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architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
Como hoje o indivíduo se isola ou se expõe na cidade? A casa ainda é seu “refúgio”? O quarto é seu “ninho”? Tendo como pano de fundo estas questões, são visitadas nesse artigo três casas contemporâneas brasileiras.

english
How does the individual isolates or exposes himself nowadays in the city? Is the house his "refuge"? Is the bedroom his "nest"? Based on these questions, this article visits three Brazilian contemporary houses are visited.

español
¿Cómo hoy el individuo se aisla o se expone en la ciudad? ¿La casa es su “refugio”? ¿La habitación es su “nido”? Teniendo como telón de fondo estas cuestiones, en este articulo son visitadas tres casas contemporáneas brasileñas


how to quote

DA COSTA, Ana Elisia; GERHARDT, Thaís; STRIEBEL, Nathália. Privacidade dramatizada. Apontamentos sobre casas contemporâneas brasileiras. Arquitextos, São Paulo, ano 16, n. 190.05, Vitruvius, mar. 2016 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/16.190/5993>.

Separar, isolar, criar territórios de intimidade no espaço doméstico. O desafio passou a estar mais presente na arquitetura a partir do modernismo. Para isso, a casa ganhou afastamentos e recuos em relação à rua e aos lotes vizinhos e foi separada em zonas (noite e dia) ou setores (social, serviços e íntimo). Em ala isolada, num pavimento reservado ou em mezaninos, o setor íntimo agrupou e individualizou quartos, incorporou um banheiro exclusivo para o setor e assimilou as suítes. Numa visão funcionalista, buscava-se promover a privacidade do indivíduo e do casal, isolando-os dos olhares indesejados de empregados e transeuntes (1).

Com uma visão menos ortodoxa, vale ser mencionada a experiência das Casas Pátio de Mies Van der Rohe. Nelas, os quartos se integram à planta livre e se isolam do exterior por meio de grandes peles de vidro. Nestes casos, a privacidade é, internamente, sugerida por painéis e, externamente, pela definição de pátios privativos para onde se abrem os quartos. Abalos (2), contudo, observa que estas casas são exercícios abstratos, desenvolvidos sem um cliente a solicitar o atendimento de suas demandas de privacidade e “sua implícita rotina de pequenas exigências morais”.

Na arquitetura contemporânea, segundo Monteys (3), a maior parte das casas parece “(...) estar pensada só para dois tipos de atividades: as que se realizam a portas abertas (na sala de estar) e as que são a porta fechada (nos dormitórios).” A porta fechada, contudo, não encerra o problema da privacidade, assegurando apenas o isolamento dos indivíduos dentro da casa. Em relação à rua, a janela é também um elemento de arquitetura muito operante na promoção da privacidade. Diferentes graus desta são estabelecidos pelas grandes superfícies envidraçadas, que dilatam as dimensões dos ambientes e uniformizam a composição da fachada, ou por pequenas janelas, que fazem enquadramentos precisos da paisagem ou permitem a incidência do sol (4)Nos casos em que as aberturas são ocultadas das fachadas principais, abrindo-se para “espaços intermediários” ou pátios internos, a privacidade ganha contornos mais “dramáticos”, pois se nega ao diálogo convencional entre o edifício e a cidade (5).

Regidos, talvez, por essa dramatização, algumas casas contemporâneas brasileira vem assumindo partidos similares – um pavimento térreo, que concentra a zona dia da casa e que é visualmente permeável, serve de apoio a um volume fechado, com pouquíssimas aberturas visíveis, onde está o setor íntimo. A contraposição entre base x corpo, permeabilidade x fechamento, planta livre x planta compartimentada, expansão x isolamento traduz a natureza dual destes projetos. Neste contexto, merecem menção as Casas em Pinheiros (6) e Boaçava (7) do UNA Arquitetos, a Casa Santa Helena (8) do escritório Metro Arquitetos Associados, a Casa AR (9) dos Arquitetos Associados, e ainda, a Casa Terraville (10) do Mapa Arquitetos. Aqui, estão analisados os projetos dos escritórios UNA e Mapa, buscando identificar como o conceito de privacidade é tratado e como ele se relaciona com os projetos.

Casa Terraville, composição volumétrica, Porto Alegre, 2010, Mapa Arquitetos
Foto divulgação [Mapa Arquitetos]

Casa Terraville, composição volumétrica, Porto Alegre, 2010, Mapa Arquitetos
Imagem divulgação [Acervo Mapa Arquitetos]

Casa Terraville

A Casa Terraville foi desenvolvida pelo escritório Mapa (11) e está situada em um condomínio privado na Zona Sul de Porto Alegre - RS, com vistas para um lago artificial. O projeto se organiza em uma área construída de 340 m² e em um terreno de 781m². Como as casas do condomínio ocupam lotes isolados, com recuos e afastamentos obrigatórios, não há pressão direta dos edifícios do entorno no partido adotado. Contudo, as dimensões do lote – profundo, estreito e de meio-de-quadra - condicionam a adoção de um partido prismático retangular. Este prisma se aproxima mais do limite sul, ampliando as dimensões do afastamento a norte, que no sul do Brasil representa a orientação solar mais favorável.

Topograficamente, o terreno é plano. No entanto, um talude frontal “mimetiza” um volume semi-enterrado, que abriga um ateliê e os ambientes do setor de serviços, funcionando como barreira visual entre domínio público e privado. Sintetizando, a volumetria é resultado da adição de dois volumes: um prisma retangular e um volume semienterrado, sendo que o principal, de dois pavimentos, sofre subtrações no térreo para configurar espaços de transição, como garagem e varanda.

As dimensões do terreno e do programa e preocupações com visuais e insolação fazem com que o programa seja organizado em dois níveis. O primeiro pavimento comporta o setor social e de serviço, com ateliê, cozinha e estar. O segundo pavimento abriga o setor íntimo, com três dormitórios e uma sala íntima. A maior parte dos elementos de composição regulares, como estares e dormitórios, é disposta a norte, para receber melhor insolação. Contudo, contraditoriamente, observa-se que os dormitórios têm suas aberturas voltadas para as faces oeste e leste e que o estar do segundo pavimento se fecha para o norte, ficando dependente apenas na iluminação zenital.

Casa Terraville, planta baixa do primeiro e segundo pavimentos [Acervo Mapa Arquitetos]

Os elementos de composição irregulares (12), como serviços e banheiros, são agrupados e orientados no perímetro sul. Esse agrupamento das instalações hidráulicas em um núcleo compartimentado faz com que os demais ambientes possam ser organizados de forma contínua e aberta. O acesso principal ocorre pela garagem, uma grande circulação centralizada, que funciona como espaço de distribuição. Da garagem pode-se seguir para o ateliê, para o estar ou ainda para a circulação de serviço. Neste contexto, a porta de acesso principal é posicionada de forma estratégica, configurando um pequeno hall que permite que haja percursos independentes entre os setores – social, serviço e íntimo, no segundo pavimento.

A espacialidade da residência revela diversas tensões espaciais. Chegando pela garagem, de um lado, já se tem contato imediato com o interior da casa, cujo pavimento inferior é vedado por planos verticais transparentes. Essa perspectiva, somada aos acessos do atelier e do setor de serviços e do vazio da laje que revela parte do pavimento superior, faz da garagem um ambiente com uma tensão multidirecional. Esta característica se mantém no pequeno hall, que sugere diversos percursos, bem como no ambiente do estar-jantar, cuja amplitude sugere vários pontos focais de interesse. Envidraçada, a sala está isolada da rua, mas abre-se francamente para o pátio, sugerindo o convívio familiar, longe dos olhos de estranhos.

Casa Terraville, sala, Porto Alegre, 2010, Mapa Arquitetos
Foto divulgação [Mapa Arquitetos]

Casa Terraville, espacialidade do primeiro pavimento, Porto Alegre, 2010, Mapa Arquitetos
Imagem divulgação [Mapa Arquitetos]

Nos ambientes do setor social, os limites espaciais são diluídos pela falta de desnível de piso entre o interior e o exterior e pelo fechamento vertical com grandes portas de correr. O estar e a cozinha podem se dilatar até a varanda com churrasqueira, resultando em relações abertas e dinâmicas. Dessa forma, configura-se um grande ambiente de lazer junto à piscina e com visuais para o lago do condomínio. Contudo, a horizontalidade sugerida na sala e varanda sofre o impacto dos vazios na laje que provocam tensões visuais verticais e indicam a existência do pavimento superior.

No segundo pavimento, a vedação dos dormitórios é feita através de painéis de vidro com cortina que podem ser facilmente abertos, gerando uma grande permeabilidade visual. Essa permeabilidade é ampliada pelos três pátios de luz envidraçados, que trazem iluminação zenital e permitem contato visual entre os ambientes adjacentes e com o primeiro pavimento. Tem-se aqui um conceito de “privacidade opcional”, em que o quarto não é necessariamente um território de isolamento do indivíduo. Admite-se a interação visual dos membros familiares, entre os quais a intimidade é relativa e despida de pudores morais.

Casa Terraville, foto interna, Porto Alegre, Mapa Arquitetos
Foto divulgação [Acervo Mapa Arquitetos]

Casa Terraville, espacialização do segundo pavimento, Porto Alegre, Mapa Arquitetos
Imagem divulgação [Acervo Mapa Arquitetos]

Casa Terraville, espacialização do segundo pavimento, Porto Alegre, Mapa Arquitetos
Imagem divulgação [Acervo Mapa Arquitetos]

As características espaciais do setor íntimo podem justificar o tratamento dado às aberturas nos quartos que se configuram como “furos” na pesada massa murada. Pela disposição e tamanho, estas aberturas não “dilatam” os quartos para o exterior, não expõem a intimidade doméstica aos “outros”. Voltados para os “microcosmos” do grande espaço interior, os ambientes do pavimento superior da casa sugerem introspecção, enquanto os do pavimento inferior, extroversão espacial.

Casa em Pinheiros e Casa Boaçava

As Casas em Pinheiros e Boaçava foram desenvolvidas pelo escritório UNA Arquitetos (13). Ambas, apesar de estarem em cidades diferentes do Estado de São Paulo, estão implantadas em lotes em que é explorada a relação visual com o mesmo Rio Pinheiros. A Casa em Pinheiros (2007), erguida na cidade de Pinheiros - SP, ocupa uma das colinas da várzea deste Rio. A Casa Boaçava (2009), por sua vez, ocupa um lote na própria cidade de São Paulo que revela em seu horizonte as margens do Rio. Em zonas residenciais consolidadas, os lotes em que as casas estão inseridas possuem geometria estreita, profunda e irregular, além do acentuado declive.

Levando em consideração essas características, surgem partidos aditivos, caracterizados pela sobreposição de volumes em diferentes níveis. Assim, com os volumes diluídos verticalmente, as áreas dos lotes alcançam um melhor aproveitamento. Ambas as residências se descolam dos limites do terreno, a fim de amenizar as tensões exercidas pelo entorno construído, favorecendo-se com possibilidade de insolação e ventilação de seus ambientes.

Casa em Pinheiros, implantação, Porto Alegre, Mapa Arquitetos
Imagem divulgação [Acervo Una Arquitetos]

Casa Boaçava, implantação, Porto Alegre, Mapa Arquitetos
Imagem divulgação [Acervo Una Arquitetos]

Nas fachadas frontal e posterior dos projetos, é perceptível a ampliação das aberturas, não apenas para o aproveitamento da insolação, mas também das visuais proporcionadas pelos lotes. Em contraponto, as fachadas laterais apresentam aberturas menores, garantindo maior privacidade em relação ao entorno.

A Casa em Pinheiros se apoia em quatro pilares de concreto e é composta por quatro volumes sobrepostos que apresentam materialidades distintas: o volume do andar inferior, no nível do solo, é moldado em concreto; no nível de acesso, ergue-se uma caixa de vidro que liberta o térreo e promove grande permeabilidade visual; no piso superior, um prisma de madeira abriga os dormitórios; e a cobertura é composta por um volume preto que permite o acesso ao solário. Segundo os autores, a luz captada nesse último pavimento percorre verticalmente a edificação pela escada metálica vazada, que liga os pavimentos. Cria-se, assim, uma unidade central internalizada entre os contrastantes volumes que compõem a casa.

Casa em Pinheiros, São Paulo, 2007-2009, Una Arquitetos
Foto Leonardo Finotti [Acervo Una Arquitetos]

Casa em Pinheiros, composição volumétrica, São Paulo, 2007-2009, Una Arquitetos
Imagem divulgação [Acervo Una Arquitetos]

Casa Boaçava, vista do pátio interno, São Paulo, 2009-2011, Una Arquitetos
Foto Leonardo Finotti [Acervo Una Arquitetos]

Casa Boaçava, composição volumétrica, São Paulo, 2009-2011, Una Arquitetos
Imagem divulgação [Acervo Una Arquitetos]

A casa Boaçava também apresenta forte contraste entre os volumes que a compõem. Um volume estreito e horizontalizado percorre o terreno longitudinalmente e é responsável por apoiar parcialmente o volume superior. Este último consiste em um volume compacto de concreto, que sofre duas subtrações nos seus extremos longitudinais. Como todos os ambientes principais do pavimento superior se abrem para estas subtrações, o aspecto final do volume é fechado e pesado, evidenciando o caráter privativo e intimista do setor. Em contraponto, a área de estar, localizada no térreo, é definida por um volume de total transparência, o qual proporciona fluidez espacial entre interior e exterior e permite a exploração das belas visuais ao fundo do lote.

O pavimento de acesso da Casa em Pinheiros configura uma zona de transição entre a zona social, no nível inferior, e a zona íntima, no superior. Dessa forma, são preservadas a privacidade e independência entre as alas da casa. O pavimento inferior se divide em duas alas principais: a ala social, voltada para o jardim aos fundos do lote e a ala de serviço, localizada na extremidade oposta do pavimento. As duas alas são separadas por um núcleo central que concentra os elementos compositivos irregulares, destacando a circulação vertical.

No pavimento superior, o espaço correspondente ao núcleo central do pavimento inferior se transforma num “corredor dilatado”, onde estão a escada e um pequeno estar (14). Este ambiente organiza as suítes que se voltam para frente e fundos do lote, relativizando a necessidade de privacidade em relação à rua. Nas suítes, observa-se que os elementos irregulares de composição – banheiros e closet - não estão concentrados e a inserção dos mesmos não segue um padrão recorrente, sendo observada apenas a tentativa de não impedir a ampla abertura dos quartos para o exterior.

No pavimento inferior da Casa Boaçava, o estar é organizado em planta livre, com dois níveis distintos, que se relacionam diretamente com o exterior da casa. Em contrapartida, os serviços e áreas molhadas concetram-se na referida barra que apenas tangencia a área social, proporcionando o apoio necessário sem que a fluidez espacial do social seja interrompida. O eixo principal de circulação é sugerido na interface das duas alas, configurando um pequeno hall, que funciona também como patamar da escada que conecta os diferentes níveis.

 

Casa em Pinheiros, planta do térreo, primeiro e segundo pavimentos, 2007-2009, Una Arquitetos
Imagem divulgação [Acervo Una Arquitetos]

Casa Boiçava, planta do pavimento térreo e primeiro pavimento, São Paulo, 2009-2011, Una Arquitetos
Imagem divulgação [Acervo Una Arquitetos]

No pavimento superior, quartos e banhos se concentram em duas faixas laterais, configurando uma faixa central que, assim como na casa Pinheiros, se comporta como um “corredor dilatado”, com a escada e um pequeno estar. Os quartos se voltam para a frente e fundo dos lontes, com aberturas para as subtrações volumétricas discutidas anteriormente. Priveligia-se assim a privacidade destes quartos em relação ao entorno, mesmo que em detrimento de uma melhor orientação solar ou de um melhor enquadramento das visuais. Também aqui os elementos irregulares de composição não estão concentrados e sim, interpostos entre os quartos e com aberturas voltadas para os recuos laterais.

Assim, comparando os dois projetos, observa-se alguns pontos de convergência no arranjo funcional:

  • Na zona social e de serviços: a) concentração dos elementos irregulares de composição – em núcleo internalizado (Pinheiros) ou em ala independente (Boaçava) -, configurando o setor social como uma planta livre;
  • Na zona íntima: a) definição de uma “circulação central agigantada” que organiza as alas transversais (Pinheiros) ou longitudinais (Boaçava), em que os quartos se voltam para a frente ou para os fundos do lote; b) inserção não padronizada dos elementos irregulares de composição - interpostos entre quartos ou transladados para o perímetro da edificação -, buscando apenas não comprometer a ampla abertura dos quartos para o exterior;

Assim como na casa Terraville, a espacialidade das residências do UNA revela diversas tensões espaciais, mais enfatizadas pelas passagens de nível. Na Pinheiros, depois de transposto o hall envidraçado, que revela o amplo horizonte, e a estreita escada que leva ao pavimento inferior, depara-se com uma sala. As visuais se dilatam para o pátio ao fundo do lote, através da grande superfície envidraçada que se estende longitudinalmente e em duas das arestas do ambiente. Ali, a vida coletiva familiar se desenvolve em total isolamento da vida urbana.

Ainda na Pinheiros, outra escada conduz ao setor íntimo que ocupa o segundo pavimento. O percurso leva ao “estar íntimo”, que se abre para o exterior nos seus extremos transversais, dialogando com a vizinhança. Os quartos são compartimentados convencionalmente, priorizando a configuração de territórios individualizados. Também se observa que, por meio de grandes aberturas, estes se abrem para frente e fundo do lote, estabelecendo para dois deles uma maior exposição da sua intimidade aos “olhos da rua”. Contudo, opcionalmente, grandes painéis deslizantes de madeira isolam estes ambientes. Desenha-se uma caixa, ora dialogante, ora muda com o espaço externo, sugerindo uma “privacidade opcional” com o espaço público (15).

Casa em Pinheiros, São Paulo, 2007-2009, Una Arquitetos
Foto Leonardo Finotti [Acervo Una Arquitetos]

Casa em Pinheiros, São Paulo, 2007-2009, Una Arquitetos
Foto Leonardo Finotti [Acervo Una Arquitetos]

Casa em Pinheiros, São Paulo, 2007-2009, Una Arquitetos
Foto Leonardo Finotti [Acervo Una Arquitetos]

Casa Boaçava, São Paulo, 2009-2011, Una Arquitetos
Foto Leonardo Finotti [Acervo Una Arquitetos]

Na Boaçava, a passagem do hall para o setor social (abaixo) e setor íntimo (acima) se faz mais aberta, com menos contrastes, pois a escada não é enclausurada. De modo distinto dos projetos anteriores, o estar se organiza em dois níveis, sendo cada um deles tratado como extensão dos decks externos de madeira, o que sugere uma indefinição entre interior e exterior. Do acesso da rua, vislumbra-se a vida íntima coletiva, admitindo-se algum grau de exposição.

A ascensão, que leva ao estar íntimo, revela um estar aberto para a varanda-frente e varanda-fundos, mantendo alguns enquadramentos vivenciados no térreo. No entanto, essa comunicação direta com a frente-fundo é rompida, pois todos os quartos se voltam para as varandas do estar íntimo. Assim, se estabelece outra modalidade de privacidade, que se assemelha à da Terraville – os quartos são “mudos” em relação à rua, mas “dialogantes” entre si. A solução aproxima visualmente os habitantes dos quartos, que não são entendidos necessariamente como “estranhos”.

(De e Re) construindo territórios de privacidade

A visitação às três casas, uma em condomínio fechado e duas em tecido urbano consolidado, sugere valores em transformação. Isoladas ou “reclusas” em seus lotes, o conceito de privacidade é, em parte, afetado pelo medo e insegurança que avassala as cidades brasileiras. Revela-se assim o “refúgio” do homem urbano e a cidade caótica que o acolhe.

Neste contexto, se as vedações envidraçadas exercem um fascínio sobre o homem contemporâneo, por outro, medidas arquitetônicas são exigidas para evitar a excessiva exposição, sejam essas motivadas pelo desejo de privacidade ou pela necessidade de segurança. Ilustram esta discussão a “trincheira” erguida na Casa Terraville e a consolidação de um pavimento intermediário de acesso, que desloca o setor social ao pavimento inferior, na Casa Pinheiros. Apenas a Boaçava assume parte do seu setor social diretamente exposto desde a rua, ficando isoladas as salas das outras duas casas analisadas, mesmo que generosamente abertas para o recuo posterior.

Na sala e sua extensão, as indiscrições cotidianas ou as festas são assumidas com relativo isolamento em relação à rua. Neste sentido, o discurso de Abalos sobre as casas pátio de Mies Van Der Rohe ainda parece vigente na casa contemporânea: “Os muros estão ai para propiciar privacidade, para ocultar quem habita, para permitir que, dentro da casa, transcorra uma vida profundamente livre, à margem de toda moral ou tradição, à margem de toda vigilâncias social ou policial" (16)

No entanto, é no setor íntimo que as transformações são mais sentidas. Nas três casas, radicaliza-se a necessidade de isolamento dos quartos em relação à rua e, em duas casas (Terraville e Boaçava), assume-se uma “privacidade opcional” entre os quartos, que se comunicam visualmente através do estar íntimo (Terraville) ou através de espaços intermediários ou varandas (Boaçava). Assim, o “outro”, desde a rua, é banido e, desde a intimidade doméstica, é desmistificado como “estranho”.

Nesta perspectiva, a casa ainda é “refúgio”, mas o quarto, como “ninho”, vem ganhando contornos mais permeáveis, se comparado aos padrões da arquitetura moderna. Sutilmente, os exemplos revelam que é possível questionar a simples abordagem antagônica dos setores íntimo e social, respectivamente, como partes isoladas/compartimentadas e abertas/livres do programa. Novos modos de vida vão sendo construídos, resignificados e desconstruídos entre espaços fixos e/ou fluidos, fechados e/ou abertos, reservados e/ou expostos.

notas

1
CORREIA, Telma de Barros. A construção do habitat moderno no Brasil, 1870 – 1950. São Carlos: RiMa, 2004.

PROST, Antonie; VINCENT, Gerard. História da vida privada. Da Primeira Guerra aos nossos dias. 5 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

AYMONINO, Carlo (coord). L’abitazione razionale – atti dei congressi CIAM 1929-1930. Venezia: Marsílio, 1971

2
ABALOS, Inãki. A boa-vida: visita guiada às casas da modernidade. Barcelona: Gustavo Gili, 2003.

3
MONTEYS, Xavier. La habitación mas allá de la sala de estar. Barcelona, Gustavo Gili, 2014.

4
MONTEYS, Xavier. La habitación mas allá de la sala de estar. Barcelona, Gustavo Gili, 2014.

CORNOLDI, Adriano. Arquitectura de la vivenda unifamiliar – Manual del espacio domestico. Barcelona: Gustavo Gili,1999.

5
Historicamente, diversas culturas promoveram o isolamento da casa em relação à rua. Na cultura mediterrânea, destaca-se a casa grega, cujos ambientes se voltam para pátios internos (átrios e peristilos), consolidando microcosmos familiares (CAPITEL, 2005). Na modernidade e no contexto brasileiro, este cuidado também pode ser ilustrado por casas projetadas por arquitetos como Daniele Calabi, Bernard Rudofsky e Rino Levi, em que os ambientes também se abrem para o exterior através de pátios, semi-pátios e/ou espaços de transição entre o interior e o exterior, como varandas e jardins parcialmente abertos. Sobre o assunto, consultar: CAPITEL, Antón. La arquitectura del patio. Barcelona: Gustavo Gili, 2005.

6
<http://www.unaarquitetos.com.br/site/projetos/fotos/28/casa_em_pinheiros>

7
<http://www.unaarquitetos.com.br/site/projetos/fotos/37/casa_boacava>; <http://www.archdaily.com.br/br/01-82508/casa-boacava-slash-una-arquitetos>

8
<http://www.metroo.com.br/projects/view/98>

9
<http://www.arquitetosassociados.arq.br/?projeto=residencia-ar>

10
<http://www.mapaarq.com/175531/1275430/projetos/trv-casa-en-terraville>

11
O escritório foi fundado em 2006, através da associação do escritório brasileiro Studio Paralelo ao uruguaio MAAM. A união dos escritórios consolidou um coletivo binacional que desenvolve projetos em diversas escalas e programas, sendo hoje composto pelos arquitetos brasileiros Luciano Rocha de Andrades (ULBRA – 2001), Rochelle Castro (ULBRA – 2002), Silvio Lagranha Machado (UniRitter – 2003) – e três arquitetos uruguaios – Maurício López Franco, Matías Carballal Zeballos e Andrés Gobba Hannay.

12
Os elementos irregulares de composição são aqueles cuja função e proporção favorece ou impede a configuração da planta livre. Neste contexto, destacam-se escadas e núcleos hidráulicos – banheiros, cozinha, área de serviço. (Martinez, 2000). Sobre o assunto, consultar: MARTINEZ, Alfonso Corona. Ensaio sobre o projeto. Brasília: Editora da UNB, 2000.

13
O Escritório Una foi fundado em 1996, pela associação de quatro arquitetos formados pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo - Fernando Felippe Viégas (1994), Cristiane Muniz (1993), Fernanda Barbara (1993) e Fábio Valentim (1995).

14
Segundo Veríssimo e Bittar (1999), este pequeno estar íntimo é assimilado na cultura brasileira a partir da década de 1960. VERÍSSIMO, Francisco Salvador; BITTAR, William S. M. 500 Anos da Casa no Brasil. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999.

15
O uso de painéis deslizantes de madeira não é solução nova na arquitetura brasileira. Pode-se dizer que esta foi empregada de modo expressivo na arquitetura moderna, como ilustra o Grande Hotel de Ouro Preto, projetado por Oscar Niemeyer. Contudo, neste período, o emprego destes painéis ocorreu mais como modo de enfatizar a composição de janelas contínuas ou de planos verticais independentes. O uso “mimetizado” dos painéis, tornando-os ilegíveis em relação ao tratamento volumétrico, é solução mais presente na arquitetura contemporânea, como ilustram outras casas do próprio escritório UNA (Casa Joinville, 2009) e do Studio MK27, de Márcio Kogan (Casa Cobogó, 2011; Casa Toblerone, 2011; Casa Tetris, 2013, Casa Redux, 2013).

16
ABALOS, Inãki. A boa-vida: visita guiada às casas da modernidade. Barcelona: Gustavo Gili, 2003.

sobre as autoras

Ana Elísia da Costa possui graduação em arquitetura e urbanismo pela Universidade Católica de Goiás (1993); mestrado (2001) e doutorado (2011) em arquitetura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, tendo realizado pesquisas no Instituto Universitário de Arquitetura da Veneza, em 2005. Atuou como professora e pesquisadora na Universidade de Caxias do Sul e na Universidade do Vale do Rio dos Sinos e hoje é professora adjunta da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Tem experiência na área de Arquitetura e Urbanismo, com ênfase em projetos de edificações, atuando principalmente em arquitetura residencial. Academicamente, dedica-se ao ensino de Projeto de Arquitetura e desenvolve pesquisas na área de projeto e de patrimônio arquitetônico.

Thaís Gerhardt é acadêmica do curso de arquitetura e urbanismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e desenvolve atividades de iniciação científica desde 2014.

Nathália Striebel é acadêmica do curso de arquitetura e urbanismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e desenvolve atividades de iniciação científica desde 2014.

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