesse debate. Para ele, parte da qualidade artística característica de Minas Gerais tem relação com a herança cultural negra e com a liberdade que os mulatos desfrutavam naquela sociedade. Aponta ele que:

Será interessante salientar igualmente a predominância de mulatos nas artes plásticas mineiras, na 2ª metade do século XVIII, predominância essa que pode ser atribuída, não só a herança que traziam de seus antepassados negros, mais dados talvez às artes que os portugueses, como também à condição social que desfrutavam, isto é, livres para a obtenção de serviços e não sujeitos às limitações que impediam, no geral, os brancos, de se dedicarem a trabalhos manuais (20).

Não fica inteiramente esclarecido em seu texto em que aspectos específicos da arte mineira os ecos da áfrica comparecem, mas dá crédito a uma tradição que vem junto com os negros vindos como escravos. Noutro momento sugere a hipótese de que o elemento negro teria trazido às minas conhecimento para o processo de obtenção do ferro. Escreve ele que “outro material que não pode ser olvidado é o ferro que (...) não deixou de ser obtido em Minas por processos primários, talvez introduzidos pelos negros” (21). Todavia não traz detalhes.

Vejamos o que diz Nestor Goulart Reis Filho em seu Quadro da Arquitetura no Brasil (22), de1970. A semelhança de sua avaliação com a de Lúcio Costa é enorme.

O uso dos edifícios também estava baseado na presença e mesmo na abundância da mão de obra. Para tudo servia o escravo. É sempre a sua presença que resolve os problemas de bilhas d’água, dos barris de esgoto (os ‘tigres’) ou do lixo, especialmente nos sobrados mais altos das áreas centrais (...). Era todo um sistema de uso da casa que, como a construção, estava apoiado sobre o trabalho escravo e, por isso mesmo, ligava-se a nível tecnológico bastante primitivo. (...) A ausência de equipamentos adequados nos centros urbanos, quer para o fornecimento de água, quer para o serviço de esgoto e, mesmo, a deficiência do abastecimento, eram situações que pressupunham a existênciade escravos no meio doméstico; a permanência dessas falhas até à abolição poderia ser vista, até certo ponto, como uma confirmação desta relação (23).

Frans Post, Muro com cavalos e escravos, óleo sobre madeira, c. 1655 [Wikimedia Commons]

O período a que se refere é o mesmo – pré-abolição. A conclusão idem. Será que, como Paulo F. Santos, Nestor Goulart Reis Filho também chegou a estas conclusões através de suas pesquisas ou simplesmente esquece-se de citar a fonte? Os exemplos são idênticos – o negro água, esgoto – e a assertiva da importância do trabalho escravo para o uso da casa. Ou seja, do negro exclusivamente como ser autômato, sem pensamento ou vontade própria, equipamento de funcionamento da casa. Mas, de que casa? Da casa de quem?

Lúcio Costa pensou um passado para a arquitetura brasileira fundamentada em fontes que ele não expõe, mas que podemos supor, como o caso de Debret já relatado. A autoridade de sua escrita era reconhecida dada a celebridade de que gozava no meio. Em nosso entendimento é daí que ecoam suas idéias aos textos posteriores, mesmo sem a citação explicita da fonte. Mas, será mesmo que foi apenas este o papel do negro escravo na arquitetura brasileira? Será que não contribuíram em nada com seu saber?

Reis Filho tem ainda citações que expõe sua avaliação de que o que o negro escravo realizava era quase sempre de pouca qualidade. Segundo seu texto “o funcionamento dessas residências, nos exemplos mais perfeitos, implicava na substituição de mão de obra escrava, sempre grosseira e imperfeita, por criadagem européia” (24), ou ainda, “as construções, aproveitando a mão de obra escrava, eram rudimentares” (25).

Tragamos outro autor para contribuir com o debate. Na obra Historia da Casa Brasileira (26), Carlos A. C. Lemos afirma que a casa brasileira tem ligação com espectro amplo de influências. Segundo ele “se a história de nossa casa tem o seu começo nas terras lusitanas, também tem vínculos com a oca indígena e até perceptíveis compromissos com a África e com o oriente” (27). Porém, não identifica explicitamente quais seriam estes “perceptíveis compromissos” das características das habitações nacionais com as distantes África e oriente. Mais adiante indica, como já o fizeram outros autores, que “a nossa velha casa patriarcal não pode ser imaginada sem a presença do escravo solícito” (28), elemento humano indispensável para seu funcionamento. Adjetiva o escravo como solícito, como se o escravo fosse zeloso por vontade própria ou generosidade e não compulsoriamente. Não cita aqui a fonte desta afirmação, mas em artigo de 1993, Aspectos da arquitetura do Brasil (29), menciona explicitamente Lúcio Costa como autor daquele ponto de vista.

... criadagem européia substituindo, na classe alta, os incultos, mas solícitos escravos. Escravos que, como certa vez disse o mestre Lúcio Costa, fizeram a casa colonial funcionar, por atuavam como elevador, ventilador, esgoto, monta-cargas para o senhor entediado (30).

Ainda para ele as residências de maior porte, de proprietários mais abastados, “as casas desses segmentos sociais pode-se dizer que se dividiram em dois grandes tipos: as casas maiores, tocadas pelos escravos das lides domésticas e as casas pequenas da gente pobre” (31). Sem detalhar que tipo de atividades os escravos exerciam, vincula seu entendimento aos atores que compreendem que era o elemento negro que fazia a casa funcionar, sem trazer qualquer outro tipo de indicação de quaisquer saberes arquitetônicos que o negro poderia ter agregado a nossa tradição construtiva. Noutra obra do mesmo autor, Cozinhas, etc: um estudo sobre as zonas de serviço da casa paulista (32), da década de 1970, Carlos A. C. Lemos apresenta o legado que a estratificação social do período colonial deixou ao programa de necessidades das residências do século XX. Nota ele que “as acomodações das mucamas, das negras da cozinha e dos moleques de recado se resumiram no quartinho da empregada domestica, ultima remanescente ou testemunha social de nosso regime escravocrata, que a troco de pequeno salário, cama e comida faz o papel de suas avós” (33).

Já o arquiteto e pesquisador gaúcho Günter Weimer traz outra perspectiva em relação a este tema. Avalia que por terem sido trazidos ao Brasil como escravos a sua contribuição à arquitetura e ao urbanismo brasileiro tem recebido pouca atenção (34). Aponta que para compreender a relação entre arquitetura daqui e de lá:

precisam ser examinadas as múltiplas formas arquitetônicas onde as formas mais comuns na África das “cubatas” (casas) de planta redonda e tetos cônicos são raras em nosso país dando lugar às casas de “mocambo” (de cumeeira, ou seja, de duas águas), características do noroeste de Angola e, em parte, da Costa da Guiné, que são encontradas de norte a sul do Brasil. A diversidade da organização das plantas-baixas contribui para o complicado problema da origem dos cativos. Capítulo especial deve ser dedicado ao estudo dos avarandados que, na literatura brasileira, são atribuídos a influências do extremo oriente, mas são muito comuns tanto no norte de Moçambique como na costa central de Angola. A forma recorrente da construção de edificações de um só espaço gerou um modo muito peculiar de organização dos conjuntos de prédios de cada família denominada kraal, com seus cercamentos típicos, deixaram resquícios indeléveis nas formas de assentamentos no Brasil do mesmo modo como uma tendência de associação das edificações familiares sob a liderança da matriarca. Aí fica patente a substituição da estrutura familiar poligâmica africana pela familiar extensiva no Brasil (35).

Weimer vê ecos africanos negros por toda parte. Nas formas, nas plantas, nas técnicas construtivas, nos nomes. Em momento algum aborda o negro como o fizeram Lucio e outros. Não toca no nome dos mestres artistas mineiros Aleijadinho e Valentim, antes citados, e tem ponto de vista diametralmente oposto ao de Bury, para quem o negro em nada participou na peculiaridade da arquitetura brasileira.

Estão expostos aí pontos de vista variados. Está aí um assunto que merece ser estudado com maior profundidade para que seja mais bem esclarecido. Colocar uma interrogação no assunto é atitude positiva, pois a dúvida é o primeiro passo para uma compreensão mais precisa. Para tal, talvez seja necessário superar alguns entendimentos. O primeiro, o de falar em negros como generalização dos diversos povos que vivem na África. É tão abstrato como falar em brancos, dada a heterogeneidade de grupos, culturas, modos de fazer e pensar. O segundo é, se o saber “negro” no campo da arquitetura existe, se explicita onde, na construção civil ou religiosa, rural ou urbana, na técnica construtiva ou em algum outro lugar ou característica? Outro problema seria identificar quais as fontes possíveis de serem avaliadas para empreender tal procura. Talvez, conhecendo os modos de construir das regiões de onde vieram os escravos que aportaram no Brasil para, posteriormente, comparar com o que foi construído aqui seria um passo para achar potenciais identificações. Construir um diálogo entre o aqui e o lá. É um bom debate que, em nosso entendimento, merece um pouco mais de atenção.

notas

1
COSTA, Lúcio. “Depoimento de um arquiteto carioca”. In: Centro dos Estudantes Universitários de Arquitetura. Lúcio Costa: sobre arquitetura. Porto Alegre: UFRGS, 1962.

2
COSTA, Lúcio. Op. Cit, p. 174-175.

3
FREIRE, Gilberto. Casa Grande e Senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. 20ª Ed. Rio de Janeiro/Brasília: Livraria José Olympio, 1980, p. 283.

4
COSTA, Lúcio. “Ensino do desenho”. In: Centro dos Estudantes Universitários de Arquitetura. Lúcio Costa: sobre arquitetura. Porto Alegre: UFRGS, 1962.

5
COSTA, Lúcio. Op. Cit, p. 132-133.

6
BANDEIRA, Júlio e LAGO, Pedro Corrêa do. Debret e o Brasil: obra completa, 1816-1831. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Capivara, 2008, p. 13.

7
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Faculdade de Arquitetura. Faculdade de Arquitetura: 1952-2002 / organização de João Farias Rovatti, Fabiano Mesquita Padão – Porto Alegre: Gráfica da UFRGS, Faculdade de Arquitetura, 2002.

8
PIANCA, João B. Compilações de arquitetura no Brasil. 1ª parte. Publicações do CEUA, Porto Alegre: UFRGS, 1956.

9
PIANCA, João B. Op. Cit., p. 12.

10
PIANCA, João B. Op. Cit., p. 13.

11
FREIRE, Gilberto. Op. Cit., p. 5.

12
FREIRE, Gilberto. Op. Cit., p. 52.

13
PIANCA, João B. Op. Cit., p. 13.

14
BURY, John. Arquitetura e Arte no Brasil Colonial. Org. Myriam Ribeiro de Oliveira. São Paulo: Nobel. 1991, p. 162-191.

15
BURY, John. Op. Cit., p. 189.

16
SANTOS, Paulo F. Quatro séculos de arquitetura. Rio de Janeiro: Valença, 1977.

17
SANTOS, Paulo F. Op. Cit., p. 5.

18
SANTOS, Paulo F. Op. Cit., p. 78-79.

19
VASCONCELLOS, Sylvio de. Vila rica: formação e desenvolvimento-residências. São Paulo: Perspectiva, 1977.

20
VASCONCELLOS, Sylvio de. Op. Cit., p. 99.

21
VASCONCELLOS, Sylvio de. Op. Cit., p. 119.

22
REIS Filho, Nestor Goulart. Quadro da arquitetura no Brasil. 9 ed. São Paulo: Perspectiva, 2000.

23
REIS Filho, Nestor Goulart. Op. Cit., p. 28.

24
REIS Filho, Nestor Goulart. Op. Cit., p. 118.

25
REIS Filho, Nestor Goulart. Op. Cit., p. 124.

26
LEMOS, Carlos A. C. Historia da Casa Brasileira. São Paulo, Contexto, 1989.

27
LEMOS, Carlos A. C. Op. Cit., p. 11.

28
Idem, Ibidem.

29
LEMOS, Carlos A. C. “Aspectos da arquitetura Brasileira”. In: Revista Projeto, nº 166, ago 1993, p. 97-103.

30
LEMOS, Carlos A. C, Op. Cit., 1993, p. 99.

31
LEMOS, Carlos A. C, Op. Cit.,1989, p. 9.

32
LEMOS, Carlos A. C. Cozinhas, etc: um estudo sobre as zonas de serviço da casa paulista. São Paulo, Perspectiva, 1997.

33
LEMOS, Carlos A. C, Op. Cit., 1997, p. 17.

34
WEIMER, Günter. O Significado da Arquitetura Popular. Palestra de abertura do IX EHTA, 2005, URCAMP, Bagé, RS.

35
Idem, ibidem.

sobre o autor

Bruno Cesar Euphrasio de Mello é Arquiteto e Urbanista, mestre pelo PROPUR-UFRGS.

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