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architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
Atualmente, sob a iniciativa da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, está em curso a implantação de um grande projeto de requalificação urbana da frente marítima na Zona Portuária Central em extensa área ociosa.

english
Currently, under the initiative of the City of Rio de Janeiro Municipality, it is in progress the implementation of a large-scale waterfront revitalization project of its central harbor in an extensive idle area.

español
En la actualidad, bajo la iniciativa de la Municipalidad de Río de Janeiro, ocurre el desarrollo de un importante proyecto de renovación urbana del paseo marítimo de la zona portuaria en un gran espacio vacío en el centro de la ciudad.


how to quote

BARKI, José; MIYAMOTO, James. Waterfront no Rio de Janeiro. Oportunidades e Impertinências. Arquitextos, São Paulo, ano 16, n. 190.03, Vitruvius, mar. 2016 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/16.190/5991>.

Introdução

A presente pesquisa é estruturada basicamente em três fases (concepção/conceituação, implantação e consolidação) a ser desenvolvida em aproximadamente cinco anos.

O presente artigo, dedicado à concepção e correspondente à primeira fase da pesquisa, são destacados: a relevância da região portuária na história da cidade do Rio de Janeiro, sua atual condição de decadência econômica e ambiental e as bases conceituais que norteiam a concepção deste projeto de revitalização urbana, em condição específica de waterfront. Desta forma, são identificados os instrumentos que norteiam sua estruturação físico-espacial. Parte-se do pressuposto de que a questão da “permanência dos fatos urbanos” pode ser vista como uma herança indutora no processo de desenvolvimento urbano: os tais “elementos patogênicos e propulsores” considerados por Rossi. O prazo relativo a esta fase foi iniciado em julho/2014 e se prolonga até dezembro/2015.

As condições de salubridade da Baía de Guanabara (uma das promessas do chamado legado Olímpico.

  • As soluções no âmbito da mobilidade e acessibilidade urbana
  • Os primeiros usos estabelecidos:comercial, residencial, institucional etc
  • A qualidade das obras de arquitetura, engenharia e desenho urbano
  • A apropriação inicial dos espaços públicos
  • O tratamento paisagístico da região etc. Esta fase deve compreender o período de janeiro/2016 à dezembro/2016

A terceira fase do trabalho, dedicada à consolidação do projeto urbanístico, envolverá uma análise detalhada da região sob o ponto de vista ambiental, econômico, social etc. em função desta iniciativa de desenvolvimento de projeto de revitalização urbana em área vizinha à Baía de Guanabara (waterfront). Em instância final, o objetivo da pesquisa é verificar a qualidade das intervenções, à luz da necessidade de se conformar um ambiente (cada vez) mais participativo, resiliente,saudável, sustentável etc. Esta fase deve ser concluída em dezembro/2019.

Breves antecedentes históricos

A fundação da cidade do Rio de Janeiro é intimamente ligada à Baía de Guanabara. O conteúdo histórico é tema recorrente de diversas pesquisas realizadas por autores como Melo (1), Lessa (2), Abreu (3) e Delgado de Carvalho (4), entre muitos outros. Em linhas gerais, a estruturação física da cidade deu-se principalmente em função de aspectos econômicos, militares e portuários possibilitados pela conformação geográfica por uma extensão de terra confinada entre as montanhas e o mar, mas protegida pela baía.

Dessa forma, a fixação dos residentes se desenvolveu inicialmente em um quadrilátero próximo à Baía cujos vértices eram os Morros do Castelo, de Santo Antônio, de São Bento e da Conceição, durante o período colonial português (entre os séculos 15 e 19). Nos morros, já se buscava a exuberante vista da Baía de Guanabara e habitações de bom nível foram, aos poucos, surgindo na região.

Posteriormente, a vinda da Família Imperial Portuguesa, no século 19, - cuja chegada, aliás, deu-se nessa região, - impulsionou fortemente o desenvolvimento dessa área central e grandes chácaras foram, aos poucos, sendo subdivididas e diversas ruas foram abertas. Assim, foram criados os bairros da Saúde, Gamboa e Santo Cristo. O casario se erguia em terrenos estreitos, mas com grande profundidade, e mantinha-se um modelo colonial. Gradativamente, se conformariam muitas vielas e acessos em desníveis, escadas e ruas sinuosas, em função da topografia.

Paralelamente, muitos cortiços surgiram, em situações bastante insalubres em função do crescimento desordenado. De forma geral, havia déficit de moradias e a presença de doenças relacionadas à falta de saneamento, densidade excessiva, epidemias de febre amarela, alagamentos etc. eram características locais.

A administração do Prefeito Pereira Passos, já no início do século 20, é responsável pelas feições que foram assumidas por essa região portuária. A intenção da intervenção era ordenar o transporte coletivo, implantar redes de drenagem, abrir ruas etc., em meio a muitos aterros que objetivam criar áreas de expansão e eliminar zonas de manguezais e áreas de despejo de esgoto. Foram erguidos muitos armazéns, mercados, serralherias, fábricas etc. em função da característica de entreposto daquela área. Da mesma forma, as linhas férreas que interligavam as áreas produtivas do interior do país ao litoral contribuíram para a construção da paisagem urbana local.

O quadro recente é de absoluta decadência. Inúmeros galpões que eram utilizados como armazéns ou fábricas, em função da situação portuária, encontram-se abandonados há décadas, assim como terrenos que eram utilizados como pátios de entrepostos comerciais ou estacionamentos. O casario de pequenos sobrados sofre descaracterização e desmonoramento. A população local é decrescente. Importantes paisagens e edificações históricas encontram-se ocultos pela degradação, desinteresse e negligência inclusive pública. É importante admitir que o viaduto da Perimetral sempre contribuiu fortemente para que a relação visual entre o ambiente construído e a Baía de Guanabara fosse prejudicada.

Presente e futuro

O Rio de Janeiro é a cidade ícone do Brasil, talvez o maior o símbolo da “brasilidade”. Nos interstícios de sua paisagem original e única, irrompe uma cidade que ocupa superfícies planas irregulares, em uma sucessão de “estilos” que definem diferentes períodos da história. Esta mistura entre utopia e realidade, entre beleza e feiúra, entre pobreza e riqueza, são os ingredientes que atraem o interesse mundial.

Os sinais de decadência são evidentes na Zona Portuária.

O professor Duarte, em relação aos bairros locais, assim comenta:

Os efeitos negativos do longo processo de esvaziamento da função residencial da área central, verificado ao longo do século passado, estenderam-se sobre os bairros da Gamboa, Saúde e Santo Cristo, Cidade Nova, Lapa e São Cristovão, todos situados no entorno do centro de comercio e negócios da cidade. Imersos, por assim dizer, numa “zona de sombra”, esses bairros vivenciaram um grave processo de estagnação urbana, desprovidos de investimentos públicos e alijados da dinâmica imobiliária da cidade (5).

A iniciativa do projeto de revitalização urbana é da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro (PCRJ), em colaboração com o Governo do Estado e o Governo Federal, a partir da criação da Operação Urbana Consorciada da Área de Especial Interesse Urbanístico da Região Portuária do Rio de Janeiro. Como em outros exemplos internacionais, em tese, busca-se requalificar a região, através da implantação de um projeto urbano (waterfront), principalmente, a partir da renovação imobiliária de extensos terrenos e galpões ociosos, a criação de equipamentos culturais e de lazer, a ênfase na diversidade social, o incentivo à moradia e à multiplicidade de usos, a valorização do patrimônio arquitetônico, o reestudo do sistema viário de forma a se criarem instrumentos eficientes de mobilidade urbana, o estudo paisagístico que recupere a relação com a Baía de Guanabara e crie ambientes mais aprazíveis etc.

Região Portuária do Rio de Janeiro, RJ [portomaravilha.com.br]

É fato que muitas ideias foram cogitadas desde os anos 1980, sem efetiva implementação. No entanto, é imprescindível uma análise mais aproximada para que se compreendam os possíveis benefícios e malefícios que advém dessa grande intervenção.

Deve-se pontuar que a cidade do Rio de Janeiro, além de ter sido uma das cidades-sedes da Copa do Mundo de Futebol 2014, receberá os Jogos Olímpicos 2016. Há, por si, uma grande preocupação com medidas que venham a beneficiar quase exclusivamente os interesses esportivos, sem que se dê atenção aos possíveis legados à cidade e seus habitantes.

Terminada a Copa do Mundo de Futebol 2014, há uma atmosfera de otimismo diante do seu relativo sucesso. Receia-se se as iniciativas previstas para os Jogos Olímpicos 2016 serão de fato realizadas. Diversas obras previstas para os aeroportos, hotéis, linhas de metro, BRTs, requalificação ambiental etc. ainda não foram executadas. Nesse caso, é importante destacar que a participação da administração pública é sempre fundamental na direção propositiva e executiva da gestão, além de garantir seu caráter de agente regulador.

Inicialmente, a Zona Portuária não era parte dos documentos Olímpicos. Entretanto, em certo momento, passou a ser. Atualmente, por razões pouco nítidas, em outra mudança de rota, não fará mais parte das iniciativas que pareciam finalmente incentivar e fortalecer o caráter residencial do Centro da cidade do Rio de Janeiro. Ao que parece, os bairros da Barra da Tijuca e Jacarepaguá ancorarão a maior parte da estrutura do evento esportivo.

De toda forma, a Baía de Guanabara é (ou era) um dos compromissos firmados na candidatura à sede dos Jogos Olímpicos, em documento firmado entre o Comitê Olímpico Brasileiro e o Comitê Olímpico Internacional, com anuência dos Governos Municipal, Estadual e Federal:

Assegurados pelo Plano Nacional de Saneamento Básico (2008) do Governo Federal que define os alvos do tratamento no nível nacional, estadual e municipal, com investimentos de US$ 4 bilhões que já foram alocados aos programas de restauração (Programa de Despoluição da Baia de Guanabara e da Barra - Jacarepaguá) que irão resultar na coleta e no tratamento de 80% de todos os esgotos até 2016 (6).

A despoluição da Baía de Guanabara deveria preceder qualquer medida associada ao projeto de revitalização da Zona Portuária. Trata-se de um tema que envolve todo um ecossistema urbano, dentro de um contexto de resiliência e sustentabilidade, associado a aspectos ambientais, econômicos, sociais etc.

Poluição Baía de Guanabara [riomais.benfeitoria.com. Licensa creative commons]

Deve-se sublinhar também que diferentes tipologias habitacionais deveriam ser fortemente consideradas, juntamente com edifícios comerciais, corporativos, lojas e hotéis, dentre outros usos. Da mesma forma, deveria ser prevista uma diversidade de áreas recreativas, esportivas, contemplativas etc. estruturada por um projeto paisagístico que incentivasse uma rica ocupação com uma equilibrada distribuição de áreas verdes e permeabilidade do solo. Dessa forma, poderiam ser criados ambientes de grande qualidade ambiental que se beneficiariam fortemente pela condição de waterfront. Com a tão esperada (e distante) despoluição da Baía de Guanabara seria possível desenvolver inclusive atividades náuticas e esportes aquáticos.

A partir de uma perspectiva de argumento que correlaciona às estratégias locais e o fato catalisador (“estímulo”), Del Rio sintetizou, em artigo denominado “Em busca do tempo perdido. O renascimento dos centros urbanos”, algumas idéias. Em meio à citação de exemplos pontuais presentes em Baltimore, Bilbao, Boston, Curitiba, Salvador etc., por exemplo, que ancoraram processos revitalizadores urbanos em equipamentos públicos e privados, áreas de lazer, museus, marinas, aquários, lojas, mercados, hotéis, habitação etc., destaca que “embora, evidentemente, esses catalisadores não possam garantir o sucesso da revitalização como um todo, eles têm se mostrado essenciais para dar partida e, muitas vezes, sustenta[r] todo o processo”.

Relata ainda o autor que “o estudo das experiências bem sucedidas aponta para cinco aspectos fundamentais dos projetos

  • complexos processos de planejamento, monitoramento, gestão e marketing
  • mix estudado de diversos usos do solo, com a presença de “âncoras” sólidas
  • respeito à memória coletiva e ao contexto preexistente (físico-espacial e sócio-cultural)
  • atenção ao poder das imagens e da qualidade projetual
  • implantação através de processos colaborativos entre os grupos envolvidos (governo, comunidade e empresários).

Por um outro olhar, no contexto das iniciativas promocionais de diferenciação atrativa das cidades, novas técnicas e estratégias de abordagem do ambiente urbano incorporaram iniciativas que podem ser sintetizadas, sem rigidez plena, em cinco vertentes principais

  • Arquitetura e Desenho Urbano
  • Infraestrutura
  • Serviços Básicos
  • Meio-Ambiente e Ecologia
  • Atrações (7)

Em uma instância convergente e final, verificam-se que estas tais formas de lidar com o ambiente da cidade buscam na realidade uma espécie de “reimageabilidade” urbana. Em se tratando, principalmente, de grandes cidades de países em desenvolvimento com problemas típicos na qualidade de suas formas urbanas, esta nova imagem deve estar apoiada em bases consistentes que lidem com as questões estruturais mais vicerais de longo prazo para a cidade.

Como sublinhado anteriormente, por exemplo, é inadmissível, inclusive e principalmente, por se tratar de um projeto que se propõe a ser do tipo waterfront, que se desenvolvam iniciativas que possuam como pano de fundo uma baía completamente poluída. Há um grave custo social, econômico e ambiental que pode minar significativamente a possibilidade de sucesso de um projeto que levou tantos anos para ser implantado e se revela inconsistente do ponto de vista da sustentabilidade ambiental, econômica e social.

Outro grande equívoco na implantação do projeto urbanístico parece ser um planejamento – ou a falta de um planejamento, - que desconsidera: a) uma maior variedade de usos urbanos, com um incentivo mais claro à ocupação residencial; b) a necessidade de um estudo aprofundado do estudo de massas e da morfologia urbana; c) uma maior diversidade sócio-econômica e cultural dos partícipes dessa região etc. Uma parte dos urbanistas e da população da cidade tem se contraposto à um projeto que se propõe de revitalização urbana que parece prever um futuro quase tão somente de grandes edifícios corporativos ou de lazer (aquário, museus etc.) circundados por áreas livres com pouca vitalidade urbana em sua vida cotidiana. A coexistência de diferentes usos poderia conferir um uso mais intenso, rico e diversificado da região. Como se sabe, grupos residenciais adequadamente implantados podem adquirir o papel de âncoras de empreendimentos de revitalização urbana e propiciar a existência de espaços públicos livres com maior identidade pela comunidade. O equilíbrio necessário a uma formulação pragmática, precipuamente vinculada à espacialidade pública, deve estar também estruturado em condutas que assegurem a possibilidade de pluralidade de convivências (sócio-econômicas, raciais, etárias etc.) e concomitante maximização qualitativa e quantitativa de usos. Parcelas diferenciadas da população devem ser consideradas na definição do espaço urbano, tornando-o mais democrático em sua concepção e existência.

Ao se propor uma política de maior abrangência social, especificamente diante do contexto da configuração físico-espacial urbana, são reconhecidas as particularidades locais e evidenciadas as necessárias atenções equitativas de reconhecimento e justiça social. Deve-se objetivar ações neste âmbito que se democratizem benefícios, combatam a segregação socioespacial e assegurem o direito aos serviços públicos.

A apropriação da ocorrência de um grande evento esportivo como um fator de estímulo à requalificação do ambiente urbano é apenas um viés que lida com uma parcela delimitada da cidade e de sua infraestrutura urbana, ainda que os objetivos devam ter caráter sistêmico. A intenção de contextualizar o grande evento esportivo a uma cidade-sede com as características típicas de uma grande cidade de um país em desenvolvimento, onde os desequilíbrios sócio-econômicos se refletem na configuração físicoespacial, é complexa, em função principalmente da multidimensionalidade da questão da pobreza existente.

Diversas outras considerações podem ser apontadas como relevantes, mas, infelizmente, algumas serão inócuas, no momento, como a medida que levou à total demolição do longo viaduto de quase 5Km que ali existia conhecido como Perimetral. Um aprofundado estudo das massas possíveis e as formas de ocupação do local, por exemplo, poderiam otimizar recursos consideráveis, com a retirada apenas parcial do viaduto, mas com a manutenção parcial do uso como local de tráfego de veículos. Ou ainda, o aproveitamento de um trecho para a implantação de uma grande área pública de lazer (mirante) sobre o viaduto com ampla visão da Baía de Guanabara (nos moldes da High Line de Nova York).

Demolição do elevado da Perimetral [Acervo dos autores]

Deve-se reconhecer, no entanto, que, no trecho localizado entre o Museu Histórico Nacional e imediações do Moinho Fluminense, há muitos aspectos positivos em relação à intervenção urbanística em curso no que concerne à remoção de parte do viaduto da Perimetral. Haverá a recuperação da ligação com a Baía de Guanabara, a promoção de uma ambiência mais livre e propícia à circulação de pedestres e ao lazer em espaços públicos livres ao rés do chão e a visibilidade de diversas edificações de importância cultural destacada. Desta forma, na base específica das medidas de revitalização anteriormente citadas, identifica-se que pode haver especial interesse nos campos: ambiental, cultural, social etc.

Em função da demolição da Perimetral, no interstício entre a Praça Mauá e as proximidades do Canal do Mangue, estão previstos dois longos túneis que perfazem cerca de 4,8Km de extensão total. Esse recurso foi utilizado como forma de assegurar a retirada do fluxo pesado de veículos do nível do solo e possibilitar um trânsito de pedestres mais seguro.

Moinho Fluminense (ao fundo) [Acervo dos autores]

 

Uma questão relevante para a cidade do Rio de Janeiro seria estabelecer uma nova matriz de intermodalidade de mobilidade urbana. Ocorre de fato uma modernização de instrumentos de mobilidade urbana com a utilização de veículos leves sobre trilhos (VLT) e a implantação de uma via estrutural importante no sub-solo de forma a livrar o nível do piso do tráfego de automóveis. No entanto, são medidas ainda relativamente tímidas diante do caótico estado do transporte na cidade. Integrar e modernizar os transportes de massa com conexões racionais e criativas para as regiões próximas e periféricas através, por exemplo, teleféricos, linhas de trens, linhas de metros, ciclovias ou mesmo pela água na Baía de Guanabara transformaria significativamente a forma de ocupação da cidade com ganhos em qualidade de vida para a população.

Linhas de VLTs [portomaravilha.com.br]

Desde a década de 1970, indústrias fechadas, rupturas sociais e ambientais causadas por obras de cunho rodoviarista, favelização etc. provocaram a perda da capacidade econômica do histórico bairro de São Cristovão. Integrá-lo ao conjunto de ações previstas para a zona portuária, como elemento de um projeto de reabilitação urbana, seria uma forma de se resgatar a centralidade de um bairro que possui considerável infraestrutura urbana (sistema viário, água, esgoto, eletricidade etc.) e que se encontra subutilizado em suas potencialidades residenciais, comerciais, culturais, turísticas etc. Os benefícios poderiam ser amplos e recíprocos.

O professor Duarte sintetiza o problema de São Cristovão na seguinte passagem:

A despeito do otimismo do mercado imobiliário, realimentado agora pelos investimentos esperados como parte dos preparativos para a Copa do Mundo de 2012 e a Olimpíadas de 2016, o bairro de São Cristóvão segue envolto num processo de degradação urbana e de fragmentação do tecido urbano e social. Queixas quanto à poluição ambiental provocada pelo fluxo intenso dos veículos automotivos, a insegurança permanente nas ruas do bairro, a destruição ou ruína do patrimônio cultural ainda existente, bem como a ausência de investimentos destinados a requalificação dos espaços públicos e de convivência cotidiana são, de um modo geral, a expressão consensual da percepção externalizada pelos moradores e usuários locais. E nada, no horizonte próximo, parece indicar qualquer tentativa por parte do Poder Público Local de mediação dos interesses em jogo, sobretudo os interesses dos atuais moradores que se mostram, muitas vezes, antagônicos aos do mercado imobiliário (8).

Sem que se pretenda dispersar dos objetivos relacionados a este estudo, a intenção de uma revisão crítica da questão social e urbana é assegurar uma linha conceitual que permita a formulação de um viés estimulante de significância à cidade e aos seus usuários: a “metodologia de impulso ideológico” (9), mas, destacadamente, vinculada aos estímulos catalisados pela ocorrência de um grande evento esportivo. Intenciona-se, antes de mais nada, a alocação de recursos para a promoção do bem e da justiça social, a partir do estímulo deste “fato localizado”.

Evidentemente, existe espaço para um equilíbrio entre “a constituição de um nó urbano de gestão de serviços avançados organizados” (10), as técnicas e formalismos atrativos (atualmente em evidência nos meios urbanos internacionais) e as atenções projetuais pontuais. Ao reconhecer os novos “processos de mundialização econômica”, propõe-se uma resposta polissêmica que compreenda um quadro mais articulado dos conceitos de “local” e “global” nas formulações que assumam as imbricações entre os campos disciplinares do planejamento e do projeto urbano, com atenção às particularidades de cada cidade.

A iniciativa e incentivo de construção de museus, aquário, hotéis, píer para transatlânticos internacionais, ciclovias etc., para o bem ou para o mal, fazem parte do cardápio dos projetos de revitalização urbana, inclusive do tipo waterfront, e estão todos contemplados. A lendária praça Mauá, por exemplo, é valorizada com novos usos em seu entorno, tratamento paisagístico específico, retirada do trânsito de automóveis etc.

Praça Mauá [portomaravilha.com.br]

De forma geral, até o momento, o projeto urbanístico não é revelado publicamente. Não se sabe ao certo como serão desenvolvidos os projetos paisagísticos, onde estarão as áreas comerciais, de que forma se dará o mobiliário urbano e a programação visual, se existirão instrumentos sustentáveis de energia e aproveitamento de águas pluviais, além de tratamento de esgoto, gerenciamento de resíduos etc.

Por fim, é importante sublinhar que, ao invés de cumprir o mero e exclusivo papel de gerenciadora ou mediadora, a gestão pública deve ter uma disposição proativa, focada em escopos, dentre os quais, aqueles que possam resultar na qualificação positiva do espaço urbano, com consequências na formação da imagem, na estruturação atrativa e na geração de recursos financeiros e, paralelamente, na minoração dos problemas vigentes: “O melhor produto que a cidade pode oferecer é ela mesma e sua qualidade urbana” (11).

Conclusão

O Rio de Janeiro tem seu presente e futuro próximo relacionados ao fato de sediar dois importantes megaeventos esportivos: Copa do Mundo de Futebol (2014) e Jogos Olímpicos (2016). Argumentava-se que a revitalização da Zona Portuária seria um dos legados Olímpicos.

Até o momento, no âmbito da cidade do Rio de Janeiro, tem-se pouco conhecimento de projetos de arquitetura e urbanismo que possam servir às necessidades dos tais eventos e, por conseguinte, à população, principalmente na região da Zona Portuária. Retirar a “Vila da Mídia e dos Árbitros” daquele local significa desconsiderar uma oportunidade de se criar uma estrutura residencial indutora de uma ocupação com diversidade de usos mais ampla e rica.

A despoluição da Baía de Guanabara seria um dos grandes feitos ambientais que poderia estar associada aos eventos esportivos e ao projeto de requalificação (do tipo waterfront). A poucos meses da realização dos Jogos Olímpicos, não há qualquer resultado significativo em relação aos níveis de poluição das águas, em desacordo com as promessas de candidatura.

Embora importante, o chamado efeito catalisador dos Jogos Olímpicos não deve ser a única motivação, nem a mais importante razão, para a integração de uma cidade. Por outro lado, evocar urgências Olímpicas desmedidas, neste ano que antecede aos Jogos, somente remete aos processos licitatórios pouco criteriosos (ou oportunistas).

São oportunidades perdidas ou ignoradas, consideradas impertinências.

Como visto, determinados fatos ou ações podem revelar-se como catalisadores ou delimitadores da configuração físico-espacial da cidade, sob o ponto de vista da resiliência e da sustentabilidade, e da formação de sua imagem. Intervir em uma área tão decadente parece por si um avanço para a cidade e seus partícipes. Contudo, resta saber se o balanço será de fato positivo.

notas

1
MELO, Fernando Fernandes de. A Zona Portuária do Rio de Janeiro: antecedentes e perspectivas. Dissertação de mestrado pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), 2003.

2
LESSA, Carlos. O Rio de todos os Brasis. Rio de Janeiro: Editora Record, 2001.

3
ABREU, Maurício. de A. Evolução urbana do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: IPLANRIO/Zahar, 1987.

4
CARVALHO, C. Delgado. História da cidade do Rio de Janeiro. 2 ed. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, 1990.

5
DUARTE, Cristovão. A problemática da revitalização das áreas pericentrais urbanas: o caso do bairro de São Cristóvão no Rio de Janeiro. https://cristovao1.wordpress.com/2012/10/29/a-problematica-da-revitalizacao-das-areas-pericentrais-urbanas-o-caso-do-bairro-de-sao-cristovao-no-rio-de-janeiro, acesso: fevereiro/2015.

6
Comitê Olímpico Brasileiro (COB). Dossiê de candidatura do Rio de Janeiro a sede dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos 2016, Rio de Janeiro, 2009.

7
BORJA, Jordi & CASTELLS, Manuel. Local y global – La gestión de las ciudades en la era de la información. Madrid: Taurus, 1997, p. 144.

LACAZE, Jean Paul. Os métodos do urbanismo. São Paulo: Papirus Editora, 1993, p. 90.

Hall, Michael C.. Imaging, Tourism and Sports Event Fever in Sport in the City – The Role of Sport in Economic and Social Regeneration, London e NY: Routledge, 2001, p. 167-168.

8
DUARTE, Cristovão. Op. cit.

9
ARGAN, Giulio. C. Projeto e destino. São Paulo: Editora Ática, 2000.

10
BORJA, Jordi & CASTELLS, Manuel. Local y global – La gestión de las ciudades en la era de la información. Madrid: Taurus, 1997, p. 37.

11
BORJA, J. Ciudad y planificación – La urbanística para las ciudades de América Latina in Balbo, Marcello (et alii) (org.). La ciudad inclusiva. Santiago: Cepal (Comisión Econômica para América Latina y el Caribe), 2003, p. 95.

sobre os autores

José Barki é mestre pela Cornell university e doutor pela UFRJ. Professor associado da universidade federal do Rio de Janeiro, na faculdade de arquitetura e urbanismo, programa de pós-graduação em Urbanismo.

James Miyamoto é mestre pela Nagoya university, mestre pela UERJ e doutor pela UFRJ. Professor Associado da universidade federal do Rio de Janeiro, faculdade de arquitetura e urbanismo, programa de pós-graduação em urbanismo.

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