Your browser is out-of-date.

In order to have a more interesting navigation, we suggest upgrading your browser, clicking in one of the following links.
All browsers are free and easy to install.

 
  • in vitruvius
    • in magazines
    • in journal
  • \/
  •  

research

magazines

architexts ISSN 1809-6298

abstracts

português
O presente texto, tratando dos edifícios religiosos que foram utilizados como marcos no território, apresenta resultados de uma pesquisa documental, da consulta da cartografia histórica e das observações in loco, cruciais para os resultados.

english
This text, dealing with religious buildings that were used as landmarks in the territory. Is the result of documentary research, of historical cartography consultation and notices on the site, which have proved crucial for the results obtained.

español
Este texto, que trata de los edificios religiosos que fueron utilizados como puntos de referencia en el territorio, presenta resultados de una investigación documental, de la cartografía histórica y las comunicaciones en el sitio, que resultó fundamental


how to quote

CRISTINA GOMES DUARTE, Cláudia. Património e paisagem. Os edifícios religiosos enquanto marcos no território nas vilas marítimo fluviais do litoral português de Entre-douro-e-minho: Vila do Conde e Azurara. Arquitextos, São Paulo, ano 16, n. 191.03, Vitruvius, abr. 2016 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/16.191/6007>.

Vista da Ermida de Nossa Senhora da Guia [Arquivo municipal Vila do Conde]


Introdução

O conceito de património, estando dependente dos interesses das comunidades, locais ou nacionais, foi-se alterando ao longo do tempo e abrange hoje as mais diversificadas manifestações culturais. No entanto, mantém-se constante o reconhecimento da sua capacidade de representar valores que estabelecem vínculos entre o presente e o passado, contribuindo assim para dar coerência a um mundo em constante transformação. O património edificado deve, nesse sentido, ser entendido como um legado que passa de geração em geração, porque só ele é o portador da identidade de um lugar e de uma comunidade, não podendo, nem devendo, por isso, cristalizar-se no tempo, mas seguir activo na contemporaneidade para, assim, garantir a sua sobrevivência (1).

O presente artigo trata do desempenho territorial dos edifícios religiosos, de culto cristão, associados às rotas marítimas e terrestres que, em Vila do Conde e Azurara, duas vilas marítimo-fluviais do Litoral português de Entre-Douro-e-Minho, foram utilizados como marcos no território, tanto pelos homens do mar – pescadores e navegantes -, como pelos homens da terra (viajantes e peregrinos). Consequência, talvez, desse desempenho territorial, estes edifícios religiosos e as ruas que os uniam entre si, acabaram por revelar-se cruciais para o estruturar e conformar do núcleo urbano destas duas vilas.

A opção pelo estudo de Vila do Conde e Azurara, cidade e freguesia localizadas a Norte e a Sul do Rio Ave, respectivamente, prende-se com o facto de os portos destas duas villas marítimo-fluviais terem tido grande notabilidade e influência na época da expansão ultramarina (séc. 16 - 17). Devido à privilegiada situação geográfica, acidentada e montanhosa, e posição estratégica, frente de rio e de mar, as vilas portuárias do Litoral Português de Entre-Douro-e-Minho, dispuseram sempre de condições favoráveis para a defesa territorial – elas eram os portos de defesa e de controlo da região de Entre-Douro-e-Minho e o rio, um canal de acesso privilegiado das vilas do interior ao porto de mar -, a expansão ultramarina e o, consequente, comércio marítimo. A estrutura e a forma do núcleo urbano destas vilas portuárias, bem como o carácter da arquitectura que nelas domina – religiosa –, reflectem bem a situação e posição geográfica – frente de rio e de mar –, como também o principal modo de vida das suas populações: a pesca, a navegação e a peregrinação.

Os edifícios religiosos que nestas duas villas foram utilizados como marcos no território e que vieram, de facto, resolver dificuldades de localização e de orientação experienciadas tanto pelos homens do mar, como pelos homens da terra são, efectivamente, o seu “símbolo construído de fundação” (2). É pois, nesse sentido, que o presente artigo incide sobre estes edifícios religiosos.

Estado da arte

Apesar das muitas abordagens que foram sendo dedicadas, nas últimas décadas, nomeadamente na área da História, às vilas portuárias de Litoral português de Entre-Douro-e-Minho, nas quais os edifícios religiosos são frequentemente mencionados, pelo facto de estarem intimamente ligados à história da fundação destas vilas e ao modo de vida das suas populações, parece continuar a existir um vazio no que concerne ao estudo dos edifícios religiosos enquanto marcos territoriais. É pois nesse sentido, que a partir do presente texto se propõe: identificar os edifícios religiosos de culto cristão que foram utilizados, tanto pelos homens do mar, como pelos homens da terra, como marcos no território; e perceber a lógica de assentamento seguida por estes. Sustentando-se o texto que se segue nessa premissa, recorreram-se às fontes primárias (documentação escrita) e fontes cartográficas.

fig 1. Planta actual de Vila do Conde e Azurara com a indicação de todos os edifícios religiosos existentes [elaborada pela autora]

Com o propósito de tornar possível o estudo destes edifícios religiosos sem atender ao tempo cronológico, determinaram-se três “tipos” de marco de funcionalidade territorial:

  • Marcos de visibilidade e de orientação: edifícios religiosos que funcionavam como principais pontos de orientação, em terra, para os homens do mar (pescadores e navegantes).
  • Marcos de percurso: edifícios religiosos que serviam de apoio e de serventia aos principais percursos terrestres. Pontuando e cadenciando os principais caminhos, estes edifícios funcionavam como locais de encontro e de abrigo, tanto para as populações locais, como para os viajantes e peregrinos.
  • Marcos de fronteira e de defesa: edifícios religiosos que determinaram o limite e o termo do núcleo urbano, tendo-lhe, por conseguinte, atribuído uma forma e conferido um carácter defensivo. A função religiosa, de que eram dotados, permitia-lhes também desempenhar uma função espiritual relativamente ao núcleo urbano “sacralizar e proteger” (3).

O texto que se segue está dividido em três partes, para além da introdução inicial e das considerações finais. Na primeira parte: “O Território e a Identidade do Lugar”, aborda-se a importância territorial de determinados edifícios religiosos para a formação de Vila do Conde e Azurara, como lugares. Na segunda parte: “Os Edifícios Religiosos Enquanto Marcos Territoriais”, discute-se o conceito de marcos territoriais, onde se explica e mostra exemplos de cada um deles. Na terceira: “A Estruturação e Conformação do Núcleo Urbano”, descreve-se a estruturação e conformação do núcleo urbano de Vila do Conde e de Azurara, como tendo sido o resultado da implantação estratégica de determinados edifícios religiosos.

O limite de um breve texto de um artigo científico não diminui a importância do tema que é tratado, ainda que restrinja as possibilidades de uma maior análise e debate.

O território e a identidade do lugar

Da observação das cartografias de Vila do Conde e Azurara, verifica-se a impossibilidade de realizar o seu estudo urbano e arquitectónico sem que se considere a Religião dado que, e a despeito do declínio desta hoje, os marcos que deixou no território são demasiado relevantes para que possam ser ignorados. É evidente que nestas duas villas marítimo-fluviais, determinados edifícios religiosos são o “facto urbano” (4) principal e que foi devido à sua presença que estes dois territórios começaram a adquirir o carácter de lugar. Estes edifícios religiosos, que ao longo dos séculos foram pontilhando os territórios de Vila do Conde e Azurara eram, de facto, a melhor prova e o melhor signo de que o território estava povoado e organizado. Eles eram o melhor testemunho de posse e de ocupação legítima – porque cristã – de um lugar e a garantia de segurança espiritual e física para os povoadores do seu termo (5). Pontilhadas e dominadas pelos edifícios religiosos, estas duas villas começaram, assim, a afirmar a sua fundação sagrada, que teve uma expressão directa na estruturação e conformação do núcleo urbano.

Pretendendo dar resposta a problemáticas territoriais concretas (determinar os limites do núcleo urbano e definir a centralidade urbana – civil e religiosa), e a questões de ordem prática e de carácter civil (orientar os homens do mar e da terra), estes edifícios religiosos acabaram por adquirir um valor em si e independente da função principal para que foram pensados (sagrada e religiosa).

Os edifícios religiosos enquanto marcos territoriais

As cartografias de Vila do Conde e Azurara constituíram-se como pontos de partida essenciais para a construção de uma leitura da paisagem centrada numa visão sagrada destes dois territórios. Da análise das cartografias e das visitas in locco aos locais sagrados nelas referenciados, constatou-se que uma das características dos edifícios religiosos destas villas foi o facto de estes terem aliado à função sagrada e religiosa uma função de ordem prática e de carácter civil, isto é, terem sido utilizados como marcos territoriais (figs. 2 e 3).

fig 2. Planta de Vila do Conde do século XVI. AMVC [Arquivo municipal de Vila do Conde, sinalizada pela autora]

fig 3. Planta de Vila do Conde do século XX (1915). AMVC [Arquivo municipal de Vila do Conde, sinalizada pela autora]

Marcos de visibilidade e de orientação

A Ermida de Nossa Senhora da Guia (séc. 10), a Capela de Santa Catarina (séc. 15), a Capela de Santo Amaro (séc. 16) e a Capela de São Bartolomeu – hoje Igreja de Nossa Senhora da Lapa (séc. 17) foram os edifícios religiosos que, em Vila do Conde, funcionaram como Marcos de Visibilidade e de Orientação para os homens do mar (pescadores e navegantes).

A Ermida de Nossa Senhora da Guia (séc. 10) foi o primeiro edifício religioso a ser construído e, por razões de ordem estratégica, foi implantada num maciço rochoso à entrada da barra. Este facto contribuiu para que a ermida adquirisse um lugar de singularidade e de excepcionalidade. Relativamente às suas características é notório a existência de um vão no muro que delimita o adro que envolve a ermida, que permitia vigiar e controlar a entrada da barra. No lado Sul do adro, existe uma escada, independente à ermida, em cujo patamar era colocado um lampião que sinalizava a entrada da barra (fig. 4).

fig 4. Vista da Ermida de Nossa Senhora da Guia (de Nascente para Poente). AMVC [Arquivo municipal de Vila do Conde]

fig 5. Vista da fachada Poente da Capela de Santa Catarina [Acervo da autora]

A Capela de Santa Catarina (séc. 15) foi implantada num afloramento rochoso muito próximo do mar, com a fachada principal orientada para Poente: ela informava da proximidade à terra e ao então núcleo urbano da vila. É de referir um caminho, a Sul da capela e tangente ao sopé do afloramento rochoso, que a ligava ao mar (a Poente) e à Praça Velha (a Nascente) (figs. 2, 3, 5 e 8).

A Capela de Santo Amaro (séc. 16) foi implantada numa colina contigua à colina onde dois séculos antes tinha sido implantado o Mosteiro de Santa Clara. Tendo por par o mosteiro , a capela adquiriu na paisagem uma posição dominante. A reforçar a ideia de domínio sobre a paisagem estava o facto de a capela ter sido implantada à ilharga de um dos principais caminhos da vila, que conduzia a Norte e a Nascente, à saída desta (figs. 2, 3, 6 e 8).

fig 6. Vista da fachada Poente e Sul da Capela de Santo Amaro [Acervo da autora]

fig 7. Vista da Igreja de Nossa Senhora da Lapa (de Poente para Nascente) [Acervo da autora]

Numa pequena colina existente à entrada Nascente de Vila do Conde, foi implantada a Igreja de Nossa Senhora da Lapa (séc. 17), no exacto local onde esteve a Capela de São Bartolomeu. A igreja assenta sobre uma grande plataforma que a eleva, permitindo que esta se distinga na paisagem. Ainda que afastada do principal núcleo urbano da villa, a igreja comunicava com a Praça Velha, com a Capela de Santa Catarina e com a Capela de Santo Amaro, através de dois dos principais caminhos (figs. 3, 7 e 8).

Em Azurara, a Ermida de Santa Ana (séc. 13), a Capela de São Sebastião (séc. 15) e a Igreja de Santa Maria a Nova (séc. 16), foram os edifícios religiosos que aliaram a função sagrada e religiosa, à função de marco de visibilidade e de orientação (fig. 9).

A Ermida de Santa Ana (séc. 13) foi implantada no cimo de uma colina sobranceira ao rio, o ponto mais elevado de Azurara. Quem na villa entrava pela barra não ficava indiferente à presença da pequena ermida. Com a fachada principal orientada a Poente e um cruzeiro, alinhado com a porta principal de acesso à ermida, esta era uma presença constante para quem no mar andava (fig. 10)

Planta de localização da Ermida de Nossa Senhora da Guia, da Capela de Santa Catarina, da Capela de Santo Amaro e da Igreja de Nossa Senhora da Lapafig 8. [elaborada pela autora]

fig 9. Planta de Azurara do século XIX. AMVC [Arquivo municipal de Vila do Conde, sinalizada pela autora]

A Capela de São Sebastião (séc. 15) foi implantada no ponto de cota mais elevada de um afloramento rochoso, localizado muito próximo da margem do rio e no cruzamento de dois dos principais caminhos de Azurara. O caminho de sentido Norte-Sul ligava a capela às salinas e aos estaleiros navais, localizados a Norte, ao Convento de Nossa Senhora dos Anjos e à Capela de Nossa Senhora das Neves, localizados a Sul. O caminho de sentido Nascente-Poente ligava a capela à Rua Direita. A capela assenta sobre uma grande plataforma que a eleva e faz distinguir na paisagem. A ligar a rua ao cimo da plataforma/adro que circunda a capela, está uma escada que marca e simboliza uma passagem de posição: da rua, o lugar profano, para a capela, o lugar sagrado. A capela encontra-se hoje em ruina, no entanto, continua a afirmar a sua presença (figs. 9 e 11).

A Igreja de Santa Maria a Nova (séc. 16) foi implantada à ilharga e no ponto médio da Rua Direita, no local onde esteve a Capela de Nossa Senhora da Apresentação. O facto de a Rua Direita estar a uma cota elevada relativamente ao espaço que lhe está a Poente contribuiu para o sobressair da igreja relativamente aos edifícios que a envolvem, tornando-a uma presença constante na vila. Na fachada principal, orientada a Poente, sobressaem a vieira, símbolo da peregrinação a Santiago de Compostela, e as esferas armilares que a ladeiam, símbolo da navegação. A vieira foi revestida a azulejo branco e azul, com a finalidade reflectir o sol Poente (figs. 9 e 12).

fig 10. Vista da Ermida de Santa Ana (de Poente para Nascente) [Acervo da autora]

fig 11. Vista da Capela de São Sebastião (de Poente para Nascente) [Acervo da autora]

Marcos de percurso

Desde o século 9 que São Tiago passou a ser o símbolo cristão na luta contra os muçulmanos peninsulares. Caminhar até Compostela acabava por substituir a longa viagem até Jerusalém. Este foi o ponto de partida para a criação de santuários, um pouco por toda a Europa Ocidental, que viriam a ser muito procurados por neles se encontrarem as relíquias dos mais importantes santos do culto cristão, muitos deles relacionados com São Tiago. Estes santuários tinham como função pontuar e o caminho até Compostela. Em Azurara disso foram exemplo o Convento de Nossa Senhora dos Anjos (séc. 17), onde se encontram as relíquias de São Donato, e a Capela de Nossa Senhora das Neves (séc. 16), anexa ao muro do convento. O convento, apesar de afastado do então núcleo urbano, comunicava, através de quatro caminhos com o principal centro, civil e religioso, da villa: um deles era de traçado perpendicular à Rua Direita – caminho de passagem obrigatória para quem se dirigia a Santiago de Compostela – e ao cais do rio; os outros três, eram de traçado perpendicular ao caminho acima referido. Dois deles, paralelos entre si, permitiam a ligação do convento e da capela, ao largo da Igreja de Santa Maria a Nova. A especificidade do traçado viário, que permitia a fácil comunicação do Convento de Nossa Senhora dos Anjos e da Capela de Nossa Senhora das Neves, com os principais lugares de Azurara e concretamente com a Rua Direita, confirmam a importância destes edifícios religiosos enquanto elementos de apoio e de serventia aos principais percursos terrestres, tanto para as populações locais, como para os viajantes e peregrinos. Estes edifícios religiosos funcionavam como lugares de “encontro e de abrigo (8)”O alpendre, aberto ao caminho e com bancos corridos em pedra, que a Capela de Nossa Senhora das Neves oferece denuncia a função assistencial que esta desempenhava (figs. 9, 13, 14 e 15).

fig 12. Vista da fachada principal da Igreja de Santa Maria a Nova (de Poente para Nascente) [Acervo da autora]

fig 13. Vista das fachadas Norte e Poente do Convento de Nossa Senhora dos Anjos [Acervo da autora]

fig 14. Vista das fachadas Poente e Norte da Capela de nossa Senhora das Neves [Acervo da autora]

Em Vila do Conde o caminho de peregrinação para Santiago era o central ao núcleo urbano (figs. 3 e 15). Também nela determinados edifícios religiosos funcionaram como elementos de acolhimento aos percursos terrestres, como foi o caso da Ermida de São Tiago (séc. XIV) e da Capela de Santa Catarina (séc. 15) (fig. 3 e 15).

A Ermida de São Tiago foi implantada junto à margem do rio, muito próxima ao caminho de Santiago. É notório a fachada principal da capela estar orientada para Nascente, para o caminho de peregrinação, único exemplar em Vila do Conde. A capela comunicava, através de um estreito caminho, de sentido Sul-Norte, com Capela de Santa Catarina (figs. 15 e 16).

Planta de localização da Ermida de Nossa Senhora da Guia, da Capela de Santa Catarina, da Capela de Santo Amaro e da Igreja de Nossa Senhora da Lapafig 8. [elaborada pela autora]

A Capela de Santa Catarina, à semelhança da Capela de Nossa Senhora das Neves, oferecia também um alpendre aberto, orientado para o caminho principal, com bancos corridos em pedra. É de referir o caminho que da Praça Velha conduzia à capela e desta ao mar (fig. 17).

fig 16. Vista da fachada principal da Ermida de São Tiago (orientada a Nascente). AMVC [Arquivo municipal de Vila do Conde]

Marcos de fronteira e de defesa

Vila do Conde e Azurara, nunca tendo sido muralhadas utilizaram o princípio da muralha para delimitar as suas fronteiras, recorrendo aos edifícios religiosos. Estrategicamente implantados, os edifícios religiosos formavam, entre si, uma cintura imaginária que marcava o dentro e o fora daquilo que eram o limites do núcleo urbano destes duas villas. Em Azurara os limites territoriais não só foram determinados pelos edifícios religiosos, como também pela Rua Direita, que marcava o limite a Nascente.

Em Vila do Conde, a Capela de Nossa Senhora da Boa Viagem (séc. 17), também conhecida por Capela do Socorro por ter sido implantada no Morro do Socorro, a Capela de Santa Catarina (séc. XIV), a Igreja de Nossa Senhora da Lapa (séc. 17), a Capela de Santo Amaro (séc. 16) e o Mosteiro de Santa Clara (séc. 14), foram utilizados como marcos de fronteira e de defesa, isto é, demarcavam os limites do núcleo urbano da villa.

fig 17. Vista da fachada principal da Capela de Santa Catarina (orientada a Poente) [Acervo da autora]

A Capela de Nossa Senhora da Boa Viagem foi implantada num maciço rochoso sobranceiro ao rio, com a fachada principal orientada para Norte, para a Igreja Matriz. Do largo da igreja saía um caminho que ia desembocar ao largo da capela. A capela comunicava, também, através de um estreito caminho, com a Capela de Santa Catarina, localizada a Norte, marcando o termo do núcleo urbano da villa a Poente. A Capela de Santa Catarina e a Igreja de Nossa Senhora da Lapa estabeleciam uma aliança imaginaria que determinava o termo do núcleo urbano da villa a Norte. Também a Igreja de Nossa Senhora da Lapa, a Capela de Santo Amaro e o Mosteiro de Santa Clara estabeleciam o termo do núcleo urbano a Nascente (figs. 3, 18 e 19).

Azurara, teve apenas como marco de fronteira o Convento de Nossa Senhora dos Anjos, localizado a Sul. O convento, ainda que afastado do centro da vila, comunicava com este a partir quatro caminhos. Desta forma, os frades do convento garantiam a relação privilegiada com a natureza e o contacto com a população local. É de referir a existência de um largo, em frente à fachada principal da igreja do convento, que funcionava como um espaço aberto de encontro e de reunião, como alternativa ao largo da Igreja de Santa Maria a Nova.

fig 18. Planta de localização dos edifícios religiosos utilizados como marcos de percurso e como marcos de fronteira e de defesa [Elaborada pela autora]

Estes edifícios religiosos, que ao longo dos séculos foram pontilhando os territórios de Vila do Conde e Azurara eram a melhor prova e o melhor signo de que o território estava povoado e organizado. Eles eram o “melhor testemunho de posse e de ocupação legítima, porque cristã"(7)de um lugar e a garantia de segurança religiosa e espiritual para os povoadores do seu termo. Eles demarcavam os limites do núcleo urbano e eram o símbolo religioso de protecção e legitimação de todos aqueles que viviam dentro dos limites de fronteira por eles estabelecidos. Eles eram os guardiões do limiar do núcleo urbano: marcavam, sacralizavam e protegiam, e uma presença constante para quem percorria as ruas destas villas e conseguia facilmente reconhecer os seus limites (fig. 18).

fig 19. Vista da Capela de Nossa Senhora da Boa Viagem (à esquerda) e do Mosteiro de Santa Clara (à direita) [Acervo da autora]

A estruturação e conformação do nucleo urbano

Vila do Conde foi organizada a partir do rio, para Norte, possuindo um ordenamento ditado pelos edifícios religiosos, estratégica e criteriosamente implantados no território. A ligar os edifícios religiosos estavam as ruas que, ainda hoje, revelam e denunciam a formação de origem medieval da cidade. A escolha do sítio para implantar os edifícios religiosos e o traçado das ruas que os uniam, tiveram como princípio: zonas elevadas e/ou próximas ao rio e ao mar.

No século 16, Vila do Conde tinha já os limites do núcleo urbano demarcados pelos edifícios religiosos: a Capela de Santa Catarina (séc. 15), a Capela de São Bartolomeu que, no século 17, deu lugar à Igreja de Nossa Senhora da Lapa, a Capela de Santo Amaro (séc. 16) e o Mosteiro de Santa Clara (séc. 14). É particularmente significativa, neste século, a viagem de D. Manuel (1502), num misto de intenções religiosas e políticas, a Santiago de Compostela, pernoitando, no regresso, em Vila do Conde. Consequência desta visita é edificada a Igreja Matriz (1502-1573), que vai substituir a Igreja de São João, implantada a Norte do Mosteiro de Santa Clara e onde posteriormente seria edificado o Convento de São Francisco,

No plano urbano, a construção da Igreja Matriz foi importante porque ela veio possibilitar a criação de uma nova praça para a vila – a Praça Nova –, localizada a Poente da igreja. O centro da vila, então na Praça Velha, desloca-se para a Praça Nova, a qual passa a ser o principal elemento do espaço urbano e um canal de acesso privilegiado à via fluvial e marítima – abre-se a Rua Nova que, da Praça Nova ia desembocar ao rio. Também os Paços do Concelho, anteriormente na Praça Velha, são transferidos para a Praça Nova onde, ainda hoje, funciona a sede da administração municipal. Transfere-se, igualmente, o pelourinho. A Praça Nova foi a mais significativa intervenção urbana operada no século 16, a qual ficou conformada com a construção do edifício para os Paços do Concelho (1538-1555) e a colocação, fronteira a este, do pelourinho (1582). Do século 16 é, também, a construção da alfândega régia, a qual coloca Vila do Conde como um dos principais portos comerciais e onde se desenvolve, em grande escala, a actividade da construção naval. Consequência destes factos é edificada, no morro sobranceiro ao cais do rio, a Capela de Nossa Senhora da Boa Viagem, também designada por Capela do Socorro por ter sido implantada no Morro do Socorro, por ordem de Gaspar Manuel Carneiro, Piloto-mor da Carreira dos mares do Oriente (figs. 20 e 21).

O século 16 foi, efectivamente, aquele que determinou, conclusivamente, a estruturação urbana de Vila do Conde tal e qual se a (re) conhece e identifica, ainda hoje, com o núcleo antigo da cidade.

Os séculos 16 e 17 marcaram o eclodir do aglomerado urbano de Vila do Conde, o qual se estabeleceu no espaço compreendido entre a Igreja Matriz e o cais do rio – onde estavam a Alfândega Régia, os Estaleiros Navais e a Capela de Nossa Senhora da Boa Viagem – e entre o Mosteiro de Santa Clara, o Convento de São Francisco e a Capela de Santo Amaro.

fig 20. Planta de localização da Igreja Matriz [Elaborada pela autora]

A partir do século 19, resultado da afirmação da classe burguesa, que procurava a praia, verifica-se um amplo processo de nova urbanização na cidade. Preconizam-se novos valores urbanísticos de alinhamento e de funcionalidade, cuja implantação no terreno se traduz, num primeiro momento (ver planta séc. 20), na primeira praça-jardim da cidade e na abertura de quatro grandes avenidas, ortogonais entre si, que a limitam e conformam (1865). Este será o ponto de partida para a posterior estruturação de todo o espaço envolvente. A cidade cresce em direcção ao mar e, pela primeira vez, fora dos limites impostos pelos edifícios religiosos. Esta foi, efectivamente, a primeira ideia urbana de raiz que a cidade implantou: um conjunto de ideias urbanas inovadoras, de regularidade e amplitude, que se pretendiam de grande envergadura.

A partir da segunda metade do século 20 Vila do Conde sofre um significativo aumento populacional que se reflecte no crescimento, rápido e denso, do aglomerado urbano.

Observando a planta do século 21, é relativamente claro que a história da formação urbana de Vila do Conde ficou marcada por dois principais momentos: o primeiro momento, marcado pelo núcleo de fundação medieval, delimitado e caracterizado pelos edifícios religiosos e pelas ruas que os uniam entre si; e o segundo momento, que teve início a partir de 1865 – com a primeira praça-jardim e o traçado de quatro grandes avenidas que a delimitavam e conformavam – e que rompeu, pela primeira vez, os limites urbanos até então impostos pelos edifícios religiosos.

Azurara, “muito provavelmente o lugar de alguma antiga vila rural (6) ”,permaneceu com pouca população por longo tempo. Somente no reinado de D. Sancho I (1185-1211), é que esta sofreu um crescimento populacional devido à afirmação das actividades ligadas ao mar. Em Azurara, também a natureza do sistema de defesa e delimitação, constituído pelos edifícios religiosos, determinou a estruturação urbana. No entanto, observando a planta do século 19 facilmente se identifica Azurara como uma vila de origem arruada, na qual a Rua Direita, de orientação Norte-Sul, foi a estruturadora. Nesse sentido, e dadas as características geográficas do território, os limites do núcleo urbano de Azurara ficaram bem definidos, desde um período muito remoto: a Nascente, a Rua Direita, a Norte e a Poente, o rio e a Sul, o Convento de Nossa Senhora dos Anjos, os quais compunham, entre si, a figura geométrica de um rectângulo, quase regular, dentro do qual se desenvolveu a estrutura urbana: esta definia-se, essencialmente, por duas ruas ortogonais, que se intersectavam entre si. No ponto de intersecção destas duas ruas foi implantada, no século 15, a Capela de São Sebastião. A rua de sentido Norte-Sul, ligava a Capela de Nossa Senhora das Neves e o Convento de Nossa Senhora dos Anjos, à Capela de São Sebastião, às salinas e aos estaleiros navais; a rua de sentido Nascente-Poente, ligava a Rua Direita e a Igreja de Santa Maria a Nova, à Capela de São Sebastião e ao cais do rio.

Sendo a Rua Direita, a rua principal e aquela à qual todas as outras ruas iam desembocar, por razões de ordem prática e hierárquica, a zona escolhida para implantar o aglomerado urbano foi a ilharga da Rua Direita, a Nascente e a Poente desta. O aglomerado urbano encontrava-se protegido pela cintura formada pelos edifícios religiosos (ver planta do século 19).

fig 21. Vista da fachada principal da Igreja Matriz (orientada a Poente), da Praça Nova e do edifício dos Paços do Concelho [Acervo da autora]

No século 16, é relevante a implantação da Igreja de Santa Maria a Nova, à ilharga e no ponto médio da Rua Direita, no exacto local onde esteve implantada a Capela de Nossa Senhora da Apresentação. Ao redor da igreja foi criado um largo, que veio conferir à Rua Direita e ao espaço urbano uma centralidade – civil e religiosa – que estes não possuíam ainda. Centralidade que ainda hoje mantem. Todos os edifícios religiosos iam desembocar, a partir de ruas secundárias, ao largo da Igreja (fig. 9).

A Igreja de Santa Maria a Nova, em Azurara, e a Igreja Matriz, em Vila do Conde, foram edifícios que aliaram o projecto de construção ao projecto urbano, isto é, além da função sagrada e religiosa, desenharam e construíram o espaço urbano. As duas igrejas têm as fachadas alinhadas e, com o rio de permeio, são quase o espelho uma da outra. Ambas foram concebidas para serem observadas do rio e do mar: quem no rio entra pela barra depara-se, a um ponto equidistante, com a Igreja Matriz, à esquerda, e com a Igreja de Santa Maria a Nova, à direita (fig. 20).

Também em Azurara o século 16 determinou a estruturação do núcleo urbano, tal como hoje o identificamos e reconhecemos com o núcleo antigo. Na planta do século 19, e assinalado com a cor amarela, verifica-se a intencionalidade de criar um novo centro urbano, organizado em torno de uma praça, como alternativa ao largo da Igreja de Santa Maria a Nova. O projecto urbano previa um espaço de configuração quadrangular, determinado pela da Rua Direita, a Nascente, e pela Igreja da Misericórdia, a Sul. A Norte da praça partia uma rua, de traçado regular, em direcção ao rio e a uma ponte em pedra, que levava ao monte do mosteiro. Todavia, esta intencionalidade nunca chegou a realizar-se (fig. 9).

fig 22. Perfil de Vila do Conde e Azurara [Desenho da autora]

Na planta do século 21, facilmente se identifica a Rua Direita, no entanto, esta já não tem a importância estrutural e funcional que lhe deu a origem. A construção, na primeira metade do século 20, da Estrada Nacional 13 (EN13), a Poente do largo da Igreja de Santa Maria a Nova, retirou-lhe o carácter estrutural do tecido urbano. Ainda nesta planta, verifica-se que a Ermida de Santa Ana, Capela de São Bartolomeu, Capela de Nossa Senhora das Neves e o Convento de Nossa Senhora dos Anjos, foram cruciais para determinar a localização do surto de construção que teve início na segunda metade do século 20 (fig. 22).

Conclusão

Através da análise destas duas villas marítimos-fluviais, Vila do Conde e Azurara, duas realidades urbanas distintas, desde logo porque localizadas em locais topograficamente diferentes, com dimensões urbanas e demográficas também elas muito diferentes e com estratégias de implantação dos edifícios religiosos também distintas, procurou-se ilustrar o modo como determinados edifícios religiosos, criteriosa e estrategicamente implantados no território, influenciaram, decisivamente, a estruturação e conformação do núcleo urbano o qual, ainda hoje, e pese embora todas as transformações urbanas ocorridas, permanece intacto.

O que desde logo nos pareceu notório nestes villas foi a importância que determinados edifícios religiosos adquiriram na paisagem, na medida em que aliaram, à função sagrada e religiosa, funções territoriais: Marcos de Visibilidade e de Orientação; Marcos de percurso; e Marcos de Fronteira e de Defesa.

A escolha da temática do presente artigo visou, fundamentalmente, alertar e sensibilizar para a importância crucial destes edifícios religiosos para a formação, história e identidade de Vila do Conde e Azurara, aspirando a que estes sejam resgatados para a contemporaneidade para que continuem a ser o símbolo de fundação não apenas do núcleo urbano, como também a ser o significado da cidade contemporânea.

notas

NA - O presente artigo foi o resultado do trabalho realizado no âmbito do Seminário de Investigação, promovido pela Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, sob a orientação da Professora Doutora Marta Maria Peters Arriscado Oliveira e a pela Professora Doutora Maria Madalena Pinto da Silva.

1
Cf. CHOAY, Françoise. Património e mundialização. Lisboa, Licorne/CHAIA, 2005.

2
Cf. COSTA, Alexandre Alves. Introdução ao estudo da história da arquitectura portuguesa – outros textos sobre arquitectura portuguesa. Porto, FAUP Publicações, 1995, p. 33.

3
ALMEIDA, Carlos Alberto Ferreira de. Território paroquial de Entre-Douro-e-Minho. Sua Sacralização. Nova Renascença, nº 2, Vol. I, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 1981, p. 10.

4
ROSSI, Aldo. A arquitectura da cidade. Lisboa, Cosmos, 2001, p. 3.

5
Cf.ALMEIDA, Carlos Alberto Ferreira de. Op. cit.

6
OLIVEIRA, Marta Maria Peters Arriscado de. Arquitectura portuguesa no tempo dos descobrimentos. Assento de prática e conselho cerca de 1500. Dissertação de Doutoramento em Arquitectura. Porto, FAUP, 2004, Vol. I, p. 550.

7
ALMEIDA, Carlos Alberto Ferreira de. Op. cit.

8
A Rua Direita de Azurara era uma das principais estradas que ligavam o Porto a Vila do Conde. Ela era, então, o principal acesso, por terra, para quem, saindo do Porto, se dirigia às vilas localizadas a Norte do país. Cf. RIBEIRO, Maria do Carmo; MELO, Arnaldo Sousa. Evolução da paisagem urbana – sociedade e economia. Braga, CITCEM – Centro de Investigação Transdisciplinar, Cultura, Espaço e Memória, 2012, p. 270.

sobre a autora

Cláudia Gomes Duarte é doutoranda pela FAUP (Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto). Em 2013 participou do “1º Congresso de História da Construção Luso-Brasileira”, em Vitória (Brasil), com o tema: “Estudo da Técnica da Taipa e do Adobe Enquanto Sistema Construtivo da História da Construção”.

comments

191.03 patrimônio
abstracts
how to quote

languages

original: português

share

191

191.00 projeto

Vilanova Artigas e o Condomínio Louveira

Verticalização e ordem urbana

Leandro Medrano and Luiz Recamán

191.01 crítica

Vilanova Artigas e o edifício da FAU USP

A formação dos espaços de formação

Rafael Antonio Cunha Perrone

191.02 urbanismo

Planejamento urbano enquanto campo de disputa de poder

O caso do PDDU de Salvador BA

Thaís de Miranda Rebouças

191.04 crítica

La post-modernidad creando ciudades monótonas en Europa y en Brasil

Una propuesta metodológica de proyecto para ayudar a cambiar este escenario

Euler Muniz

191.05 crítica

Paredes Pinturas e o fim da autoria

Regis Filho, Pedro Aniceto and Cláudio Silveira Amaral

191.06 desempenho

Avaliação do ciclo de vida energético (ACVE) de uma habitação

Estudo para diferentes cenários considerando as etapas do berço ao túmulo

Lucas Caldas, Gilson Pedroso and Rosa Maria Sposto

191.07 ensino

Prática de ensino de planejamento urbano e regional

Desenho como ferramenta de discussão e agentes como protagonistas

Jonathas Magalhães Pereira da Silva, Denio Munia Benfatti, Tomás Moreira and Joana A.Z.M.T. Ribeiro

newspaper


© 2000–2017 Vitruvius
All rights reserved

The sources are always responsible for the accuracy of the information provided