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architexts ISSN 1809-6298

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português
O Auto Posto Clube dos 500 (projeto de Oscar Niemeyer) é apresentado neste artigo como uma referência chave à produção arquitetônica nacional da primeira metade do século 20, expondo potencialidades e características da tecnologia do concreto armado.


how to quote

FIGUEIREDO, Rolando Piccolo. Auto Posto Clube dos 500. Excepcionalidade de uma linguagem Niemeyeriana no pré-Brasília. Arquitextos, São Paulo, ano 17, n. 193.03, Vitruvius, jun. 2016 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/17.193/6102>.

Canteiro de obras do clube dos 500 [Acervo FAUUSP]

“Se a construção não chega à arquitetura, é claro que não poderá justificar a destruição de um status quo que historicamente deve subsistir assim como está” (1)

Cesare Brandi

Introdução

Em meados da década de 1930, surgiu no Brasil uma geração de arquitetos interessados na renovação do campo de acordo com preceitos da vanguarda europeia (2). Num contexto de formação de identidade cultural que foi o início do Estado Novo, a produção de uma arquitetura ousada projetou no exterior a imagem de uma nação criativa, industrializada e, portanto, moderna (3).

Instrumental na formação desse ideário foi a proficiência tecnológica do concreto armado no país (4). Explorada ao máximo pelos arquitetos brasileiros do período liderados pela figura de Oscar Niemeyer (1907-2012), autor do Auto Posto Clube dos 500, que exemplifica excepcionalmente essa relevante produção brasileira da primeira metade dos anos 1950.

O projeto

O Auto Posto Clube dos 500 é uma das obras projetadas por Oscar Niemeyer no estado de São Paulo, no município de Guaratinguetá à beira da Rodovia Presidente Dutra, no ano de 1951 e concluídas em 1953 (5).

Constitui-se de duas edificações paralelas entre si: a cobertura das bombas, laje plana delgada de concreto com aproximadamente 57 metros de comprimento sustentada por doze linhas de colunas espaçados em 4,5 metros, sendo oito esculturais em formato de K e as restantes cilíndricas integradas num fechamento parcial; e um edifício de apoio com sanitários, depósitos, sala de espera e escritório definidos por cinco abóbadas conjugadas, apoiadas nos vértices em paredes estruturais espaçadas em 5,5 metros e com fechamento em elementos vazados em uma das fachadas.

Originalmente os edifícios eram conectados por uma baixa cobertura plana, estrutura simples de pilar e laje. Um pilone próximo à estrada, construído com intuito de sinalizar o posto, completava o conjunto com um desenho dinâmico.

Auto Posto Clube dos 500 em junho de 2015 [Captura de tela Google Street View]

Histórico

O Clube dos 500 foi idealizado pelo empresário e banqueiro Orozimbo Roxo Loureiro para reunir amigos à meia distância entre a então capital federal Rio de Janeiro e São Paulo, inspirado pelo Clube dos 200 da Rodovia Washington Luiz (6). Citado veementemente pela revista Acrópole como um “local de reunião das elites paulista e carioca e um dos pontos de maior atração para turistas de todo o mundo” (7), o posto complementava um complexo de notória autoria: um restaurante próximo ao mesmo, com seu partido definido por arcos de concreto, também denunciava o trabalho de Niemeyer. Projetos do mesmo arquiteto, dois blocos de apartamentos (10 quartos cada) e uma pequena casa destinada ao diretor do clube dividiam elementos volumétricos comuns – fachadas inclinadas, típicas da arquitetura niemeyeriana antes da década de 1950.

Antigo restaurante do clube dos 500 [Acervo FAUUSP]

Antigo restaurante do clube dos 500 [Acervo FAUUSP]

Residência do diretor do clube dos 500 [Acervo FAUUSP]

Bloco do complexo hoteleiro [Acervo FAUUSP]

Os jardins eram projetos do renomado paisagista Roberto Burle Marx e assinalavam a consolidação dos princípios compositivos modernos que foram experimentados na obra icônica da Pampulha. No salão de refeições existe até hoje um expressivo painel do artista plástico Emiliano Di Cavalcanti. Outra figura ilustre da história nacional que fez parte do empreendimento foi o engenheiro civil Prestes Maia – por duas vezes prefeito de São Paulo (1938-1945 e 1961-196), notório por seu Plano de Avenidas das décadas de 1920 e 1930 (8) – quem teria traçado um pequeno plano urbanístico nas imediações do clube.

Interessantemente, o primeiro contato entre cliente e arquiteto do Clube dos 500 foi um prelúdio de uma relação bastante frutífera em relação ao trabalho paulista de Niemeyer. Roxo Loureiro, um dos donos do Banco Nacional Imobiliário, tinha como sócio Octávio Frias de Oliveira (1912 – 2007) quem, à frente da carteira imobiliária do banco, sugeriu a abertura de uma filial do escritório de Niemeyer em São Paulo. Sob liderança do também arquiteto Carlos Lemos, este foi responsável pelo desenvolvimento de determinados projetos sob prazos encurtados, condições essenciais para o tipo de empreendimento proposto pelo cliente (9). Produto desta empreitada são os edifícios Califórnia, Montreal, Triângulo, Eiffel e Copan, todos projetados na cidade de São Paulo ao longo da década de 1950.

A arquitetura Niemeyeriana

O reconhecimento internacional do arquiteto Oscar Niemeyer é tão indiscutível quanto, atualmente, associado aos seus projetos para os principais edifícios cívicos de Brasília. Considerada obra máxima de seus criadores (Lucio Costa no que se refere ao plano urbanístico do Plano Piloto), a relevância do projeto é tão grande que, segundo matérias publicadas em eminentes jornais internacionais (10), quase ofusca o trabalho do arquiteto nos períodos anteriores a ela. Somado ao tratamento condensado dado pelo próprio arquiteto à sua obra do período compreendida entre o conjunto da Pampulha (1943) e Brasília (1956-60) (11), existe um relativo desconhecimento público sobre a parcela significativa de trabalho que consolidou sua reputação como um dos grandes nomes da arquitetura moderna mundial e na qual a obra do Posto do Clube dos 500 se insere.

Apresentando uma análise mais detalhada, Yves Bruand em seu trabalho seminal sobre a arquitetura moderna brasileira (12) nota distinções cronológicas na produção de Niemeyer, tanto no ‘antes da Pampulha’ como no ‘entre Pampulha e Brasília’. Danilo Macedo sugere a discretização desses períodos, considerando uma fase inicial purista; certos ensaios nativistas influenciados pelos escritos de Lucio Costa; Pampulha em si, e uma fase de pesquisas estruturais que eventualmente se depurou (como no Ibirapuera) em direção à elegância cívico-abstrata de Brasília (13).

É o próprio Bruand quem indica que a partir de um projeto para o auditório anexo do edifício do Ministério de Educação e Saúde de 1947, são as estruturas o foco de expressão plástica de Niemeyer (14). Junto com ampla descrição do tratamento dado pelo arquiteto aos volumes, o autor francês sugere duas linhas principais de experimentações:

  • Os pilotis/elementos de apoio inclinados (15) e
  • Arcos e abóbadas. Excepcionalmente, o Auto Posto Clube dos 500 apresenta ambas.

Pilotis e elementos de apoio inclinados

Nota-se desde a Pampulha, certo apuro técnico em relação à estrutura no trabalho de Niemeyer. Embora não definidores dos partidos, detalhes como finos pilares metálicos suportando delicadas marquises marcam o frescor do Cassino da Pampulha ou da Igreja de São Francisco de Assis.

Influenciado pela solução de Le Corbusier no pavilhão suíço da Cidade Universitária de Paris, Niemeyer cria um dos elementos mais marcantes da arquitetura dos anos de 1950 ao diferenciar o tratamento da estrutura independente no piso térreo de maneira distinta da solução original de Le Corbusier em Marselha – os pilotis em V, que se proliferaram dentro e fora do Brasil (16). Nesse período de acelerada experimentação, Niemeyer cria variações sobre o tema em projetos como o Conjunto JK com seus pilotis em W, nos pavilhões do Ibirapuera, na residência Leonel Miranda e no Auto Posto Clube dos 500, assim como na sequência de obras apresentadas.

Elementos de apoio inclinados. Pavilhão dos Estados, São Paulo, 1051-54. Oscar Niemeyer [A Bienal e seus pavilhões. Blog da Bienal]

Elementos de apoio inclinados. Grupo escolar Júlia Kubitschek, Diamantina, 1954. Oscar Niemeyer

Elementos de apoio inclinados. Residência Leonel Miranda, Rio de Janeiro, 1952. Oscar Niemeyer

Elementos de apoio inclinados. Marquise do parque Ibirapuera, Sâo Paulo, 1951-54. Oscar Niemeyer
Foto Pedro Kok [KOK, Pedro. Pavilhão Ciccillo Matarazzo/Bienal. Pedro Kok Fotografia de Arquitetura]

Elementos de apoio inclinados. Hospital Sul América. Rio de Janeiro, 1952-59. Oscar Niemeyer e Hélio Uchoa

Elementos de apoio inclinados. Hotel Tijuco, Diamantina, 1951. Oscar Niemeyer [PAPADAKI, S. Oscar Niemeyer: Works in Progress. Nova Iorque: Reynhold, 1956.]

A solução dos suportes em K, única, foi destacada no número especial da revista francesa L’Architecture d’Aujourd’hui sobre a arquitetura brasileira no ano de 1952. Esta publicação, com lugar reconhecido na historiografia da arquitetura moderna brasileira, traz inúmeros projetos e obras de arquitetos proeminentes e atuantes naquele período. Duas interessantes páginas exemplificaram as ‘contribuições dos arquitetos e artistas brasileiros às pesquisas arquitetônicas atuais’, e deram destaque às ‘pesquisas formais de Oscar Niemeyer’, na qual um croqui do posto feito para a revista ilustrou em 1951 o final de uma evolução iniciada em 1937 com o jogo plástico resultante da laje inclinada e de uma abóbada, projeto para a residência Oswald de Andrade.

Páginas da revista francesa L’Architecture d’Aujourd’hui, 1952 [L'Architecture d'Aujourd'hui, Paris, v. no. 42/43, agosto 1952.]

Arcos e abóbadas

Cronologicamente anteriores aos elementos de apoio, Niemeyer já explorava o uso de abóbadas desde 1937, como citado anteriormente. No projeto de 1941 para o Centro Atlético Nacional, surgiram pela primeira vez as coberturas consistentes de abóbadas conjugadas, primeiramente construídas na Igreja São Francisco de Assis (1943), na Pampulha.

A repercussão dessa obra, tão inovadora no âmbito plástico-estrutural, foi imediata e instrumental na definição da estética ousada da arquitetura moderna brasileira. Niemeyer empregou esse elemento em inúmeros projetos do período: garagem de barcos no Rio de Janeiro (1944), residência Tremaine na Califórnia (1948), sede da ONU em Nova Iorque (1947), Hotel Regente no Rio de Janeiro (1949), laboratório da fábrica Duchen (1950), no primeiro projeto do Copan (1951), dentre outros.

Abóbadas. Conjunto JK, Belo Horizonte, 1951. Oscar Niemeyer [MORAIS, Pedro. Decifrando a Esfinge: uma tentativa de análise do Conjunto JK. Belo]

Abóbadas. Residência Tremaine, Califórnia, 1947. Oscar Niemeyer [PAPADAKI, Stamo. The Work of Oscar Niemeyer. Nova Iorque, Reynhold, 1950]

Abóbadas. Clube Libanês, Belo Horizonte, 1955. Oscar Niemeyer [PAPADAKI, Stamo. Oscar Niemeyer: Works in Progress. Nova Iorque, Reynhold, 1956.]

Abóbadas. Garagem de barcos. Oscar Niemeyer [PAPADAKI, Stamo. The Work of Oscar Niemeyer. Nova Iorque, Reynhold, 1950]

Abóbadas. Laboratório Dunchen, 1949. Oscar Niemeyer [COLLARES, Julio. Exoesqueletos no Modernismo Brasileironas Décadas de 40 e 50]

Abóbadas. Laboratório Dunchen, 1949. Oscar Niemeyer [COLLARES, Julio. Exoesqueletos no Modernismo Brasileironas Décadas de 40 e 50]

Abóbadas. Hotel Imperator (Copan), 1951-66. Oscar Niemeyer [L'Architecture d'Aujourd'hui, Paris, v. no. 42/43, agosto 1952]

De acordo com o arquiteto

Da primeira fase dos meus trabalhos – 1942 a 1957, me limitarei a apresentar os projetos principais ou aqueles que contêm uma ideia nova, podendo se integrar à nossa arquitetura e permitir que outros arquitetos a utilizem conscientemente ou sem a autenticidade ou escala das soluções originais. Entre estas, a cobertura curva prevista para o complexo do Estádio nacional, uma solução multiplicada ao infinito, mesmo sobre o terraço de alguns edifícios... (17).

É curiosa tal afirmação de Niemeyer, publicada em 1977, já que demonstra ciência da natureza elementar (no sentido compositivo) das formas por ele criadas no pré-Brasília. Enquanto entende-se sua própria arquitetura do período como aplicações originais de elementos comuns, surpreende eventual intenção de criação de um vocabulário passível de apropriação por outros arquitetos, algo que de fato ocorreu – grandes nomes da arquitetura nacional e internacional se utilizaram dele. Em específico sobre a apropriação das abóbadas, pode-se citar Affonso Eduardo Reidy  (edifício Viação Férrea do Rio Grande do Sul, Porto Alegre 1944  (18)), Jorge Machado Moreira  (Instituto de Puericultura, Rio de Janeiro 1949-53 (19)), Raul Villanueva (Faculdade de Engenharia da Cidade Universitária de Caracas, 1954 (20)) e Donald Barthelme (Columbia Elementary School, Houston 1951 (21)).

Abóbadas de arquitetos influenciados por Niemeyer, Maquete do segundo projeto para o Edifício-sede da VFRGS, Porto Alegrem 1944. Affonso Reidy e Ivan Mizoguchi

Abóbadas de arquitetos influenciados por Niemeyer, West Columbia Elementary School. Donald Barthelme & Assoc, 1951

Abóbadas de arquitetos influenciados por Niemeyer, Instituto de Puericultura, Rio de Janeiro 1949-53. Jorge Machado Moreira

Abóbadas de arquitetos influenciados por Niemeyer, Faculdade de Engenharia da Cidade Universitária de Caracas, 1954. Raul Villanueva [Foto divulgação]

Mesmo com forte marca na arquitetura brasileira, a grande maioria das abóbadas projetadas por Niemeyer ficou no papel. Do período em questão, apenas três existem edificadas: na famosa Igreja da Pampulha (1943), na biblioteca do ITA (1947, sem visibilidade do público por estar dentro do Centro Tecnológico de Aeronáutica, em São José dos Campos) e a do Auto Posto Clube dos 500.

Esse nível de influência se apresenta como um paradoxo dado o número extremamente limitado de elementos edificados. Processo similar ocorre com os pilotis em V, dos quais a maioria daqueles projetados por Niemeyer também ficou no papel. A ampla publicação de seus projetos no período, porém, justifica a difusão de suas formas tão conhecidas em termos de harmonia e proporção (22).

Esta exuberância e originalidade estrutural ainda hoje são associadas ao movimento moderno brasileiro. O renomado escritório suíço Herzog & de Meuron em seu projeto para a garagem 1111 Lincoln Road, em Miami, citou claramente a essência modernista tropical da obra, enquanto se reconhece a ligação óbvia com o moderno brasileiro (23). O efeito plástico da garagem, proveniente da relação entre os elementos estruturais oblíquos e as lajes minimamente delgadas é muito próximo da estratégia compositiva do posto de Niemeyer. Ainda somadas à materialidade e mesmo à técnica construtiva do concreto armado, pode-se formular a hipótese de uma referência direta ao posto, ao mesmo tempo em que se descarta a possibilidade de uma simples coincidência compositiva.

Lincoln Road, Florida, 2005-2008. Herzog & de Meuron [Foto divulgação]

Lincoln Road, Florida, 2005-2008. Herzog & de Meuron [Foto divulgação]

Ainda tratando-se de influência, nota-se em Guaratinguetá um número acima de média de residências nas quais existe apropriação de elementos modernos. Possivelmente por meio de um processo similar àquele descrito por Fernando Luiz Lara (24), que analisa o desenvolvimento de uma arquitetura moderna popular (produzida até mesmo por não-arquitetos) no bairro da Pampulha, o posto de Niemeyer, já renomado em 1951, com grande visibilidade, pode ter estimulado o gosto local, como se percebe numa residência à Rua Castro Santos.

Residência com marquise sustentadas por colunas esculturais similares às do posto [Captura de tela Google Street View]

O concreto

Além das características qualitativas, as quantitativas também apresentam interesse na obra. Não apenas os pontos de apoio entre as colunas e a cobertura são extremamente diminutos, mas a espessura desta também impressiona no Auto Posto Clube dos 500. Vista por trás, nota-se a ausência de quaisquer vigas, indicando provável alta densidade de aço – a notória ‘ferragem à milanesa’, a qual Lucio Costa se referia em relação à Niemeyer “Às vezes mal dá para jogar o concreto: ferragem à milanesa. O resultado que se obtém com isso é a sensação de suspenso livre cuja qual ele realmente gosta” (25).

Essa preferência estética de Niemeyer entendeu-se muito bem com a tradição da construção em concreto no país. Em relato do engenheiro alemão Adolf Kleinlogel, um dos profissionais mais consagrados em relação aos estudos do aperfeiçoamento do concreto armado na Alemanha, durante uma visita ao Brasil em 1937 diz: “Pelo que vi realizado, posso concluir que o Brasil apresenta um grau de adiantamento em relação ao concreto armado muito além de minha expectativa” (26). Kleinlogel especialmente destacou a esbeltez das colunas executadas no Brasil, o que era possível devido à norma local que permitia 6% de aço no concreto ao invés dos 3% alemães (27).

Tal reconhecimento internacional se reforça por meio de uma visita do engenheiro Arthur J. Boase, conselheiro da Associação de Cimento Portland dos Estados Unidos ao Brasil. Entre 1944 e 1945, publicou na revista Engineering News-Record quatro artigos comparando a construção brasileira àquela americana, mencionando atributos positivos e novamente destacando a leveza brasileira: “Sinto-me impressionado com a esbeltez das construções brasileiras; os edifícios nos Estados Unidos são muito mais pesados.”

Fora do Âmbito técnico, a competência construtiva brasileira era conhecida de grandes nomes da arquitetura internacional. Eero Saarinen (1910-1961) quando confrontou-se com o projeto do ringue de hóquei em Yale (1956-59), contou com a ajuda de um sócio com ‘...experiência em construções ousadas. David Powrie era um jovem arquiteto canadense que retornara recentemente a Toronto após ter trabalhado para Affonso Eduardo Reidy e Oscar Niemeyer no Brasil, onde a construção em concreto podia ser considerada mais avançada que em qualquer outro lugar do mundo" (28).

Não surpreende, portanto, que o Brasil reteve o recorde de estrutura em concreto mais alta do planeta ao concluírem-se as obras do edifício A Noite, calculado por Emílio Baumgart [4], pioneiro do concreto e colaborador de Niemeyer em algumas obras e projetos, como o Ministério da Educação e Saúde (1937-45) ou o Centro Atlético Nacional (1941, não construído).

Estado atual

O Auto Posto Clube dos 500 mantém o uso original de posto de combustível. O anexo que há pouco tempo abrigava o espaço Graal Kids encontra-se abandonado, sinal preocupante se considerado o uso do bem como fator primordial na preservação do patrimônio (29).

O conjunto apresenta descaracterizações pontuais, das quais se destacam, no anexo, a adição de aberturas na parede de elementos vazados, uma pintura grafiato e alteração da abertura da entrada principal. A planta interior também já não apresenta tantas semelhanças com o projeto publicado em Papadaki (30), destacando-se o fato das mencionadas ‘paredes estruturais não mais existirem – apenas os pilares de seção retangular que se integravam no fechamento original.

Já na cobertura das bombas houve um corte de aproximadamente 1x1m na laje destinado à passagem de um duto exaustor. Em planta, nota-se que se estendeu o fechamento em um módulo de maneira que apenas cinco das seis colunas em K aparecem ‘soltas’. A coluna restante atualmente integra a fachada da loja de conveniência e oferece possibilidade de eventual restauro sem a necessidade de intervenções significativamente invasivas. Além disso, nota-se a instalação de sinalização em desacordo com a arquitetura.

Integração de uma coluna em K (mais a direita) à fachada da loja de conveniência e sinalização inadequada [Acervo do autor]

A cobertura baixa que ligava os dois edifícios já não aparece nas fotos da etapa de finalização das obras, de Gustavo Neves da Rocha Filho (31), mas sim no livro de Stamo Papadaki (1956). Aparentemente ela foi suprimida logo após a construção, possivelmente por impedir o fluxo de carros. O pilone sinalizador também não mais existe, porém ambos elementos têm um valor secundário em relação à leitura da obra pela dominância da estrutura como elemento compositivo principal.

Elementos suprimidos, cobetura e pilone [Acervo FAUUSP]

Valoração da obra como patrimônio

Com a morte de Oscar Niemeyer em 2012 e sua subsequente repercussão, levantou-se o interesse um pouco mais amplo no trabalho do arquiteto. Percebeu-se, no entanto, parcial desconhecimento sobre a pluralidade do trabalho de Niemeyer para além do público geral, como já citado anteriormente, mas também até os ambientes especializados.

Não se pretende neste artigo definir a razão disso: seja o distanciamento temporal dessa obra, sua participação na capital federal, a longevidade do arquiteto e sua prática ininterrupta, ou seus status intocável que impedia críticas a projetos de qualidade já questionável. O fato é que ainda hoje há um grande desconhecimento de que Niemeyer se lançou como um grande expoente da arquitetura mundial por razões muito diferentes daquelas que atualmente embasam a sua fama.

Com intuito específico de abordar esta questão, em julho de 2012 foi criada a página Oscar Niemeyer Works, primariamente no Instagram e eventualmente também no Facebook. Mídias sociais de grande alcance, especialmente entre jovens, serviram de plataforma não apenas para atingir um grupo demográfico bastante extenso, mas também com o objetivo de disponibilizar para leitores não brasileiros (por meio de publicações em inglês) pesquisas importantes e relevantes sobre o assunto.

A recepção do conteúdo foi muito positiva, sendo que a página hoje conta com mais de 30 mil seguidores. Ao digitalizar e disponibilizar a um grande público material antes limitado a bibliotecas foi possível perceber o interesse real do público nessa parcela pré-Brasília da obra de Niemeyer. Assim, foi por meio da participação ativa da comunidade online que o autor foi notificado sobre a situação atual do Auto Posto Clube dos 500.

Em julho de 2015, o estudante do curso de arquitetura e urbanismo das Faculdades Integradas Tereza D’Ávila (FATEA), Carlos Eduardo de Sene Ferreira, noticiou um relato de intenção de demolição do posto. Segundo ele, no ano de 2014, alguns estudantes teriam sido impedidos pelo gerente do espaço de realizar um levantamento in loco, visto o desenvolvimento de alguns projetos para o local. O interesse do aluno pela obra reflete aquele da população da pequena cidade, que apreende a presença de uma obra de notória autoria com orgulho, o que se confirma por um abaixo assinado na cidade de Gauratinguetá com mais de 450 assinaturas, constante em um processo de tombamento arquivado junto ao órgão de preservação do patrimônio do estado de São Paulo, Condephaat  (32). Este episódio ocorreu em 1993 quando, a pedido da Thereza e Tom Maia através do Museu Frei Galvão, tentou-se impedir iminente demolição, noticiada em jornais locais.

Tal engajamento público em defesa do conjunto conflita com a excepcional vulnerabilidade do bem em questão. Único posto projetado por Niemeyer, sua preservação é surpreendentemente possibilitada até os dias atuais pela longa duração do processo de salvaguarda supracitado (de 1993 até 2009). Por questões econômicas e mesmo normativas, além da necessidade de troca de tanques subterrâneos, é uma tipologia extremamente delicada, como a maior parte dos exemplares da arquitetura funcional/industrial (33). Como exemplo dentro do próprio Condephaat, tem-se o caso da Fábrica Duchen, caso de ‘demolição preventiva’ nos anos 1990 (processo 24.896/1986).

Pesou sobre o parecer desfavorável ao tombamento do posto o caráter autoral da justificativa junto ao fato de menos da metade das edificações hoje existentes terem sido projetadas por Niemeyer. Adicionalmente, alguns edifícios encontravam-se descaracterizados, qual o caso do restaurante do Clube dos 500, praticamente inexistente hoje. O posto, porém, encontra-se bem preservado como mencionado no próprio parecer final do processo de tombamento (34), especialmente no que se refere aos elementos estruturais que, no caso, são o foco do projeto arquitetônico/intenção estética (35).

A afirmação constante no parecer de que “visto de forma isolada, este trabalho de Niemeyer, hoje – em razão da descaracterização dos edifícios originais – não permite fruição didática da obra do arquiteto, se pensada em sua integridade” (36), é facilmente combatida pela manutenção dos principais atributos valorativos do posto em questão.

À página 26 do mesmo documento cita-se como motivo para arquivamento do processo "a presença de outras obras do autor em território paulista, em melhor estado de conservação, que com mais representatividade comporiam a representação da arquitetura moderna de Oscar Niemeyer no estado de São Paulo." (37). Junto ao requerimento de critérios claramente estabelecidos para preservação institucional de obras autorais, pode-se novamente argumentar favoravelmente ao valor do posto como patrimônio sob o qual pode-se atribuir uma grande gama de valores.

Ainda sobre o parecer, o uso do conjunto do Memorial da América Latina como exemplo de bem tombado com atribuição de notório valor cultural e estético pode ser interpretado como contradição, visto que isoladamente o posto do Clube dos 500 suprem de modo mais excepcional os critérios de posicionamento representativo e de especificidade claros dentro da obra do arquiteto.

Pelos fatores apresentados neste artigo reitera-se a importância do posto do Clube dos 500 para a fruição didática da obra pré-Brasília do arquiteto (ou pré-revisão autocrítica de 1955, através de seu texto Depoimento (38)). Colabora com esse argumento a localização do posto, nas margens da rodovia mais importante do país, o que lhe proporciona grande visibilidade pública, principalmente por se tratar de bem privado. Enquanto a única residência de Niemeyer que demonstra características de seu período de pesquisas estruturais se esconde atrás de altos muros (residência Leonel Miranda, tombada pela prefeitura do Rio de Janeiro), o Posto tem por característica inerente o livre acesso visual e espacial do público.

Conclusão

O artigo retoma interesse por um trabalho periférico, porém excepcional dentro da obra do mais renomado arquiteto moderno brasileiro. Historicamente o Auto Posto Clube dos 500 se mostra como primeiro contato entre cliente-arquiteto que produziria o maior legado paulista de Niemeyer, ao mesmo tempo que representa uma particular tradição construtiva brasileira da metade do século 20 (concreto armado com alta densidade de aço).

Arquitetonicamente, ao posto se atribuem qualidades estéticas que, embora figurassem amplamente em projetos publicados do arquiteto, não tiverem ampla execução, sendo as abóbadas conjugadas o grande exemplo. Quando se reflete sobre a situação de visibilidade privilegiada em que o mesmo se encontra, é possível entender este caso específico como uma chance ímpar de evidenciar uma parcela surpreendentemente desconhecida da obra de Niemeyer que o lançou na vanguarda da arquitetura mundial nas décadas de 1940 e 1950, e cujo tombamento, como instrumento para garantir sua salvaguarda, seria adequado.

Por menor que seja, é claro o interesse gerado por um exemplar arquitetônico tão ilustre numa cidade do interior do estado – interesse esse que se estende a uma comunidade muito maior de arquitetos e apreciadores que, por meio de novos meios de divulgação, voltam a valorar uma produção tão rica em implicações técnico-estéticas que a todos beneficiaria a sobrevivência do Auto Posto Clube dos 500.

notas

NE – Este artigo é uma versão revisada e adaptada do Anexo I – Justificativa do pedido de tombamento do Auto Posto Clube dos 500 junto ao Condephaat (processo 95.860/2015).

1
BRANDI, Cesare. Teoria da restauração. Tradução de Beatriz Mugayar Kühl. São Paulo, Ateliê Editorial, 2004, p. 108.

2
SEGRE, Roberto. Ministério da Educação e Saúde: ícone urbano da modernidade brasileira 1935-1945. São Paulo, Romano Guerra, 2013.

3
CAVALCANTI, Lauro. Moderno e brasíleiro: a história de uma nova linguagem na arquitetura 1930-1960. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2006.

4
VASCONCELOS, Juliano. Concreto armado, arquitetura moderna, Escola Carioca: levantamento e notas. Porto Alegre, UFRS PROPAR, 2004.

5
Solicitação de tombamento do conjunto de edificações que compõem o Clube 500 - Guaratinguetá. Processo 30.953 do CONDEPHAAT, 1993.

6
LOUREIRO, Orozimbo. Garimpando reminiscências. São Paulo, 1976, p. 312.

7
CLUBE dos 500. Acrópole, ano 15, n. 174, 1952, p. 208-210.

8
ANELLI, Renato Luiz Sobral. Redes de mobilidade e urbanismo em São Paulo: das radiais/perimetrais do Plano de Avenidas à malha direcional PUB. Arquitextos, São Paulo, ano 07, n. 082.00, Vitruvius, mar. 2007 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/07.082/259>.

9
LEAL, Daniela. Oscar Niemeyer e o mercado imobiliário de São Paulo na Década de 1950: o escritório satélide sob direção do arquiteto Carlos Lemos e os edifícios encomendados pelo Banco Nacional Imobiliário. Dissertação de mestrado. Campinas, IFCH Unicamp, 2003.

10
OUROSOFF, Nicolai. Oscar Niemeyer, architect who gave Brasília its flair, dies at 104. In: The New York Times, 2012. Disponível em: <http://www.nytimes.com/2012/12/06/world/americas/oscar-niemeyer-modernist-architect-of-brasilia-dies-at-104.html?_r=0>

PAWLEY, Martin.; GLANCEY, Jonathan. Oscar Niemeyer obituary. In: The Guardian, 2012. Disponível em <http://www.theguardian.com/artanddesign/2012/dec/06/oscar-niemeyer-obituary>.

11
MACIEL, Fabiano Maciel. A vida é um sopro. Direção: Fabiano Maciel. Gávea Filmes/Pipa. Produções, 2007.

12
BRUAND, Yves. Arquitetura contemporânea no Brasil. São Paulo, Perspectiva, 1981.

13
MACEDO, Danilo. Da matéria à invenção: as obras de Oscar Niemeyer em Minas Gerais 1938-1955. Brasília, Editora Câmara, 2008.

14
BRUAND, Yves. Op. cit.

15
MACEDO, Danilo. Op. cit.

16
FICHER, Sylvia; ACAYABA, Marcos. A Quatro Mãos: arquitetura moderna brasileira, 1978-1982. MDC, 2011. Disponível em: <http://mdc.arq.br/2011/03/29/a-quatro-maos-arquitetura-moderna-brasileira-1978-82/>.

17
NIEMEYER, Oscar. Niemeyer. Paris, Alphabet, 1977.

18
FRANCK, K. The Works of Affonso Eduardo Reidy. Nova Iorque, Praeger, 1960. 30 p.

19
IMAGEM UFRJ. Disponível em <http://www.imagem.ufrj.br/index.php?acao=detalhar_imagem&id_img=1109%5D (acesso em 27/10/2015)>.

20
USECHE. Disponível em <http://www.useche.com.br/upload/raizes/conteudo/DSC_0068_201361883654.jpg>.

21
MEISEL, Ulric. West Columbia Elementary School. University of Houston Digital Library, 1952. Disponível em <http://digital.lib.uh.edu/collection/2001_003/item/35>.

22
BRUAND, Yves. Op. cit.

23
ARCHDAILY. Disponível em <http://www.archdaily.com/59266/1111-lincoln-road-herzog-de-meuron>.

24
LARA, Fernando. The Rise of Popular Modernist Architecture in Brazil. Gainesville, University Press of Florida, 2008.

25
FEROLLA, J. E. Oscarianas Mineiras. MDC, 18/03/2013. Disponível em <http://mdc.arq.br/2013/03/18/oscarianas-mineiras>.

26
VASCONCELOS, Juliano. Op. cit.

27
Idem, ibidem.

28
MERKEL, Jayne. Eero Saarinen. Londres/Nova Iorque, Phaidon, 2005.

29
ICOMOS. The Venice Charter, II International Congress of Architects and Technicians of Historic Monuments, Venice, 1964.

30
PAPADAKI, Stamo. Oscar Niemeyer: Works in Progress. Nova Iorque, Reynhold, 1956.

31
Fotografias do Clube dos 500 em construção, de Gustavo Neves da Rocha Filho, 1953.

32
Solicitação de tombamento do conjunto de edificações que compõem o Clube 500. Guaratinguetá, processo 30.953 do CONDEPHAAT, 1993.

33
ENGLISH HERITAGE THEMATIC RESEARCH STRATEGIES. A thematic research strategy for the historic industrial environment. Disponível em <http://content.historicengland.org.uk/content/docs/research/industrial-research-strategy.pdf>.

34
Parecer. Processo 30.953 do CONDEPHAAT, 2009, p. 23.

35
QUEIROZ, Rodrigo. Oscar Niemeyer e Le Corbusier: encontros. São Paulo, FAUUSP, 2007.

36
Parecer. Processo 30.953 do CONDEPHAAT, 2009, p. 23.

37
Idem.

38
MACEDO, Danilo. M. Arquitetura em Transição: interpretação do trabalho de Oscar Niemeyer a partir de seu discurso - 1955-1962. Belo Horizonte, UFMG, 2000. Disponível em <http://danilo.arq.br/textos/arquitetura-em-transicao-interpretacao-do-trabalho-de-oscar-niemeyer-a-partir-de-seu-discurso-1955-1962/>.

sobre o autor

Rolando Piccolo Figueiredo é formado em engenharia mecânica pela universidade de Bath. Atualmente cursa Arquitetura e Urbanismo na Universidade Presbiteriana Mackenzie, e administra o perfil Oscar Niemeyer Works, focado em pesquisas sobre o trabalho pré-Brasília do arquiteto.

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