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architexts ISSN 1809-6298

abstracts

português
O tema da erudição é antigo, ainda que ficou adormecido durante anos. Mas o erudito como ator ativo do mundo cultural nunca desapareceu, e teve um momento de recuperação quando pensadores como Tafuri decidiram romper com a historiografia tradicional.

english
Erudition is an old topic theme; but it was asleep for years. However, the erudit as an active actor in the cultural world has never disappeared, and had a moment of recovery when thinkers like Tafuri decided to break with the traditional historiography.

español
El tema de la erudicción es antiguo, aunque quedo adormecido durante años. Pero el erudito, como actor activo del mundo cultural, nunca desapareció. Tuvo un momento de recuperación cuando pensadores decidieron romper con la historiografia tradicional.


how to quote

VÁZQUEZ RAMOS, Fernando Guillermo. Sobre a erudição (parte 3/4). As histórias da arquitetura moderna, dos anos 1960-1970. Arquitextos, São Paulo, ano 16, n. 184.07, Vitruvius, set. 2015 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/16.184/5746>.

Composição VIII, de Wassily Kandinsky, professor da Bauhaus, sintetizando o pensamento avant-garde que guiou os princípios da escola

Leonardo Benevolo, uma nova narrativa

Essa história épica, cheia de pathos, amores e ódios, só se encerrará com Leonardo Benevolo, que assume definitivamente a inexistência da verdade única (dos “princípios” como formas reitoras da conduta e da produção) e parte para uma história que se fundamenta na narrativa como evidência possível, e não como verdade inquestionável.

Benevolo (1) prepara sua Storia dell’Architettura Moderna entre 1957 e 1959, e a pública em 1960. Não pretende assentar os preceitos de uma forma de interpretação crítica que permita fazer história, como tinha feito Zevi com sua Storia dez anos antes, mas contar uma história, mais ou menos nos seguintes termos (do texto preliminar da 1a edição de sua Storia):

“Em nossa opinião, existe uma linha fundamental de pensamento e de ação que começa com [Robert] Owen e os utopistas da primeira metade do século 19, passa por [John] Ruskin e [William] Morris, pelas experiências de vanguarda europeia entre os anos de 1890 e 1914, recebe a contribuição dos construtores americanos e de [Frank Lloyd] Wright, adquire importância geral no primeiro pós-guerra graças a [Walter] Gropius e Le Corbusier, e produz um movimento unitário, capaz de crescer muito além das premissas iniciais”.

É uma história que, usando alguns personagens importantes como pivôs, se desenrola de forma contínua desde 1825, data da fundação de New Harmony, até a Segunda Guerra Mundial. Benevolo (2) (1976, p. 14, grifo nosso) afirma ainda que: “Pessoa alguma é capaz de medir o peso exato da passagem ocorrida em 1919 no seio da historia universal, mas pode-se demonstrar que é a passagem fundamental para a situação hodierna”, afirmação que definitivamente chama a atenção.

Leonardo Benevolo: Storia dellárchitettura moderna. Bari: Laterza, 1960. (Volume 2. Le avanguardie. 3ª edição, 1998)

Erudição e traição

Em 1919, o único fato importante é a fundação da Bauhaus por Gropius. Benevolo (3) afirma que é uma “experiência inovadora” (4), cuja “ideia fundamental é utilizar o artesanato não mais como objetivo ou como ideal romântico, mas como meio didático para a preparação dos projetistas modernos” (5). O capítulo onde estão essas frases é o 13, “A formação do movimento moderno (1918-1927)”. O autor inclui a tradução do primeiro e do terceiro parágrafo do texto introdutório de Walter Gropius, sem contudo indicar que se trata de um excerto.(6) Sem muita precisão, Benevolo (7) traduz o terceiro parágrafo assim:

“Todos nós arquitetos, escultores, pintores, devemos voltar-nos para nosso oficio. A arte não é uma profissão, não existe nenhuma diferença essencial entre o artista e o artesão...

Formamos uma única comunidade de artífices sem a distinção de classe que levanta uma arrogante barreira entre o artesão e o artista. Juntos concebemos e criamos o novo edifício do futuro, que reunirá arquitetura, escultura e pintura numa única unidade, e que um dia será levantado contra o céu pelas mãos de milhões de trabalhadores como o símbolo de cristal de uma nova fé”.

Vemos na inclusão da tradução um rasgo da erudição, pois usa do documento como fonte direta para demonstrar uma tese que dá ao documento um sentido dentro da tradição e da continuidade do conhecimento. Mas a tradução não é adequada, e muito menos precisa: há uma “traição”. No texto de Gropius, o terceiro parágrafo começa fazendo um chamado à volta para o artesanato, e não uma exaltação do oficio. Diz Gropius (8):

Architekten. Bildhauer. Maler (9) wir alle müssen sum Handwerk züruck!

Ou seja,

“Arquitetos. Escultor. Pintor. todos devemos retornar ao artesanato!”

Como esse chamado que reclama uma volta apaixonada ao artesanato se transforma num apelo para o retorno a um asséptico “ofício”?

Só podemos supor que Benvolo sucumbiu à necessidade de dar credibilidade a sua própria história, que anuncia no texto preliminar que em 1919 o mundo presenciou uma “passagem fundamental” que permitiu superar a visão proto-moderna do movimento inglês Arts & Crafts, dando lugar à “formação do movimento moderno” na Alemanha, encarnado pela Bauhaus, onde as “mãos de milhões de trabalhadores” de Benevolo são, em realidade, “aus Millionen Händen der Handwerker” de Gropius, isto é, “as mãos de milhões se artesãos”.

Com suas transgressões e tergiversações, Benevolo retoma o mito da Bauhaus, que Zevi (10) (1960) tinha questionado e destruído em Poetica dell’Architettura Neoplastica, de 1953, e o faz com a intenção de justificar “sua” história, quebrando o sentido moral que sustenta a erudição, do qual falamos anteriormente.

Bruno Zevi: Poetica dell’Architettura Neoplastica. Milão: Politecnica Tamburini, 1953a. (1a edição)

Usa-a na sua pior acepção: a de argumento inquestionável, isto é, como instrumento de catequização. Na erudição, argumentos sempre foram uma forma de transmitir conhecimento, e não mitificação.

O que prima na atitude de Benevolo, assim como na dos outros autores citados até aqui, é o caráter didático de suas obras. Tafuri (11) apresenta esse didatismo no “fato de a recuperação filológica dos códigos de leitura do passado só ser possível partindo dos códigos atuais”, como no caso de uma visão “moderna”, construída nos anos 1940 por historiadores como Giedion e nos anos 1960 por historiadores como Benevolo, de uma Bauhaus, que de fato, nos anos 1920, não tinha nada de “moderna” (12), pois era expressionista (13), quando não esotérica (14).

Uma história sem crítica

Benevolo trabalha numa perspectiva de transformação e adaptação do discurso historiográfico para facilitar a compreensão de uma narrativa sequencial que não complique a vida do leitor enfrentando-o com questionamentos excessivos. Não há em si crítica, mas informação ordenada e esterilizada, que tende a aparecer como “objetiva”. Tafuri (15) percebe esse jogo e critica essa forma de fazer história, aparentemente “isenta de juízos definitivos” e privilegiando a “montagem dos fatos”.

Na “Nota à quarta edição” de sua Storia dell’Architettura Moderna, Benevolo (16) fundamenta amplamente essa perspectiva de construção contínua de uma história ligada ao presente que está obrigada a rever constantemente o que foi escrito. Admite que as edições em italiano (a partir de 1960), em espanhol (1963) e em alemão (1964) já estavam desatualizadas quando se publicou a quarta edição em italiano (1971) (17) e revisou e ampliou todas as edições anteriores (a segunda, de 1964, e a terceira, de 1966), além da tradução para o inglês [1968-1970], mantendo e consolidando o cerne da narrativa oficial (18), “uma adaptação de um trabalho precedente, com os méritos e os defeitos que aquela operação comporta” (19)

“O autor não se resignou a conservar o livro como documento de uma fase da pesquisa histórica, porém tentou atualizá-lo, a fim de conservar o vínculo imediato com os empreendimentos operativos contemporâneos, coisa que era uma das ambições do texto original” (20).

O caráter seletivo

A crítica de Tafuri à forma de trabalhar de Benevolo enfatiza o caráter seletivo da identificação dos atores, os movimentos e as obras apresentadas, algo bastante similar ao que já vimos que acontecia com Giedion e Pevsner, embora, no caso de Benevolo, não se relacione essa seleção a uma série de princípios que a justificam: ele tenta convencer seu leitor de que sua argumentação é isenta e fundamentada.

“O quadro [da arquitetura moderna em fins dos anos 1970] tornou-se mais complexo e menos otimista, mas provavelmente mais realista: a confiança no trabalho que se faz deve ser corrigida pela amargura pelo trabalho que deixa de ser feito e que não pode ser feito, todas as vezes que a arquitetura esbarra com o “contrato social” (como dizia Le Corbusier), isto é, com a estrutura de poder que, em nosso campo, tem-se tornado quase constante faz um século. Essa estrutura é muito difícil de ser mudada, e os arquitetos não podem pretender mudá-la sozinhos: para tentar fazê-lo, contudo, por certo são de utilidade duas coisas: conhecer objetivamente essa estrutura, retirando-se a cobertura cultural que a protege, e representar claramente, na teoria e na prática, os modelos espaciais alternativos, de modo que os grupos interessados na modificação possam organizar-se em torno de propostas precisas e tecnicamente fundamentadas. Eis as tarefas da pesquisa arquitetônica no momento atual [1971]” (21).

Para tanto, “Benevolo está fora de uma concepção dialética da história, vendo-se obrigado a excluir – ao agarrar-se a um novo mito da ortodoxia – muitas das mais importantes experiências da arquitetura contemporânea” (22). O que nos coloca novamente frente ao problema do “mito”, mas, desta vez, Tafuri (23) afirma que “o mito é sempre contra a história”: o “historicismo operativo” denunciado pelo autor pressupõe, como se pode perceber na citação de Benevolo, “a incapacidade dos arquitetos, ou do público em geral, para afirmar a complexidade e a especificidade dos eventos históricos [uma vez que] a atualização da história sanciona conscientemente a proliferação do mito”(24). O que nos deixa numa situação complexa do ponto de vista moral. A erudição de Benevolo não tem suporte moral e se defende argumentando uma falsa isenção, como se tal coisa fosse possível.

A história nada informa

Tafuri crítica em seus antecessores (25) o uso da história em beneficio do presente, o que a invalidaria como forma de conhecimento. A história nada informa. O modelo cognitivo que se propõe não submete o objeto histórico ao interesse subjetivo do observador, ainda que esse observador seja privilegiado, porquanto historiador. A proposta realmente põe em relação objeto e sujeito aceitando e manifestando sua interdependência necessária e evidente: sua relação dialética. O conhecimento não é a contemplação e narração denotativa de fatos, mas uma atividade (26) que, no caso da história, só pode ser encarada por meio da crítica (27).

“Qualquer tentativa de separação de crítica e história é artificial, ocultando uma ideologia conservadora inconfessada. Isolar a crítica num limbo abstractamente dedicado à análise da actualidade – como se existisse, portanto, um tempo “atual” que já não seja tempo histórico – significa ceder à ameaça das mitologias mais transitórias e mistificantes” (28).

O que leva diretamente ao sentido da teoria, elemento alheio à historiografia anterior, que, se bem insistia numa abordagem crítica (a de Zevi, por exemplo), deixava de lado a fundamentação teórica, no caso, por razões operativas baseadas na fundamentação de que princípios (que como no caso de Giedion) eram suficientes para organizar e sustentar o discurso. O aprofundamento no vasto saber histórico, aquela dimensão de profundidade no tempo a que nos referíamos quando mencionávamos o trabalho do erudito (“instrução vasta e variada”), fica achatado na dimensão atual, pela intenção de justificar o tempo presente nos atos do passado, selecionando-os de forma ideologizada.

Ainda que Tafuri (29) pense que, “no âmbito da critica, falar de uma teoria da arquitetura não tem muito sentido” – o que é no mínimo curioso, num livro que se chama Teorias e história da arquitetura –, reconhece que ela é necessária no “âmbito da definição de novos instrumentos de projetação [sic]”. Assim, pode-se fazer história para entender a atual situação da arquitetura (e da sociedade na qual e pela qual se faz essa arquitetura) – e a teoria da arquitetura teria relevância inconteste –, “mas, para resolver as angustias do presente, de nada vale projectar no passado certezas a superar” (30).

O problema do espaço

O subtítulo “Hacia una nueva concepción del espacio arquitectónico”, da edição espanhola (31) do livro de Tafuri (1977), é revelador das intenções do autor.

3 Manfredo Tafuri: Teoría e histoira de la arquitectura: Hacia una nueva concepción del espacio arquiectónico. Barcelona: Laia, 1977. (1a edição em castelhano, 1972; 2a edição, 1977)

Há no trabalho historiográfico a intenção de encontrar uma nova forma de ver e entender o problema arquitetônico na sociedade contemporânea, e o caminho é aceitar o espaço como uma dimensão arquitetônica nova, o que só se poderia justificar como uma perspectiva teórica baseada numa pesquisa histórica que levasse a crítica a seus últimos estágios de reflexão, pois o “novo” sempre indica a necessidade de ampla reflexão, para não “aceitar e ideologizar todo o que está na moda” (ZEVI, 1993, p. 145). Querendo ou não, Tafuri incorpora seu discurso teórico à trilha de outros autores que, desde August Schmarsow [1853-1936] (32) (1994), discutem o problema do espaço como elemento que se coloca em relação com a arquitetura. Nessa linha também atuaram, vale lembrar, Giedion e Zevi, sobretudo este último, que praticamente reescreveu sua Storia dell’Architettura nos anos 1970 para incluir preeminentemente o tema do espaço e, em 1973, publicou Spazi dell’architettura moderna.

Mas, no caso de Tafuri, a espacialidade não é um problema da forma da arquitetura (como em Giedion), e sim um componente do entendimento da relação entre a arquitetura e a cidade (potencial comunicativo, manifestações e valores do contexto), deixando de ser um objeto de contemplação para integrar-se ao âmbito social como “produto e produtor de cultura” (33). A teoria trabalha junto com a história mas não é a história, pois esta, “como instrumento de projectação [...] é estéril, apenas podendo oferecer soluções já dadas”. Por ser novo, o fenômeno da espacialidade implica “um salto, um redimensionamento radical dos dados do problema, uma aventura arriscada” (34).

É nessa posição de risco que o pensamento tafuriano supera o de seus antecessores. Não há nele uma pré-cognição (os princípios, a gênese, as profecias, os códigos de leitura “objetivos”) capaz de dar conta do significado contraditório e dialético que o passado nos apresenta e que o futuro nos reserva. Não há em Tafuri uma caça ao tesouro das repostas que o passado pode nos dar para as “angustias do presente”, pois o passado é um lugar onde se procura a multiplicação dos conflitos, e não a “solução de problemas já postos” (35).

“Em vez de nos voltarmos para o passado considerando-o como uma espécie de terreno fecundo, rico de minas abandonadas a redescobrir progressivamente pela detecção de antecipações dos problemas modernos ou como labirinto um pouco hermético mas óptimo como pretexto para animadas excursões que permitirão proceder a uma pesca mais ou menos milagrosa, deveremos habituar-nos a considerar a história como uma constante contestação do presente ou, se se quiser, como uma ameaça para os mitos tranquilizadores em que as inquietações e as dúvidas dos arquitetos modernos se apaziguam [...]. Na realidade, já não é possível fazer história assumindo o papel de defensor do movimento moderno” (36).

Nesse ponto, a poucas páginas do fim do livro, Tafuri marca a virada da historiografia do movimento moderno e assume a ruptura com a mistificação que durante quatro décadas (37) tinha construído um mundo de relações e de razões para justificar o surgimento de um tipo específico de arquitetura, anti-histórica (38), que adentrou o mundo capitalista já no período entre guerras e depois se transformou no dominante movimento do International Style.

Erudição e mas medium

A crise dos anos 1960-70

A crise dos anos 1960-70 (39) se deveu a um processo de quebra de paradigmas que teve início logo depois do fim da Segunda Guerra Mundial, (40) quando se percebeu que o racionalismo otimista e pragmático que ensejava o contínuo progresso técnico e as possibilidades infinitas de geração de riqueza tinha colapsado. O resultado foi a inversão da curva de crescimento econômico, o aumento do custo da energia, o desconforto crescente dos jovens (The Angry Generation) com o papel que deveriam ter na sociedade, o repúdio à Guerra do Vietnã, o surgimento de movimentos de contestação (desde os de “minorias” – negros, mulheres, homosexuauis etc. – até os de cunho político – partidários ou de grupos ditos revolucionários –, ou ainda os artísticos – pop art, arte povera, situacionistas etc.), a libertação social e sexual, a multiplicação das posições de esquerda e a eclosão dos problemas dos países periféricos que tinham sido submetidos ao jogo maniqueísta da Guerra Fria. O acúmulo dessas situações negativas terminou por fraturar o pacto social do pós-guerra. O Estado do Bem-estar não mais conseguiu se sustentar, e governos como o de Margaret Thatcher (1979-1990) enfrentaram os sindicatos e desmantelaram um frágil equilibro diante de um novo ciclo de crescimento dos países ricos, agora baseado não mais na produção, e sim nos serviços. Assim terminava o “o breve século 20” (41), o mundo moderno que tinha despertado do sangrento parto da Grande Guerra, em 1918.

Itália anos 1960: revolta e historiografia

A Itália não ficou alheia a esse processo modificador do estrato social (cultural, político, econômico) e, da mesma forma que acontecia em Paris ou em Londres, algumas das mais importantes cidades italianas se debatiam entre correntes conflitantes, entre esquerda e direita, entre libertários e reacionários. Até porque, diferentemente de Paris ou Londres, por exemplo, Roma havia sido um dos centros de difusão do fascismo, como capital da Itália mussoliniana.

Com o assassinato de Paolo Rossi, (42) Roma enfrenta, já em meados dos anos 1960, um clima de revolta que antecipa o desenlace da Battaglia di Valle Giulia, (43) no âmbito local, ou do maio francês, que transcendeu fronteiras. Roma foi também palco primeiro e privilegiado da atuação de movimentos de extrema esquerda (Brigate Rosse) e extrema direita (Avanguardia Nazionale). Os anos 1960-1970 são de intensa politização e ampla discussão sobre o compromisso dos intelectuais (estudantes e professores) nas lutas sociais. Uns menos, outros mais, toda a intelligentsia italiana estava ligada a partidos políticos de esquerda. Zevi, por exemplo, ao Partido Socialista, e Tafuri, junto com o grupo de Contropiano, ao PCI. Assim, esses autores trabalham marcados por ideias ativas e evidentes que balizam sua forma de abordar e entender o problema da arquitetura, que em nenhum caso fica desvinculado da problemática social que a determina menos ou mais, dependendo da perspectiva de cada autor.

Dessa linha de historiadores, Tafuri é certamente o último vinculado a esse interesse pela pratica social. Depois de 1970, a perspectiva dos historiadores não está mais atrelada a uma prática moralmente justa, a um ideário ativo que pretenda uma revisão profunda das circunstâncias que permitiram determinado desenvolvimento da arquitetura e de sua historização. A polarização das posições de esquerda e de direita, o acirramento da Guerra Fria e o domínio das estruturas de poder e de repressão por grupos de direita, ou pelo menos conservadores, em praticamente todos os países capitalistas ocidentais (estendendo-se até as ditaduras militares da América do Sul) provavelmente beneficiou as ópticas menos politizadas e com perspectivas sempre mais didáticas que críticas. Além da difusão das histórias menos politizadas dos historiadores ingleses, desde Colin Rowe até Kenneth Frampton [1930-], de quem falaremos depois, e que pode ser um indicador da mudança de atitude da própria arquitetura, que pendia cada vez mais para o lado do espetáculo.

Renato De Fusco e o novo didatismo

Nesse sentido, trabalhos como a Storia dell’architettura contemporanea (44), de Renato de Fusco [1929-], são bastante sintomáticos. O próprio livro é “testemunho de uma atividade didática”, resultado do curso de História da Arquitetura ministrado na Universidade de Nápoles, e:

“ainda que reflita uma teoria da arquitetura e uma metodologia historiográfica [...] pretende dirigir-se aos estudantes e a todo aquele que pela primeira vez se aproxima da história da arquitetura de nosso tempo, isto é, desde a segunda metade do século 19 até hoje; destarte, seu objetivo é quase exclusivamente didático” (45).

A finalidade didática quase sempre está associada, como vimos, a uma diminuição da complexidade do discurso, quando não a uma simplificação dos exemplos e de sua discussão. No caso de De Fusco, a finalidade didática está ligada também à “universidade de massas”, que preocupava os professores universitários dos anos 1960-1970, metidos num sistema de popularização dos cursos universitários que tendiam, como tinha argumentado Zevi (46), a simplesmente “massificar a universidade de elite” sem lograr manter o nível de ensino e de pesquisa do estágio anterior.

Renato De Fusco: Storia dell’architettura contemporanea. Bari: Laterza, 1974. (1a edição)

De Fusco (1981, p. 7) assume o papel de simplificador e se propõe reduzir o conteúdo polêmico com o intuído de atingir a massa “analfabeta” (usando o termo de Zevi) do grande público:

“Como realizar essa “redução”, indispensável para uma universidade de massas, e, em geral proporcionar um instrumento de conhecimento de uma temática que em si mesma é o objetivo de uma cultura de massas? [...] se trata de indicar, entre tantas reflexões, as que melhor respondam a uma pesquisa [no campo da cultura de massas], acima de tudo, aquela que tenha o objetivo prático de organizar e “simplificar” a exposição de uma sucessão de fatos, ampla e complexa, com é a história da arquitetura moderna, sem contudo desfigurar seus aspectos mais peculiares” (47).

A historiografia italiana exemplificada por De Fusco retoma vários aspectos das propostas que tanto Zevi como Tafuri tinham questionado e superado. Primeiro, o uso de obras modelares como forma de apresentar “fatos exemplificadores”, o que sempre reduz a complexidade e deixa a seleção das ditas obras paradigmáticas nas mãos do historiador. Mas agora o trabalho do historiador não parte da enumeração de princípios que norteiam a identificação de fatos e exemplos, como acontecia com figuras como Giedion e Pevsner, mas de uma necessidade de simplificação! Nunca antes esse argumento tinha sido usado para encarar o trabalho de pesquisa histórica. À atitude narrativa da historiografia, inaugurada por Benevolo, devemos agora somar uma simplificação ainda maior, que julga necessário “reduzir” a história a seus “aspectos mais peculiares”.

Erudição versus didatismo

Com isso, se destrói o campo da pesquisa complexa promovido por historiadores como Tafuri, que procuravam justamente discordar e provocar, o que a erudição sempre fez. No fim da introdução de Progetto e utopia, que considera apenas um “prólogo”, proclama que, apesar “do modo sumário como voluntariamente os temas são tratados”:

“Será necessário ir além. Mas, entretanto, consideramos que não é completamente inútil oferecer ao debate uma hipótese-quadro que, quanto mais não seja, se apresenta à crítica de um modo formalmente complexo. E já será um bom resultado se tal hipótese contribui para tornar mais conscientes e radicais as adesões e as discordâncias” (48).

Manfredo Tafuri: Progetto e Utopia. Bari: Laterza, 1973. (3a edição, 1977)

O que o posiciona justamente no campo contrário ao adotado por De Fusco. Com seu trabalho de erudição permanente, ainda que seja “só verificado em alguns setores”, Tafuri (49) procura exercitar a crítica a partir da história, obrigando-se a:

“passar à analise das técnicas de programação e de seus modos concretos de se imiscuírem na realidade viva dos modos de produção: as análises, pode-
-se dizer, só hoje começam a ser tentadas, com o rigor e a coerência necessários, no setor da edificação”.

A postura de De Fusco e dos autores que escreveram depois de 1970 se revela simplificadora também frente aos trabalhos mais significativos dos anos 1960, como os publicados nos livros de Robert Venturi [1925-] (50) ou de Aldo Rossi [1931-1997]. Autores que, se bem não propuseram história da arquitetura nem trabalhos de crítica, pois se concentram numa óptica teórica (51), exigem de seu leitor justamente essa complexidade e essa contradição que Tafuri demanda nos estudos de história e de crítica.

Teoria da arquitetura nos anos 1960: Robert Venturi e Aldo Rossi

Em seu Complexity and Contradiction in Architecture [1966], Robert Venturi (2004, p. xxvi) afirma que procurou se concentrar nas dificuldades inerentes à arquitetura. Assim, na primeira frase da “Introdução”, Vincent Scully [1920] (52) afirmava:

“Este não é um livro fácil. Requer prática profissional e rigorosa atenção visual e não é para aqueles que arrancam os olhos com medo de que estes os ofendam. Com efeito, seu argumento desenrola-se como uma cortina que lentamente é erguida diante dos olhos. Peça por peça, em sucessivas e precisas focalizações, o todo emerge. E esse todo é novo – difícil de ver, difícil de ser descrito, desgracioso e desarticulado como só o novo pode ser”.

Robert Venturi: Complexity and Contradiction in Architecture. Nova York: The Museum of Modern Art / Papers on architecture, 1966. (1a edição)

O livro de Aldo Rossi L'architettura della città (53) é tudo menos neutro e didático. O autor faz um apanhado “vasto e variado” de textos dos séculos 18, 19 e 20 de teóricos importantes do urbanismo e da arquitetura (54) para apoiar uma nova maneira de entender o problema da cidade fora de seus aspectos funcionais, centrando sua atenção numa forma inovadora de recuperação de teorias antigas. No “Prefácio à segunda edição italiana”, afirma:

“A neutralidade é uma noção que se aplica a um sistema constituído por conceitos e regras: mas, quando adentramos o exame destes mesmos conceitos, não tem sentido algum. A arquitetura e a teoria da arquitetura, como tudo, podem ser descritas por determinados conceitos, que, por sua vez, não são absolutamente neutros. Assim, nenhuma ideia pode ser neutro, pois modifica profundamente, de acordo com sua importância, o modo de ver da humanidade” (55).

Aldo Rossi: L'architettura della città. Padova: Marsilio, 1966. (1a edição)

As ideias desenvolvidas por esses teóricos da arquitetura, aos quais deveríamos somar sem dúvida Vittorio Gregotti (56) e seu livro Il territorio dell’architettura [1966], situam a discussão nos termos do contraditório e das interrogantes, o que permite enfrentar um mesmo problema de diferentes perspectivas. A erudição permite justamente esse tipo de entendimento, pois fornece a sustentação teórica da interdisciplinaridade, quando não a possibilidade das múltiplas visões sobre um assunto, tratado por quantos estudiosos possamos citar. Ou, se fosse o caso, o trabalho de um grupo de pesquisadores que desenvolve uma mesma pesquisa, ainda que preservando seus pontos de vista, como forma de enriquecer o trabalho dos outros.

Vittorio Gregotti: Il territorio dell'architettura. Milão: Feltrinelli, 1966. (1a edição)

Manfredo Tafuri e a historiografia dos anos 1970

Justamente nessa perspectiva é que podemos encontrar vários dos trabalhos de Manfredo Tafuri com seus colegas da Universidade de Veneza (57), onde assume a cátedra de História em 1968, como a publicação, em 1973, do livro La città americana dalla Guerra civile al New Deal, (58), que colige, além de um texto de Tafuri (La Montagna Disincantata: Il grattacielo e la City), estudos de Giorgio Ciucci [1939], Francesco Dal Co [1945] e Mario Manieri-Elia [1929-2011]. Um trabalho de fôlego que, não entanto, não pretendia fazer uma “síntese de historiografia global” (59).

O vasto material utilizado nessa pesquisa vai das “contribuições que intentam uma compreensão não exclusivamente sociológica ou técnica do fenômeno urbano” (60) – que se resumem a textos informativos das mais variadas fontes, que podem até requerer de “uma apreciável pesquisa filológica”, mas que reúnem, com maior ou menor sistematização, “a máxima quantidade de noticias, recolhidas com abundancia de meios, de esforço e de paciência” (61) – até estudos profissionalizados em que “os fenômenos se expõem segundo hierarquias críticas baseadas em juízos a priori” (62) – como os textos de Lewis Mumford [1895-1990], por exemplo. Tafuri e seus colegas assumem que, ainda que textos desse sejam “amenos e estimulantes”, o pesquisador deve ter cuidado “não tanto com os juízos, dos quais é fácil ler sua matriz, mas com a deformação dos fatos, à qual podem nos induzir as omissões ou o diferente relevo dado aos episódios” (63). Pareceria ser uma crítica certeira à deformação da tradução do texto de Gropius feita por Benevolo, que já comentamos.

Giorgio Ciucci; Francesco Dal Co; Mario Manieri-Elia; Manfredo Tafuri: La città americana: dalla Guerra civile al New Deal. Bari: Laterza, 1973. (1a edição)

O trabalho dos pesquisadores que têm discutido a “cidade americana” partiu de uma dupla premissa. Por um lado, a de “verificar uma hipótese crítica, um raciocino amadurecido desde muito tempo” (64), o que dissipa a ideia de uma narrativa como forma de “contar” uma história; e, por outro, uma transparência na definição das leituras que se apresentam ao leitor, isto é, os autores enfatizam a tomada de posição, a seleção e o privilégio de certos parâmetros de leitura sobre outros, não tratados, assim como o reconhecimento de certas tendências e não de outras, para pôr a descoberto seu próprio trabalho de identificação crítica do material tratado, sua posição ideológica (e política) frente ao material estudado (e escolhido) e sua capacidade de abrir, com essa metodologia, novos caminhos de pesquisa e novas perguntas sobre a realidade, que se considera multifacetada.

É como afirma Tafuri, agora trabalhando com Francesco Dal Co, na sua Architettura contemporânea (65):

“A historia [que se] propõe esboçar, necessariamente se desdobra e multiplica [...]. Não é necessário, contudo, sublinhar que a interseção dessas histórias múltiplas não proporcionará uma unidade [narrativa, nem conceitual]. Será necessário, ainda, enfatizar que o espaço histórico é dialético por sua própria natureza? Nas páginas que se seguem, é essa dialética que trataremos de apresentar, evitando, de qualquer forma, pacificar conflitos que voltam a aparecer hoje em dia como perguntas inquietantes sobre a própria finalidade da arquitetura. É inútil responder a semelhantes perguntas; é necessário, antes que tudo, repassar toda a história da arquitetura moderna, para encontrar as fissuras e os interstícios que quebram a solidez e voltar a partir daí sem trazer o mito, nem essa história [narrada], nem essas divisões [que induzem a omissões]” (66).

Manfredo Tafuri; Francesco Dal Co: Architettura Contemporanea. Milão: Electa, 1976. (1a edição)

notas

NE – Este texto é a terceira das quatro partes que compõem o trabalho completo enviado pelo autor. As partes são as seguintes:

VÁZQUEZ RAMOS, Fernando Guillermo. Sobre a erudição (parte 1/4). Manfredo Tafuri e a historiografia da arquitetura moderna. Arquitextos, São Paulo, ano 16, n. 182.06, Vitruvius, jul. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/16.182/5621>.

VÁZQUEZ RAMOS, Fernando Guillermo. Sobre a erudição (parte 2/4). As primeiras histórias sobre a arquitetura moderna. Arquitextos, São Paulo, ano 16, n. 183.06, Vitruvius, ago. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/16.183/5659>.

VÁZQUEZ RAMOS, Fernando Guillermo. Sobre a erudição (parte 3/4). As histórias da arquitetura moderna, dos anos 1960-1970. Arquitextos, São Paulo, ano 16, n. 184.07, Vitruvius, set. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/16.184/5746>.

VÁZQUEZ RAMOS, Fernando Guillermo. Sobre a erudição (parte 4/4). As histórias sobre a arquitetura moderna sem erudição, 1980-2010. Arquitextos, São Paulo, ano 16, n. 185., Vitruvius, out. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/16.185/5770>.

1
BENEVOLO, Leonardo. História da arquitetura moderna. São Paulo: Perspectiva, 1976[1960], p. 13-14.

2
Ibidem, p. 14, grifo nosso.

3
Idem.

4
Ibidem, p. 403.

5
Ibidem, p. 406.

6
A nota 6 explica que o texto foi retirado de: “H. BAYER, W. GROPIUS, I. GROPIUS. Bauhaus 1919-1928, Boston, 1952, p. 16” sem mais indicações (BENEVOLO, 1976, p. 404).

7
BENEVOLO, Leonardo. História da arquitetura moderna. São Paulo: Perspectiva, 1976[1960]. p. 404, grifo nosso.

8
apud BAUHAUS ARCHIV; DROSTE, Magdalena (concepção). Bauhaus: 1919-1933. Berlim: Archivo e Museo de Diseño Bauhaus/Benedikt Taschen, 1991, p. 18.
No livro do Arquivo Bauhaus e de Magdalena Droste (1991), se reproduz o folheto do programa original, do qual retiramos a frase citada.

9
Chamamos a atenção sobre o uso do plural para arquitetos, quando pintor e escultor ficam no singular.

10
ZEVI, Bruno. Poética de la Arquitetura Neoplástica. Buenos Aires: Victor Lerú, 1960.

11
TAFURI, Manfredo; DAL CO, Francesco. Arquiectura contemporánea. Buenos Aires: Viscontea, 1982[1976]. 2 v, p. 195.

12
Na visão desses historiadores, o expressionismo não era um movimento moderno, e sim um resultado tardio do romantismo, com sua carga de irracionalidade e de decorativismo.

13
A Bauhaus foi um foco do expressionismo e do misticismo alemão e centro-europeu até 1923 e só mudaria sua proposta e sua visão, após a passagem de Theo Van Doesburg por Weimar, entre 1921 e 1922.
ZEVI, Bruno., Poética de la Arquitetura Neoplástica. Buenos Aires: Victor Lerú, 1960 [1953]; VÁZQUEZ RAMOS, Fernando G. 1921 ½: Van Doesburg e (é) o vento que varre a Bauhaus de Weimar nos anos 1920. In: Fórum Brasília de Artes Visuais, etapa B, 7., 2010, Brasília. In: FARIAS, Agnaldo; FERNANDES, Fernanda (Orgs.). Arte e arquitetura: balanço e novas direções. Brasília: Fundação Athos Bulcão/Editora UnB, 2010.

14
O adjetivo é pertinente se pensarmos na predominância da figura de Johannes Itten entre 1919 e 1923, quando ministrou o Vorkurs, o curso preliminar obrigatório para todo aluno matriculado na Bauhaus.
VÁZQUEZ RAMOS, Fernando G. 1921 ½: Van Doesburg e (é) o vento que varre a Bauhaus de Weimar nos anos 1920. In: Fórum Brasília de Artes Visuais – etapa B, 7., 2010, Brasília. FARIAS, Agnaldo; FERNANDES, Fernanda (Orgs.). Arte e arquitetura: balanço e novas direções. Brasília: Fundação Athos Bulcão/Editora UnB, 2010, p. 51.

15
TAFURI, Manfredo; DAL CO, Francesco. Arquiectura contemporánea. Buenos Aires: Viscontea, 1982[1976]. 2 v, p. 201.

16
BENEVOLO, Leonardo. História da arquitetura moderna. São Paulo: Perspectiva, 1976[1960].

17
É dessa edição a tradução ao português que citamos aqui.

18
Essa atitude é comum aos historiadores do período. Zevi, por exemplo, publicou e reeditou sua Storia dell’Architettura Moderna (1950) várias vezes, até que finalmente, em 1975, a revisou e vinculou às premissas defendidas em outro livro seu, Spazi dell’Architettura Moderna [1973]. Pevsner (1980) publicou Pioneers of Modern Design em 1936 e o reeditou várias vezes, ampliando-o; na reedição de 1974 (da edição de 1968, já ampliada também), introduziu um “Adendo à Bibliografia” e uma “Bibliografia suplementar”. No entanto, no fim do “Prefácio à edição em língua portuguesa” [1962] garante que “as principais teses e afirmações deste livro não necessitam ser reformadas ou refundidas, o que é um fato agradável para um autor que olha para trás decorridos mais de vinte e cinco anos”.
PEVSNER, Nikolaus. Os pioneiros do desenho moderno: de William Morris a Walter Gropius. São Paulo: Martins Fontes, 1980, p. 20.

19
BENEVOLO, Leonardo. História da arquitetura moderna. São Paulo: Perspectiva, 1976[1960], p. 15.

20
Idem.

21
Ibidem, p. 17.

22
TAFURI, Manfredo; DAL CO, Francesco. Arquiectura contemporánea. Buenos Aires: Viscontea, 1982[1976]. 2 v. p. 201.

23
Ibidem, 203.

24
A pesada crítica atinge também Zevi, ainda que por outras razões [as supostas descobertas da “atualidade” de arquitetos como Alberti, Rosetti, Palladio e outros, e por seu “método historiográfico totalmente orientado para a ação” (1979, p. 201)], mas ele mesmo também se manifestou contra esse processo de mistificação que usava a história como modelo apoiando-se na crítica: “La critica storica può confutare e demistificare questa mitologia mostrando quanti idioti si possano annoverare nel passato”.
ZEVI, Bruno. Zevi su Zevi: architettura come profezia. Veneza: Marsilio, 1993, p. 154.

25
Ainda que pelo menos Zevi e Benevolo, quando não Pevsner, tenham seguido escrevendo ao mesmo tempo em que o fazia Tafuri, sendo também seus contemporâneos.

26
SHAFF, Adam. História e verdade. São Paulo: Martins Fontes, 1995. p. 84.

27
Note-se que Tafuri defende a crítica, no caso do historiador, como “atividade” e não como “ação”, como vimos anteriormente.

28
TAFURI, Manfredo; DAL CO, Francesco. Arquiectura contemporánea. Buenos Aires: Viscontea, 1982 [1976]. 2 v. p. 219

29
TAFURI, Manfredo; DAL CO, Francesco. Arquiectura contemporánea. Buenos Aires: Viscontea, 1982[1976]. 2 v. p. 215.

30
Ibidem, p. 219.

31
A edição portuguesa não tem esse subtítulo.

32
SCHMARSOW, August. The essence of architectural creation. In: MALLGRAVE, Harry Francis; IKONOMOU, Eleftherios (Tr.). Empathy, form, and space: Problems in German Aesthetics, 1873-1893. Santa Monica: The Getty Center Publication Programs, 1994[1893]. p. 281-297.

33
SCHAFF, 1995, p. 81

34
TAFURI, Manfredo; DAL CO, Francesco. Arquiectura contemporánea. Buenos Aires, Viscontea, 1982[1976]. 2 v. p. 286.

35
Idem, ibidem

36
Idem, ibidem, p. 287.

37
Se consideramos que os primeiros trabalhos historiográficos que aparecem em artigos de revistas, os de Adolf Behne [1885-1948], por exemplo, ou os livros, como o de Bruno Taut (TAUT, Bruno. Die Neue Baukunst: in Europa und Amerika. Stuttgart, Julius Hoffmann, 1929), são dos anos 1920.

38
Como apelo estilístico que questionou o estilo (historicista) dominante até o século XIX.

39
Não só a do petróleo, mas também a crise social e política anterior e posterior ao maio 68 francês.

40
Ainda que como resultado da guerra: destruição do tecido social, cultural, político e econômico em praticamente todo o território europeu, de Lisboa a Moscou, de Palermo a Londres.

41
HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX, 1914-1991. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.

42
Paolo Rossi (1947-1966) foi um estudante de arquitetura ligado à Juventude Socialista que foi morto num confronto entre estudantes de esquerda e de direita (neofascistas) dentro da Universidade de Roma (La Sapienza) em 1966. Sua morte causou grande convulsão no meio acadêmico e intelectual romano. Foi aluno de Bruno Zevi (ZEVI, Bruno. Zevi su Zevi: architettura come profezia. Veneza, Marsilio, 1993, p. 95-103), que falou em seu funeral na Aula Magna da universidade.

43
Enfrentamento entre estudantes e policiais em 1o de maio de 1968 pela retomada da Faculdade de Arquitetura de La Sapienza.

44
TAFURI, Manfredo. Architettura contemporanea. Milão, Electa, 1976. p. 201, grifos do original.

45
Idem, ibidem, p. 215.

46
ZEVI, Bruno. Zevi su Zevi: architettura come profezia. Veneza, Marsilio, 1993. p. 139.

47
DE FUSCO, Reanto. Historia de la arquitectura contemporánea. Madri, H. Blume, 1981[1974]. p. 7-8, grifos nossos.

48
TAFURI, Manfredo. Projecto e utopia: arquitectura e desenvolvimento do capitalismo. Lisboa, Presença, 1985[1973]. p. 11, grifos nossos.

49
Idem, ibidem, p. 11.

50
Apesar de Robert Venturi não ser europeu, nos referimos a ele pela enorme importância mundial que seu trabalho teórico adquiriu nos anos 1970. Um trabalho de revisão mundial da forma de ver e entender a arquitetura do ponto de vista teórico, que se ampara em outros livros, também revolucionários, como os de Jean Jacobs [1916-2006] (ainda que seu The Death and Life of Great American Cities, de 1961, seja um pouco anterior aos trabalhos de Venturi), Aldo Rossi, Carlo Aymonino [1926-2010], Vittorio Gregotti [1927-], Giancarlo De Carlo [1919-205] e os membros do Team 10, especialmente os artigos de Aldo van Eyck [1918-199] e os Smithson (Alison [1928-1993] e Peter [1923-2003]); as discussões promovidas em revistas como a Architectural Review (encabeçada por Reyner Banham [1922-1988]) e a Casabella (dirigida por Ernesto Nathan Rogers [1929-1969]); e também autores com visão totalmente contrária à dos mencionados, como Charles Jencks [1939] (1975) e seu conhecido Architecture 2000 [1971] e Paolo Portoghesi [1931] (1982), que escreveu Dopo l’Architettura Moderna, publicado em 1980.

51
Embora Venturi (2004, p. xxiii) defina seu trabalho literário como “critica”, já na “Nota à segunda edição” (p. xxix) afirma que “o livro poderia ser lido hoje [1977] por suas teorias gerais sobre forma arquitetônica, mas também como um documento de seu tempo, mais histórico do que tópico”. Rossi assume o lado da teoria sem nenhum reparo, e, no “Prólogo a la edición castellana” [1968], Salvador Tarragó Cid (in: ROSSI, 1982, p. 7) o afirma taxativamente: “La aportación decisiva del texto de Rossi es la de enunciar que la dimensión arquitectónica de la ciudad es una condición imprescindible para la correcta formulación de una teoría de los hechos urbanos”.

52
apud VENTURI, Robert. Complexidade e contradição em arquitetura. São Paulo, Martins Fontes, 2004 [1966], p. 23.

53
ROSSI, Aldo. L'architettura della città. Padova, Marsilio, 1966

54
Rossi retoma trabalhos de teóricos como Francesco Milizia [1725-1798], Antoine-Chrysostome Quatremère de Quincy [1755-1849], Jean-Nicolas-Louis Durand [1760-1834], Carlo Cattaneo [1801-1869], Camillo Sitte [1843-1903] e Friederich Ratzel [1844-1904], entre outros, até chegar a textos do século XX, ainda que desconhecidos no mundo da arquitetura, de geógrafos como Georges Chabot [1890-1975], Jean Tricart [1920-2003], Pierre Lavedan [1885-1982] e Marcel Poëte [1866-1950].

55
ROSSI, Aldo. La arquitectura de la ciudad. 6ª ed. Barcelona, Gustavo Gili, 1982, p. 42.

56
GREGOTTI, Vittorio. El territorio de la arquitectura. Barcelona, Gustavo Gili, 1972[1966], p. 9.

57
No Instituto di storia dell’architetura do Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza (IUAV), Tafuri colabora com outros pesquisadores mais jovens fora de Itália, como Josep Quetglas [1946-], Beatriz Colomina [1952-], Micha Bandini, Michael Hays [1952-] e Jorge Francisco Liernur [1946-], por exemplo (MONTANER, 1999, p. 83).

58
Bari, Laterza, 1973. Aqui usamos a primeira edição espanhola, ver Ciucci et al. (1975).

59
CIUCCI, Giorgio; DAL CO, Francesco; MANIERI-ELIA, Mario; TAFURI, Manfredo. La ciudad americana: de la guerra civil al New Deal. Prólogo de José Quetglas. Barcelona, Gustavo Gili, 1975[1973], p. 17

60
Idem, ibidem.

61
Idem, ibidem

62
Idem, ibidem, p. 18.

63
Idem, ibidem.

64
Idem, ibidem.

65
Milão, Electa, 1976. Neste texto, usamos a tradução castelhana da edição em inglês (1978), Tafuri; Dal Co, 1982.

66
TAFURI, Manfredo; DAL CO, Francesco. Arquiectura contemporánea. Buenos Aires, Viscontea, 1982[1976]. v. 1, p. 7.

sobre o autor

Fernando Guillermo Vázquez Ramos é Professor do Curso e do Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da USJT. Líder do grupo de pesquisa Arquitetura e Cidade: Representações. Doutor (Univ. Politécnica de Madrid, 1992); Magister (Inst. de Estética y Teoria de las Artes de Madrid, 1990); Técnico em Urbanismo (Inst. Nacional de Administración Pública de Madrid, 1988); Arquiteto (Univ. Nacional de Buenos Aires, 1979).

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