Your browser is out-of-date.

In order to have a more interesting navigation, we suggest upgrading your browser, clicking in one of the following links.
All browsers are free and easy to install.

 
  • in vitruvius
    • in magazines
    • in journal
  • \/
  •  

research

magazines

architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
No curto ensaio intitulado Nourritures, o filósofo francês Jean-Paul Sartre narra a sua viagem à cidade italiana de Nápoles, durante a qual, no momento inicial, ele busca encontrar o seu sentido aparentemente oculto


how to quote

LIMA, Adson Cristiano Bozzi Ramatis. Sartre em Nápoles. Arquitextos, São Paulo, ano 13, n. 145.06, Vitruvius, jun. 2012 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/13.145/4380>.

“Nápoles se aproxima. Toda vez, um pouco antes de chegar nessa cidade, eu tenho um aperto no coração. Atravessa-se um pomar deserto. Eu sei muito bem, bem demais, o que eu vou encontrar em Nápoles. É uma cidade em putrefação. Eu a amo e eu tenho horror a ela. Eu tenho vergonha de ir vê-la.”
Jean-Paul Sartre. La reine Albermale ou le dernier touriste.

Introdução

Alguns textos de Jean-Paul Sartre tiveram um atribulado percurso de publicações, abandono ou esquecimento, e posteriores republicações. Como exemplo desse fato podemos citar o curto ensaio, intitulado Nourritures, publicado no ano de 1938 na revista francesa Verve; esse texto foi traduzido e republicado pela edição inglesa da mesma revista um ano depois. Quando foi outra vez republicado, dessa vez no ano de 1949, o ensaio revelou a sua filiação e origem, posto que estava datado: “Nápoles, 1935” (1). Esse ensaio, no entanto, não está dotado de plena autonomia, uma vez que, na origem, era um fragmento da novela Dépaysement, que tinha ficado esquecida no fundo de alguma gaveta durante muito tempo, tendo sido publicado apenas em 1981, na compilação Oeuvres romanesques, da coleção La Pléiade. Essa novela, por sua vez, tinha sido inspirada em uma temporada na Itália empreendida pelo autor no verão de 1936 e, portanto, a data que foi estabelecida pelo autor não é correta. (2)

Esse percurso, contudo, é normal se pensarmos na copiosa produção de Sartre, que nos legou, igualmente, várias obras póstumas, como os seus livros de missivas e o diário íntimo que escreveu quando estava mobilizado no início da Segunda Guerra. (3) Assim, nesse caso, mais importante que estabelecer uma datação que pudesse ser considerada precisa, é observar que Nourritures, como todo texto, tem uma filiação intelectual precisa, que nesse caso é o gênero literário denominado “narrativas de viagem” ou, ainda, “narrativas viáticas”, nas quais um escritor-viajante narra as aventuras e desventuras sofridas em terras distantes. (4) Na realidade, como muitos conceitos, literários ou não, o de “narrativa viática” é vago o suficiente para que se possa subsumir textos tão diferentes como A descrição do mundo, escrito por Marco Pólo, um livro tido como biográfico, mas que talvez seja ficcional, e Descrição da Grécia, do grego Pausânias, obra escrita no século II a.C. Esse dois livros nada têm em comum a não ser o fato de que apresentam o caráter descrito acima, isto é, têm como tema a narrativa de uma viagem.  

Sartre, é importante que se acrescente, foi um notório viajante e praticou esse gênero literário com certa assiduidade, como as trinta e duas reportagens que escreveu no ano de 1945 quando estava nos Estados Unidos da América como correspondente de guerra, ou, ainda, o livro Sartre visita Cuba, publicado em 1960, no qual o filósofo francês, como o título já indica, descreveu a sua viagem a esse país. (5) Certamente que o termo empregado por nós para descrever parte da obra de Sartre, “assiduidade”, deve ser visto, no mínimo, com certa reserva, uma vez que, em face dessa monumental obra, não há, exatamente, um tema que tenha sido privilegiado. (6) Mas do que trataria, exatamente, esse ensaio? Nourritures é um texto ambientado em Nápoles, no qual o seu autor fez algumas considerações sobre essa cidade italiana, com as suas ruelas, a mal-disfarçada pobreza da sua população e, como o título indica, escreveu, igualmente, sobre essa cidade do ponto de vista dos seus alimentos. Todavia, o objetivo desse artigo é menos o de analisar a maneira pela qual Sartre aborda a questão da alimentação dos napolitanos do que perceber como o filósofo francês, na sua condição de turista francês em solo italiano, percebe e descreve a cidade. Acreditamos que essa questão seja importante porque Sartre, nesse texto, trava um diálogo com a mais que milenar tradição literária das narrativas viáticas, expondo ou negando os seus topoi. (7) Ora, uma cidade, qualquer cidade, é sempre percebida de maneira diferente, consoante seja vivida na lida cotidiana por um habitante ou vista com surpresa por um viajante estrangeiro que está de passagem. A questão do urbano e da arquitetura foi abordada por nosso autor em diferentes momentos da sua carreira literária e, de uma maneira mais constante, na coletânea de ensaios Situations III e no romance inacabado e publicado postumamente La reine Albermale ou le dernier touriste. (8) A nossa intenção é, então, recriar textualmente a Nápoles descrita pelo filósofo francês (9), a qual pertencia apenas a ele, que, finalmente, era o seu único e legítimo proprietário. (10)  

Sartre, então, coloca-se como objetivo revelar o caráter último de Nápoles, a sua singularidade e aquilo que, finalmente, a distinguiria das demais cidades. Veremos que o filósofo francês teve êxito na sua busca apenas quando deambulava pelas suas ruelas miseráveis, na qual uma população jazia no anonimato e na obscuridade. Mas o que, exatamente, teria sido visto nesse espaço urbano particular, feito de sombras e de privações? Ora, foi vista a chamada “orgia dos alimentos”, ou seja, a carne humana que, na sua miséria, se confundia com alimentos em nada saudáveis. Assim, pretendemos explorar essa descoberta sartriana, que é vivida como um profundo mal-estar e como um vago sentimento físico que quase lhe provoca o vômito. São estes, então, os dois objetivos do artigo: por um lado, há a busca da singularidade de uma cidade por parte do filósofo francês, que não a encontra nas ruas elegantes dessa cidade, mas nas suas “feridas urbanas”; por outro lado, há o êxito dessa busca, que não é vivida na felicidade da descoberta, mas que vem acompanhada de um profundo mal-estar.

Descobrindo Nápoles

No capítulo introdutório desse artigo, aludimos ao fato de que todo texto literário está ligado a um gênero literário – ou a alguns deles, como é o caso do ensaio ficção La reine Albermale ou le dernier touriste, obra póstuma de Sartre – e, assim, tanto possui os topoi literários quanto obedece a certas convenções, e esse é o caso das narrativas viáticas, que teriam uma estrutura mais ou menos precisa: “A estrutura de base é, então, a tríade ida-estadia-retorno.” (11) Assim, no ensaio que ora analisamos, o autor, dialogando com a já citada tradição das narrativas viáticas, descreve a sua chegada à cidade italiana: “Eu cheguei por mar, em uma manhã de setembro, e ela me recebeu de longe com clarões esbranquiçados; (...)”. (12) Foi o seu primeiro encontro com a cidade italiana, e o autor colocou-se na posição do viajante que opta por caminhar: “(...) eu passeei todo o dia em ruas largas e retas, a Rua Umberto, a Rua Garibaldi e não consegui ver, sob a pomada, as feridas suspeitas que elas tinham nos flancos.” (13)

O filósofo francês desconfiou que, no seu primeiro contato, a cidade não lhe revelava o seu segredo, e suspeitou que a verdadeira Nápoles não fosse o que ele, simples turista estrangeiro, estaria vendo: “Eu estava desencorajado, não tinha visto de passagem senão pequenos fatos multicolores, confetes. Eu me perguntei: ‘Eu estou em Nápoles? Nápoles, isso existe?’” É um sentimento que poderíamos nomear de “a dúvida ontológica do turista”, a quem rondaria sempre a suspeita de que lhe estariam pregando uma peça, e que ele estaria vendo apenas um cenário – de beleza, ou de exotismo – destinado a agradar aos viajantes de passagem e a não frustrar as suas expectativas.

O viajante, contudo, pode conhecer o sentimento viático da decepção, e este é, justamente, mais um dos topoi dessas narrativas: em uma cidade que se esperava conhecer, nem tudo pode ser objeto de espanto ou admiração, e, por vezes, esses sentimentos cedem lugar à frustração e à decepção. Ao deparar com um elemento arquitetônico que ele identificou como muralhas, o filósofo francês imaginou que, finalmente, teria encontrado o sentido daquela cidade, um elemento que a significasse ao sintetizá-la, como poderiam ser as margens do rio Sena na cidade de Paris, ou a vista dos cumes nevados da Cordilheira dos Andes em Santiago. Contudo, ainda não foi daquela vez que Sartre encontraria, por meio da admiração ou do espanto, a lógica precisa de Nápoles: “Mais uma decepção: essa sombra quente e vagamente obscena não era senão uma cortina de bruma que se atravessava em quinze passos.” (14) Assim, não foi por meio desse provável passado residual que o autor encontrou um elemento que lhe explicasse a verdadeira natureza daquela cidade.

Todavia, quando já se encontrava disposto a desistir de encontrar Nápoles, quando pensava que essa cidade havia faltado ao encontro que supostamente teria sido marcado (“O.k.! Pois bem, não me resta senão ir ao cinema.”) (15)eis que ela lhe surge, repentinamente e um pouco por acaso: “Foi nesse momento que eu descobri, a vinte metros da confeitaria Caflish, uma das inumeráveis feridas dessa cidade tomada pela varíola, uma fístula, uma ruela.” (16) Seria esse encontro fortuito a primeira descoberta da cidade? E, em caso positivo, por que seria justamente essa “ruela” a chave que abriria o acesso das portas da cidade ao nosso autor? Nessa rua o filósofo francês narrou o seu primeiro encontro com a Nápoles que esperava ver, ao ter vislumbrado uma fatia de melancia, maculada de lama e coberta de moscas, como se fosse uma carcaça que “sangrasse sob os últimos raios de sol”. E, para aquele turista, acontece o improvável: uma criança em farrapos “a toma em suas mãos e passa a comê-la, com muita naturalidade.” (17) Para um francês de Paris, aquela imagem era, no mínimo, desconcertante, posto que levava ao paroxismo a repugnância daquele objeto que, de repente, havia se tornado um improvável alimento. (18) Tratou-se, então, de um triplo encontro, e que ocorreu de maneira quase simultânea: com a própria rua, com a alimentação e com a pobreza que as elegantes vias de Nápoles não lhe permitiram conhecer, ou, dito de outra maneira: ali ele finalmente entrou em contato com as feridas de Nápoles das quais já havia ouvido falar e que ansiava encontrar.  

Essa imagem da pobreza já fazia parte das suas expectativas de viajante e, inicialmente, ficava intrigado com o fato de não tê-la encontrado com mais facilidade e que esta não fosse a situação mais presente e óbvia: “(...), Nápoles não se entrega de imediato: é uma cidade que tem vergonha de si mesma; ela tenta fazer com que os estrangeiros acreditem que é cheia de cassinos, mansões e palácios.” (19) Na Via Roma lhe haviam escondido esse aspecto sórdido tanto dos alimentos quanto da situação social da cidade, e ele pensou nas melancias frescas que havia visto ali, “que tinham a aparência de sorvetes de framboesa e pistache com grãos de café.” (20) A imagem urbana que lhe tinham vendido, a ele turista recém desembarcado, não correspondia ao que ele imaginava encontrar: uma cidade sórdida, uma carcaça fervilhando de moscas com uma população que mal sobrevivia. Assim, naquelas ruelas Sartre descobriu, simultaneamente, a verdade do alimento e a verdade de (sua) Nápoles. (21)

E o filósofo francês prosseguiu o seu percurso nessa “cidade proibida”, que o era, ao menos, para os turistas: “Eu fui à esquerda, depois à direita e, então, novamente, à esquerda: todas as ruas eram semelhantes. Ninguém ligava para mim, e eu mal encontrava, de vez em quando, um olhar vazio.” (22) Mas, e é lícito que nos perguntemos, o que o filósofo francês teria encontrado e visto nessas ruelas sombrias e sórdidas de Nápoles? Sartre escreveu ter visto a carne humana dos homens, das mulheres e crianças, que cozinhava na sombra e no calor abafado, confundida com as carnes comestíveis, com os seus alimentos: “(...) sobras vivas, escamas, talos, carnes obscenas, frutos abertos e maculados, eles se compraziam com uma indolência sexual na sua vida orgânica.” (23) A miséria dessa cidade aparece, aqui, a partir dos alimentos, da relação com estes em um espaço urbano no qual a pobreza – e a indiferença a essa mesma pobreza – estava em praticamente em todos os lugares.

Diante de tal quadro, Sartre afirma, então, sentir uma espécie de profundo mal-estar, uma nausée em estado larvar (24), uma angústia física que o levaria quase ao vômito: “Eu me sinto, por minha vez, digerido: começou com uma vontade de vomitar, mas muito suave e açucarada, e depois ela desceu no meu corpo como um formigamento engraçado.” (25) O sentimento da revelação da natureza dos alimentos e da carne humana, em uma orgia obscena na qual os elementos, todos orgânicos, estão mesclados: corpos pálidos, braços nus, pescoços magros, farrapos avermelhados dependurados em ossos brancos, eis a descrição que nos ofereceu o filósofo francês do seu encontro com a pobreza italiana nas ruelas sórdidas de Nápoles. “Eu não via mais senão a carne, miseráveis flores de carne, que flutuavam em uma obscuridade azul, carne para apalpar, sugar, comer, a carne marinada em suor, urina, leite.” (26) No entanto, resta a elucidar o fato de que afirmamos que esse sentimento experimentado por Sartre poderia ser compreendido como uma espécie de “nausée em estado larvar”. Ora, esse sentimento de angústia surge, inicialmente, a Antoine Roquentin, como um sentimento físico:

Eu existo. É tão suave, tão suave, tão lento. E leve: dir-se-ia que isto se mantém por si só no ar. Isto revolve. São eflorescências que, em todos os lugares, derretem e se desvanecessem. Suave, muito suave. Na minha boca, há uma água pantanosa. Eu a engulo, ela desliza pela minha garganta. Ela me acaricia – e eis que ela renasce na minha boca, perpetuamente, uma maré de água esbranquiçada – e discreta – que mal encosta na minha língua. (27)

Ora, ainda que a questão filosófica principal nesse trecho citado seja as relações do homem com o real e com o conceito de existência (“Eu existo. É tão suave, tão suave, tão lento.”), não se pode deixar de perceber que, fisicamente, a personagem da novela experimenta la nausée como um sentimento físico, pela presença de uma “água pantanosa que nasce e renasce na sua boca”, um pouco como o sentimento próximo ao vômito experimentado pelo próprio autor em Nourritures. Outra questão que nos autorizaria o uso do termo de “nausée em estado larvar”, para descrever o mal-estar do filósofo francês em Nápoles, seria a própria presença da questão linguística, presente em ambos os textos, tanto na novela quanto no ensaio. Como vimos, Nápoles era, para Sartre, a perturbadora proximidade do alimento e, principalmente, da carne comestível à carne humana. Ora, em Português não fazemos distinção entre os termos “carne humana” e “carne comestível”, que descrevemos com o mesmo nome, mas, em Francês, há uma distinção onomástica ente viande (carne comestível) e chair (carne humana). Contudo, ao presenciar uma dada cena nas ruelas pobres de Nápoles, o nosso autor escreveu: “De repente, um homem ajoelha-se perto de uma criança e a olha rindo; ela ri também, dizendo: ‘papai, papai’, depois, o homem levanta ligeiramente o vestido da criança e morde como a um pão as suas nádegas cinzas.” (28) Assim, o mal-estar de Sartre, como podemos observar nessa frase, era, parcialmente, linguístico: era a percepção de que chair, nessa cidade italiana, confundia-se com viande. Nesse sentido, essa cidade que, por vergonha de si, se pretendia elegante, foi percebida pelo filósofo francês como obscena. Na novela publicada, inicialmente, em 1938, Sartre escreve sobre a dúvida que a personagem tem face ao real e, como veremos, uma das abordagens é a própria relação entre as palavras e as coisas:

Então, de repente, eu estava no Jardim Público. A raiz da castanheira entrava na terra, exatamente sob o meu banco. Eu não me lembrava que era uma raiz. As palavras se desvaneceram e, com elas, a significação das coisas, a maneira de empregá-las, as frágeis referências que os homens tinham traçado na sua superfície. (29)

Diante de um ente particular, frequentemente nomeado de “raiz”, Antoine Roquentin compreende que as palavras, assim como as eflorescências citadas anteriormente, se desvanecem, levando consigo a perda de significação do mundo. Temos, então, em ambos os textos, a relação entre o sentimento físico pressentido inicialmente na boca: a “vontade de vomitar” em Nourritures e a “água pantanosa” em La nausée. E, por outro lado, uma relação linguística que causa certo mal-estar, a viande que se torna chair no ensaio e a pergunta sobre a realidade do real a partir, justamente, da relação entre as coisas e as palavras que as nomeiam. Assim, seriam estes os elementos que nos permitiriam compreender o sentimento de Sartre diante da “orgia dos alimentos” como uma espécie de “la nausée em estado larvar”. Os sartrólogos Michel Contat e Michel Rybalka escreveram sobre essa relação, sem, contudo, desenvolvê-la: “Nesse texto que faz pensar em certas páginas de La nausée, Sartre tenta mostrar, ao mesmo tempo, a verdade e o horror do alimento.” (30) Ora, o filósofo norte-americano Joseph P. Fell comenta essa relação linguística no conjunto da filosofia de Sartre e na novela La nausée da seguinte maneira:

Vimos que em La nausée Sartre descobre que “as coisas estão divorciadas dos seus nomes”. Esta é a expressão da revolta de Sartre contra o que ele chamou de “idealismo linguístico”, a perene tendência humana (a qual realiza a sua expressão formal na filosofia idealista) em reduzir as coisas aquilo que os homens dizem e aquilo que eles querem dizer delas. (31)

Ou seja, trata-se de um mal-estar de caráter ontológico, que descobre o mundo e a existência como sendo absurdas, mas é, simultaneamente, um mal-estar linguístico, na medida em que “as coisas estão divorciadas dos seus nomes”.  Mas, completando algumas questões já aludidas, é mister observar que esse texto, ainda que seja narrado na primeira pessoa, e ainda que tenha sido inspirado em uma viagem a essa cidade italiana, é parcialmente ficcional, e a colorida e vívida cena de pesadelo descrita pelo filósofo francês é o romanesco desse ensaio. Nesse sentido, Sartre não se limitou às convenções literárias do gênero chamado de “narrativa de viagem”, mas estabeleceu um diálogo e, quando foi possível, alargou as suas fronteiras. Assim, o exotismo tantas vezes narrado por escritores viajantes tornou-se uma visão em que aquelas ruelas não têm o pitoresco esperado de uma paisagem do sul da Itália, mas guarda um horror secreto, a obscenidade da carne, que é a obscenidade do alimento. Naquele momento, o que os comerciantes das ruas elegantes de Nápoles, com os seus alimentos bem expostos e reluzentes no seu frescor orgânico, tentavam esconder, vem à tona: a “morte” e a putrefação, o fim de toda carne, o fim de todo alimento e, portanto, o fim de toda vida.

Ainda sobre as convenções e os topoi, é necessário escrever sobre o fim da viagem do nosso autor à Nápoles, uma vez que, como já escrevemos, as narrativas viáticas costumam obedecer à supracitada tríade; mas Sartre não se vai sem uma última constatação dessa viagem de iniciação, dessa descida ao inferno dos alimentos: “‘Aqui estou, pensei, aqui estou!’ Eu me sentia mergulhado em uma enorme existência carnívora: uma existência suja e rosa que coalhou em mim: ‘Aqui estou: estou em Nápoles.’” (32) Trata-se da confissão de uma revelação percebida: bruscamente, naquele ambiente miserável e sórdido, o sentido de Nápoles emergiu, e a dúvida acerca da sua existência, posta no início da narrativa, perde todo o sentido. Nápoles, segundo o filósofo francês, era uma cidade na qual havia um perturbador e “imundo” parentesco entre o amor (a carne humana em toda a sua obscenidade) e o “horror” do alimento. (33) Assim, não estamos no domínio de uma simples descrição de espaços, posto que esse processo sucinto implicaria admitir a impossibilidade completa da própria síntese a ser operada pelo viajante; nesse caso, a diversidade do sensível entrevista confusamente nos bairros elegantes poderia ser percebida da mesma maneira nos bairros populares; e essa síntese, ao menos nesse ensaio, somente poderia acontecer em uma espécie de unificação do sensível, que o nosso autor logrou realizar apenas nas ruelas miseráveis dessa cidade, com a carne humana se confundindo com o alimento.

Últimas considerações

Então, para Sartre Nápoles tinha, finalmente, uma identidade precisa. E essa cidade não seria como Milão, uma “cidade falsa”: “Eu conheci cidades assim – Milão, por exemplo – falsas cidades, que derretem a medida em nelas entramos.” (34) O filósofo francês alude ao processo de fazer com que uma série de pequenos fenômenos aparentemente aleatórios ganhem uma síntese e tenham algum sentido para o viajante: “Nápoles talvez não fosse senão um nome dado a milhares de reflexos no solo, a milhares de clarões em milhares de vidros, a milhares de passantes solitários e a burburinhos no ar.” (35) Tratava-se, então, de ultrapassar a diversidade do sensível para chegar a um conceito genérico, que seria tão simples como o nome “Nápoles”. E, como vimos, esse conceito não foi descoberto nas ruas elegantes da cidade, nem nos seus palácios e cassinos, mas em ruelas miseráveis, onde os seus habitantes tentavam sobreviver.

Foi por essas razões que afirmamos, no capítulo introdutório, que as cidades ganham diferentes compreensões consoante sejam contempladas por seus habitantes – sejam eles das “ruelas” ou da “Rua Roma” –, ou por um viajante, e a descrição da Nápoles de Sartre perturbaria e incomodaria, certamente, os napolitanos, que gostariam, segundo Sartre, que a sua cidade fosse conhecida pelo fausto e riqueza dos seus palácios e cassinos. Mas o viajante não controla o que vê e, sobretudo, como vê e, muitas vezes, a espera pelo exótico convencional dá lugar à descoberta do insólito e daquilo que não é, exatamente, muito agradável, e a narrativa de Sartre no-lo mostra.  

Para finalizar, faremos uma importante ressalva: nesse artigo aproximamos, de alguma maneira, o ensaio Nourritures da novela La nausée; contudo, é mister afirmar que essa aproximação – como muitas outras – tem os seus limites. E, nesse sentido, é necessário que se diga que se trata, de um lado, de um ensaio de pouco de mais de três páginas e, de outro, de uma novela com mais de duzentas páginas; ora, nesta última só os trechos em que Sartre descreveu o surgimento e o desenrolar de la nausée ocuparam bem mais do que as três páginas do ensaio. É igualmente por essa razão que nomeamos o sentimento de Sartre diante da chamada “orgia dos alimentos” de uma “nausée em estado larvar”, posto que se tratava, ainda, de uma primeira tentativa de estabelecer o conceito filosófico. Não estávamos, ainda, na tentativa de descobrir o absurdo da existência e do mundo, mas de descobrir se, de fato, “Nápoles existia” e, convém acrescentar que, certamente, o filósofo francês descobriu a sua existência, mas que essa descoberta foi não feita no pitoresco e no exótico, mas no “horror dos alimentos.”

notas

1
Esse texto foi, finalmente, recuperado e publicado em: CONTAT, Michel; RYBALKA, Michel. Les écrits de Sartre. Paris: Gallimard, 1970, p. 68.

2
O pesquisador francês Bruno Thibault assim se refere a essa novela: “Depaysement é uma novela escrita por Jean-Paul Sartre em 1937 e que se inspira de muito perto de uma temporada passada na Itália no verão precedente. (...) Sartre pensou um momento em inseri-la no Le mur, mas mudou de ideia e a abandonou no fundo da gaveta.” THIBAULT, Bruno. "Dépaysement": une nouvelle "manquée" de Jean-Paul Sartre. French Forum. Vol. 16, No. 1, Janeiro, 1991, pp. 81-90, p. 81. Tradução nossa do Francês para o Português. A fonte citada pelo autor é o “incontronável” Les écrits de Sartre, dos igualmente franceses Contat e Rybalka.

3
Trata-se de Lettres à Castor et à quelques d’autres e Les carnets de Drôle de Guerre. Para mais informações, ver bibliografia complementar.

4
A esse respeito ver: BELZGAOU, Virginie. Les récits de voyage. Paris: Gallimard, 2008.

5
A esse respeito, ver: CONTAT, Michel; RYBALKA, Michel. Op. Cit..

6
Há, contudo, a possibilidade de se fazer uma classificação por períodos temporais. A partir do final dos anos 1940, Sartre, por exemplo, torna-se marxista; e, por outro lado, o seu último projeto literário foi o ensaio ficção La reine Albermale ou le dernier touriste, redigido entre os anos de 1951 e 52 e posteriormente abandonado.

7
Eis alguns deles: o exotismo dos hábitos e dos lugares, o espanto com o encontro com a alteridade, o estereótipo do qual, muitas vezes, o turista não consegue escapar, e o topos que era o título da já citada novela, o dépaysement, que significa, literalmente, “estar fora do seu país ou região de origem”, e que poderia ser traduzido por desorientação.

8
Para mais informações, ver bibliografia complementar.

9
Convém acrescentar a ressalva que esse “texto derivativo” é bastante curto e, assim, o filósofo francês oferece poucos elementos aos seus analistas.

10
Retomamos a fórmula de William Faulkner, que afirmava ser o “único dono e proprietário” do condado ficcional de Yoknapatawpha, em um texto publicado abaixo de um mapa ficcional da região, desenhado pelo próprio autor para o romance Absalão, Absalão!. Para mais detalhes, ver bibliografia complementar.

11
REQUEMORA, Sylvie. L’espace dans la littéture de Voyage. Em: Études littéraires, volume 34, nº 1-2, 2002, p. 258. Tradução nossa do Francês para o Português.

12
SARTRE, Jean-Paul. Nourritures. Em: CONTAT, Michel; RYBALKA, Michel. Op. Cit., p. 553. Tradução nossa do Francês para o Português.

13
Idem Ibidem. Destaques nossos.

14
Idem. Ibidem.

15
SARTRE, Jean-Paul. Nourritures. Em: CONTAT, Michel; RYBALKA, Michel. Op. Cit., p. 554. Tradução nossa do Francês para o Português.

16
Idem. Ibidem.

17
Idem. Ibidem.

18
Simone de Beauvoir e Sartre já conheciam esse tipo de contanto com a precariedade de alguns países da Europa meridional, por ocasião da sua viagem a Grécia, país que, na época, era extremamente pobre em comparação com os demais países da Europa Ocidental: “De uma feita, quando passamos, crianças jogaram pedras: ‘Não gostam dos estrangeiros’, pensamos placidamente.” BEAUVOIR, Simone de. A força da idade. Trad.: Sérgio Millet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 302.

19
SARTRE, Jean-Paul. Nourritures. Em: CONTAT, Michel; RYBALKA, Michel. Op. Cit., p. 553. Tradução nossa do Francês para o Português

20
SARTRE, Jean-Paul. Nourritures. Em: CONTAT, Michel; RYBALKA, Michel. Op. Cit., p. 554. Tradução nossa do Francês para o Português

21
“Então parece que eu percebia o que os comerciantes da Via Roma escondiam atrás das suas ourivesarias alimentares: a verdade do alimento.” Idem. Ibidem. Tradução nossa do Francês para o Português. Destaque do autor.

22
Idem. Ibidem. Tradução nossa do Francês para o Português.

23
SARTRE, Jean-Paul. Nourritures. Em: CONTAT, Michel; RYBALKA, Michel. Op. Cit., p. 555. Tradução nossa do Francês para o Português.

24
Referimo-nos ao sentimento de mal-estar diante do absurdo do mundo e da existência, experimentado por Antoine Roquentin, personagem da novela de Sartre intitulada La nausée, que foi publicada, pela primeira vez, no ano de 1938.

25
SARTRE, Jean-Paul. Nourritures. Em: CONTAT, Michel; RYBALKA, Michel. Op. Cit., p. 554. Tradução nossa do Francês para o Português.

26
Idem. Ibidem. Tradução nossa do Francês para o Português.

27
SARTRE, Jean-Paul. La Nausée. Paris: Gallimard, 1938, p. 141. Tradução nossa do Francês para o Português.

28
SARTRE, Jean-Paul. Nourritures. Em: CONTAT, Michel; RYBALKA, Michel. Op. Cit., p. 556. Tradução nossa do Francês para o Português.

29
SARTRE, Jean-Paul. Op. Cit., 1938, p. 179. Tradução nossa do Francês para o Português.

30
CONTAT, Michel; RYBALKA, Michel. Op. Cit., 1970, p. 68. Tradução nossa do Francês para o Português. Destaques dos autores.

31
FELL, Joseph P.. Heidegger and Sartre: na essay on being and place. New York: Columbia University Press, 1979, p. 270. Tradução nossa do Inglês para o Francês.

32
SARTRE, Jean-Paul. Nourritures. Em: CONTAT, Michel; RYBALKA, Michel. Op. Cit., p. 556. Tradução nossa do Francês para o Português.

33
No ensaio ficção intitulado La reine Albermale ou le dernier touriste, a personagem, uma espécie de alter ego do autor, descreveu dessa maneira Nápoles: “Vai-se a essa cidade como os adolescente vão ao necrotério ou a uma dissecação. Com o horror de ser uma testemunha.” SARTRE, Jean-Paul. La reine Albermale ou le dernier touriste. Paris: Gallimard, 1991, P. 18. Tradução nossa do Francês para o Português.

34
SARTRE, Jean-Paul. Nourritures. Em: CONTAT, Michel; RYBALKA, Michel. Op. Cit., p. 553. Tradução nossa do Francês para o Português.

35
Idem. Ibidem.

bibliografia complementar

SARTRE, Jean-Paul. Villes d’Amérique New York ville colonial Venise de ma fenêtre. Paris: Éditions du Patrimoine, 2002.

SARTRE, Jean-Paul. As palavras. Trad.: J. Guinburg. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada. Trad.: Paulo Perdigão. Petrópolis: Vozes, 1997, p. 592.

SARTRE, Jean-Paul. Lettres à Castor et à quelques d’autres. Paris: Gallimard, 1983.

SARTRE, Jean-Paul. Diário de Uma guerra estranha. trad.: Aulyde Soares Rodrigues. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983.

sobre o autor

Adson Cristiano Bozzi Ramatis Lima, arquiteto e urbanista, Mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Espírito Santo, Doutor em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, autor do livro: Arquitessitura; três ensaios transitando entre a filosofia, a literatura e arquitetura. Professor Assistente da Universidade Estadual de Maringá, Departamento de Arquitetura e Urbanismo.

comments

145.06
abstracts
how to quote

languages

original: português

share

145

145.00

Os valores do patrimônio cultural

uma contribuição teórica para as políticas de conservação

Guilherme Maciel Araújo

145.01

E o negro na arquitetura brasileira?

Bruno César Euphrasio de Mello

145.02

Quando o mito da Intocável Virgem Branca se desfez

A arquitetura vernácula e a emergência de um outro Moderno em Portugal

Nelson Mota

145.03

Cidades novas planejadas no Brasil da primeira metade do século XX

traço de engenheiro, urbanismo acadêmico

Renato Leão Rego

145.04

Duas concepções de Natureza no ensino do desenho moderno no Brasil

a de John Ruskin e a da filosofia positivista

Cláudio Silveira Amaral

145.05

Análise da Norma de Desempenho ABNT NBR 15575:2008 com ênfase no Desempenho Lumínico, no contexto de Brasília

Suélio da Silva Araújo, Rudi Sato Simões and Rosa Maria Sposto

newspaper


© 2000–2019 Vitruvius
All rights reserved

The sources are always responsible for the accuracy of the information provided