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architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
Artigo aborda a obra de Benício Whatley Dias (1914-1976), singular representante da fotografia do Movimento Moderno recifense, que registrou os principais momentos de transição e transformação físico-espacial ocorridos entre 1935-1970 em Recife.

english
The article discusses the work of Benicio Whatley Dias, singular representative of the Modern Movement of Recife’s photography, which recorded the main moments of the physical-spatial transformation that occurred in the period 1935-1970 in Recife.

español
El artículo analiza la obra de Benicio Whatley Dias, singular representante de la fotografía del Movimiento Moderno de la ciudad del Recife, que ha registrado los principales momentos de la transformación físico-espacial entre 1935-1970 en Recife.


how to quote

GUIMARAENS, Cêça. Benício Whatley Dias. Um fotógrafo no Recife moderno. Arquitextos, São Paulo, ano 16, n. 186.02, Vitruvius, nov. 2015 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/16.186/5836>.

Fotografias de cidades em processo de transformação decorrente das ideias progressistas e consequentes demandas socioeconômicas, além de revelar usos e costumes, desvelam, sobretudo, a destruição dos espaços dos tempos passados e a construção de novos padrões arquitetônicos e urbanísticos. Com essa perspectiva, considera-se neste artigo que as coleções de fotografias são singulares tipos de registro e representação visual das mudanças das cidades, sendo o conhecimento destas fontes imprescindível para os estudos da história e do patrimônio urbano.

Ao buscar valorizar o Valor de uma obra que é produto do tempo do culto ao Movimento Moderno, os elos do artigo são a obra fotográfica de Benício Whatley Dias, o século 20 e a Idade de Ouro do Modernismo. Desse modo, o estudo das coleções desse fotógrafo, constantes nos acervos do Arquivo Noronha Santos e da 5aSuperintendência Regional do Iphan, e do Cehibra/Fundaj-Minc, busca verificar a importância dessas para as pesquisas sobre o Movimento Moderno e o patrimônio cultural brasileiro.  Soma-se a essas motivações o desejo de saldar antiga dívida, aproveitando o fato de que 2014 seria o ano de celebrar o centenário de nascimento de Benício Whatley Dias (1).

Apresento aqui o início do caminho que estou trilhando para alargar os estudos do conjunto dessas coleções, pois admito serem universo excepcional e quase desconhecido. A pesquisa e a abordagem conforme aqui delineadas são inéditas; e, ao mesmo tempo em que propiciam o reconhecimento da importância da obra do fotógrafo, agregam-se aos poucos trabalhos que dão a conhecer essa face escondida da História Visual do modernismo brasileiro (2).

Pilotis do edifício da Secretaria da Fazenda na avenida Martins de Barros e torre do convento de São Francisco na rua do Imperador, Recife, Pernambuco, c. 1940
Foto Benício Whatley Dias [Acervo Fundação Joaquim Nabuco – Ministério da Educação]

Os enfoques e as leituras com que as coleções fotográficas permitem a ampliação do espectro dos estudos da História são inúmeros. Nesse sentido, a Coleção Benício Dias da Fundação Joaquim Nabuco – Fundaj é a mais consultada e utilizada para ilustrar teses e dissertações que tratam de campos disciplinares diversos e que abordam diferentes aspectos da história social e técnica da fotografia e da nossa cultura. No entanto, ao iniciar a pesquisa, constatei que, na quase totalidade, a iconografia dos trabalhos acadêmicos da área de Arquitetura e Urbanismo não registra as origens e os autores das imagens, embora as coleções sejam fundamentais para a verificação da história social e dos fatos urbanísticos e arquitetônicos históricos.

Bacharel em Direito, empresário, comerciante e colecionador de antiguidades, originalmente amador, mas também fotógrafo profissional, professor de História da Arte e amante da natureza e dos animais, ele é considerado um dos iniciadores e excepcional representante da fotografia moderna brasileira. Homenageado com nome de rua no Poço da Panela e com nome de auditório no Museu do Homem do Nordeste,  ambos situados no bairro de Casa Forte, no Recife, Benício Whatley Dias registrou as mudanças físicas da capital do estado de Pernambuco no Brasil em momentos da implantação do urbanismo e da arquitetura modernista.

Seus principais trabalhos profissionais foram realizados para a Prefeitura da cidade do Recife e para o Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional entre 1930 e 1975. Suas coleções particulares de fotografias foram doadas por seus herdeiros para a Fundaj e para o Museu da Cidade do Recife; e os conjuntos de fotografias elaboradas no tempo em que trabalhou para o Iphan fazem parte dos processos de Inventários, Obras e Tombamentos, recebendo, no Arquivo Central do Rio de Janeiro e no Recife, tratamento técnico especial.

Igreja de N. S. das Dores, Largo de Apipucos, Recife, Pernambuco, c. 1940
Foto Benício Whatley Dias [Acervo Fundação Joaquim Nabuco – Ministério da Educação]

A parte da coleção particular de Benício Whatley Dias guardada na Fundaj abrange o período de 1880 a 1950 e é identificada com a sigla BD. Esse conjunto se compõe de dois mil e trezentos e noventa e dois documentos, onde se destacam mil e quatrocentos e trinta e duas fotografias, e negativos em nitrato, acetato e vidro com e sem cópias em papel. Entre essas há mais de um milhar de autoria comprovada do fotógrafo e algumas cuja autoria é a ele presumida.

No Guia sentimental da cidade do Recife Gilberto Freyre se refere por três vezes a Benício Whatley Dias. Na primeira, de forma indireta, escreve que “não se pode ler a história do Recife sem se dar de vez em quando com um nome cheio de ww  ou alguma figura de inglês” (3).

Adiante, ainda nesse roteiro jornalístico e romantizado, o sociólogo pernambucano comenta acerca dos poetas, artistas e paisagens da cidade que representam algo mais do que o realismo descritivo; e, incluindo os fotógrafos no comentário, diz: "Os próprios fotógrafos recifenses tocados do mesmo gosto de realismo poético sabem disto; e daí fotógrafos como Benício Dias que parecem revelar em pessoas e coisas recifenses, alguma "coisa de mais real que o real”. Nisso rivalizam esses fotógrafos com os poetas que sendo residentes voltados para o que o Recife tem de mais íntimo não vivem a gritar que são recifenses, mas se conservam machadianamente discretos com o seu idílio com a cidade amada” (4).

Beco da Luxúria, no bairro do Recife, Pernambuco, c. 1942
Foto Benício Whatley Dias [Acervo Arquivo Iphan PE]

Em outra referência, Freyre denomina Benício Whatley Dias “Mestre”. Ao mencionar o casarão da Estrada Real do Poço da Panela no bairro de Casa Forte onde o fotógrafo viveu, afirma Freyre: "(há) outras casas particulares dignas de atenção do turista: as que no Poço da Panela guardam alguma coisa do antigo esplendor desta velha fronteira recifense com o “mato” e uma das quais hoje é residência do Mestre Benício Whatley Dias, depois de ter sido a morada, por alguns tempos do alemão, Moer, o pintor e professor de Pintura de muitos recifenses, e antes dele do alemão Carls, o das seletas litografias” (5).

Recuperar o casarão do Poço da Panela para viver, deixando o palacete de seu pai, o comerciante de máquinas e equipamentos de infraestrutura e logística Alfredo Whatley Dias situado na rua Marques Amorim, bairro da Boa Vista, é um dos fatos que demonstra a mentalidade preservacionista de Benício Whatley Dias. Essa inclinação também se revela de modo especial no ato de colecionar e comercializar objetos antigos. No entanto, foi em sua obra fotográfica, na condição de componente do excelente grupo de fotógrafos do Iphan, que ele confirmou o esforço de reconhecimento do patrimônio arquitetônico das cidades nordestinas.

No 1o Distrito do Iphan, criado em 1946, Benício Whatley Dias ampliou os horizontes e aprimorou sua obra fotográfica documental, ao mesmo tempo em que a instituição se valia de seus conhecimentos de arte e história. Em processos guardados no Arquivo Central do Iphan no Rio de Janeiro encontram-se referências à qualidade de suas fotografias, emitidas por Lucio Costa e Rodrigo Melo Franco de Andrade. Nesse sentido, também a museóloga Lygia Martins Costa fez comentários à participação dele na recuperação da arquitetura e da museografia do Museu do Estado de Pernambuco, acrescentando que era galante, bonito e charmoso (6).

Casas da rua das Laranjeiras ou da rua das Trincheiras no bairro de Santo Antônio, Recife, Pernambuco, c. 1942
Foto Benício Whatley Dias [Acervo Arquivo Iphan PE]

Conforme acima comentado, as transformações que o Modernismo estabeleceu nas principais cidades brasileiras caracterizaram a fase em que Benício Whatley Dias registrou exaustivamente as demolições dos bairros de Santo Antônio e São José, área central do Recife. O arrasamento formidável dos edifícios históricos e dos elementos urbanos coloniais e ecléticos foi resultado da política imobiliária; no entanto, o discurso dos progressistas reproduzia as palavras e expressões que marcaram o ideário e as proposições do urbanismo do Movimento Moderno.

Os protestos de Benício Whatley Dias a tal conjuntura não se limitaram aos atos de documentar as demolições e as novas construções. A crítica ao progresso destruidor das estruturas físicas históricas e urbanísticas do Recife o motivaram no final da década de 1960, quando, enfatizando e participando da luta contra a demolição da igreja de Nosso Senhor Bom Jesus dos Martírios, revelou ainda mais as fortes marcas do seu caráter preservacionista.

À maneira de outros intelectuais que, segundo Rosane Piccolo Loretto, eram “homens de bom gosto, […] todos possuídos do mínimo divisor comum de intuição do urbanístico e do arquitetônico que não esquarteja inutilmente a cidade” (7), e das instituições, à época mobilizadas para a preservação da igreja, Benício Whatley Dias mostrou-se indignado com os projetos de construção da avenida Dantas Barreto, cuja implantação estava prevista desde as primeiras décadas do século 20.

Vendedor de livros e revistas, Recife, Pernambuco, c. 1940
Foto Benício Whatley Dias [Acervo Fundação Joaquim Nabuco – Ministério da Educação]

Em meio a polêmicas, Benício Whatley Dias defendeu a restauração “com orientação própria e cuidados especiais da igreja dos Martírios”, declarando: “Não é possível que, justamente quando a Unesco vai voltar suas visitas para São Luís do Maranhão e para Alcântara, preservando grandes trechos e áreas dessas cidades, os residentes, filho da ‘Guia dos Cegos e Mãe da Cultura’, não consigam fazer fluir as duas mãos de tráfego de uma avenida que, em vez de levar de eito, venha a abraçar, numa solução indicada, moderníssima e consagrada em várias partes, a igreja do Senhor Bom Jesus dos Martírios e seus vizinhos sobrados onde se encosta e que a complementam” (8).

Sobre fotografia e coleções

A fotografia é um instante do mundo transformado em coisa. Para explicar essa afirmativa, é preciso dizer que, no início do estudo e em sequência ao entendimento que decorreu das leituras, verifiquei que há muitas definições quando se busca os sentidos e os significados. Então, se fotografia é a “imagem” do momento, há que compreender o sentido do tempo do clic e da “eternidade”, articulando essas categorias à intenção do fotógrafo. Há que compreender também o que é “imagem” e narrativa; o que é a representação das relações entre as coisas que significam e dão sentido às imagens; e, ainda, o que é estático e o que é instantâneo.

Quando a fotografia é o objeto fotografado e é também o sujeito da ação que cria a nova imagem, há que considerar a experiência temporal ou atemporal da “troca” entre objeto, sujeito e observador. E, se fotografia é arte e documento, o estudo das regras e modelos poderia definir o que é preciso para se obter uma “boa foto”.

Ascenso Ferreira, poeta e amigo de Benício Whatley Dias, com tijolo de demolição em Recife, Pernambuco, 1946
Foto Benício Whatley Dias [Acervo Fundação Joaquim Nabuco – Ministério da Educação]

Aqui faço um parênteses para destacar que há uma grande diferença entre interesse e domínio da fotografia, pois, em tempos de popularização dos instrumentos, os equívocos são muitos. Esses desvios se ampliam quando se impõe a categorização e a qualificação dos fotógrafos e dos não-fotógrafos. Então, restaria perguntar: amador, curioso, turista, funcionário, estudante etc seriam categorias para enquadrar intenções, sentidos e significados às imagens e a seus autores? (9)

Na tentativa de observar os elementos que configuram o que é fotografia, observo ainda as ferramentas da fotografação. E, ao entender o olho na condição de ferramenta primária e primeira, deslumbro a discussão acerca da essência do ver e do olhar. A câmera e o processo de tratamento também são ferramentas que, junto com a luz, traduzem a realidade que o fotógrafo torna vestígio de um instante e, além de tudo, torna esse vestígio mais um “objeto no mundo”.

Nesse sentido, parafraseio o arquiteto e filósofo Pedro Antonio Janeiro, pois creio que a fotografia, à maneira do Desenho, é a ação com que se trata de “achar o brilho que escorre pelos contornos das coisas que compõem aquilo-a-que-chamo mundo” (10).

Sótão do edifício d’A Tribuna, rua da Aurora, Recife, Pernambuco, c. 1943
Foto Benício Whatley Dias [Acervo Arquivo Iphan PE]

Enfim, a fotografia é a festa que a luz faz no mundo!

No âmbito teórico e prático, as categorias  e as matérias da fotografia são diversas da Arquitetura. Do ponto de vista da História, a fotografia deriva da pintura de paisagens e da literatura produzida por viajantes que, ao longo dos séculos, buscaram registrar para outros tempos o que viram e sentiram em suas andanças pelo mundo. Assim, os documentos visuais fotográficos “falam” para dar a conhecer o acúmulo de informações que registram, “sugerindo” critérios para apropriada análise.

Ainda em decorrência das leituras, verifiquei que o ato fotográfico privilegia tanto a técnica para transmitir conhecimentos quanto a intenção de representar ao máximo a coisa fotografada.  Dessa perspectiva, na fotografia, da mesma forma que na Cartografia, ainda persistiria o caráter pictórico tão característico das representações imagéticas históricas.

Janela do edifício d’ A Tribuna, vendo-se o bairro da Boa Vista, Recife, Pernambuco, c. 1943
Foto Benício Whatley Dias [Acervo Arquivo Iphan PE]

Acrescente-se ainda o fato de que as coleções de fotografias constituem conjuntos de representações cujos conteúdos exigiriam interpretações interdisciplinares. Portanto, os registros visuais são espécies singulares de “textos”, cuja importância deriva também das possibilidades com que, gerando outras imagens e memórias, oferecem diferentes leituras (11).

E, enfim, na medida em que a fotografia se apresenta hoje em fase de grande transformação técnica, os registros visuais históricos, produzidos e tratados com instrumentos mecânicos e manuais, tornaram-se bens culturais que exigem conservação e interpretação criteriosa.

Para os fins desse estudo, entendo que as imagens fotográficas expressam o pensamento da sociedade, mas são, também, expressão e registro do caráter das cidades. Assim, as fotografias são ferramentas essenciais para a identificação, preservação e promoção das formas construídas históricas. Quando se trata de ver a Arquitetura e o Urbanismo e as transformações de lugares e edifícios, a fotografia, antes de ser uma imagem a ser traduzida e interpretada, pode ser vista na condição de objeto gráfico-visual.

Construção da Ponte Duarte Coelho e dos edifícios modernos da avenida Guararapes, vendo-se, à esquerda, a torre da Igreja do Paraíso, Recife, Pernambuco, 1943
Foto Benício Whatley Dias [Acervo Arquivo Iphan PE]

Assim delimitada, a fotografia é um Desenho.

Entretanto, importa ressaltar que o objeto e o modo de ver comporiam complexa equação para o entendimento da categoria fotografia-Desenho, pois, ao se estabelecer a relação da fotografia com as representações gráficas da cidade, esta pode ser percebida em dois tempos históricos: passado e presente. Dessa maneira, à luz do olhar do fotógrafo e do olhar do pesquisador, dois mundos e duas cidades poderiam ser imaginados e configurados.

No texto “Documentação necessária”, além das referências poéticas que atribuem à fotografia condição excepcional para os estudos da Arquitetura e do Urbanismo, Lucio Costa afirma que as ações de inventário de conhecimento devem utilizar a “fotografação" por serem as imagens assim geradas os novos registros históricos. O arquiteto acrescenta que, ao propiciarem, por comparação, melhor análise dos processos de arruinamento, as fotografias são instrumentos essenciais para a conservação dos bens culturais (12).

Nestor Goulart Reis Filho, por sua vez, sugere referencial metodológico ao propor um roteiro para a identificação e análise de imagens históricas. Para ele, as atividades de reconhecimento desses lugares abrangeriam a comparação com fotografias clicadas na contemporaneidade, o que possibilitaria a melhor definição dos principais critérios de análise (13).

Travessa do Carmo, Recife, Pernambuco, 04 abril 1940
Foto Benício Whatley Dias [Acervo Fundação Joaquim Nabuco – Ministério da Educação]

 

Recomendações semelhantes às de Costa e de Reis Filho acerca da importância da fotografia para os projetos de restauro de bens culturais também são reconhecidas e registradas nas Cartas da Unesco e das agências de proteção dos patrimônios internacionais.

O estudo abrangeu ainda o tema das “Coleções”. Em primeiro lugar, verifiquei que as coleções se constituem de conjuntos de coisas e espécimes com o principal objetivo de transmitir conhecimentos. Na sequência, as coleções são instituídas e também instituem modos de perceber e de olhar.

Olhares recortados de estudiosos dedicados e de mercadores cobiçosos tornaram ampla e diversa a prática e as formas do Colecionismo desde a Roma Antiga. Mas, o olhar inicial é o do colecionador que, apesar de sua paixão em ajuntar, preservar, organizar, entesourar e expor, correu o risco de falhar no processo de realizar seus desejos.

Até hoje variável e mutante, a prática de colecionar adquiriu sentido moderno e científico no Renascimento por meio da sistematização e tratamento classificatório. Na atualidade, as coleções, ao expressarem o significado e o valor das coisas e espécimes do mundo, conforme antes comentado, são também consideradas bens culturais de exceção (14).

Frontispício da Igreja do Bom Jesus dos Martírios, Recife, Pernambuco, c. 1970
Foto Benício Whatley Dias [Acervo Arquivo Iphan PE]

Tais observações simples e concisas incluem tanto o indivíduo colecionador quanto a instituição de guarda, agregando ainda referências à função e o significado que ambos obtiveram durante as suas ‘vidas históricas’.

Ao narrar a sua história da fotografia brasileira, ele registrou tipos populares, feiras, mobiliário e obras de arte, arquitetura e bairros da então periferia recifense – Santo Amaro, Madalena, Casa Forte e Boa Viagem. Imagens de muitas cidades do Nordeste –  Olinda, Igarassu, Garanhuns e Caruaru, e da Região Norte também estão representadas em sua obra fotográfica em virtude do trabalho no Iphan, preferências pessoais e viagens de negócios.

À maneira de Walt Whitman que “urbanizou” Nova York com o olhar de poeta (15), Benício Whatley Dias, com olhar de documentalista, também “urbanizou” o Recife.  Poeta da imagem, revelou as antigas e as novas configurações físicas que expressaram as mudanças e a transição do passado colonial para a modernidade eclética e modernista na capital pernambucana. Suas paisagens, becos, ruas e avenidas, pontes, edifícios, construções e demolições permitem recuperar as transformações dos bairros centrais e do porto do Recife. Seus panoramas urbanos e rurais, igrejas e conventos, engenhos e edifícios modernos, e detalhes construtivos e artísticos revelam a história do nosso patrimônio moderno e histórico.

Pátio do Paraíso, vendo-se a igreja e o hospital do Paraíso, demolidos em 1944, Recife, Pernambuco, c. 1942
Foto Benício Whatley Dias [Acervo Fundação Joaquim Nabuco – Ministério da Educação]

A organização das suas coleções demonstra as ideias de preservação de acervos, na medida em que permite verificar que Benício, também intelectual e crítico de excelência, percorre e faz percorrer lugares, temas e motivos não apenas com as imagens captadas de suas lentes e as lentes de outros fotógrafos, mas também com obras artísticas. Nesse sentido, destacam-se as reproduções originais de Constantino Barza, J. J. de Oliveira, F. du Bocage, L. Krauss-Carls, entre os mais destacados fotógrafos e gravadores do século 19 e  início do século 20.

Nas imagens fotográficas de Benício Whatley Dias, assimetrias, diagonais e contrastes das construções, objetos e ferramentas, e gestos e expressões corporais das pessoas fotografadas retêm e intrigam o olhar do observador.

Os elementos urbanos do Recife moderno, os rios, pontes e cais são os motivos mais constantes no seu repertório. Em outros momentos, ele mescla a sua presença com requinte minimalista, surpreendendo quem observa a cena. Desse modo, ao perceber o fotógrafo a fazer parte das situações fotografadas, dentre os exemplos mais puros de suas intenções, surpreendi-me também, em milhar e meio de imagens, com os seus próprios retratos, os barcos e estivadores, os novos armazéns do porto do Recife, a vendedora de ovos na feira de Garanhuns, e com Ascenso Ferreira a exibir, com ar divertido, um tijolo intacto entre os escombros das demolições.

Às fotografias das demolições e dos interiores das construções condenadas, juntam-se os detalhes. Desse modo, portas, peitoris, balaustradas e adornos sugerem adágios compostos de sons ocos e contidos que a cidade está a perder. Nesses momentos, na dramaticidade das sombras com que constrói suas imagens, Benício Whatley Dias destaca os detalhes construtivos e os adornos, revelando a força das estruturas históricas e as texturas dos materiais que as compõem.

Demolição à rua Saldanha Marinho, Recife, Pernambuco, 1940
Foto Benício Whatley Dias [Acervo Fundação Joaquim Nabuco – Ministério da Educação]

Na série de fotografias da demolição do edifício-sede do jornal A Tribuna, situado nas cabeceiras da ponte Duarte Coelho que liga os bairros de Santo Antônio e Boa Vista, é possível identificar a arte e a emoção de Benício, fotógrafo e personagem a percorrer território condenado. Porém, a construção da ponte nova anunciava a extensão da cidade e também motivou o espírito criador do fotógrafo. Assim, as suas visadas e perspectivas denunciam o prazer e o orgulho da obra de engenharia com a qual a então metrópole do Nordeste procurava se tornar moderna.

Entretanto, a representação mais evidente que ele poderia criar do momento de transição do Recife no início da década de 1940 é a fotografia do pilotis do edifício-sede da Secretaria da Fazenda do estado de Pernambuco. Ao lado das cenas que apresentam construções de edifícios modernos e as demolições realizadas para a abertura das novas avenidas – Guararapes, Dantas Barreto e Conde da Boa Vista –, a imagem da torre da igreja de São Francisco e da discreta presença das empenas de sobrados que serão demolidos sintetizam o seu espírito crítico e a sua aguçada sensibilidade social.

Sob a luz do olhar moderno, crítico, realista e melancólico de Benício Whatley Dias, a estrutura excepcional do passado ainda presente, a nova construção, e as futuras destruições miravam o vazio a contrapelo da história.

Escola Rural Alberto Torres, projeto de Luiz Nunes em 1935. Recife, Pernambuco, c. 1950
Foto Benício Whatley Dias [Acervo Fundação Joaquim Nabuco – Ministério da Educação]

notas

1
Na década de 1990, então diretora do Departamento de Identificação e Documentação do Iphan, elaborei, em parceria com Maria Helena Costa Pinto, Coordenadora da 5ª Superintendência Regional, o projeto da Coleção Fotógrafos do Iphan, a qual seria iniciada com a obra de Benício Whatley Dias (1914-1976). Fizemos apenas a escolha das fotografias e o projeto gráfico do livro inaugural. Em 2014, para comemorar o centenário do nascimento do fotógrafo, iniciei a pesquisa O Patrimônio e a Arquitetura do Recife nas fotografias de Benício Whatley Dias. Desenvolvido com o apoio do CNPq e da Facepe no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Urbano – MDU/UFPE, o estudo pretende confirmar a importância das fotografias de Benício Whatley Dias, intelectual pernambucano e irmão mais velho da minha mãe, que foi  também remador, comerciante, advogado e professor de História da Arte na Escola de Belas Artes da Universidade do Brasil em Pernambuco. Na infância e adolescência, junto com irmãos e primos, realizei pequenas viagens para “tirar” fotografias de igrejas tombadas, surpreendi-me com as revelações dos negativos e cópias, admirei as aulas e ensinamentos para a vida, estudo e trabalho. Risadas e tiradas alegres são flashes das minhas melhores lembranças vividas na casa de número 418 da Estrada Real do Poço, no bairro de Casa Forte do Recife, onde ele morava. Portanto, apresento neste artigo, com razão e afeto, alguns aspectos esquecidos da história da fotografia brasileira.

2
A antropóloga Fabiana Bruce da Silva enquadrou Benício Whatley Dias entre os pioneiros fundadores da fotografia Moderna do Recife, tratando-o na condição de personagem paralelo em sua tese de doutoramento, a qual enfoca principalmente o fotógrafo e professor Alexandre Berzin e o fotoclubismo recifense: SILVA, Fabiana Bruce da. Caminhando numa cidade de luzes e sombras. Recife, Massangana, 2013. Ver também artigo que apresenta os tipos populares do Recife baseado nas imagens do fotógrafo: MARROQUIM, Dirceu Salviano Marques. Onde dormem os tipos populares? (Recife, 1939-1943). In Anais do Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro, v. 46, 2014, p. 125-139. E, um livro com fotografias de Benício Whatley Dias foi lançado em dezembro deste ano: ÁLBUM de Benício Dias. Recife, CEPE, 2015.

3
FREYRE, Gilberto. Guia sentimental da cidade do Recife. Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1961, p. 108.

4
Idem, p. 126-127.

5
Idem, p. 161-162.

6
GUIMARAENS, Cêça. Dois olhares sobre o patrimônio cultural: Lina e Lygia. Dissertação de mestrado. UFRJ / ECO, 1994.

7
LORETTO, Rosane Piccolo. Paraíso e martírios: histórias da destruição de artefatos urbanos e arquitetônicos no Recife. Recife, Editora Universitária UFPE, 2008, p. 225.

8
Idem, ibidem, p. 224-226.

9
No final do século 19, os fotógrafos se identificavam “fotógrafo amador”.

10
JANEIRO, Pedro António. O papel do desenho. Lisboa, Caleidoscópio, 2013, p. 32.

11
MAGALHÃES, Aline Montenegro; BEZERRA, Rafael Zamorano (Org.). Coleções e colecionadores; a polissemia das práticas. Rio de Janeiro, Museu Histórico Nacional, 2012.

12
COSTA, Lucio. Registro de uma vivência. São Paulo, Empresa das Artes, 1995, p. 457-462.

13
REIS FILHO, Nestor Goulart. Notas metodológicas. In Evolução urbana no Brasil. São Paulo, Pini, 2000, p. 199-210.

14
MACDONALD, Sharon. Colleting practices. In MACDONALD, Sharon (Org.). A Companion to Museum Studies. Oxford, Wiley-Blackwell, 2011, p. 81.

15
SCHMIDT, Elizabeth.  Foreword. Poems of New York. Nova York, Everyman's Library Pocket Poets, 2002, p. 18.

sobre a autora

Cêça Guimaraens é arquiteta, doutora em Planejamento Urbano e Regional, professora associada da UFRJ, pesquisadora do CNPq e diretora do Instituto de Arquitetos do Brasil.

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186.02 fotografia
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