Your browser is out-of-date.

In order to have a more interesting navigation, we suggest upgrading your browser, clicking in one of the following links.
All browsers are free and easy to install.

 
  • in vitruvius
    • in magazines
    • in journal
  • \/
  •  

research

magazines

architexts ISSN 1809-6298

abstracts

português
O artigo aborda a trajetória institucional que levou à criação da Escola de Música da UFRJ em conjunto com o seu percurso urbano, as transformações da paisagem carioca, e os espaços arquitetônicos ocupados pela instituição.

english
This article covers the institutional passage, which led to the creation of the University of Rio de Janeiro School of Music, together with its urban course, the Rio landscape transformations and the architectonic spaces occupied by the institution.


how to quote

LORDELLO, Eliane. A Escola de Música da UFRJ. Uma musa contemplando o Passeio Público. Arquitextos, São Paulo, ano 13, n. 153.02, Vitruvius, fev. 2013 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/13.153/4659>.

Quem sabe D. Luís de Vasconcelos não gostaria de ter inaugurado o seu Passeio Público do Rio de Janeiro ao som de Water Music, de Händel (1685-1759), com os barcos velejando na baía da Guanabara? (Hugo Segawa)

Escola de Música da UFRJ (Rua do Passeio, 98, Centro).
foto Eliane Lordello

Prelúdio paisagístico e musical

E quem sabe Dom Luís de Vasconcelos não gostaria de saber que defronte ao seu Passeio Público está hoje a Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro? Inevitável acrescentar essa, à bela especulação musical de Hugo Segawa.

Homem de inspiração iluminista, o vice-rei Dom Luís de Vasconcelos e Souza (1740- 1807) governou o Brasil de 1779 a 1790. Seu governo é marcado pelo incentivo às ciências naturais e por importantes intervenções urbanísticas na cidade do Rio de Janeiro, feita sede do vice-reinado em 1763. A alfândega, a remodelação do cais, a execução de aterros, a construção de belos chafarizes são algumas delas. Porém, entre todas, é o Passeio Público a sua mais destacada realização.

A propósito da escolha do sítio para essa obra, Segawa (1) cita a estratégia de tratamento e aproveitamento de áreas alagadas e charnecas. Este mesmo autor associa o esforço de aterrar a lagoa do Boqueirão da Ajuda ao intento de desenvolver a cidade na direção sul, comunicando-se com as bandas dos futuros bairros de Flamengo e Botafogo. Igualmente o associa ao desejo de implantar signos de urbanização, por meio do alinhamento de novas ruas, tais como a das Belas Noites (atual Rua das Marrecas), e a do Passeio.

O desenho original do Passeio Público foi traçado pelo artista Valentim da Fonseca e Silva (ca. 1745-1813), o Mestre Valentim. Tratava-se de desenho clássico, com caminhos e eixos retilíneos e traçado geométrico, o qual era também seguido pelo plantio da vegetação. Além disso, esse desenho incluía um belvedere para o mar. A obra foi executada entre 1779 e 1783. Diferindo dos espaços abertos do período colonial, destinados a simbolizar a autoridade portuguesa, como é o caso dos largos para pelourinhos, o Passeio Público nada vinha simbolizar institucionalmente. Tampouco se prestava a emoldurar monumentos; constituindo um ambiente vegetado com vista para o mar, formava um monumento a si mesmo, aberto ao lazer. Atualmente, o Passeio Público é circundado por logradouros que levam o nome de seus mentores originais: Avenida Luís de Vasconcelos e Rua Mestre Valentim.

Autores referenciais do paisagismo brasileiro reputam totalmente inovadora a concepção desse espaço público urbano. Segawa considera surpreendente a iniciativa do vice-rei do Brasil, em plena vigência do colonialismo português, de construir um jardim público à maneira dos recintos da Europa. No continente europeu, tais espaços consistiam em lócus para transformação dos modos de sociabilidade. “O Passeio Público do Rio de Janeiro espelha o surgimento, no século 18, de lugares especificamente desenhados para a apreciação da paisagem marítima”, acrescenta Segawa. Segundo esse autor, o Passeio do Rio de Janeiro certamente inspirou-se no de Lisboa, seu antecedente cronológico; mas antecedeu o congênere lisboeta em realização. No final do século 18, estava já formado, enquanto o de Lisboa era ainda “uma pálida materialização”. Sílvio Macedo (2) assume o ano de conclusão do passeio Público, 1783, como um “marco na concepção do paisagismo brasileiro nos moldes que entendemos hoje”. Com essa assertiva, o autor abre a introdução de seu livro Quadro do Paisagismo no Brasil. A justificar a importância desse jardim setecentista, Macedo o destaca como o primeiro espaço público concebido no Brasil para o lazer da população.

No século 19, o Passeio Público foi reformado por desenho de Auguste François Marie Glaziou. Com o traço deste arquiteto, o Passeio adquiriu feições ao gosto do estilo romântico, com caminhos curvos, um lago coleante, e  vegetação composta de modo cênico. O projeto de Glaziou manteve o belvedere para o mar. Essa reforma foi inaugurada com a reabertura do Passeio Público por Dom Pedro II, em 7 de Setembro de 1862, e muitos de seus traços e composições ainda persistem na atualidade (3).

Assumindo uma licença poética, este texto tenta mostrar que o nobre vice-rei teria muitos motivos para se alegrar com a presença da Escola de Música da UFRJ contemplando o seu Passeio Público. Para tanto, inicia por recuperar o percurso histórico que levou a Escola de Música à sua atual localização, refletindo-a em conjunto com as transformações na paisagem carioca. O texto prossegue por uma análise descritiva da atual sede da Escola, incluindo suas atividades e as relações por elas mantidas com o entorno urbano e paisagístico.

Da casa dos professores à Rua do Passeio

Para compreender a trajetória que conduz à atual sede da Escola de Música, é preciso remontar a meados do século XIX, quando o ensino de música no Brasil ainda era ministrado em cursos particulares, por alguns professores. Entre esses cursos, a história consagrou como mais eficaz e prestigioso aquele do padre José Maurício Nunes Garcia (1767-1830), sediado em sua própria residência. Mestre da Capela Imperial e mais importante compositor de seu tempo, o padre José Maurício Nunes Garcia teve, entre seus alunos, Francisco Manuel da Silva (1795-1865) (4).

Historicamente consagrado como autor do Hino Nacional Brasileiro (5), Francisco Manuel da Silva foi o fundador da Sociedade de Música. Segundo Batista Siqueira (6), essa sociedade foi estabelecida na corte após a dissolução da orquestra da Capela Imperial, no início da Regência, por medida de economia. Diante desse quadro, a Sociedade de Música destinava-se a  assistir e defender os interesses profissionais da classe dos músicos. Em 1841, quando reinava Pedro II (7), essa entidade classista solicitou ao Governo Imperial autorização para criar um Conservatório de Música. Naquele ano, documento assinado e divulgado por Francisco Manuel da Silva, afirmava ser aquele o “momento oportuno para a Sociedade de Música voltar-se para o sério problema da instrução musical”. Segundo registra Siqueira (8), naquele tempo, o ensino musical demonstrava entrada em declínio, com o desaparecimento de artistas categorizados. Entre tais artistas, resumindo sua enumeração aos que classifica como “os mais notáveis”, Siqueira cita os nomes de Marcos Portugal, Padre José Maurício Nunes Garcia e Cândido Inácio da Silva (9).

O pleito da Sociedade de Música foi antendido, no mesmo ano, pelo Decreto Imperial no238, que a autorizava a extrair duas loterias anuais para a criação e manutenção do Conservatório. A anuência imperial é lembrada na dedicatória publicada no Compêndio de Princípios Elementares de Música, de Francisco Manuel da Silva. Escrita na formalidade da época, a dedicatória enfatiza a importância da música para a educação e o bem-estar da sociedade, como demonstra o seu trecho inicial, abaixo transcrito.

“Senhor, Havendo V.M.I., pela resolução de 27 de novembro de 1841, se dignado anuir à criação de um Conservatório de Música na Capital do Império, fato que altamente testemunha a magnânima solicitude em que a promove o Progresso da Nação que a Providência confiou ao seu paternal Governo, venho, como órgão da Sociedade de Música do Rio de Janeiro, depor ante o trono de V.M.I. o tributo de homenagem de sua eterna e cordial gratidão. A música, senhor, dentre as belas-artes é, indubitavelmente, uma das que mais direta e naturalmente contribuem para a civilização dos povos. A melodia nasce de certo modo com o homem; é uma tendência inerente ao seu coração, adaptada a todas as condições da escala social, e que sobremaneira influi no bem-estar moral da humanidade. É por isso que os Governos das Nações mais cultas, reconhecendo a benéfica influência da música, têm promovido o desenvolvimento e cultura deste meio civilizador, e estabelecido Institutos e Conservatórios, tendentes a popularizar o seu estudo, uniformizando o seu ensino e facilitando-o a todas as classes da Sociedade.”  (10)

Sete anos depois daquela autorização, em 13 de agosto de 1848, o Conservatório foi inaugurado em uma reunião solene no Museu Imperial (antigo prédio do Arquivo Nacional, na atual Praça da República). Na solenidade inaugural, Francisco Manuel da Silva encerrrou seu discurso contextualizando a demora dessa realização brasileira com as vicissitudes vividas pela Itália e a França para realizar os seus conservatórios. Eis o que se lê, em suas entusiásticas palavras:

“Alcançada está pois, senhores, a meta dos nossos desejos e lançados os fundamentos do Conservatório de Música que hoje inauguramos: tardia foi talvez essa inaguração, porém quando nos lembramos de que o primeiro Conservatório europeu só pode ser criado em Nápoles em 1537 à custa de esmolas mendigadas, de País em País, e de porta em porta; e o da França só em 1791, à custa de consideráveis auxílios do Governo e por acurados esforços do ilustre Sarrette, não nos podemos deixar de encher de um nobre orgulho pelo acolhimento e favorável concurso que achamos nos poderes do Estado, nem podemos deixar de render graças à Providência por vivermos nessa época de progresso, em que nos basta aclimatar o que custou séculos de obstinadas tentativas etc.” (11) 

A solenidade foi prosseguida por um concerto de orquestra, que incluiu uma obra do  padre José Maurício Nunes Garcia. Tendo por primeiro diretor Francisco Manuel da Silva, o Conservatório foi inicialmente sediado em um salão daquele museu.

Em 1855 (12), o Conservatório sofre a sua primeira mudança, vindo a ser anexado à Academia Imperial das Belas Artes, situada à Travessa das Belas Artes (próximo à atual Praça Tiradentes). A  união do Conservatório de Música à Academia Imperial das Belas Artes é tida como uma das grandes vitórias de um amigo de Francisco Manuel da Silva, o poeta Araújo Porto Alegre (13), então diretor da Academia (14). Nessa instituição, o Conservatório permaneceu abrigado até 1872. Cumpre lembrar que a Academia das Belas Artes, edificação neoclássica projetada por Grandjean de Montigny, foi demolida em 1938. Dessa construção, restou apenas um pórtico, atualmente preservado no Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

Persistindo na meta de conquistar uma sede própria para o Conservatório, com ambiências adequadas ao ensino da música, Francisco Manuel da Silva obteve autorização para compra de um local, próximo da Academia Imperial das Belas Artes, à qual seguia vinculado o Conservatório. Assim, foram comprados dois terrenos à Rua da Lampadosa, um deles fazendo esquina com a Rua Imperatriz Leopoldina (atualmente Rua Luís de Camões, no52) (15). Tendo por autor João José Alves, membro da Academia Imperial das Belas Artes, o projeto original dessa sede previa um prédio de dois pavimentos com feições neoclássicas. Lançada sua pedra fundamental em 1863, a obra consumiu quase uma década de construção. Em 9 de janeiro de 1872, finalmente, foi inaugurada pela Princesa Isabel, em seu primeiro período de  Regência (1871-1872). Posteriormente modificado, esse prédio hoje sedia o Centro Cultural Hélio Oiticica, na Praça Tiradentes.

Cerca de um ano antes da inauguração da obra, o Conservatório se tornou independente da Academia Imperial das Belas Artes. Assim como a sede própria, essa independência vinha concretizar um antigo sonho de seus dirigentes, sobretudo de Francisco Manuel da Silva,  infelizmente falecido antes dessa realização. O sucessor de Francisco Manuel da Silva foi o Dr. Thomaz Gomes dos Santos (1803-1874). Na sua gestão (1866-1874), foi elaborado um novo estatuto que reorganizou o Conservatório e criou novas cadeiras, possibilitando novas contratações e ampliando o quadro de professores.

Proclamada a República (1889), o Conservatório veio a dar lugar ao Instituto Nacional de Música, por meio do Decreto no143, de janeiro de 1890. O compositor Leopoldo Miguez (1850-1902) foi o primeiro diretor do Instituto e criador de sua biblioteca. Miguez equipou o Instituto com instrumentos e livros comprados em viagem que fez à Europa para conhecer conservatórios e ideias que pudessem ser aplicáveis ao Instituto. O compositor também presenteou o Instituto com um órgão de tubos de grande porte, da marca Wilhelm Sauer, em 1892. Esse instrumento foi comprado com o prêmio que Miguez recebera pela conquista do primeiro lugar no concurso para selecionar o Hino à Proclamação da República. Atualmente, não se sabe o paradeiro deste que foi o primeiro órgão da Escola de Música (16).

Miguez foi sucedido na direção do Instituto pelo compositor Alberto Nepomuceno (1864-1920), que veio a dirigir a instituição por mais de uma década, em duas gestões (1902-1903 e 1906-1916) (17). Sua administração é marcada pelas seguintes ações, entre outras admitidas como avanços:  a reformulação curricular, visando atender o aumento do corpo discente; a realização de concursos públicos para professor; a criação da Congregação (conselho deliberativo composto pelo corpo docente e três membros honorários, indicados pelo próprio conselho); a organização da biblioteca (18) e seu acervo musical.

Foi sob a gestão de Nepomuceno, que, em 1913 (19), o Instituto passou a ocupar a sede da atual Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro, na Rua do Passeio, defronte ao histórico Passeio Público. Quando o então Instituto veio a se instalar aí, a grande reforma urbana promovida pelo prefeito Pereira Passos estava já concluída. Estando nas imediações da Avenida Central (atual Rio Branco), aberta na gestão daquele prefeito, e que expandia o centro no sentido do mar, o Instituto Nacional de Música passa a integrar o decisivo Centro do Rio de Janeiro. Como já ressaltou Helenita Gonsalez (20), o percurso da instituição musical carioca se fez sempre seguindo a ideia de centro de cidade, eviternamente buscando a centralidade. Resgatada a trajetória urbana conducente à atual localização, abre-se o atalho para descrever as transformações institucionais e arquitetônicas vividas pela instituição em seu endereço definitivo.

A musa, já na Rua do Passeio

Anteriormente ao Instituto Nacional de Música, o prédio existente na Rua do Passeio fora ocupado, de 1858 a 1910 (21), pela então chamada Biblioteca Real (hoje Fundação Biblioteca Nacional). Para sediar a Biblioteca Real, o prédio fora comprado do proprietário João da Rocha Vianna, em 1853, pelo Imperador Pedro II. Esse prédio, porém, não se mostrou apropriado às atividades didáticas do Instituto Nacional de Música, fazendo-se necessária a construção de outro edifício para receber os alunos. Para tanto, no terreno situado nos fundos do antigo prédio da Biblioteca Real, foi construído um anexo, na forma de um bloco destinado a salas de aula e biblioteca. Projetado pelo Engenheiro Armando de Carvalho (do Ministério da Justiça), esse bloco voltava sua fachada para uma ruela, com acesso também por meio da Rua Evaristo da Veiga no113.

O novo anexo foi inagurado em 1913 (22), pelo diretor Alberto Nepomuceno, acompanhado do Ministro da Justiça, Rivadavia Correia, do autor do projeto e de outras autoridades. Em termos estilísticos, o anexo apresentava já feições ecléticas, conjuminando elementos de diferentes interpretações, tanto na composição da fachada, quanto nas funções de espaços e uso de materiais. Vale lembrar que, àquela época, o Ecletismo estava em plena voga no Brasil. Favoreceram  sua implantação, durante a segunda metade do século XIX, a introdução de novas técnicas e materiais, a instalação de indústrias e ferrovias, e a imigração europeia laboral para o Brasil (23). Propiciando uma conciliação de estilos, o Ecletismo funcionou como via estética para a assimilação daquele conjunto de adventos materiais e técnicos. Dessa forma, associou-se ao início do processo de universalização nas condutas construtivas brasileiras (24).

Bloco de salas de aulas da Escola de Música da UFRJ.
foto Eliane Lordello

Ainda existente, o bloco de salas de aulas é composto por três pavimentos, em partido arquitetônico organizado por simetria a partir do pórtico central, sendo acessado, no térreo, por portada em arco pleno. Nesse eixo central, os andares superiores apresentam portas conjugadas aos pares, abrindo-se para um balcão comum a ambas, guarnecido por balaustrada. Ladeando o pórtico central, as alas simétricas possuem aberturas em janelas duplas de madeira e vidro, emolduradas aos pares por ornamentos em alto relevo. A composição dos pares de janelas varia por pavimento, com emprego de diferentes desenhos de esquadrias. Tais alas são arrematadas por platibandas simples, como recurso de ocultação do telhado.

Em suma, no conjunto de soluções técnicas e plásticas adotadas no bloco de salas de aula podem ser notados recursos e elementos recorrentes em exemplares do Ecletismo surgidos no período entre 1870 e 1920. Vale notar que nos anos 1970, em virtude de um projeto de reurbanização da Lapa, esse bloco correu perigo de demolição. Tal risco foi dirimido pela terminante intervenção, em 1971, do maestro João Baptista Siqueira (1906-1992), como diretor (1971-1975) da Escola de Música da UFRJ.

Como se notou à época da instalação do Instituto Nacional de Música, o prédio primitivo da Biblioteca Real não poderia comportar um salão de concertos, essencial aos requisitos acústicos do ensino da música. Diante disso, o diretor Alberto Nepomuceno solicitou ao Governo Federal a construção de uma sala de concertos.  Atendendo ao pedido do diretor, em 1918 foi elaborado um projeto de salão, pelo engenheiro Cipriano Lemos (do Ministério da Justiça), responsável também pela reforma da fachada do prédio. O salão de concertos recebeu o nome de Leopoldo Miguez. Foi inaugurado em 1922, quando administrava o Instituto Nacional de Música o compositor, teatrólogo e pianista Abdon Milanez (1858 1927) (25). A nova sede assim adaptada apresenta arquitetura ao gosto do Ecletismo vigente no Rio de Janeiro da época.

Em tempos posteriores, a instituição de ensino sediada no já reformado prédio principal, recebeu dois novos nomes, os quais serão doravante registrados aqui, conforme a data de sua homologação. Em 1937, quando a Universidade do Rio de Janeiro passou a ser chamada de Universidade do Brasil, o Instituto Nacional de Música recebeu o nome de Escola Nacional de Música. Em 1965, quando o Governo Militar, por força do Decreto nº 4.759, transformou a então Universidade do Brasil em Universidade Federal do Rio de Janeiro, a escola recebeu seu atual nome: Escola de Música da UFRJ (26). Eis o nome que será adotado doravante neste texto, que, no momento, se encaminha para a descrição do edifício principal.

A fachada do prédio principal da Escola de Música da UFRJ volta-se para a Rua do Passeio, com todas as suas aberturas descortinando o belo Passeio Público (Figura 3). O ritmo da fachada é ditado pela tripartição nos sentidos vertical e horizontal. Pautado por essa dupla tripartição, o plano vertical é dividido em centro e duas alas laterais, e o plano horizontal é compartimentado em térreo, nível intermediário e coroamento. No plano horizontal, a composição distingue cada uma das três divisões por um diferente tratamento plástico e formal na fachada, como será descrito a seguir, iniciando pelo nível térreo.

Fachada da Escola de Música (prédio principal), defronte ao Passeio Público.
foto Eliane Lordello

O nível térreo é marcado por três pórticos em arcos plenos, munidos de  portas de duas folhas, em ferro fundido, com ornamentos em volutas e motivos florais. Essas três esquadrias são encimadas por bandeiras que trazem ao centro um círculo, em cujo núcleo destacam-se as letras IM, iniciais de Instituto de Música. As paredes do térreo apresentam revestimento de argamassa ao modo de cantaria e ostentam quatro pares de mísulas moldadas na forma dos antigos rolos de leitura. São essas mísulas ornadas por frisos em alto relevo, portando, na base, adorno parietal em formato de folhas, e, no topo, capitéis retangulares ornados por adornos foliados (Figura 4).

Par de mísulas no nível térreo da fachada, e mureta da balaustrada com adorno em forma de lira.
foto Eliane Lordello

De forte efeito simbólico, esse par de mísulas é hoje usado como ícone de pano de fundo das páginas do site da Escola de Música da UFRJ. Se, como elemento arquitetônico, o par de mísulas já ressignificava os antigos rolos de leitura, é agora ressignificado no projeto gráfico do site da escola. Trata-se, assim, de uma aplicação metalinguística em louvor da arquitetura do edifício (Figura 5).

Tela da página inicial do site da Escola de Música da UFRJ.

Passando agora ao nível intermediário da fachada, este é o de maior altura entre os três níveis, comportando dois pavimentos. No nível intermediário, a fachada ostenta três colunas ao modo da Ordem Monumental. Tais colunas dão a impressão de estar apoiadas nas mísulas do nível térreo. O ritmo das colunas marca também o ritmo da partição da balaustrada do balcão do primeiro piso do nível intermediário. Na balaustrada, tal partição é feita por uma mureta, em cujo centro assoma um adorno em alto relevo, na forma de uma lira (Figura 4). As colunas assentam em base quadrada de alvenaria lisa. O corpo das colunas é formado por estilóbato, seguido de fuste decorado com caneluras no primeiro terço de sua altura, coroado por capitel ao modo da Ordem Compósita. Sobre o trio de colunas assenta-se o entablamento, formado pelos seguintes elementos: arquitrave decorada em linhas brancas; friso ilustrado nas duas extremidades por florões portando ao centro o nome Escola de Música da UFRJ; cornija decorada ao modo dos tríglifos e métopas da Ordem Dórica. 

Entre as colunas há três pórticos encimados por arcos plenos. Sobre os arcos surgem ornamentos em alto relevo, na forma de figuras humanas seminuas que portam instrumentos musicais, como liras e flautas. No interior dos pórticos, as aberturas se diferenciam conforme o piso. No nível do primeiro piso, são formadas por portas de desenho retangular, com esquadrias de duas folhas em madeira e vidro, encimadas por bandeira na forma de frontão triangular. No nível do segundo piso, as aberturas são formadas por portas baixas, encimadas por arco pleno. Tais portas são munidas de peitoril confinado, feito em gradil de ferro fundido, e guarnecidas por esquadrias de duas folhas em madeira e vidro (Figura 6).

Detalhe do nível intermediário da fachada.
foto Eliane Lordello

O terceiro e último nível da fachada, o coroamento, é marcado por janelas em esquadrias de madeira, separadas por trechos de alvenaria lisa, decorada com ornamentos florais e foliados, em alto relevo. O coroamento é encimado por uma platibanda de ocultação do telhado, decorada por frisos e ornamentos na forma de mascarões (Figura 7).

Detalhe do coroamento da fachada.
foto Eliane Lordello

Originalmente situado em lote de meio de quadra, portanto, flanqueado por vizinhos, o prédio principal tinha face lateral cega. Em virtude de transformações urbanísticas executadas no Largo da Lapa e Passeio na modernidade, o prédio teve sua situação na quadra totalmente mudada:  passou a ser um edifício de esquina, faceando a nova rua aberta em sua lateral, para a qual passou a oferecer sua parede cega. Visando diminuir o impacto das grandes dimensões dessa parede lateral, nela foi pintado, em 1982, um painel em técnica de trompe l'oeil. Intitulado Paisagem Urbana, esse painel é um trabalho do artista plástico Ivan Freitas (Figura 8).

Painel Paisagem Urbana (Ivan Freitas, 1982)
foto Eliane Lordello

Situada na Rua do Passeio, a entrada do prédio principal é hoje acesso único a todas as dependências da Escola de Música da UFRJ. Essa entrada descortina todo o térreo, dominado por um amplo vestíbulo, o chamado Hall da Escola de Música, que consiste em um dos espaços culturais da instituição. No Hall, uma escadaria de mármore conduz à circulação, situada em patamar levemente mais alto. Nessa circulação, desenvolvem-se, de forma sinuosa, duas belas escadas de mármore branco, munidas de guarda-corpos de ferro trabalhado. Na atualidade, durante a Semana de Aniversário da Escola de Música, o Hall abriga uma semana de concertos públicos. Realizada por volta do meio-dia, essa série de concertos conta com a participação dos alunos e  atrai a população que circula na Rua do Passeio e imediações, no horário de almoço (Figura 9).

Concerto da Orquestra Juvenil da Escola de Música da UFRJ. Hall da Escola de Música.
foto Renan Salotto [Escola de Música da UFRJ]

Subindo a sinuosa escada, chega-se a outro Espaço Cultural da Escola de Música, o chamado Foyer do Salão Leopoldo Miguez, que, com essa sala de concertos, forma todo o primeiro pavimento. Decorado por composição de piso em tacos de madeira e paredes adornadas por frisos, o Foyer ostenta telas do pintor fluminense, várias vezes premiado, Antônio Parreiras (1860-1937). Desse destacado paisagista, também dedicado à pintura histórica, as telas presentes no Foyer são do ano de 1922. Todas de temas musicais, as quatro pinturas têm nomes vinculados à mitologia e à música – Osiris, Orpheo, Eolo e As Sete Notas (Figura 10).

As Sete Notas (Antônio Parreiras, 1922). Foyer do Salão Leopoldo Miguez.
foto Eliane Lordello

Culminando sua atratividade, o Foyer abre-se para o balcão que descortina o Passeio Público. Tudo isso faz desse um espaço privilegiado de convivência, além de consistir em um lugar adicional para apresentações, lançamentos de discos, livros, entre os vários eventos da Escola de Música (Figura 11).

Foyer do Salão Leopoldo Miguez. Apresentação durante o XXVI Panorama da Música Brasileira Atual.
foto Ana Liao [Escola de Música da UFRJ]

Como já prenuncia o Foyer, o Salão Leopoldo Miguez é uma bela sala de concertos. Seu projeto foi feito por Cipriano Lemos sob inspiração da Sala Gaveau, de Paris (27). Desenhada a partir de arco continuado por longas extremidades retilíneas, sua plateia inteira foca diretamente o palco, sendo ladeada por duas frisas. Além desse nível, a sala conta ainda com dois andares de balcões, acessíveis por mezaninos. Em seu acabamento, primam o uso da madeira e os revestimentos de parede e guarda-corpo em tons cálidos. Assim é formado seu conjunto plástico que, aliado ao desenho, faz dessa uma sala extremamente acolhedora. Ademais, sua acústica é considerada uma das melhores do país (28), consagrando o Salão Leopoldo Miguez como um prestigiado ambiente de gravações sonoras.

Na decoração dessa sala, podem ser apreciados o belo lustre de cristal (ao modo de um antigo candelabro de velas), os ornamentos de contorno do teto e os adornos de parede e guarda-corpo, bastante significativos do Ecletismo. Entre tais adornos, destacam-se os florões em alto relevo, os mascarões das antigas peças teatrais, e os painéis ilustrados por liras. Para coroar a decoração, há um afresco na abóbada do palco, pintado pelo artista italiano Carlos Oswald (1882-1971). Pintor, gravador, vitralista, desenhista, decorador, professor e escritor, Carlos Oswald foi o autor, em 1930, do desenho final do Monumento ao Cristo Redentor (29).

Embora o quão representativa do Ecletismo seja sua arquitetura de interior, o maior atrativo do Salão Leopoldo Miguez são os instrumentos musicais, é forçoso reconhecer. Para o músico ou para o leigo, é deslumbrante a visão das harpas (Figura 12), dos pianos Steinway de cauda inteira, e do grande órgão Tamburini que domina o fundo do palco (Figura 13).

Harpas, painel ilustrado por liras e mascarão de parede. Salão Leopoldo Miguez.
foto Eliane Lordello

A encomenda e compra do órgão Tamburini foram feitas pela maestrina Joanídia Sodré (1903-1975), que dirigiu a Escola de Música por mais de vinte anos (1946-1967). Como sói ser os órgãos de grandes dimensões, esse instrumento foi pro­je­tado es­pe­ci­fi­ca­mente para o Salão Le­o­poldo Mi­guez. Foi construído pela Fabbrica D’Organi Comm. Giovani Tamburini, fundada em 1893 pelo organeiro italiano Giovani Tamburini (1857-1942) e ainda em plena atividade, na cidade de Crema, Itália (30). A disposição dos registros do instrumento foi projetada pelo organista italiano Fernando Germani (1906-1998). Trata-se de um órgão com 4.620 tubos, quatro manuais, pedaleira e 52 registros reais (Figura 13).

Órgão Tamburini. Salão Leopoldo Miguez. Concerto da Orquestra Sinfônica da UFRJ (OSUFRJ). Abertura do XXVI Panorama da Música Brasileira Atual.
foto Ana Liao [Escola de Música da UFRJ]

A inauguração do instrumento na Sala Leopoldo Miguez se deu em 13 de agosto de 1954 (31). Desde então, o órgão Tamburini vem contribuindo para a formação de diversos organistas brasileiros e ensejando a apresentação de organistas internacionais. Entre estes últimos, destacam-se o cravista, organista e maestro alemão Karl Ri­chter (1926 -1981); e o francês Pi­erre Co­cher­reau (1924-1984), que foi organista titular da Catedral de Nôtre-Dame, em Paris, desde janeiro de 1955 até a sua morte, em 1984 (32). Em tempos recentes, o instrumento foi restaurado pela em­presa Fa­mília Ar­tesã Ri­gatto e Fi­lhos, sendo os trabalhos acom­pa­nhados por uma co­missão de do­centes da Escola de Música da UFRJ. Após dois anos de trabalho de restauração, o instrumento foi reinaugurado em abril deste 2012. Nessa oportunidade, foi objeto de um grande festival na Escola de Música, celebrando a sua reinaguração. 

O Salão Leopoldo Miguez sedia diversos eventos da ampla programação anual da Escola de Música da UFRJ, que pode ser acessada no site da própria Escola, e nas publicações especializadas, tais como a Revista VivaMúsica (33). Em 2012, tive a chance de assistir, no Salão Leopoldo Miguez, aos concertos do XXVI Panorama da Música Brasileira Atual. Consistindo em um dos eventos anuais da Escola de Música, o Panorama da Música Brasileira Atual tem um vasto programa, que inclui a Chamada de Obras, e concertos, apresentações temáticas, palestras, masterclasses. No Panorama, reúnem-se compositores do Brasil, que nesse evento têm as suas obras interpretadas por músicos da própria Escola de Música da UFRJ e convidados. (Figuras 14 e 15).

Abstrai Ensemble, no Concerto Abstrai. XXVI Panorama da Música Brasileira Atual. Salão Leopoldo Miguez.
foto Eliane Lordello

Fábio Adour interpretando a composição Litania. XXVI Panorama da Música Brasileira Atual. Salão Leopoldo Miguez.
foto Eliane Lordello

Continuando a subir a bela escadaria de mármore, tem-se acesso à Sala da Congregação, mais um compartimento destacado como Espaço Cultural da Escola de Música da UFRJ. Com acabamento em piso de frisos de madeira e paredes pintadas, a Sala da Congregação tem boa acústica, e seu interior é simples e austero. Seu palco é marcado por uma tela retratando a harpista Acácia Brasil de Melo (1921-2008). Acácia Brasil de Melo iniciou seu aprendizado de harpa com a harpista espanhola Lea Bach e formou-se, em 1939, na Escola de Música da UFRJ, então chamada Escola Nacional de Música (34). A tela que a retrata é uma obra do pintor carioca  Augusto Bracet (1881 - 1960).

Além de servir às reuniões do colegiado superior a que deve o seu nome, a Sala da Congregação é palco de vários eventos. Entre eles, podem ser citados recitais de música de câmara e ensaios, além das aulas, defesas de trabalhos acadêmicos, palestras e variados atos solenes. Em 2011, tive a chance de assistir a um dos eventos que ocupam a Sala da Congregação – o Fórum de Compositores (35), encontro de âmbito nacional.  As apresentações das quais fui plateia naquela oportunidade são ilustradas neste texto (Figuras 16, 17, 18, 19).

Debate com os compositores Magno Caliman (RJ), Rodrigo Marconi (RJ) e Maurício De Bonis (MG). Fórum de Compositores 2011. Sala da Congregação.
foto Eliane Lordello

Nariá Assis (RJ) e Paulo Dantas (RJ) executando Estudo de Ressoâncias para Piano, composição de Magno Caliman (RJ). Fórum de Compositores 2011. Sala da Congregação.
foto Eliane Lordello

Maurício De Bonis (MG) e a soprano Caroline De Comi (MG) interpretando Seis Canções a Teus Pés, composição de Maurício De Bonis. Fórum de Compositores 2011. Sala da Congregação.
foto Eliane Lordello

Eduardo Túlio (MG) interpretando ao vibrafone a composição Impropérios, de Rodrigo Marconi (RJ). Fórum de Compositores 2011. Sala da Congregação.
foto Eliane Lordello

O prédio ainda conta com mais um espaço de apresentações, a Sala Henrique Oswald. Destacada como Espaço Cultural da Escola de Música da UFRJ, a  Sala Henrique Oswald foi nomeada em homenagem ao diretor que, entre 1903 e 1906, administrou o então chamado Instituto Nacional de Música. Atualmente, a Sala Henrique Oswald abriga o segundo órgão Sauer da Escola. Assim como o primeiro órgão Sauer, o segundo também foi adquirido por Leopoldo Miguez, desta feita em 1896, na mesma organaria alemã. Ademais de se prestar a propósitos didáticos, esse instrumento é hoje objeto de uma série anual de concertos. Além do órgão Sauer, a Sala Henrique Oswald conta com dois pianos Steinway.

Dona de rica trajetória histórica, com sua arquitetura e interiores representativos do Ecletismo, a Escola de Música da UFRJ teve seu edifício tombado em nível municipal, como Patrimônio Cultural da Cidade do Rio de Janeiro, pela Lei 4.584, de 18 de setembro de 2007 (36). Tendo em vista os eventos acima descritos, fica claro que o prédio tombado está em pleno funcionamento, exercendo atratividade por sua arquitetura e pelas atividades que abriga, o que concorre para sua conservação patrimonial.

Ademais, o entorno da Escola de Música da UFRJ, formado pelo histórico Passeio Público, o Cinema Odeon (divisa com a Rua do Passeio), a Sala de Concertos Cecília Meireles e os Arcos da Lapa é em si mesmo um atrativo da capital carioca. Considerando, portanto, a Escola de Música e seu entorno, é defensável que essa instituição musical conste nos guias brasileiros e internacionais, como um atrativo turístico da cidade do Rio de Janeiro. Infelizmente, essa inclusão ainda não aconteceu, como atestam guias nacionais e internacionais. Por tudo o que foi antes exposto, a análise que aqui se finda defende a pertinência dessa inclusão, a exemplo da que já ocorre nos guias, anuários (37), e demais publicações culturais de artes e música.

Lugar de convívio com a música clássica, espaço de sociabilidade

Além de ampla programação, a Escola de Música da UFRJ conta com muitas e produtivas formações fixas. Atualmente, são doze conjuntos estáveis, incluindo orquestras, coros e corais de diferentes faixas etárias. Ademais, a Escola de Música possui uma diversificada gama de publicações impressas e fonográficas. Além dos espaços culturais já descritos neste texto, a escola conta com ótimas bibliotecas física e virtual. Tudo isso  pode ser previamente conhecido no excelente site da Escola de Música, recurso muito convidativo para antecipar uma visita física ao seu prédio.

O conjunto de eventos e recursos físicos e virtuais da Escola de Música da UFRJ concorrem para aproximar ainda mais a instituição do público. Vale ressaltar que uma escola, por si mesma, é um espaço cativante, pela presença sempre rejuvenescedora de estudantes. Instituições similares podem ser citadas para confirmar esse potencial do público estudantil.

No contexto latino-americano, uma dessas instituições é o Centro de Extensión Artística y Cultural – CEAC, da  Universidad de Chile. O CEAC é responsável pela administração da Orquestra Sinfônica do Chile, do Coro Sinfônico e do Ballet Nacional Chileno, entre outras unidades de música e dança. Assim como a Escola de Música da UFRJ, a entidade cultural santiaguina mantém intensa programação e um ótimo site a informar sobre seus recursos, concertos e eventos. Em janeiro deste 2012, tive a chance de assistir a um deles, no Festival de Verão (38) da Orquestra Sinfônica do Chile (39), no Teatro Universidad de Chile. Com acesso pelo térreo de um prédio integrante de conjunto residencial Art Déco, o teatro tem defronte a si um largo, contíguo às saídas da Estação Baquedano do Metrô. Desde o meu desembarque ali, sob o (ainda) luminoso sol das 19:00 horas, já foi possível sentir o clima estudantil  que movimenta o lugar (Figura 20).

Largo defronte ao Teatro Universidad de Chile. Estação Baquedano. Providencia. Santiago.
foto Eliane Lordello

Animado e informal, provavelmente advindo direto dos belos jardins públicos do entorno histórico e paisagístico, tais como os dos Parques Florestal e Bustamante, esse público de bermudas e camisetas lotou a plateia. Seu comportamento como audiência foi exemplar – em respeitoso silêncio durante o concerto, e clamorosa ovação ao final. No programa,  A Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky, sob a regência de  Francisco Rettig; e o Concerto para Violoncello e Orquestra en Si menor, Op. 104 de Antonin Dvorak (40), com o solista chinês Xian Zhuo (vencedor do Concurso Internacional  de Execução Musical Dr. Luís Sigall, de Viña del Mar). A evocação desse exemplo latino-americano, que assim como a Escola de Música da UFRJ está implantado em entorno histórico e paisagístico, vem confirmar a pertinência da inclusão dessas instituições em guias turísticos.

Além disso, a experiência da entidade cultural santiaguina se irmana com a da Escola de Música da UFRJ por promover algo que maestros, músicos e teóricos da atualidade postulam: a aproximação entre a orquestra sinfônica e a comunidade. Uma das defensoras dessa ideia é a regente americana Marin Alsop, da Sinfônica de Baltimore, hoje também Regente Titular da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP). A propósito disso, em recente entrevista à Veja (41), Alsop foi categórica: “O público de hoje não se contenta em assistir aos concertos. Ele quer fazer parte do dia a dia da orquestra”. Em contrapartida, conclui a regente americana: “A orquestra, por sua vez, não pode se contentar em apenas tocar música. Ela deve ser uma presença inspiradora na comunidade em que atua.”

Promovendo a aproximação com a orquestra, os coros e as suas várias formações fixas, propiciando o convívio com a música clássica, a Escola de Música da UFRJ constitui um espaço privilegiado de sociabilidade. E não era a sociabilidade a meta originária do Passeio Público, na ideação iluminista de Dom Luís de Vasconcelos? Eis o momento de responder a pergunta que iniciou este texto: Sim, Dom Luís de Vasconcelos certamente se orgulharia de saber, que defronte ao seu Passeio Público, está hoje a Escola de Música da UFRJ!

notas

NA
Para Célida Peregrino Samico, amiga da música e da dança. Minha grande amiga.
Nas fases de pesquisa e elaboração deste texto, contei com o apoio de meus pais, João e Marisa, e com a solidariedade de meus amigos Rosa Trevas, Victor Vago e Virgínia Sodré. A todos eles, agradeço de coração. Agradeço também à tradutora Terezinha Saleme, colaboradora de longa data de meus estudos, e aos fotógrafos da Escola de Música da UFRJ, Ana Liao e Renan Salotto, que gentilmente cederam imagens para este artigo. Muito obrigada! 

1
SEGAWA, Hugo.  Ao amor do público: jardins no Brasil. São Paulo: Studio Nobel: FAPESP, 1996.

2
MACEDO, Sílvio Soares. Quadro do paisagismo no Brasil. São Paulo: Quapá, 1999.

3
Cf. SEGAWA, op.cit, nota 2; Cf. ROBBA, Fabio; MACEDO, Sílvio Soares. Praças brasileiras = Public Squares In Brazil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2002. 

4
ESCOLA DE MÚSICA DA UFRJ. Histórico. Disponível em: <http://www.musica.ufrj.br/index.php?option=com_content&view=article&id=45&Itemid=64>. Acesso em: 23 mai. 2012. 

5
Obras de referência informam que o Hino Nacional Brasileiro foi composto por Francisco Manuel da Silva provavelmente em 1831, mas só veio a ser oficializado com a República. Sua letra, escrita por Osório Duque Estrada, tornou-se oficial em 1922. Cf. HOUAISS, Antônio. Pequeno dicionário enciclopédico Koogan Larousse. Rio de Janeiro: Larousse do Brasil, 1982.

6
SIQUEIRA, Batista. Do conservatório à escola de música. Rio de Janeiro: UFRJ, 1972.

7
O Imperador Pedro II (1825-1891) subiu ao trono em 1831, teve a sua maioridade declarada em 1840 e governou o Brasil até  a  Proclamação da República, em 1889.

8
SIQUEIRA, op.cit., nota 7.

9
Idem.

10
In: SIQUEIRA, op.cit., nota 7, p.13-14. 

11
Idem, ibidem, p. 30.

12
A página do Histórico, no site da Escola de Música, registra o ano de 1855, enquanto DE PAOLA, Andrely Quintela; GONSALEZ, Helenita Bueno informam 1854 como ano da anexação do Conservatório de Música à Academia Imperial das Belas Artes. Cf. DE PAOLA, Andrely Quintela; GONSALEZ, Helenita Bueno Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro: História & Arquitetura. Rio de Janeiro: UFRJ: SR5, 1998.

13
Manuel José de Araújo Porto Alegre, Barão de Santo Ângelo (1806-1879). Gaúcho de nascimento, estudou pintura com Debret no Rio de Janeiro e completou a sua educação artística na Europa, onde foi influenciado pela literatura romântica. Em Paris, integrou o grupo fundador da Revista Niterói. De volta ao Brasil, criou, com outros, o Conservatório Dramático, a Academia de Ópera Imperial e participou ativamente do movimento romântico. Entre suas obras literárias, constam Brasilianas (1836) e Colombo (1866). (Conforme HOUAISS, Pequeno dicionário enciclopédico Koogan Larousse. Rio de Janeiro: Larousse do Brasil, 1982, p.952.)

14
Cf. DE PAOLA, Andrely Quintela; GONSALEZ, Helenita Bueno, op. cit., nota 13.

15
A página do Histórico, no site da Escola de Música, registra o número 52, enquanto DE PAOLA, Andrely Quintela; GONSALEZ, Helenita Bueno informam o número 68, da mesma Rua Luís de Camões. Cf. DE PAOLA, Andrely Quintela; GONSALEZ, Helenita Bueno, op.cit., nota 13.

16
ESCOLA DE MÚSICA DA UFRJ. Órgão Sauer. Disponível em: <http://www.musica.ufrj.br/index.php?option=com_content&view=article&id=76:orgao-sauer-&catid=43&Itemid=98>. Acesso em: 20. Jun. 2012.

17
ESCOLA DE MÚSICA DA UFRJ. Galeria de ex-diretores. Disponível em: <http://www.musica.ufrj.br/index.php?option=com_content&view=article&id=132&Itemid=152>. Acesso em: 23 jun. 2012.

18
Em sua homenagem, em 1957, a então chamada Escola Nacional de Música deu à biblioteca o nome de  Alberto Nepomuceno. Funcionando na sede da atual Escola de Música da UFRJ, a Biblioteca Alberto Nepomuceno (BAN) mantém também uma Biblioteca Digital, acessível no seguinte link:  <http://www.docpro.com.br/escolademusica/bibliotecadigital.html>.

19
DE PAOLA, Andrely Quintela; GONSALEZ, Helenita Bueno, op. cit., nota 13, registram o ano de 1910 como o da mudança para atual sede, na Rua do Passeio.

20
DE PAOLA, Andrely Quintela; GONSALEZ, Helenita Bueno, op. cit., nota 13.

21
LODI, Cristina (Org.). Guia do patrimônio cultural carioca: bens tombados 2008. Rio de Janeiro: Secretaria Extraordinária do Patrimônio Cultural, 2008.

22
DE PAOLA, Andrely Quintela; GONSALEZ, Helenita Bueno, op. cit., nota 13.

23
Em especial, da imigração laboral de europeus, aportados no Brasil para formar mão-de-obra cafeeira (mas de influência transmitida ao urbano), após a supressão do tráfico de escravos, em 1850.

24
Cf. REIS FILHO, Nestor Goulart. Quadro da arquitetura no Brasil. São Paulo: Perspectiva, 2004; Cf. LEMOS, Carlos A. C. Uma nova proposta de abordagem da história da arquitetura brasileira. Arquitextos, São Paulo, 12.141, Vitruvius, fev 2012 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/12.141/4214>. Acesso em: 2 jun. 2012.

25
Engenheiro Civil formado em 1880,  Abdon Milanez iniciou-se tardiamente nos estudos de piano e começou sua carreira artística como compositor teatral. A opereta Donzela Teodora, com libreto de Arthur Azevedo, que estreou em março de 1886, no Teatro Sant'Ana, foi a sua primeira obra. Cf. DICIONÁRIO CRAVO ALBIN DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA. Disponível em: <http://www.dicionariompb.com.br/abdon-milanez>. Acesso em: 1 jul. 2012.

26
ESCOLA DE MÚSICA DA UFRJ, Histórico, op.cit., nota 3.

27
Projetada em 1905 pelo arquiteto Jacques Hermant. Cf. SALLE GAVEAU. La salle. Disponível em: <http://www.sallegaveau.com/la-salle/historique#>. Acesso em: 7 jun. 2012.

28
ESCOLA DE MÚSICA DA UFRJ. Salão Leopoldo Miguez. Disponível em: <http://www.musica.ufrj.br/index.php?option=com_content&view=article&id=73&Itemid=143>. Acesso em: 26 mai. 2012.

29
O monumento foi executado na França por Paul Landowski (1875-1961) e instalado, em 1931, no Morro do Corcovado. Cf. ENCICLOPÉDIA de Artes Visuais Itaú Cultural. São Paulo: Itaú Cultural, 2008. Disponível em: <http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=artistas_biografia&cd_verbete=1357&lst_palavras=&cd_idioma=28555&cd_item=1>. Acesso em: 8 jun. 2012.

30
Cf. FABBRICA D’ORGANI Comm. Giovani Tamburini. Crema: Comm. Giovani Tamburini, 2012. Disponível em: <http://www.tamburini.org/>. Acesso em: 8 jun. 2012.

31
Cf. PRÓ-REITORIA DE EXTENSÃO DA UFRJ. Concertos reinauguram Órgão Tamburini. Disponível em: <http://www.pr5.ufrj.br/index.php?option=com_content&view=article&id=613:concertos-de-reinauguracao&catid=50:noticias&Itemid=100>. Acesso em: 8 jun. 2012.

32
Cf. PCND'S PIPE ORGAN WEBSITE. Pierre Cochereau. Disponível em: <http://www.organanoraks.com/pcndpc01.html>. Acesso em: 12 jun. 2012.

33
Cf. ESCOLA DE MÚSICA DA UFRJ. Eventos da Escola de Música. Disponível em: <http://www.musica.ufrj.br/index.php?option=com_eventlist&view=eventlist&Itemid=178>. Acesso em: 13 jun. 2012; VIVAMÚSICA. Agenda VivaMúsica. Disponível em: <http://www.vivamusica.com.br/>. Acesso em: 13 jun. 2012.

34
SCHUMACHER, Schuma; VITAL BRAZIL, Érico (Orgs.) Dicionário de Mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000, p. 17-18.

35
Cf. ENCUN 2012. Disponível em: <http://encun2012.wordpress.com/>. Acesso em: 12 jun. 2012.

36
LODI, op. cit., nota 22.

37
Cf. VIVAMÚSICA. Anuário VivaMúsica. Disponível em: <http://www.vivamusica.com.br/anuario>. Acesso em: 24 jun. 2012.

38
Cf. CEAC. Espectáculos de enero y febrero 2012. Disponível em: <http://ceac.uchile.cl/2011/12/22/espectaculos-de-enero-y-febrero-2012>. Acesso em: 25 jun. 2012.

39
Cf. CEAC. Orquesta sinfónica de Chile. Disponível em: <http://ceac.uchile.cl/orquesta-sinfonica-de-chile>. Acesso em: 25 jun. 2012.

40
Também citado, em obras de referência, como Antón Dvorak. Compositor tcheco (1841-1904), foi diretor dos Conservatórios de Nova York e de Praga. Algumas obras grafam seu nome como Antonin Dvorák e Antonín Dvorák. Cf. HOUAISS, op. cit., nota 6.

41
ALSOP, Marin. A orquestra é um casamento. Veja, São Paulo, ano 45, n.11,  p. 17-21, 14 mar. 2012. Entrevista concedida a Sérgio Martins pela Regente Titular da OSESP.

sobre a autora

Eliane Lordello é Arquiteta e Urbanista (UFES, 1991), Mestre em Arquitetura (UFRJ, 2003) na área de Teoria e Projeto, Doutora em Desenvolvimento Urbano (UFPE, 2008), na área de Conservação Urbana (2008). Como pesquisadora, atua, sobretudo, nos seguintes temas: Edificações históricas, museus e instituições de memória;  sítios e centros históricos; cidades históricas; turismo. É fortemente interessada em literatura, cinema, fotografia, música clássica, e seu currículo inclui publicações também nestes campos.

comments

153.02
abstracts
how to quote

languages

original: português

share

153

153.00

Modernidade antes dos modernistas

O interesse dos periódicos pelo espaço arquitetônico no Brasil

Rafael Alves Pinto Junior

153.01

Gestão condominial da habitação social

Débora Sanches and Ricardo Moretti

153.03

A arquitetura moderna latino-americana nas publicações do MoMA: uma modernidade inventada?

Sulamita Fonseca Lino

newspaper


© 2000–2019 Vitruvius
All rights reserved

The sources are always responsible for the accuracy of the information provided