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architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
O artigo trata do ensino do projeto na pós-graduação em arquitetura e urbanismo, por meio da proposição de um mestrado profissional em desenho urbano, cujo o conceito norteador é a relevância do papel da habitação social na produção do espaço urbano.

english
This paper reflects on the project learning process into architecture and urbanism graduate programmes, through the proposal of a master in urban design, which has as general concept the relevance of social housing in the production of urban space.


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BRANDÃO, Zeca. Habitação social como urbanismo. Proposta pedagógica para um mestrado profissional em desenho urbano. Arquitextos, São Paulo, ano 17, n. 196.04, Vitruvius, set. 2016 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/17.196/6220>.

Fundamentação teórica: workshop internacional como referência

O ensino de arquitetura e urbanismo no Brasil – especialmente o do projeto – tem apresentado uma série de deficiências que parecem contribuir com a baixa qualidade dos espaços urbanos produzidos no país. Entre outras razões, podemos destacar a dificuldade de introduzir uma pedagogia projetual que conjugue teoria e prática, e que estimule a produção e sistematização do conhecimento gerado pela reflexão da própria prática projetiva (1). Para mudança desse cenário, julgamos que é preciso desenvolver novas abordagens pedagógicas referentes ao ensino e aprendizado do projeto, considerando estratégias alternativas que sejam mais coerentes com a complexidade da cidade contemporânea.

Como apontam Fernando Lara e Sonia Marques (2), a base pedagógica dos modelos de ensino do projeto tradicionalmente aceitos nas escolas de arquitetura no Brasil tem permanecido a mesma e muito pouco esforço tem sido feito no sentido de adaptá-la às novas perspectivas de cidade. Diante da dificuldade encontrada pelos profissionais – sejam os que atuam no mercado ou no meio acadêmico – em sistematizar o conhecimento produzido através de uma prática reflexiva, a maneira de ensinar, aprender e, consequentemente, projetar não tem sofrido grandes transformações nas últimas décadas. Este artigo pretende argumentar que uma revisão crítica dessas abordagens de ensino na área do projeto pode atuar como um importante agente transformador da prática profissional, de modo que os arquitetos urbanistas possam enfrentar com mais competência os desafios surgidos a partir desta nova realidade.

Abertura do workshop: presença de representantes das instituições envolvidas com o tema e área de intervenção
Foto divulgação

A articulação entre o ensino do projeto e a prática profissional já foi consolidada através dos conhecidos Ateliês de Projetos. Fundamentado nas disciplinas práticas criadas ainda no século 19 pela École des Beaux-Arts, esses ateliês se propõem a reproduzir o ambiente de um escritório de arquitetura, onde os alunos supostamente aprendem o ofício de projetar por meio da própria prática projetual. Estas disciplinas realmente assumiram grande relevância curricular nos cursos de graduação em arquitetura e urbanismo e têm de fato protagonizado o processo de aprendizagem do projeto.

Nos últimos anos, no entanto, a eficácia das metodologias de ensino aplicadas nesses ateliês tem sido bastante questionada. Na maioria das escolas brasileiras, o conteúdo dessas disciplinas se restringe a simples simulação da prática profissional, onde é dado ao aluno um terreno e um programa fictício, e cobra-se dele a realização de um projeto. Em muitos casos, o papel do professor se limita à acompanhar o aluno, criticando o desenvolvimento de sua proposta e ajudando-o a encontrar as suas próprias soluções.

Esta postura pedagógica, como afirma Edson Mahfuz (3), parte do princípio, nem sempre correto, de que o aluno já traz consigo um conhecimento intuitivo adquirido antes mesmo de iniciar a sua formação profissional, e que a partir dessa base empírica ele pode aprender a projetar através da sua própria prática, devidamente supervisionada pelo seu professor-tutor. Considerando que a grande maioria dos estudantes não possuem qualquer fundamentação teórica ou prática quando começam o curso, essa estratégia só tem surtido efeito com os alunos dotados de especial talento. Por terem uma percepção espacial e estética mais apurada, esses alunos conseguem desenvolver a sua própria maneira de projetar, cabendo aos outros a frustação de se sentirem excluídos e desprovidos do talento necessário para aprender o ofício.

Design Studio: o lócus das atividades práticas e teóricas dos workshops
Foto divulgação

Essa leitura equivocada vem há décadas consolidando uma premissa perigosa e extremamente nociva à pedagogia projetual: a ideia de que não se ensina a projetar, apesar de ser possível aprender. Nesse caso, o papel do professor de projeto se restringiria apenas a identificar e orientar os alunos mais talentosos a desenvolverem o seu próprio aprendizado. Sem negar a importância do talento em qualquer atividade criativa – que é sem dúvida o caso de projetar – essa premissa simplesmente anula a possibilidade, e até mesmo a necessidade, do desenvolvimento de uma pedagogia projetual. Essa postura cética diante do ensino do projeto certamente contribuiu para a estagnação da sua base pedagógica.

Além das fragilidades metodológicas encontradas no ensino do projeto, vale destacar também que essas disciplinas práticas ainda podem ser consideradas exclusividades dos cursos de graduação. Apesar da inserção desse tipo de disciplina na pós-graduação estar sendo bastante discutida em encontros acadêmicos mais recentes – principalmente após 2003, com o surgimento dos Seminários Projetar – o ensino da prática projetual, com raras exceções, tem se restringido aos programas de graduação.

No entanto, algumas tentativas isoladas e desvinculadas da estrutura curricular estão ocorrendo, de forma cada vez mais frequente, nos programas de pós-graduação. Geralmente essas atividades são desenvolvidas no formato de workshop e consistem de, em média, duas semanas de intenso exercício projetual. Sempre em parceria com instituições acadêmicas internacionais, trabalhando com casos reais e envolvendo agentes públicos e privados relacionados com o tema, o objetivo desses workshops é expor o estudante às pressões e complexidades de um projeto urbano real.

O formato e a intensidade desta atividade acadêmica oferece um ambiente adequado para testar conceitos e estratégias projetuais de arquitetura e urbanismo, explorando o papel do desenho como uma maneira de pesquisar ao invés de apenas ilustrar propostas finalizadas. O argumento é que a produção de desenhos rápidos e intuitivos, em forma de croquis e diagramas, devidamente acompanhada de uma reflexão crítica-propositiva, pode ser um importante instrumento de investigação e pesquisa capaz de testar tanto ideias gerais como hipóteses mais específicas (4).

Como destacam Zeca Brandão e Carolina Brasileiro (5), a desmistificação do desenho como manifestação de soluções precisas e definitivas, concebidas após muito trabalho e a plena compreensão contextual do estudo de caso, parece ser fundamental na pedagogia proposta por esses workshops. Por outro lado, há um reconhecimento explícito do desenho como um dos principais protagonistas da ação projetual. Na verdade, é exatamente este falso paradoxo de valorizar o desenho através da sua aparente desvalorização – não supervalorizando a sua importância – que estrutura a abordagem pedagógica desses workshops.

Pin up sessions: apresentações e discussões internas das propostas
Foto divulgação

De certa maneira, esse modelo de workshop pode ser considerado uma espécie de ateliê intensivo de projetos. Entretanto, três características importantes o diferencia do ateliê tradicional: ele é uma atividade multidisciplinar, colaborativa e contextual. Uma atividade multidisciplinar porque eles sempre lidam com a escala urbana, que exige uma ampla gama de conhecimentos profissionais específicos. Uma atividade colaborativa porque, além dos trabalhos serem realizados coletivamente, os workshops geralmente resultam de parcerias entre instituições acadêmicas internacionais, fornecendo um ambiente rico para intercâmbios culturais e pedagógicos. Também é uma atividade contextual por sempre trabalharem com problemas urbanos reais, envolvendo todos os players relacionados ao tema e à área de estudo.

Nesse artigo, sugerimos que esse modelo de workshop seja desenvolvido e adaptado às demandas de um curso de pós-graduação stricto sensu. Mais especificamente, pretendemos oferecer subsídios pedagógicos para a formatação de um Mestrado Profissional em Desenho Urbano com ênfase em Habitação Social, visando capacitar técnicos envolvidos na elaboração e avaliação de projetos urbanos que tenham como mote o uso habitacional. Para testar essa possibilidade e entender melhor as implicações didáticas e práticas desse exercício acadêmico, o Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Pernambuco (DAU/UFPE), em parceria com a Architectural Association School of Architecture (AA School), realizou uma série de três workshops que tiveram como temática a habitação social.

Os workshops AA/UFPE como estudos de caso

Como sugerido nesse artigo, uma nova forma de ensino de projeto vem sendo empiricamente desenvolvida em algumas escolas de arquitetura e urbanismo. Uma pedagogia que compreende uma abordagem experimentalista, que valoriza mais o processo projetual do que o produto final. Esse modelo tem sido adotado em várias instituições internacionais de ensino, tendo como uma das experiências mais conhecidas a da Architectural Association, em Londres.

A Architectural Association Graduate School conta com mais de dez programas de pós-graduação, que exploram atividades desenvolvidas em estúdio e procuram enfatizar a criatividade e a inovação como referências para a produção projetual. Entre esses programas, um dos mais consolidados é o Housing and Urbanism Programme, que investiga questões práticas e teóricas em torno do desenho urbano e das estratégias espaciais, tendo sempre como âncora o tema da habitação social. A questão da habitação é um tema recorrente no programa, não só como reflexão crítica sobre questões referentes à identidade cultural, mas também, e principalmente, como elemento estratégico na elaboração de propostas urbanas.

Dentro da sua estrutura curricular, o programa realiza workshops na Inglaterra e no exterior onde estes temas são abordados em situações de projetos reais, colaborando com as partes interessadas e envolvendo o poder público local. Os encontros têm duração de duas semanas e agregam alunos e professores da AA School e das instituições acadêmicas parceiras. Esta atividade tem se mostrado relevante, tanto pelas suas implicações práticas, através de interferências positivas na dinâmica urbana das áreas de estudo, quanto sob o ponto de vista didático, no desenvolvimento de uma nova pedagogia projetual.

Nos últimos anos, três destes workshops foram realizados na cidade do Recife (2013, 2014 e 2015), como resultados de uma parceria entre o Housing and Urbanism Programme (H&U/AA) e o Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Urbano (MDU/UFPE). Cada workshop contou com a participação de mais de sessenta estudantes – sendo metade do H&U e metade do MDU – distribuídos em quatro grupos de trabalho, com cada equipe sendo acompanhada por dois professores/tutores de cada escola. Além de se apresentar como uma cooperação acadêmica entre os dois programas de pós-graduação, a parceria recebeu também o apoio – e teve a participação direta de técnicos – do Ministério das Cidades, do Governo de Pernambuco e das Prefeituras do Recife e Jaboatão.


III Workshop Internacional de Desenho Urbano AA/UFPE 2013

Os workshops foram desenvolvidos através de exercícios de projeto e pesquisa que visaram testar estratégias espaciais alternativas a serem aplicadas em projetos habitacionais do programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV). Os trabalhos exploraram, sobretudo, o papel da habitação social como um componente básico na produção de cidades, bem como a possibilidade do desenho urbano colaborar com a sua inserção no tecido urbano já consolidado. Os eventos provocaram uma grande discussão teórica na cidade e apresentaram resultados que suscitaram desdobramentos concretos. No momento, as instituições públicas envolvidas no processo estão juntas dando continuidade à experiência, através da formatação de um projeto modelo, baseado em propostas elaboradas nos workshops.

A intenção desse artigo não é discutir essas propostas, mas sim refletir como este tipo de colaboração internacional pode contribuir para melhorar a pedagogia projetual e fundamentar um mestrado profissional em desenho urbano (6). Porém, é importante salientar que, apesar de cada workshop ter produzido quatro propostas bem diferentes para a mesma área – e que os workshops estudaram três áreas distintas, gerando assim um total de doze propostas diferentes – uma certa similaridade conceitual foi identificada nas soluções. De um modo geral, todos os trabalhos negaram a ideia de que um programa de habitação social se restrinja à construção de casas, e questionaram as articulações espaciais e territoriais resultantes do MCMV (7).

Os resultados dos três workshops indicaram que apesar do discurso oficial do MCMV ser supostamente fundamentado na noção de que habitação social e comunidade devem estar sempre conectadas e, portanto, deveriam ser abordadas como uma entidade única, os arranjos institucionais do programa tem produzido projetos genéricos, que desconsideram as características e demandas locais. O programa foi criticado por não explorar o potencial do desenho urbano como transformador das relações sociais e econômicas no território, o que foi claramente revelado nos workshops na medida em que os conjuntos residenciais analisados eram empreendimentos mono-funcionais, periféricos, e geralmente desconectados do mercado e dos serviços das cidades.


IV Workshop Internacional de Desenho Urbano AA/UFPE 2014

As propostas produzidas nos workshops reforçaram os vínculos sociais e econômicos das comunidades sem deslocá-las das áreas centrais. Várias estratégias espaciais foram testadas questionando a padronização atual dos projetos gerados pelo MCMV e usando a política habitacional para alcançar mudanças sociais através do fortalecimento de atividades econômicas informais já existentes nas áreas. Todas as equipes embasaram as suas propostas espaciais enfatizando as atividades econômicas preexistentes e o potencial de novos arranjos produtivos, com o objetivo de aumentar a produtividade dos territórios e fornecer soluções mais viáveis e sustentáveis.

Diretrizes pedagógicas: sete pontos de referência

Diante deste novo panorama de ensino de projeto pautado em uma abordagem investigativa em que o processo projetual é posto em evidência através da prática intensiva em estúdio, consideramos que o modelo de workshop, brevemente exposto aqui, é uma referência metodológica fundamental para a constituição do mestrado profissional. Nesse sentido, elencamos algumas diretrizes pedagógicas que fundamentam o curso ora proposto, assim como apresentamos o conceito geral que norteia a sua proposta metodológica.

Como conceito geral do mestrado é adotado o mesmo que estrutura o Housing and Urbanism Programme (H&U) e que fundamentou a série de três workshops que o programa realizou em parceria com o Programa de Desenvolvimento Urbano (MDU). Esse conceito, chamado de Housing as Urbanism (Habitação Social como Urbanismo), parte da simples premissa de que o uso residencial, de uma forma geral e, particularmente, a habitação social, é um dos componentes mais importantes na produção espacial das cidades. Assim sendo, a habitação social deveria ser vista como âncora de qualquer projeto urbano, seja ele destinado à área de conservação, renovação ou expansão urbana, inclusive assumindo papéis distintos e apresentando características diversas referentes a densidade, programa, tipologia e público alvo.

Vale salientar que esse conceito não é exatamente uma novidade no Brasil, visto que ele fundamentou vários programas habitacionais alternativos – especialmente os programas de upgrading de favelas, como o Favela Bairro – e quase toda a produção acadêmica abordando essa temática, entre o fim do BNH e o início do MCMV. Entretanto, essa produção prática e teórica se deu de forma pontual e desarticulada, sem porte para o enfrentamento do déficit habitacional no país. Além disso, a sistematização do conhecimento gerado por essa produção deixou a desejar – pelo menos no que diz respeito às questões projetuais – e não foram consideradas na formulação do programa MCMV.

Com a definição desse conceito, no qual o programa habitacional assume o protagonismo da cidade em seus projetos – retirando o foco da habitação propriamente dita – apresentamos sete diretrizes pedagógicas para a fundamentação metodológica do mestrado. Como dito anteriormente, as diretrizes foram concebidas a partir de algumas particularidades da didática proposta por esses workshops, extraídas ao longo dos três eventos realizados pela parceria H&U/MDU. Essas características foram consideradas relevantes para o desenvolvimento da proposta pedagógica dos workshops e foram identificadas através da observação comparativa, que teve como espelho as atividades desenvolvidas nos tradicionais Ateliês de Projeto.

1. Design Studio: o exercício do projeto como eixo condutor

O mestrado profissional terá como eixo condutor o projeto de arquitetura e urbanismo, estruturando e integrando todas as demais disciplinas do curso. Assim como nos workshops, o exercício projetual será a atividade síntese do mestrado, onde todo o conhecimento teórico-conceitual adquirido ao longo do curso será aplicado, refletido e testado na prática. As outras disciplinas atuarão de forma complementar, definindo os seus conteúdos, níveis de aprofundamento e timing de apresentação e discussão de acordo com as demandas surgidas no próprio exercício projetual. Dessa forma, o mestrado terá uma estrutura curricular flexível, constituído de disciplinas teóricas com conteúdos pré-definidos, mas que serão transmitidos através de aulas preparadas especialmente para responder demandas específicas referentes aos estudos de caso em andamento.

Recife metropolitano: a leitura da área de estudo em diferentes escalas da cidade
Imagem divulgação

É importante que a integração do exercício prático com o suporte teórico ocorra também de forma física, com todas as atividades sendo realizadas no mesmo espaço de trabalho. O lócus para o desenvolvimento das atividades será o Design Studio, espaço que se assemelha ao Ateliê de Projetos, mas que está sendo repensado diante dessa pedagogia projetual proposta pelos workshops. A ideia é reproduzir este ambiente de trabalho que, apesar de parecer caótico, possui uma cultura de métodos e sistemas conduzida pelo professor/tutor e que se caracteriza pelo estímulo à criatividade, colaboração interdisciplinar, análise crítica, comunicação rápida e o estudo de temas reais com ampla relevância social (8).

2. Projeto/Pesquisa: o foco no processo projetual

Seguindo a mesma proposta pedagógica dos workshops, o mestrado profissional também não abordará o ensino de projetos acabados e rígidos, mas sim o desenvolvimento de um raciocínio espacial aberto e flexível, visando estabelecer argumentos consistentes relacionados a como projetar habitação social num determinado contexto urbano. Em vez de ter como foco investigativo o produto final, o curso se apresentará como uma plataforma de pesquisas em andamento, em que estratégias espaciais serão propostas, testadas e aprovadas ou descartadas, sempre tendo como objetivo principal a análise e o entendimento do processo projetual.

Favelas e rios: o potencial da rede hídrica como infraestrutura urbana
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Essa pedagogia projetual tem como fundamentação teórica um conceito que vem sendo chamado de “Research by Design” e que ainda se encontra em fase de desenvolvimento nos principais programas internacionais de pós-graduação em arquitetura e urbanismo. Trata-se da ideia de explorar o papel da ação projetiva – na falta de um termo melhor para expressar o sentido exato de designing – como forma de pesquisa, em que o desenho é visto mais como uma maneira de pensar do que um instrumento de representação gráfica. Nesse sentido, o aluno precisa desenhar o problema, o argumento, e as hipóteses do seu projeto/pesquisa, assim como os principais resultados encontrados. Ao assumir o próprio projeto como instrumento de pesquisa, valorizando mais o seu processo do que o resultado, o curso pretende estimular uma prática reflexiva que possa conduzir o aluno ao autodesenvolvimento profissional (9).

3. Desenho Urbano: a interface entre as escalas arquitetônica e urbana

Diferentemente dos tradicionais Ateliê de Projetos, onde o foco do exercício projetual é em geral na escala arquitetônica – a escala urbana normalmente é tratada separadamente nas disciplinas de caráter mais teórico – o Design Studio constituído por esse modelo de workshop trabalha de forma paralela as duas escalas de intervenções.  É dada aos alunos uma determinada condição urbana e um tema projetual específico – no caso referente a esse estudo é a habitação social – e pede-se que ele desenvolva uma espécie de urbanismo arquitetônico (desenho urbano), em que questões tipológicas das edificações propostas se relacionam com a morfologia urbana (resultante e pré-existente), explorando diferentes cenários programáticos. Isso significa abordar o tema nas diversas escalas da cidade simultaneamente e testar tanto conceitos urbanos estudados, como estratégias espaciais propostas em todas essas escalas.

Frentes d’água: a diversidade desses territórios estratégicos
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Considerando a pertinência dessa abordagem à temática específica do curso, o mestrado pretende adotá-la em todas as instâncias. A flexibilização da escala não estará presente apenas nas atividades práticas realizadas no exercício projetual, mas também no conteúdo e na didática das disciplinas teóricas, assim como no desenvolvimento do trabalho de conclusão do curso. O caráter experimental e investigativo do mestrado – como já dito, mais interessado no processo do que no produto final – permitirá que o foco da pesquisa individual parta tanto da arquitetura quanto do urbanismo. Porém, em ambos os casos, o trabalho terá que abordar as duas escalas de forma simultânea, demonstrando o claro entendimento das relações intrínsecas entre habitação social e cidade.

4. Leitura Multidisciplinar: o protagonismo da cidade no projeto habitacional

Inspirado no modelo pedagógico dos workshops, o mestrado também assumirá a cidade como protagonista no processo de pesquisa e terá sempre como premissa a relevância da escala urbana nos estudos e formulações de projetos habitacionais. Para tal, é preciso que o curso seja estruturado numa fundamentação teórica diversificada e multidisciplinar, refletindo a complexidade cada vez maior da cidade contemporânea.

Neste aspecto, nota-se também uma diferença importante entre o Ateliê de Projetos e o Design Studio: enquanto no primeiro modelo os participantes são exclusivamente estudantes de arquitetura – naturalmente por ser uma disciplina ministrada, na maioria das vezes, nos cursos de graduação – o último é composto por alunos com várias formações profissionais. A diversidade de leituras encontrada nos workshops permite uma sobreposição de conhecimentos específicos interessante e bastante favorável para o processo de aprendizagem do projeto habitacional.

Croquis: o desenho como instrumento de leitura espacial
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Esta abordagem multidisciplinar implica em algumas questões didáticas e práticas, como por exemplo a necessidade do mestrado oferecer dois cursos que, apesar de terem a mesma estrutura curricular, desenvolverão processos de pesquisa distintos. Assim como no Housing and Urbanism da Architectural Association, onde os estudantes podem seguir o MA ou o MArch Courses, o Mestrado Profissional oferecerá o MP Dissertação, para alunos com qualquer formação profissional, e o MP Projeto, somente para os graduados em arquitetura e urbanismo. Os dois cursos serão constituídos pelas mesmas atividades acadêmicas (aulas, palestras, seminários e workshops) durante dois semestres. Ao final desses dois semestres, os alunos vinculados ao MP Dissertação concluirão o mestrado através da realização de um trabalho teórico/crítico, em forma de dissertação; enquanto que os vinculados ao MP Projeto terão mais um semestre de curso dedicado ao desenvolvimento do trabalho final, que será apresentado em formato de projeto/pesquisa. Entretanto, é importante enfatizar que, em ambos os casos, o eixo condutor da pesquisa será sempre o projeto.

5. Estudo de Caso: tema real com relevância social

Como já exposto aqui, o modelo de Design Studio adotado nesses workshops internacionais, de certa forma, lembra os Ateliês de Projetos dos cursos de graduação. Porém, uma das características que mais o diferencia desses ateliês é a sua contextualização. O Design Studio sempre trabalha com situações reais, envolvendo as partes interessadas nos casos e com temas de clara relevância social, que possam impactar positivamente a dinâmica urbana do local. O fato do exercício projetual colocar o aluno diante dos conflitos de uma situação urbana real, parece exercer uma função importante na pedagogia proposta. Ao ser exposto as pressões de um problema existente na cidade, o aluno ganha motivação extra, entendimento holístico do tema pesquisado e uma intensa percepção do poder do desenho urbano em melhorar – ou até mesmo piorar – as condições sociais e econômicas do espaço urbano.

 

Centralidades: propostas de centralidades na escala local e da cidade
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Assim sendo, o mestrado apresentará estudos de casos diferentes a cada edição do curso, que serão definidos em função da sua relevância social, pertinência com o tema habitacional e do seu grau de exposição pública no momento da escolha. A ideia é trabalhar em áreas que estejam sendo discutidas pela opinião pública em geral e pela comunidade local em particular, e ainda que haja também interesse explícito do poder público em estudá-la. Esta condição é fundamental para envolver as diversas partes interessadas no caso específico, cumprindo assim o compromisso do mestrado em trabalhar situações urbanas reais. Vale salientar ainda que, com a área de estudo em evidência e o já citado apoio governamental, torna-se mais fácil o acesso a estudos recentes e informações oficiais, favorecendo assim a estruturação de um banco de dados confiável que dará mais consistência às propostas desenvolvidas no curso.

Essa abordagem contextual na escolha do tema aumenta significativamente a possibilidade de um desdobramento do exercício acadêmico, já que a participação da comunidade local e do poder público no processo favorece a utilização das propostas para subsidiar projetos reais conduzidos pela prefeitura. Dessa forma, cresce também o potencial do mestrado profissional em produzir resultados concretos e, assim como os workshops, interferir positivamente na dinâmica urbana das áreas de estudo.

6. Caráter Multicultural: a importância da colaboração internacional

De todas as diretrizes aqui expostas, essa parece ser a mais difícil de ser adaptada à nossa realidade e, consequentemente, a mais complexa de ser implantada num curso de pós-graduação no país. Como manifestado nos workshops e nas demais atividades didáticas do Housing and Urbanism Programme, o caráter internacional do exercício projetual representa uma parte importante do processo pedagógico. A integração entre professores e alunos formados por diferentes escolas e culturas, trabalhando juntos no mesmo estudo de caso, permite um contraste interessante de abordagens pedagógicas que tem provado ser muito útil para o ensino e aprendizado do projeto.

Tanto os workshops quanto as turmas do H&U contam com alunos de, em média, dez a doze nacionalidades diferentes. Essa diversidade cultural encontrada entre os estudantes também se apresenta no corpo docente e é considerada uma característica particular da pós-graduação inglesa que, assim como a norte-americana, atrai profissionais de várias partes do mundo. No caso específico da Architectural Association, essa característica é ainda mais marcante, considerando que esta instituição apresenta desde sua origem uma proposta de ensino independente e internacional e que, ao longo dos anos, se estabeleceu como uma das escolas de arquitetura mais renomadas do mundo.

Para superar essa dificuldade, é necessário que o mestrado já seja concebido em um ambiente de colaboração acadêmica internacional, estabelecendo desde o início parcerias com instituições de ensino de outros países. A ideia é que os workshops sejam utilizados como porta de entrada dessas parcerias, visto que um número cada vez maior de escolas de arquitetura tem adotado esse modelo de ensino como parte importante da sua pedagogia projetual. Além desses workshops, que estabelecerão o vínculo internacional de caráter mais prático, o curso promoverá ainda, a cada edição, um seminário internacional, visando um intercâmbio de natureza mais teórica.

Palafitas: estudos tipológicos para o uso habitacional
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Com a consolidação das parcerias por meio da inclusão desses workshops e seminários na estrutura curricular do mestrado, o curso pretende intensificar a cooperação acadêmica através de colaborações internacionais de mais longo prazo, como a criação conjunta de grupos de pesquisa, equipes permanentes de articulação curricular, intercâmbio de alunos e professores, e até mesmo a validação e chancela coletiva de títulos. Todas essas atividades têm como objetivos facilitar o monitoramento e intercâmbio de dados, sistematizar as metodologias de ensino e promover a troca de experiências práticas e teóricas no campo do desenho urbano e da habitação social, contribuindo assim para divulgar a produção do curso no exterior e reforçar as suas conexões internacionais.

7. Visibilidade da Produção: apresentações, exposições e publicações

A última diretriz pedagógica enfatiza a visibilidade da produção acadêmica. Longe de ser um exercício narcisista ou publicitário, a importância da exposição formal dessa produção é fundamentada no impacto que a exibição pública dos trabalhos exerce sobre o aluno, durante a realização dos workshops. Essa exposição ocorre de três maneiras e momentos distintos: nas apresentações públicas realizadas no final de cada evento, onde os alunos apresentam e discutem as suas propostas com a população; nas mostras dos projetos promovidas pelas escolas após os eventos e abertas ao público em geral; e nas publicações dos resultados através de catálogos de projetos, em que todas as propostas gráficas e seus respectivos argumentos justificativos são apresentados em detalhe.

O objetivo dessa interação direta com a sociedade é expor os estudantes às pressões e complexidades existentes na elaboração de um projeto urbano real, quando as propostas precisam ser apresentadas e defendidas diante de uma audiência diversificada e com interesses bem distintos, muitas vezes até mesmo conflitantes. Essa condição de enfrentamento público, mesmo que parcialmente simulada, faz com que eles se concentrem na construção de um argumento multidisciplinar desde o início do processo projetual. Dessa forma, o aluno faz uso do projeto para investigar conceitos procedentes das diferentes áreas do conhecimento referentes à questão urbana, estruturando com mais consistência a sua proposta de intervenção.

Na medida em que esse argumento vai sendo materializado através da formulação de estratégias espaciais, que são testadas e redesenhadas em pequenas apresentações internas na equipe, e avaliadas em apresentações mais amplas envolvendo todos os participantes do workshop, o aluno tem a oportunidade de desenvolver um raciocínio espacial argumentativo claro de como intervir nessa condição urbana específica. Esse processo também o ajuda a superar a falsa dicotomia da solução certa ou errada e, através da projeção de uma visão urbana desejada e própria para a área de estudo, passa a conceber e defender as suas propostas com mais segurança.

Produtividade do território: espacialização dos novos arranjos produtivos propostos
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Assim, da mesma forma que os resultados dos três workshops foram discutidos com a sociedade através de apresentações, exposições e publicações, o curso pretende promover várias atividades dirigidas à população. Além das atividades internacionais já mencionadas (workshop e seminário), o mestrado espera estabelecer outros fóruns públicos, como defesas individuais dos projetos/pesquisa, palestras especiais, exposições de encerramento do curso e publicação acadêmica dos trabalhos. Com isso, espera-se estimular o envolvimento da população em geral, testar as propostas desenvolvidas no curso e, sempre que possível, interferir de forma positiva na dinâmica urbana local.

Considerações finais

É importante ressaltar que as sete diretrizes pedagógicas apresentadas nesse artigo não devem ser entendidas de forma estanque e isolada, já que as suas linhas de contorno não são inteiramente claras, nem tão pouco devem ser rígidas. Assim, algumas sobreposições e entrelaçamentos entre elas são inevitáveis, e até mesmo desejáveis. Na verdade, é exatamente a articulação entre essas diretrizes e suas relações com o conceito geral do curso que caracterizam a proposta pedagógica do mestrado profissional.

Também é importante mencionar que nenhuma das diretrizes sugeridas nesse estudo é realmente nova. Elas já foram temas de investigações teóricas e podem ser encontrados separadamente na maioria dos cursos de graduação em arquitetura e urbanismo do país. No entanto, o aspecto inusitado nessa proposta pedagógica é a presença simultânea de todas essas diretrizes no exercício projetual. Reforçamos, portanto, que é a combinação das diretrizes e as sinergias geradas por elas que dão a proposta o potencial de criar um novo enfoque ao ensino do projeto.

Por último, as diretrizes brevemente discutidas nesse artigo e sugeridas para subsidiar a construção do mestrado profissional foram extraídas do modelo pedagógico desenvolvido pelos workshops internacionais. Um eixo de investigação que compreende o ensino específico da arquitetura e do urbanismo, mais precisamente do desenho urbano e da habitação social, e que determina o caráter empírico deste estudo. Contudo, essas diretrizes precisam ser individualmente investigadas dentro do próprio campo da pedagogia, visando assim legitimá-las como base metodológica do mestrado.

notas

NE – O presente artigo é uma versão resumida do trabalho intitulado “Habitação + Cidade: diretrizes pedagógicas para um mestrado profissional em desenho urbano com foco em habitação social”, publicado na Revista Projetar V1-N2, agosto 2016.

NA – Esse artigo é resultado da pesquisa intitulada “A Inserção do Projeto Urbano na Pós-Graduação: diretrizes pedagógicas para elaboração de um Mestrado Profissional de Desenho Urbano com foco em Habitação Social”, realizada na Architectural Association, de janeiro à dezembro de 2015. O autor agradece a Capes (Bolsa Estágio Sênior no Exterior, processo n° 99999.001828/2014-02) e a UFPE por viabilizarem financeiramente seu estudo de pós-doutoramento na AA School.

1
SCHON, Donald. Educating the Reflexive Practioner: toward a new design for teaching and learning in the professions. San Francisco: Jossey-Bass Publishers, 1987.

2
LARA, Fernando; MARQUES, Sonia. Introdução: o projeto do projeto. In: LARA, Fernando; MARQUES, Sônia (org.). Projetar: desafios e conquistas da pesquisa e do ensino de projeto. Rio de Janeiro, EVC, 2003, p. 7-10.

3
MAHFUZ, Edson. O ateliê de projeto como mini-escola. Arquitextos, São Paulo, ano 10, n. 115.00, Vitruvius, dez. 2009 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/10.115/1>.

4
H&U; MDU. Housing as Urbanism – My House My Life: Social Housing and Urban Intervention, Recife, III Urban Design International Workshop AA / UFPE, 2014.

5
BRANDÃO, José (Zeca); BRASILEIRO, Carolina. Urban Design Workshops: an Experience of International Academic Collaboration in Urban Higher Education. (Artigo submetido ao periódico Journal of Urban Design, Londres, 2016).

6
Os resultados dos workshops foram publicados em três volumes – um para cada workshop. Nos livros, todas as propostas, com seus respectivos desenhos, diagramas e justificativas são apresentadas e discutidas. A publicação referente ao primeiro workshop pode ser acessada através dos sites do MDU/UFPE e H&U/AA.

7
MARICATO, Ermínia. O ‘Minha Casa’ é um avanço, mas segregação urbana fica intocada. In: Carta Maior, 27/05/2009 <www.cartamaior.com.br>. Acesso em: 2 dez. 2013; NASCIMENTO, Denise Morado; TOSTES, Simone Parrela. Programa Minha Casa Minha Vida: a (mesma) política habitacional no Brasil. Arquitextos, São Paulo, ano 12, n. 133.03, Vitruvius, jun. 2011 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/12.133/3936>.

8
WANG, Tsungjuang. A New Paradigm for Design Studio Education. NSEAD/Blackwell Publishing Ltd., 2010, p. 173-183.

9
SCHON, Donald. Op. cit.

sobre o autor

José (Zeca) Brandão é doutor em Housing and Urbanism pela Architectural Association – AA School (2004), Professor Associado da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE e do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Urbano – MDU, coordenador do Laboratório de Arquitetura e Desenho Urbano – LADU e Bolsista da Capes – proc. n°1828-14-2.

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196.00 história

O porto do Rio de Janeiro no contexto das reformas urbanas de fin du siècle (1850-1906)

Paulo Cesar dos Reis

196.01 história

Utopia e produção arquitetônica

Archigram, uma nova forma de teoria

Victor Borges and Tarcísio da Silva Cyrino

196.02 restauro

Casa Bonomi

Atemporalidade arquitetônica

Fábio Chamon Melo

196.03 cinema

De outros cinemas

Ellen de Medeiros Nunes

196.05 tipologia

Niemeyer e o modelo do semi-duplex

Uma inovadora proposta habitacional na década dos cinquentas

Alejandro Pérez-Duarte Fernández and Talita Silvia Souza

196.06 reciclagem

Preexistência industrial-ferroviária à margem de Ouro Preto

Da fábrica de tecidos ao museu de Paulo Mendes da Rocha

Bruno Tropia Caldas

196.07 urbanismo

Desenho ambiental e forma urbana

O caso do bairro de Riverside

Evy Hannes

196.08 critic

Architectural Zeitgeist in Latin America

And its architecture of gravity

Andrés Felipe Calderón

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